Universo da obra
Universo da obra
Àquele dia tão cheio de acontecimentos de imensa importância para os amores de Mariana e Celina, tinha de seguir uma noite não menos fértil.
Eram oito horas.
A voz da velha Irias acabava de chamar a Cândido para cear.
O mancebo, alegre como nunca o estivera em toda sua vida, desceu as escadas do velho sótão, e entrando na saleta do "Purgatório-trigueiro", encontrou sua mãe adotiva risonha e prazenteira, como em nenhuma outra noite se mostrara a seus olhos.
Era talvez uma noite de festa aquela que se estava passando na pobre casa; sobre a mesa havia dois pratos a mais; contra todos os antigos hábitos uma garrafa de vinho e dois copos se apresentavam aos olhos de Cândido; e para que nada faltasse, um vaso de flores naturais à mesa.
-- O que é isto, minha mãe?... perguntou Cândido sorrindo.
-- É uma noite de prazer, meu filho, respondeu a velha; e graças a Deus que o teu rosto se está parecendo com o meu coração; sorriem ambos. Estás alegre hoje?...
-- Oh! muito! muito!... tanto que tenho medo do meu prazer.
-- Por quê?...
-- Porque receio sentir-me dobradamente infeliz ao depois.
-- E qual é o motivo de tua inesperada alegria hoje?...
-- Minha mãe, eu vos peço perdão; mas é um segredo do meu coração.
-- Pois bem... eu o respeito.
-- E será igualmente um segredo do vosso, o prazer que vos transpira no rosto e que em tudo mais se demonstra em nossa velha casa?...
-- Segredo ou não... eu to direi.
-- Quando?...
-- Mais tarde.
-- Bem... esperarei; mas dir-me-eis hoje?
-- Sim; depois de cearmos.
-- Pois ceemos.
A velha e o moço sentaram-se, e começaram a comer com a melhor vontade.
-- Minha mãe, disse Cândido, nunca me senti tão feliz!...
-- Nem eu tão alegre, meu filho; bendito seja Deus!...
-- Qual de nós terá razão?
-- Nós ambos.
Acabado o primeiro prato, a velha encheu os copos, e disse:
-- Cândido, bebamos este copo de vinho pela causa do meu prazer e pela tua ventura.
-- Oh! sim! minha mãe!...
-- À saúde desta feliz noite! exclamou a velha com as lágrimas nos olhos.
-- Sim... sim; e também à felicidade da tarde que passou!
Os copos esvaziaram-se.
A ceia prolongou-se até às nove horas. A velha e o mancebo conversavam alegremente. Nunca uma noite igual se havia passado no "Purgatório-trigueiro".
Quando terminada a ceia, a velha escrava de Irias acabava de retirar-se, Cândido lembrou à sua mãe adotiva a promessa que lhe tinha feito.
-- Já ceamos, minha mãe; e eu estou ansioso de conhecer o vosso segredo.
-- Ainda não... creio que ainda é cedo. Que horas serão?...
-- Mais de nove.
-- Pois espera até as onze.
-- Por que então?
-- É uma puerilidade. Quero começar a falar às mesmas horas em que me bateram à porta.
-- Em que vos bateram à porta?...
-- Sim.
-- E para quê? perguntou Cândido curioso.
-- É a minha história... é o meu segredo.
-- Vós aguçais a minha curiosidade, minha mãe!
-- Tanto melhor.
-- Falai por quem sois!
-- Às onze horas da noite.
-- E até lá o que faremos?
-- Eu, respondeu a velha, pensarei no presente que me trouxeram a essa hora.
-- E eu?...
-- Tu... ora... tu podes muito bem pensar na tua ventura da tarde que passou.
-- Dizeis bem, senhora!... exclamou o mancebo.
E fechando os olhos, com os lábios dilatados pelo mais gracioso dos sorrisos... pensou em Celina, até...
Até as onze horas da noite.
