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Capítulo 17 · Os Dois Amores

Os Dois Amores: Capítulo XVII - João e Rodrigues

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Contra todos os seus hábitos, o velho Rodrigues, guarda-portão do "Céu cor-de-rosa", deixou às oito horas da noite o seu eterno posto do alpendre e desceu por um beco que vai abrir-se no largo da Lapa.

José e Helena, que estavam como sempre de espreita à janela, disseram um para o outro ao mesmo tempo:

-- Temos novidade.

O ex-escrivão, tomou imediatamente o chapéu, e saindo, apressou os passos até descobrir o velho Rodrigues, e o foi acompanhando de longe, e com todo cuidado para não ser por ele descoberto.

Helena ficou só, mas sempre vigilante à janela, observando o que pela vizinhança ocorria.

O velho guarda-portão, sem nunca olhar para trás, atravessou o largo da Lapa, e tomou pela rua do Passeio Público, deixou ao lado esquerdo a rua das Marrecas, venceu todo largo da Ajuda, e como quem se dirigia para a de S. José, foi indo sempre no mesmo passo, até que endireitou para a portaria do convento da Ajuda, e foi sentar-se nos degraus superiores.

Jacó coseu-se com a parede do convento, aproximou-se quanto pôde do velho, e finalmente, atirou-se ao chão, procurando ser tomado por algum mendigo.

O guarda-portão descobriu-o a tempo, e reconheceu o ex-escrivão; mas não deu sinal algum de o ter feito, e ficou quieto no mesmo lugar, cantarolando por entre os dentes uma de suas prediletas baladas.

Um quarto de hora depois o vulto de um homem alto veio-se aproximando do posto que Rodrigues tomara.

O velho chegou-se mais, enfim subiu também os degraus da portaria: era um velho pouco mais ou menos da mesma idade de Rodrigues.

-- Adeus, João, disse Rodrigues.

-- Boa-noite, Rodrigues! disse o recém-chegado tomando lugar e sentando-se junto do guarda-portão.

-- Esperaste muito?

-- Não, há um quarto de hora, apenas.

-- Que diabo! temos assim uns encontros, que melhor caberiam a dois ladrões, ou a dois namorados.

O guarda-portão sorriu e levantou os ombros, como quem queria dizer: -- que nos importa?

-- Conversemos, disse o recém-chegado: que novidades há?

-- Que mau costume! murmurou Rodrigues; falas sempre com voz tão alta!

-- Pois então que há?...

-- Apenas um curioso que nos espreita.

-- E onde está então essa peça?

Rodrigues apontou para Jacó, que fingia ressonar.

-- Ora... é um pobre mendigo.

-- Cala-te; é nada menos do que o celebre Jacó, que em outro tempo conheceste bem, e que hoje é meu vizinho, e tomou por sua conta espreitar todos os meus passos.

-- Ui!... pois deveras?...

-- Sem a menor dúvida.

-- Vamos pô-lo dali para fora a pontapés.

-- Para quê? basta que falemos baixo. Tenho pouco que dizer-te.

-- Tens razão, tanto mais que me suponho em vésperas de tomar de novo conhecimento com ele.

-- Como?...

-- Vi-o entrar o mês passado lá em casa.

-- E com que fim?...

-- Não sei, mas hei de sabê-lo.

-- É preciso.

-- Vamos ao principal: conta-me o que há.

-- Sim, porém torno a dizer-te que fales mais baixo.

--

Jacó não tinha até então percebido uma só palavra; apenas lhe chegava aos ouvidos um leve ruído; mas daí por diante ainda menos do que isso ouviu. João e Rodrigues eram para ele como dois mudos sentados ao lado um do outro. Arrependeu-se de haver seguido o velho guarda-portão, e a posição incômoda que tomara era como um castigo de sua insana curiosidade.

Os dois velhos amigos começaram a falar um com o outro em voz muito baixa.

-- Então o que há?... repetiu João.

-- Realizam-se minhas previsões.

-- Amam-se?...

-- Ele, como um louco, como um rapaz de vinte anos, que ama pela primeira vez.

-- E ela?...

-- Ou já o ama também, ou está em muito bom caminho para chegar a isso.

-- E já sabe que é amada?...

-- Creio que o pensava desde alguns dias; ontem porém teve a certeza de o ser.

-- Quem lhe revelou o segredo?...

-- Este seu criado.

-- Bravo, sr. Rodrigues; está representando um excelente papel.

-- Pois que querias tu que eu fizesse, João?... duas crianças tolas como eles são precisavam de quem lhes abrisse os olhos. E, sobretudo, não é verdade que convém terminar os nossos trabalhos? não crês que basta de provação?...

-- Eu não te crimino, Rodrigues; ao contrário acho que tens ido às mil maravilhas; tanto mais que dois trastes ve­lhos como nós, devemos dar graças a Deus por podermos ainda prestar para alguma coisa neste mundo.

-- Enfim eles se amam, repetiu Rodrigues.

