Parte 23 Móretar - Poder Humilde · Capítulo 23 de 49
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Parte 23

Os primeiros recém-chegados caíram sobre quem estava próximo.

Móretar viu dentes alongados, sangue e pessoas que tornavam a se levantar segundos depois de serem mordidas. O pânico se espalhou pelo Grande Arco.

— Evento de morte em massa — disse Hermes. — Vieram todos do mesmo mundo.

Cronos acompanhou um dos corpos atravessar a multidão em velocidade impossível.

— Vampiros.

Móretar saltou do Arco e criou uma corrente de ar entre os recém-chegados e um grupo de crianças. A força derrubou vampiros e habitantes juntos. Ele reduziu a intensidade antes de lançá-los contra as construções.

— Levem as crianças para o acesso inferior! — gritou.

Sália abriu caminho. Irkaré reuniu pessoas do setor de transporte e utilizou dois veículos para retirar feridos. Ninguém esperou autorização administrativa.

Móretar tentou conter outro vampiro com terra. A criatura rompeu a camada antes que ele a fechasse. Uma mulher mordida se levantou atrás dele e atacou o próprio companheiro.

— Eles continuam transformando o povo — disse Hermes.

— Ajude a retirar quem ainda não foi ferido.

O antigo rei permaneceu no alto do Arco.

— Eles sentem nosso sangue. Precisamos proteger a fonte de Fóster e a propriedade real.

— Proteja as pessoas que construíram as duas.

Cronos não acompanhava a discussão. Olhava para um grupo que atravessava a praça.

Um homem manejava uma espada contra os vampiros. Cada golpe que separava uma cabeça fazia o corpo desaparecer. Ao lado dele, três pessoas defendiam a passagem e tentavam proteger um rapaz que insistia em voltar para ajudar quem caía.

Cronos saltou.

Asas se formaram durante a queda. Ele lançou fogo sobre os vampiros mais próximos. As chamas não os destruíram. Corpos incendiados continuaram avançando e espalharam o fogo pela multidão.

Móretar conteve o incêndio em uma das construções. Quando tornou a procurar Cronos, o rei já havia pousado diante do grupo.

— Passe a Excalibur para mim.

O homem que segurava a espada manteve a lâmina baixa.

— Tente pegar.

Uma das pessoas do grupo assumiu uma simbiose. O corpo se tornou uma criatura enorme, com forma de ave marinha, bico largo e asas pesadas. Jatos de água derrubaram vampiros e apagaram parte do fogo.

Cronos estendeu a mão.

— Volte para mim, Excalibur.

A espada tremeu. Seu portador segurou o punho com as duas mãos.

Outra simbiose surgiu. Um urso branco saltou sobre Cronos, prendeu seus braços e os cobriu de gelo. O rei aqueceu o próprio corpo até transformar a prisão em vapor. Depois torceu os membros da criatura e a derrubou.

O rapaz protegido pelo grupo começou a mudar. Luz atravessou seus olhos e fogo nasceu dentro da boca.

Cronos tornou a apontar para a espada.

— Excalibur. Cumpra seu destino e siga para aquele a quem você deve pertencer.

A lâmina escapou das mãos de quem a segurava.

Cronos sorriu quando ela voou em sua direção.

A ponta atravessou o peito dele.

Uma luz se prendeu ao contorno da espada. O corpo de Cronos desapareceu, e a Excalibur continuou avançando.

Móretar estava novamente sobre o Grande Arco, usando o vento para afastar vampiros das escadas. Viu a arma subir em sua direção e ergueu a mão.

O punho encontrou seus dedos.

O impacto trouxe imagens que não pertenciam àquela vida: guerras, governantes, mãos diferentes segurando a mesma lâmina, planetas ligados por caminhos que ele não sabia abrir. Móretar quase a soltou.

A luz retirada de Cronos percorreu o metal. Dentro da Excalibur, outra claridade respondeu. As duas se misturaram e se expandiram acima da praça.

Ganharam asas, uma cabeça alongada e patas formadas por matéria branca. A criatura parecia uma nuvem comprimida em corpo animal.

Seu nome chegou junto com a luz.

Memento.

Quando iluminou a praça, os vampiros pararam. A fome desapareceu dos movimentos, embora o sangue continuasse em suas bocas. As pessoas mordidas deixaram de atacar. O silêncio se espalhou na mesma direção da claridade.

Móretar sentiu o tiranossauro recuar dentro dele.

Memento recolheu as asas e voltou à espada. Em seguida, atravessou o braço de Móretar.

O mundo se abriu dentro de sua cabeça.

Ele reconheceu ruas que nunca percorrera, depósitos que nunca visitara e máquinas cujo funcionamento jamais aprendera. Sabia quantas pessoas ocupavam alojamentos, quais casas permaneciam vazias e que parte da produção era perdida para preservar preços definidos pelos administradores.

Também sentia os vampiros. A luz podia conter a sede durante algumas horas. Outra descarga com força semelhante atravessaria as partículas que mantinham aqueles corpos e os mataria.

Móretar tentou afastar o fluxo de informações. Memento continuou mostrando conexões entre pessoas, construções, alimentos e energia.

Alguém se ajoelhou abaixo do Arco.

Era o homem que carregara a Excalibur. Outros integrantes do grupo permaneceram de pé, surpresos, enquanto vampiros se curvavam ao redor deles.

Os habitantes de Fóster começaram a fazer o mesmo. Alguns pronunciavam o nome de Móretar. Outros repetiam a profecia. Hermes desceu a cabeça antes de dobrar os joelhos.

Móretar olhou para a cidade prostrada.

Horas antes, aquelas pessoas não podiam escolher o próprio trabalho. Agora repetiam um movimento iniciado por uma espada, por uma criatura desconhecida e por uma promessa distribuída antes de ele nascer.

Ele desceu do Grande Arco.

Em vez de permanecer acima da multidão, apoiou um joelho no chão diante dela.

Algumas pessoas levantaram o rosto. Outras continuaram curvadas.

Móretar ficou de pé e pediu que se levantassem. A praça obedeceu como um único corpo.

A obediência o assustou mais do que a batalha.

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