Parte 8
Athos levou Dafa e Móretar de volta a Key, diante do Palácio dos Elfos. As torres se erguiam acima das árvores, revestidas por pedras claras e metais que refletiam o sol. Móretar conhecia o lugar por desenhos e relatos. Vê-lo vazio tornou sua grandeza incômoda.
As portas estavam abertas. Nenhum guarda ocupava os corredores.
Na sala do trono, os três companheiros de Athos aguardavam perto da entrada. Adwig estava sentada no chão, com o corpo do irmão entre os braços.
Móretar a reconheceu pelos retratos. As fadas haviam abandonado o culto a Krakor havia muito tempo, porém as imagens da filha do criador continuavam nos arquivos, nas casas mais velhas e nas histórias contadas às crianças. Encontrá-la chorando sobre um morto desmontava a figura dos livros.
Athos avançou. Sussurro segurou seu braço.
— Eu já tentei — disse ela. — Teleret morreu.
Adwig não ergueu o rosto.
— Você prometeu que ajudaria quando chegasse a hora.
Athos falou sobre as visões e sobre o momento que acreditara reconhecer. A explicação não alcançou Adwig.
— Saiam daqui.
Ele permaneceu parado. Sussurro o puxou para fora, e os outros a acompanharam.
No corredor, Athos demorou a recuperar a voz. Disse que buscaria ajuda no Olimpo. Quem o recusara antes talvez reagisse de outra forma depois da descoberta de regiões desconhecidas do Universo.
— Nós ficamos — disse Dafa. — Sua visão apontou Adwig como parte do que vem pela frente. Podemos acompanhar o que ela fará.
Athos concordou e partiu com os três companheiros.
Dafa e Móretar deixaram o Palácio. A praça estava tomada por elfos. Falava-se no retorno da filha de Krakor, na morte dos reis e na reunificação dos povos de Key. Alguns esperavam uma rainha. Outros vieram confirmar se a ameaça era real.
Adwig apareceu no alto da escadaria. Seus olhos estavam inchados e havia sangue do irmão em sua roupa. Desceu sem vacilar. A multidão abriu caminho até o Monumento do Discurso, erguido diante da estátua de Krakor.
— Ela vai falar onde o pai falou — murmurou um elfo.
Móretar procurou reações ao redor. Alguns elfos erguiam os braços antes mesmo de Adwig falar. Outros permaneciam perto das saídas da praça. Todos aguardavam que ela decidisse o que aconteceria a seguir.
Adwig disse que nunca desejara ocupar aquele lugar. Reconheceu que estava longe da deusa aguardada pelos elfos e contou que sua tentativa de evitar a violência custara a vida de Teleret. A morte dos reis abrira o caminho para o trono, e ela o assumiria.
Sua voz endureceu. Prometeu recuperar a coragem, o poder e a bondade atribuídos aos elfos. Os povos de Key voltariam a agir como um só, mesmo que ela precisasse impor essa união.
Gritos de apoio se espalharam pela praça.
Móretar lembrou a ordem que dera aos Coraces congelados, quando acreditara que a urgência tornava qualquer comando aceitável. Diante dele, os elfos repetiam o nome de Adwig e aceitavam a ameaça junto com a promessa de união.
Em seguida, a rainha ordenou a formação de uma equipe para socorrer os gigantes atingidos por um vírus. Voluntários começaram a avançar.
— Devemos ir — disse Móretar.
— Por causa dos gigantes — respondeu Dafa.
Os dois entraram na fila. Dafa se apresentou como curandeira, e Móretar declarou experiência com feitiços. Um dos responsáveis tentou afastá-los ao perceber que eram fadas.
Frempor, um guerreiro que organizava os grupos, interveio:
— A rainha acaba de declarar que somos um só povo. Vamos começar cumprindo isso.
A objeção terminou ali. Mais de cinquenta pessoas se reuniram em poucos minutos.
Adwig chegou para conduzir a missão. O transporte daquele grupo ainda era um problema quando Servero, um elfo de roupas surradas e pernas cobertas de lama, lançou um sinal luminoso ao céu.
Pégasos surgiram entre as nuvens e desceram sobre a praça. Kingzar veio com eles, atraído por Móretar. Dafa montou atrás do rapaz e passou os braços por sua cintura. A lembrança da cabana surgiu entre os dois, deslocada em meio aos gritos e à preparação para a viagem.
Articus, o enorme pégaso de Adwig, tomou a dianteira. Mantelar, meio-gigante, viajou com ela. O restante do esquadrão os seguiu.
O Vale dos Gigantes surgiu abaixo das montanhas. Casas quebradas cercavam ruas vazias. Na praça central, marcas no chão indicavam um ritual recente. Depois do pouso, nenhum gigante se aproximou.
Adwig chamou pelos sobreviventes e ofereceu ajuda. Portas se abriram devagar. Os primeiros que saíram vestiam elmos e mantinham distância dos elfos.
Um deles foi levado até os curandeiros. A pele cedia em algumas regiões, os olhos estavam inchados e a respiração arrastava pus e sangue pela garganta. Dafa conteve os sintomas e estabilizou o corpo, sem conseguir eliminar a causa.
Os gigantes explicaram que a doença costumava provocar uma morte lenta. Plantas indicadas pelas fadas e os elmos diminuíam o contágio. Alguns sobreviviam, com sequelas graves. Quando uma fada também adoeceu, embora com sintomas mais leves, seu povo deixou o Vale.
Quase não havia alimento. Os doentes que resistiam ao vírus começavam a perder a luta para a fome.
Adwig se ajoelhou ao lado do gigante. Fechou os olhos e examinou o corpo com sua energia. Demorou até localizar os pontos onde o vírus se reproduzia.
— Ele não carrega uma partícula essencial própria — explicou Dafa aos curandeiros próximos. — Continua quando cria novas cópias dentro das células. Interromper isso não apaga uma consciência. O risco é destruir o hospedeiro junto.
Adwig ajustou o alcance do poder. Eliminou as cópias do vírus sem atingir as células ao redor. O gigante conseguiu encher os pulmões, e os curandeiros começaram a reparar os danos deixados pela doença.
Os demais contaminados foram chamados à praça. Adwig repetiu o processo, localizando o vírus em cada corpo. A precisão exigia mais energia a cada paciente.
Dafa passou a sustentá-la. Outros curandeiros se juntaram à transferência, quase todos sem perceber quanto poder vinha da mulher que chamavam de fada.
Móretar observou a corrente. Em outra ocasião, teria despejado toda a força disponível e esperado pelo resultado. Lembrou o pequeno sinal que conseguira produzir durante o treinamento. Ofereceu um fluxo constante, ajustado à energia que Adwig consumia.
A rainha encontrou as últimas cópias do vírus e as eliminou. Os curandeiros trataram feridas, olhos e pulmões enquanto os gigantes se aproximavam uns dos outros pela primeira vez em muitos dias.
Um dos infectados retirou o disfarce. Era Armerer, o Guerreiro Guardião dos Gigantes. Estivera entre os doentes, perto da morte, e agora permanecia de pé diante de Adwig.
Móretar sentiu uma picada no pescoço.
Levou a mão ao local e encontrou um dardo. Dafa gritou seu nome. Antes que pudesse localizar o agressor, as pernas cederam e a praça desapareceu.