Universo da obra
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A INDIA
I Já se viam chegados junto á terra, Que desejada já de tantos fora, Que entre as correntes Indicas se encerra, E o Ganges, que no seu terreno móra. Ora sus, gente forte, que na guerra Quereis levar a palma vencedora, Já sois chegados, já tendes diante A terra de riquezas abundante. (CAMÕES- Os Lusiadas; canto VII. )
Alongando-se as naus foi-se, a pouco e pouco, resumindo o movimento a bordoapenas os homens de quarto caminhavam lentamente, de um para outro lado, detendo-se, por vezes , em extasiado silencio , contemplando a lua. Estrellas cadentes, como se fossem presas por um fio luminoso , voavam e morriam , e, no rolar macio da onda, espalhavam-se micantes ardentias. O grosso da companha repousava . Aquella hora, no castello da popa, junto dos retábulos illuminados , dois homens conversavam baixinho como se receiassem que a brisa lhes levasse as palavras e o assumpto de que tratavam, com empenhado interesse, era essa India abs consa .
Um d'elles , que era o piloto indiano, dizia : -N'este tempo de inverno raros são os navios que se arriscam a fazer a travessia, com os ventos antipathicos que fazem crescer o marouço . Os que se dão ao commercio da especiaria aguardam os mezes do estio e, com as aguas pacificas , com os ventos de monção, facilmente vencem o grande golfo onde não ha um porto a que se arribe em caso de tormenta . OGama, que era o interlocutor do indio, não respondeu estendendo a vista perscrutadora pelo céu e pelo mar, demorando-a depois n'um dos retábulos onde a meiga Senhora de Belém sorria com Jesus nos braços. Naquella oração muda o nauta poz toda a sua grande ſé e, reconfortado, certo de que, 'contra elle que alli ia protegido pela Rainha dos céus e Clara Estrella dos mares nada poderiam as ondas aborrascadas nem os ventos marulheiros , quedou-se emquanto o piloto, consultando os astros, ia traçando o rumo n'aquelle mudo e vastissimo páramo de céus e d'aguas.
E navegavam sem risco demorando-se , ás vezes , em curtas calmarias, ouvindo o embate da vaga e o rangido monotono das vergas , com as velas colhidas mas, ao primeiro sopro, desſerravam-nas , e , aproveitando-o, seguiam scindindo aquelle mar virgem que a maruja olhava supersticiosamente e com medo esperando, a todo o instante, uma surpreza fatal . Foi para a tarde de um dia azul e frio que os ventos desabridos começaram a uivar com furia- o mar, encarneirado , picava-se a mais e mais e uma nuvem , densa e negra, levantando-se no horizonte e enchendo-se foi assoalhando o espaço impellida violentamente pelo vendaval . A maruja, com o coração minguado , corria á ſaina manobrando com a pressa que urgia pois o piloto annunciara tormenta. Já o Gama, como que revestindo uma armadura, retomara a sua severidade e os grumetes, lançando olhares timidos ao alto, balbuciavam rezas procurando as suas nominas debaixo das grossas camisas , junto ao coração . O céu escurecia como forrado de chumbo e o mar grosso, espumoso, ampollava- se
rugindo . A nau de Paulo da Gama que ia á frente arſava e a proa, espadanando as aguas que se oppunham á sua marcha ligeira , subia e mergulhava ; e a de Nicoláo Coelho , abalroada pelos vagalhões, bailava como um batel ligeiro, sobre aquellas fortissimas aguas encrespadas . Subitamente grossos pingos de chuva bateram no convez como balas, esparrimando-se . Corriam os homens ás aberturas fechando escotilhas e canhoneiras , recolhiam as roupas que arejavam nas driças, cobriam a artilheria com as capas breadas e , os mais devotos, lembrando-se da primeira tormenta que haviam soſſrido , cuidavam de segurar fortemente os retabulos para que o mar não os ultrajasse . Longinquos e profundos trovões rolavam e, de espaço a espaço , o fogo do céu zebrava as nuvens com estrepito, perdendo-se no mar ; o vento esfriava esfusiando ea chuva que caío, a principio, com a ameaça de um diluvio, estiou como se as aguas se fossem ajuntando para um assalto decisivo ás naus que iam desabaladamente pelo oceano com a precipitação de perseguidas que fugissem .
Negro, não mais plumbeo, o céu como que abaixava abafando e as nuvens pejadas passavam tão perto que, a um salto dos navios, o tope dos mastros parecia poder tocal-as . Se o espectaculo era medonho maior era o panico da maruja que n'elle não via um phenomeno da natureza mas o annuncio de um assombro tragico no qual entrava, como protogonista, o mysterio maligno. Eram as phalanges infernaes que alli se iam encontrar n'um sinistro e pávido sabbat e, cada uma daquellas vagas orgulhosas , parecia rolar cavalgada por um tritão de horrivel catadura e odio inexoravel ; cada uma daquellas nuvens que lá por cima navegavam em breve, desventradas, despejariam legiões satanicas e todo o largo oceano, transformado n'um inferno que os relampagos já começavam a accender, atroava -Não era a voz profunda da vaga e do vento , eram o bramido bravio e os sibillantes guinchos das cohortes abrepticias, era o estrupido das patas dos capros nas aguas, eram as cornadas dos basiliscos nos penedos, eram os estalos
das alas eneas da ave Phenix , eram os uivos sensuaes das sereias e mais o lancinante guaiar das almas penitentes que soffriam, desde tempos immemoriaes, nos abysmos, vindo á tona com as tempestades, acossadas pelos demos glaucos . Alguns juravam ter entrevisto egypans disformes esvoaçando acima dos mastros , outros ficavam com os dedos hirtos apontando o mar porque diziam ter avistado horridas figuras, nadando, com os membrudos corpos hispidos de cerdas, com barbatanas em vez de braços, dentes enormes , recurvados e um olho unico , redondo, enorme no meio da fronte, reluzindo como um ſogareu. Alguns attribuiam ao piloto indio todos aquelles males julgando-o pactuado com o demonio para perdel-os a todos ; outros affirmavam que era o proprio demonio que conseguira illudir o capitão mettendo-se a bordo e persignavam-se quando o viam apparecer á luz livida d'um relampago no castello da nau firme, os olhos ao longe ; ao mesmo tempo, porém duvidavam d'esses pensamentos vendo-o tão sereno entre os retábulos de Deus e da Virgem .
Apezar do terror o Gama, com o seu imperio , conseguia manter a gente nos seus postos e o piloto governava a nau que se debatia aos encontrões dos escarcéos formidaveis. Já as vozes não eram attendidas , não por desobediencia senão porque ninguem as ouvia e os mestres andavam de grupo em grupo ordenando aqui para que ferrassem um resto de panno que ia solto batendo d'encontro á verga, alli acudindo a um batel que se desprendera do seu apparelho despejando no mar a palamenta, mais adiante prendendo uma bombarda que se soltára do reparo e , indo e vindo, os homens em serviço estabeleciam a confusão encontrando-se aos esbarros , escorregando, caindo d'encontro aos mastros . Sempre firme, inabalavel , affrontando 0 horror o Gama, no seu posto de commando , ordenava, sem commover-se com aquelle inspirado assalto em tão vasto e desprotegido golfo , tão forte era n'elle a certeza de que havia de alcançar a terra da India a qual , para incitar o ardor nos que a buscavam, encarecia-se oppondo borrascas e baixios como empeços para experimentar
o animo dos que a deviam vencer e dominar. Justamente como nas balladas do tempo as lindas princezas encantadas que dormiam em selvas absconditas, dentro de paços de crystal e de ouro, com as aias dormindo em torno do seu leito e tambem adormecidos o arvoredo, os passaros , os regatos , apenas vigilante o monstro que a guardava desconforme, com o corpo forrado de escamas de aço , os olhos fulminantes accendidos, as garras promptas , o arpéo da cauda agúdo, os dentes afiados e ainda, para horror maior, respirando um halito putrido e de chammas que lhe saia roncando das fauces encardidas . O seu monstro alli estava era o oceano . N'um momento, porém, estalando um raio que illuminou todo o mar os da nau , lançando os olhos em torno e não avistando os outros navios, julgaram-se perdidos . Houve um instante de assombro mudo mas, um assomado, n'aquelle desespero de morte, bradou : « Queremos voltar ! >> e outro ajuntou, arrancando uma das malaguetas para armar-se: « Para Portugal !>>>
