Parte 26 Móretar - Poder Humilde · Capítulo 26 de 49
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Parte 26

Os primeiros ataques revelaram duas formas de combater.

Os integrantes do Coven Wangarium trabalhavam em duplas. Um deles atacava enquanto o outro identificava a energia lançada pelo adversário e criava a defesa adequada. Os arqueiros de Robin mudavam de posição entre os galhos, disparando flechas que conduziam os feitiços de suas varinhas. A de Robin espalhava eletricidade em várias pontas. Era mais lenta e podia atingir uma fileira inteira.

A Ordem dos Bruxos avançava em formação fechada, protegida por gigantes. Acertar braços e pernas pouco fazia contra eles. Um dos gigantes derrubou um arqueiro e incendiou parte das árvores que escondiam Canaã.

Paracelso pediu que Morgana o defendesse.

Ela ergueu barreiras, desviou raios e esperou que ele atacasse. O mago continuava imóvel. Apenas seus olhos percorriam o campo.

— Você pretende fazer alguma coisa? — perguntou Morgana.

Paracelso encontrou quem procurava.

Sua varinha lançou uma haste de metal. O projétil cruzou a distância antes que Morgana acompanhasse o movimento e atingiu o ombro de um bruxo coberto por um capuz roxo.

— Errei — disse Paracelso.

O homem ergueu-se no ar. Usara o ombro para proteger a cabeça. Com a ponta da varinha, puxou o metal da carne e o deixou cair.

— Chegou perto, Paracelso. Poderia ter me matado.

Ele retirou o capuz.

O nome de Merlin atravessou os dois exércitos.

— Corram! — ordenou Paracelso.

Merlin abriu os braços. A eletricidade ocupou o ar e derrubou arqueiros, bruxos e parte dos homens que lutavam ao lado dele. Depois desceu diante de Morgana.

— Você me deu trabalho. Entregue a Excalibur.

— Está algumas vidas atrasado. Não a tenho há séculos.

Paracelso lançou outro bloco de metal. Merlin desviou, e Robin aproveitou a abertura para colocar Morgana nas costas. Os dois fugiram entre as árvores enquanto os combatentes do Coven tentavam conter a perseguição.

— Matem todos! — gritou Merlin.

Ele subiu acima da floresta e localizou Robin. Os primeiros disparos destruíram galhos e plataformas. O último o atingiu durante um salto.

Robin e Morgana caíram.

Quando ela tentou se levantar, Merlin já estava perto. Robin permanecia desacordado a seu lado.

— Você realmente não sabe? — perguntou o mago.

— Sei que você fracassa sempre que tenta tomar essa espada. Tem sido uma das poucas constantes confiáveis da minha existência.

Merlin caminhou ao redor dela.

— Chame a Excalibur.

— Ela não está comigo.

— A espada continua ligada a seus donos. Enquanto estava com Arthur, algo me impedia de enfrentá-lo. Agora sinto que escolheu outra pessoa. Finalmente pode ser minha.

— E se eu não a chamar?

Merlin apontou a varinha para Robin.

— Vou matar você e esperar outra oportunidade. Antes, posso usar seu corpo enquanto mato, um por um, aqueles que tentaram protegê-la. Começarei por ele.

— Espere.

Merlin sorriu.

— Mudou de ideia?

Morgana precisava saber se a fraqueza dele continuava ligada apenas a Arthur.

— Quem vier com a espada pode ser mais poderoso do que você.

— Diante de Arthur, eu travava. Contra qualquer outro portador, vencerei.

Morgana se apoiou na varinha e ficou de pé.

— Excalibur, eu preciso de você.

Nada aconteceu.

Merlin esperou alguns segundos, satisfeito demais com o silêncio.

Então o céu escureceu.

Raios atingiram a mata e fizeram os dois exércitos interromperem o combate. Uma massa de luz caiu diante de Morgana. A Excalibur atravessou o solo, levantando fumaça e terra.

