Parte 4 Móretar - Poder Humilde · Capítulo 4 de 49
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Parte 4

Vaes esperava Móretar junto à passagem por onde os outros haviam saído.

— Temos algum tempo antes que preparem seu treinamento.

Móretar o acompanhou. Do outro lado não havia corredor, casa ou qualquer sinal da sala em que despertara. Havia apenas um deserto iluminado em todas as direções. Quando olhou para trás, a passagem também tinha desaparecido.

— Aquela construção era uma ilusão? — perguntou.

— Uma organização temporária da matéria — respondeu Vaes. — Depois de tempo suficiente em Éden, aprendemos a mudar luz, ar, temperatura e forma com pouca dificuldade. O planeta, sem nossa interferência, é isto.

A areia se estendia até onde Móretar conseguia ver. O calor subia do chão e a claridade parecia chegar de vários pontos ao mesmo tempo. Não havia sombra completa.

— Éden permanece entre quatro estrelas — continuou Vaes. — O equilíbrio desse sistema mantém o planeta constantemente iluminado. Não existe noite natural aqui.

Ergueu uma das mãos e moveu o indicador. Uma mancha escura se formou no alto e cresceu até cobrir o céu. Por alguns instantes, o deserto mergulhou no breu. Vaes fez o movimento contrário, e a luz retornou.

— Podemos fabricar uma noite quando sentimos falta dela.

Móretar olhou para o céu, procurando uma das estrelas. A claridade era tão espalhada que nenhuma delas podia ser encarada diretamente.

— Você disse que me explicaria o Universo.

— E explicarei. Primeiro quero saber se a travessia alterou alguma função do seu corpo.

Vaes pareceu animar-se com a própria ideia, o que tornou Móretar imediatamente desconfiado.

— Que tipo de função?

— Sua dependência de oxigênio, por exemplo. Nossos corpos em Éden não precisam dele. O seu ainda deve precisar.

— E como pretende testar isso?

— Subindo.

— Isso parece uma ideia ruim.

— As ideias realmente novas costumam parecer.

Móretar pensou na irmã e no pouco tempo que corria em Key. Se pretendia confiar a própria volta àqueles seres, precisava saber do que eram capazes. Também havia nele uma curiosidade que o perigo tornava maior, não menor.

— Vamos.

Vaes abriu as mãos. O ar se concentrou sob os dois e os retirou do chão. O primeiro movimento foi lento; o segundo os lançou para cima.

O deserto se afastou. O vento comprimiu as roupas de Móretar contra o corpo, depois se organizou ao redor dele como uma camada protetora. Atravessaram nuvens que não podiam ser vistas do solo e continuaram subindo até que o planeta começasse a mostrar sua curvatura.

Vaes reduziu a velocidade próximo ao limite da atmosfera. A voz dele surgiu dentro da mente de Móretar.

— Não tente falar. Mantive ar ao redor de você durante a subida. Vou retirá-lo por alguns instantes e acompanhar cada alteração do seu corpo.

O ar desapareceu.

Móretar ainda tinha a reserva respiratória natural das fadas, mas o corpo percebeu imediatamente a mudança. O peito tentou buscar algo que não estava ali. O silêncio absoluto tornou o próprio medo mais nítido.

Abaixo deles, Éden era uma esfera laranja cercada pelo brilho de suas estrelas. Cores diferentes atravessavam a borda da atmosfera. Móretar esqueceu por um momento que estava servindo de experiência.

A reserva começou a diminuir. Vaes segurou sua mão e abriu a outra, revelando uma pequena concentração de ar preservada entre os dedos. Antes que a falta de oxigênio se transformasse em dano, devolveu a camada ao redor do rosto de Móretar.

— A travessia não alterou sua dependência biológica — disse telepaticamente. — Continua respirando como uma fada de Key em primeira vida.

