Parte 28
Perenelle retomou o trabalho antes que a fumaça deixasse a floresta.
Enviou antigos integrantes da Ordem para avisar a cidade de que Merlin já não os comandava. Ninguém sabia se ele morrera, fugira ou fora lançado para outro ponto daquele mundo. Arthur queria procurá-lo. Morgana respondeu que uma busca sem rastro daria ao mago tempo para escolher o lugar da emboscada.
Móretar aceitou o argumento, embora a ausência o incomodasse.
Perenelle produzia varinhas para os visitantes enquanto continuava a examiná-lo. Aproximava a barra preta de suas roupas, dos cabelos e da pele. Em uma das tentativas, chegou a cheirar o tecido de seu ombro.
— O que está procurando? — perguntou Móretar.
— Uma explicação.
— Tente perguntar antes de me farejar.
Ela desceu do banco usado para alcançar o ombro dele.
— Você carrega uma assinatura que conheço e, ao mesmo tempo, não corresponde a nenhum ser que deveria existir aqui.
Quando chegou a vez de Drácula, Perenelle interrompeu a formação da varinha.
— Nunca fiz uma destas para um vampiro.
— Posso viver sem ela — respondeu Drácula. — Cresci ouvindo histórias ruins sobre bruxos.
Athena segurou a varinha dourada contra o peito.
— Histórias ruins também foram contadas sobre você. Não deixe que decidam tudo.
Perenelle escolheu um metal escuro e construiu a peça. Jogou-a para Drácula, que quase deixou o objeto cair.
No instante em que ele a segurou, ela voltou a olhar para Móretar.
— Fada.
— Sim.
— A energia das fadas só aparece nos registros do Quarto Universo. Essa região deveria ser inacessível. Você tem o cheiro, porém não espalha resíduos mágicos pelo caminho.
Móretar explicou sua origem. Um elfo de nível seis aprendera a gerar descendentes e tivera filhos com uma mulher de nível dois. Outras linhagens se misturaram em Key, dando origem a povos que não existiam como espécies naturais, entre eles as fadas.
— Havia histórias sobre fadas essenciais — concluiu. — Eu achava que eram lendas.
Perenelle percorreu a extensão do corpo dele com os olhos.
— Então a energia é próxima porque nasceu dos elfos. A mistura impede que eu a reconheça à distância.
Ela tornou a apertar a barra negra. Móretar percebeu que a explicação resolvera apenas parte da curiosidade. Perenelle ainda acompanhava cada movimento de Athena.
Hertho recebeu a última varinha.
— Hagar vai querer uma. Krakor também.
Apontou a peça sem perceber que Robin estava à sua frente.
— Vire isso para outro lado — disse o arqueiro, empurrando-lhe o braço.
Um homem aproximou-se correndo pelo caminho entre as árvores.
— Perenelle! Robin! O que aconteceu?
Robin apresentou Da Vinci e contou que Merlin desaparecera depois de tentar tomar a varinha de Athena.
— Agora podemos testar o invento — disse Da Vinci.
Robin fechou os olhos.
— Você já testou. A partícula explodiu dentro do seu olho.
— A proteção funcionou. Continuo enxergando.
— Essa é uma descrição generosa do resultado.
Móretar quis conhecer o invento.
Da Vinci abriu uma caixa pequena. Dentro dela havia uma partícula quase invisível, ligada a uma película transparente. O usuário colocaria a película sobre o olho. A máquina leria comandos formados pela atividade cerebral e usaria matéria retirada do ar para construir o que fosse imaginado.
— Ela pensa? — perguntou Athena.
— Não. Recusei qualquer inteligência própria. A partícula interpreta instruções e testa se consegue executá-las.
— E quando não consegue? — perguntou Robin.
Da Vinci apontou para a marca junto ao próprio olho.
Móretar observou o interior da caixa. O mecanismo imitava alguns resultados de uma simbiose, porém nada nele estava vivo. Dependia da mente do usuário para escolher forma, material e limite.
— Eu quero testar — disse Drácula.
Colocou a película no olho direito. Uma camada metálica cobriu seu corpo.
— Foi exatamente o que imaginei.
Paracelso tocou a armadura com a ponta da varinha.
— Metal comum conduz eletricidade.
Aplicou uma descarga. Drácula caiu e tornou a se levantar enquanto o corpo se recuperava.
— Também conserva calor.
Uma massa incandescente grudou no peito da armadura e atravessou parte da proteção. Drácula desfez a camada antes que a pele terminasse de queimar.
— Escolha melhor o material — orientou Da Vinci.
Drácula pensou no Fentor, composto rochoso encontrado em Dracs. Depois de fundido e moldado, exigia uma temperatura muito maior para voltar ao estado líquido.
A partícula recolheu matéria ao redor. Um morcego enorme se formou ao lado dele, com garras curvas e asas largas. Drácula ergueu a mão, e a criatura repetiu o movimento. Quando ele pensou em voar, ela subiu.
Paracelso lançou eletricidade, fogo e uma lâmina de ar. Nenhum ataque deixou marca. O morcego mergulhou e parou uma garra junto ao pescoço do mago.
— Agora funcionou — disse Drácula.
— Desfaça a criação — pediu Da Vinci.
O morcego tentou recolher o próprio corpo. O Fentor resistiu à mudança. A energia usada para destruí-lo ficou presa no material e aumentou a temperatura.
— Pare de mandar que desapareça — disse Da Vinci. — Pense apenas em resfriá-lo.
Drácula mudou a instrução.
O calor já havia alcançado o interior da criatura.
Móretar ergueu uma barreira de vento. Athena lançou a luz da varinha sobre o grupo. O morcego explodiu antes que qualquer defesa se completasse.
A cabana de Perenelle desapareceu. Terra, pedras e pessoas foram lançadas para lados diferentes. Quando o ruído terminou, uma cratera ocupava aquela parte da floresta.
Drácula se levantou perto de Hertho. Os dois estavam feridos, ainda vivos.
Uma árvore partida expunha o interior branco e poroso do tronco. Não havia fibras, seiva ou anéis de crescimento.
Drácula puxou um pedaço.
— Eu sabia. Isto nunca foi uma árvore.