Parte 23
Os primeiros recém-chegados caíram sobre quem estava próximo.
Móretar viu dentes alongados, sangue e pessoas que tornavam a se levantar segundos depois de serem mordidas. O pânico se espalhou pelo Grande Arco.
— Evento de morte em massa — disse Hermes. — Vieram todos do mesmo mundo.
Cronos acompanhou um dos corpos atravessar a multidão em velocidade impossível.
— Vampiros.
Móretar saltou do Arco e criou uma corrente de ar entre os recém-chegados e um grupo de crianças. A força derrubou vampiros e habitantes juntos. Ele reduziu a intensidade antes de lançá-los contra as construções.
— Levem as crianças para o acesso inferior! — gritou.
Sália abriu caminho. Irkaré reuniu pessoas do setor de transporte e utilizou dois veículos para retirar feridos. Ninguém esperou autorização administrativa.
Móretar tentou conter outro vampiro com terra. A criatura rompeu a camada antes que ele a fechasse. Uma mulher mordida se levantou atrás dele e atacou o próprio companheiro.
— Eles continuam transformando o povo — disse Hermes.
— Ajude a retirar quem ainda não foi ferido.
O antigo rei permaneceu no alto do Arco.
— Eles sentem nosso sangue. Precisamos proteger a fonte de Fóster e a propriedade real.
— Proteja as pessoas que construíram as duas.
Cronos não acompanhava a discussão. Olhava para um grupo que atravessava a praça.
Um homem manejava uma espada contra os vampiros. Cada golpe que separava uma cabeça fazia o corpo desaparecer. Ao lado dele, três pessoas defendiam a passagem e tentavam proteger um rapaz que insistia em voltar para ajudar quem caía.
Cronos saltou.
Asas se formaram durante a queda. Ele lançou fogo sobre os vampiros mais próximos. As chamas não os destruíram. Corpos incendiados continuaram avançando e espalharam o fogo pela multidão.
Móretar conteve o incêndio em uma das construções. Quando tornou a procurar Cronos, o rei já havia pousado diante do grupo.
— Passe a Excalibur para mim.
O homem que segurava a espada manteve a lâmina baixa.
— Tente pegar.
Uma das pessoas do grupo assumiu uma simbiose. O corpo se tornou uma criatura enorme, com forma de ave marinha, bico largo e asas pesadas. Jatos de água derrubaram vampiros e apagaram parte do fogo.
Cronos estendeu a mão.
— Volte para mim, Excalibur.
A espada tremeu. Seu portador segurou o punho com as duas mãos.
Outra simbiose surgiu. Um urso branco saltou sobre Cronos, prendeu seus braços e os cobriu de gelo. O rei aqueceu o próprio corpo até transformar a prisão em vapor. Depois torceu os membros da criatura e a derrubou.
O rapaz protegido pelo grupo começou a mudar. Luz atravessou seus olhos e fogo nasceu dentro da boca.
Cronos tornou a apontar para a espada.
— Excalibur. Cumpra seu destino e siga para aquele a quem você deve pertencer.
A lâmina escapou das mãos de quem a segurava.
Cronos sorriu quando ela voou em sua direção.
A ponta atravessou o peito dele.
Uma luz se prendeu ao contorno da espada. O corpo de Cronos desapareceu, e a Excalibur continuou avançando.
Móretar estava novamente sobre o Grande Arco, usando o vento para afastar vampiros das escadas. Viu a arma subir em sua direção e ergueu a mão.
O punho encontrou seus dedos.
O impacto trouxe imagens que não pertenciam àquela vida: guerras, governantes, mãos diferentes segurando a mesma lâmina, planetas ligados por caminhos que ele não sabia abrir. Móretar quase a soltou.
A luz retirada de Cronos percorreu o metal. Dentro da Excalibur, outra claridade respondeu. As duas se misturaram e se expandiram acima da praça.
Ganharam asas, uma cabeça alongada e patas formadas por matéria branca. A criatura parecia uma nuvem comprimida em corpo animal.
Seu nome chegou junto com a luz.
Memento.
Quando iluminou a praça, os vampiros pararam. A fome desapareceu dos movimentos, embora o sangue continuasse em suas bocas. As pessoas mordidas deixaram de atacar. O silêncio se espalhou na mesma direção da claridade.
Móretar sentiu o tiranossauro recuar dentro dele.
Memento recolheu as asas e voltou à espada. Em seguida, atravessou o braço de Móretar.
O mundo se abriu dentro de sua cabeça.
Ele reconheceu ruas que nunca percorrera, depósitos que nunca visitara e máquinas cujo funcionamento jamais aprendera. Sabia quantas pessoas ocupavam alojamentos, quais casas permaneciam vazias e que parte da produção era perdida para preservar preços definidos pelos administradores.
Também sentia os vampiros. A luz podia conter a sede durante algumas horas. Outra descarga com força semelhante atravessaria as partículas que mantinham aqueles corpos e os mataria.
Móretar tentou afastar o fluxo de informações. Memento continuou mostrando conexões entre pessoas, construções, alimentos e energia.
Alguém se ajoelhou abaixo do Arco.
Era o homem que carregara a Excalibur. Outros integrantes do grupo permaneceram de pé, surpresos, enquanto vampiros se curvavam ao redor deles.
Os habitantes de Fóster começaram a fazer o mesmo. Alguns pronunciavam o nome de Móretar. Outros repetiam a profecia. Hermes desceu a cabeça antes de dobrar os joelhos.
Móretar olhou para a cidade prostrada.
Horas antes, aquelas pessoas não podiam escolher o próprio trabalho. Agora repetiam um movimento iniciado por uma espada, por uma criatura desconhecida e por uma promessa distribuída antes de ele nascer.
Ele desceu do Grande Arco.
Em vez de permanecer acima da multidão, apoiou um joelho no chão diante dela.
Algumas pessoas levantaram o rosto. Outras continuaram curvadas.
Móretar ficou de pé e pediu que se levantassem. A praça obedeceu como um único corpo.
A obediência o assustou mais do que a batalha.