Usando o ar que mantivera concentrado, Vaes impulsionou os dois para baixo. A gravidade voltou a agir, e eles entraram em queda livre.

Móretar abriu os braços quando viu Vaes fazer o mesmo. O vento reapareceu aos poucos, primeiro como ruído, depois como força contra o corpo. Vaes o controlava em camadas, reduzindo a velocidade sem eliminar a sensação da queda.

Ao longe, uma floresta surgia no meio do deserto. Troncos rompiam a areia, copas se abriam e nuvens se formavam sobre a área recém-criada.

— Eles trabalham rápido — comentou Vaes.

Os dois tocaram o chão sem violência.

Móretar respirou fundo e esperou o equilíbrio retornar.

— Você poderia ter feito o teste sem me levar tão alto.

— Poderia. Assim tivemos uma vista melhor.

— Krakor não é o único que ignora regras, pelo que percebi.

— Krakor ignora regras por afeto. Eu as ignoro por curiosidade. Hagar considera a diferença importante.

Vaes começou a caminhar em direção à floresta.

— A mulher falou sobre uma partícula essencial — disse Móretar. — O que ela é?

— A melhor resposta seria admitir que não sabemos. Quando um corpo cerebral alcança determinado desenvolvimento, uma partícula passa a sustentar o que reconhecemos como continuidade da consciência. Ela conserva estrutura, memória e capacidade de mudança. Quando o corpo deixa de funcionar, a partícula se desprende e encontra condições para formar outro.

— Encontra como?

— Outra coisa que não sabemos. Alguns acreditam numa inteligência que administra o processo. Outros defendem que o próprio Universo possui uma organização capaz de direcionar cada consciência. Nenhum de nós conseguiu provar qualquer resposta.

— Mesmo depois de mais de cem vidas?

— O tempo aumenta a quantidade de perguntas com a mesma facilidade com que aumenta a experiência.

O ar voltou a envolvê-los e os levou na direção da floresta. Vaes continuou falando dentro da mente de Móretar.

— Hagar mencionou as profecias. Ele reuniu versões encontradas em mundos muito distantes. Há semelhanças difíceis de ignorar, mas isso não prova que o jovem seja um salvador. Uma crença espalhada por muitos planetas também pode ter sido espalhada por alguém.

Móretar olhou para ele.

— Alguém capaz de viajar entre todos esses mundos?

— Ou de influenciar quem viaja. Por enquanto, Hagar prefere observar o rapaz como cumprimento possível. Eu prefiro observar o que ele faz quando ninguém lhe diz qual papel deve representar.

— Ele parece assustado.

— Ser chamado de prometido costuma ser mais agradável para quem chama do que para quem precisa cumprir.

A floresta estava cada vez mais próxima.

— Hagar falou em fogo, água e vento — retomou Vaes. — São bases comuns entre mundos que começam a manipular elementos. Qual deles você escolheria primeiro?

Móretar pensou no riacho usado contra Hantake, mas o ar ainda sustentava seu corpo. Lembrou-se da subida, da queda e da possibilidade de atravessar distâncias sem tocar o chão.

— Vento.

— Pensou nisso sozinho ou porque está sendo carregado por ele?

— Se consegue ler minha mente, deveria saber.

— Consigo perceber o que passa por ela. A origem de uma escolha continua sendo uma questão mais difícil.

Móretar sentiu o incômodo de não ter pensamentos privados naquele lugar.

— Você faz isso com todos?

— Com os outros imortais não consigo. Somos incapazes de afetar uns aos outros diretamente em Éden. Você oferece uma oportunidade rara.

— Pare.

Vaes sorriu, mas a pressão dentro da mente de Móretar diminuiu.

— O vento não é apenas ar — explicou. — É matéria gasosa em movimento. Aprender a controlá-lo abre possibilidades que dependem menos de uma substância específica. A água exige água. O fogo precisa de algo que possa queimar. O vento começa com qualquer gás que você consiga mover.

