Parte 34
O portal se fechou atrás deles numa área vazia de Fóster.
Magibre desceu das costas do Brumel e procurou Bornurar entre os que haviam retornado. Encontrou apenas Krakor, Teleret e Móretar.
— Onde está o caminho? — perguntou a Trovar.
O Ravik percorria o ponto em que a passagem desaparecera. Farejava o chão, recuava e recomeçava de outro ângulo. A Pasha deixara uma rota diferente da produzida por um portal. Em vez de ligar dois lugares, abrira um corte irregular entre a morte e o renascimento.
Trovar se ajoelhou perto da criatura.
— Preciso que escolha.
O Ravik correu até Móretar, tocou Excalibur e voltou para a borda invisível. Depois se afastou alguns passos e repetiu o percurso.
— A espada também atravessou essa rota — disse Móretar. — Foi assim que a Pasha seguiu meu pai.
Trovar estendeu as mãos. Tentou reproduzir o trajeto indicado. A primeira abertura mostrou apenas escuridão e se rompeu. O Ravik mudou de posição. Na segunda tentativa, uma planície coberta por água apareceu do outro lado.
— Não consigo manter por muito tempo — avisou Trovar.
Móretar atravessou com Excalibur. O Ravik passou junto de seus pés.
Encontraram Bornurar caído numa faixa de terra cercada por água rasa. A Pasha ainda envolvia seu corpo recém-formado. Ele respirava, mas não conseguia mover os braços.
Móretar perdeu os poderes quando se aproximou. Excalibur continuou avançando em sua mão. A lâmina cortou as voltas que prendiam Bornurar e atingiu o núcleo metálico do cabo. O primeiro golpe abriu uma rachadura. O segundo partiu a peça.
A corda perdeu a tensão. Sua superfície escureceu.
O vento voltou a responder.
Móretar ergueu o pai. Bornurar abriu os olhos.
— Demorou.
— Alguns minutos.
— Para mim pareceu mais.
Trovar mantinha o portal aberto do outro lado. Móretar passou Bornurar para ele e recolheu um dos fragmentos da Pasha.
O Ravik rosnou.
Móretar soltou o metal. A criatura se acalmou.
— Fica aqui — decidiu.
Excalibur golpeou os fragmentos restantes até reduzir o núcleo a placas separadas. Nenhuma delas reagiu. Móretar atravessou o portal, e Trovar fechou a passagem.
Magibre recebeu Bornurar nos braços. Tim e Van deixaram a meia-simbiose e circularam os dois, emitindo sons agudos.
— Você voltou — repetia ela.
Bornurar tocou o rosto da esposa.
— Eu prometi.
O Brumel se aproximou e abaixou o corpo outra vez. Bornurar tentou dizer que podia andar, mas as pernas ainda não sustentavam seu peso. Móretar e Magibre o ajudaram a subir.
Dois jovens chegaram pela estrada acompanhados por Carl. Contaram que o Brumel passara parte do dia percorrendo as rotas entre Fóster e as comunidades mais afastadas, guiando famílias que haviam deixado as casas durante o ataque de Hermes. Quando sentira o retorno do grupo, abandonara a última comitiva e correra para a praça.
— Parece que encontrou trabalho — disse Móretar, acariciando a crina curta.
O Brumel moveu as orelhas e conduziu Bornurar até os curadores.
Pouco tempo havia se passado em Fóster. O grupo continuava reunido na praça. Drácula devolveu o tridente a Krakor e ouviu Teleret perguntar por Adwig.
— Athos conseguiu trazê-la de volta — contou Drácula. — Ela está no palácio.
Teleret abraçou o pai.
Móretar observou os dois e depois procurou Bornurar. Seu pai já estava em pé, apoiado em Magibre. A morte continuava sendo uma passagem, embora o breve desaparecimento tivesse deixado uma falta real. Durante alguns minutos, ninguém soubera se voltaria a vê-lo.
— Há outra pessoa que vai querer participar desse reencontro — disse Móretar.
Um portal se abriu na praça. Athos surgiu acompanhado por Médera.
Ela correu para Teleret. Krakor envolveu os dois. Médera estava curada, mas carregava no rosto um cansaço que Sussurro não conseguira retirar.
— O que aconteceu? — perguntou Teleret.
— Ela quis encontrar Adwig antes de contar — explicou Athos. — O planeta em que estava foi destruído.
Seguiram para o palácio criado por Hermes. Móretar ficou perto dos pais durante o caminho. Ao redor deles, os moradores retornavam às casas, enquanto equipes registravam danos e distribuíam tarefas. O Brumel partiu novamente com os jovens das comunidades distantes. O Ravik permaneceu ao lado de Trovar, cansado demais para explorar outra trilha.
