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Capítulo 96 · As Vítimas-Algozes

As Vítimas-Algozes: Lucinda, a mucama - Capítulo XLIV

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Quem menos lamentara, e antes aplaudira a mudança temporária da residência de Florêncio da Silva para a cidade do Rio de Janeiro, fora Lu­cinda.

A crioula sonhava com a capital, tinha por ela certa espécie de culto perverso, adivinhava os seus misteriosos escândalos, e adorava-os em sua imaginação de escrava viciosa.

Lucinda mais de uma vez procurara consolar a senhora; mas a sua con­solação repugnava por infame.

Vendo Cândida submergida em pesada tristeza, dissera-lhe:

-- Minha senhora, não se mate assim; o infortúnio foi grande; mas, se é irremediável, o que convém é remediá-lo.

Em outras circunstâncias Cândida ter-se-ia rido da observação contraditória da mucama; na sua situação, porém, perguntou amargurada:

-- E como se remedeia o irremediável?...

-- Olhe, minha senhora: o moço francês, o Sr. Souvanel é o mais bonito e o mais merecedor dos homens, e foi feito para seu marido; mas se é irremediável o perdê-lo, como parece...

-- Então?...

-- O remédio é ter paciência, e minha senhora consolar-se, procurando ou aceitando algum outro moço bonito para marido.

-- Eu?!!!

-- Sim, minha senhora.

-- Eu?!!!

-- Que tolice, minha senhora! Eu não digo que esqueça o moço fran­cês; mas no caso de ser impossível o casamento com ele, minha senhora não se há de condenar à vida de freira.

-- Oh, se hei de!... eu o amo sempre!

-- E se ele morrer?... Se seguir preso para França, como se diz que se­guirá?

-- Nem assim mudará o meu destino. Eu só posso ser esposa de Der­many.

-- Por que, minha senhora?

-- Lucinda! -- murmurou a moça, abaixando o rosto envergonhada.

-- Que tolice de minha senhora! -- repetiu a miserável escrava. -- Que tolice! .. com a riqueza de seu pai...

Cândida levantou a cabeça, e disse:

-- Infâmia!...

Lucinda mudou de tom, e com voz sumida, soprou algumas palavras de segredo importante no ouvido de sua senhora; esse segredo, porém, devia ser esquálido; porque a moça, revoltando-se, tornou com voz surda e imensa perturbação:

-- Duas infâmias...

A mucama estava habituada a vencer pela insistência e pela teima a oposição da senhora, e conseqüentemente em suas conversações noturnas, ou das horas dedicadas ao toucador, foi sempre perseverando nas mesmas idéias, e até já tinha sido portadora de amorosos recados de um belo man­cebo que se enamorara de Cândida, quando de súbido mudou de rumo e de sistema, e voltou a proteger a causa considerada perdida de Dermany.

Cândida sobressaltou-se, notando a extraordinária transformação do modo de pensar da escrava.

-- Dermany está na cidade?... -- perguntou, estremecendo.

-- Sim, minha senhora, está.

-- Ah! Expõe-se por mim?

-- Como um louco.

-- Ama-me, pois, ainda?

-- Apaixonadamente.

-- Onde o vês? Onde te fala?...

-- Só à noite... no saguão da casa ... coitado! Vem vestido de libré de lacaio...

-- Oh!... Por mim...

-- Só por minha senhora.

-- Ele se expõe ... meu Deus!

-- É preciso salvá-lo.

-- E como?

-- Minha senhora... pertence ao Sr. Souvanel.

Cândida tornou-se branca e fria como a neve; o sangue pareceu refluir-lhe para o coração; seus olhos cerraram-se.

Lucinda, temendo que a senhora desmaiasse, dava-se pressa em acudi-la; esta, porém, repeliu-a brandamente e disse repassada de dor:

-- Não há mais Souvanel... há outro... há Dermany, que se esconde, e que se disfarça com a libré de lacaio; porque é criminoso...

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Sinopse

Leia As Vítimas-Algozes, de Joaquim Manuel de Macedo, grátis no Literunico. Romance clássico brasileiro em domínio público, disponível para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada, capítulos completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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