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Luzia-Homem

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Luzia-Homem

Capítulo 26 · Luzia-Homem

Capítulo XXVI

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Capítulo XXVI

Não acabara Luzia de pentear os cabelos que, depois de vendidos eram tratados com maior carinho, quando chegou Raulino, conduzindo a trouxa de mantimentos e uma grande cabaça d'água.

- Muito bom dia, sra Luzia!

- Bom dia, seu Raulino. Você vem hoje carregado.

- É que aumentei a trouxa com a cabaça e contrapeso que lhe mandaram.

- Para mim?

- Sinharsim. Meti os pés da rede quando vinham quebrando as barras e imaginei que vosmecês estariam carecidas d'água. Como estou morando, agora, na cadeia nova, para botar sentido nas obras, de noite, enchi a cabaça na jarra e fui à cidade receber as rações porque as do armazém da Comissão são melhores e medidas com lavagem. Foi uma lembrança mandada por Deus, porque, chegando lá, topei na porta o Alexandre...

- Alexandre!

- Em carne e osso. Depois de dar-lhe mão de amigo, pedi-lhe que me aviasse depressa para poder eu chegar aqui cedinho. Ele, meio banzeiro, perguntou por vosmecê, pela tia Zefinha e pelos outros conhecidos. Coitado! Está branco, com a cara encerada, que mete dó ver, tão desfeita uma criatura, que vendia saúde...

- Está doente?

- Como quem passou obra de um mês enterrado naquela prisão porca e fedorenta que mais parece um chiqueiro que morada de cristãos.

- É horrível!

- Mas a demora foi dar notícias de vosmecê, ficou ligeiro e alegre que não parecia o mesmo. Mediu... Mediu é um modo de falar: fez a olho, as rações. Era o que a mão dava. Ele por uma banda e eu pela outra. E não fomos mais longe porque já era uma dor de consciência. O homem quer bem a vosmecês mesmo de verdade. Fez perguntas e re-perguntas; quis saber do puxado da tia Zefinha; se sra Luzia ainda estava na obra, se passou lá trabalhando o dia de ontem, um horror de coisas que fui respondendo só para dar-lhe gosto. Agora está como quer. Há males que vêm para bem. Melhorou no emprego e recebeu uma dinheirama de coiro e cabelo.

Luzia desembrulhava os gêneros e os arrumava, aparentando indiferença à loquacidade de Raulino, que falava pelos cotovelos. Os sertanejos ladinos são, em geral, admiráveis narradores, de imaginação acesa, fecundos em descrição, cujos menores incidentes são debuxados com vigor.

- Que é isto? - perguntou Luzia, indicando um guardanapo de linho amarrado nas quatro pontas.

- Isto é pães - respondeu Raulino. - Quando eu vinha vindo, a dona do Promotor chamou-me e deu-me essa frouxinha, dizendo por aqui assim: "Leve isto para Luzia, seu Raulino, diga-lhe que estou muito agradecida pelo trabalho da roupa para os pobres, uma perfeição de costura. Diga-lhe mais que apareça: desejo muito ver os meus bonitos cabelos."

Luzia baixou os olhos, e estremeceu ligeiramente.

- Ora, - continuou o sertanejo - eu não entendi bem o que a dona queria dizer, mas fiquei malinando que também gosta, como todo o mundo, dessa sua cabeleira, comparando mal, parecida com as das mães-d'águas encantadas, lavando-se na lagoa em noite de luar, com os cabelos de vara e meia boiando e embaraçando-se nos aguapés cheirosos, como eu vi com estes olhos, que a terra fria há de comer, de uma feita, que eu estava de tocaia, esperando patarrões brabos. A noite estava clara que nem dia. Cansado de esperar e resfriado pela fresca do sereno, passei por uma modorra.

Quando dei fé, ouvi o barulho de um corpo espalhando a água; levei a lazarina à cara, e, pensando que eram os patos, ia papocar fogo. Divulguei, então, o corpo de uma mulher, luzindo molhado e nadando como uma marreca. Ainda fico frio quando me lembro dessa visagem. Os meus cabelos se arrepiam como espinho de cuandu. Quis gritar, mas tinha um nó na garganta. Passou-me uma névoa pelos olhos e deixei cair a espingarda. Quando dei acordo de mim, afirmei bem a vista para ver o que era. A lagoa estava serena como um espelho. Tudo quieto. Só ouvia sapos ateimando: foi, não foi, e os cururus roncando. Não quis mais saber de histórias; apanhei a arma e meti o pé na carreira. Só tomei fôlego quando avistei a casa. Sra Luzia a modos que não me acredita? Luzia sorriu, com branda ironia.

- Pois fique sabendo - continuou Raulino, com muita convicção - que não foi só a mim que ela apareceu. O Isidro, rapaz destemido e caçador de fama, também viu a mãe-d'água de uma feita que estava tarrafeando curimatãs. Por sinal que não apanhou uma triste piaba naquela lagoa, que tinha mais peixe do que água. Voltou da pescaria com as mãos abanando, capiongo, meio leso e contou o caso à noiva, moça (falando com o devido respeito) bonita como uma imagem. Ela ficou desconfiada e quis, por fina força, ir, fora de horas, à lagoa. O rapaz fez todo o possível para tirar-lhe da cabeça semelhante doidice; disse-lhe que era um perigo porque as mães-d'água são ciumentas das moças que estão para casar, que houvera muita desgraça por causa disso; pediu, rogou por tudo quanto havia de mais sagrado. Ela prometeu não ir, mas cada vez mais desconfiada teimou, porque mulher, quando malda, não chega ao moirão com duas razões. Fugiu de casa quando estavam todos recolhidos e foi à lagoa. Não lhe conto nada. Ao amanhecer, deram por falta da moça. Foi um Deus-nos-acuda. Ninguém dava notícias dela. O noivo ficou como um doido; mas, lembrando-se da história da mãe-d'água, pôs-se a rastejar e encontrou o rasto da chinelinha da infeliz, bem marcado no caminho orvalhado.

Acompanhou-o com outras pessoas, também rastejadoras, e foram bater na beira d'água. Estavam imaginando no que teria acontecido, quando ouviram uma risada de mangação. Pensaram que era a moça escondida para zombar deles. Bateram o mato em redor, o pacoval, cheio de ninhos de azulões e papa-arroz. Nada. Os passarinhos fugiam espavoridos, e um bando de garças, alvas como capuchos de algodão, voava remando no ar. Os homens olharam uns para os outros sem saberem o que fizessem. O Isidro, mais morto do que vivo, numa aflição de meter dó, encarou n'água como se quisesse ver-lhe o fundo. Quem dera a risada? Aonde fora a moça parar? Onde se escondera? O rasto ali estava provando que ela não voltara para trás...

- Mas... é verdade isso? - inquiriu Luzia, com terror.

- Acredite, como se estivesse vendo. Eu não sou homem de inventar, nem de dizer uma coisa por outra. Ouça o resto. Um vaqueiro velho foi buscar uma cuia, pregou dentro uma vela acesa e largou-a em cima d'água. A cuia vagou à toa, de um lado para outro, conforme assoprava o vento; foi, depois, seguindo para o centro, até que ficou parada, obra de cinqüenta braças de distância. Nisto, o Isidro, num abrir e fechar d'olhos, tirou o gibão de coiro e largou o braço n'água. Chegando ao lugar, onde a cuia estava parada, mergulhou, e... Que horror!... Nem gosto de me lembrar... Num instantinho, voltou à flor d'água; tomou fôlego e mergulhou outra vez... Quando deram fé, ele surgiu com um corpo nos braços e nadou para a terra como um desesperado. Vinha como um bicho feroz, arquejando, enlameado, coberto de ervas e raízes encharcadas. Os outros foram ao seu encontro para ajudálo. Trazia a noiva morta. Os olhos azuis da defunta estavam esbugalhados e vidrados. A boca meia aberta, parecia querer falar. Tinha as mãos juntas sobre o peito, aqui, lá nela, e amarradas em nó cego, com as duas tranças de cabelos loiros, compridos como os seus, sra Luzia...

- Que desgraça! Credo! Morreu de ciúmes!...

- Que ciúmes! Foi afogada pela mãe-d'água. A malvada amarrou-lhe as mãos para que a pobre se não pudesse salvar, pois nadava como uma piaba. Era dela a risada que ouviram; ria da sua obra maldita... Depois dessa tragédia, os comboieiros, que navegam para aquelas bandas e passam de noite pela beira da lagoa, ouviram arrepiados de medo, aquela risada medonha.

- Isso é busão! - disse do quarto a velha, atenta à história.

- Ah! tia Zefa, vosmecê estava acordada?

- Desde madrugada.

- Busão ou não - ponderou Raulino - o caso é verdadeiro. Quando a gente não pode explicar as coisas diz que é busão; mas o fato é que há no oco deste mundo velho muita coisa, que nem doutores, nem padres conhecem. E, com esta, vou andando.

Habituada às histórias extraordinárias do imaginoso sertanejo, Luzia experimentou, todavia, forte abalo, ouvindo a reprodução da lenda, sempre viva nas recordações da infância, dura quadra despercebida, de gozos facilmente olvidados, porque é bem verdade que só o sofrimento tem o poder de cavar na memória sulcos indeléveis. É por isso que há estranho encanto, espécie de amargura e de saudade em exumar tristezas, em reviver lances de desgraça, como narrar crises de moléstia, lutas entre a vida e a morte, os dissabores, as desilusões, as mágoas suportadas com resignação, com heroísmo, que se nos afiguram obstáculos transpostos, vitórias alcançados contra a fatalidade, os cruéis inimigos ocultos, intangíveis, à maneira das tiranias onipotentes das forças misteriosas que engendram, nas terríveis profundezas do infinito, as calamidades, os cataclismos e os assombrosos fenômenos que assinalam o eterno combate entre o que destrui e o que produz.

- Espere pelo café, seu Raulino - disse Luzia.

- Estava quase requerendo - tornou o sertanejo. Por essa bebida, sou como macaco por banana. No tempo da fartura, eu era capaz de tomar uma canada de café por dia.

- Não viu, por ai, Teresinha?

- Nharnão, pensei que ela estava aqui.

- Esperei-a toda a noite.

- Deixe estar que aquela não se perde com duas razões.

- Sempre estou com cuidado nela.

- O Alexandre disse-me que ela esteve com ele desde que foi solto até à tardinha, quando o deixou com promessa de se encontrarem aqui hoje.

- Aqui! - exclamou Luzia, alvoroçada.

- Sinharsim. Pelo menos, foi o que ouvi da própria boca dele - afirmou Raulino, tirando uma grande pitada de caco do corrimboque de chifre de carneiro.

- É para dar que pensar - observou a velha.

- O mais certo - considerou Raulino - é ter ela ficado no quarto da Gangorra, pensando, talvez, que, preso Crapiúna, vosmecês não precisassem mais de companhia. Poderiam dormir descansadas sem receio de alguma traição do excomungado.

- Se soubesse onde era a casa, iria buscá-la, tanta falta me faz... Coitada! Aquilo só é ruim para si.

- É pena, sra Luzia, porque ela teve bons princípios e foi bem afamilhada. Mas, caiu-lhe em cima a desgraça. Eu também tive a mesma sorte. Meus avós eram gente de consideração, bem arranjada; e, como me vê, poderia comer em pratos de ouro, se não... Para que lembrar tristezas que não pagam dívidas? Tive currais cheios de vacas de leite; apanhava meus oitenta bezerros por ano; possuía bons cavalos de sela, e o demônio, em figura de mulher, levou tudo. Hoje, ando a trabalhar para não morrer de fome, com vergonha de me dar a conhecer à parentalha que tenho aqui mesmo em Sobral. Fui nascido e criado na ribeira do Jaguaribe. Ainda é do meu sangue essa gente de Xerez. Somos todos Furnas...

- Que feio nome?

- É meio esquisito, mas é de gente muito graúda, de muitas posses e honrarias, espalhada por estes sertões numa parentalha, que nunca mais se acaba, como a gente dos olhos-d’água do Pajé, os Rochas e os Cavalcantes...

Agora, vou mesmo que já tocou a primeira vez da missa do dia.

- Se mãezinha tivesse com quem ficar, iria também à missa.

- Não seja essa a dúvida, filha - observou a enferma. - Basta que me deixes ao alcance da mão um caneca d'água.

- E vou mesmo. Há muito que não piso na igreja. É mesmo um pecado...

Raulino despediu-se, sorvendo, com estrépito, outra pitada, e partiu no seu passo de andarilho, bamboleando num chouto mole, miúdo, o corpo erecto e musculoso.

Preparada a refeição da mãe, Luzia ataviou-se, com o seu melhor vestido, um roupão de cassa lisa, que, amarrado à cintura, lhe desenhava as formas graciosas, e saiu na direção da cidade.

Não era a missa um pretexto para sair; mas, ao profundo sentimento religioso se aliava a casquilhice inocente de exibir os belos vestidos, as últimas fantasias da arte decorativa da mulher, importadas do Recife, uns trajes vaporosos de renda e cambraia, feitos com requintes convencidos de elegância, com raro gosto, pelas adoráveis criaturas que os vestiam. Nada havia de censurável em que as moças da cidade, metidas durante toda a semana em casa, ocupadas em trabalhos sedentários de renda e labirinto, se desforrassem desse retraimento nas festas religiosas, celebradas, sempre, com extraordinário esplendor. Imitando à gente rica, Luzia, além do intuito de cumprir um piedoso dever, nutria a esperança de encontrar Teresinha ou Alexandre, obter notícias deles, ou, pelo menos, encurtar a distância que os separava.

Ao passar pela rua do Menino Deus, ela esmoreceu a marcha; aproximou-se do armazém da Comissão e olhou atentamente para dentro, erguendo-se nas pontas dos pés, para ver, através da multidão de indigentes, aglomerados à porta, a criatura querida.

Quando avistou a cadeia, cujas grades negras estavam cheias de presos amaciados e lívidos, sentiu-se a moca cortada de terror. Crapiúna estava ali dentro, como fera cativa, devorando-a, talvez, naquele momento, com os olhos injetados por uma congestão de cobiça e raiva impotente.

- Moça, ó! moça! - disse um menino que se aproximou dela correndo. - Ali tem um preso que quer falar com vosmecê.

Luzia repeliu, com um gesto enérgico de negação, o esperto pequeno, que insistia no chamado, e apressou o passo para distanciar-se da sinistra prisão, onde uma voz rouca e vibrante, como um rugido, a voz de Crapiúna, bradava suplicante, e amaldiçoava:

- Luzia, Luzia!... Meu coração, meu amor da minha alma, tem pena de mim! Perdoa-me pelo amor de Deus! Vem! É um instantinho... Não te farei mal. Vem! Só duas palavras!... Ah! Não me ouves; não queres saber de mim!... Mulher do diabo!... Deixa estar, safada, amaldiçoada, que não ficarei preso toda a vida... Nem que tu vás para o inferno...

O soldado gritava, estorcia-se delirante, agarrado às enormes barras de ferro do portão, brandindo-as, abalando-as com inútil esforço para quebrá-las, arrancá-las dos gonzos chumbados ao portal de granito.

Perseguida pelo eco dos brados de insânia desesperada, ela penetrou no templo, como num abrigo inexpugnável, defeso à maldade humana, à curiosidade vexatória daquela gente que, lá fora, a considerava criatura impassível de coração, e se apiedava do prisioneiro, cuja dor feroz lembrava a simpatia dos grandes infortúnios.

A imensa nave da matriz desbordava de fiéis, amontoados, em confusa massa inquieta, alumiada pelos jorros de crua luz, que se projetavam das arcadas laterais, recentemente rasgadas nas formidáveis paredes de pedra e cal, sobre os mantos alvíssimos das mulheres ajoelhadas. No fundo resplendia a capela-mor, o tabernáculo, esculpido pelo cinzel do mestre João Francisco, o entalhador, com duas séries de elegantes colunas coríntias, enleadas de parreira, a vinha do Senhor, e rematadas de folhas de acanto, todas brancas, de figos doirados e sustendo a arquitrave e a curva do arco que emoldurava a grande tela de Bindsay, a Assunção de Nossa Senhora. Mais abaixo, dominando a banquete de prata maciça e os bustos dos Apóstolos, emergia, dentre palmas, dentre flores, a imagem da Virgem da Conceição, a padroeira da cidade, coroada de oiro, de palrarias, quase escondida no amplo manto de veludo azul, marchetado de estrelas, bordado com carinho pelas órfãs da Casa de Caridade. As chamas dos círios esmoreciam na suntuosa claridade da manhã, como pálidas placas, dissolvendo-se em tênues fios de fumo, a sumiremse no ambiente saturado de incenso e de um odor agro de cera derretida.

Luzia, sobressaltada pela imprecação minaz do soldado, cujas palavras brutais lhe contundiam o cérebro, pensara encontrar na casa de Deus, aos pés da Mãe Santíssima, refúgio e conforto à sua alma atribulada. Mas, ali mesmo a perseguia a protérvia da multidão. De pé, hesitante na escolha do lugar para ajoelhar-se, era alvo de olhares, que a lapidavam, trocados entre as mulheres, que desembuchavam a malícia atroz dos ruins sarcasmos. Uma crispação de surpresa, de curiosidade assanhada agitou a onda viva que a cercava. Raparigas e meninas, matronas e velhas, fitaram-na com insistência, imobilizadas de pasmo, e de boca em boca perpassou ininterrupto murmúrio, cochichado de todos os lados:

- É a Luzia!... A Luzia-Homem!...

Prostrada à meia-sombra de um confessionário de jacarandá, salientemente adornado de arabescos estranhos, absorta em sincera prece, ela ouviu a missa, celebrada pelo vigário Vicente Jorge de Sousa, cuja voz sonora e forte, recitando as orações do ritual, dominava os pigarros, as tosses incontinentes e o choro clássico das crianças que aguardavam o batismo, ocultas sob os lençóis das mães, que ali mesmo, as amamentavam. Rezou pela mãe entrevada, por Teresinha; rendeu graças a Deus pela libertação de Alexandre; e quando se ergueu a Hóstia, ao ruído de peitos percutidos, do som argentino da campainha, tangida pelo sacristão, José Fialho, um velho doce e respeitável, pediu ao Deus sofredor e resignado, ao Deus de amor e misericórdia, como Jesus pedira ao pai celestial perdão para os algozes que o flagelaram e o crucificaram, se apiedasse do infeliz soldado, vítima da insânia de uma paixão brutal. E, como se esse generoso impulso rompesse os diques à inefável caudal de consolação, sentiu-se alvoroçada de suavíssima alegria, desse gozo incomparável da alma purificado, expungida das sombras do remorso. Seus olhos, fitos no doce semblante da imagem da Virgem, ,e aljofraram de pranto, lágrimas de reconhecimento, porque Deus se compadecera de Luzia-Homem, ouvira a sua prece.

As últimas palavras do sacerdote, recitando, de cor, o evangelho de São João, os fiéis se ergueram com sussurro, espraiaram-se pelo patamar, sob um sol intenso, e se dispersaram em todas as direções, descendo pelo suave declive do cúmulo, onde se ergue o templo, acrópole da cidade.

No átrio, do lado da pia d'água benta, bela concha de lioz, erecta no centro da pequena capela consagrada a São João Batista, dezenas de mães piedosas esperavam o batismo dos filhinhos, crianças sadias, nédias, sorridentes, espantadas, pequeninos seres informes, moribundos, esqueléticos e arroxeados, mal podendo emitir lamentoso vagido. Do outro lado, reunidos em grupos, estavam os nubentes, rapazes e moças, de olhos baixos, confusos, vexados como delinqüentes de amores criminosos, vindo pedir absolvição ao sacramento.

Luzia permaneceu, no recinto sagrado, ajoelhada, até que se esvaziou a imensa nave; e, quando se dispunha a sair, foi atraída pelo choro das crianças e pelo doloroso contraste das mães venturosas e das mães aflitas: umas, radiantes de amor; outras, tristes. acabrunhadas de mágoa, animando, desenganadas, as inocentes vítimas, para as quais a água lustral seria a extrema-unção.

- Se lhe fosse dado - pensava ela - casar como aquelas ditosas moças, realizando o supremo anelo da mãe doente; se o seu amor fosse, como o daquelas mães, matronas beneméritas, sorrindo aos filhos vigorosos, abençoado por Deus, experimentarei o inefável júbilo de sentir-se mulher, humanizada, completa e fecunda. Não temeria que os seus filhos definhassem: defendê-los-ia contra as moléstias traiçoeiras e as intempéries, inimigas das criaturas tenras, as flores e as crianças. Dos seus seios de Pomona correria perene manancial de vida, que as pequeninas bocas rosadas sorveriam, sôfregas. E as suas entranhas virginais latejavam em alvoroço. Havia dentro dela, a insurreição dos gérmens da vida sofreados, e um clamor de instintos, entoando o hino de glória à maternidade vitoriosa.

- Vamos aos batizados - disse o vigário, chegando ao átrio, revestido de roquete rendilhado e cingindo estola roxa, de finíssimo lavor. - Os noivos não têm pressa, que esperem - acrescentou, atirando por cima dos óculos de ouro, um olhar de ironia aos grupos do outro lado.

Ao começar a cerimônia, Luzia se esgueirou e saiu, buscando a casa pelo caminho mais longo e afastado da cadeia, onde Crapiúna imprecava, ameaçador e furioso.

A mãe se arrastara até à porta do quarto, onde vigiava a panela fumegante, sobre a trempe de pedras, e ouvia Quinotinha ler, muito devagar, e por vezes soletrando, no jornal O Sobralense, a notícia dos episódios da audiência da véspera.

- Tudo isso - inquiriu a velha - está escrito aí?

- Está, sim, senhora - respondeu a rapariguinha - Aqui no fim tem um pé, que diz: "Alexandre, a vítima da perversa aleivosia do soldado, que, assim, desdoira a farda dos bravos heróis do Paraguai, companheiros de jornada gloriosa dos lendários Sampaio e Tibúrcio, é noivo de Luzia-Homem, a extraordinária mulher, que é uma das melhores operárias da construção da penitenciária."

Luzia ouviu o último tópico, e prorrompeu indignada:

- 0 quê? Pois falam de mim nas folhas?... Era só o que me faltava. - Sim - afirmou Quinotinha sorridente - Veja!...

E as duas repetiram a leitura; a menina transbordante de alegria; ela, confusa, quase não acreditando nos seus olhos, diante dos quais dançavam as colunas e letras do jornal, mal impresso na tipografia Miragaia, a primeira estabelecida em Sobral.

- Só vim aqui mostrar isto a vosmecês. Agora, vou indo que saí quase fugida - disse Quinotinha, partindo a correr.

- Vai, anda, levadinha - murmurou a velha sorrindo. - Essa menina é uma capeta. Sabe ler letra redonda! Vejam só!... Agora que chegaste, deixa-me descansar um pouco na rede, enquanto me preparas um caldo.

Luzia conduziu a mãe, e voltou a cuidar da cozinha. Atordoada ainda pela leitura do jornal, ficou algum tempo pensativa, percebendo, então, por que toda a gente a contemplava no trajeto para a igreja, por que tanto se arrebatava Crapiúna, e os cochichos das mulheres durante a missa. Era uma vergonha estar na folha com aquele horrível nome - Luzia-Homem, tanto se lhe agarrara o cruel estigma. Ao emergir desse cismar, olhou, de soslaio, para o caminho, e, divisando um vulto de homem que se aproximava devagar, correu para o quarto com a tigela de caldo para a mãe.

