Parte 45
Odin lançou a energia acumulada.
Móretar girou Excalibur. O vento acompanhou a lâmina e desviou a descarga para o alto. O teto se abriu. A luz atravessou a construção e desapareceu no espaço entre Ux e Inc.
O chão cedeu sob seus pés.
Odin avançou. A cada golpe, retirava mais força das duas linhas que ainda controlava. Uma sustentava parte da cidade. A outra descia até a prisão de Oberon.
Móretar recuou até a abertura criada por Arthur e Bel.
— Encontraram o rei?
— Encontramos uma prisão que se defende — respondeu Arthur, de algum ponto abaixo.
— Continuem.
Odin atingiu Excalibur. A espada vibrou nas mãos de Móretar. Havia algo preso na lâmina, uma desordem de energia que não pertencia a ela.
Dafa continuava fora de seu alcance.
Móretar procurou o contato mental e encontrou somente um fragmento: uma sensação de queda interrompida antes do fim. Veio tão fraca que poderia ter nascido da própria vontade.
Odin percebeu a hesitação.
— Você perdeu a mulher que trouxe para esta guerra.
Móretar atacou.
O primeiro golpe cortou o peito de Odin. O segundo atravessou seu ombro. A luz saiu das duas feridas e refez o corpo.
— Está entregando a ele o que resta de Ux! — gritou Hertho.
Móretar interrompeu a sequência.
Odin sorriu.
— Finalmente entendeu.
— Entendi que lutar do seu jeito prolonga sua vida.
Móretar abriu as asas e subiu. Odin lançou outra descarga. Em vez de bloquear, ele conduziu o ataque pelo vento até a coluna que mantinha a prisão de Oberon.
A base se rompeu.
Um grito veio do subterrâneo. A linha se contraiu e arrancou Odin do chão.
Arthur e Bel surgiram carregando um homem de asas escuras. Correntes luminosas ainda prendiam seus braços e atravessavam o piso até o corpo de Odin.
— Soltem-me — ordenou Oberon.
— Primeiro saímos daqui — disse Bel.
— Sou o rei das fadas.
— Hoje isso explica o problema — respondeu Arthur.
Oberon tentou afastá-los. Não tinha força.
Móretar pousou diante dele e encostou Excalibur numa das correntes. A lâmina tornou-se ainda mais pesada. O mesmo fragmento que guardava Dafa reagiu ao vínculo.
— Se eu cortar, Odin perde acesso a você — explicou Móretar. — A cidade conserva a linha de sustentação.
— E Titania?
— Foi atingida junto com Dafa.
Oberon fechou os olhos.
— Faça.
Excalibur atravessou a primeira corrente. Odin caiu de joelhos. A segunda se desfez sozinha.
O brilho voltou ao corpo de Oberon. Espalhou-se por suas asas e passou para as fadas reunidas no corredor. Durante alguns segundos, os símbolos rivais se iluminaram com a mesma cor.
Odin gritou e puxou toda a energia restante.
Ux desceu.
A mudança de gravidade arrancou pessoas das ruas. Meili e seus arqueiros abriram as asas, alcançando quem caía. Iduna conduziu grupos para as construções mais baixas. Syn apareceu no salão acompanhada por moradores dos três bairros.
— O vínculo voltou ao rei — disse ela.
Oberon estendeu as mãos.
— Entreguem sua força. Eu sustentarei Ux.
Ninguém respondeu.
O rei olhou ao redor. Seu próprio símbolo permanecia aceso em parte dos presentes. Ainda assim, nem seus seguidores obedeceram.
— Eles passaram tempo demais sendo obrigados — disse Móretar.
— A cidade está caindo.
— Peça.
Oberon encarou Móretar. A massa de Ux tornou a ceder.
— Preciso da força de vocês — falou o rei. — Quem puder contribuir, escolha agora quanto pode oferecer.
Meili foi o primeiro. Guardou o arco e abriu as mãos. Uma pequena linha de luz saiu de seu peito e alcançou Oberon.
Iduna entregou outra.
As fadas responderam aos poucos. Algumas cederam energia. Outras continuaram protegendo crianças, feridos e casas. Syn indicava quando uma contribuição se tornava perigosa e interrompia o fluxo.
Ux desacelerou.
Odin se levantou entre as linhas que já não conseguia controlar.
— Vocês dependem de um pedido enquanto eu poderia tomar o necessário.
— É por isso que perdeu — disse Móretar.
Odin reuniu a energia solta ao redor do próprio corpo. A luz atravessou suas feridas, ampliando-as em vez de fechá-las.
Hertho entendeu primeiro.
— Ele não tem mais por onde devolver o excesso.
— Posso abrir outra ligação — respondeu Odin.
Avançou sobre Oberon.
Móretar não tentou vencê-lo com um novo golpe. Criou uma corrente de ar entre Odin e o teto aberto. O vento puxou a energia que vazava do Supremo e a espalhou pelo espaço.
