Universo da obra
Universo da obra
O sol repontava no horizonte, como um rubro e enorme disco. Surgindo de um lago de oiro incandescente, quando o cortejo do êxodo se pôs em marcha, pela estrada da serra.
Luzia percorreu, com enternecimentos de saudade, os recantos da casa vazia, onde ficavam o pilão, o jirau da latada, a trempe de pedra, os tições extintos, enterrados sob tulhas mornas de cinza, tristes vestígios dos habitantes que a abandonavam. Contemplou, com lágrimas comovidas, o lar apagado, o terreiro, em torno, limpo, varrido, as árvores mortas, os mandacarus carcomidos até ao alcance dos dentes dos animais vorazes, a paisagem triste, coisas mudas e mestas, que se lhe afiguravam companheiros de infortúnio, dos quais se despedia para sempre. E partiu, conduzindo, à cabeça, uma pequena trouxa.
Seis possantes rapazes e Raulino iam à frente, revezando-se na condução da tia Zefa, estirada na rede, amarrada a um caibro longo e flexível. A bagagem, duas malas e os cacarecos de serventia doméstica, foi levada na véspera por outros trabalhadores e Alexandre, que se adiantara para preparar a nova morada, o ninho da ventura sonhada. A família de Marcos também partira com ele.
Ao passar a rede pelas últimas casas da Lagoa do Junco, perguntavam as mulheres debruçadas sobre as janelas:
- Vai vivo ou morto?
- Bem viva, graças a Deus, respondia Raulino.
- Deus a conserve. Boa viagem!
Luzia lançou demorado olhar ao morro do curral do Açougue, onde começava de alvejar, de reboco, a penitenciária, enleada na floresta de andaimes, quase pronta para receber a cumeeira. E ocorreu-lhe, como recordação piedosa, a triste sina dos condenados que ali ficavam, por toda a vida, encerrados, como em sepultura de pedra e cal. Dentre eles, surgia o espectro minaz de Crapiúna, cujos gritos terríveis de desespero ecoavam ainda no coração dela, por mais que se esforçasse por varrê-los da memória, e libertar-se da implacável obsessão, que lhe toldava a serenidade do amor vitorioso.
Desviando os olhos do morro sinistro, que fora o seu Calvário de vilipêndio, compensado pela florescência dos instintos sagrados e do afeto redentor de LuziaHomem, ela resfolegou aliviada, como se dentro daquelas paredes maciças, colossais, ficassem encarcerados o passado, as mágoas, os dissabores dos opressivos dias de miséria.
A estrada coleava pelo terreno ondulado, cômoros calvos e vales cortados pelos sulcos dos regatos extintos, e alteando insensivelmente, ao passo que, com a montanha, se aproximavam, cada vez mais nítidos, o arvoredo, as manchas peladas dos roçados estéreis, as cintas de granito, os talhados a pique, em precipícios medonhos, e grotões sombrios, destacados, num esmalte bronzeado de neblina vaporosa.
Madrugadores serranos desciam para a cidade, dirigindo comboios de farinha, de rapadura, o derradeiro produto da lavoura agonizante. Troteando à cadência do ranger das cangalhas, eles saudavam aos viajantes, repetindo a pergunta caridosa: "Vai vivo ou morto?" - quando, tirando o chapéu, se afastavam para darem passagem à rede da tia Zefa.
À margem da estrada, dentre moitas de mofumbos ressequidos e juremas desgrenhadas, uns fios de fumo azulado erguiam-se, em tênues espirais, dos ranchos de retirantes, acordados àquela hora da manhã, e pedindo, plangentes, uma esmolinha pelo amor de Deus.
Depois de duas horas de marcha, interrompida a espaços, para descanso dos carregadores, tornou-se o solo mais acidentado em sucessivas colinas e contrafortes tortuosos, dilatados, como raízes colossais pelo sertão, partido em vales profundos, refrescados pelas filtrações da serrania, sombreados por vegetação da folhagem pardacenta, retorcido e crestada. Mais longe, uma descida íngreme, sobre estratificações da piçarra cortante, os levou ao sopé da montanha, onde começava a ladeira, e apareciam as primeiras árvores, os oitizeiros frondosos, cedros, pausd'arco e angicos em floração estiolada, contornando o riacho da Mata-fresca, do qual restava intermitente fio d'água a deslizar sobre lages, e gotejando de pedra em pedra, como vagarosa lágrima. O séquito parou ao abrigo de grandes rochedos, rolados e amontoados em confusão, por esforço titânico. Forte aragem rumorejava encanada pelo boqueirão, com um ruído de mar longínquo.
- Estamos quase em casa! - exclamou Raulino. - Mas o rabo é o mais difícil de esfolar. Ainda temos um pedaço de ladeira de suar topete. Se pudéssemos ir pelo atalho, encurtaríamos metade do caminho, mas a rede não pode passar na vereda cheia de voltas, troncos e barrancos que é mesmo uma escada de demônios.
- Não há dúvida, seu Raulino - observou um dos rapazes, limpando, com o dedo, o suor que lhe perolava a fronte. - Nem que fosse carga mais pesada; nós somos cabras de talento; vamos bater lá num fôlego, quanto mais a tia Zefinha que é leviana como uma pena.
- Vocês são mas é uns prosas - tornou o sertanejo, ironicamente. - Vejam como estão melados! Com qualquer forcinha ficam botando a alma pela boca. Vamos ver se chegamos à Cova da Onça sem arriar. Um trago da branca está esperando a gente lá em riba. Vosmecê, sra Luzia, que é ligeira, vá pelo atalho que é melhor. Quando chegar no primeiro cotovelo da ladeira, quebre a mão esquerda por uma vereda trilhada, que desce de cabeça abaixo; chega no fundo da grota; passa entre dois muros de pedra; atravessa o riacho e sobe por dentro de um bananal. Chegando na lombada do oiteiro, avista logo a casinha no meio de laranjeiras.
- Você já esteve aqui, seu Raulino? - inquiriu Luzia.
- Ora, ora, ora! Eu conheço o oco do mundo. Oh! Aqui vai a Teresinha. Veja o rasto dela, pequenino, delgado no meio que não toca no chão. Se apertar o passo ainda a pega, porque ela vai cansada. O rasto miúdo e encalcado mostra que vai devagar... Eu rastejo, como se lesse no chão, até por cima da pedra, folharal e até dentro d'água...
E, voltando-se para os carregadores:
- Vambora! Pega de jeito; acerta o passo, cabroeira mofina!... Vamo, vamo, que é meio-dia... Agüenta o balanço! Aonde vocês botam o pirão que comem? Até daqui a um tiquinho, sra Luzia...
E seguiram, em festiva algazarra, estimulando-se com gritos, graçolas que repercutiam, com fragor, nas quebradas do boqueirão. Raulino os tangia com ordens de comando, emitidas no tom gutural dos vaqueiros, voz retumbante, que ele pretendia fosse ouvida a léguas.
Luzia foi subindo após eles, sem esforço, lentamente, até à primeira volta da ladeira, daí em diante cavada na aresta das rochas, talhadas, a prumo, sobre o grotão profundo. Desse sítio agreste, descortinou o panorama do sertão, cinzento de mormaço, terminando no recorte azulado das serranias, ao nascente, avultando, erectos, denteados e finos, como agulhas de catedral gótica, os picos, que eriçam as crateras extintas dos olhos-d’água do Pajé. Uma facha verde-escuro, serpeando a perder-se no horizonte, assinalava o interminável renque de oiticicas seculares, marcando o sulco do rio estanque; depois espelhavam ao sol glorioso daquele dia abrasador, a cidade em agrupamento informe, apenas esboçado, as casas das fazendas abandonadas, ponteando, aqui e ali, a planície devastada e quieta, como um imenso pântano.
Enternecida na contemplação daquele espetáculo extraordinário, na sua tristeza de paisagem morta, o sertão devastado como a terra combusta do Profeta,
ouvia o festivo alarido dos silvos das cigarras escondidas nos troncos vetustos, e hauria o ar fresco da montanha, embalsamado pelo capitoso perfume das imburanas, a descascarem, numa exuberância magnífica de seiva.
