Parte 15
Móretar tentou alcançar a passagem por onde haviam entrado. Bastou tirar um pé do teto para que a força central o puxasse de lado. Bateu o ombro na parede e ficou preso ali, enquanto Médera ria do outro extremo da sala.
— Você podia ter avisado.
— Eu nunca cheguei tão longe.
As pessoas caminhavam sobre todas as superfícies. Algumas saltavam de uma parede para outra e eram desviadas no meio do percurso. Outras permaneciam deitadas, deixando a gravidade decidir onde cairiam. No centro, uma esfera branca concentrava a luz e repelia os corpos.
Móretar procurou uma escada, uma porta ou qualquer marca semelhante às instruções dos andares anteriores. Encontrou apenas o controlador de acesso ao lado de uma passagem fechada.
— O que falta? — perguntou Médera.
— Exigência incompleta.
— Qual exigência?
— Exigência incompleta.
Ela repetiu a pergunta de outras maneiras. A resposta permaneceu igual.
Perto deles, um casal trocava beijos enquanto tentava se apoiar no teto. Outra pessoa despejou uma bebida sobre o próprio rosto e esperou alguma reação do controlador. Nada aconteceu.
O Valquer alterava a distância entre as coisas. Móretar via a esfera central crescer e encolher no mesmo ritmo da música. As escamas nos braços começaram a surgir.
— Controle isso — disse Médera.
— Estou tentando.
— Tente sem olhar para a luz.
Ele fechou os olhos. Sentiu o tiranossauro avançar dentro de seus músculos, atraído pela ameaça que o corpo ainda não compreendia. Dobrou os dedos, conteve as garras e respirou até a pele voltar ao normal.
Quando abriu os olhos, Médera estava presa acima dele, com os braços afastados. Tentava alcançar o centro da sala.
— O que está fazendo?
— Todos procuram uma saída nas paredes. O nome deste andar é Queda Livre, e nada aqui permite cair.
Ela estendeu a mão.
— Jogue-me contra a esfera.
— Isso pode esmagar você.
— Também pode nos tirar daqui.
Móretar firmou os pés. Agarrou o pulso de Médera e a puxou até conseguir lançá-la. O corpo dela atravessou a faixa em que as forças se dividiam e parou perto da luz.
Uma inscrição surgiu sobre a passagem fechada: SAÍDA RÁPIDA.
O controlador liberou o acesso.
Médera soltou uma gargalhada. Estendeu os braços na direção de Móretar e usou o impulso dele para puxá-lo. Os dois foram engolidos pela esfera.
Caíram descalços sobre uma superfície morna.
A sala seguinte parecia aberta para um céu claro. Móretar só percebeu a parede quando se aproximou e viu a própria imagem refletida entre as nuvens. No centro, uma fonte lançava água sobre a escultura de um casal. O jato surgia no alto, sem tubulação visível, e se desfazia antes de alcançar o chão.
Uma placa pediu que retirassem os calçados. Médera obedeceu e pisou na grama que começava depois da fonte.
Móretar se abaixou para tocar o solo. As folhas eram vivas. Sob elas, uma camada fina de terra cobria uma estrutura rígida.
— Tudo isso dentro de um clube — disse ele.
— Poseidon gosta de provar que pode construir o impossível e cobrar para que as pessoas vejam.
Seguiram por um caminho cercado por árvores. Guirlandas de flores cresciam ao longo de arcos transparentes. Botões se abriam, perdiam as pétalas e voltavam a nascer antes que eles atravessassem cada túnel.
— Essência de fada — disse Médera. — Deve ser parte do que mantém o jardim.
— Então Atlas negocia até o que rouba de outros povos.
— Atlas chama isso de comércio quando quem compra tem poder para escolher o nome.
O caminho terminou em uma névoa espessa. O chão cedeu sob os pés como uma nuvem compacta. Havia assentos atrás de cortinas de vapor, ocupados por pessoas cujos rostos apareciam apenas quando se moviam.
