Universo da obra
Universo da obra
INÊS, ISAÍAS
ISAÍAS (Entrando.) -- Quem canta seus males espanta.
INÊS -- Já de volta! O senhor foi a correr!
ISAÍAS -- Nada! quem corre cansa. Encontrei outro armarinho mais perto.
INÊS (Tomando a fazenda.) -- Muito obrigada. Quanto custou?
ISAÍAS -- Um pau por um olho. Mil e duzentos o metro...
INÊS -- Pois olhe: o outro vende mais barato.
ISAÍAS -- O barato sai caro, e mais vale um gosto do que quatro vinténs.
INÊS -- Regateou?
ISAÍAS -- Regatear! Para quê? Mais tem Deus para dar do que o diabo para tomar.
INÊS -- Já vejo que é tão pródigo de dinheiro como de anexins!
ISAÍAS -- Da pataca do sovina o diabo tem três tostões e dez réis. Poupa do sim, sovina não. Eu cá sou assim! Nem tanto ao mar nem tanto à terra. Tenho um só defeito: quero casar-me. Cada louco com sua mania.
Canto
Hei sido um gato-sapato; Preciso do casamento! O maldito celibato Não é viver, é tormento. Quero honesta rapariga Entre as belas procurar, Muito embora o mundo diga: Quem já andou não tem pra andar... A existência de casado Talvez venturas me traga, Se diz verdade o ditado: Amor com amor se paga. Se eu for constante e fervente, Ela tudo isso será; Se eu amá-la eternamente, Ela também me amará! Eu escravo e a esposa escrava, Viveremos sem desgosto; Uma mão a outra lava E ambas lavam o rosto!...
Faço-lhe pela milésima vez o meu pedido. Nem todos os dias há carne gorda. A senhora falou-me em um apaixonado. Por onde andará ele? Eu estou aqui, e mais vale um pássaro na mão do que dois a voar.
INÊS (À parte.) -- Levemos a coisa com jeito. (Alto.) O senhor... (Com uma idéia.) Ah!
ISAÍAS -- Oh!
INÊS -- Já viu representar As pragas do Capitão?
ISAÍAS -- Não, senhora. De pragas ando eu farto.
INÊS -- Era um militar que praguejava muito. A senhora que ele amava deu-lhe a mão de esposa, mas depois de estabelecer-lhe a condição de não praguejar durante meia hora.
ISAÍAS -- Falo em alhos, e a senhora responde com bugalhos!
INÊS -- Já lá vamos aos alhos: aceito a sua proposta.
ISAÍAS (Impetuosamente.) -- Aceita?
INÊS -- Sim, senhor.
ISAÍAS (Incrédulo.) -- Qual! Quando a esmola é muita, o pobre desconfia...
INÊS -- Mas imponho também a minha condição...
ISAÍAS -- Imponha: manda quem pode.
INÊS -- Se conseguir levar meia hora sem...
ISAÍAS -- Sem praguejar?...
INÊS -- Não! Sem dizer um anexim! Se o conseguir, é sua a minha mão.
ISAÍAS -- Deveras?
INÊS (Sentando-se.) -- Deveras.
ISAÍAS -- Mas eu posso estar calado?
INÊS -- Como assim?! Era o que faltava! Há de falar pelos cotovelos!
ISAÍAS -- Isso é um pouco difícil: o costume faz lei...
INÊS -- Ai, que escapou-lhe um!
ISAÍAS -- Pois o que quer? a continuação do cachimbo...
INÊS -- Faz a boca torta, já duas vezes.
ISAÍAS -- Nas três o diabo as fez.
INÊS -- Ai, ai, ai! Vamos muito mal!
ISAÍAS -- Mas não tínhamos ainda entrado em campo... Aqueles foram ditos de propósito. Agora sim! Agora é que são elas!
INÊS -- Outro!
ISAÍAS -- Protesto! “Agora é que são elas” nunca foi anexim. A César o que é de César!