Uma mão continuava presa ao punho.

Móretar retirou a espada do chão.

O chamado o arrancara de Fóster antes que pudesse responder à pergunta de Arthur sobre o destino de André. A lâmina se movera com Memento e abrira uma passagem que nenhum dos dois compreendia. Ele atravessara mundos carregando a certeza de que acabara de matar dezenas de pessoas.

Diante dele havia uma mulher ferida, um homem desacordado e o agressor que ainda mantinha a varinha apontada para os dois.

Memento trouxe os nomes.

— Morgana, meu nome é Móretar. Depois que eu tirar a varinha e os braços de Merlin do caminho, conversamos.

Merlin disparou.

Móretar desviou a energia com a Excalibur e atacou. O mago converteu a varinha em uma lâmina, recuando a cada golpe. Os dois deixaram o chão. Merlin alternava eletricidade, fogo e rajadas de ar comprimido. Móretar absorvia parte dos ataques com a espada e empurrava o restante para o céu.

Virou a lâmina antes de atingir o rosto do adversário. O impacto o lançou contra uma árvore sem cortá-lo.

Merlin respondeu com toda a energia que ainda possuía. A Excalibur recebeu os feitiços, e Memento os separou em calor, movimento e luz. A facilidade assustou Móretar. Horas antes, aceitara outra solução oferecida daquela forma.

Quando o poder de Merlin começou a falhar, um portal se abriu. Arthur atravessou primeiro, seguido por Trovar, Hertho, Agah e outros combatentes de Fóster. O rosto de Arthur ainda carregava a pergunta que Móretar não respondera.

Merlin viu a Excalibur, Arthur e os exércitos que já abandonavam a luta. Abriu os braços e fechou os olhos.

— Se a espada não me considera digno, aceito o castigo que me cabe.

— Você entendeu que perdeu? — perguntou Móretar.

— Sim.

Móretar olhou para Morgana. Ela apoiava a mão no ombro de Robin, agora consciente. A ameaça de Merlin continuava entre eles. Arthur mantinha a espada antiga voltada para o chão, esperando o que seu novo portador faria.

Móretar poderia matar Merlin. O homem renasceria longe dali, deixando para os outros os soldados, as estruturas de poder e as vítimas. Também poderia mantê-lo vivo e obrigá-lo a olhar o que construíra.

— O que faria com uma segunda chance? — perguntou.

Merlin abriu os olhos. Uma claridade percorreu a Excalibur e chegou até ele.

— Tentaria enganá-los até recuperar a espada. Não sei se minha sede de poder me permitiria escolher outra coisa.

Ele levou a mão à boca, espantado com a própria resposta.

Móretar sentiu Memento agindo e afastou a lâmina. Obrigar alguém a dizer a verdade continuava sendo uma forma de domínio.

— A Excalibur nunca será sua enquanto você a desejar para submeter os outros. Ela o abandonaria mesmo depois de uma vitória. Há uma consciência ligada a esta espada, e ela também escolhe.

Merlin encarou a arma.

— Então vai me matar?

— Você perderá o comando da Ordem, entregará suas armas e responderá diante dos povoados que atacou. A segunda chance começa quando você já não pode usá-la para repetir a primeira.

Morgana se aproximou.

— E se ele fugir?

— Nós o procuramos.

— E se tentar tomar a espada outra vez?

Móretar ofereceu o punho da Excalibur a Arthur. A arma permaneceu entre os dois.

— Terá de enfrentar todos que aprenderam a reconhecê-lo.

Paracelso e os integrantes do Coven começaram a recolher as varinhas dos derrotados. Algumas eram de madeira, outras de metal ou pedra. Cada material parecia conduzir uma forma diferente de energia.

Móretar se abaixou e pegou uma delas.

— Quero entender como isto funciona.

Depois olhou para Arthur, Trovar e Morgana.

— E quero saber quantas histórias começaram antes de eu chegar aqui.

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