Uma voz falou de algum ponto acima deles:
— A partir daqui, deixem as roupas na faixa vermelha. Elas serão devolvidas na saída.
Móretar encontrou a faixa junto à parede.
— Isso também é uma exigência?
— Ninguém chega ao último nível por acidente — respondeu a voz.
Médera fez as roupas desaparecerem e atravessou a névoa. Móretar demorou mais. Guardou a moeda que restava entre as peças e deixou tudo sobre a faixa.
O corpo de Médera aparecia e sumia entre o vapor. Ele conhecia a habilidade que ela tinha para alterar a própria forma, embora isso não diminuísse o desejo que sentiu ao vê-la. O Valquer tornava cada movimento mais nítido do que o restante do ambiente.
— Marjone devia parecer mais velha — disse ele.
— O rosto, talvez. Uma vampira que dormiu por dois séculos não precisa acordar curvada.
Ela percebeu para onde Móretar olhava e se aproximou.
— Torn pode encarar a mulher que salvou.
— Torn é seu escravo, pelo que decidiu na entrada.
— E você continua irritado.
— Isso ajuda o disfarce.
Médera sorriu e passou por ele.
Uma conversa surgiu além da cortina seguinte.
— Fazia muito tempo que eu não vinha. A essência das fadas ainda é a melhor parte deste lugar.
Médera parou. O sorriso desapareceu.
Móretar reconheceu a voz antes que ela dissesse:
— Poseidon.
Dois homens estavam sentados entre as nuvens. Um deles tinha cabelos claros, corpo largo e uma confiança que ocupava o espaço antes de qualquer movimento. Eros permanecia ao lado, observando os recém-chegados com curiosidade.
Poseidon se levantou.
— Alguém venceu o último andar? Há quanto tempo isso não acontece, Eros?
Médera recuperou a expressão de Marjone. O rosto ganhou marcas discretas, os cabelos mudaram e a pele perdeu parte do brilho. Móretar cobriu o corpo com escamas verdes e alterou o contorno dos olhos.
— Perdoe a surpresa, majestade — disse ela. — Uma vampira desperta depois de dois séculos e encontra o rei antes da primeira noite de diversão.
Poseidon se aproximou.
— Marjone?
— Ainda reconhece uma súdita.
— Afrodite procurou por você em mais de um planeta.
— Procurou mal. Tenho doze casas apenas em Atlantis. Ao menos tinha antes de me declararem morta.
Poseidon riu, mas os olhos passaram de Médera para Móretar. — E quem é ele?
— Torn. Paguei uma fortuna para que encontrasse uma forma de me despertar. Ele aprendeu a produzir sangue sintético no próprio corpo.
Móretar sustentou o olhar do rei. Médera havia ensaiado a história; ouvir a mentira diante de Poseidon tornou o risco maior do que qualquer preparação.
— Você continua dependendo de sangue? — perguntou Poseidon.
— O despertar não corrigiu tudo.
— Poderia ter escolhido morrer.
— E abandonar propriedades, influência e dois séculos de patrimônio? Prefiro os problemas que conheço.
Poseidon caminhou ao redor dela. — Uma vampira completa outra vez. Talvez esteja tão poderosa quanto eu.
— Não cometeria esse engano.
Médera respondeu com facilidade, porém os dedos se fecharam junto à perna. Móretar percebeu o esforço para conservar a voz.
— Então demonstre — disse Poseidon.
Eros inclinou a cabeça. O ar ficou mais quente. O cheiro das flores se tornou forte demais, e o sangue pareceu acompanhar as batidas da música que vinha dos andares inferiores.
Poseidon abriu os braços.
— Estamos entre pessoas que deixaram qualquer pudor na entrada. Ajoelhe-se diante do seu rei. Afrodite não precisa saber como comemoramos seu retorno.
A repulsa atravessou o rosto de Médera antes que ela conseguisse escondê-la.
Móretar sentiu as garras rasgarem a ponta dos dedos. Calculou a distância até o pescoço de Poseidon e procurou Eros na névoa.
Médera se ajoelhou.