Parte 33
Bornurar estendeu sobre a mesa um desenho do edifício em que Teleret estava preso.
— Cannigham encontrou uma arma chamada Pasha. É um metal flexível, usado como corda. Quando envolve alguém, retira os poderes da pessoa e de qualquer um que se aproxime.
Traçou duas linhas ao redor de um quadrado.
— A cela dos prisioneiros fica dentro de outra cela. As duas estão num prédio fechado. Os guardas chegam apenas até a entrada. Cannigham é o único autorizado a atravessar todas as grades.
— Onde fica a parte principal da arma? — perguntou Trovar.
— Chumbada no chão da cela interna. Cannigham puxa o comprimento de que precisa por meio de uma faca presa ao cabo. Pode dar um nó, cortar um trecho e levá-lo. O pedaço separado conserva o efeito durante algum tempo.
Krakor examinou o desenho.
— Então precisamos fazer o xerife nos levar até lá.
Bornurar olhou para ele.
— Essa é a parte que chama de plano?
— É a entrada. Móretar já pensou na saída.
Móretar mantinha os olhos no desenho.
— Excalibur continuou reagindo quando se aproximou da energia de Krakor. Talvez a Pasha consiga bloquear a mim e ainda assim não domine a espada.
— Talvez — repetiu Magibre. — Vocês querem entrar numa prisão eterna confiando nessa palavra?
Trovar apontou para o cabo desenhado por Bornurar.
— Libertar Teleret não encerra o problema. Se deixarmos a arma, Cannigham prenderá outras pessoas.
— Podemos levar a Pasha — disse Móretar.
— Nenhum portal permanecerá aberto com a arma perto de mim. Há outra passagem que independe dos nossos poderes.
Bornurar compreendeu antes que Trovar terminasse.
— A morte.
O silêncio alcançou até Krakor.
Bornurar contou que, anos antes, um prisioneiro morrera amarrado. O trecho do laço desaparecera com o corpo e fora encontrado dias depois, enrolado nele, no local em que renasceu. Cannigham passou a manter os condenados alimentados desde então. A prisão eterna dependia de que ninguém morresse.
— Alguém teria de levar o cabo principal — concluiu Trovar. — Se o relato estiver correto, a Pasha atravessará junto.
— E onde essa pessoa renascerá? — perguntou Magibre.
Krakor não respondeu de imediato.
— Podemos procurar.
— Sem Afrodite?
O Ravik, deitado junto à porta, levantou a cabeça.
Trovar acompanhou o movimento da criatura.
— A Pasha deixa uma ruptura nas rotas. O Ravik percebeu a alteração produzida pelo portal desde que chegamos. Se estivermos perto quando acontecer, talvez ele reconheça o caminho aberto pela arma.
— Outro talvez — disse Magibre.
Móretar se ofereceu para carregar o laço. Krakor recusou. A evolução do rapaz tornava difícil provocar sua morte, e ninguém sabia o que Excalibur faria contra o próprio portador.
— Então será você — respondeu Móretar.
— Minha morte pode me lançar em qualquer um dos três Universos. O desequilíbrio atingiria uma partícula com energia demais. Bornurar tem maior chance de permanecer neste.
— Está escolhendo meu pai pela conveniência.
— Estou comparando riscos que nenhum de nós pode apagar.
Magibre se levantou.
— Eu posso fazer isso.
Bornurar segurou sua mão.
— Você passou a vida me salvando. Desta vez, fico com a parte ruim.
— Acabamos de reencontrar nosso filho.
— Por isso vou voltar.
Não havia certeza na frase. Móretar percebeu que o pai escolhera dizê-la mesmo assim.
Bornurar se voltou para ele.
— Se eu aceitar, quero cada etapa explicada. Não serei uma peça que vocês movem no meio de uma confusão.
Krakor aproximou o desenho.
— Você, Móretar e eu atrairemos Cannigham. Trovar seguirá fora do alcance da Pasha com Magibre, o Ravik e o Brumel. Quando o xerife entrar no prédio, eles ocuparão a rota de fuga. Excalibur nos liberta. Retiramos Teleret e os demais. Você leva o cabo. Assim que morrer, o Ravik procura a passagem deixada pela arma e Trovar tenta segui-la.