Krakor parou diante do palácio.
— Eu conheço este lugar.
— Já esteve aqui? — perguntou Móretar.
— É o Palácio das Histórias. Eu descrevia algo parecido quando Adwig era pequena. Mudava os salões, as torres e os jardins em cada conto. Hermes encontrou as versões que ela guardou.
Adwig apareceu no alto da escadaria. Ao ver Krakor, Médera e Teleret juntos, permaneceu imóvel. Depois desceu correndo.
Abraçou os três e chorou. Perguntou se também eram criações de sua mente.
— Estamos aqui de verdade — respondeu Krakor. — Todos juntos.
Móretar sentiu a mão de Magibre procurar a sua. Bornurar estava do outro lado. Diante dele, outra família se reconstruía depois de séculos de separação.
Dafa também retornara a Fóster, embora não estivesse naquele reencontro. Móretar ainda não a vira desde a chegada.
Athos pediu que Médera contasse o que acontecera. Ela explicou que Poseidon chegara ao planeta procurando o tridente. Estava mais poderoso do que antes. Matara os sobreviventes de Atlas e torturara Lúcifer para descobrir onde Krakor escondera a arma. Médera tentara lutar e fora mantida viva enquanto ele insistia nas perguntas.
— Quando concluiu que o tridente não estava lá, foi embora — disse ela. — Athos me encontrou depois. Não havia mais ninguém.
Krakor segurou a arma. A alegria do reencontro cedeu espaço à raiva.
— Ele virá procurar por mim.
— Provavelmente — respondeu Athos.
Adwig chamou a mãe e o irmão para dentro. Queria permanecer com eles e preparar um baile naquela noite. Havia esperança no convite, mesmo depois do relato de Médera.
Krakor disse que ainda precisava levar Bornurar e Magibre a Key. Scélor, pai de Bornurar, governava o planeta e não sabia que encontraria o filho, a nora e o neto.
— Você voltará para o baile? — perguntou Adwig.
— Antes da última dança.
— Seu histórico torna essa promessa pouco confiável.
— Agora tenho Móretar para me impedir de desviar do caminho.
Móretar olhou para Bornurar.
— Você pode viajar?
— Acabei de morrer e caminhei até aqui. Posso conhecer meu pai.
Antes da partida, Krakor levou Athos para um lado da escadaria. Móretar os acompanhou.
— Deixei o tridente com Drácula porque Trovar estava conosco. Agora pretendo mantê-lo até Poseidon tentar tirar de mim.
— Evite procurar essa luta antes que ela chegue — aconselhou Athos.
— Ele destruiu Atlas.
— E espera que sua raiva escolha o terreno por ele.
Krakor apoiou o tridente no ombro.
— Se eu demorar, venha me buscar.
— Irei. Portanto, não passe em nenhum bar.
— O único bar de Key é péssimo. Até eu tenho limites.
Móretar se despediu de Trovar. O Ravik acompanharia o braço direito de Athos. O Brumel já escolhera as estradas de Fóster. As duas criaturas encontraram funções que não dependiam de segui-lo.
Krakor abriu o portal. Móretar atravessou com Bornurar e Magibre.
Saíram diante do Castelo dos Elfos em Key.
Tudo estava quieto. Não havia soldados nos muros, visitantes diante dos portões nem luz nas casas próximas.
— Pode ser a madrugada — disse Krakor.
— Você acredita nisso? — perguntou Móretar.
— Ainda estou decidindo.
Abriram os portões e seguiram pela entrada principal. Nenhum guarda tentou detê-los.
Durante a subida, Krakor se aproximou de Móretar.
— Afinal, você está interessado na minha mulher ou na minha filha?
Bornurar tossiu. Magibre fingiu examinar uma tapeçaria.
— Krakor, eu nunca quis desrespeitar você.
— Médera viveu séculos sem mim. Eu podia atravessar planetas e nunca apareci. Ela tinha razão em acreditar que fora abandonada e em continuar a própria vida. Eu também estive com outras pessoas. Não estou pedindo justificativas sobre ela.
Móretar esperou.
— Perguntei por causa de Adwig — continuou Krakor. — Senti alguma coisa entre vocês.
— Quase não conversamos. Trocamos poucas palavras.
— Então você gostaria de ter conversado mais.
Móretar não respondeu.
Krakor sorriu.
— Existe alguma coisa.
Chegaram à sala do trono. As portas estavam abertas.
Scélor ocupava o assento central, com a cabeça caída sobre o peito. Dois guardas permaneciam no chão.
Bornurar correu até o pai.
Scélor respirava. Não despertou quando o filho o chamou.