Odin resistiu. Carl e Coneli inverteram os equipamentos presos às colunas. O fluxo que antes saía das fadas começou a afastar a energia dele.
Bel protegeu os dois. Arthur retirou Oberon da linha de ataque.
Odin buscou Titania pelo vínculo rompido.
A espada de Móretar reagiu.
Uma voz surgiu entre os fragmentos presos na lâmina.
— Aqui.
Titania.
Odin ouviu. Lançou-se contra Excalibur.
Móretar soltou a espada.
O vento a manteve no ar enquanto ele se desviava. Odin segurou o cabo com as duas mãos. A energia aprisionada entrou em seu corpo de uma vez.
Por um segundo, Dafa voltou à mente de Móretar. Ele reconheceu a posição dela, misturada a Titania e à força usada no disparo.
— Agora, Syn!
Syn fechou as mãos. As fadas interromperam juntas qualquer passagem de energia para Odin.
Excalibur recusou o novo portador.
O Supremo tentou soltar a espada. A mão permaneceu presa. A energia que roubara atravessou seu corpo sem encontrar saída. Sua pele se abriu em pontos de luz.
— Eu mantive esta cidade viva! — gritou.
— E fez dela uma razão para nunca devolver o poder — respondeu Titania, ainda dentro da lâmina.
Odin explodiu.
Móretar ergueu uma barreira de vento. Bel ampliou a proteção. O impacto destruiu o restante do palácio e lançou Excalibur para o alto.
O chão desapareceu sob eles.
Móretar alcançou a espada. Ux tornava a cair, e o rio suspenso era puxado para a ruptura.
Uma passagem se abriu entre os destroços. Athos atravessou com Freya e Loki.
— Juper disse que a rota começou a se fechar — falou Athos.
— Odin morreu. A cidade ainda precisa de sustentação.
Athos olhou para a massa rochosa, para o rio e para Inc abaixo deles.
— Posso conter a ruptura. Não por muito tempo.
— É o tempo de que precisamos.
Athos abriu as asas e voou para o limite entre os campos gravitacionais. Cravou a espada no espaço vazio. Uma onda atravessou a abertura e reduziu a queda de Ux.
Oberon continuou recebendo energia das fadas. A luz em seu corpo já se tornava forte demais.
— Ele não suportará tudo — avisou Syn.
Móretar olhou para as colunas restantes.
— Dividam a sustentação.
— Entre quem? — perguntou Hertho.
— Entre todos que escolheram contribuir. Sem concentrar em Oberon.
Carl e Coneli reposicionaram os equipamentos. Syn redesenhou as linhas no piso com a tinta luminosa que trazia nas mãos. Cada contribuição passou a alcançar diretamente as colunas.
Oberon deixou de ser o centro.
Ux parou.
Athos permaneceu junto à ruptura enquanto a nova distribuição se estabilizava. Freya e Loki conduziram os moradores que haviam caído para o lado de Inc. Meili e Iduna voltaram com os últimos resgatados.
Móretar pousou entre os destroços. Excalibur ainda guardava Dafa e Titania.
Syn tocou a lâmina.
— Elas não renasceram.
— Estão vivas?
— A técnica de Odin desfez a matéria e tentou romper a partícula essencial. Sua espada desviou o processo antes que terminasse. O que restou das duas está misturado à energia.
— Consegue retirá-las?
— Sozinha, não.
Oberon se aproximou.
— Titania ainda está ligada ao nosso povo.
Syn olhou para as fadas que sustentavam Ux.
— Precisaremos formar dois corpos e separar duas estruturas. Ninguém pode ser obrigado a ceder força.
Oberon foi até o centro do salão destruído.
— Eu peço outra vez — disse ao povo. — Titania tomou decisões que nos trouxeram até aqui. Eu também. Quem desejar que ela responda por essas escolhas viva, ajude a trazê-la de volta. Quem não desejar, permaneça sustentando a cidade.
As primeiras luzes vieram dos antigos seguidores da rainha. Iduna abriu as mãos. Meili hesitou antes de fazer o mesmo.
Outras fadas contribuíram. Oberon entregou parte da própria energia sem recebê-la de volta.
Syn conduziu o fluxo até Excalibur.
Duas formas surgiram sobre o chão.
Titania apareceu primeiro, caída entre as asas. Dafa veio logo depois e puxou o ar com tanta força que Móretar ouviu acima das vozes.
Ele chegou até ela antes que Syn terminasse de afastar a energia.
Dafa abriu os olhos.
— Você soltou a espada — disse.
Móretar riu e chorou ao mesmo tempo.
— Eu tinha um plano.
— Claro que tinha.
Ela segurou seu rosto e o beijou.
Ao lado deles, Titania despertou diante de Oberon. Os dois permaneceram separados por tudo o que ainda precisariam dizer.
Ux continuava suspenso.
Sem Odin, nenhuma luz saía dos corpos contra a vontade de quem a produzia.