Parte 29 Móretar - Poder Humilde · Capítulo 29 de 49
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Parte 29

O Brasel surgiu entre os destroços, coberto de terra e com as asas encolhidas. Trovar o encontrara sozinho em Fóster, depois do desaparecimento de Dafa, e a pequena criatura atravessara o portal escondida entre as capas do grupo.

Ela se aproximou do tronco partido. O vermelho sob as escamas ganhou força. Drácula ainda segurava o material branco quando o Brasel encostou o focinho na árvore e recuou sem produzir calor suficiente para queimar a superfície.

— Ele reage de outro jeito perto de organismos vivos — disse Móretar. — Fez isso em Vésper.

Hertho arrancou outra lasca.

— Então Drácula tem razão. A floresta não está viva.

Um ruído percorreu o solo. Folhas falsas se ergueram perto da cratera e revelaram uma criatura pequena, de patas inquietas. Ela examinou as marcas deixadas pelo grupo, avançou até uma trilha e retornou pelo mesmo trecho. Repetiu o percurso em outra direção. Desta vez, parou diante de Athena e tocou o chão duas vezes.

A poeira da explosão ainda escondia parte da clareira quando Perenelle apareceu atrás de Drácula e Hertho.

— Um Ravik. Essas pragas sempre encontram a costura.

Athena voltou o rosto para ela. Perenelle já apontava a varinha.

Uma camada metálica cobriu Drácula antes que ele pudesse reagir. Hertho tentou alcançar a espada e foi atingido em seguida. Os dois ficaram imóveis, presos dentro de corpos sólidos.

Perenelle guardou a varinha quando Móretar e Arthur se aproximaram.

— O que aconteceu? — perguntou Arthur.

Da Vinci encarou as duas figuras.

— Foi o Fentor. Eu deveria ter previsto outra reação.

— A criação atingiu os dois — confirmou Perenelle. — Os corpos que estavam dentro do metal provavelmente já se desfizeram. Devem ter renascido longe daqui.

Athena olhou para o Brasel. A luz sob as escamas permanecia intensa diante de Drácula e Hertho. Havia vida nos dois.

O Ravik percorreu as pegadas de Perenelle e depois as de Athena. Quando os demais começaram a seguir para a cidade, a criatura bloqueou o caminho da mulher com a varinha dourada. Correu até os dois corpos, retornou e tocou o pé dela.

Athena compreendeu o aviso.

— Venha comigo — chamou Perenelle. — Se descobrirmos o alcance da sua varinha, talvez possamos localizar seus amigos.

Um morcego cruzou a clareira. Athena reconheceu Dranny. Ele circulou a cabeça metálica de Drácula e voou atrás de Perenelle.

— Que tipo de teste pretende fazer? — perguntou Athena.

Perenelle explicou que existia, perto da casa de Da Vinci, um edifício preparado para rituais. A estrutura suportava descargas, fogo e transformações de matéria. Queria medir o vínculo de Athena com a varinha antes que a energia se dispersasse.

Enquanto falava, distribuiu tarefas ao restante do grupo. Da Vinci deveria recolher os fragmentos da invenção. Robin e Arthur procurariam sinais de Merlin. Móretar cuidaria dos feridos. A separação tinha método demais.

Athena passou por Agah e encostou dois dedos no próprio pulso, sinal usado entre elas quando uma ameaça precisava ser acompanhada à distância. Agah respondeu ajeitando a manga.

O Ravik deixou as pegadas de Perenelle e seguiu Athena.

O salão dos rituais tinha janelas altas, vitrais e uma abóbada coberta por desenhos geométricos. No centro, círculos de metal formavam uma série de anéis no piso.

Perenelle pediu que Athena ocupasse o menor deles.

Começaram com movimentos simples. A varinha produziu fogo, água e uma descarga que atravessou o salão. Athena moveu objetos pesados sem esforço. A peça dourada ampliava seus poderes e quase eliminava o gasto de energia.

Perenelle não comemorou nenhum resultado. Anotava a intensidade, a direção e o tempo de cada resposta. Também verificava a distância entre Athena e a borda do círculo.

