Parte 20
Móretar acordou na cama em que dormira durante a infância.
A madeira quebrada na lateral pressionava sua perna. O reparo que Bornurar fizera anos depois havia desaparecido. A parede conservava uma mancha escura deixada por uma lamparina, e a pequena rachadura próxima à janela tinha o mesmo formato de um rio.
Ele tocou o ombro. Não havia ferimento, sangue ou sinal da seringa.
O corpo parecia seu. A respiração tinha outro ritmo. As dores trazidas do treino, das queimaduras e do desabamento haviam sumido.
Morreu em Atlas.
O cheiro de comida veio da cozinha. Uma panela permanecia sobre o fogão, cheia do ensopado que sua mãe preparava quando havia raízes suficientes. Móretar provou uma colher. Reconheceu o sabor e a quantidade exagerada de sal que ela sempre negava ter colocado.
— Mãe?
Ninguém respondeu.
O cheiro de madeira preso às roupas de Bornurar também estava ali. Móretar abriu o armário. Encontrou duas peças do pai, dobradas como permaneciam depois de um dia de trabalho.
Não se permitiu acreditar que os dois estivessem próximos. A casa havia queimado, e o corpo no qual vivera ali fora enterrado em Vésper.
Duas portas levavam para fora. A dos fundos costumava abrir num quintal cercado por árvores que retiravam quase tudo do solo. Sua mãe tentara cultivar flores naquele espaço durante anos.
Móretar girou a maçaneta.
Do outro lado havia o jardim do Templo Fortense.
As mesmas flores ocupavam os canteiros, distribuídas pelas cores usadas nas cerimônias. As árvores sustentavam pontes pequenas e arcos de luz. A reprodução era cuidadosa o bastante para trazer de volta lembranças que ele não desejava visitar.
Faltavam as Lumberas.
Nenhuma corria pelas fibras, transportava energia ou se escondia nas cascas. As flores se abriam numa sequência perfeita, mesmo sem os pequenos corpos que participavam da polinização. Quando Móretar tocou uma pétala, três plantas repetiram o movimento ao mesmo tempo.
O jardim conhecia a aparência do templo. Não conhecia a vida que o sustentava.
Ele voltou à cozinha. O ensopado continuava quente, embora o fogo estivesse apagado. Colocou a colher sobre a mesa e abriu a porta da frente.
Uma rua desconhecida apareceu diante dele.
O piso era formado por pedras claras encaixadas sem qualquer espaço. Casas de estilos diferentes ocupavam os dois lados. Algumas tinham entradas próximas ao chão; outras começavam vários metros acima e eram alcançadas por plataformas móveis.
Móretar se virou. A porta pela qual acabara de passar agora pertencia a uma casa estreita, coberta por placas metálicas. Pela janela, não havia sinal da cozinha.
Uma chapa dourada passou em alta velocidade e parou a poucos passos. O homem que a conduzia estava preso dos pés à cintura por hastes saídas do metal.
— Peço que suba. Os reis aguardam sua chegada.
— Que planeta é este?
— Fóster, meu senhor.
— Como sabem que estou aqui?
O condutor olhou para uma marca luminosa na superfície da chapa.
— O ponto de despertar foi registrado. Recebi a ordem quando seu corpo se formou.
Móretar observou as hastes que mantinham o homem imóvel.
— Posso ir andando.
— Se eu chegar sem o senhor, constará como recusa no atendimento.
— E o que acontece?
— Perco dois períodos de descanso.
Móretar subiu.
Marcas no metal indicavam onde colocar os pés. Assim que obedeceu, suportes envolveram suas pernas e alcançaram a coluna.
— Isso solta quando eu pedir?
— Quando chegarmos.
O condutor puxou uma alavanca. A cidade se tornou uma sucessão de cores. Móretar sentiu o estômago ficar para trás e fechou os olhos até a chapa parar.
— Mais devagar.
— Veículos de serviço não permitem alteração da rota.
— Nem quando quem está sendo transportado pede?
— O senhor é passageiro. A rota pertence à administração.
A chapa fez uma curva e reduziu a velocidade sozinha. Móretar conseguiu observar fileiras de construções idênticas ao lado de uma área industrial. Pessoas entravam e saíam ao som de uma campainha. Mais adiante, casas enormes ocupavam terrenos cercados, muitas com portas e janelas fechadas.
— Quem vive ali? — perguntou, apontando para as fileiras.
— Trabalhadores das fábricas e suas famílias.
— E nas casas grandes?
— Responsáveis por setores, administradores e pessoas liberadas de função.
Um homem empurrava sozinho um veículo carregado de caixas. Quando viu a chapa dourada, saiu da rua e abaixou a cabeça. A carga tombou sobre ele. O condutor não diminuiu a velocidade.
— Precisamos ajudá-lo.
— Ele pertence ao setor de transporte. Receber ajuda de outro setor altera a contagem de produção.
