Leia agora
Memórias da Rua do Ouvidor

Universo da obra

Memórias da Rua do Ouvidor

Capítulo 9 · Memórias da Rua do Ouvidor

Memórias da Rua do Ouvidor: Capítulo IX

9 de 19 ≈ 20 min de leitura

Como a 8 de março de 1808 a Rua do Ouvidor assistiu metida nos cantos à passagem da família real portuguesa que nesse dia desembarcou na cidade do Rio de Janeiro: lembra-se o edital do intendente Geral da Polícia o Conselheiro Paulo Fernandes, mandando acabar com rótulas e gelosias dos sobrados. Trata-se da Carta Régia que abriu os portos do Brasil ao comércio das nações amigas, e diz-se como os ingleses foram os primeiros a aproveitar-se dela, e alguns se restabeleceram na Rua do Ouvidor, e refere-se a um episódio da vida do irmão Joaquim, que indica bem o medo que se tinha de Napoleão. Como a Rua do Ouvidor ainda vivia tão modesta, que de 1808 a 1818, período riquíssimo de festas e iluminações, só uma vez foi lembrada; mas sendo ainda festeira de pouca despesa, e nos pomposos espetáculos de 1818, em que se ostentaram soberbíssimos carros de triunfo, ela não se representou nem mesmo em sege de aluguel. Como firmada a paz geral em 1815, e elevado o Brasil a Reino em 1816, entraram neste os franceses como pé direito, vindo engajada para o Rio de Janeiro uma colônia de artistas, aos quais deveu seu berço a nossa Academia das Belas-Artes. Mostra-se que aflua do Ouvidor não ganhou com a colônia artística, porque não era de franceses, era de francesas que o seu esplendor tinha de provir; e enfim remata-se este capítulo maçante com a tradição veracíssima da primeira francesa que teve nomeada e residência, aliás efêmeras, no Rio de Janeiro.

Vestida de festa e toda adereçada na tarde de 8 de março de 1808 para assistir à entrada da família real portuguesa na cidade do Rio de Janeiro, a Rua do Ouvidor ficou todavia no canto ou nos cantos.

O Príncipe Regente D. João e a família real desembarcaram no cais do Largo do Paço, atravessaram esta praça, seguiram pela Rua Direita, e tomaram pela do Rosário para ir na igreja desta santa invocação, que era ainda então a da Sé apesar de ser a dos pretinhos, render graças a Deus.

Numerosíssimo concurso oficial e popular precedia e acompanhava ao príncipe regente e à família real transmigrantes de Lisboa; multidão imensa estacionava, movia-se, ou precipitava-se curiosa e entusiasmada, e a Rua do Ouvidor antemurada por enchentes de povo nas duas entradas que abre para a Rua Direita teve de ficar nesses dois cantos durante a festiva passagem, e tão no canto se achou, que nenhum dos príncipes indiciou ter idéia da sua existência, voltando para ela os olhos. Todos eles imitando D. João somente demoraram os passos, contemplando a bela igreja da Santa Cruz dos Militares.

É que a Rua do Ouvidor ainda não recebia cartas pelo correio, e só uns três lustros mais tarde começou a fazer bulha na cidade, cabendo-lhe apenas sua partilha no progresso e melhoramentos gerais que a nova capital da monarquia portuguesa recebeu em casta escala nessa época transcendente que, sem o calcular, Napoleão Bonaparte abriu para o Brasil, mandando invadir Portugal.

Assim, logo em 1809 a Rua do Ouvidor; como todas as outras da cidade, melhorou muito o aspecto de suas casas, obedecendo ao edital de 11 de junho, mandado afixar pelo Intendente Geral da Polícia o Conselheiro Paulo Fernandes Viana, ordenando a abolição das rótulas e gelosias dos sobrados.

O Marquês de Lavradio tinha, como já ficou dito, acabado com os peneiros das portas das casas, costume grosseiro, quase selvagem; o Conselheiro Paulo Fernandes, Intendente Geral da Polícia, fulminou as rótulas e gelosias dos sobrados, costume quase bárbaro e de raiz mourisca; nem todos, porém, temeram-se do raio policial; muitas casas resistiram à reforma decretada pela civilização, somente aos poucos foram despedaçando suas rótulas e gelosias, e ainda hoje se conservam, anacrônicos, mas agora curiosíssimos exemplares daquelas casas antigas, por exemplo, em frente à porta principal da alfândega.

Não é perder tempo dar ligeira idéia das tais rótulas e gelosias, sob os pontos de vista material e moral.

Em vez de verdadeiros balcões tinham os sobrados engradamentos de madeira de maior ou menor altura, e com gelosias abrindo para a rua; nos mais severos, porém, ou de mais pureza de costumes, as grades de madeira eram completas, estendendo-se além da frente pelos dois extremos laterais e pela parte superior, onde atingiam a altura dos próprios sobrados, que assim tomavam feição de cadeias. Também nessas grandes rótulas ou engradamentos se observavam as gelosias, e rentes com o assoalho pequenos postigos, pelos quais as senhoras e escravas, debruçando-se, podiam ver, sem que fossem facilmente vistas, o que se passava nas ruas.

As rótulas e gelosias não eram cadeias confessas, positivas, mas eram pelo aspecto e pelo seu destino grandes gaiolas, onde os pais e maridos zelavam sonegadas à sociedade as filhas e as esposas.

A higiene, a arquitetura, o embelezamento da cidade exigiam a destruição das malignas e feias gaiolas.

E a Rua do Ouvidor devia ser pronta, como foi, em dar cumprimento ao edital de Paulo Fernandes, porque rótulas e gelosias destinadas a esconder à força o belo sexo deviam ser imediatamente banidas da rua que não tarde tinha de tornar-se por excelência de exposição diária de elegantes e honestíssimas senhoras, e infelizmente também de andorinhas que por ali fazem verão.

Em 1808 a Rua do Ouvidor já tinha entrada na ordem das comerciais; mas o comércio apenas a conquistara até pouco além da Rua da Quitanda, e daí para o Largo de S. Francisco de Paula, à exceção das tavernas em algumas das quinas da rua, e de uma ou outra modestíssima oficina, todas as casas eram de morada de famílias alheias ao mister mercantil e industrial.

A Carta Régia de 28 de janeiro de 1808 lavrada em cidade de S. Salvador da Bahia, onde arribara entre outros navios, a capitania, na qual vinha o Príncipe Regente D. João, franqueou os portos do Brasil ao comércio da Inglaterra, e das potências em paz com a coroa de Portugal, sob a imposição única de vinte e quatro por cento de direito de importação.

Essa grandiosa providência que pós termo à condição colonial do Brasil foi enérgica e impiedosamente combatida no Rio de Janeiro, pelo explicável egoísmo de alguns ricos comerciantes portugueses, e por fidalgos influentes na corte, que os apoiaram; fulminou-os, porém, na imprensa régia em magistral opúsculo o sábio economista brasileiro José da Silva Lisboa (ulteriormente Visconde de Cairu) e ainda mais nos conselhos do príncipe regente, o célebre ministro e estadista Conde de Linhares.

A Carta Régia de 28 de janeiro de 1806 vingou, e necessariamente havia de vingar, e quem logo e logo se aproveitou da abertura dos portos do Brasil ex-colônia foi, nem era preciso dizê-lo, foi a Inglaterra.

E imediatamente... que dúvida!... abriu-se a porta, ela entrou célere; porque, depois da entrada, não havia mais despedida possível.

No mesmo ano de 1808 negociantes da Inglaterra organizaram companhia, interessando-se na exportação de mercadorias para a cidade do Rio de Janeiro, e outras principais do Brasil, e além de seus sócios, alguns outros ingleses, independentes da companhia, vieram desde o mesmo ano de 1808 estabelecer casas de comércio nessas cidades.

No Rio de Janeiro, a Rua do Ouvidor foi uma das primeiras a ter casas ou estabelecimentos de negociantes ingleses, lojas de louça, de fazendas ou panos tecidos, e enfim de comércio de importação e de exportação de gêneros recebidos da Inglaterra e mandados do Brasil, e portanto antes de ouvir dizer monsieur e sacre nom de Dieu ouviu repetir mister e goodemi e comeu batatas inglesas antes de comer petit-pois.

Ainda era cedo para a vinda de franceses então internacionalmente excomungados por terem invadido o reino de Portugal.

Os franceses eram odiados como demônios, e a despeito do espaço imenso do Atlântico se impunha tão aterrador lá de longe na Europa o vulto homérico de Napoleão, que (conforme o diz em suas Memórias o Padre Luís Gonçalves dos Santos) um dos motivos da criação do lugar de Intendente Geral da Polícia foi a necessidade de elevado e ativo chefe policial que obstasse e punisse (no Brasil!!!) a ação perigosa de espiões e de agentes franceses.

Era medo pueril!... mas ninguém ignora que o famoso Bonaparte chegou a passar por feiticeiro, e por ter pacto com o diabo na opinião da gente rude, que o teve por inimigo em guerras horríveis.

Certo é que no Brasil houve recomendações insensatas contra a sonhada espionagem francesa, e a melhor prova disso está no seguinte fato passado com o célebre irmão Joaquim, o S. Francisco de Assis brasileiro.

