Parte 17
A passagem de Athos terminou entre árvores altas. O chão estava coberto por folhas largas, e uma névoa baixa avançava entre as raízes.
Médera olhou ao redor.
— Onde estamos?
— Zen — respondeu Athos. — Krakor escolheu este planeta como ponto seguro antes de partir comigo.
Ele apontou para uma abertura entre as copas. Duas luas eram visíveis apesar da claridade.
— Silency e eu vamos descer ao submundo de Ux. Hades aprisiona um povo naquela região e já me matou durante outro confronto. Não levarei vocês depois do que aconteceu em Atlas.
— Você nos trouxe para esperar? — perguntou Móretar.
— O tempo de Zen corre mais depressa. Para vocês, a espera será curta. Quando terminarmos, reunirei o grupo aqui.
— E depois iremos buscar Adwig — disse Médera.
— Se ela ainda estiver com Poseidon, iremos.
Athos abriu outra passagem e desapareceu.
Médera observou o lugar deixado por ele.
— Será que escolhem as florestas por algum motivo ou apenas gostam de nos abandonar entre árvores?
— Abrir uma passagem no centro de uma cidade exigiria explicações.
— Você tem o péssimo hábito de encontrar lógica nas decisões de Athos.
Um estalo interrompeu a resposta. Galhos se moveram adiante.
Móretar cobriu os braços com escamas. Médera assumiu os olhos da górgona e seguiu primeiro. Cruzaram um trecho de vegetação fechada até encontrar uma clareira.
Adwig e Mantelar se levantaram junto a uma árvore. Estavam vestidos. A espada de Ferne permanecia sobre a grama, ao alcance da mão de Adwig.
Ela reconheceu as formas usadas em Atlantis.
— Foi Poseidon quem mandou vocês?
A aparência de Marjone se desfez. Médera surgiu diante da filha.
Móretar fez a pele reptiliana recuar.
— Mãe?
Médera correu até ela. Adwig recebeu o abraço com os braços ainda afastados, surpresa demais para reagir. Depois apertou a mãe contra o corpo.
— Você me deu a oportunidade de sair de lá — disse Médera. — Eu não sabia se conseguiria encontrá-la depois.
— O que vocês faziam em Atlantis?
— Investigávamos Poseidon — respondeu Móretar. — Queríamos descobrir o que ele sabia sobre Ferne e Elaryan. Athos nos retirou de Atlas depois que vocês atravessaram e nos trouxe para Zen.
— Krakor havia escolhido este planeta como ponto seguro antes da missão — explicou Médera. — Athos acreditou que poderíamos esperar por ele aqui.
Adwig mostrou a espada.
— Ferne também tinha a rota armazenada. Foi assim que chegamos.
Móretar examinou a arma sem tocá-la.
— Então Krakor, Athos e Ferne escolheram o mesmo esconderijo por conhecerem este lugar.
— Não foi uma coincidência — disse Mantelar. — Os três conheciam Zen como rota segura.
Médera tocou o rosto da filha.
— O que fizeram com você?
Adwig contou que fora levada por uma rede controlada por Elaryan. Poseidon fornecera os meios, e Ferne executara as etapas. O soro permitia determinar o planeta em que uma pessoa renasceria. Haviam matado Adwig repetidas vezes e escolhido mundos que alterassem seu corpo a cada retorno.
— Quantas vezes? — perguntou Médera.
— O bastante para que eu parasse de confiar no despertar.
Médera a abraçou outra vez.
— Sinto muito.
— Não foram apenas perdas. Meu corpo mudou e eu aprendi coisas que talvez nunca aprendesse de outra forma.
Adwig olhou para Mantelar. Ele respondeu com um sorriso discreto.
— Ferne morreu nos ajudando a fugir — continuou ela. — Foi escolha dele no fim, mas isso não apaga o que fez antes.
— Não deveria apagar — disse Móretar.
O silêncio que veio depois fez Móretar recordar o último nível do Quixar. Ainda sentia nas mãos o corpo de Médera. Também se lembrava da primeira coisa que pensara quando Adwig desapareceu pelo portal de Poseidon.
Médera soltou a filha e respirou fundo.
— Móretar e eu nos aproximamos durante a missão.
Adwig olhou primeiro para a mãe, depois para ele.
— E meu pai?
— Seu pai e eu nos amamos — respondeu Médera. — Isso não significa que retomamos hoje uma relação interrompida por séculos. Ainda precisamos descobrir quem nos tornamos.
— E Móretar faz parte dessa descoberta?
— Fez parte do que vivi enquanto Krakor não estava comigo. Se eu e seu pai decidirmos tentar novamente, ele saberá. Liberdade não depende de mentira.
Adwig se voltou para Móretar.
— E Dafa?
Ele sentiu a vontade de adiar a resposta. Médera permaneceu em silêncio.
— Preciso conversar com ela. O que sinto agora não me autoriza a decidir sozinho o significado do que vivemos.
Mantelar se aproximou de Adwig.
— Ninguém aqui voltou para a mesma relação que deixou. Nem mesmo nós.
— Mas nós sabíamos o que estava acontecendo quando escolhemos tentar de novo — respondeu ela.
— E é isso que sua mãe está dizendo que fará.
Médera sustentou o olhar da filha.
— Relações podem ter formas diferentes, Adwig. O que não podem é depender da ignorância de quem também participa delas.
— Não sei se concordo com tudo — disse Adwig. — Mas sei que não posso decidir sua vida por você. Só não quero ver nossa família reconstruída sobre coisas que ninguém teve coragem de contar.
— Nem eu.
Móretar olhou para a floresta.
— Quando encontrarmos Dafa, a conversa será minha. Não de Médera e não sua.
— Eu sei.
Adwig tornou a abraçar a mãe. Dessa vez, Médera chorou sem tentar esconder.
Mantelar tocou o ombro de Móretar e indicou uma trilha que saía da clareira.
— Vamos conhecer outra parte da floresta.
Móretar acompanhou o meio-gigante. Atrás deles, Adwig começou a contar à mãe o que acontecera durante os séculos em que estiveram separadas.