Parte 19
Athos atravessou a passagem com sangue na roupa.
— Poseidon atacou Silency e retirou Hades quando já o tínhamos vencido. Estão em Atlantis. Preciso de vocês na retaguarda.
Ninguém pediu tempo para decidir. Adwig recolheu a espada de Ferne, e os quatro seguiram Athos.
Móretar e Médera saíram numa passagem estreita atrás do Castelo. Adwig e Mantelar apareceram no alto da torre principal.
— Médera e Móretar procurarão a entrada inferior e manterão uma saída aberta — explicou Athos. — Adwig e Mantelar observarão a sala do trono pela torre. Localizem o soro de Ferne e tirem Silency de lá se eu perder o controle da sala. Não enfrentem Poseidon ou Hades sozinhos.
— E se não houver tempo para esperar? — perguntou Adwig.
— Ajam juntos.
Athos fechou a passagem antes que Móretar perguntasse como deveriam manter uma saída aberta sem a espada.
Médera examinou a parede do Castelo.
— Existe um corredor de serviço atrás do jardim. Se Poseidon não alterou a estrutura, chegaremos perto do salão inferior.
— Você esteve presa aqui e ainda conhece melhor este lugar do que os guardas.
— Era assim que eu escapava do quarto para o qual sempre me devolviam.
Ela começou a andar. Móretar a acompanhou sem responder.
O jardim ocupava a parte posterior do Castelo. Trabalhadores cuidavam das plantas em silêncio, cada um limitado a um canteiro. Nenhum levantou a cabeça quando os dois passaram entre as árvores.
Médera diminuiu o passo diante de flores vermelhas com bordas douradas.
— Calamandris.
— Você gosta delas?
— Gostava antes de descobrir que Poseidon as plantava perto dos aposentos de quem desejava vigiar. O perfume permanece na pele por muitas horas.
Móretar evitou tocar as pétalas.
Visto pelos fundos, o Castelo deixava de parecer uma construção isolada. Paredes, pontes e casas se ligavam umas às outras, formando uma estrutura inclinada que avançava sobre Atlantis.
— A cidade foi planejada como uma única peça — disse Móretar.
— E Poseidon se colocou no ponto que controla todas as passagens.
Médera encontrou uma abertura atrás de uma parede coberta por plantas aquáticas. O corredor terminou numa sala circular. Ar saía das bordas de uma fonte invertida e mergulhava no centro, criando bolhas que desapareciam sob o piso.
Ela tocou uma pequena placa junto à porta seguinte. As pupilas se alongaram. A superfície endureceu até adquirir a cor da pedra.
— A passagem ficará aberta mesmo que o sistema seja bloqueado.
— Uma saída.
— Agora falta sobreviver até alcançá-la.
Uma voz surgiu atrás deles.
— Eu sabia que você voltaria.
Eros estava encostado numa coluna. Vestia a mesma expressão tranquila do Quixar.
— Marjone enganou Poseidon. Você não me enganou, Médera.
O corpo dela ficou rígido.
Móretar havia acreditado que Poseidon concentrava todo o medo trazido pela lembrança de Atlas. Diante de Eros, compreendeu que confundira poder visível com o dano mais profundo.
— Eu sempre soube quando você estava por perto — disse Médera. — Meu corpo respondia enquanto eu desejava arrancar a própria pele.
Eros abriu um sorriso.
— Eu não crio nada. Apenas libero o que as pessoas escondem.
— Você retirava minha capacidade de recusar e chamava a reação do corpo de desejo.
— O corpo costuma ser mais honesto que a culpa.
Médera avançou antes que Móretar a impedisse. As roupas desapareceram. Ela parou diante de Eros, tocou o peito dele e aproximou a boca de seu pescoço.
Eros não recuou. O calor atravessou a sala e alcançou Móretar. O cheiro das Calamandris ficou mais forte. Por um momento, atacar pareceu menos urgente do que observar.
Médera mordeu o pescoço de Eros sem perfurar a pele. A mão desceu pelo corpo dele. O sorriso começou a falhar.
— Vamos — provocou ela. — Sem usar meu corpo contra mim. Sem Poseidon segurando meus braços. Mostre o que existe quando a escolha também é minha.
Eros segurou o pulso dela.
— Você continua desejando ser vista.
— Por quem eu escolho.
Ela apertou o corpo contra o dele. Eros tentou sustentar a expressão, mas a pele de Médera começou a endurecer sob suas mãos. A petrificação avançou pelos dedos dele.
Eros a empurrou.
Médera caiu junto à fonte. Móretar saltou entre os dois.
Uma barreira de fogo explodiu diante dele. As chamas atravessaram as escamas e alcançaram a pele. O tiranossauro reagiu ao cheiro de queimadura e à imagem de Médera caída.
Móretar tentou conter a transformação. Os braços cresceram, as pernas romperam o piso e a cabeça atingiu o teto. A expansão do corpo destruiu duas colunas.
Eros ergueu as mãos para ampliar o fogo.
O animal avançou.
Os dentes se fecharam sobre o torso de Eros. Móretar sentiu o impacto sem controlar a mandíbula. O corpo se rompeu e desapareceu entre os dentes antes de tocar o chão.
O teto cedeu.
Móretar recuperou a forma humana entre pedras e água. As queimaduras ainda cobriam parte do peito. Médera afastou os destroços e chegou até ele já vestida.
— Consegue andar?
— Eu tentei impedir.
— Eros teria matado você.
— O animal não se defendeu. Escolheu matá-lo.
Outro trecho da parede caiu. Médera puxou Móretar pelo braço.
— Você pode discutir com ele quando não estivermos debaixo do Castelo.
Os dois subiram pelos escombros em vez de retornar ao jardim. A gravidade de Atlantis retardava as pedras maiores e lhes dava alguns segundos para encontrar apoio antes de cada queda.
Médera localizou um quadro ainda preso à parede. Arrancou a moldura e revelou uma abertura escura.
— Esta passagem chega atrás do trono.
— Como sabe?
— Poseidon não era o primeiro governante a esconder pessoas dentro das paredes.
Entraram. O corredor era estreito demais para que Móretar assumisse qualquer parte do tiranossauro. Ele manteve uma mão sobre a pedra e usou vibrações do outro lado para acompanhar o combate.
Uma descarga percorreu o Castelo. O chão se moveu sob os pés dos dois.
Médera acelerou. Encontrou o mecanismo na extremidade do corredor e abriu a passagem.
Poseidon mantinha uma barreira diante de Athos e dos demais. Hades segurava Adwig perto do trono. Uma seringa estava encostada no ombro dela. Mantelar tentava se levantar junto à parede, e Silency permanecia ferida no chão.
— A seringa escolhe onde eu vou acordar! — gritou Adwig.
Hades ergueu o braço para golpear com mais força.
Móretar avançou. Atingiu o pulso dele e desviou a ponta.
A seringa entrou no ombro de Móretar.
O dispositivo preso ao êmbolo acendeu. O líquido atravessou seu corpo antes que ele conseguisse arrancar a agulha.
Médera estendeu a mão.
— Móretar!
Os dedos dela não chegaram a alcançá-lo.
O salão desapareceu.