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Memórias da Rua do Ouvidor

Capítulo 4 · Memórias da Rua do Ouvidor

Memórias da Rua do Ouvidor: Capítulo IV

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Como e por que o ajudante oficial da sala do Vice-Rei Conde da Cunha meteu-se a jogar a banca na casa de João Fusco; desenvolve-se a história que parece romance, e na qual são personagens João Fusco e a Sra. Helena, a menina Águeda, a mãe Jacoba, o cão Degola, o oficial da sala, o sacristão da Igreja de S. José e um lobisomem que uma noite põe em desordem a banca, e perseguido pelos jogadores escapa abismado na vala, enquanto o sacristão de S. José, aproveitando o ensejo, bate a linda plumagem com a menina Águeda, logo depois sua esposa: diz-se como o banho do lobisomem foi o motivo de se cobrir a vala com lajedos; o oficial da sala faz prender por falsas suspeitas de pasquineiro o sacristão, que é solto por intervenção do vigário, e transcreve-se um pasquim que apareceu em frente à Rua do Padre Homem da Costa junto da vala.

O Vice-Rei Conde da Cunha foi mas não foi quem mandou que a Câmara Municipal fizesse cobrir com lajedos a vala nauseabunda e pestífera. Este foi mas não foi parece absurdo; é, porém, uma das verdades mais verdadeiras, que ainda às vezes se revelam em fatos. Foi - porque assinou a ordem, mas não foi - porque de outrem partiu a iniciativa e a determinação.

O Conde da Cunha, velho, achacado e sem atividade, era o Vice-Rei; via, porém, pelos olhos, e governava pela cabeça de seu ajudante oficial da sala, o Tenente-Coronel Alexandre Cardoso de Menezes, que por muito hábil, inteligente e insinuante ganhara sua inteira e cega confiança e se tornara o vice-rei de fato.

Infelizmente Alexandre Cardoso era de mau caráter, de costumes dissolutos, jogador, libertino, desenfreado em suas paixões, e tanto mais perigoso, que além de valente e corajoso, dobravam-lhe a ousadia, o poder de que dispunha e a certeza da impunidade.

No tempo do vice-reinado do Conde da Cunha jogava-se muito, jogava-se demasiadamente na cidade do Rio de Janeiro, muito e apenas um pouco menos do que atualmente. O jogo dominante era então a banca.

Alexandre Cardoso jogava quase todas as noites; mas só em rodas de gente rica e a mesas cobertas de ouro; uma vez, porém, fez exceção a essa regra.

Uma noite, em 1764 ou em 1765, passando ele pela Rua da Vala, entrou como por acaso na loja de João Fusco e pediu ao caixeiro biscoitos de carimã, balas, e mais ia pedir quando se interrompeu perguntando:

— Que fazem lá dentro?

— Jogam a banca; sim senhor.

— Chama João Fusco.

João Fusco correu logo ao chamado.

— Eu também quero jogar, disse Alexandre Cardoso.

E entrou sem-cerimônia, dizendo aos jogadores que respeitosos e surpresos se levantaram.

— Não há nada de novo, é apenas mais um parceiro.

Alexandre Cardoso mostrou-se agradável, desfez o acanhamento da companhia, jogou, perdeu duzentos cruzados, e alegre, e brincalhão levantou-se e disse:

— Basta por hoje, voltarei porém à desforra, João Fusco! na tua casa joga-se liso. Adeus.

E saiu.

Agora breve explicação.

João Fusco, a quem tinham alcunhado Fusco pela cor muito trigueira, era ilhéu açoriano, e morava na Rua da Vala, logo além da Rua do Cano (hoje Sete de Setembro) em pequena casa de duas portas e com sótão, a qual abria portão do quintal para a Rua dos Latoeiros.

João Fusco tinha consigo uma irmã, a Sra. Helena, ilhoa como ele, e que no Brasil enviuvara, ficando-lhe do casamento uma filha, a menina Águeda, então com 18 anos, carioca lindíssima, mas previamente condenada a casar com o tio já qüinquagenário, - homem de bem, mas genioso, desconfiado, ciumento e terrível como um turco.

Aproveitando a habilidade e prática da irmã e da sobrinha, que eram doceiras magistrais, João Fusco abrira na frente da casa loja de doces, espécie de confeitaria daquele tempo, e ali vendia excelentes biscoitos, bolos, amêndoas de castanhas de caju, balas e confeitos, e em vez de sorvetes, que somente setenta anos mais tarde se tornaram na cidade do Rio de Janeiro, o refrigerante e saboroso aloá.

Além de Helena e Águeda, João Fusco tinha em casa o caixeiro que o ajudava no serviço da loja, mas que era absolutamente privado de comunicação com a família, uma negra sexagenária escrava de Águeda, cuja ama-de-leite fora, e enfim um grande cão.

A mãe Jacoba (a escrava) e Degola (o cão) eram os guardas do quintal e do portão, do qual em todo o caso João Fusco à noite guardava a chave.

Helena e Águeda de dia trabalhavam na sala de jantar e na cozinha, e às oito horas da noite se recolhiam ao sótão, que constava de uma saleta na frente, e outra no fundo: a primeira era ocupada por Helena, a segunda pela menina. As janelas das saletas eram fechadas de cima a baixo por varões de ferro.

Águeda tinha em horror o tio, e a idéia de lhe pertencer como esposa fazia o tormento da sua vida; no entanto dissimulada e sonsa ela ria, e cantava de dia, e rezava muito de noite; mas Santo Antônio sabia o que a menina, sua devota, nas rezas e em promessas lhe pedia.

Coitadinha! todos contra ela: Helena, que era a ilhoa mais áspera e desalmada, querendo-a todo o transe casada com o irmão, vigiava incessantemente a filha e não a deixava pôr pé em ramo verde.

As moças aproveitam ainda o mais fraco recurso para satisfazer sua vaidade de boniteza, e o único recurso de Águeda era, duas ou três vezes por dia, e quando a mãe se achava mas atarefada, correr por minutos à sua saleta do sótão, e pondo-se à grade da janela, mostrar seu rosto, seu colo e seus ombros aos que por acaso passavam pela Rua dos Latoeiros.

Quase sempre atrás da menina era mandada a escrava, que, ao vê-la à janela, benzia-se, dizendo:

— Ah, Nené! você faz pecado! olha senhô João!

Águeda ria-se.

Oh! mas é claro, que Jacoba era mais vigilante e mais terrível do que o dragão das Hesperides, e tanto que João Fusco para experimentá-la já tinha pago falazes tentativas de sedução para recados à Águeda, e a negra se mostrava sempre incorruptível e ameaçadora de denunciar à mãe e ao tio da menina.

Que escrava modelo!... ela porém quase tanto como Helena criara em seu colo Águeda, e amava-a com idolatria de quase avó.

Ainda mesmo com os seus varões de ferro as duas janelas do fundo do sótão da casa de João Fusco tornaram célebre a beleza de Águeda, na cidade do Rio de Janeiro.

Fora daquelas janelas, e aí mesmo, através das grades, e só por breves minutos, ninguém conseguia ver a sabida noiva de João Fusco, que apenas aos domingos saia com a irmã e com a sobrinha para ouvir missa na Igreja de S. José; mas então irmã e sobrinha levavam mantilhas e véus impenetráveis.

E nem a simples hipótese de amigo vento em socorro de Águeda!

Ao entrar na igreja era sempre o sacristão (santo rapaz, sobrinho do vigário, e que não levantava os olhos do chão) quem apresentava às duas senhoras o hissope para que elas se persignassem com água-benta.

Foi num desses momentos rápidos de oferecimento e tomada de água-benta que o libertino Alexandre Cardoso, sem poder apreciar bem, adivinhou a beleza de Águeda.

Dias depois ele viu-lhe o rosto à janela do sótão, e, aceso em criminosas flamas, resolveu seduzi-la e apoderar-se dela.

Perdeu tempo, mandando tentar a todo o preço a conivência e o concurso da negra Jacoba.

Perdida a esperança de entrar pelo portão, determinou introduzir-se pela porta da frente.

E foi jogar na casa de João Fusco.

A roda dos jogadores não era indigna; toda, porém, de gente da classe média, e de banca modesta, estava longe de satisfazer o oficial da sala, freqüentador de sociedade aristocrática e jogador delirante.

Todavia, Alexandre Cardoso voltou a jogar em casa de João Fusco mais de dez vezes, perdendo quase sempre cem, duzentos e muitos mais cruzados.

