Parte 32 Móretar - Poder Humilde · Capítulo 32 de 49
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Parte 32

Manter Krakor quieto dentro de um bar era uma missão que Trovar não estava preparado para cumprir.

Conseguir dinheiro local também exigira mais trabalho do que esperavam. Na entrada de uma mercearia, Móretar esbarrou num homem que guardava uma nota na carteira. Trovar precisou de poucos segundos para memorizar o papel. Depois reproduziu vinte unidades enquanto Krakor criticava a falta de ambição do falsificador.

Agora estavam sentados ao redor de uma mesa, e Krakor já bebia a quinta Charfita.

— Sabe o que mais admiro nos bares, Móretar? Existem em sociedades de todos os níveis. Sobrevivem a guerras, períodos de paz, governos, religiões e catástrofes. A maior constância do Universo é o bar.

Trovar olhou ao redor. Nunca se sentia confortável em lugares daquele tipo. Ainda assim, reconhecia que Krakor tinha razão.

O Ravik permanecia debaixo da mesa, atento à porta. O Brumel escolhera ficar do lado de fora, junto a um suporte usado para prender animais de transporte. Recusara a corda oferecida pelo tratador e circulava o lugar, livre, voltando sempre ao mesmo ponto.

Um garçom se aproximou com a conta.

— Percebi que são forasteiros. Quando o consumo passa de certo valor, precisamos receber antes de servir outra bebida.

Trovar examinou os números.

— Tudo isso?

Móretar esticou o pescoço. Eles haviam imaginado que a nota de cem representava uma quantia alta. Cada Charfita custava quinhentos. As bebidas doces pedidas por ele e Trovar custavam duzentos cada.

Trovar tinha vinte notas. Precisava de mais nove.

O garçom olhou para o balcão. O homem que parecia ser o dono já acompanhava a conversa.

Trovar enfiou a mão no bolso interno do casaco de Krakor e começou a reproduzir o dinheiro.

— Pensei que fosse pagar — reclamou Krakor.

— Estou usando seu bolso.

— Isso estabelece alguma responsabilidade financeira?

Trovar conseguiu completar o valor e entregou as vinte e nove notas ao garçom. O rapaz contou o dinheiro duas vezes.

— Parece uma boa hora para sairmos — disse Trovar.

Móretar puxou Krakor antes que ele pedisse outra bebida. Estavam perto da porta quando o dono do bar os chamou.

— Com o que trabalham?

Trovar apertou o braço de Móretar. Os dois seguraram Krakor.

O homem grande apontou para as notas.

— Imaginei que fossem comerciantes. São novos na cidade?

Trovar voltou até o balcão e se inclinou na direção dele.

— Ainda não posso revelar nosso produto. Vendemos todas as amostras antes de chegar aqui. A próxima remessa será maior. É barato, revolucionário e todos irão querer.

O homem manteve a expressão fechada. Krakor, apesar da bebida, compreendeu que o silêncio ajudaria.

— Carmizé — apresentou-se o dono, estendendo a mão. — Quando trouxer a mercadoria, quero ser o primeiro a conhecer.

— Trovar. Voltarei com notícias.

Saíram antes que Carmizé fizesse outra pergunta.

— O que vamos vender para ele? — perguntou Móretar.

— Tempo suficiente para irmos embora.

— Tenho ideias melhores — disse Krakor.

— Você bebeu todas elas.

O Ravik retomou a trilha de Bornurar assim que voltaram à estação. Contornou a saída dos funcionários, farejou o chão e avançou por uma rua lateral. O Brumel acompanhou sem ser chamado.

— Deveríamos esperar perto do portão — disse Móretar.

Trovar apontou para os guardas que observavam a calçada.

— Eles lembram de nós. O Ravik encontrará seu pai longe deles.

A criatura escolheu ruas estreitas e passagens entre edifícios. Quando uma patrulha surgiu adiante, o Brumel bateu um casco no chão e entrou por um corredor coberto. O Ravik verificou o desvio e os conduziu por ele. Atravessaram um pátio, desceram uma escada e alcançaram outra rua.

Krakor precisou se apoiar em Trovar.

— A Charfita produz uma alegria breve demais. Depois deixa o corpo pesado. É uma bebida desonesta.

— Você bebeu cinco vezes antes de formular essa crítica — disse Móretar.

— Pesquisas sérias exigem repetição.

O Ravik parou numa praça. Bornurar vinha do outro lado, procurando-os entre as pessoas. Móretar avançou para abraçá-lo.

— Pensei que ainda estivessem na estação.

— Encontramos um lugar discreto para esperar — respondeu Trovar.

Bornurar olhou para Krakor.

— O que aconteceu com ele?

— Seu planeta criou uma bebida caramelizada muito forte — explicou Krakor. — Fiquei alegre durante cinco minutos e cansado por todo o restante. Ainda assim, foi um trabalho admirável. Parabéns, meu neto.

Bornurar franziu a testa.

— Neto?

— Não tente entender agora — pediu Móretar. — Pode nos levar para sua casa? Sua esposa aceitará visitantes?

— Tenho certeza de que serão bem-vindos.

Bornurar passou numa mercearia para comprar comida. O estabelecimento tinha um vendedor para cada grupo de produtos. Trovar pediu uma nota de mil, examinou os detalhes e a devolveu. Nas compras seguintes, produziu o dinheiro necessário e entregou parte a Bornurar.

O pai de Móretar contou as notas.

— Fiquei com mais do que gastei.

— São tão autênticas quanto as outras — disse Trovar. — Considere uma conversão da moeda que usamos fora deste planeta.

Bornurar guardou apenas o suficiente para compensar o jantar.

— Conversões costumam retirar dinheiro de algum lugar.

Trovar não insistiu.

O caminho até a casa atravessava uma área em que as ruas se tornavam mais estreitas e o calçamento desaparecia. O Brumel seguia adiante, escolhendo as partes firmes do terreno. Diante de uma ponte baixa, recusou a madeira e desceu até um trecho raso do rio.

— A ponte é segura — disse Bornurar.

Uma carroça surgiu na outra margem. Era larga demais para dividir a passagem com eles.

Krakor afagou a crina curta do Brumel.

— Hoje confio mais em você do que no criador de portais.

— O Brumel lê o caminho — respondeu Trovar. — Eu atravesso distâncias.

— E quase nos colocou dentro de uma locomotiva.

— Eu avisei que havia interferência.

Chegaram a uma casa de paredes claras, com um pequeno quintal cercado. O Brumel permaneceu do lado de fora. O Ravik percorreu a cerca, encontrou espaço sob o portão e entrou.

Bornurar abriu a porta.

— Meu amor!

Uma mulher veio recebê-lo. Abraçou-o e o beijou. Duas criaturas cobertas por pelos, com traços de cães e gatos, correram ao redor dos dois.

— Trouxe visitantes — disse Bornurar.

A mulher percebeu Móretar.

O sorriso desapareceu antes de dar lugar a outra coisa. Ela se aproximou devagar, tocou o rosto dele e procurou os olhos que conhecera em outra vida.

— Móretar?

— Mãe.

Magibre o abraçou. O nome que Móretar carregara durante tanto tempo encontrou um corpo, uma voz e braços ao redor dele. Ele fechou os olhos. Toda pergunta perdeu a urgência.

Bornurar os envolveu no mesmo abraço. Krakor desviou o rosto. Trovar conduziu os dois animais para longe dos pés da família.

Quando Magibre conseguiu se afastar, segurou as mãos do filho.

— Pensei que nunca tornaria a ver você.

— Eu também.

Ela tocou seu cabelo, a testa e os ombros, conferindo cada parte. Móretar riu entre as lágrimas.

— Estou aqui.

— Como você a encontrou? — perguntou Krakor a Bornurar.