— E se a espada não responder? — perguntou Bornurar.
— Ficaremos presos — disse Móretar.
— Agora parece um plano. Péssimo, porém completo.
Magibre abraçou o marido. Móretar se aproximou e foi puxado pelos dois. Desta vez, não tentou esconder o desconforto nem se afastou. Guardou a sensação para o caminho de volta que Bornurar prometera fazer.
Tim e Van, os pequenos animais da casa, subiram pelos braços de Magibre e se acoplaram às suas costas e aos ombros. A união não cobriu todo o corpo. Era uma meia-simbiose, rara e suficiente para protegê-los durante a fuga.
Trovar alterou as roupas do grupo. O Ravik partiu primeiro. Percorreu as ruas ao redor do banco, encontrou as rondas da guarda e voltou por caminhos diferentes. O Brumel acompanhou Magibre até uma travessa atrás do prédio da prisão. Ali havia terreno firme e espaço para correr sem atravessar a avenida principal.
Móretar entrou no banco com Krakor e Bornurar.
Krakor lançou uma chama contra o teto. Móretar abriu as janelas com uma rajada e espalhou moedas pelo salão. Bornurar derrubou uma mesa. Os três gritaram para que todos saíssem.
O fogo queimava acima das pessoas sem descer. Móretar desviava qualquer objeto que pudesse ferir alguém. A encenação precisava parecer perigosa e permanecer sob controle.
A primeira patrulha cercou a entrada. Krakor respondeu com uma descarga de luz. Móretar ergueu uma barreira de vento. Bornurar lançou pela porta dois sacos vazios e exigiu passagem.
— Você leva jeito — comentou Krakor.
— Passei anos trabalhando como fiscal. Sei o que um criminoso espera que a autoridade faça.
Outros guardas chegaram. Mantiveram distância.
Cannigham apareceu entre eles carregando uma faca de cabo escuro. Uma extensão metálica estava enrolada ao redor da lâmina. Ele puxou a ponta, e a Pasha cresceu até tocar o chão.
O Ravik observava da travessa. Assim que o metal se estendeu, recuou e procurou outro caminho para Trovar.
Móretar sentiu o vento escapar de seu controle antes que a corda chegasse perto. Deixou a barreira cair.
Krakor apagou o fogo.
— Finalmente alguém importante — disse ele.
Cannigham lançou o laço. Prendeu os três com uma única volta e apertou o cabo. O mundo de Móretar ficou pesado. Excalibur desapareceu de suas costas quando a camuflagem de Trovar se desfez, revelando a bainha.
O xerife sorriu.
— Poderiam ter servido a esta comunidade. Precisamos de energia, fogo e força. Preferiram assaltar um banco.
— A proposta de emprego ainda está disponível? — perguntou Krakor.
Cannigham puxou a Pasha e obrigou os três a andar.
Pessoas fecharam portas quando ele passou. Algumas baixaram a cabeça. Outras levaram a mão ao peito e saudaram o xerife. Cannigham apontava para cada reação.
— Os inocentes me respeitam. Quem se esconde sabe que tem culpa.
Uma mulher recolheu uma criança da calçada. O medo dela pareceu satisfazê-lo.
— Eu estou olhando diretamente para você — disse Krakor. — Talvez tenha me apaixonado.
Cannigham o atingiu no rosto. Sem seus poderes, Krakor cambaleou. O sangue surgiu no canto de sua boca.
Móretar nunca o vira tão vulnerável. A Pasha reduzia reis, deuses e trabalhadores ao mesmo corpo sujeito à dor. Cannigham transformara essa igualdade em domínio pessoal.
Os guardas ficaram na entrada da prisão. O xerife conduziu os três sozinho.
Trovar seguia longe o suficiente para conservar parte dos poderes. Mantinha a si e Magibre ocultos, corrigindo a distorção sempre que a luz do céu mudava. O Brumel escolhia o terreno sob a sombra dos edifícios. O Ravik avançava e retornava, impedindo que entrassem na área em que a Pasha apagaria o disfarce.
