Universo da obra
Universo da obra
Cegos pelo amor, orgulhosos da educação que haviam dado a Cândida, desvanecidos da sua beleza e da impressão que ela causava onde quer que aparecesse, Florêncio da Silva e Leonídia não se apercebiam do condenável proceder da filha.
A consideração e respeito que o honrado e rico negociante gozava era um escudo que livrava Cândida dos golpes de censuras francas: não havia quem se animasse a ofender Florêncio da Silva e sua digna esposa, negando ou poupando demonstrações de estima a sua filha, que, em atenção a eles, era mais lastimada que detraída nas sociedades.
Todavia Florêncio da Silva por mais de uma vez apesar do seu amor julgou ver desgostoso, no fácil e embora sempre dúbio acolhimento que Cândida concedia aos seus namorados, quebra da modéstia e do recato desta.
Nestes casos são os olhos dos pais que primeiro enxergam, como são os corações das mães os últimos que se convencem.
Florêncio dizia então tristemente a Leonídia:
-- Tu não reparas em nossa filha; eu creio que ela começa a abusar do desejo de ser admirada... a vaidade a está perdendo...
-- Que idéia!
-- Não viste como a cercaram esta noite?... Eu detesto todos esses atrevidos que ousam aproximar-se de Cândida, falar-lhe a sorrir, olhá-la abrasados em fogo com tanta liberdade, e encontrando tanta tolerância...
-- Querias que ela deitasse a correr, fugindo da sala?
-- Queria que ela não encorajasse essa corte de... eu sei! talvez de namorados.
-- Em serem eles tantos a cortejá-la está a prova de que nossa filha não prefere, e não encoraja nenhum.
-- Mas faz mal ver... eu te juro.
-- O único recurso é privá-la do teatro, e não levá-la a reuniões: formosa como é, onde aparecer, achará cultos e sem dúvida apaixonados.
-- Entretanto Cândida podia conter a distância respeitosa esses moços que a não deixam um momento e que...
-- Conservá-los a distância no baile, onde dançam e valsam com ela? Tu tens ciúmes de nossa filha, Florêncio; é natural: eu também os tenho...
-- Aconselha-a, Leonídia
-- Não me esqueço nunca de o fazer; mas nem é preciso; por ora Cândida é um anjo; cuida somente em divertir-se e brincar.
Florêncio da Silva respirava desafrontado, e de longe abençoava a filha a quem já supunha dormindo, e que no seu quarto, negligentemente meio deitada no leito com o cotovelo firmado na almofada, a face apoiada na mão, os cabelos em ondas a cobrir-lhe a espádua e o peito, referia à mucama, que em silêncio a invejava, os recentes gozos de sua noite de sarau, suas recentes conquistas, e todos os seus ardis, e todas as finezas e todos os desvarios e atrevimentos dos antigos e novos namorados.
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