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A Descoberta da Índia

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A Descoberta da Índia

Capítulo 5 · A Descoberta da Índia

Melinde

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II Com jogos, danças e outras alegrias, A segundo a policia Melindana, Com usadas e ledas pescarias, Com que a Lageia Antonio alegra e engana , Este famoso Rei todos os dias, Festeja a companhia Lusitana, Com banquetes, manjares desusados, Com fructas, aves, carnes e pescados. (CAMÕES-Os Lusiadas, canto VI. )

Do indeciso lusco-fusco quasi extinctas as ardentias , com as estrellas morrendo no céu que se arreava de purpura e de ouro, n'um esplendor de victoria, como se pela Altura limpida anjos andassem estendendo brocados para a festa magnifica da Resurreição - rompia a manhã de Pascoa . As aguas , apenas frisadas por uma brisa fraca , brilhavam tremulas como se fossem recobertas de pequeninas escamas reluzentes e as naus, com bandeiras e flamulas , seguiam a um brando balouço ao tempo em que a maruja, celebrando a memoravel dacta, tão gloriosa para a christandade , accordava o silencio com trombetas e charamellas nas quaes tocava a alvorada excelsa .

Chegavam-se todos ás bordas porque os mouros, aprisionados no zambuco , haviam annunciado Melinde; olhavam longamente, anciosamente quando uma claridade irradiante alastrou pelas aguas envolvendo as naus em um fluido de purpura, tingindo as velas e os cabos d'um louro avermelhado : era o sol que nascia grande e rubro , surgindo d'agua como um deus oceanico que irrompesse, todo em galas tyrias, seguindo sobre ouro e coral e perolas esparsas . Mas já , ao longe, o arvorêdo apparecia como uma flora marinha que houvesse repentinamente surgido á tona d'agua e brancos muros por entre arvores e outeiros d'um verde alegre e estendidas praias alvas . Mostravam-se, com o andar das naus , mais largas e pittorescas, as terras do novo reino . Passaros voavam no ar sereno e macio , alguns pousavam nas vergas e ficavam debicando as pennas e, como a agua era transparente , viam-se os peixes nadando em volta das naus , em cardumes de prata. De nau a nau, indo ellas proximas, os marujos exclamavam : Oh ! que belleza !>>> como se reciprocamente se felicitassem .

O Gama, no seu posto, olhava indiſſerente a luz sem ver as bellezas d'aquelle remansado porto, d'aguas tão limpas e faceis e de tanta alegria na terra e no céu ; o seu pensamento seguia por aquellas areias razas , não que as desejasse mas porque n'ellas suspeitava encontrar o homem que o devia conduzir á extrema do Levante . Talvez em terra, entre o arvorêdo basto , esse desejado amigo estivesse contemplando as naus que deram ſundo á meia legua da costa ; talvez os olhares se encontrassem e o Gama, descuidoso de tudo que o cercava, com a afflicção de ver esse mysterioso guia, aguçava as pupillas que apenas apanhavam a vasta paizagem d'Africa dourada pelo sol nascente . Meditava quando o mouro principal dos que vinham no zambuco subio ao castello pedindo para fallar-lhe : recebeu-o cortezmente e, propoz-lhe o prisioneiro , que tivera, em viagem, todas as attenções , ir-se á terra com uma embaixada para o rei de Melinde , garantindo que elle os havia de receber com lhaneza . Acceitou o Gama mandando immediatamente arriar um batel que levou uma

guarnição d'escolha e, forrando-lhe o paneiro lustrosamente , acompanhou á escada o velho mouro que se foi , a largas remadas, sempre a acenar para os de bordo como a garantir o bom exito da commissão de que se encarregara e, como em a nau ficára a moça, esta fallava-lhe , sem duvida a pedir que fosse breve para resgatal-a porque já se affligia de andar como cарtiva posto que tivesse trato de princeza, e os mouros agitavam os seus turbantes ou os lenços de cores vivas que traziam até que o barco ficou como um vulto negro no mar . Mas , ao pino do sol, quandoas toldas estalávam á luz caustica, viramos da nau que uma almadia os demandava e , atracando , logo desembarcaram, com gravidade, dois homens , postos com muita riqueza sendo um d'elles magnata da corte melindana e outro o caciz da mesquita e, recebidos com todas as deferencias, com muita galhardia deram conta da embaixada que traziam , principiando por entregarem ao Gama, como prova de alliança, o regio annel que do soberano levavam , assegurando bôa hospedagem em terra com as honras que merecia.