— Você não se lembra?

Krakor encarou Magibre. Aos poucos, a surpresa cedeu lugar ao reconhecimento.

— Eu a vi neste planeta — disse ele.

— E foi procurar por mim — completou Bornurar. — Encontrou-me perto da morte. Disse que Magibre estava viva e pediu a Hagar que me trouxesse até ela. Você não tinha força para me curar. Ela cuidou de mim.

Magibre encostou a mão no braço do marido.

— Ficamos juntos desde então.

Móretar se voltou para Krakor.

— Por que você não lembrava onde os deixou?

Krakor sentou-se. A embriaguez já diminuía, e isso tornava sua resposta mais difícil.

— Eu havia usado quase toda a minha energia. Pedi a Hagar uma passagem rápida. Nerfate sofreu um ataque logo depois. Houve uma luta no Éden, outros portais, outras pessoas para retirar de perigo. Quando procurei Bornurar, eu não sabia mais identificar o planeta.

— Você sabia que minha mãe estava viva.

— Eu sabia naquele dia. Depois, só lembrava de ter encontrado alguém ligado a você e de que Bornurar precisava chegar até ela. Foi isso que tentei contar quando nos conhecemos.

Móretar recordou o homem que surgira trazendo uma mensagem de seu pai, falando por frases incompletas, parecendo conhecer muito mais do que revelava.

— Passei anos tentando entender suas palavras. Acreditei que você escondia algum plano.

— Naquela época, eu escondia muita coisa. Essa era apenas uma falha.

— Você perdeu meus pais e seguiu a vida.

Krakor se levantou.

— Segui porque houve um tempo em que minha preocupação servia somente para me manter sofrendo. Comecei a procurar diversão onde fosse possível. Às vezes exagerei. Às vezes falhei com pessoas que mereciam mais de mim.

Móretar sentiu a raiva crescer junto de tudo o que não tivera: respostas, família, tempo.

— Quantas pessoas viraram uma história que você esqueceu depois de beber?

— Cuidado — advertiu Krakor.

— É uma vergonha ter o seu sangue.

Uma onda eletromagnética se formou ao redor de Krakor. A Excalibur rompeu a camuflagem criada por Trovar e apareceu na mão de Móretar. A lâmina avançou alguns centímetros por impulso próprio.

Móretar a segurou com as duas mãos antes que alcançasse Krakor.

O silêncio caiu sobre a casa.

Krakor desfez a energia. Móretar abaixou a espada. Os dois se afastaram.

— Guardem isso para depois — disse Magibre. Sua voz era baixa, sem fragilidade. — Eu acabei de recuperar meu filho.

Bornurar esperou até que ambos a ouvissem.

— Há uma parte que ainda não entendi. Por que Krakor me chamou de neto?

Krakor voltou a se sentar.

— Porque você é meu neto. Descobri que seu pai era meu filho. Scélor foi o primeiro ser da raça das Fadas nascido em Key e passou grande parte da vida sem conhecer a própria origem. Pelo que sei, tornou-se regente do planeta.

Bornurar olhou para Magibre e depois para Móretar.

— Scélor era filho de Krakor?

— Era — respondeu Móretar. — Isso faz de mim bisneto dele. Infelizmente.

Krakor aceitou a provocação sem responder.

— Minha filha Adwig está desaparecida — continuou. — Pessoas mais competentes do que eu a procuram. Meu outro filho, Teleret, está neste planeta.

Bornurar se levantou.

— Eu sei onde ele está. Todos aqui sabem.

Trovar se aproximou da mesa.

— Está preso?

— Está. E a prisão foi feita para impedir que alguém com poderes consiga retirá-lo.

Do lado de fora, o Brumel bateu o casco no chão. O Ravik deixou os animais da casa e foi até a porta.

Bornurar puxou uma cadeira.

— Antes de pensarmos no resgate, contem tudo outra vez. Desde o começo.

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