INÊS -- O senhor vai perder... Olhe: são duas horas. (Aponta para um relógio que deve estar sobre a mesa.) Aceita o desafio? (Pausa.) Bem. Quem cala consente... ISAÍAS -- Ah! agora é a senhora quem os diz! Virou-se o feitiço contra o feiticeiro...
INÊS -- Ai, ai!
ISAÍAS -- Foi engano.
INÊS -- Dos enganos comem os escrivães. (Pausa.) Então? Diga alguma coisa...
ISAÍAS -- O que hei de dizer... senão... que gosto muito da senhora... e...
INÊS -- Pois diga: vai tantas vezes o cântaro à fonte, que lá fica.
ISAÍAS -- Não me provoque, senhora, não me provoque!
INÊS -- Cada qual puxa a brasa para sua sardinha...
ISAÍAS (Agitado.) -- Brasa! sardinha! Oh! que suplício!
INÊS -- O que tem o senhor?
ISAÍAS -- Nada... não tenho nada... é que esta proibição me incomoda... Este maldito costume... parece que não estou em mim...
INÊS -- Sabe o que mais?
ISAÍAS -- Vou saber.
INÊS -- Diga o que quiser! Abra a torneira dos anexins, ditados, rifões, sentenças, adágios e provérbios... Fale, fale para aí!
ISAÍAS -- E a condição?
INÊS -- Caducou. (Dando-lhe a mão.) Aqui tem: sou sua.
ISAÍAS (Contente.) -- Minha! (Em outro tom.) E os outros?
INÊS -- Não existem, nunca existiram!
ISAÍAS -- Pois estou acordado? Se estiver dormindo, deixa-me estar: não me acordes.
INÊS -- Está bem acordado.
ISAÍAS -- Estou?! (Pulando de contente.) Então viva Deus! Viva o prazer!... Trá lá lá rá lá! (Quer abraçá-la.)
INÊS (Gritando.) -- Alto lá! Mais amor e menor confiança!
ISAÍAS -- E que o rato nunca comeu mel, quando come... (Outro tom.) Pode-se dizer este ditadozinho?...
INÊS -- Quantos quiser!
ISAÍAS (Concluindo.) --... se lambuza! (Tomando-lhe as mãos.) E tu? amas-me, meu bem?
INÊS -- Sossegue: o amor virá depois. Seja bom marido e deixe o barco andar!
ISAÍAS -- Apoiado. Roma não se fez num dia!
INÊS -- E tenha sempre muita fé nos seus anexins.
ISAÍAS -- É verdade: O que tem de ser tem muita força. O homem põe... e a mulher dispõe!...
INÊS -- Basta! Despeça-se destes senhores, e vá tratar dos papéis...
ISAÍAS -- Quem tem boca não manda... cantar. Mas, enfim... (Ao público.)
Copla final
Antes que daqui nos vamos, Inês vos dirá quais são Os votos que alimentamos No fundo do coração. INÊS -- Os votos que neste instante Fazemos nestes confins (Deita a mão sobre o coração.) É que nos ameis bastante Embora por anexins. AMBOS -- Muitas palmas esperamos De vós: Metade para o autor, metade para nós.
(Cai o pano.)
Leia Amor por Anexins, de Artur Azevedo, grátis no Literunico. Entreato cômico clássico brasileiro em domínio público, publicado para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada e espelhos de conteúdo para busca, redes sociais e pesquisa por IA.
Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.
Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.
Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!
Capítulos disponíveis para continuar a leitura.
Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!
Conhecer as 100 RelíquiasAinda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.
Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.
Durante a leitura, abra Menu para ajustar a experiência sem sair do capítulo. As preferências de aparência ficam salvas neste aparelho.
Recursos identificados como “em preparo” aparecem para antecipar a evolução do leitor, mas ainda não executam uma ação.
Posso mostrar leituras em destaque, clássicos e Relíquias disponíveis agora no Literúnico.
Escolha um caminho
Dúvidas desta página
As explicações do Aurélio são respostas cadastradas pelo Literúnico.