Leia agora
As Vítimas-Algozes

Universo da obra

As Vítimas-Algozes

Capítulo 43 · As Vítimas-Algozes

As Vítimas-Algozes: Pai-Raiol, o feiticeiro - Capítulo XIX

43 de 109 ≈ 4 min de leitura

Paulo Borges chorou compungido a morte de sua honestíssima esposa, de quem fora bárbaro algoz. A suspeita de envenenamento revoltou-o, e embora visse Esméria desfeita em lágrimas a lamentar o passamento da se­nhora, esperou obumbrado o seu sábio curandeiro, e apenas o viu chegar, correu a ele, levou-o a examinar o cadáver, e disse por fim:

-- Minha mulher morreu envenenada, não é verdade? O senhor tem obrigação de dizê-lo: fale! Em nome de Deus, diga-me a verdade.

O curandeiro turbou-se: de novo e com absurdo processo fez o exame do triste e enregelado corpo da vítima, e incapaz de compreender os sin­tomas que haviam escapado à sua ignorância, incapaz de apelar para os meios científicos que vingam a sociedade, reconhecendo no cadáver as provas irrecusáveis do crime do envenenador, o curandeiro charlatão, vaidoso do seu diagnóstico, acabou por dizer com desfaçada impostura:

-- Envenenada!... Quem o disse, mentiu.

-- Está absolutamente certo disso?

-- Juro-o...

-- Que Deus perdoe a quem tal suspeitou!

-- Quem foi?

-- A defunta.

-- Delírio de moribunda: ela morreu da febre que eu disse.

-- Antes assim.

Paulo Borges tranqüilizou a revolta de seu ânimo, e concentrou-se na dor da viuvez recente.

Esméria ficou inocente a seus olhos, e quase que mais mereceu em compensação da suspeita que o curandeiro declarara infundada.

O marido adúltero supôs enganar a Deus e aos homens, e talvez mes­mo a si, dando aos restos mortais de sua santa mulher honras fúnebres suntuosas, esmolas aos pobres, missas, e aparatoso ofício do sétimo dia.

Deus, que recebeu a mártir, desprezou sem dúvida as oblações sacríle­gas do pecador incontrito e obstinado.

O romance tem contra o seu legítimo fim comprometer a lição da ver­dade pelas prevenções contra a imaginação que deve ser exclusivamente a fonte de ornamentos da forma e de circunstâncias acessórias e incidentais que sirvam para dar maior interesse ao assunto; no seu fundo, porém, o romance precisa conter e mostrar a verdade para conter e mostrar a moral.

Alto o proclamamos: também neste nosso romance há no fundo plena, absoluta verdade.

Há envenenamentos propinados por escravos que desapercebidamente ou apenas de leve suspeitos, escapam impunes aos senhores e à autorida­de pública.

Há curandeiros ignorantes espalhados pelo interior dos municípios mais civilizados das mais civilizadas províncias do império que involunta­riamente, sem malícia e só por incapacidade intelectual favorecem, apa­drinham a impunidade de semelhantes crimes, deixando-os esconderem-se nos segredos das sepulturas.

E ainda mais afirmamos, com a segurança que resulta do estudo e da observação:

Enquanto no Brasil houverem escravos, estarão nossas famílias facilmente expostas a envenenamentos e a tentativas de envenenamentos por eles propinados.

E, o que é mais, em dez casos desses crimes ou de tentativas desses crimes dois serão contra o senhor, oito contra a senhora.

E quando dizemos tentativa de envenenamento, queremos referir-nos principalmente ao emprego de certas substâncias que, aplicadas grosseira­mente, ofendem pelo contacto físico e dilacerante, sendo de pronto des­cobertas, e propinados em pó sutil são inocentes ou inertes.

Nem é preciso adiantar, esclarecer mais; pois que neste caso o forte es­cudo dos senhores contra o ódio dos escravos é principalmente a ignorância e a bruteza destes.

As Vítimas-Algozes

Sinopse

Leia As Vítimas-Algozes, de Joaquim Manuel de Macedo, grátis no Literunico. Romance clássico brasileiro em domínio público, disponível para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada, capítulos completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978655777289761059212690
As Vítimas-Algozes

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de As Vítimas-Algozes

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral As Vítimas-Algozes Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 43 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de As Vítimas-Algozes

Capa de As Vítimas-Algozes
Continue a leitura As Vítimas-Algozes: Pai-Raiol, o feiticeiro - Capítulo XIX Capítulo 43 · 43 de 109 · ≈ 4 min
Todos os capítulos 109 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir