Parte 43
— Também senti sua falta — respondeu Dafa.
Loki apontou para uma abertura na base da muralha.
— Precisam ver antes de decidir qualquer coisa.
O caminho descia até a antiga entrada do submundo. Móretar lembrava-se de corredores estreitos, rios subterrâneos e construções erguidas sob o castelo. Encontrou um horizonte.
A caverna havia perdido quase todo o teto. Acima deles, um rio atravessava o ar e contornava blocos de rocha suspensos. A água seguia por curvas impossíveis, presa a uma gravidade que mudava de direção a poucos metros do chão.
Adiante, uma cidade ocupava a superfície vertical de uma massa rochosa. Torres apontavam para o grupo. Pessoas caminhavam pelas ruas distantes sem cair no vazio que se abria abaixo delas.
Bel parou junto à borda.
— Isso é Ux?
— O que restou — disse Freya.
Uma pedra se soltou perto dos pés de Arthur. Subiu devagar, atravessou o rio e desapareceu na direção da cidade.
Hertho acompanhou o trajeto.
— Há pelo menos três campos de atração disputando este espaço.
— Eram dois mundos ligados por uma passagem pequena — explicou Loki. — Ux começou a ser puxado quando a passagem se rompeu. Odin conteve a parte habitada. O restante do planeta se perdeu.
— Ele salvou a cidade? — perguntou Carl.
— Salvou uma parte — respondeu Freya. — Depois descobriu quanto poder precisaria para mantê-la presa aqui.
Pontos luminosos deixavam a cidade e corriam para uma construção situada no centro da massa de pedra. De longe, pareciam poeira carregada pelo vento.
Móretar reconheceu o brilho.
— Energia de fadas.
Freya assentiu.
— O mundo delas foi destruído durante uma guerra civil. Muitos renasceram em Ux. Odin ligou a força desse povo à sustentação da cidade.
— Eles aceitaram? — perguntou Dafa.
— Titania aceitou — disse Loki. — Oberon se opôs. O rei está preso desde então.
— E as outras fadas?
— As ordens dos dois sempre orientaram o povo — respondeu Freya. — Odin encontrou uma forma de usar essa ligação. Quem tenta abandonar Ux enfraquece os que permanecem. Quem ataca Odin sente a própria força correr para ele.
Móretar observou a cidade. Uma parte do brilho vinha de casas construídas entre árvores. A energia deixava cada corpo, passava pelos galhos e seguia até a morada de Odin.
— Um ataque direto alimentaria o homem que queremos derrubar.
— Foi o que descobrimos — falou Loki.
Dafa abriu o contato mental com Móretar.
— Você está pensando em entrar sozinho.
— Estou pensando em entrar sem levar um exército até ele.
— Parece a mesma ideia com palavras melhores.
Móretar apontou para o bairro das árvores.
— Se eu também sou fada e minha energia não está ligada a esse lugar, posso circular sem fortalecer Odin. Preciso descobrir quem sustenta o vínculo.
Hertho se aproximou.
— Leve isto.
Entregou-lhe uma pequena peça de metal. Linhas azuis percorriam sua superfície.
— Ela registrará as alterações de energia ao seu redor. Se o fluxo mudar, saberemos.
— E saberemos onde encontrá-lo — completou Dafa.
Móretar prendeu a peça à roupa.
— Se eu cortar o contato, vocês vêm.
— Se você demorar demais, também — disse ela.
Freya mostrou um trecho em que as pedras formavam uma passagem até Ux. A gravidade se inclinava aos poucos. Móretar deu alguns passos, abriu as asas e deixou o novo campo atraí-lo.
Voou na direção da cidade.
O rio passou ao lado de seu corpo. Por um breve trecho, a água pareceu cair para cima. Depois, o chão de Ux recebeu seus pés e Inc ocupou o céu atrás dele.
As ruas estavam vazias. Portas se fecharam quando Móretar se aproximou. Pessoas observavam pelas janelas, atentas à espada e às asas.
Ele seguiu o brilho até as árvores.
Casas ocupavam troncos largos, ligadas por pontes de madeira e raízes entrelaçadas. Pequenos focos de luz escapavam dos moradores e desapareciam entre as folhas.
Uma mulher desceu de um dos galhos. Tinha asas estreitas e pele iluminada por pontos que se apagavam logo depois de surgir.
— Quem é você?
— Móretar. Vim de Inc.
— Não existe ninguém como você em Inc.
— Meu povo viveu em Key. Descendemos de elfos levados para lá antes de nascer.
A mulher se aproximou. Tocou uma de suas asas e recuou depressa.
— Você não perde luz.
— Ainda não.
— Todos perdem.
Uma flecha atingiu Excalibur antes que Móretar percebesse o disparo. Ele puxou a espada e encontrou um homem sobre uma ponte.
— Afaste-se de Iduna — ordenou o arqueiro.
— Meili, ele não está ligado ao recolhimento — disse ela. — Eu toquei suas asas.
— Pode ser uma armadilha de Titania.