«Para Portugal ! » clamaram todos em revolta, mal se podendo ter firmes'; ainda assim , aos solavancos, tomando cada qual o que lhe vinha ás mãos, foram avançando para o castello . O vento rompeu n'uma assuada , o mar cuspia-lhes a sua baba e, para que vissem bem. o horror em que estavam, relampagos luziam. Eram, por certo , os demonios que ordenavam aquellas zombarias . Para Portugal ! >>> Uma das vergas estalou e fendida ficou pendurada pelos cabos batendo violentamente d'encontro ao mastro ; já a agua rolava d'um bordo a outro bordo e fragorosamente os vagalhões batiam no costado da nau . «Para Portugal ! Para Portugal ! Queremos voltar ! Este é o mar intransmontravel ! Este é o mar assombrado Para o reino com a nau ! Para o reino ! Ao leme !>> Quizeram os mestres contel-os com brandura mas foram repellidos com violencia e, porque n'elles o terror começava a suffocar a energia, foram na códa d'aquelle bando infeliz de homens encharcados ,
feridos , descalços , com os cabellos e as barbas gottejantes, as vestes em retalhos, unidos n'uma solidariedade de desgraça . Iam alli os mestres promptos para se bandear para o vencedor : dizendo-se pacificadores se o capitão conseguisse supplantar os revoltosos ou adherindo á revolta se os homens não se submettessem ; e a maruja avançava desequilibrada , rugindo . O Gama, porém , vendo o tumulto e como varios marinheiros mais audazes subiam ao castello de gatinhas, cravando as unhas nos degráos humidos da escada ou agarrando-se aos maineis , impoz-se sobranceiro e, com um gesto altivo e dominador, repellio-os, fazendo descer aos trancos um que já ia com a mão ensanguentada nos ultimos degráos , a faca atravessada nos dentes . Baixando ao convez, pondo-se soberbamente entre elles, com os cabellos empastados , sob a chuva que jorrava impetuosa, á luz intermittente dos relampagos, mostrando aos rebeldes os montes de grilhetas e estendendo o braço, com a cabeça energicamente levantada, emquanto
a borrasca estrondava, apontou o fundo tenebroso do horizonte, bradando : O rumo é este ! E, como no bando que se apertava um ainda ousasse dizer, não mais em tom altivo, mas humilde, a pedir : « Queremos voltar ... » o Gama passou os olhos severos por todos e, sem dizer palavra, chegando-se a uma das bordas, agarrou as cartas que levava e os astrolabios e atirou-os ao mar que depressa os engulio alijando assim a esperança de uma vergonhosa volta, ſechando a porta por onde se queriam escapar covardemente os timidos, dando um unico remedio aquella desventura o seguirem por diante . Vendo a maruja tamanha audacia abrandou -se animando-se tal é o poder dos fortes sobre os fracos - e os mestres , com aquelle rasgo, ganharam nova energia chamando á obediencia os marinheiros ; e tremendo, com os seus breves apertados nas mãos engelhadas de frio , as orações na bocca , foram-se todos, cabisbaixos, ao serviço - uns gemendo com as dores dos esbarros que iam dando, outros com suspiros julgando que nunca mais tornariam
á doce patria. E o piloto indio, o olhar agúdo ao longe , governava . Já iam exhaustos os marinheiros, e no desespero, pediam a Deus que acabasse de uma vez com aquelle soffrimento porque já não esperavam salvação- posto que outras maiores tormentas houvessem já soffrido quando um grumete descobrio, no negrume do céu , entre os cerrados nimbus , uma estrellinha palpitando . Foi tal o alvoroço a bordo que os mestres, ignorando a causa d'aquelle amotinado movimento, como em presença de outra revolta mais bravia , procuraram na cinta os seus cutellos, não porque pensassem em manter a disciplina, mas querendo garantir a propria vida. A maruja, porém, apinhada á prôa , olhava ao longe, acenando á clara estrella e os mais crentes viam n'ella a propria luz de Maria, protectora dos navegantes . E, com o rugir dos ventos que ainda sopravam, os da companha, ajoelhados no convez lutulento, entoaram um cantico de misericordia agradecendo a Deus aquelle signo de bonança que fulgurava no céu .
E as nuvens foram, a pouco e pouco dissipando-se, rasgões appareciam estrellados e um triste e pallido luar illuminou o oceano revolto como um pharol celeste que annunciasse o porto venturoso . A manhã ſoi de sol posto que ainda grossas vagas rolassem e longe, montando os vagalhões, foram vistas as outras naus rompendo de todos os peitos um grito de victoria . Os marinheiros , vendo o capitão impassivel e tão sereno na bonança como o fôra na tormenta, sentiram-se humilhados e, querendo mostrar-se arrependidos , redobraram de esforço exgottando a nau e acudindo aos concertos e reparos mais urgentes . Vinte e dois dias depois de haverem deixado o porto de Melinde , flagellados por tamanha borrasca, avistaram no mar, correndo á vela um junco, mas , por mais que andassem com o humido e frio vento annunciador de aguaceiros , não conseguiram alcançal-o . A' tarde, já com chuva forte, viram uma grande albetoça passando ao largo, muito enſunada, com a sua coberta de palha .
