Parte 37
— Isso é mesmo necessário? — perguntou Móretar.
Hermes examinou a gola que ele tentava ajustar diante do espelho.
— O senhor foi aclamado rei. Talvez esta seja a única festa em que participe antes de abandonar o título. Pode ao menos entrar com a roupa alinhada.
— Diga o que está errado. Eu resolvo.
— A dobra está torta.
Móretar refez o tecido. A composição azul-escura e vinho lembrava tanto os oficiais de Inc quanto as vestes cerimoniais das Fadas. Os detalhes dourados acompanhavam a bainha e deixavam Excalibur visível em suas costas.
Hermes corrigiu apenas um dos fechos.
— Agora está digno de uma abdicação.
Krakor saiu de outra sala usando roupas vermelhas, largas nos ombros e estreitas nas pernas.
— Eu também quero fazer uma pergunta. Isso é mesmo necessário?
Hermes abriu os braços.
— Está magnífico.
— Estou vestido como o palhaço de uma corte que nem existe.
Atrás de Hermes, Móretar moveu os lábios em silêncio: está horrível.
Krakor viu pelo espelho.
— Finalmente alguém honesto.
Alterou o corte com um movimento das mãos. O tecido se ajustou ao corpo e perdeu parte dos adornos. A iniciativa bastou para que os outros fizessem o mesmo. Teleret, Hertho, Trovar, Drácula, Arthur, Carl e Athos trocaram cores, retiraram peças ou acrescentaram elementos próprios. Athos abriu espaço para as asas e alegou necessidade física quando Hermes protestou.
— Eu desisto dos homens — anunciou o anfitrião. — Ainda tenho esperança nas mulheres.
As portas se abriram.
Adwig entrou primeiro. O traje recuperava formas que ela usara em Percento, adaptadas às cores do palácio. Médera vinha ao lado de Dafa. Bel, Nerfate, Agah, Coneli, Sussurro, Morgana e Athena completavam o grupo. Nenhuma repetira o modelo de outra.
Móretar encontrou os olhos de Adwig. Os dois desviaram tarde demais.
Krakor percebeu e sorriu.
Hermes bateu as mãos.
— Preciso saber quem participará da dança de abertura.
— Você não precisava formar os pares? — perguntou Carl.
Adwig olhou para Hermes.
— Cada pessoa escolhe se quer participar e com quem.
— Eu já havia compreendido — respondeu ele, rápido demais.
Médera tomou o braço de Krakor.
— Aceita dançar comigo?
Ele demorou um pouco para responder.
— Com prazer.
Agah convidou Hermes, que tentou esconder a satisfação. Morgana se aproximou de Drácula. Nerfate chamou Carl. Outros preferiram pequenos grupos ou decidiram que entrariam depois da abertura.
Sussurro conversou brevemente com Athos e seguiu até Trovar. Athena ocupou o lugar ao lado dele. Nenhum dos quatro explicou a escolha aos curiosos.
Dafa parou perto de Adwig.
— Nossa dança continua prometida.
— Depois da abertura — respondeu a elfa.
Dafa olhou para Móretar, compreendeu o que ainda não fora dito e se afastou para ajudar Arthur e Bel com uma alteração nas roupas.
Móretar caminhou até Adwig.
— Aceita abrir a dança comigo?
— Aceito.
Ele estendeu a mão. Adwig a segurou.
— Achei que teríamos de desenhar para vocês — comentou Krakor.
Athena ergueu os olhos para o teto.
— Faltam fogos prateados para completar a cena.
Pequenos pontos luminosos surgiram atrás de Móretar e Adwig. Athos fingiu não ter produzido o efeito. Hermes o apagou.
— Guardem o espetáculo para a pista. Os convidados já estão esperando.
Os portões foram abertos. Moradores de Fóster começaram a entrar. Bandejas percorriam o salão movidas por correntes discretas de energia. Não havia empregados servindo as mesas. Quem precisava de ajuda podia pedir ao próprio Palácio.
O movimento aumentou, mas o espaço continuou confortável. A parede oposta parecia permanecer à mesma distância enquanto novas mesas surgiam nas laterais.
Krakor chamou Hermes.
— Quantas pessoas cabem aqui?
— A quantidade autorizada pela estrutura e sustentada pela fonte do planeta.
— Infinita?
— Não. Abundante. Há uma concentração de energia no núcleo de Fóster. Ela se renova por um ciclo muito longo, mas perde estabilidade quando alguém tenta extrair mais do que consegue devolver.
— Você é o catalisador.
— Para as casas. Recolho a imagem de lar oferecida pelo futuro morador e transformo suas associações em instruções. O planeta fornece a força necessária.
Móretar observou os convidados se espalharem.
— Então o palácio cresce porque Adwig deseja receber todos?
— Esta área foi preparada para a festa. O salão amplia as zonas públicas dentro dos limites que definimos antes da abertura.
Adwig ainda segurava a mão de Móretar.
— E se eu desejar que alguém permaneça aqui?
Hermes levou algum tempo para responder.
— A casa pode oferecer conforto e proteção. Uma instrução mal definida também pode confundir proteção com retenção. Já aconteceu.
— O palácio seria capaz de impedir alguém de sair?
— Se essa função fosse autorizada.
Adwig soltou a mão de Móretar e se voltou para as portas.
— Registre que nenhuma saída pode ser fechada por vontade da casa. O palácio também não deve alterar o desejo de quem entrar.
Hermes assentiu.
— Essa instrução terá prioridade sobre qualquer pedido posterior.
Krakor examinava o teto, calculando possibilidades.
— E tudo isso funciona somente com residências?
— Seu pensamento chegou longe demais e rápido demais — respondeu Hermes. — Outros catalisadores tentaram usar a fonte para criações maiores. Alguns destruíram o que pretendiam proteger. Elaryan me colocou como guardião depois desses fracassos.
— Isso faz de você dono da energia?
— Faz de mim responsável por impedir que seja concentrada por ambição. As casas pertencem aos moradores. Minha função deve poder ser contestada por eles.
Móretar lembrou das ruas esvaziadas quando Hermes usara as construções contra o povo.
— E já foi.
Hermes recebeu a frase sem tentar se defender.
— Por isso as autorizações gerais agora dependem do conselho.
A música mudou. Os participantes da abertura foram chamados para a área central.
Adwig tornou a segurar a mão de Móretar.
— Vamos descobrir se o seu título de rei inclui saber dançar.
— Espero que o seu de princesa inclua ensinar.
— Estamos perdidos.
Seguiram juntos.