E, como terminassem a falla, dois negros, com marlotas e barretes de seda , á cinta adágas curvas, subiram com presentes de fructas e, pondo-se de joelhos , offereceram ao Gama, com um gesto tão cortez e tão gracioso que o secco navegador sorrio agradecendo . Em resposta disse o capitão quem era e porque andava por aquelles mares, entre tormentas , traições, syrtes e marraxos , enaltecendo subidamente o poderio do seu Rei e a grandeza da sua Patria, rica e forte. E, em troca dos presentes que recebéra , outros mandou á terra pelos embaixadores constando de varias peças de vestuario, alambeis e ramos de coral . No dia seguinte, ao luzir d'alva, largaram os navios de onde estavam para que mais proximos ficassem do porto e alli mandou o rei nova embaixada a bordo , com presentes e instancias para que desembarcassem indo os nautas repousar em terra mas o Gama, advertido pela experiencia que tinha das demonstrações fallazes de amizade que lhe haviam dado os outros regulos , negou-se, desconfiado, dizendo que trazia do seu Rei prohibição expressa

IIQ de deixar o seu posto em os navios em outro porto que não aquelle que ia procurando , e, se contrariamente procedesse , falhando á disciplina, abriria um perigoso precedente á gente que commandava . Resolveu então que, saindo o rei em um dos seus barcos, sairia elle em outro encontrando-se sobre as aguas . No dia ajustadoparaa entrevista, desde cêdo, começou a gente a mover-se na praia com alvoroço : cavalleiros , com os mantos ao vento, traziam os seus ginetes caracolando ; ao fulgor do sol áscuas scintillavam nos ferros das lanças e os muros brancos das casas refulgiam destacando-se vivamente , em largas manchas , entre os pomares cerrados ; altas , esguias, com os seus pennachos verdes , perdiam-se ao longe as columnadas das palmeiras. O Gama, querendo mostrar-secom esplendor, mandou adornar o seu batel forrando-o de estofos ; um brocado, com precioso cadilho de ouro, alastrava o paneiro protegido por um toldo de sêda com franjas e, sob o toldo, n'um assento de finos embutidos e marchetes de ouro e coral ia elle, entre os seus officiaes , vestidos com louçania ; os

III mesmos remeiros ostentavam os seus trajos a primor e tanto era o fausto que os estropos que prendiam os remos aos toletes eram de fina sêda e, por ostentoso luxo , as abas dos forros , rolando das bordas do batel, iam roçando n'agua - с , com a bandeira real desfraldada á pôра е galhardetes nas driças ſoi-se o batel affastando com o estridor das trombetas que os de bórdo assopravam alegremente. Já de terra partira o monarcha melindano n'uma almadia de graciosa fórma e ornada custosamente. Vestia o rei uma ampla cabaia de damasco forrada de setim verde e á cabeça trazia a fóta de sêda com torsaes de ouro e arrecadas de perolas que com ò fino estofo se embrechavam . O peito, como se do peso se sentisse , arfava sob um collar ou tosão cravejado de pedras preciosas e, tão longo era que , dando duas voltas folgadas ao pescoço, lhe descia á altura da cinta ; os dedos pareciam ser de ouro e de gemmas tantos eram os anneis que por elles se enroscavam . Reclinado sobre molles e amplos coxins de sêda ficava á sombra d'um flabello carmesi , cuja haste tauxiada um negro

sustentava . De pé, com as brancas barbas soltas destacando-se da tez abaçanada do seu rosto onde os olhos brilhavam, um velho aio, de aspecto venerando, sustentava-lhe o alfange, resguardado n'uma bainha de prata e, á prôa, dois alentados mouros embocando bozinas altas , de marfim, sopravam para o mar forte e sonorosamente , outros tocavam anafis e, como guardas reaes, fidalgos apertavam um circulo deslumbrante em torno do soberano . Alcançando o batel do Gama onde a equipagem mantinha os remos arvorados passou-se para elle o rei e , taes demonstrações alli trocaram os dois que mais pareciam amigos que se reviam depois de longo apartamento que dois homens que se encontravam pela primeira vez . Como para conservar o nome grato e amigo do Rei de Portugal pedio ao Gama que lh'o désse escripto e, depois, ainda instou com elle para que fosse á terra onde teria acceitoso descanso e regalo pittoresco n'aquelles eidos que mandavam , de tão longe, o seu perfume ao mar, na brisa. Para dar maior prova de amizade ordenou o Gama que fossem soltos os mouros