O irmão Joaquim, que a pedir esmolas já tinha fundado importante hospital em Santa Catarina, e grande seminário dos órfãos pobres na Bahia, andava esmolando pelas capitanias do Rio de Janeiro e de S. Paulo para fundar instituições semelhantes à que deixara na Bahia para socorro dos órfãos e meninos desvalidos.

Tendo feito boa colheita de esmolas em São Paulo, achava-se um dia o irmão Joaquim à beira da estrada em sitio deserto dessa capitania, descansando sentado à sombra de frondosa árvore, e de lápis e papel nas mãos traçava, improvisado arquiteto, grosseiro desenho de seminário, que ia em breve criar, quando alguns soldados e caipiras que passavam foram a ele, julgaram-no suspeito, reputaram o desenho do seminário talvez plano de marcha de algum exército invasor em riscos topográficos, e em suma prenderam e amarrado conduziram para o Rio de Janeiro o venerando irmão Joaquim, como espião e agente de Bonaparte!...

No Rio de Janeiro, Paulo Fernandes, o Intendente Geral da Polícia, ou ficou surpreendido, ou nadou em alegria ao anunciarem-lhe a prisão e chegada do espião francês, e ordenando logo que lhe apresentassem, ao ver entrar na sala o esperado criminoso, saltou da cadeira, exclamando:

— O irmão Joaquim!...

E com suas mãos ajudou a desatar as cordas que arrochavam os pulsos da inocente vítima, e sem perder tempo em interrogatórios inúteis chamou a esposa e a família e entregou aos seus cuidados amigos, aos bons ofícios da veneração mais justificada o mártir do erro mais grosseiro, o irmão Joaquim, o homem santo, o S. Francisco de Assis brasileiro.

Assim pois de 1808 até o fim da guerra geral da Europa, ou até ser encadeado aos rochedos de Santa Helena o novo Prometeu que se chamou Napoleão Bonaparte, falar em franceses no Brasil era o mesmo que hoje em dia anunciar febre amarela.

Mas estava escrito que a Rua do Ouvidor; que aliás já contava boas casas comerciais portuguesas e inglesas, somente havia de florescer e primar na cidade do Rio de Janeiro depois de tornar-se rua francesa.

Sabem todos que de 1808 a 1818 correu decênio quase todo de festas oficiais e populares: chegada da família real, aniversários natalícios da rainha e do príncipe regente, nascimentos e casamentos de príncipes, notícias de vitórias alcançadas na Europa sobre os franceses, tudo era motivo para festas mais ou menos brilhantes.

Nas Memórias do Padre Luís Gonçalves dos Santos, a paciência do leitor é posta em longa prova nas descrições, circunstanciadas e miúdas dos festejos e iluminações, sendo indicadas as ruas e ainda mesmo as casas, que mais distintas se mostravam em festiva ostentação, e a Rua do Ouvidor apenas uma vez é lembrada, mas como se vai ver, foi festeira de pouca despesa.

No dia 16 de dezembro de 1815 (aniversário natalício da Rainha D. Maria I) foi por carta de lei erigido o Principado do Brasil à categoria de Reino Unido de Portugal e Algarve.

O povo entusiasmou-se no Rio de Janeiro com o grau de nobreza a que fora elevado o Brasil, e o Senado da Câmara em janeiro de 1816 fez celebrar em ação de graças na Igreja de S. Francisco de Paula solene Te-Deum, ao qual, convidados, foram com aparatoso estado o Príncipe Regente D. João e os Príncipes seus filhos D. Pedro e D. Miguel.

O Padre Luís Gonçalves dá conta dessa festa com as minúcias do seu costume em tais assuntos; mas o que importa para a Rua do Ouvidor é que depois de dizer como o príncipe regente e seus filhos, o príncipe da Beira D. Pedro de Alcântara e o infante D. Miguel, precedidos por etc., e seguidos por etc., (nos et coetera fica toda a descrição de grandioso estado) saíram do paço da cidade no magnífico coche real e pelas ruas Direita e do Ouvidor se fizeram levar para a Igreja de S. Francisco de Paula, em trânsito que foi triunfal, ostentando as portas e janelas de todas as casas uma muito brilhante decoração e encantadora vista: tudo estava coberto de sedas de diferentes e matizadas cores, e as senhoras vestidas e tocadas com riqueza e gosto realçavam das janelas esta bela perspectiva!... De todas as janelas, especialmente da Rua do Ouvidor; caíam sobre o real coche inumeráveis flores que o cobriram e juncaram a rua, etc.

Nesta informação eu noto (mas sem malícia alguma) o zeloso cuidado com que observou os vestidos, os toucados e o realce das senhoras o reverendo Padre Luís Gonçalves, que tão severo, rabujento e furente preconizador do celibato clerical se pronunciou anos depois, atacando o Padre Feijó.

Em todo caso ai ficou em janeiro de 1816 a Rua do Ouvidor dignamente representada por senhoras e por flores na festa popular em honra da elevação do Brasil a Reino Unido aos de Portugal e Algarve.

Senhoras e flores!... que representantes legítimas de predestinado fulgor!... mas a representação por senhoras que se vestiam e toucavam sem vestidos nem toucados procedentes da Rua do Ouvidor e por flores que ainda então se obtinham gratuitamente, porque não havia jardins de exploração industrial, deu à rua hoje tão rica e famosa apenas brilho emprestado que bem poucas meias-moedas lhe custou.

Dois anos depois, em 1818, a Rua do Ouvidor fez muda, mas patente a confissão de exiguidade de recursos, não se tornando distinta, nem mencionada nos extraordinários espetáculos e festejos dados em honra da coroação do Rei D. João VI e de propósito demorados para o ensejo do casamento do Príncipe D. Pedro no mesmo ano celebrado.

As festas duraram três dias, e além do mais que houve, e que foi muito, produziu singular efeito, o espetáculo dos imensos e estupendos carros que se ostentaram no circo preparado no Campo de Santana, atual Praça da Aclamação.

O corpo do comércio apresentou o soberbo carro de Triunfo à Romana.

Os latoeiros e caldeireiros disputaram primazia com o seu pomposo carro da América.

Os ourives celebraram-se com o carro Triunfo do Rio de Janeiro.

Os marceneiros, carpinteiros e pedreiros distinguiram-se com seu muito aplaudido carro Emblemático.

Os alfaiates e sapateiros excederam a expectativa geral com o seu descomunal carro da Barra do Rio de Janeiro.

Ora, esses carros assinalavam (pelo menos alguns) ruas distintas; por exemplo: o dos ourives a rua do mesmo nome: o dos latoeiros e caldeireiros as dos Latoeiros, da Alfândega, etc.

E a Rua do Ouvidor ainda era tão pobre ou tão bisonha, que não fez farofa nas festas de 1818, e nem mesmo consta que fosse a elas em sege de aluguel!..

Mas era tempo!...

A carta de lei de 16 de dezembro de 1816, elevando o Brasil a reino, foi considerada de tanta importância política, que o príncipe regente D. João a fez solenemente comunicar aos governos das grandes potências da Europa, recebendo em resposta felicitações e aplausos.

Na cidade do Rio de Janeiro o corpo do comércio lembrou-se, bem inspiradamente, de festejar a elevação do Brasil a reino, oferecendo ao príncipe regente o produto de espontânea e avultada subscrição pecuniária para se fundar um instituto de artes e ciências na capital do novo reino e então da monarquia portuguesa.

O príncipe regente aceitou o oferecimento e determinou a fundação de uma escola real de ciências, artes e ofícios na cidade do Rio de Janeiro.

Escala de ciências, artes e ofícios era universo a criar; mas ainda bem que, embora as ciências e os ofícios ficassem de lado, vingaram as artes, pois que a subscrição do comércio e a deliberação do príncipe regente teceram o abençoado berço da nossa já gloriosa Academia das Belas-Artes, mãe de Porto Alegre, de Vitor Meireles, de Pedro Américo e de outras justificadíssimas ufanias do Brasil.

Mas em 1815 firmara-se no congresso diplomático de Viena a paz geral da Europa, e a França de Luís XVIII, tornada potência amiga, teve também abertos os portos do Brasil para o seu comércio.

Entretanto os franceses ainda abatidos pela guerra, pela opressão dos vitoriosos invasores do seu opulento e arruinado país, e pelos trabalhos de sua regeneração econômica, nem se lembravam talvez do Brasil.

Todavia tratando-se no Rio de Janeiro do Instituto das Artes, como a França gozasse fama de florescente em Belas-Artes, o Príncipe Regente, e logo Rei D. João VI, mandou engajar escolhidos mestres franceses, pequena que foi grande colônia de artistas pelo merecimento real e provado de alguns deles.

A 26 de março de 1816 chegaram esses artistas ao Rio de Janeiro, sendo os primeiros franceses que vieram estabelecer-se no Brasil depois da paz geral da Europa e dos tratados de Viena d'Áustria em 181S.

Os franceses entraram pois com o pé direito e três vezes com o pé direito no Rio de Janeiro.

Entraram pelas portas da paz.

