Universo da obra
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Capit. 9. Do monstro marinho que se matou na capitania de Sam Vicente no anno de 1564.
OY cousa tam noua, & tam desusada aos olhos humanos, a semelhança daquelle fero & espantoso monstro marinho que nesta prouincia se matou no anno de 1564 q̃ ainda que per muitas partes do mundo se tenha ja noticia delle, nam deixarey todauia de a dar aqui outra vez de nouo, relatando por extenso tudo o q̃ acerca disto passou. Porque na verdade a mayor parte dos retratos, ou quasi todos, em que querem mostrar a semelhança de seu horrendo aspecto, andam errados, & alem disso, contase o successo de sua morte por differentes maneiras, sendo a verdade hũa só, a qual he a seguinte. ¶ Na capitania de Sam Vicente, sendo ja alta noite a horas em que todos começauam de se entregar ao sono, acertou de sair fora de casa hũa India escraua do capitão; a qual lançando os olhos a hũa varzea q̃ está pegada com o mar, & com a pouoaçam da mesma capitania, vio andar nella este monstro, mouendose de hũa parte pera outra, com passos & meneos desusados, & dando algũs hurros de quando em quando tam feos, que como pasmada & quasi fora de si, se veo ao filho do mesmo capitam, cujo nome era Baltesar Ferreira, & lhe deu conta do que vira, parecẽdolhe que era algũa visam
diabolica. Mas como elle fosse não menos sesudo do que esforçado, & esta gente da terra seja digna de pouco credito, nam lho deu logo muito a suas palauras, & deixandose estar na cama, a tornou outra vez a mandar fora dizendolhe que se afirmasse bẽ no que era. E obedecendo a India a seu mandado foy: & tornou mais espantada, affirmandolhe & repetindolhe hũa vez & outra, q̃ andaua ali hũa cousa tam fea, que nam podia ser senam o demonio. Entam se leuãtou elle muy de pressa, & lançou mão a hũa espada que tinha junto de si, cõ a qual botou sómente em camisa pela porta fora, tendo pera si (quando muito) que seria algum Tigre, ou outro animal da terra conhecido, com a vista do qual se desenganasse do que a India lhe queria persuadir. E pondo os olhos naquella parte que ella lhe assinalou, vio cõfusamente o vulto do monstro ao longo da praya, sem poder diuisar o que era, por causa da noite lho impedir & o monstro tambem ser cousa nam vista, & fora do parecer de todos os outros animaes. E chegandose hum pouco mais a elle pera q̃ melhor se podesse ajudar da vista, foy sentido do mesmo mõstro: o q̃l ẽ leuantando a cabeça, tãto q̃ o vio, começou de caminhar pera o mar donde viera. Nisto conheceu o mancebo q̃ era aquilo cousa do mar, & antes que nelle se metesse, acodio com muita presteza a tomarlhe a dianteira. E vendo o mõstro que elle lhe embargaua o caminho, leuantouse direito pera cima como hũ homem, ficando sobre as barbatanas
do rabo, e estando assi a par com elle, deu-lhe vma estocada pela barriga, e dando-lha no mesmo instante se desuiou pera hũa parte com tanta velocidade, que nam pôde o monstro leua-lo debaixo de si: porem nam pouco afrontado, porque o grande torno de sanque que sahio da ferida lhe deu no rosto com tanta força que quasi ficou sem nenhũa vista: e tanto que o monstro se lançou em terra deixa o caminho que leuaua e assi ferido hurrando com a boca aberta sem nenhum medo, remeteu a elle, e indo pera o tragar a vnhas, e a dentes, deu-lhe na cabeça hũa cotilada mui grande, com a qual ficou já mui debil, e deixando sua vã porfia tornou entam a caminhar outra vez para o mar. Neste tempo acudiram alguns escrauos aos gritos da India que estaua em vella: e chegando a elle, o tomaram todos já quasi morto e dali o leuaram á pouoaçam onde esteue o dia seguinte á vista de toda a gente da terra. E com este mancebo se hauer mostrado neste caso tam animoso como se mostrou, e ser tido na terra por muito esforçado sahio todauia desta batalha tam sem alento e com a vizam deste medonho animal ficou tam perturbado e suspenso, que perguntando-lhe o pai, que era o que lhe hauia succedido nam lhe pôde responder, e assi como assombrado sem fallar cousa algũa per hum grande espaço. O retrato deste monstro, he este que no fim do presente capitulo se mostra, tirado pelo natural. Era quinze palmos de comprido e semeado de cabellos pelo corpo, e no focinho tinha
hũas sedas muy grãdes como bigodes. Os Indios da terra lhe chamão em sua lingoa Hipupiára, que quer dizer demonio dagoa. Algũs como este se viram ja nestas partes: mas achanse raramente. E assi tambem deue de auer outros muitos monstros de diuersos pareceres, q̃ no abismo desse largo & espantoso mar se escondẽ, de nam menos estranheza & admiraçam: & tudo se pode crer, por difficil que pareça: porque os segredos da natureza
nam foram
reuelados todos ao homem, pera que com razam possa negar, & ter por impossiuel as cousas q̃ não vio, nem de que nunqua teue noticia.
Leia gratuitamente História da Província Santa Cruz, de Pero de Magalhães Gândavo, obra fundadora de 1576 sobre o Brasil colonial, em domínio público. Edição digital preparada em HTML para leitura online no Literunico, com aprovações, poemas de Luís de Camões, epístola, prólogo e 14 capítulos, fonte Wikisource validada, apoio bibliográfico do Senado/BDSF, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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