que havia aprisionado no zambuco e a linda moça, com a ordem , como que se refazendo na liberdade da tristeza em que a trazia a vida que levava a bordo, ainda mais formosa appareceu nas suas vestes fôſas , com o donaire proprio das mulheres da sua raça . Formada a paz foi-se o rei á sua almadia e os remeiros conduziram-n'o para mais perto das naus. Logo os bombardeiros acudiram com as mechas e os ares atroavam com os estampidos festivos que enchiam de assombro e medo a gente de Melinde . O rei , emtanto , alegrava-se com aquelle ruido que se ia repetindo de echo em echo pelo mar e pela terra e, como fallasse ao Gama, gabando as tremendas armas, teve o capitão ensejo de exaltar ainda mais o poderio do seu rei dizendo que eram tantas as naus que velejavam com as armas reaes que, todas juntas, assoalhariam aquelle mar que por alli fóra se estendia mas , forte e aguerrido como era, o orgulho não cabia no seu generoso peito tanto que não negava o seu auxilio, antes com elle acudia sollicito, aos que, em urgencia de guerra , sendo seus alliados, d'elle careciam .

Despedindo-se com os mesmos signaes com que se haviam encontrado tornou o rei á terra voltando o Gama á nau ; mas, diariamente pangaios procuravam-no com recados e dádivas do rei . Para não parecer indifferente ou soberbo negando-se ás reiteradas mensagens do mouro que lhe pedia fosse á terra ou mandasse algum dos seus para que recebesse agasalho e regalo nos seus paços, firme no proposito de não arriscar-se , saío o Gama com Nicoláo Coelho em um batel armado e, lentamente, por um mar chão , foram seguindo ao longo da cidade. Tão perto ia o batel da praia que, os de bordo , distinguiam as feições dos que por alli andavam , uns a pé, outros em camellos ou a cavallo galopando pela areia. As casas , altas e brancas, abertas em muitas janellas tinham , para protegel-as contra o sol ardente d'aquellas zonas, copadas arvores sempre verdes e, por entre as finas hervas , n'um fio scintillante , derivava um arroio que, depois de muitas voltas graciosas , por eidos e hortas, despejava-se no mar. Vastos campos de milho lourejavam e latadas formavam toldos diante das casas

silenciosas ; para o fundo, nos cerros, choças trepavam e, como se alli vivesse um povo de pastores, rebanhos espalhavam- se pelas vertentes illuminadas . Por todos os lados encontravam os olhos filas de palmeiras com as suas franças juntas como que formando um viaducto de bronze sobre altissimas columnas de granito . Como passasse o batel defronte de um edificio branco, de proporções monumentaes , com um terraço de pedra lavrada onde uma multidão apinhava -se parecendo de nobres e de gente de guerra , viram os portuguezes negros buzinadores com as suas altas e roucas trombetas de marfim , outros com atabales, outros com sistros e anafis rompendo dos instrumentos tão formidavel concerto que fez abalar uma nuvem de passaros na direcção longinqua das montanhas . Mas, d'entre as grossas arvores que espalhavam uma sombra larga sobre o saibro da alameda, irromperam cavalleiros com albornozes soltos , acommettendo-se, com sarilho de lanças e vozeiro de guerra . Os ginetes saltavam, caracollavam, nitriam , iam aos recuões com as caudas d'um longo

e fino sedenho varrendo a terra ou avançavam em escaramuça e os seus donos , contendo-os , faziam com que estacassem subitamente , quasi tocando o solo com as ancas , ficando elles firmes nas sellas com as lanças altas e as adargas jogadas ao flanco dos animaes que remordiam os freios espumando. Foram-se, porém , as alas apartando e estrondosamente, longamente, a fanfarra vibrou ; voltearam nos ares, arremessadas , as lanças dos cavalleiros mas tanto que as apanharam na corrida, e tão certos no movimento que nem uma só ficou sem o seu dono, partiram com grita horrivel perdendo-se entre as altas arvores e logo os do batel viram apparecer no terraço o rei melindano . Não vinha a pé mas n'um andor preciosamente recamado e os negros fortes que o conduziam, sem receio do mar, metteram-se por elle dentro apartando as aguas com os seus largos peitos e, quando já pelos hombros ia-lhes dando o mar, alcançou o soberano o batel onde era grande a admiração doshomens por tão extranho quão formoso espectaculo . Em terra, sem pausa, reboavam

