Parte 7 Móretar - Poder Humilde · Capítulo 7 de 49
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Parte 7

Dafa apertava a cintura de Móretar enquanto Kingzar atravessava o céu de Key. Sob o luar, as copas formavam uma extensão prateada, interrompida por rios e clareiras. O ar frio trazia o cheiro do pelo do pégaso e o calor do rapaz sentado à frente dela.

Durante séculos, Dafa aprendera a reconhecer os próprios impulsos cedo o bastante para dominá-los. Naquela noite, decidiu não fazer isso.

— Móretar, volte.

Ele virou o rosto, sem conseguir enxergá-la direito.

— Para a cabana?

— Agora.

Móretar conduziu Kingzar numa curva larga. O pégaso pousou perto da construção, e Dafa desceu antes que as asas se fechassem por completo. Entrou depressa. Quando Móretar a alcançou, ela segurou o rosto dele e o beijou.

— O que aconteceu?

— Podemos procurar o Palácio pela manhã.

Dafa o beijou outra vez. Móretar segurou sua cintura e respondeu com a mesma urgência. As roupas ficaram pelo chão sem ordem, misturadas à poeira e às mantas que haviam usado durante a noite anterior.

Houve pressa, desajeito e desejo. Dafa não tentou transformar o momento em promessa. Móretar também não perguntou o que viria depois. Naquela cabana, os dois se permitiram agir antes de descobrir se deveriam.

Adormeceram exaustos. O amanhecer os encontrou abraçados, com a luz atravessando as frestas da madeira. O contato dos corpos reacendeu o desejo.

Dafa abafou um grito no ombro de Móretar. Ainda assim, a terra vibrou, e o ar da cabana esquentou de repente. Ele riu, surpreso. Ela também, até sentir alguém do lado de fora.

Dafa saltou pela janela e agarrou o intruso pelo braço. O homem reagiu a tempo, girou o corpo e a derrubou. Quando percebeu que ela estava nua, afastou-se e desviou os olhos.

Três companheiros o aguardavam alguns passos atrás. Entre eles estava uma elfa que permanecia atrás dos outros e examinava a mata.

— Athos, o que está fazendo? — perguntou um dos outros. — Por que todo esse pudor?

Athos abriu a boca, mas não respondeu. Olhou para a cabana, para Dafa e para os três companheiros, tentando se orientar.

Móretar saiu da cabana vestindo apenas a calça. Entregou um lençol a Dafa e se colocou diante dela.

— Quem são vocês?

— Duvido que acreditem na resposta — disse Athos. — Minha missão é salvar o Universo.

Dafa enrolou o lençol ao redor do corpo.

— Um elfo alado encarregado de salvar o Universo. Você seria um anjo?

— Eu deveria ter chegado ao Castelo dos Elfos. Alguma coisa desviou meu teletransporte. Vamos tentar outra vez e deixaremos vocês em paz.

Athos virou-se. A palavra fez Dafa erguer as mãos, e dois raios atingiram as costas dele. Athos conteve a descarga entre as palmas e a lançou para o céu.

— Você pode criar um portal? — perguntou Dafa.

— Posso. Quem é você?

— Dafa. Fui trazida para Key por um dos doze de Éden. O teletransporte era uma capacidade exclusiva do nosso grupo. Um de nós nos traiu e me deixou presa aqui.

Athos desapareceu antes que ela terminasse. Reapareceu atrás dela, perto da janela quebrada.

Dafa o encarou em silêncio.

— A princesa falou sobre vocês — disse Athos. — Disse que existia outro planeta de nível seis. Talvez eu finalmente entenda por que nunca o encontrei.

— Você veio de um planeta de nível seis?

— Vim.

Móretar percebeu a atenção de Dafa se concentrar no recém-chegado. A diferença de poder entre eles era evidente. Ele conteve o incômodo e apontou para Athos.

— Se consegue atravessar o Universo, leve-nos a Éden.

