Parte 47
Móretar atravessou o portal e quase perdeu o equilíbrio.
O ar de Paradise mudava de direção a cada ataque. Calor, gelo e descargas atravessavam a planície, acompanhados por alterações na gravidade que faziam pedras subir e despencar poucos metros adiante. Os anjos ocupavam o céu e avançavam contra uma passagem protegida por paredes de terra.
Do outro lado daquele corredor, pessoas recém-renascidas tentavam alcançar as colinas. Muitas ainda estavam sem roupas. Algumas carregavam crianças; outras precisavam aprender a usar o novo corpo enquanto fugiam.
Móretar encontrou Adwig entre os combatentes. Krakor, Médera e Teleret estavam próximos dela. Dárion permanecia junto às marcas abertas no chão, ajudando uma elfa a sustentar a passagem.
A segunda marca rachou.
Uma das paredes começou a ceder.
Oberon reuniu energia nas mãos, mas Móretar segurou seu braço.
— Se lançar tudo contra a parede, vai derrubar quem está perto dela.
— Então diga o que fazer.
Móretar olhou para as linhas que partiam das marcas. Eram diferentes das ligações de Ux, porém distribuíam a força do mesmo modo: cada ponto sustentava apenas uma parte do caminho.
— Reforcem as marcas que ainda respondem. Cada grupo escolhe uma. Ninguém concentra a energia sozinho.
Meili e Iduna separaram as fadas. Oberon abriu as mãos e acompanhou o primeiro grupo, sem tentar comandar os demais. A luz das asas percorreu o chão e se dividiu entre as três marcas preservadas.
A parede parou de cair.
Sarilyan percebeu o reforço.
— Retirem a âncora! — gritou. — Vamos fechar o corredor atrás dos últimos.
Dárion arrancou uma peça escura do centro da formação. As paredes perderam altura e desabaram em sequência, cobrindo a passagem quando a última família alcançou as colinas.
Três anjos desceram sobre os que haviam ficado para trás.
Móretar lançou uma rajada contra o primeiro. O segundo desviou e procurou seu peito com a lâmina. Excalibur conteve o golpe. Dafa chegou pela lateral e envolveu o rosto do agressor com água. Ele tentou romper a camada, mas ela aumentou a pressão até Móretar conseguir arremessá-lo contra o chão.
O terceiro avançou sobre uma mulher caída. Carl surgiu entre os dois com um equipamento de Coneli preso ao braço. A descarga atingiu as asas do anjo e o afastou.
— Você trouxe isso de Ux? — perguntou Móretar.
— Eu trouxe tudo que consegui carregar.
Carl tentou disparar outra vez. O aparelho acendeu com intensidade excessiva e queimou parte do suporte.
Hertho o puxou para trás de uma pedra. Coneli abriu a peça danificada e retirou dois condutores derretidos.
— A carga entrou pelo lado errado — disse ela.
Carl afastou a roupa do peito. Uma luz avermelhada se espalhava sob a pele, acompanhando as batidas do coração.
— Veio daqui.
Móretar conhecia aquela luz. Vira o mesmo tom entre as armas reunidas durante as buscas de Athos.
— O que você carrega?
— O Cálice. Encontraram uma forma de mantê-lo dentro de mim antes que eu viesse para Key.
— Por quê?
— Porque ele amplia a energia de outros artefatos. Fora do meu corpo, qualquer pessoa poderia usá-lo. Aqui dentro, ao menos precisa passar por mim.
Coneli examinou o brilho.
— Ele reagiu ao equipamento.
— Reage a qualquer coisa que acumule poder perto demais — respondeu Carl. — Por isso evito armas místicas.
Móretar olhou para Excalibur.
— E atravessou o portal ao meu lado.
— Paradise estava caindo.
Uma explosão desfez a pedra que os protegia. Dafa ergueu água do canal e desviou os fragmentos. Carl ajustou o aparelho de Coneli antes que ela terminasse o reparo.
— Reduza a entrada — disse ele. — O Cálice completa o restante.
— Você sabe o que isso pode fazer com seu corpo?