Desse enlevo, arrancou-a o brado longínquo de Raulino, gritando aos carregadores da rede. Do outro lado do desfiladeiro, mais longe ainda, Alexandre, do terreiro da casinha, respondia, radiante de alegria pela aproximação dos entes queridos.
Obedecendo à indicação do sertanejo, Luzia desceu pela tortuosa ladeira, que ia no fundo da grota, e, sustendo-se nos arbustos das margens para não escorregar, colhendo flores silvestres, parando, a revezes, para desembaraçar as vestes dos espinhos que a detinham, chegou à garganta, que Raulino designara por dois muros de pedra, duplo dique donde se despenhava, em catadupas, o riacho, quando Deus dava ao Ceará chuvas benfazejas e fecundantes. Erguendo a saia, ela fruiu a delícia, havia muito não gozada, de imergir n'água sussurrante, os pés pequeninos, as pernas roliças e musculosas, adornadas de aveludada pelúcia negra. Com as vestes presas ao joelho, curvou-se, colheu aljôfares cristalinos nas palmas côncavas das mãos, e banhou o rosto e os cabelos, polvilhados pela poeira do caminho.
Interrompeu-a pavoroso grito, e uma voz, que ela, transida de terror, reconheceu, rugiu:
- Foi o diabo que te atravessou no meu caminho. É a última vez que me empatas, peitica do inferno!...
Luzia, na confusão da surpresa, tentou recuar, esconder-se nas fendas dos rochedos; mas, vencendo o impulso de cobardia, e avançando, cautelosa, deparouse-lhe Teresinha, na outra margem da torrente, algemada de terror, agitando, frenética, os braços, presa a voz na garganta e as pernas paralisadas, chumbadas ao solo. Aquém, arquejava Crapiúna em estos de cólera, tentando galgar as pedras que os separavam.
- Desta vez - grunhia o soldado - nem Deus te acode, ladra ordinária. Fugi, durante a faxina da madrugada, para vir lavar o meu peito... Ah!... Vais ver para quanto presto, cachorra!...
Em convulsão de nervos enrijados, Teresinha estertorava agoniada, agitando, com uns acenos epilépticos, as mãos desarticuladas.
- Deixe a rapariga, seu Crapiúna - bradou Luzia, avançando, resoluta e destemida.
O soldado voltou-se como um tigre, ferido pelas costas.
Diante da moça, em postura de firmeza impávida, magnífica de vigor e de beleza, o soldado empalideceu, fez-se lívido, e recuou, como se um prestígio sobrehumano lhe aplacasse os ímpetos incoercíveis de cólera e de vingança.
- Luzia! - murmurou ele, quase súplice - Não lhe quero fazer mal... Sou um desgraçado, um miserável... Pedi-lhe outro dia, pelo amor de Deus, um instantinho de atenção. Não fez caso; não teve dó de mim... Agora vai se decidir a minha sorte...
- Arrede-se; deixe-me passar!... - intimou Luzia, com força, num tom imperativo, breve e seco.
- Escute-me, meu coração... Nenhum homem neste mundo lhe quer bem como eu.
- Deixe-me passar!... - Passar!?...
Luzia avançou agressiva.
- Pensas - continuou Crapiúna, recuando, transfigurado o rosto por diabólico sorriso - Pensas que tenho medo de Luzia-Homem? Desgraça pouca é bobagem...
E atirou-se de um salto sobre Luzia, que, empolgando-o quase no ar, o torceu, e, atirando-o ao chão, subjugado, comprimiu-lhe o peito com os joelhos.
O séquito parara na Cova da Onça, cerca de cem metros de altura, donde se viam, distintamente, os lutadores.
Crapiúna gemia, espumava de raiva, medonho, sob a pressão inexorável que o esmagava.
- Miserável, miserável! - gritava Luzia, rubra de pudor, de cólera, procurando deter as mãos crispadas do soldado a lhe rasgarem o vestido -
Alexandre!... Raulino!...
A voz vibrante de angústia retumbou nas quebradas do boqueirão, como um clangor de clarim, e a de Raulino Uchoa respondeu como um eco:
- Agüente; tenha mão nesse malvado, que já vou!...
Aproveitando um movimento da rapariga para compor o traje, Crapiúna ergueu-se, e recuou de salto. Arquejava de cansaço, e da boca lhe borbulhava sangrenta espuma. Os olhos, injetados, fulgiam de volúpia brutal, louca, fixando-se desvairados em Luzia, desgrenhada, o seio nu e as pernas esculturais a surgirem pelos rasgões das saias, caídas em farrapos.
Ébrio de luxúria, exasperado pela invocação de Alexandre, o monstro, recobrado o alento, acometeu-a, rugindo.
Luzia conchegou ao peito as vestes dilaceradas, e, com a destra, tentou lhe garrotear o pescoço; mas, sentiu-se presa pelos cabelos e conchegada ao soldado que, em convulsão horrenda, delirante, a ultrajava com uma voracidade comburente de beijos. Súbito, ela lhe cravou as unhas no rosto para afastá-lo e evitar o contacto afrontoso.
Dois gritos medonhos restrugiram na grota. Crapiúna, louco de dor, embebera-lhe no peito a faca, e caía com o rosto mutilado, deforme, encharcado de sangue.
- Mãezinha!... - balbuciou Luzia, abrindo os braços e caindo, de costas, sobre as lajes.
Raulino precipitara-se no despenhadeiro. Agarrando-se aos arbustos encravados nos interstícios dos rochedos, escorregando onde o penhasco se inclinava em rápido declive, saltando com energia indômita por sobre as fendas, pendurando-se nos cipós que entreteciam a floresta, atufando-se nas frondes das árvores, passando de uma a outra com agilidade de símio, ou deslizando pelos troncos nodosos, enleados de orquídeas, chegou ao fundo da gruta.
Lá, em cima, se ouviam os brados dos carregadores e os grandes gemidos dilacerados da mãe angustiada:
- Meu Deus, Mãe Santíssima, valei-a, salvai a minha filhinlia!...
Momentos depois, o sertanejo surgiu do matagal, perto das pedras do riacho, ofegante do esforço da fantástica descida, atassalhada a roupa, escoriados os braços e pernas pelos espinhos, as mãos feridas, ensangüentadas.
Luzia, hirta e lívida, jazia seminua. Nos formosos olhos, muito abertos, parecia fulgir ainda o derradeiro alento. Os cabelos, numa desordem, escorriam pela rocha, forrada de lodo, e caíam no regato, cuja água, correndo em murmúrio lâmure, brincava com as pontas crespas das intonsas madeixas flutuantes. Na destra crispada, encastoado entre os dedos, encravado nas unhas, extirpado no esforço extremo da defesa, estava um dos olhos de Crapiúna, como enorme opala, esmaltada de sangue, entre filamentos coralinos dos músculos orbitais e os farrapos das pálpebras dilaceradas. Sobre o seio, atravessado pelo golpe assassino, demoravam, tintos de sangue, como se reflorissem cheios de seiva, cheios de fragância, os cravos murchos que lhe dera Alexandre.
Raulino recuou, cortado de terror, ante o cadáver; e, num turbilhão de cólera, rugiu, arrepiado, apertando os dentes, e, com uns gestos, que eram crispações medonhas de fera, esquadrinhou o terreno, buscando e rebuscando o criminoso.
Crapiúna, ganindo de dor, estorcia-se, erguia-se, nuns movimentos loucos, comprimido, sob as mãos, o rosto mutilado; caía e erguia-se de novo, até que rolando de pedra em pedra, se sumiu no precipício...
Voltando, então, para junto do corpo de Luzia, Raulino curvou-se compungido; apalpou-lhe o peito, ainda morno; e, aproximando os lábios da divina cabeça da heroína, gemeu com intensa amargura, as palavras doloridas de unção aos moribundos:
- Jesus!... Jesus!... Seja contigo!... Jesus, Maria e José!...
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