— Preciso localizar o planeta na mente dela.

Dafa se aproximou.

— Procure apenas o caminho.

Athos tocou sua testa. A lembrança do deserto surgiu primeiro. Logo outras imagens se abriram: os doze, Zeon, as guerras, decisões que Dafa enterrara durante séculos. Ela empurrou Athos para trás.

Móretar acertou um soco na boca dele. O golpe abriu um corte que desapareceu assim que Athos passou a mão pelos lábios.

Dafa lançou um olhar rápido para Móretar. A imprudência dele poderia ter provocado uma luta impossível de vencer, mas o impulso lhe arrancou um sorriso.

— Pedi que procurasse o caminho — disse ela.

— Quando entro numa mente, as lembranças se ligam umas às outras. Passei do limite que você estabeleceu. Também encontrei algo que pode explicar por que nenhum de nós conhecia o outro. Você não reconheceu nenhum dos mundos que visitei. Eu também não reconheci nenhum dos seus.

— Seriam dois universos? — perguntou Móretar.

— Creio que sejam regiões afastadas do mesmo Universo. Key pode funcionar como passagem entre elas, talvez por ter sido construído. Alguma barreira impede a travessia comum. É uma hipótese. Se eu alcançar Éden daqui, teremos o primeiro indício.

Athos pediu aos três companheiros que seguissem para o Palácio dos Elfos. A elfa chamada Sussurro hesitou, depois acompanhou os outros.

Ele estendeu as mãos a Dafa e Móretar. A energia se concentrou ao redor de seu corpo e os puxou. O portal dos doze permanecia aberto como uma porta. A passagem de Athos existia a partir dele.

O calor do deserto substituiu o frio de Key.

Dafa reconheceu Éden pelas quatro estrelas e pela cor da areia. Procurou a energia dos antigos aliados, mas encontrou o planeta vazio.

— Não sinto ninguém — disse Athos.

— Nem eu.

Athos observou o horizonte.

— Lembra Tânatos. É mais iluminado e parece ter mais vida sob a areia.

— Temos assuntos mais urgentes que a paisagem — disse Móretar.

— Aqui estamos protegidos o bastante para olhar por alguns instantes.

Dafa concordou. Móretar viu os dois examinarem o planeta com uma familiaridade que ele não compartilhava e voltou a se sentir pequeno.

— Você já pode procurar Zeon — disse ele a Dafa. — Athos quer salvar o Universo e parece capaz de ajudá-la. Eu volto para Key e procuro minha irmã.

— Você quer voltar sozinho? — perguntou Dafa.

— Sou o único aqui que ainda tem problemas do tamanho de uma família.

Athos baixou os olhos.

— Houve um tempo em que os laços de sangue conduziam todas as minhas escolhas. Conforme avancei, deixei de saber onde estavam meus parentes. Às vezes, sinto falta da certeza que existia naquela busca.

Móretar ouviu uma despedida onde Athos falava de saudade. Para o elfo, a busca pela família pertencera a outra fase da vida. Para ele, era tudo o que restava.

Dafa tocou o braço de Móretar.

— Athos pretendia fazer algo em Key. Ficaremos com ele e procuraremos sua irmã antes de seguir atrás de Zeon.

Athos permaneceu imóvel. Seus olhos perderam o foco, presos a imagens que apenas ele enxergava. Quando voltou a olhar para os dois, sua expressão havia mudado.

— Tive outra visão do futuro. Elas surgem sem aviso, e minhas ações podem alterar o que vejo. Zeon está ligado a um inimigo que preciso conter. Talvez a aliança ainda aconteça.

Ele se voltou para Móretar.

— Também vi sua irmã. Ela está viva e fora de Key.

Móretar segurou o braço de Dafa. Saber que a encontraria trouxe alívio e uma pergunta pior: como ela atravessara uma barreira que nem Dafa conhecia?

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