Atravessaram a linha entre o deserto e a floresta. O calor cedeu. O cheiro de areia foi substituído por terra, folhas e umidade. Pássaros ainda não existiam ali, e a ausência de sons animais tornava evidente que aquela mata acabara de ser criada.

Desceram em uma clareira circular. Uma mulher os esperava.

Móretar a reconheceu pela voz, embora não pela aparência. Na sala, ela parecia mais velha. Agora tinha cabelos loiros muito compridos, corpo jovem e uma armadura negra que lembrava a pele de um grande felino.

— Dafa — disse Vaes.

— Você já invadiu os pensamentos dele o bastante por hoje?

— Ele pediu que eu parasse.

— E você obedeceu?

— Na maior parte.

Dafa aproximou-se de Móretar. A semelhança com as fadas de Key existia, mas desaparecia sempre que ele tentava identificar um detalhe preciso.

— Você mudou de corpo? — perguntou.

— Mudei a aparência. Os doze conseguem assumir formas de vidas anteriores. Esta pertence a uma vida de que gosto mais.

Móretar observou a armadura.

— E isso também foi criado aqui?

— Não. Este é Phant.

O material negro desceu do corpo de Dafa e se reuniu no chão. Patas, dorso, cabeça e cauda surgiram até que uma grande pantera estivesse ao lado dela.

— Ele era a armadura?

— Phant não é minha armadura. Essa é uma das formas que aceita assumir quando nos unimos.

A pantera olhou diretamente para Móretar. Não havia submissão naquele olhar.

— Existem muitas formas de vínculo entre espécies — continuou Dafa. — Algumas permitem que dois corpos se tornem um. Outras só existem enquanto os dois escolhem caminhar juntos. Phant é meu complemento. Isso não faz dele uma parte menor de mim.

— Existem outros como ele em Éden?

— Quase todos os imortais mantêm algum complemento, embora nem todos tenham vindo conosco. Se contássemos cada ser consciente, este planeta teria mais habitantes do que os catorze humanoides que você viu.

Dafa permanecia nua diante dele, sem constrangimento. Móretar tentou sustentar o olhar em seu rosto e percebeu que o esforço apenas tornava mais evidente tudo o que desejava evitar.

— Você poderia ter avisado — disse Vaes.

— Ele também poderia parar de olhar.

Móretar abriu a boca para responder, mas não encontrou uma frase que não piorasse a situação.

Dafa sorriu e se aproximou. O cheiro dela misturava pele, floresta recém-criada e alguma coisa que Móretar não conhecia.

— Estava curiosa — disse. — Faz muito tempo que não encontro alguém ainda preso à urgência de uma primeira vida.

— Não estou preso a ela.

— Acabou de atravessar um portal agarrado à perna de um desconhecido porque ele mencionou sua irmã. Depois aceitou subir ao espaço com Vaes. Urgência não parece uma palavra injusta.

Móretar sentiu o rosto aquecer. A proximidade de Dafa o confundia, mas a provocação era precisa demais para ser recusada.

Phant caminhou ao redor dos dois e se sentou perto de Vaes.

— Encontrei Phant em Finiti, um mundo onde o vento determinava quase tudo — continuou Dafa. — Por isso vou ajudá-lo com o primeiro elemento. Se realmente deseja retornar a Key capaz de localizar sua irmã, precisará aprender a reconhecer movimento antes de tentar dominá-lo.

Ela se afastou e tocou a cabeça da pantera. Phant voltou a se espalhar por seu corpo, cobrindo-a novamente com a forma de armadura.

Móretar respirou melhor quando a distância entre eles aumentou. Não sabia se a reação vinha do alívio ou da decepção, e preferiu não oferecer a dúvida a Vaes.

À frente deles, a floresta continuava crescendo. Água começou a correr entre as raízes recém-formadas, e o ar mudou de direção.

O treinamento estava pronto.

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