Parte 38 Móretar - Poder Humilde · Capítulo 38 de 49
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Parte 38

A pista parecia próxima desde a entrada. Depois de vários passos, Móretar percebeu que a distância quase não diminuía.

Adwig parou.

— O palácio está alongando o caminho.

Athos observou a inclinação discreta do piso.

— O espaço se expande sem retirar o restante do salão do campo de visão. Vocês enxergam o destino e percorrem outra medida.

Adwig voltou o rosto para uma das paredes.

— Quero um caminho direto até a pista.

A inclinação desapareceu. Duas colunas se afastaram e revelaram uma passagem curta.

— Pelo menos ele ouviu — disse Móretar.

— Quero ter certeza de que continuará ouvindo quando eu pedir para sair.

Instrumentos tocavam sem músicos. Cordas vibravam, tambores respondiam ao ritmo e pequenos tubos metálicos produziam notas que Móretar nunca ouvira em Inc.

— Hermes deixou tudo funcionando sozinho?

— Ele parece capaz de automatizar qualquer tarefa que considere parte de uma casa — respondeu Adwig. — Algumas Fadas faziam coisas parecidas, não faziam?

Móretar reduziu o passo.

As lembranças chegaram juntas: a família, o povo de Inc, as construções que conhecera antes da guerra e o tempo em que seus poderes cabiam dentro de uma vida simples.

— Desculpe — disse Adwig. — Não queria levar você para um lugar doloroso.

— Também há coisas boas. Pensei em mostrar tudo isso aos meus pais. Depois levar os dois até minha irmã. Passei tanto tempo acreditando que estava sozinho que ainda não sei o que fazer com uma família espalhada pelo Universo.

— Teleret preferiu descansar. Ficou preso durante muito tempo. Uma festa cheia de desconhecidos parecia outra prisão para ele.

— Fez bem. Haverá outros bailes.

Dafa os alcançou carregando duas taças e pequenos empanados.

— Vocês saíram para dançar e transformaram a caminhada numa reunião de melancólicos.

Entregou uma bebida a Adwig e outra a Móretar.

— É doce e não derruba ninguém antes da primeira música. Foi o máximo que consegui garantir.

— Você já provou? — perguntou Móretar.

— Duas vezes. Pela segurança de vocês.

Dafa seguiu para a pista com Arthur e Bel. Adwig provou a bebida.

— Ela pretende dançar com você? — perguntou Móretar.

— Depois. Foi uma promessa feita antes de você me convidar.

Móretar assentiu. Uma bandeja passou perto deles. Tentou alcançar outro empanado, mas o objeto mudou de direção para servir um grupo mais distante.

Tentou novamente. A bandeja desviou.

Duas porções se ergueram e flutuaram até sua mão.

Krakor estava atrás deles.

— Você controla vento, água e uma quantidade indecente de energia. Carrega uma varinha e uma das armas mais poderosas do Universo. Não precisa disputar comida com uma bandeja.

— Eu podia ter pedido.

— Também podia ter usado seus poderes.

Krakor seguiu até Médera.

Móretar ofereceu uma porção a Adwig.

— Ainda esqueço o que consigo fazer.

— Ou não vê motivo para usar poder em tudo.

— Krakor considera isso inexperiência.

— Krakor usa teletransporte para evitar atravessar uma sala.

— E eu continuarei defendendo essa escolha — gritou ele de longe.

Móretar riu. Adwig também.

Chegaram perto da pista. A música ainda permitia que os convidados dançassem sem organização. Dafa passou por eles girando, sem derramar a bebida que carregava.

Móretar acompanhou seu movimento. Quando voltou para Adwig, encontrou-a observando-o.

— Existe alguma coisa entre nós? — perguntou.

Adwig não fingiu surpresa.

— Existe. Ainda não sei o que fazer com isso.

— Krakor chegou à mesma conclusão com muito menos informação.

— Ele tem séculos de prática em se envolver na vida alheia.

O riso afastou parte da tensão, mas não a pergunta.

Adwig segurou a taça com as duas mãos.

— Mantelar continua desaparecido. Eu pensei nele durante todo o tempo e adiei a busca porque tinha medo do que encontraria. Também vivi coisas com Dafa e com outra pessoa. Algumas partes dessas histórias não pertencem somente a mim.

— Eu estive com Médera — disse Móretar. — E com Dafa.

— Eu sei.

— Nenhuma das duas experiências foi pequena. Só não sei o nome que terão quando tudo deixar de acontecer com tanta pressa.

Adwig olhou para Dafa e depois para Médera.

— Talvez a gente não precise descobrir hoje.

— Isso significa que devo cancelar a dança?

— Significa que quero dançar sem usar a música para responder o resto.

Hermes pediu espaço. Uma corrente de ar afastou algumas mesas e abriu um círculo no salão. Os participantes da apresentação se aproximaram. Havia duplas, trios e pessoas que pretendiam entrar sozinhas.

— O piso mostrará os passos — explicou Hermes. — As correntes de ar indicam giros e elevações. Sigam quando quiserem. Se preferirem improvisar, ignorem tudo e culpem a música.

Linhas luminosas apareceram no chão.

Móretar observou os primeiros movimentos.

— Eu dançava com os sons da natureza. Nunca precisei decorar passos.

— Eu nunca dancei diante de tanta gente.

— Então temos habilidades igualmente inúteis.

Adwig estendeu a mão.

Móretar a recebeu. A primeira linha de luz avançou sob os pés dos dois, e a música recomeçou.

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