Era Alexandre que se aproximava, a passo indeciso e lento.

- Ó! da casa!

- É voz conhecida - observou a velha.

- É... é... - balbuciou Luzia comovida.

- Ó! de fora! Quem é? - respondeu a enferma, falando com esforço.

- Sou eu... tia Zefa.

- Eu quem?

- O Alexandre.

- Ah! meu filho! Não te dizia, Luzia?... Vai ter com ele.

Alexandre, fora do alpendre, raspava com a unha a casca seca de um dos esteios de pau branco. Deparando-se-lhe a moça, parada, indecisa, à porta do quarto, avançou para ela e a saudou com ligeiro sorriso.

- Adeus, sra Luzia.

- Adeus, seu Alexandre.

- As duas mãos geladas, hirtas, mãos de autômatos, apenas se tocaram.

- Como está? - perguntou Luzia, de olhos baixos.

- Eu! Melhor de ontem para hoje, como quem saiu da prisão.

- É horrível!...

- Nem pode fazer idéia do que é...

- Abanque-se...

- Estou bem. A demora é pouca. Vinha saber como está tia Zefa e vosmecê. - Boas, graças a Deus.

Houve pausa cruciante de enleio e vexame para ambos. Muito pálidos, muito comovidos, não sabiam mais que dizer. Luzia, por fim, rompeu o silêncio:

- O senhor viu por aí Teresinha?

- Esteve, ontem, comigo, à tardinha. Prometeu estar aqui hoje...

- Não veio desde ontem.

- É esquisito.

- É. Não acha? O senhor não quer falar com mãezinha? Pode entrar.

Alexandre entrou no quarto, e Luzia ficou só no alpendre, inteiriça, imóvel, contemplando o céu, em êxtase. E assim ouviu as ruidosas manifestações da alegria da mãe, as perguntas precipitadas que ela dirigia a Alexandre, as palavras de consolação, afetuosas, sinceras, embebidas de maternal carinho.

Venha sempre ver a gente - suplicava a velha, sorrindo.

Virei, sim. Virei amanhã, se Deus quiser. Só tenho medo de importunar - respondeu Alexandre, com ligeiro tom de mágoa.

Sentindo Alexandre a seu lado, quando ele saiu do quarto, Luzia, arrancada de súbito à meditação, fez um gesto de susto. A atitude do moço era a de quem hesita em dizer alguma coisa, de abrir-lhe o coração, sufocado de ternura.

Vencendo, por fim, o enleio, ele tirou do bolso os cravos murchos, e, como criança medrosa recitando um recado, murmurou:

- Aqui estão estas flores, que a senhora esqueceu no baldrame da grade da cadeia... Adeus... Até outra vez...

- Até... - suspirou ela arquejante, guardando as flores no seio, e apertandoas contra o peito, em frenético amplexo, enquanto ele lhe voltava as costas, e partia. - Seu Alexandre!...

O moço estacou ansioso, não ousando encarar nela.

- Quero pedir-lhe uma coisa - disse a moça, caminhando para ele, vagarosa e humilhada. - Não repare... no que tenho feito... Sou má de nascença... Minha sorte é fazer os outros padecerem... Tenha dó de mim... Peço... Peço-lhe que me perdoe...

- Luzia! - exclamou ele, numa explosão de ternura, estendendo-lhe os braços para ampará-la, porque ela vacilava.

- Perdoe-me - repetiu a mísera, vencida, com voz angustiada, quase à surdina, estacando diante de Alexandre, que sorria.

Luzia-Homem

Sinopse

Leia Luzia-Homem, de Domingos Olímpio, grátis no Literunico. Romance regionalista brasileiro publicado originalmente em 1903, em domínio público, disponível para leitura online em capítulos HTML, com fonte Wikisource validada, espelhos completos de conteúdo e metadados reforçados para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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