Quando os sinos deram o sinal dessa hora, Cândido, como despertando de um sono feliz, exalou um profundo suspiro, e abrindo os olhos, viu Irias sentada diante dele:
-- Onze horas! disse o mancebo.
-- Sim, é tempo, respondeu a velha; eu vou falar...
Irias e Cândido respiraram e arranjaram-se em suas cadeiras, como se aquela tivesse de contar, e este de ouvir uma dessas longas histórias que se contam nas noites de inverno. E a velha falou:
-- Há vinte e um anos...
-- Há vinte e um anos?! exclamou o mancebo interrompendo Irias; há vinte e um anos?! não é essa a minha idade?
-- Creio que sim.
-- A vossa história tem pois relação...
-- Saberás, se me quiseres ouvir.
-- Falai, disse Cândido torcendo as mãos com vivos sinais de impaciente curiosidade.
A velha continuou:
-- Era noite; mas não como esta, que vai indo fresca e bela com seu majestoso e claro luar. Era uma noite de tempestade; a chuva caía a cântaros... os relâmpagos acendiam com intermitência cheia de temores um fogo infernal que cegava; os trovões faziam estremecer os móveis e as casas...
-- Má noite!... murmurou pensativo o mancebo; má noite!... que presságio!...
-- Que é isso? disse Irias; fazes-te melancólico?
-- Não é nada, continuai.
-- Eu estava de joelhos diante da imagem de Nossa Senhora das Dores... rezava tremendo pelos navegantes... e por mim. Nossa escrava respondia às minhas orações... a tempestade... a trovoada continuava cada vez mais horrível, quando às onze horas...
-- Às onze horas...
-- Uma mão pesada e forte bateu à porta de nossa velha casa... corremos ambas, eu e a escrava: "quem é?.." perguntei.
-- Abra pelo amor de Deus; disseram da rua.
-- Abri.
Recuei espantada diante de um vulto que entrou: era um homem alto e envolvido em longa capa negra.
-- Nada receie, disse ele sem se desembuçar.
-- Quem é o senhor? e o que quer de mim?... perguntei.
Em vez de responder-me, o homem fechou a porta por onde acabava de entrar, e ao som dos trovões... perguntou-me:
-- A senhora é cristã?
-- Eu rezava quando o senhor bateu, respondi.
-- Pode-se rezar e não crer, tornou-me. Pergunto se é cristã, se sabe sê-lo.
Por única resposta mostrei-lhe a imagem de Nossa Senhora das Dores, a cujos pés tinha eu estado há pouco.-- Nossa Senhora das Dores! exclamou o homem desconhecido: o símbolo da maternidade! a mãe de todos os homens!... de joelhos pois, senhora.
Eu me ajoelhei de novo diante da imagem, e o desconhecido prosseguiu:-- Em nome da mãe de Deus, que é também, e principalmente, a mãe dos órfãos e dos pobres, aceita, mulher, como teu filho esta infeliz criança recém-nascida, que não tem por si no mundo senão o olhar piedoso que do alto do céu está sem dúvida lançando sobre ele a Virgem...
-- E tem tudo portanto! acrescentei eu com o coração cheio de fé.
O desconhecido lançou para trás a capa, e entregou-me uma inocente criancinha recém-nascida, que acabava de fazer o seu passeio no mundo ao clarão dos relâmpagos e ao som dos trovões.
Recebi-a de joelhos como estava; era tão galante essa criança! jurei amá-la como se tivesse saído de minhas entranhas; jurei pela Santa Virgem, que seria sua mãe.
A criança dormia tão sossegada!
Olhei para a imagem da Senhora... pareceu-me que sorria... que me estava animando com um olhar protetor...
A chuva tinha parado... os trovões não se ouviam mais: era sem dúvida um milagre de Nossa Senhora.
Examinei a criança... era um menino.
-- Como se chama este menino? perguntei.