Eram indicios de terra porque barcos d'aquelle porte, por mais ousados que fossem os da tripolação, não affrontariamo mar largo com tempo tão adverso. O piloto ia calado no seu posto e, ainda que com insistencia aguda os marinheiros buscassem ler na sua physionomia nada tiravam da immobilidade d'aquelle rosto . Na manhã seguinte, chovendo copiosamente , com trovões ribombantes , acharam-se á vista de umas terras altas que o gageiro annunciou tres vezes com alegria desusada e mais não mostraria pondo os olhos na mesma terra da Patria mas , como a tarde vinha caindo, não quiz o capitão levar a nau por mar incerto, com a noite. Mas já avistavam lorchas , manchuas e jurupangos navegando com aquelles chuveiros que os ventos açoutavam . No dia seguinte, cêdo , chegando-se á terra, viram bem perto uma montanha e o piloto , que guardara o maior silencio, moveu-se no castello da nau pondo-se junto ao Gama e os dois ficaram d'olhos fitos naquellas altitudes tão viçosamente arborisadas vendo apparecer , pouco a pouco ,
do seio verde do mar, uma grande cidade toda cercada de palmeiras, com um alvo casario alegre espalhado pela praia e pelos montes . Vinha a todo o vento uma champana e, como passasse junto da nau o piloto entendeu-se com um dos homens fazendo-lhe uma pergunta e o do barco respondeu affirmativamente . Estavam diante de Calecut : era a India . Quando a maruja teve a feliz noticia prorompeu em festivos clamores saudando o capitão temerario ; e a nau empavezou-se vistosamente, resoaram os instrumentos e , de todas as naus que se vinham chegando á capitanea, desmantelladas , com os costados mostrando as feridas ganhas na tormenta, partia o mesmo brado triumphal : -«E'a India ! E' a India ! » Aves passavam nos ares e fugiam aturdidas com os estrondos das bombardas e, como andassem lantéas de pesca cruzando junto dos vasos, os de bordo saudavam festivamente os pescadores fallando-lhes como se os indios espantados pudessem perceber o que diziam . Mas, atravez da celeuma, soaram lentas badaladas ; os clerigos appareceram
revestidos dos seus habitos, com a imagem do Christo e o Gama, que até entãoparecera esquecido do seu Deus, chegou-se á tolda e, ajoelhando-se, sem a espada e descoberto, entre os seus homens ajoelhados e cabisbaixos , de mãos postas, contricto rezou com elles acompanhando as orações que os clerigos entoavam á medida que , na prôa , outros marujos , com um canto guaiado, iam desprendendo a ancora ; de repente houve um rangido secco de amarras que corriam nos escouvens salitrados e um choque n'agua - a ancora mergulhara . Estavam fundeados diante da terra da especiaria. Era o dia 20 de maio de 1498 . O Gama , então, sem levantar os olhos para os homens que o cercavam, subio ao castello e ficou-se a contemplar o mar, ο grande mar mysterioso que elle havia vencido e o piloto, que alli estava, vendo duas lagrimas rolarem pelas barbas do navegante e como se estranhasse essa fraqueza n'aquelle homem formidavel que não tremêra nos momentos mais arriscados, ficou a contemplal-o mudo e com assombro .
O Gama , porém, voltou-se e tremulo , n'uma viva emoção, mandou arvorar a bandeira real como para annunciar-se aos da terra e elle mesmo , veneradamente , ſoi, de uma em uma, accendendo as lampadas que illuminavam os retábulos. O porto estava vasio, barcos miudos apenas por elle andavam com as suas velas de palma e, sob a chuva que caía miuda, pondo uma téla diante da vista, Calecut foi desapparecendo como um sonho que se houvesse esvaecido. Veio à noite, porém , clara, de luar, e a India alli se mostrou formosa , adormecida nos mares, dominada pelas naus como a princeza da ballada que , depois de quebrado o encanto que a guardava, apparecia linda e solitaria, á espera do beijo que a devia despertar para o amor. E o Gama, no castello da nau que se balouçava, com a face na mão, contemplava aquella maravilha emquanto a maruja, grata ao Senhor, entoava contente a oração da noite . De quando em quando, no silencio das horas mortas, as vigias de uma nau bradavam para as da outra :-A India ! eo Gama, que velava pensativo, com o espirito
longe, na Patria bem querida, estremecia , ouvindo aquelles brados e baixinho, como um echo longinquo, repetia suspirando : A India ! ... com a alma a fugir-lhe para aquella terra branca e verde que era o sonho dos Reis .
Leia gratuitamente A Descoberta da Índia, de Coelho Neto, narrativa histórica brasileira em domínio público publicada em 1898, organizada em capítulos para leitura online no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons e Wikisource, com capa nova no padrão Literunico, fonte validável, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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