Universo da obra
Universo da obra
_Parte da matéria puramente geográfica existente no original sueco das “Novas Aventuras de Nils” foi eliminada da versão inglesa.
A autora prestou valioso auxílio no corte de certos capítulos e no resumo de outros. Além disso, com sua aprovação, fizeram-se cortes onde a matéria descritiva era apenas de interesse local.
Mas a história em si permanece intacta.
Domingo, vinte de março.
Era uma vez um menino. Tinha — digamos — uns catorze anos; era comprido, desengonçado e de cabelos claros como estopa. Não valia grande coisa, aquele menino. Seu maior prazer era comer e dormir; e, depois disso, o que mais gostava era fazer travessuras.
Era uma manhã de domingo, e os pais do menino se preparavam para ir à igreja. O menino estava sentado à beira da mesa, em mangas de camisa, pensando que sorte era pai e mãe saírem ambos, deixando-lhe o caminho livre por algumas horas. “Ótimo! Agora posso tirar a espingarda do pai e disparar um tiro, sem ninguém se meter”, disse consigo.
Mas era quase como se o pai tivesse adivinhado os pensamentos do menino, pois, justamente quando já estava à soleira, pronto para partir, deteve-se de súbito e voltou-se para ele. “Já que não queres ir à igreja comigo e com tua mãe”, disse, “o mínimo que podes fazer é ler o ofício em casa. Prometes fazê-lo?” “Sim”, respondeu o menino, “isso posso fazer sem dificuldade.” E pensou, naturalmente, que não leria mais do que lhe desse vontade.
O menino achou que nunca vira a mãe tão insistente. Num instante ela estava junto à prateleira perto da lareira, de onde tirou o Comentário de Lutero e o pôs sobre a mesa, diante da janela, aberto no ofício do dia. Abriu também o Novo Testamento e colocou-o ao lado do Comentário. Por fim, puxou a grande poltrona, comprada no leilão paroquial do ano anterior e que, em regra, ninguém além do pai tinha licença de ocupar.
O menino ficou pensando que a mãe se dava trabalho demais com toda aquela arrumação, pois ele não tinha intenção de ler mais que uma página ou coisa assim. Mas então, pela segunda vez, foi quase como se o pai pudesse enxergá-lo por dentro. Aproximou-se do menino e disse, em tom severo: “Agora, lembra-te de que deves ler com atenção! Pois, quando voltarmos, vou interrogar-te cuidadosamente; e, se tiveres saltado uma só página, as coisas não correrão bem para o teu lado.”
“O ofício tem catorze páginas e meia”, disse a mãe, como se quisesse aumentar a medida de sua desgraça. “Terás de sentar-te e começar a leitura imediatamente, se esperas chegar ao fim.”
Com isso, partiram. E, enquanto o menino permanecia à porta, observando-os, pensou que havia caído numa armadilha. “Lá vão eles se felicitando, suponho, por terem descoberto uma coisa tão boa que serei obrigado a ficar curvado sobre o sermão durante todo o tempo em que estiverem fora”, pensou.
Mas o pai e a mãe certamente não se felicitavam por coisa alguma desse gênero; ao contrário, estavam muito aflitos. Eram lavradores pobres, e sua propriedade não era muito maior que um canteiro. Quando se mudaram para ali, o lugar não podia sustentar mais que um porco e um par de galinhas; mas eram gente extraordinariamente trabalhadora e capaz, e agora possuíam vacas e gansos. As coisas lhes tinham corrido muito bem; e teriam ido à igreja, naquela bela manhã, satisfeitos e felizes, se não tivessem o filho em que pensar. O pai se queixava de que ele era lento e preguiçoso; não se importara em aprender coisa alguma na escola e era um inútil tão completo que mal se conseguia fazê-lo cuidar dos gansos. A mãe não negava que isso fosse verdade; mas o que mais a afligia era ele ser arisco e mau; cruel com os animais e mal-intencionado para com as pessoas. “Que Deus abrande seu coração duro e lhe dê melhor índole!”, dizia a mãe, “ou ele será uma desgraça tanto para si mesmo quanto para nós.”
