Universo da obra
Universo da obra
ISAÍAS e INÊS
INÊS (Vem pronta para sair, ao ver Isaías assusta-se e quer fugir.) -- Ai!
ISAÍAS (Embargando-lhe a passagem.) -- Ninguém deve correr sem ver de quê.
INÊS -- Que quer o senhor aqui?
ISAÍAS -- Vim em pessoa saber da resposta de minha carta: quem quer vai e quem não quer manda; quem nunca arriscou nunca perdeu nem ganhou; cautela e caldo de galinha...
INÊS (Interrompendo-o.) -- Não tenho resposta alguma que dar! Saia, senhor!
ISAÍAS -- Não há carta sem resposta...
INÊS (Correndo à talha e trazendo um púcaro cheio d’água.) -- Saia, quando não...
ISAÍAS (Impassível.) -- Se me molhar, mais tempo passarei a seu lado; não hei de sair molhado à rua. Eh! eh! Foi buscar lã e saiu tosquiada!...
INÊS -- Eu grito!
ISAÍAS -- Não faça tal! Não seja tola, que quem o é para si, pede a Deus que o mate e ao diabo que o carregue! Não exponha a sua boa reputação! Veja que sou um rapaz; a um rapaz nada fica mal...
INÊS -- O senhor, um rapaz?! O senhor é um velho muito idiota e muito impertinente!
ISAÍAS -- O diabo não é tão feio como se pinta...
INÊS -- É feio, é!...
ISAÍAS -- Quem o feio ama bonito lhe parece.
INÊS -- Amá-lo, eu?!... Nunca!...
ISAÍAS -- Ninguém diga: desta água não beberei...
INÊS -- É abominável! Irra!
ISAÍAS -- Água mole em pedra dura, tanto dá...
INÊS -- Repugnante!
ISAÍAS -- Quem espera sempre alcança.
INÊS -- Desengane-se!
ISAÍAS -- O futuro a Deus pertence!
INÊS -- Há alguém que me estima deveras...
ISAÍAS -- Esse alguém (Naturalmente.) sou eu.
INÊS -- Era o que faltava! (Suspirando.) Esse alguém...
ISAÍAS -- Quem conta um conto acrescenta um ponto...
INÊS -- Esse alguém é um moço tão bonito... de tão boas qualidades...
ISAÍAS -- Quem elogia a noiva...
INÊS -- O senhor forma com ele um verdadeiro contraste.
ISAÍAS -- Quem desdenha quer comprar...
INÊS -- Comprar! Um homem tão feio!...
ISAÍAS -- Feio no corpo, bonito na alma.
INÊS (Sentando-se.) Deus me livre de semelhante marido!
ISAÍAS -- Presunção e água benta cada qual toma a que quer... (Senta-se também.)
INÊS (Erguendo-se.) -- Ah, o senhor senta-se? Dispõe-se a ficar!
Meu Deus, isto foi um mal que me entrou pela porta!
ISAÍAS (Sempre impassível.) -- Há males que vêm para bem.
INÊS -- Temo-la travada.
ISAÍAS -- Venha sentar-se a meu lado. (Vendo que Inês senta-se longe dele.) Se não quiser, vou eu... (Dispõe-se a aproximar a cadeira.)
INÊS -- Pois sim! Não se incomode! (Faz-lhe a vontade.) Não há remédio!
ISAÍAS (Chegando mais a cadeira.) -- O que não tem remédio, remediado está.
INÊS (Afastando a sua.) -- O que mais deseja?
ISAÍAS -- Diga-me cá: o seu noivo?... (Faz-lhe uma cara.)
INÊS -- Não entendo.
ISAÍAS -- Para bom entendedor meia palavra basta...
INÊS -- Mas o senhor nem meia palavra disse!
ISAÍAS -- Pergunto se... fala francês...
INÊS -- Como?
ISAÍAS -- Ora, bolas! Quem é surdo não conversa!
INÊS -- Mas a que vem essa pergunta?
ISAÍAS (Naturalmente.) -- Quem pergunta quer saber.
INÊS -- Ora!
ISAÍAS (Sentencioso.) -- Dois sacos vazios não se podem ter de pé.
INÊS -- Essa teoria parece-se muito com o senhor.
ISAÍAS -- Por quê?
INÊS -- Porque já caducou também.
ISAÍAS (Formalizado.) -- Então eu já caduquei, menina? Isso é mentira.
INÊS -- É verdade.
ISAÍAS -- Não é.
INÊS -- É.
ISAÍAS -- Pois se é, nem todas as verdades se dizem. (Ergue-se e passeia.)
INÊS -- Ah! o senhor zanga-se? É porque quer; não me viesse dizer tolices! (Ergue-se.)
ISAÍAS (Interrompendo o seu passeio, solenemente.) -- Na casa em que não há pão, todos ralham, ninguém tem razão.
INÊS -- Ora! somos ainda muito moços!
ISAÍAS -- Quem? nós?
INÊS -- (De mau humor.) -- Não falo do senhor: falo dele...
ISAÍAS -- Ah! fala dele...
INÊS -- Havemos de trabalhar um para o outro...
ISAÍAS -- É bom, é: Deus ajuda a quem trabalha.
Canto
INÊS -- Sem desgosto viveremos, Seremos ricos, talvez; Muitos morgados teremos... ISAÍAS -- Mas um só de cada vez... (Zangado.) A faceira Talvez convidar-me queira Para padrinho de algum!
INÊS -- E não suponha que, apesar de pobre, não me faça bonitos presentes o meu noivo.
ISAÍAS -- É! Quem cabras não tem e cabritos...
INÊS -- Insulta-o?
