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Capítulo 82 · As Vítimas-Algozes

As Vítimas-Algozes: Lucinda, a mucama - Capítulo XXX

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Travada estava a luta entre o anjo e o demônio; entre o gênio benéfico que se empenhava em salvar, e o gênio maléfico a quem convinha perder Cândida; entre Frederico, o homem livre e moralizado, cuja nobilíssima natureza a educação aprimorara, e Lucinda, a mulher escrava e pervertida, sem educação zeladora dos costumes, e cuja natureza, ainda mesmo que excelente pudesse ter sido, se achava desde muito depravada pela ignomínia e pelas torpezas da escravidão.

Cândida, não se abandonava quanto devia à segurança plena e ampla na dedicação extraordinária e magnífica de Frederico: repugnava à sua vaidade o prestar fé àquele pronto sacrifício do amor que inspirara: em seus hábitos de conquistadora e namoradeira, via nessa substituição de sentimentos, nessa abnegação de amante, nesse exclusivo extremo da amizade fraternal, força de vontade maior que o poder da sua beleza, e portanto uma ofensa ao império dos seus encantos, que julgava irresistíveis; além disso um pouco impressionada pelas prevenções e receios, que a mucama procurara acender em seu ânimo, hesitava, presumindo que Frederico, sempre dela apaixonado, sempre com aspirações a desposá-la, fizesse de mentirosa virtude uma rede para prendê-la, um engano soporífero para, aproveitando-lhe o sono, separá-la perpetuamente de Souvanel, seu rival.

Hesitante assim, Cândida não soube ser franca e leal com seu irmão adotivo, e antes empregou todos os recursos da dissimulação para iludi-lo e levá-lo a acreditar na sua fiel submissão, aos conselhos que lhe ouvira; mas, ainda suspeitosa por vaidade, sua alma obrigada ao culto da majestade da virtude, embeveceu-se muitas vezes contemplando Frederico tão grande na proteção com que a queria escudar, e no artifício com que se acusara, a fim de poupá-la aos desgostos, às repreensões, e ao triste desencanto de sua mãe.

Trazendo porém da sala essas impressões, e no meio de injustas dúvidas pelo menos a convicção de que devia acautelar-se contra os possíveis ardis de Frederico e também contra os perigosos enleios do amor de Sou­vanel, Cândida, recolhendo-se a seu quarto, esbarrou com Lucinda que parecia sobressaltada a esperá-la.

-- Que há? -- perguntou.

A mucama pôs um dedo na boca, recomendando silêncio, e apontou para o lado, onde ficava contígua a sala de dormir de Leonídia.

Por alguns minutos os gestos e as meias palavras pronunciadas quase imperceptivelmente pela escrava anunciaram crítica situação.

A senhora e a mucama emprazaram-se mais com a mímica, do que com frases abafadas, para conferenciarem oportunamente nessa mesma e já adiantada noite.

Cândida trocou seu toilette de festa por leve roupão de dormir, e deitou-se, mandando apagar a luz.

Eram duas horas da madrugada.

Meia hora depois o silêncio tornara-se profundo. A casa toda dormia.

Velavam somente o medo de Cândida, a perversão da mucama escrava, e a infame traição de Souvanel.

Cândida sentiu os leves passos de Lucinda que trêmula foi ajoelhar-se à cabeceira do leito de sua senhora.

Falaram então ambas, apuridando-se.

A mucama disse:

-- O senhor Frederico revelou tudo a minha senhora velha... à mãe de minha senhora...

-- Tu ouviste?

-- Ouvi o fim da conversação, foi ali na sala de jantar... o senhor Fre­derico prestou um juramento que não percebi; mas falaram de casamen­to...

-- Ah!

-- Depois o senhor Frederico foi encontrar-se no jardim com o moço francês...

-- Sim... saíram ambos... reparei...

-- E intimou-o a deixar esta casa amanhã...

-- Ele? Com que direito?

-- O moço francês quer desafiar o senhor Frederico...

-- Oh! Não!... Isso não...

-- Mas temendo comprometer o nome de minha senhora, chora de raiva... amanhã não sei o que será... ele fala em retirar-se para a Corte, esperar lá o senhor Frederico e provocá-lo ao que chama duelo de morte...

