Parte 13
A corrente arrastou Móretar por passagens que ele não conseguia enxergar. A água vermelha entrava por seus ouvidos e pressionava o peito. Médera continuava à frente, protegida por uma camada de ar que se ajustava ao rosto.
Ele tentou acompanhá-la. O fôlego acabou antes que a velocidade diminuísse. Móretar levou a mão à garganta e abriu a boca por reflexo.
Médera voltou. Tocou os dois lados do pescoço dele, e a pele se abriu em fendas estreitas. A ardência durou poucos segundos. Quando Móretar inspirou, o líquido atravessou as novas guelras sem alcançar os pulmões.
— Você consegue fazer isso com qualquer pessoa? — perguntou, ainda tateando o pescoço.
— Com quem carrega simbioses de peixes ou répteis. Seu corpo já conhecia parte do caminho.
A corrente perdeu força e os deixou numa via circular. Aquilo não era água comum. Oferecia resistência aos movimentos, sustentava corpos com facilidade e permitia que as vozes se propagassem. Médera caminhava e nadava ao mesmo tempo. Móretar precisou imitá-la até encontrar equilíbrio.
Atlantis surgiu ao redor deles. Era uma das regiões de Atlas e o centro do poder de Poseidon. Torres escuras se elevavam entre casas muito afastadas. Algumas entradas ficavam vários metros acima do solo. Hologramas indicavam rotas, serviços e ordens do reino, misturados a objetos tão sólidos que Móretar não sabia distinguir uns dos outros.
Havia espaço para uma população muito maior. Os habitantes apareciam isolados ou em grupos pequenos, percorrendo caminhos curvos e túneis transparentes.
— Onde estão todos? — perguntou Móretar.
— Espalhados pelo planeta. Poseidon construiu uma capital grande o bastante para parecer inevitável. Poucos escolheram viver perto dele.
Médera evitava as vias mais iluminadas. Conhecia atalhos escondidos atrás de monumentos e atravessava propriedades sem consultar os mapas. Parou diante de uma construção em forma de polígono, apoiou a mão sobre uma placa e esperou que a porta se abrisse.
— Aqui é minha casa.
— Você viveu em Atlantis?
— Durante quase dois séculos.
O interior era maior do que a construção permitia supor. Os móveis se prendiam às paredes, deixando o centro livre para quem preferisse nadar. Quadros mudavam de imagem quando Médera passava. Pequenas esculturas acompanhavam os visitantes com os olhos.
Ela percorreu os cômodos em silêncio. Conferiu um compartimento, uma tapeçaria e três peças de metal dispostas sobre uma prateleira. Nada havia mudado de lugar.
— Ninguém entrou aqui durante todo esse tempo? — perguntou Móretar.
— Em Atlas, os materiais se deterioram devagar. Também deixei armadilhas. O restante foi preservado pelo medo.
— Medo de quê?
Médera olhou para ele.
— De mim.
Uma ondulação atravessou seus cabelos. Sete cabeças finas surgiram entre os fios, cobertas por escamas escuras. Os olhos das cobras se fixaram em Móretar. Ele recuou, e Médera ergueu a mão.
— Está tudo bem.
As cabeças se voltaram para ela. Uma roçou seu pulso antes de desaparecer outra vez.
— Górgona — disse Médera. — Foi minha companheira de simbiose. Afrodite alterou a união entre nós e deu a ela força para assumir o meu corpo. Quando se sentia ameaçada, transformava qualquer ser vivo em pedra.
— Ela fazia isso contra sua vontade?
— Durante muito tempo, nenhuma de nós controlava o que acontecia. Eu sentia o medo dela. Ela sentia o meu. Afrodite sabia que ficaríamos presas na mesma reação.
Médera abriu um armário. Dentro havia uma máscara rachada e fragmentos de pedra com marcas de dedos.
Contou que tentara alcançar Poseidon. Petrificara guardas, fora vencida e entregue novamente a Afrodite. Em outra tentativa, Poseidon a lançara numa floresta de espinhos. A cada retorno, os castigos aumentavam. Quando percebeu que a criatura podia ser útil, o rei passou a enviar Médera contra seus próprios inimigos.
— Eu obedeci — disse ela. — Depois de algum tempo, sobreviver e servir começaram a parecer a mesma coisa.
Móretar observou a máscara quebrada.
— Como você saiu?
— Planejei minha morte. O destino seguinte foi um planeta onde passei décadas tentando morrer de novo.
Ela falou com uma calma que tornava a história mais difícil de ouvir. Móretar segurou sua mão. Médera apertou os dedos dele uma vez. Nenhum dos dois comentou o contato. Ele soltou primeiro.
— Se você se tornou uma lenda daqui, como pretende chegar perto de Poseidon sem ser reconhecida?
— Eu deixei uma identidade esperando por mim.
Médera puxou uma das tapeçarias. O tecido desapareceu dentro da parede e revelou um túnel estreito. Ela entrou. Móretar a seguiu por uma passagem inclinada que descia por vários metros e depois voltava a subir.
Saíram numa sala seca, iluminada por lâmpadas vermelhas. O ar cheirava a madeira e metal. No centro havia uma caixa retangular, comprida o bastante para receber uma pessoa.
Uma mulher idosa repousava dentro dela. A pele clara parecia fina demais sobre os ossos, e os cabelos brancos cobriam parte do rosto. Móretar reconheceu a semelhança com o disfarce que Médera mostrara em Vésper.
— Ela está morta?
— Está dormindo. Marjone nasceu em Dracs e veio para Atlas depois da primeira morte. Foi a única vampira daquele planeta a chegar aqui. Sem sangue, o corpo entrou num sono profundo.
Médera se ajoelhou junto à caixa.
— Quando nos conhecemos, vimos um brilho uma na outra. Isso indicava uma origem próxima. O brilho não revela parentesco. Foram os nomes, as histórias e as pessoas que conhecíamos que nos permitiram descobrir que ela era minha bisavó.
— Ela sabia que você usaria sua identidade?
— Sabia que eu precisava de uma saída. Deixou a casa e o quite sob meus cuidados antes de adormecer. Nunca prometi que a saída seria honesta.
Médera tocou o rosto da mulher e alterou o próprio corpo. Rugas apareceram, os cabelos embranqueceram e os ombros se curvaram. Quando abriu os olhos, parecia a pessoa deitada diante dela.
— Marjone é conhecida por Poseidon?
— O bastante para ser recebida e pouco o bastante para ter desaparecido por dois séculos. Você será Torn, o homem que encontrou uma forma de produzir sangue sintético e despertou uma vampira de Dracs.
Móretar cobriu parte do rosto com escamas. A pele se tornou verde e os olhos se estreitaram.
— Um homem assim?
Médera examinou o resultado.
— Um pouco menos assustado com tudo o que vê.
Ela fechou a caixa de Marjone e acionou a proteção da sala.
— A partir de agora, você sempre soube quem eu sou.
— E quem é você?
Médera sorriu com o rosto da bisavó.
— Uma vampira que acaba de acordar com muita fome e assuntos pendentes no palácio.