— Ainda não.
Carl disparou. A energia se dividiu em três feixes e atingiu os anjos que avançavam sobre a retirada. Meili e outras fadas aproveitaram a abertura para carregar os feridos.
Móretar puxou Carl para longe do equipamento.
— Não descubra o limite no meio desta batalha.
— Foi o que você fez com a espada para recuperar Dafa.
— E quase entreguei Ux a Odin.
Carl recolheu o aparelho.
— Então me avise se eu estiver prestes a cometer o mesmo erro.
— Vou tirar isso da sua mão antes.
Carl sorriu e voltou para perto de Hertho.
Emma lutava perto do canal com o peito coberto de sangue. O coração que Gabriel arrancara já se formara outra vez, e uma das guerreiras permanecia junto dela enquanto o novo órgão recuperava o ritmo.
Athos repetiu o aviso para que todos protegessem o coração. Dois corpos espalhados pela planície não haviam desaparecido nem retornado. Os anjos conseguiam alcançar a partícula essencial pelo peito e impedir a continuidade.
Móretar procurou Dafa.
Ela já o observava.
— Eu acabei de voltar — disse.
— Fique perto de mim.
— Só se você fizer o mesmo.
Eles avançaram juntos.
Móretar usava o vento para afastar os ataques do peito dos aliados. Dafa conduzia água pelas aberturas deixadas por Excalibur. Quando um anjo tentava alcançar um ferido, as fadas desciam em grupos, retiravam a pessoa e se dispersavam antes do contra-ataque.
Adwig surgiu à frente deles com o cetro nas mãos.
— Você voltou — disse ao ver Dafa.
— Móretar terminou o que precisava fazer. Eu também.
Adwig olhou para Mantelar, que lutava perto das colinas em forma de lobo.
— Depois você me explica.
— Foi o que ele disse.
Teleret caiu entre elas. Médera o puxou antes que uma lâmina atingisse seu peito. Móretar conteve o agressor com Excalibur, e Adwig descarregou o cetro até o corpo desaparecer.
O anjo retornou alguns metros acima, porém já estava sendo arrastado em outra direção.
Gabriel absorvia o próprio exército.
Um ser alado tentou fugir. As asas se desfizeram, e a energia restante entrou no peito de Gabriel. Outros seguiram o mesmo caminho. A cada corpo incorporado, a pressão sobre o campo aumentava.
O cetro escapou das mãos de Adwig. Caiu entre as pedras e começou a emitir linhas de várias cores.
Excalibur respondeu.
O brilho percorreu a lâmina e alcançou o braço de Móretar. A espada tentou virar em sua mão, atraída pelo cetro.
Carl interrompeu um disparo. A luz do Cálice reapareceu sob sua pele.
— Móretar.
— Eu vi.
Athos também havia percebido. Chamou Adwig e lhe ofereceu a espada que carregava.
Móretar abriu caminho para ela, interceptando um anjo que descia pelo lado direito. A pressão de Gabriel quase o derrubou, mas Dafa sustentou seu corpo com uma corrente de água até o golpe terminar.
Adwig parou diante de Athos.
Ele lhe contou que suas imagens terminavam com a espada nas mãos dela. Não sabia tudo o que aconteceria até aquele momento. Adwig ouviu, observou Gabriel e pegou a arma.
— Então abra o caminho.
Elaryan lançou os últimos anjos para os lados. André, Emma e Henri atacaram em sequência. Móretar ergueu Excalibur e enviou uma rajada contra a barreira que protegia Gabriel.
Athos disparou energia contra a espada entregue a Adwig.
— Que todas as armas se unam em sua forma original.
Excalibur deixou as mãos de Móretar.
O cetro se ergueu entre as pedras. O tridente escapou de Médera. Armas atravessaram o campo vindas de todos os lados e desapareceram na lâmina de Adwig.
Carl dobrou o corpo.
A luz do Cálice atravessava sua pele com força suficiente para iluminar os ossos.
Ele levou a mão ao peito.
— Acho que encontrou o limite.