Entraram trazendo por vanguarda célebre colônia dos artistas enobrecidos pelo seu merecimento.

Entraram amigos quando ainda fervia o entusiasmo pela elevação do Principado do Brasil à categoria de Reino.

Entraram, portanto, em regra, e três vezes com o pé direito.

Todavia a Rua do Ouvidor ainda teve de esperar cerca de cinco ou seis anos o começo de sua época de florescimento e de glória, e para mim a razão é muito simples.

Não foi de francesas, foi de franceses a colônia artística que chegou ao Rio de Janeiro a 26 de março de 1816, e não era a palheta do pintor, nem o buril do estatuário, era somente a tesoura das modistas que havia de levantar o monumento da Rua do Ouvidor.

Também não me consta que algum daqueles artistas fosse morar à Rua do Ouvidor; e que nela se estabelecessem alguns franceses negociantes que quase logo os seguiram, e que abriram de preferência na Rua Direita lojas de louça fina, de ornamentos de salas e de objetos de fantasia.

Eu ia fazer ponto final, quando lembrei que escrevi todo histórico e positivo este capítulo IX das Memórias da Rua do Ouvidor; e tão positivo e tão sério que me parece que ficou medonho.

Pois bem, vou pôr-lhe um ligeiro apêndice embora estranho à Rua do Ouvidor; dando, porém, notícia (hoje de poucos sabidas) da primeira francesa que teve certa nomeada na cidade do Rio de Janeiro.

Em 1818, calculando talvez com as festas da coroação do rei e do casamento do príncipe, e precisando afastar-se da França, onde se arreceava das disposições menos benignas do governo de Luís XVIII, aportou à cidade do Rio de Janeiro e nela estabeleceu-se, vendendo ricos vasos ornamentais de salões e de mesas de banquete, porcelanas finíssimas e outros objetos de luxo, Mr. F. B. que acompanhara o Imperador Napoleão em suas últimas campanhas como oficial não sei de que patente, mas de confiança privada.

Mr. F. B. trouxe consigo para a capital do Brasil Mlle ou Mme Aran... a qual pretendia com inconfessável orgulho que o grande homem (então cativo em S. Helena) a achava encantadora, quando em campanha andava longe dos olhos da Imperatriz Maria Luíza; e também Mr. F. B. com orgulho igual dava testemunho do glorioso encantamento durante as campanhas.

Dizem-me septuagenários e octogenários informantes que Mlle ou Mme Aran... era realmente linda, e que atestava o bom-gosto de Napoleão.

Mr. F. B. morava com a sua bela tutelada ou protegida não na casa de comércio, mas em chácara fora da cidade, e zelava-a menos como sultão, do que como eunuco especulador.

Correram meses, e passou mais de um, quase dois anos...

Mr. F. B. empenhava-se em vender todos os seus ricos vasos ornamentais e finas porcelanas...

Mas... o Rei D. João VI era velho, e só amava o luxo, e os ornamentos na igreja...

O Príncipe D. Pedro era noivo, morava no palácio do rei, e ainda não comprava objetos de luxo.

Mr. F. B. desapontou com o caso, desesperou, e um dia disse em bom francês à Mme ou Mlle Aran...

— Não há Napoleão no Brasil! Voltemos para a nossa Paris.

Mme ou Mlle Aran... sorriu-se maliciosa e respondeu:

— Oh! Napoleão só um... mas Bonapartes encontram-se...

E como sonhadora parisiense acrescentou:

— Voltemos para a nossa bela Paris.

E o casal de andorinhas que não fizera na capital do Brasil e da monarquia portuguesa o verão calculado bateu as asas... e foi-se.

Mas, Mme ou Mlle Aran... a primeira francesa que teve nomeada na cidade do Rio de Janeiro não morou, nem deixou penas de suas asas de graciosa andorinha na Rua do Ouvidor.

O apêndice extramuros termina aqui.

Memórias da Rua do Ouvidor

Sinopse

Leia Memórias da Rua do Ouvidor, de Joaquim Manuel de Macedo, grátis no Literunico. Obra clássica brasileira em domínio público, disponível para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada, capítulos completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

Ver ficha da edição física
LITEBN
LITEBN-978652430713669424306609
Memórias da Rua do Ouvidor

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Ir para o carrinho
Mercado de Memórias da Rua do Ouvidor

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral Memórias da Rua do Ouvidor Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 9 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de Memórias da Rua do Ouvidor

Capa de Memórias da Rua do Ouvidor
Continue a leitura Memórias da Rua do Ouvidor: Capítulo IX Capítulo 9 · 9 de 19 · ≈ 20 min
Todos os capítulos 19 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir