Parte 36
Krakor passou a mão diante do rosto de Móretar. Uma camada transparente cobriu sua cabeça e se fechou ao redor do pescoço. Criou outra para si.
— Deveríamos ter feito isso quando entramos.
Móretar carregava Magibre. Krakor tomou Bornurar nos braços.
— Onde podemos deixá-los?
— No meu quarto. A cama fica longe das áreas comuns e ninguém virá até aqui enquanto o planeta estiver dormindo.
Subiram uma escada lateral. O castelo continuava silencioso. Móretar não sabia se a proteção chegara tarde demais, porém cada respiração dentro da cobertura lhe dava a sensação de que ainda transportava o vírus.
O quarto de Krakor tinha tecidos claros, madeira trabalhada e pequenos objetos dispostos com um cuidado inesperado.
— Nunca imaginei que você dormisse num lugar assim.
— Médera escolheu quase tudo. Ninguém mudou o quarto desde que partimos.
Deitaram Bornurar e Magibre lado a lado. Tim e Van se acomodaram entre os dois. As criaturas resistiram ao sono e mantiveram a meia-simbiose apenas nas mãos do casal, aquecendo-as.
Móretar tocou a testa da mãe através da cobertura.
— Acabei de encontrar vocês.
Krakor ficou junto à porta.
— Eles estão vivos. A energia ainda não foi retirada em quantidade perigosa.
— Elaryan disse que ficarão bem. Isso não torna a promessa confiável.
— Então voltaremos antes que ela precise estar certa.
Móretar olhou para Scélor no andar inferior, embora as paredes impedissem que o visse.
— Meu pai pediu que não tratássemos isso como abandono.
— Fecharei todas as passagens conhecidas para Key. Ninguém entra, ninguém sai. Depois encontramos um modo de acordá-los.
Móretar prometeu aos pais que voltaria e acompanhou Krakor pelo portal.
Saíram numa área vazia nos limites de Fóster. Krakor manteve distância das casas e fez surgir uma estrutura funda de pedra. Encheu-a com vantim, um líquido de cheiro agressivo usado para destruir microrganismos presos à pele, às roupas e aos cabelos.
— Entre.
— Com a cabeça?
— Principalmente com a cabeça.
Mergulharam. O líquido ardeu nos olhos e deixou um gosto amargo na boca. Quando saíram, Krakor aqueceu as coberturas transparentes até reduzi-las a matéria escura e seca. Depois destruiu a estrutura e o vantim.
Móretar tentou retirar o cheiro da pele com o vento.
— Não funciona — avisou Krakor. — O odor é parte da segurança.
— Ninguém chegará perto o suficiente para ser contaminado.
— Exatamente.
Móretar observou o terreno vazio que Krakor acabara de criar e desfazer.
— Você poderia ter produzido algo assim quando fomos presos.
— Conjurar matéria consome energia demais. Perto da Pasha, eu teria criado uma pedra pequena e desmaiado sobre ela.
— E ainda frequenta bares para comprar bebida.
Krakor pareceu ofendido.
— Jamais consuma algo que você mesmo conjurou. O organismo reconhece a matéria e reage. Às vezes ela não alimenta. Em casos piores, mata.
— Então por que criar uma banheira dentro da qual mergulhamos?
— Porque não bebemos o vantim.
Móretar cuspiu outra vez.
— Fale por você.
Seguiram até o palácio de Adwig. Hermes apareceu na entrada, colocou um vaso nas mãos de Krakor e outro nas de Móretar.
— Levem até as mesas do salão.
— O planeta de Key está sob ataque — disse Móretar.
Hermes retirou o vaso de suas mãos.
— Então você fica com o menor.
Desapareceu antes que Móretar pudesse explicar.
Krakor levou os dois vasos.
— Nunca discuta prioridades com alguém organizando uma festa.
Subiram a escadaria. Dafa estava perto da entrada do salão.
Móretar parou.
Ela se aproximou e o abraçou. O contato durou o tempo que os dois haviam passado sem saber se voltariam a se encontrar.
— Eu soube que você foi procurar Teleret — disse Dafa. — Adwig pediu que deixássemos o reencontro da família acontecer antes de aparecer.
— Eu procurei você quando chegamos.
— Estava com ela. Depois ajudei a reconhecer os que voltaram do plano espiritual.
Dafa se afastou o suficiente para olhar o rosto dele.
— E seus pais?
Móretar contou que os encontrara, perdera o pai durante a fuga e conseguira recuperá-lo. A última parte veio mais difícil.
— Os dois estão adormecidos em Key.
Dafa ouviu a explicação sobre o vírus enquanto caminhavam até Adwig e Médera. Krakor acrescentou detalhes sempre que julgava que Móretar tornava a história pouco dramática.
Adwig abandonou os preparativos.
— Morpheu criou uma simbiose com o vírus?
— Uma única consciência distribuída por todas as extensões — respondeu Móretar. — Ela obedece ao comando dele e transfere energia dos infectados para os Elfos Primordiais.
Dafa olhou para Adwig.
— O vírus dos Gigantes destruía o corpo que usava para sobreviver. Este aprendeu a preservar a rede, mesmo que consuma cada hospedeiro aos poucos.
— Se existe uma consciência, ela pode compreender o que Morpheu faz com ela — disse Adwig.
Médera segurou o braço da filha.
— Elaryan apareceu para contar tudo isso?
— E ordenou que voltássemos — respondeu Krakor. — Segundo ela, seremos importantes aqui.
— Ela não dá informação sem escolher o efeito que pretende causar — disse Adwig.
— Eu perguntei se estava nos conduzindo — contou Móretar. — Ela disse que espera apenas que façamos o que já faríamos.
Adwig riu de leve.
— É a forma preferida dela de conduzir alguém.
Athos entrou acompanhado por Sussurro. Os dois haviam verificado as pessoas que chegaram recentemente a Fóster e não encontraram sinais do mesmo sono.
Móretar repetiu o essencial. Athos pediu detalhes sobre Nordok, Hypnos e a Jutte. Quando soube que os pais de Móretar permaneciam em Key, fechou os olhos por alguns segundos.
— Vou bloquear as coordenadas do planeta nos portais que conhecemos — decidiu. — Ninguém deve viajar para lá até entendermos o contágio. Sussurro tentará acompanhar os corpos à distância.
— Elaryan disse que precisamos ficar aqui — falou Krakor.
— Isso não transforma a reunião em ordem dela — respondeu Athos. — Precisamos reunir o que cada grupo descobriu. Depois escolheremos o que fazer.
Adwig olhou para o salão preparado para o baile.
— Talvez devêssemos cancelar.
Hermes surgiu com tecidos dobrados sobre os braços.
— Quase todos que participarão já estão no palácio ou em Fóster desde antes da chegada de vocês. A reunião acontecerá de qualquer maneira. Música e comida não impedem que pensem.
Entregou uma composição de roupas a Móretar.
— Além disso, o rei aclamado não comparecerá vestido desse jeito.
— Eu não sou mais rei.
— Explique isso ao povo depois de trocar de roupa.
Hermes começou a conduzi-lo para uma sala lateral. Móretar olhou para Dafa. Ela sorriu ao perceber sua tentativa inútil de escapar.
— Isso é mesmo necessário? — perguntou ele.