— Eu nem conheço Titania — respondeu Móretar.
Meili saltou da ponte e pousou diante dele.
— Todos aqui conhecem o nome da rainha.
— Isso confirma que eu não sou daqui.
Iduna conteve um sorriso. Meili manteve a flecha preparada.
— O que quer?
— Entender de onde Odin retira o poder e libertar as fadas que ele mantém presas.
— Titania diria que ninguém está preso — falou Iduna.
— Oberon diria que todos estão — retrucou Meili.
— E vocês?
Os dois ficaram em silêncio.
Móretar guardou Excalibur.
— Preciso conversar com alguém que conheça essa ligação melhor do que Odin gostaria.
Iduna levou Móretar por uma sequência de pontes. Meili seguiu atrás, ainda desconfiado.
Chegaram a uma construção formada dentro de uma árvore viva. Não havia altar. Diagramas cobriam as paredes. Alguns representavam corpos; outros mostravam raízes, linhagens e movimentos de energia entre grupos de fadas.
Syn trabalhava diante de uma mesa cheia de folhas transparentes. Era uma mulher de cabelos curtos, asas largas e dedos manchados por uma tinta luminosa.
— Trouxemos alguém que não alimenta o recolhimento — anunciou Iduna.
Syn ergueu os olhos para Móretar.
— Isso é impossível.
— Costumo causar essa impressão.
Ela tocou o metal preso à roupa dele. A peça de Hertho reagiu e projetou linhas azuis sobre os diagramas.
— Sua energia tem a mesma origem da nossa — disse Syn. — A organização é diferente. Você ficou fora do juramento.
— Que juramento?
Syn mostrou três desenhos sobrepostos.
— Nosso poder nunca pertenceu apenas ao indivíduo. As fadas conseguem unir força, memória e intenção. Reis receberam a responsabilidade de coordenar essa união em períodos de ameaça. Ao longo de muitas vidas, a responsabilidade virou autoridade.
Meili apontou para uma das figuras.
— Oberon recusou entregar o vínculo a Odin.
— E prolongou uma guerra que já havia destruído nosso mundo — disse Iduna.
— Titania entregou o povo a um estrangeiro.
Syn bateu os dedos sobre a mesa.
— Os dois lados conhecem a própria versão. Nenhuma delas altera a estrutura. Titania abriu o vínculo. Oberon continua sendo a outra origem dele. Odin mantém o rei preso e usa a autorização da rainha para alcançar o restante do povo.
Móretar examinou as linhas. Duas começavam em Titania e Oberon. Uma terceira cercava as duas e levava toda a energia para Odin.
— Se eu libertar Oberon, o recolhimento termina?
— A disputa pelo vínculo volta a existir. Odin perderia parte do controle. Ux também perderia sustentação.
— Quantas pessoas morreriam?
— Não sabemos.
— Então não é uma solução.
Meili abaixou a flecha.
— Você falou como alguém de Titania.
— Falei como alguém que não quer trocar um domínio por uma cidade destruída.
Syn aproximou um dos diagramas das asas de Móretar. A tinta mudou de direção.
— Você pode tocar a ligação sem ser reconhecido por ela. Talvez consiga separar o poder usado para sustentar Ux daquele que mantém as fadas submetidas.
— Talvez?
— É o limite do que consigo afirmar.
— Melhor que uma profecia.
Móretar pediu que Syn mostrasse a origem das três linhas. Ela indicou o palácio de Titania, a prisão de Oberon e a residência de Odin.
— Quero ouvir a rainha antes de tocar em qualquer uma delas.
Iduna se ofereceu para conduzi-lo. Meili insistiu em acompanhá-los.
No caminho, passaram por bairros separados por marcas coloridas. Em um deles, moradores usavam o símbolo de Titania e trabalhavam para manter as estruturas de Ux. Em outro, o emblema de Oberon aparecia escondido sob portas e janelas. Entre os dois havia famílias que recusavam os símbolos e dividiam a pouca energia que ainda conservavam.
— Odin chama os primeiros de leais, os segundos de traidores e os últimos de ingratos — disse Iduna.
— E você?
— Eu acreditava em Titania. Hoje acredito que ninguém deve decidir sozinho quanto de nós será entregue.
O palácio ocupava o ponto em que todas as linhas luminosas se encontravam. Móretar sentiu a peça de Hertho aquecer.
As portas se abriram antes que ele as tocasse.
Odin esperava no centro do salão.
— Uma fada sem marca — disse ele. — Elaryan ainda consegue me surpreender.
— Ela não me enviou.
— Todos dizem isso quando chegam carregando uma arma que passou pelas mãos dela.
Móretar puxou Excalibur.
— Liberte Oberon e devolva às fadas o direito de decidir.
— Você entrou em minha casa para repetir uma exigência que não compreende.
Passos vieram da escadaria.
Titania desceu lentamente. O brilho que deixava sua pele seguia direto para Odin.
— Ele não tomou o rei de mim — disse ela. — Fui eu quem pediu que Oberon fosse preso.