O jogo durava ali até muito depois da meia-noite; mas de ordinário Alexandre Cardoso, quando perdia, retirava-se antes de terminada a banca.

Já se desenganara do esperançoso plano de chegar a introduzir-se, mercê do jogo, no interior da casa, porque a banca tinha por limite absoluto o fundo da saleta contígua à loja, e a porta de comunicação interna sempre estava trancada; já estava disposto a libertar-se do sacrifício daquele jogo plebeu, quando uma noite, saindo pouco antes da meia-noite da banca de João Fusco, ao tomar no Largo da Carioca a Rua da Cadeia viu um vulto de homem embuçado ao portão do quintal da casa que era o seu objetivo.

Alexandre Cardoso recuou, e, pregando-se à quina da Rua dos Latoeiros, estendeu o pescoço, adiantou a cabeça até os olhos, e apurando a vista, e no silêncio geral aproveitando o ouvido, observou curioso...

O vulto bateu de leve e compassadamente três vezes no portão, que quase logo se abriu com abafado ruído da chave...

O vulto entrou, e o portão se trancou com o mesmo cuidado.

Alexandre Cardoso estava informado de que havia bravíssimo cão no quintal, mas não ouviu nem latido, nem enfezado rosnar de cão.

— É um amante feliz! disse entre si com ciúme e contusão o soberbo oficial da sala do vice-rei.

Havia explicável erro no pensamento íntimo de Alexandre Cardoso. Águeda não era vítima de um sedutor; mas, graças à segunda chave fabricada por artifícios de exaltado amor, e confiada à velha escrava protetora, a menina recebia algumas vezes em entrevistas o escolhido de seu coração, e seu desejado noivo.

Helena cansada dos trabalhos do dia inteiro, desde que dormia, era sono de pedra; João Fusco, desde que começava a jogar, e tinha no bolso a chave do portão, só ia aos fundos da casa, se o Degola rosnava, ou assanhava-se no quintal; a negra Jacoba velava protegendo o amor da menina: em noites ajustadas, ouvindo os três toques de sinal, abria o portão que outra vez trancava depois de dar entrada a um mancebo, e enquanto ia anunciá-lo a Águeda, o Degola festejava o seu já conhecido, que lhe trazia sempre algum regalo à gulodice canina.

No entanto, Águeda chegava, mas a sua entrevista com o namorado nunca se estendia além de um quarto de hora, nunca se passava livre da presença da escrava, nisso ao menos prudente.

O namorado de Águeda era o sacristão, sobrinho muito querido do Vigário da freguesia de S. José.

Mas Jacoba precauta a preparar defesa para si, ou fonte de astúcias para os seus protegidos amantes, andava a fingir-se assustada, dizendo a João Fusco e a Helena que havia lobisomem a correr de noite pelas vizinhanças.

A crença insensata nos lobisomens era muito comum então entre a gente rude; João Fusco deu a coisa por certa, e Helena chegou a assegurar que o lobisomem de que Jacoba falava devia necessariamente ser um meirinho que morava na Rua do Cano e que era muito amarelo.

Pelo medo que o lobisomem causava Jacoba se presumia de domínio mais seguro no quintal durante as noites.

Nem tudo, porém, havia de ir correndo á medida dos desejos da velha escrava que, ao amanhecer de um dia, achou morto no pé do portão o bravo Degola, que era tão amigo do sacristão. Debulhada em lágrimas correu ela a dar parte do caso, e João Fusco, tendo examinado o corpo do pobre animal e não encontrando nem ferimento, nem contusão, declarou o cão morto de peste e consolou a escrava, prometendo dar-lhe em breve um outro Degola, o que aliás era do seu interesse.

Quem sabia perfeitamente de que mal tinha morrido o Degola era Alexandre Cardoso.

O extravagante e dissoluto oficial da sala descobrira depois de algumas noites de espreita que o ama e suposto sedutor de Águeda era o sacristão e sobrinho do Vigário de S. José.

Alexandre Cardoso delineou então atrevido ou antes adoidado plano só explicável em quem muito contava com o respeito que impunha a sua posição oficial, além de confiar não menos na própria valentia.

Continuou a jogar na casa de João Fusco; mas às 11 horas da noite saía, indo encontrar-se no Largo da Carioca com um soldado do seu regimento, que ali o esperava.