Móretar tentou soltar as hastes. O metal apertou suas pernas.
— Toda pessoa recebe uma função quando chega aqui?
— Quando desperta, a administração avalia suas capacidades. Os filhos costumam permanecer no setor da família.
— E quem recusa?
O homem manteve os olhos na rota.
— Não conheço ninguém que tenha conseguido continuar recusando.
Desceram diante de uma construção cercada por jardins. A porta principal tinha altura suficiente para receber um gigante. Duas pessoas esperavam na entrada. Uma limpava o piso; a outra segurava uma muda de roupa branca.
O homem do veículo foi embora antes que Móretar perguntasse seu nome.
— Senhor Móretar, seja bem-vindo — disse o homem de branco. — Meu nome é Irkaré. Serei seu servo durante a permanência na propriedade dos reis.
— Quem decidiu isso?
— A administração da casa.
— Você escolheu trabalhar aqui?
Irkaré olhou para a pessoa que limpava o chão. Ela manteve os olhos baixos.
— Minha família serve nesta propriedade há quatro gerações.
— Isso não responde.
— É a resposta permitida, senhor.
Móretar entrou.
Uma parede curva coberta por cores escondia o restante da construção. A rampa fazia duas voltas antes de chegar a um salão com piso transparente. Peixes e répteis nadavam abaixo do vidro.
O tiranossauro se agitou dentro dele. Móretar sentiu a força alcançar os braços quando um dos animais tentou atravessar a barreira e bateu o focinho.
— Eles podem sair? — perguntou.
— São parte do piso — respondeu Irkaré.
— São animais.
— Para os reis, as duas coisas podem ser verdadeiras.
Irkaré pareceu se assustar com as próprias palavras. Acelerou o passo.
Labaredas atravessavam as laterais do salão sem queimar as paredes. O teto aberto recebia folhas trazidas do jardim. Trabalhadores recolhiam cada uma antes que tocasse o chão.
— Onde você mora? — perguntou Móretar.
— No alojamento da propriedade.
— Possui um quarto?
— Divido com outros sete servos.
— Recebe pagamento?
— Recebo permanência, alimentação e acesso às áreas destinadas à minha função.
— E se quiser sair?
Irkaré parou diante de uma porta fechada.
— Para onde eu iria?
A pergunta acompanhou Móretar até a sala seguinte.
Dois homens ocupavam tronos elevados. O primeiro vestia uma roupa dourada coberta por instrumentos, correntes e pequenas peças que se moviam sem ser tocadas. O outro permaneceu imóvel, com os braços apoiados e os olhos fixos no recém-chegado.
— Móretar! — disse o homem de dourado. — Eu sou Hermes, e este é meu companheiro, Cronos. Cuidamos de Fóster há séculos. Sua chegada foi anunciada por nossa deusa.
Móretar não se ajoelhou.
— Qual deusa?
Cronos inclinou o corpo para a frente.
— A origem do poder que mantém este mundo. Ela disse que um jovem chamado Móretar despertaria em Fóster quando estivéssemos próximos de uma grande derrota.
— Disse o que eu faria?
— Que sua chegada mudaria o governo — respondeu Hermes.
— Quando receberam essa mensagem?
Hermes procurou a resposta no companheiro.
— Antes de você nascer — disse Cronos. — O tempo exato não lhe diz respeito.
Móretar reconheceu o mesmo uso da profecia que vira entre os Fortenses. A promessa era antiga o bastante para parecer sagrada e vaga o bastante para aceitar qualquer conclusão.
— Então vocês esperam que eu salve o governo.
— Esperamos que cumpra a função para a qual foi enviado — respondeu Cronos.
— Seu servo perdeu o direito de descansar porque precisou me buscar. Irkaré divide um quarto com sete pessoas e não pode deixar esta casa porque tudo o que recebe depende de continuar servindo vocês.
Hermes tocou uma das correntes da roupa.
— Todos em Fóster possuem uma função. É assim que garantimos ordem, alimento e moradia.
— Ele não tem moradia. Tem permissão para dormir no trabalho.
Cronos se levantou.
— Como ousa entrar em nossa casa e nos julgar depois de falar com um servo?
Móretar sentiu o tiranossauro responder à ameaça. Manteve as mãos abertas.
— Eu ainda não conheço Fóster. Por isso quero ouvir quem vive sob as regras antes de dizer o que precisa mudar.
— Nós podemos explicar nosso povo — disse Hermes.
— Vocês podem explicar o governo. Para conhecer o povo, teremos de chamar outras pessoas.
Cronos desceu um degrau. A energia começou a se concentrar ao redor das mãos dele.
— Você foi trazido até nós por uma profecia. Não confunda importância com autoridade.
— Não confundo. É por isso que ainda não dei nenhuma ordem.
Móretar apontou para a porta.
— Se a profecia exige que me escutem, comecem ouvindo Irkaré.
O servo olhou para os reis antes de conseguir abrir a boca.