-- Ainda não tem nome.
-- Que nome lhe darei?
-- O que quiser.
-- Sua família?
-- Pois não está vendo que é um enjeitado?
-- Bem, eu o adoto; é meu filho.
-- Deus lho há de pagar, disse o desconhecido. Mas a senhora é pobre... eis aqui com que pagar-lhe a ama. Depois... se ele viver, uma mão misteriosa cuidará em sua educação; como um amigo incógnito velará por ele.
E deixando sobre a mesa uma bolsa cheia de ouro, o desconhecido envolveu-se de novo em sua capa, abriu a porta e desapareceu.
A noite já estava bela e clara; bela e clara como o dia.
Fiquei só com o menino.
-- E esse menino, disse tristemente Cândido, esse menino era eu.
Examinei-o todo, continuou a velha; e nem uma letra em suas roupinhas para designar sua família, e nem um sinal em seu corpo para fazê-lo conhecido de seus pais.
-- Oh!... é minha mãe, senhora? perguntou Cândido.
-- Abençoada seja essa noite, exclamou a velha sem atender a seu filho adotivo. Tu, Cândido, foste crescendo ao pé de mim sempre belo, feliz e engraçado. De ano em ano, à mesma noite, às mesmas horas, o homem desconhecido, embuçado em sua capa negra, vinha agradecer-me os cuidados que o meu amor gastava contigo, e deixar-me ora uma bolsa repleta de ouro, ora uma carteira contendo soma considerável em relação às pequenas despesas que me obrigavas a fazer.
-- E esse homem nunca falou?... nunca disse nada a respeito de meus pais?
-- Nunca. E tu eras tão pequeno, que jamais me veio à lembrança contar-te a história dessa noite. Depois, quando chegaste aos treze anos de idade, esse homem te veio arrancar dos meus braços... e sabes quanto tempo estivemos separados?
-- Oh! eu o vi então! esse homem de roupas negras... eu me hei de lembrar sempre...
-- Voltaste, continuou Irias, e é esta a primeira noite de teus anos que passamos juntos depois da tua volta. Quis referir-te o que se passou nessa noite, que começando em tempestade, acabou tão bonançosa. Oh! foi uma bela noite! bem feliz!... bem ditosa para mim.
-- A noite em que me enjeitaram! balbuciou o mancebo.
-- Todos os dias agradeço a Deus a felicidade de me haver feito tua mãe, porque tu és a consolação e amparo da minha velhice.
-- Obrigado, senhora.
-- Porque tu me amas como eu te amo.
-- É certo.
-- Porque tu me fazes ditosa, e hás de ser ditoso também.
-- Ah! quem sabe?!
-- Hás de o ser. A Senhora das Dores presidiu à hora feliz em que te eu adotei; tu és seu filho também... confia nela.
-- E minha mãe?! exclamou o mancebo.
-- E que outra melhor mãe do que ela?...
-- Oh! nenhuma; mas aquela que me concebeu tem direito ao amor do meu coração!... oh! minha mãe!... minha mãe... para que eu enxugue suas lágrimas se ela chora...
-- Espera.
-- Tanto tempo!
-- Espera; confia na Santa Virgem, a quem te recomendei quando te recebi em meus braços; a Santa Virgem te mostrará tua mãe...
-- Oh! que eu a veja!...
-- Bateram na porta.
-- Batem... disse a velha.
-- Quando eu pedia minha mãe!...
Bateram de novo.
-- É talvez ele.
-- Quem?...
-- O desconhecido.
Cândido lançou-se para a porta, que se abriu imediatamente.
Entrou um vulto preto.
-- É ele! exclamou a velha.
-- Não, respondeu Cândido; é uma senhora de mantilha.
Leia Os Dois Amores, de Joaquim Manuel de Macedo, grátis no Literunico. Romance clássico brasileiro em domínio público, disponível para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada, capítulos completos e metadados preparados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.