-- Sei o que é... é horrível! Não quero isso!...

-- Há só um meio de o impedir; diz o moço francês.

-- Qual?

-- É minha senhora ir entender-se com ele sobre as esperanças e o futuro do seu amor, receber suas despedidas e combinar seus planos de pró­ximo casamento...

-- Como? Quando? Onde?

-- No quarto de Leopoldo, o pajem fiel de meu senhor: há no quarto uma janela para o jardim: o pajem é dedicado a minha senhora e ao moço francês, que às três horas lá a espera...

-- Lucinda!

-- Minha senhora pode ir e voltar sem ser sentida... dormem todos...

-- Oh! Não!... É impossível!...

-- Eu a acompanharei, se minha senhora tem medo...

-- Mas... um encontro assim... a tais horas... não irei.

-- A tais horas é que deve ser para que ninguém o suspeite...

-- E a minha honra?

-- O moço francês é incapaz de atentar contra ela.

-- E meu pai? E minha mãe?

-- Dormem a sono solto.

-- Render-me desse modo escrava de um homem... aviltar-me!

O relógio da sala de jantar anunciou três horas.

Cândida estremeceu.

-- É a hora -- disse Lucinda.

-- Não irei; seria indigna, se fosse...

-- Minha senhora não ama.

-- Oh! Se amo!!!

-- E se ele fugir-lhe? E se ele se fizer matar...

-- É para desesperar... Lucinda!

-- Ânimo! Vamos: nunca se viu uma senhora conversar com um homem?

Cândida sentou-se no leito; Lucinda ergueu-se:

-- Vamos ... eu a acompanho, minha senhora...

Cândida refletiu por breves instantes e disse:

-- Souvanel quer pôr em experiência a minha virtude...

E tornou a deitar-se.

-- Minha senhora -- disse Lucinda -- , pense bem nos perigos a que expõe o seu amor, e o homem que ama.

-- Não irei: Souvanel há de amar-me muito mais; porque não vou.

-- E fugirá... e matar-se-á...

-- Escuta: vai tu por mim...

-- Como? -- perguntou a mucama com um certo abalo.

-- Vai tu por mim -- repetiu Cândida.

-- Eu, por minha senhora? -- murmurou Lucinda, inflamando-se, e contendo as flamas de súbito pensamento.

-- Sim; vai: dize-lhe que o amo, que o adoro, que serei sua esposa; que sofra tudo por minha causa e não se ausente; que espere e confie no meu amor; que hei de ser dele... dele só e para sempre... mas honesta e pura; e que por honesta e pura não posso dar-lhe, nem jamais lhe darei conferências a tais horas, em semelhante lugar.

-- Minha senhora!... -- disse a mucama, que aliás não mais insistia.

-- Vai por mim.

E Lucinda perfeitamente convencida da acertada resolução de Cândi­da, saiu do quarto pé ante pé e foi por sua senhora a encontrar-se com Souvanel.

Passou uma longa hora que a Cândida pareceu um século.

Enfim Lucinda voltou, e chegou-se ao leito de sua senhora.

-- Ele fica -- murmurou com voz trêmula.

-- Disseste-lhe tudo que te recomendei?

-- Tudo.

-- E ele?

-- Comoveu-se... chorou... e resignou-se.

-- Que me mandou dizer?

-- Que a adora, e que há de obedecer à sua vontade, como escravo.

-- Não se baterá com Frederico?

-- Não, minha senhora; mas detesta-o.

-- E por que tardaste tanto?

A mucama riu-se da pergunta da senhora, riu-se contente e zombetei­ra; porque ria-se na escuridão, e não atraiçoava a sua torpeza no escanda­loso riso, riu-se pois de Candida e respondeu:

-- O moço francês demorou-se... esperei-o mais de meia hora...

-- Ainda bem que não fui eu que o esperei -- disse Cândida.

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Sinopse

Leia As Vítimas-Algozes, de Joaquim Manuel de Macedo, grátis no Literunico. Romance clássico brasileiro em domínio público, disponível para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada, capítulos completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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