as trombetas . Alli ainda apertou o rei com o navegante para que fosse á cidade dizendo que n'ella jazia seu pai entrevado que muito desejava vel-o , compromettendose a deixar, em reſem , um dos seus filhos e, se tanto não bastasse, elle mesmo ficaria ; o Gama , porém , ficando sobre as razões que antes lhe dera, poude esquivar-se á visita . Ainda estiveram longo tempo conversando e ouvindo o rumor das festas que em terra celebravam, porque a praia coalhara-se de povo e, de todas as partes , partiam clamores . Despedindo-se foi-se o rei levado pelos negros que andavam nas aguas como se fossem o seu elemento e o batel ſez-se vagarosamente ao largo accenando aos de terra e, quando viram os conductores do regio andor ganhar a praia enxuta os bombardeiros fizeram detonar os berços que levavam . De volta ás naus, passando junto ao ancoradouro das ſustas dos indios christãos , correram todos ás amuradas , outros foram trepando pelos cabos e as suas grandes barbas e os seus compridos cabellos esvoaçavam dando-lhes uma original feição que

os portuguezes não podiam ver sem certo riso e, em signal de festa, foram tambem ás suas bombardas, que as tinham em canhoneiras , e despejaram varios tiros que foram correspondidos e, á maneira de saudação, firmando-se alguns nas abotocaduras , agarrados aos cabos , bradavam : Christe ! Christe ! A' noite, havendo conseguido permissão do rei , os indios fizeram uma grande festa nos seus navios atirando com as bombardas e lançando foguetes tudo acompanhado de grande algazarra que isso, n'elles , era a mais expressiva demonstração de alegria . A noite convidava áquelle divertimento porque , sendo o tempo de lua cheia, todo o mar rebrilhava como um vasto estendal de prata e, em terra, onde ardiam fógos, as casas , muito brancas, appareciam illuminadas ; mesmo nos montes afastados como se , até lá, houvesse chegado a alegria, flammejavam fogueiras . Amaruja, com tão maravilhoso espectaculo, poz -se em jocundo alvoroço a bordo bailando e cantando mas , como sempre acontece, onde vai a alegria sempre a tristeza apparece .

Um triste, posto solitariamente no cesto de gavea, discordava daquella alacridade , e, tanto maior era o prazer dos companheiros quanto mais se lhe augmentava a melancolia aquelle doce luar. lam-se-lhes os olhos arrasando eocoração batía aforçurado e só, na altura, balançado docemente, o marinheiro cantava baixinho uma canção triste e as lagrimas, uma a uma, pingavam dos seus olhos. Os indios, ou porque fossem leaes e verdadeiros ou porque , por intrigantes , quizessem indispor os das naus com os melindanos, deram-lhes aviso de que se não deixassem arrastar pelos rogos do mouro, antes perfidos que amigos . Isso ouvindo , porque já andavam suspeitosos , mais se acautelaram os portuguezes posto que não houvesse, até então, motivo para que mal julgassem aquella gente . Mas, com essas vozes e outras atoardas e porque já ia ganhando enſar te com a pressa que tinha de se fazer ao mar no rumo que almejava vendo, n'um domingo , chegar-se á nau uma zabra com um valido do rei o Gama reteve-o prisioneiro mandando recado ao mouro : que

só o entregaria quando elle lhe enviasse os pilotos que promettera. Tanto que á terra chegou o portador de tão atrevida embaixada poz-se o rei em movimento e, pouco depois , apparecia um christão conhecedor dos mares que as naus deviam affrontar desbravando o caminho mysterioso . Vendo o Gama o piloto e querendo experimental-o mandou que viesse um astrolabio, o indiano, porém, a quem não era extranho esse instrumento, não só não fez espanto como ainda, calmamente, foi desdobrando uma carta dos mares que deviam percorrer descrevendo, com segurança , todo o golfo extenso e o que n'elle havia té as chamadas terras do Malabar . Convencido da sua sciencia e contente mas , não querendo partir sem deixar um signal da sua demora naquelle porto feliz e de tanta hospitalidade, obteve o Gama permissão do rei para implantar na terra um padrão que ficou chamado do Espirito Santo e , depois de nove dias de constantes festas, já cançado de ver escaramuças e trebelhos , ordenou que tivessem as velas promptas para o vento e ao roxo entardecer,

com lua, foram-se as naus distanciando com os adeuses da terra e com o vozeiro dos indios que das suas fustas amigamente desejavam abonançados mares e propicios ventos. A maruja esteve debruçada até que de todo se perdeu no mar a hospitaleira e aprazivel terra de Melinde, e, já em mar alto, ao luar, os clerigos entoaram a oração da noite, partindo, de todas as naus, no silencio, o mesmo canto religioso.

A Descoberta da Índia

Sinopse

Leia gratuitamente A Descoberta da Índia, de Coelho Neto, narrativa histórica brasileira em domínio público publicada em 1898, organizada em capítulos para leitura online no Literunico. Esta edição digital foi preparada a partir do exemplar público preservado no Wikimedia Commons e Wikisource, com capa nova no padrão Literunico, fonte validável, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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