Dentro do prédio, Cannigham revistou os prisioneiros. Retirou Excalibur da bainha e examinou a lâmina. A superfície se cobriu de ferrugem diante dos olhos dele.
— Trouxe uma espada morta para um assalto?
Jogou-a na sala destinada aos pertences. Móretar acompanhou o som da queda até uma porta se fechar.
Atravessaram duas grades. Na cela interna, dezenas de pessoas estavam ligadas ao mesmo laço. Algumas mal reagiram à chegada de novos presos.
Krakor encontrou Teleret desacordado perto da parede.
Cannigham amarrou os três à linha principal, cortou o trecho que trouxera e guardou a faca. Antes de sair, verificou o pulso de Teleret e entregou água a um prisioneiro mais fraco. Precisava de todos vivos para conservar sua sentença.
A última grade se fechou.
— Teleret — chamou Krakor, tentando falar baixo e gritar ao mesmo tempo.
Móretar virou o rosto.
— Todos estão presos no mesmo silêncio. Pode falar normalmente.
— Teleret!
O rapaz despertou.
— Pai?
— Vim salvar você.
Teleret examinou a corda que prendia Krakor.
— O senhor bebeu hoje?
As primeiras risadas surgiram entre os prisioneiros. Krakor ameaçou abandonar quem continuasse. Uma voz no fundo da cela pediu que ele começasse a salvar alguém antes de impor condições.
Móretar abriu a mão.
— Excalibur.
Nada aconteceu.
Chamou outra vez. Ouviu um impacto distante. Depois outro.
A espada atravessou a porta da sala de pertences, rompeu uma grade e entrou na cela. A ferrugem se desfez durante o voo. Móretar fechou a mão sobre o cabo.
O braço dele continuava sem força. A lâmina se moveu.
Excalibur contornou a Pasha e cortou o metal. Móretar recuperou o vento. Libertou a outra mão e soltou Krakor, Bornurar e Teleret.
— Eu sabia que funcionaria — disse Krakor.
— Você não sabia — respondeu Móretar.
Quebrou o chão ao redor do cabo principal. Os prisioneiros puxaram a corda frouxa e começaram a se libertar. Teleret ajudou os mais fracos.
Passos ecoaram além das grades. Cannigham voltava.
Bornurar segurou o cabo.
Magibre apareceu atrás da primeira grade. Trovar perdera o disfarce ao se aproximar, mas conseguira abrir a entrada. O Ravik permanecia do lado de fora, inquieto. O Brumel batia os cascos contra o chão.
— Bornurar! — gritou Magibre.
Ele olhou para ela. Enrolou a Pasha ao redor do próprio corpo e prendeu o cabo contra o peito.
Móretar ergueu Excalibur.
— Eu vou encontrar você.
— Eu sei.
Bornurar fechou os olhos.
Móretar atravessou a espada no coração do pai.
O corpo desapareceu. A Pasha foi levada com ele.
Do lado de fora, o Ravik soltou um som agudo e correu em círculos. Farejou o ar, escolheu uma direção e voltou até Trovar.
Cannigham alcançou a cela sem a arma. Sacou duas lâminas curtas. Alguns prisioneiros avançaram sobre ele. O xerife derrubou os primeiros, porém cada pessoa caída abria espaço para outra.
Móretar destruiu a parede externa. Teleret e Krakor conduziram os prisioneiros pela abertura. Magibre permaneceu perto de Trovar, olhando para o lugar vazio em que o marido estivera.
O Ravik puxou a barra da roupa de Trovar e apontou para longe da cidade.
— Ele encontrou a passagem — disse Trovar. — Precisamos sair do alcance do edifício.
O Brumel abaixou o corpo. Magibre subiu em suas costas. A criatura disparou pela rota que havia escolhido antes do assalto.
Móretar, Krakor e Teleret alcançaram Trovar quando os guardas cercavam a rua. O portal se abriu com dificuldade.
O Ravik atravessou primeiro, levando consigo o único caminho que ainda podia conduzi-los até Bornurar.