ISAÍAS -- Cão danado, todos a ele! Pois eu havia de insultá-lo, senhora?
INÊS -- Se estivesse calado...
ISAÍAS -- Sim, senhora: em boca fechada não entram mosquitos... mas é que o seu futurozinho me interessa...
INÊS -- Muito obrigada. (Senta-se.)
ISAÍAS -- Não há de quê. Se bem que eu não seja nenhum Matusalém, estou no caso de lhe dar conselhos. Ouça-me: quem me avisa meu amigo é; quem à boa árvore se chega boa sombra o cobre.
INÊS -- Mesmo por já estar no caso de me dar conselhos, é que o não quero para marido.
ISAÍAS -- Se eu fosse jovem, não me havia de aceitar, por estar no caso de os receber. Preso por ter cão e preso por não ter!...
INÊS -- Não desejo enviuvar de novo...
ISAÍAS -- Vaso ruim não quebra...
INÊS -- Desengane-se, senhor: não são os seus ditados que me hão de fazer mudar de resolução (Passeia.) Oh! ISAÍAS -- (Acompanhando-a.) -- Talvez façam, talvez!... Devagar se vai ao longe... muito tolo é quem se cansa... (Inês volta-se, param defronte um do outro.) Menina, antes só do que mal acompanhado... Olhe que o pior cego é aquele que não quer ver...
INÊS (À parte.) -- Vou pregar-lhe uma peta. (Alto.) Mas se me faltasse este noivo, outros rapazes há que me têm feito pé-de-alferes.
ISAÍAS -- Águas passadas não movem moinhos!
INÊS -- E entre eles...
ISAÍAS -- O passado, passado!
INÊS -- Não me interrompa!... E entre eles há um ricaço que em outro tempo...
ISAÍAS -- O tempo que vai não volta!
INÊS -- Não me interrompa, já disse! E entre eles há um ricaço que noutro tempo se esqueceu da promessa...
ISAÍAS -- O prometido é devido!
INÊS -- Ai, mau!... se esqueceu da promessa que me havia feito; mas que está outra vez pelo beicinho...
ISAÍAS -- Cesteiro que faz um cesto, faz um cento... (Movimento de Inês. Com força.) Se tiver verga e tempo! E quem é esse... ricaço?
INÊS -- É segredo.
ISAÍAS -- Segredo em boca de mulher é manteiga em nariz... (A um gesto de Inês.) de homem! Mas faz bem, faz bem: o segredo é a alma do negócio...
INÊS -- O senhor tem na cabeça um moinho de adágios! Passa!...
ISAÍAS -- O que abunda não prejudica.
INÊS -- Bem! Para maçadas basta. Mude-se!
ISAÍAS -- Os incomodados é que se mudam.
INÊS -- Mas eu estou em minha casa, senhor!
ISAÍAS -- Descobriu mel de pau!
INÊS -- Irra! Que homem sem-vergonha!
ISAÍAS (Examinando cinicamente a costura.) -- Quem não tem vergonha todo o mundo é seu.
INÊS -- Se o meu noivo o visse aqui! Ele, que jurou dar cabo do primeiro rival que...
ISAÍAS -- Cão que ladra não morde... E eu sou homem!... tenho força... E contra a força não há resistência!...
INÊS (Irônica.) -- Ora, por quem é, não faça mal ao pobre moço, sim?
ISAÍAS -- Faço!... Quem o seu inimigo poupa às mãos lhe morre. Julga que não estou falando sério? Uma coisa é ver e outra...
INÊS (No mesmo.) -- Ora, não faça tal.
ISAÍAS -- Faço! isto tão certo como dois e três serem cinco. São favas contadas. Quem não quiser ser lobo não lhe vista a pele!
INÊS -- Mas sabe que ele é valente?
ISAÍAS -- Também eu sou! Cá e lá más fadas há! Duro com duro não faz bom muro, e dois bicudos não se beijam!
INÊS -- Ponha-se ao fresco, preciso sair; tenho que fazer lá fora.
ISAÍAS -- E eu tenho que fazer cá dentro. Um dia bom mete-se em casa. (Pausa.) Olhe, senhora, olhe bem para mim, acha-me feio: não acha?
INÊS -- Ai, ai, ai!...
ISAÍAS -- Eu também acho, e feliz é o doente que se conhece. Mas muitas vezes as aparências enganam e o hábito não faz o monge.
Experimente e verá. (Suplicante.) Case comigo.
INÊS -- Gentes!
ISAÍAS -- Ah! se fôssemos casadinhos, outro galo cantaria! Por exemplo: em vez de sair agora à rua, com este sol de matar passarinho, mandava-me a mim, ao seu maridinho...
INÊS (Arremedando-o.) -- Ao seu maridinho... (À parte.) Oh! que idéia! Vou me ver livre dele. (Alto.) Então, sem sermos casados, não pode prestar-me um pequeno serviço?
ISAÍAS -- Conforme o serviço: ponha os pontos nos ii.
INÊS -- Se me fosse comprar três metros de escumilha. Olhe... aqui tem a amostra... No armarinho do Godinho... Sabe onde é?
ISAÍAS -- Sei; mas quando não soubesse? Quem tem boca vai a Roma.
INÊS -- Está contrariado?
ISAÍAS -- O que vai por gosto regala a vida.
INÊS -- Tome o dinheiro.
ISAÍAS -- Nada... não é preciso... (Vai saindo e estaca.) Diabo! não me lembra um ditado a propósito! (Sai.)
Leia Amor por Anexins, de Artur Azevedo, grátis no Literunico. Entreato cômico clássico brasileiro em domínio público, publicado para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada e espelhos de conteúdo para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.