Dranny pousou atrás de uma escultura, fora do campo de visão da bruxa. O Ravik permaneceu junto à porta, percorrendo os mesmos poucos passos. Não encontrava uma saída diferente daquela por onde haviam entrado.

— Agora vamos tentar o congelamento — disse Perenelle. — Exige concentração. Se errar, a energia apenas se apaga.

Ela descreveu os movimentos sem executá-los. Athena repetiu a sequência, alterando a última posição dos dedos. Produziu um clarão ao redor do próprio corpo e ficou imóvel.

Perenelle esperou. Aproximou-se e retirou a varinha dourada da mão dela.

— Merlin entendia metade do processo. A varinha reconhece quem a ativa. Depois disso, outra pessoa pode usar a ligação para retirar tudo o que o primeiro usuário possui.

Tirou a própria varinha da cintura e iniciou o feitiço. Um fio de luz surgiu entre as duas peças.

Athena estalou os dedos.

O ar arrancou as varinhas das mãos de Perenelle e as levou até ela.

— Eu usava meus poderes antes de tocar em madeira dourada.

Perenelle avançou. Athena refez a sequência que acabara de observar. O fio de luz mudou de direção e atingiu a bruxa no peito.

Perenelle caiu. A energia percorreu o salão, atravessou a varinha e entrou no corpo de Athena. Vieram forças diferentes, acumuladas durante anos, algumas tão incompatíveis que provocaram dor. Ela fechou a mão e interrompeu o fluxo.

Quebrou a varinha de Perenelle e lançou os pedaços dentro do círculo.

Agah abriu a porta. Móretar, Robin e Da Vinci estavam com ela. O Ravik encontrara a trilha de volta e os conduzira até ali.

— Ela transformou Drácula e Hertho — disse Athena. — Depois tentou retirar meus poderes.

Robin olhou para Perenelle, esperando que a acusação fosse negada.

— É verdade — respondeu a bruxa. — Nunca criei o poder das varinhas. Aprendi a tomar a energia de quem as despertava.

Da Vinci observou o círculo e os fragmentos no chão.

— Quantas pessoas?

Perenelle baixou a cabeça.

Ninguém insistiu. Voltaram à cratera.

O calor do Brasel continuava pulsando diante dos corpos metálicos. Athena colocou a varinha dourada entre os dois e procurou, entre as forças recém-absorvidas, aquela que havia produzido a transformação. O metal se abriu em placas finas. Drácula caiu de joelhos, e Hertho precisou se apoiar nele para respirar.

As árvores se moveram.

Troncos fecharam a clareira. A espuma branca se alongou em galhos, dentes e raízes. O Ravik correu por três trilhas, voltou por duas e escolheu a terceira. Avançou alguns metros antes que o chão se erguesse à sua frente.

— A floresta está cortando as rotas — avisou Trovar.

— Então faça uma que ela não conheça — disse Hertho.

Trovar abriu um portal. Móretar empurrou Perenelle para dentro, e os demais atravessaram enquanto Athena mantinha os troncos afastados. Dranny passou sobre a cabeça de Drácula. O Brasel entrou logo depois. O Ravik foi o último a abandonar a clareira, segundos antes de as árvores cobrirem o lugar.

Em Fóster, Arthur testou a própria varinha apontando para o alto. O raio arrancou um pedaço da borda de um prédio.

— Funcionam fora daquele planeta — constatou Coneli.

— E continuam perigosas nas mãos erradas — disse Robin.

Drácula ainda carregava a lente de Da Vinci. Colocou-a no olho e criou uma tiara com um único chifre. Hertho examinava a varinha quando o objeto apareceu em sua cabeça.

O riso aliviou parte da tensão.

— Drácula, seu morcego nos salvou — disse Athena.

— Dranny — corrigiu ele. — E ninguém o deixou para trás. Ele sabe muito bem quando deve fugir.

O Brasel se acomodou perto do portal fechado. O Ravik percorreu o contorno do grupo e parou junto a Trovar, atento às mudanças de posição de cada pessoa.

Hertho sugeriu que esperassem Athos na taverna.

— Majestade! Móretar!

Carl corria pela rua, ofegante.

— Temos um problema sério.

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