Parte 35
Móretar correu até o trono.
Scélor tinha pulsação. Respirava com regularidade e não reagia quando Bornurar o chamou. Dois guardas estavam caídos ao fundo da sala, submetidos ao mesmo sono.
Magibre observou o rosto do regente. A semelhança com Bornurar atravessava gerações, embora Scélor parecesse mais jovem do que o próprio filho.
— O que aconteceu aqui? — perguntou Bornurar.
Krakor abriu um portal.
— Esperem.
Voltou poucos segundos depois.
— O bar está cheio de pessoas desacordadas. A igreja também. As ruas estão vazias.
Desapareceu novamente. Quando retornou, a irritação dera lugar à preocupação.
— Fadas, Coraces, Gigantes. Todo o planeta dorme.
— Um vírus — disse Elaryan.
Ela estava junto às portas da sala.
— É transmitido pelo ar. Se algum de vocês ainda depende da respiração, recomendo que pare ou saia daqui.
Krakor apontou o tridente para ela.
— Você tem um talento extraordinário para surgir depois do desastre.
Elaryan examinou a arma.
— Abaixe isso antes que se machuque. Você escolheu uma aparência física que inspira respeito, Krakor. A postura ainda precisa acompanhar.
— Nunca fui tão charmoso quanto nesta forma. Não vou alterar meu rosto para satisfazer o gosto de alguém que atravessa eras usando a mesma expressão de superioridade.
Elaryan aplaudiu duas vezes.
— É uma pena que não tenhamos tempo para uma convivência maior.
— Eu arranjaria.
Móretar se colocou entre os dois.
— Quem espalhou o vírus?
— Morpheu, filho de Hypnos.
Krakor abaixou o tridente alguns centímetros.
— Hypnos foi conselheiro dos Elfos Primordiais.
— E repetiu a sua experiência de criar um descendente onde o Universo não previa nenhum — disse Elaryan. — O resultado dele aprendeu a dominar uma espécie de vida que vocês ainda tratam como pequena demais para ter vontade.
Móretar olhou para Scélor.
— Cada vírus possui uma partícula?
— A replicação não cria partículas. Vírus comuns repetem uma estrutura biológica. Morpheu vinculou uma única partícula à rede que construiu. Todas as extensões pertencem à mesma consciência, distribuída por muitos corpos e submetida ao comando dele.
— Uma simbiose — concluiu Magibre.
— Uma simbiose artificial. Morpheu levou anos para impedir que a criação o tratasse como outro hospedeiro.
Elaryan caminhou até uma das janelas. Lá fora, nenhuma luz mudava de lugar.
Nordok fora dominado por inteligências artificiais. As máquinas mantinham os Elfos Primordiais presos dentro da própria atividade mental e retiravam dos corpos a energia necessária para continuar funcionando. Muitos haviam tentado destruir o sistema. Morpheu escapara porque uma alteração em seu organismo impedia que a rede o reconhecesse como elfo.
Ele alcançou laboratórios subterrâneos e criou o vírus. Primeiro usou a nova vida para drenar a energia dos corpos aprisionados. As máquinas perderam sua fonte e foram desligadas. A vitória terminou aí: os elfos continuaram adormecidos, exauridos demais para despertar.
— Morpheu encontrou outra fonte — disse Móretar, olhando para Scélor.
— Pessoas — respondeu Elaryan. — A rede retira energia dos infectados e a transfere aos elfos. Hypnos foi o primeiro a acordar.
— Ele está ajudando o filho?
— Hypnos recuperou o Jutte, a arma que escondera antes da queda de Nordok. Uma perfuração pode matar em qualquer parte do corpo. A arma também rompe ataques e desarma oponentes à distância. Com ela, Hypnos atravessa planetas ao lado de Morpheu.
Krakor voltou a erguer o tridente.
— Onde eles estão?
— Já deixaram Key.
— Então me leve até os dois.
— Para que ofereça mais energia ao vírus?
Krakor avançou. Elaryan não se moveu.
— Os habitantes de Key continuam vivos — explicou ela. — Interferir agora faria Morpheu acelerar a drenagem ou transferir a rede para outros mundos. Eles procuram planetas de primeira vida, onde populações numerosas ainda desconhecem essa forma de ataque. Cada resgate precipitado pode espalhá-lo.
Móretar sentiu o peso daquela última frase. Haviam atravessado o castelo, tocado Scélor e respirado o mesmo ar.
— Nós podemos estar contaminados.
— Podem carregar extensões incapazes de dominá-los e ainda assim transmiti-las — disse Elaryan. — Krakor conhece uma substância capaz de destruí-las fora do corpo. Usem antes de voltar a Fóster.
— E os que já dormem? — perguntou Bornurar.
— Ficarão aqui.
— Scélor é meu pai. Acabei de encontrá-lo.
— E continuará sendo quando acordar.
Bornurar fechou as mãos.
— Você fala da separação alheia com muita facilidade.
Elaryan aceitou a acusação sem resposta.
Móretar se aproximou dela.
— Veio apenas nos afastar de Key?
— Vim impedir que percam tempo procurando a origem enquanto algo maior se organiza em Fóster.
— Algo que você organizou?
— Algo que acontecerá porque muitas pessoas acreditam estar escolhendo caminhos próprios.
Móretar percebeu a precisão da frase. Elaryan não reivindicava o controle e também não o negava.
— Diga como vencer Morpheu.
— Ainda não é você quem poderá fazer isso.
— Quem será?
Elaryan olhou para Excalibur. Depois voltou os olhos para Móretar.
— Quando chegar a hora, a resposta dependerá de alguém capaz de escutar a consciência presa dentro da rede. Qualquer explicação anterior permitiria que Morpheu se preparasse.
Krakor soltou uma risada sem humor.
— Claro. Você atravessa o planeta, conta metade da história e chama o restante de proteção.
— Eu chamo de manter uma possibilidade viva.
— Posso matar você agora?
— Você ainda não conseguiria matar Poseidon.
A provocação atingiu o ponto escolhido. Krakor apertou o tridente.
— Os níveis mais altos dos outros Universos acumulam forças que o seu povo ainda mede de maneira incompleta — continuou Elaryan. — Raiva não corrige essa diferença.
Móretar interrompeu antes que Krakor atacasse.
— O que precisamos fazer em Fóster?
— Reunir-se. Ouvir o que cada pessoa trouxe. Algumas decisões que parecem pequenas abrirão os próximos caminhos.
— E você espera que obedeçamos.
— Espero que façam o que fariam mesmo sem a minha visita. A diferença é que agora sabem por que não devem levar o vírus com vocês.
Elaryan desapareceu.
Krakor lançou o tridente contra o espaço vazio. A arma atravessou a sala e voltou para sua mão.
— Eu detesto quando ela termina uma conversa antes de mim.
Bornurar tentou responder. A voz falhou.
Magibre perdeu a força nas pernas. Ele a segurou, mas seu próprio corpo começou a ceder.
Móretar alcançou a mãe antes que os dois caíssem.
Os olhos de Magibre já estavam fechados.
Bornurar ainda conseguiu olhar para Scélor.
— Não deixe que ela transforme isto em abandono.
Adormeceu nos braços do filho.