-- Era natural.

-- Temos porém novidades cem vezes mais importantes.

-- Vamos lá.

-- Realiza-se também a minha última previsão: o outro igualmente a ama.

-- Oh diabo! o caso vai-se complicando; e ela?

-- Despreza-o.

-- Está no seu direito. E ele teima?...

-- Faz mais do que isso.

-- Então o quê?

-- Quer impor-se.

-- Como?...

-- Ora como!... pois não adivinhas?... com a misteriosa influência que exerce sobre a viúva.

-- Quando eu digo que o caso se vai complicando!

-- Ontem o velho e a menina saíram a passeio. A viúva arranjou uma dor de cabeça, e deixou-se ficar em casa; daí a pouco chegou ele.

-- Bem; e depois?

-- Fecharam-se na sala, e conversaram uma hora.

-- E tu?...

-- Ouvi tudo.

-- Bravo! és um herói.

-- Ele exigiu que a viúva fechasse a porta do "Céu cor-de-rosa ao pobre rapaz.

-- Por quê?...

-- Porque suspeita que a pequena o ama, e não quer ter um rival tão perto dela.

-- E a viúva?

-- Negou-se a cumprir a exigência.

-- E ele?...

-- Declarou-lhe formalmente que se ela não a cumprisse, perdê-la-ia no conceito público.

-- E finalmente...

-- Separaram-se sem haver decidido coisa alguma.

-- E o que concluis tu do que se passou?...

-- Que dentro em pouco as portas do "Céu cor-de-rosa" serão fechadas ao moço pobre.

-- E nada mais?...

-- Concluo também que o outro sabe pelo menos metade do que nós sabemos.

-- Ainda bem que ele sabe só metade; creio que não gostará quando vier a saber o resto.

-- João, para mim é claro que a -- décima segunda -- existe em poder dele.

-- É realmente a melhor maneira de explicar aquela misteriosa influência.

-- E tu, nada absolutamente tens conseguido?

-- Nada.

-- É pena; porque enfim, pode ser que essa arma com que ele joga, acabe por fazer muito mal ao nosso plano.

-- Que queres?... tenho trabalhado muito; mas sempre em vão. Já corri e examinei um por um, todos os papéis da casa.

-- E nada?...

-- E nada; falta-me só a carteira velha do defunto.

-- Quem guarda as chaves?..

-- Ele, que de ninguém as confia.

-- Diabo! é nessa: tem um segredo no fundo da primeira gaveta do lado esquerdo.

-- Lembro-me bem.

-- E então que fazes?...

-- Que faço! o que tu farias: espero.

-- Esperar é quase sempre o maior de todos os castigos.

-- E que remédio, Rodrigues? a carteira está em seu quarto de dormir, e ele quando sai leva sempre a chave; parece que esconde ali um grande tesouro.

-- Não se engana; mas hás de roubá-lo.

-- Esperemos.

-- Calaram-se por alguns momentos os dois velhos. Estiveram ambos pensando, e depois disse Rodrigues:

-- Ora dize, João, não parecemos dois decididos inimigos do tal sujeito?

-- Às vezes quer me parecer que sim: pelo menos praticamos como tais.

-- Não... não... isso não: ouve; se fosse preciso, eu dera o resto de minha vida para fazê-lo verdadeiramente feliz.

-- Às vezes quase que não merece nada. Foi, e será sempre desenfreado extravagante.

-- O seu fundo porém é bom. Sucede de ordinário assim com todos os extravagantes.

-- Pode ser que tenhas razão.

-- Ultimamente não se tem portado tão loucamente, como dantes.

-- Descansa para recomeçar.

-- Basta. É tempo de nos irmos.

-- Quando nos veremos outra vez?

-- Amanhã não pode ser: há reunião extraordinária no "Céu cor-de-rosa"; faz anos a "Bela Órfã".

-- Seja depois de amanhã.

-- Pois bem: depois de amanhã; adeus.

Separaram-se os dois velhos. João sumiu-se voltando o canto da rua da Ajuda. Rodrigues atravessou os mesmos largos e ruas por onde tinha vindo, e entrou no alpendre do "Céu cor-de-rosa".

Jacó, desesperado e furioso por não ter podido conseguir apanhar uma única frase da longa conversação dos dois velhos, voltou para sua casa em um verdadeiro estado da ebu­lição.

-- Então, exclamou Helena apenas o viu entrar; que foi fazer o coruja?...

-- Encontrar-se na portaria do convento da Ajuda com outro coruja, como ele, e com quem falou mais de uma hora.

-- Sobre quê, meu caro Jacó?...

-- São dois monstros, dois sicários, dois demônios...

-- Então...

-- Eu não pude ouvir nada; falaram em segredo; respondeu Jacó desatando profundíssimo suspiro.

Oh! malvados!... exclamou Helena.

E naquela noite os vizinhos de Jacó e de Helena foram mais que nunca vítimas da mordacidade, das calúnias desse par sem igual.

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Sinopse

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