Perdeu três noites assim; na quarta, porém, viu o embuçado, reconheceu o sacristão que dobrava da Rua da Cadeia para a dos Latoeiros.

— É aquele... murmurou.

O soldado avançou rápido e, chegando ao pé do embuçado, disse-lhe vivamente:

— Sr. Sacristão, o reverendíssimo Sr. Vigário o manda chamar já e já à igreja.

O sacristão atarantado por terem-no reconhecido, e não sabendo que pensar do que àquelas horas tinha de fazer na igreja, voltou apressadamente.

Alexandre Cardoso despediu o soldado, chegou-se ao portão da casa de João Fusco e bateu de leve três vezes.

O portão abriu-se, e ele que não se arreceava mais do Degola entrou imediatamente.

Jacoba trancou de novo o portão, e tão escura estava a noite, que ela não deu logo pela troca do namorado da menina.

Mas Alexandre Cardoso, sentindo-a tirar a chave do portão, e querendo ter saída livre, disse baixinho e disfarçando a voz:

— Dê-me a chave.

A negra recuou desconfiada, e perguntou:

— Você quem é?... fala!

Alexandre Cardoso, em vez de falar, avançou dois passos, e Jacoba recuou quatro, e um a avançar, e a outra a recuar chegaram, isto é, a negra meteu-se pela cozinha, e o tresloucado substituto do sacristão parou à porta, e à fraca luz de ruim candeia mostrou uma bolsa, sacudindo-a para assinalar que estava cheia de ouro.

Jacoba, verificando que não era o sacristão, soltou um grito, e, atirando-se para dentro da casa, começou a bradar:

— Tem lobisomem em casa!... lobisomem entrou!

Alexandre Cardoso sentiu alvoroço na sala de jogo, e não tendo retirada pelo quintal, perdida a cabeça, lançou-se além da cozinha pela sala de jantar, tomou por estreito corredor, e ao ouvir o ruído que faziam os jogadores, que acudiam aos gritos da negra, foi subindo uma escada que achou no fim do corredor sem saída...

Mas no tope da escada apareceram Helena e Águeda a bradar:

O lobisomem vem para o sótão!... o lobisomem está aqui!...

Alexandre Cardoso precipitou-se pela escada abaixo, tornou à sala de jantar, viu os jogadores que voltavam apressados do quintal, tomou por outro corredor, chegou à saleta do jogo, e enfim, orientado, saiu veloz pela porta ainda entreaberta da loja.

Estava livre do maior perigo; não querendo, porém, que o reconhecessem, e certo de ser perseguido, como de fato logo o foi, fugiu, correndo pela Rua da Vala, e aturdido pela vozeria dos jogadores já a segui-lo, ao chegar diante da extrema da Rua do Padre Homem da Costa, deu infeliz salto para vencer a vala, e caiu dentro dela.

Pior do que isso! João Fusco e os companheiros da banca aproximaram-se, e Alexandre Cardoso, furioso, sem medo, mas envergonhado do ridículo de sua situação, e para escapar à publicidade do seu escandaloso procedimento, abismou-se até o pescoço na vala nauseabunda e mal cheirosa.

Os perseguidores o procuravam... alguns diziam que ele se escondera dentro da vala, já falavam em mandar vir luzes e archotes, o poderoso oficial da sala do vice-rei estava em torturas, quando angustioso brado veio salvá-lo.

O lobisomem carregou com Águeda!... gritava Helena desesperada.

João Fusco e seus amigos acudiram ao clamor de Helena.

O caso era simples.

O sacristão achara a igreja fechada e a casa do vigário seu tio também de porta trancada, e amante apaixonado a imaginar traição, voltara à Rua dos Latoeiros, ouvira grande ruído na casa de João Fusco, e apreensivo se dirigira para a Loja de Doces.

Quando ali chegava, Helena saía como espavorida agarrando-se ao irmão que com os sócios da banca iam em perseguição do lobisomem.

À porta da loja ficaram somente Águeda e Jacoba que lhe contaram quanto se passara.

O sacristão, adivinhando pela ousadia da tentativa algum poderoso rival, disse com ansiedade a Águeda:

— Oh!... em tal caso, ou já ou nunca!

E ofereceu a mão à menina.

Águeda o compreendeu, e, tomando-lhe a mão, fugiu com ele.

Pouco depois Helena menos aterrada, lembrando-se da filha, voltou cuidadosa para casa; mas debalde procurou Águeda, encontrando apenas Jacoba caída no chão e em terríveis contorções.

Tudo obra do lobisomem!

João Fusco e os outros chegaram para reconhecer a triste verdade.

Águeda tinha desaparecido.

Alexandre Cardoso, aproveitando a súbita retirada dos perseguidores, saiu da vala, e desapontado e prestes recolheu-se à sua casa, onde, livre da roupa imunda, só depois de três sucessivos banhos, foi no leito pedir ao sono o esquecimento das suas extravagâncias e do seu desastre dessa noite.

O epílogo desta tradição tem o merecimento de dois bonitos quadros: um o da felicidade de dois jovens amantes; outro o de um benefício público.

O Vigário de S. José perdoou facilmente a travessura do sobrinho, casando-o com Águeda, a despeito dos impedimentos que João Fusco protestava que ia apresentar, mas que não ousou fazer.

Alexandre Cardoso, o ajudante oficial da sala do vice-rei, tomara em aversão a vala, e sem dúvida para obviar iguais e possíveis desastres futuros fez com que o Conde da Cunha ordenasse à Câmara Municipal que a mandasse cobrir com lajedos.

Precaução de useiro salteador amoroso noturno.

Veio ex-fumo a luz, do mal o bem; de um banho fétido na vala a pétrea coberta desta.

Meses depois de realizada a obra beneficiadora da cidade, e de quase de todo esquecida a famosa história do lobisomem na casa de João Fusco, lobisomem de que principalmente as velhas davam testemunho até jurado da aparição, da correria e do desaparecimento misterioso por arte diabólica, Alexandre Cardoso que era vingativo e mau, explorando a freqüência de pasquins injuriosos que amanheciam pregados nas esquinas das ruas contra ele próprio, e contra o Vice-Rei Conde de Cunha, um dia mandou prender o sacristão da Igreja de S. José como suspeito de pasquineiro.

Era suspeita imaginada, calúnia indigna e perversa, vingança de opressor cruel.

Mas, ainda bem que a vítima, o sacristão, era sobrinho de padre, e ainda mais e melhor, sobrinho de padre vigário.

O marido de Águeda tinha averiguado, ponto por ponto, a história toda do lobisomem; guardara-a, porém, consigo a medo do oficial de sala.

O tio vigário, sabendo da prisão do sobrinho, foi ter com ele à cadeia, e ouvindo-o então narrar o caso do lobisomem, que explicava a injusta prisão, correu logo a referi-lo ao Bispo D. Frei Antônio do Desterro, e o bispo deu conhecimento de tudo ao Conde da Cunha, que mandou soltar o sacristão, bem que não acreditasse no que diziam contra o seu ajudante oficial de sala.

Propalou-se logo a história do lobisomem, e dias depois amanheceu em frente da rua do Padre Homem da Costa, junto da vala, fincado um poste e nele pregado o seguinte pasquim:

Mude-se o nome da rua,

Tenha outro nome e mais gala;

Seja, em vez de Homem da Costa;

Do Ajudante da sala,

Que uma noite um lobisomem

Aqui se banhou na vala.

Horas depois vieram soldados arrancar o pasquim, e derrubar o poste; muitas pessoas, porém, já tinham lido e decorado o malicioso versinho, que a tradição popular conservou.

Graças ao medo das perseguições do terrível oficial de sala do Vice-Rei Conde da Cunha, a atual tafulona Rua do Ouvidor escapou ao vexame de passar então a denominar-se não - Rua do Ajudante Oficial de Sala, como propusera o pasquim, mas Rua do Lobisomem, conforme alguns mancebos janotas do tempo, e mais atrevidos pela influência de suas famílias nobres ou ricas, durante semanas a chamaram por zombaria ao aborrecido Alexandre Cardoso.

A rua manteve a sua denominação de Padre Homem da Costa; mas parece que a proposição do pasquim e a alcunha sarcástica dada por aqueles mancebos destemidos já eram prenúncios da próxima deposição do Padre Homem da Costa no seu domínio denominativo da rua, que começava a ser anacrônica pela batina e o solidéu que ele usara.

A rua vai receber nome novo, e é de honra e de etiqueta que o receba em novo capítulo nestas Memórias.

Memórias da Rua do Ouvidor

Sinopse

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