Parte 22 Móretar - Poder Humilde · Capítulo 22 de 49
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Parte 22

O Grande Arco atravessava a parte mais alta da cidade. De um lado, Móretar via os alojamentos próximos às fábricas. Do outro, propriedades cercadas ocupavam extensões que poderiam receber bairros inteiros.

As pessoas continuavam chegando. Algumas carregavam ferramentas porque não acreditavam que a interrupção do trabalho fosse durar. Outras vestiam uniformes com cores que indicavam o setor e a posição dentro dele.

Irkaré e Sália permaneceram no meio da multidão. Téver subiu com outros administradores e se colocou atrás dos reis.

Cronos avançou até a borda.

— Meu povo...

Móretar olhou para ele.

Cronos corrigiu a frase.

— Povo de Fóster. Viemos diante de vocês, eu, rei Cronos, e meu companheiro secular, rei Hermes, sob a orientação do profetizado de nossa deusa, para anunciar mudanças na ordem do planeta.

A multidão permaneceu quieta.

— A partir de agora, o trabalho obrigatório deixa de existir. Cada pessoa poderá escolher o ofício que deseja exercer, pelo tempo que considerar justo, sem perder direito sobre sua casa, suas posses ou seus instrumentos. Hermes e eu usaremos nossos poderes, todas as manhãs, para preparar plantações, conduzir colheitas e abastecer as feiras, de modo que ninguém precise servir outro corpo para merecer alimento.

Uma mulher perto das primeiras fileiras começou a chorar. Um administrador falou alguma coisa no ouvido de Téver.

Cronos prosseguiu:

— Continuam proibidos os crimes contra a integridade, contra a ordem comum e contra os bens de cada cidadão. A liberdade anunciada hoje exige responsabilidade de todos.

Olhou para Móretar antes da última frase.

— Ninguém mais deve pertencer a ninguém.

O silêncio se rompeu.

Pessoas choraram, gritaram e se abraçaram. Algumas retiraram do uniforme as marcas do setor. Outras permaneceram paradas, esperando que alguém anunciasse o preço escondido da mudança.

Um homem ergueu a voz perto dos alojamentos.

— Ainda teremos alimento amanhã?

— Terão — respondeu Hermes. — As reservas estão abastecidas, e nós garantiremos a produção durante a transição.

— Quanto tempo dura a transição? — perguntou outra pessoa.

Hermes procurou Móretar.

Ele se aproximou da borda.

— Não sabemos. Durante os próximos ciclos, cada setor escolherá seus representantes. Eles poderão ser substituídos por quem os escolheu. As decisões de hoje são garantias iniciais. O restante será discutido por quem vive com as consequências.

Téver avançou.

— Sem uma administração central, diferentes setores podem disputar os mesmos recursos. Quem decidirá quando dois conselhos discordarem?

— Os conselhos — respondeu Sália, do meio da praça. — Pela primeira vez.

Parte da multidão aplaudiu. Os administradores se reuniram em torno de Téver.

Uma trabalhadora das fábricas perguntou se as horas obrigatórias já estavam encerradas. Cronos confirmou. Ela olhou para os lados, à espera de guardas que a impedissem de deixar o uniforme no chão.

— Os alojamentos serão fechados? — perguntou Irkaré.

— Ninguém será retirado de onde dorme hoje — respondeu Móretar. — Nenhuma função continuará sendo condição para receber alimento ou abrigo.

Um proprietário protestou:

— E as casas construídas por nossas famílias?

— Continuam sendo suas enquanto houver pessoas vivendo nelas — disse Móretar. — As propriedades vazias serão discutidas separadamente. Não vou decidir de cima deste Arco quem perde ou recebe uma casa.

— Então não existe mudança nenhuma para quem continua em alojamentos — gritou uma mulher.

Móretar reconheceu a falha antes que Hermes tentasse responder.

— Existe o direito de sair do setor sem perder o lugar onde dorme. A distribuição de moradias começa depois que soubermos quantas estão vazias e quantas pessoas precisam delas. Vocês participarão desse levantamento.

A resposta não satisfez todos. Algumas pessoas queriam ocupação imediata. Outras temiam que a demora preservasse os antigos privilégios. A discussão se espalhou pela praça sem que soldados tentassem interrompê-la.

Móretar observou Cronos. O rei suportava as perguntas com os dentes apertados.

— Era isso que queria? — murmurou Cronos. — Um povo que recebe liberdade e responde exigindo mais?

— Era isso que você impedia.

Uma das peças na roupa de Hermes acendeu. Ele a tocou e empalideceu.

— Há uma alteração no campo de chegada.

— Quantas pessoas? — perguntou Móretar.

— Não consigo contar.

O ar se abriu no centro da multidão.

Corpos começaram a surgir entre as pessoas.

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