Parte 18
Mantelar seguiu pela trilha até o som de um rio encobrir as vozes de Adwig e Médera. Atravessou a vegetação com cuidado para não quebrar os galhos que Móretar afastava sem cerimônia.
— Você não precisa abrir caminho à força — disse.
Móretar soltou o ramo que segurava.
— Você sempre fala assim?
— Assim como?
— Calmo. Comedido. Você nunca se irrita?
— Muita coisa me irrita. Você está se esforçando para entrar na lista.
Móretar riu pela primeira vez desde que deixara Atlas.
Encontraram uma clareira próxima ao rio. Ele retirou as duas lâminas curtas e começou a repetir movimentos de defesa. O corpo respondia melhor depois da simbiose, embora a força nova tornasse alguns golpes largos demais.
Mantelar observou por algum tempo.
— Você luta contra o peso da arma.
— Luto assim desde antes de você saber que eu existia.
— Isso explica por que o erro está tão bem treinado.
Móretar guardou as lâminas.
— Mostre o que sabe fazer, então.
— Sem golpes físicos. Podemos praticar manipulação de energia e matéria.
— Está com medo de apanhar?
— Estou tentando evitar que uma conversa entre nossas companheiras termine com um cadáver na floresta.
A palavra companheiras incomodou Móretar. Pensou em Dafa, em Médera e no olhar de Adwig. Todas pareciam ter alcançado poderes que ele levaria vidas para compreender.
— Quando olha para Adwig, nunca se sente inútil?
Mantelar demorou a responder.
— Muitas vezes. Conheci alguém que já pertencia a um mundo maior que o meu. Ela me ensinou parte do que eu sabia e depois se tornou ainda mais poderosa. Durante muito tempo, confundi acompanhá-la com depender dela.
— E deixou de depender?
— Aprendi a perguntar se estou ali porque posso ajudar ou porque tenho medo de ficar para trás. Nem sempre gosto da resposta.
Móretar pegou uma pedra e a lançou no rio.
— Adwig atravessou várias mortes e voltou mais forte. Médera controla o próprio corpo. Dafa cria vida em planetas vazios. Eu morri e acordei com um animal que quase devorou as pessoas que vieram me buscar.
— Você também entrou na frente de Hantake quando seu povo precisava de alguém.
— E abandonei o governo depois.
— Talvez tenha sido a primeira decisão sensata tomada por um governante naquele dia.
Móretar o encarou.
— Vamos treinar.
Mantelar abriu os braços.
— Tente me atingir.
Móretar multiplicou a própria imagem ao redor da clareira. Doze cópias avançaram ao mesmo tempo. A verdadeira permaneceu atrás de Mantelar e lançou uma rajada de vento.
O meio-gigante desviou. Uma mudança na luz atravessou o lugar. As cópias perderam as sombras e se tornaram fáceis de distinguir. Mantelar bateu o pé no chão. A terra se ergueu sob Móretar e o lançou de costas.
— Projeções de luz — disse Móretar enquanto se levantava. — Que espécie de gigante é você?
— A espécie que não é gigante.
Móretar puxou água do rio. Comprimiu-a até formar uma lança de gelo e a enviou contra as costas de Mantelar.
Ele girou a tempo de golpear o gelo. Os fragmentos permaneceram suspensos. Mantelar moveu uma das mãos, e as pontas retornaram contra Móretar.
Uma corrente de ar desviou os pedaços. Móretar correu e saltou com os pés na direção do peito do adversário.
Mantelar se preparou para agarrá-lo.
Móretar alterou a trajetória antes do contato. Passou entre as pernas dele, descarregou eletricidade na parte posterior dos joelhos e tocou o solo. A terra envolveu os pulsos de Mantelar e puxou seus braços para baixo.
O meio-gigante caiu de joelhos.
Móretar se aproximou.
— Terminamos?
Mantelar ergueu as pernas e girou o corpo apesar dos braços presos. Os pés cercaram o pescoço de Móretar sem tocá-lo. Uma lâmina de energia atingiu a pele.
O golpe deveria produzir apenas um corte superficial. Móretar tentou escapar ao mesmo tempo, e a pressão abriu o ferimento. O ar deixou de chegar aos pulmões.
Ele caiu. O susto manteve o feitiço ativo e enterrou os braços de Mantelar ainda mais. O meio-gigante conseguiu pressionar uma perna contra o pescoço de Móretar, contendo o sangue, mas qualquer movimento ampliaria o corte.
— Desfaça a terra — pediu Mantelar.
Móretar tentou responder. Nenhum som saiu.
Passos apressados se aproximaram. Adwig e Médera entraram na clareira.
— Antes de reclamar, ajudem — pediu Mantelar. — Minha perna está comprimindo o ferimento.
Médera se ajoelhou junto a Móretar. Passou a mão sobre o corte até a pele se fechar. Adwig afastou a terra que prendia Mantelar e o ajudou a retirar a perna devagar.
Móretar despertou tossindo.
— Deixamos vocês sozinhos por alguns minutos — disse Adwig. — Como um treino chegou a isso?
— Ele perdeu o controle de um feitiço — respondeu Mantelar.
— Você me lançou contra uma raiz.
— Para impedir que arrancasse minha cabeça.
Médera examinou os dois.
— Declaro empate. Nenhum vencedor termina o treino quase morto e preso no chão.
Mantelar abriu a boca para protestar. Adwig cruzou os braços, e ele desistiu.
Móretar se levantou.
— Não importa. Cercado por vocês, parece que tudo o que aprendi ficou pequeno. Em poucos dias, todos mudaram de escala e eu continuo tentando descobrir para que sirvo.
Médera se aproximou.
— Poder não substitui julgamento. Mantelar acabou de impedir que você morresse durante uma disputa que nenhum dos dois soube interromper. Talvez isso diga mais sobre capacidade do que o tamanho do golpe.
Móretar olhou para o meio-gigante.
— Obrigado.
— Na próxima vez, começamos sem usar nada que corte pescoços.
Uma luz surgiu no centro da clareira. O vento empurrou as folhas para fora de um círculo, e a passagem começou a se abrir.