O menino ficou por muito tempo ponderando se devia ler o ofício ou não. Por fim, concluiu que, daquela vez, o melhor era obedecer. Sentou-se na poltrona e começou a ler. Mas, depois de murmurar a leitura em voz baixa por algum tempo, aquele resmungo pareceu exercer sobre ele um efeito tranquilizador — e ele começou a cabecear.
Lá fora fazia o tempo mais belo! Era apenas vinte de março; mas o menino morava no município de West Vemminghög, lá no sul da Escânia, onde a primavera já estava em pleno curso. Ainda não havia verde, mas tudo estava fresco e em botão. Havia água em todas as valas, e o tussílago florescia à beira do fosso. Todas as ervas daninhas que cresciam entre as pedras estavam pardas e reluzentes. Os bosques de faias, ao longe, pareciam inchar e adensar-se a cada segundo. O céu era alto — e de um azul límpido. A porta da cabana estava entreaberta, e o trinado da cotovia podia ser ouvido dentro do quarto. As galinhas e os gansos andavam aos passinhos pelo terreiro, e as vacas, que sentiam o ar da primavera lá em suas baias, mugiam de aprovação de vez em quando.
O menino lia, cabeceava e lutava contra a sonolência. “Não! Não quero adormecer”, pensou, “pois então não terminarei esta coisa durante a manhã inteira.”
Mas — de algum modo — adormeceu.
Não soube se havia dormido pouco ou muito; mas foi despertado ao ouvir um ruído leve atrás de si.
No peitoril da janela, diante do menino, havia um pequeno espelho; e nele se podia ver quase toda a cabana. Quando o menino ergueu a cabeça, aconteceu de olhar para o espelho; e então viu que a tampa da arca de sua mãe fora aberta.
Sua mãe possuía uma grande e pesada arca de carvalho, guarnecida de ferro, que não permitia a ninguém, senão a si mesma, abrir. Ali guardava todas as coisas que herdara de sua mãe, e delas cuidava com especial zelo. Ali jaziam um par de velhos trajes camponeses, de tecido caseiro vermelho, com corpinho curto e saia pregueada, e um broche de peito enfeitado de pérolas. Havia toucas engomadas de linho branco, e pesados adornos e correntes de prata. Hoje em dia as pessoas não fazem questão de andar vestidas assim, e várias vezes sua mãe pensara em desfazer-se das coisas antigas; mas, de algum modo, não tivera coragem.
Agora o menino via distintamente — no espelho — que a tampa da arca estava aberta. Não conseguia compreender como aquilo acontecera, pois sua mãe havia fechado a arca antes de sair. Jamais teria deixado aquela preciosa arca aberta quando ele estava sozinho em casa.
Ele ficou abatido e apreensivo. Temeu que um ladrão tivesse se esgueirado para dentro da cabana. Não ousava mover-se; ficou sentado, imóvel, fitando o espelho.
Enquanto permanecia ali, esperando que o ladrão aparecesse, começou a perguntar-se o que seria aquela sombra escura que caía sobre a borda da arca. Olhou e tornou a olhar — e não quis acreditar em seus olhos. Mas aquilo que a princípio parecera uma sombra foi se tornando cada vez mais claro para ele; e logo viu que era algo real. Nada menos que um duende estava ali sentado, montado na borda da arca!
É verdade que o menino já ouvira histórias sobre duendes, mas nunca sonhara que fossem criaturas tão pequeninas. Não era mais alto que um palmo — aquele que estava sentado à borda da arca. Tinha um rosto velho, enrugado e sem barba, e vestia uma casaca preta, calções até o joelho e um chapéu negro de abas largas. Estava muito aprumado e elegante, com rendas brancas ao redor da garganta e dos punhos, sapatos de fivela e laços nas ligas. Tirara da arca uma peça bordada e estava sentado, contemplando o trabalho antigo com tal ar de veneração que não percebeu que o menino havia despertado.
O menino ficou um tanto surpreso ao ver o duende, mas, por outro lado, não se assustou particularmente. Era impossível ter medo de alguém tão pequeno. E, como o duende estava tão absorto em seus próprios pensamentos que nada via nem ouvia, o menino achou que seria muito divertido pregar-lhe uma peça: empurrá-lo para dentro da arca e fechar a tampa sobre ele, ou alguma coisa desse tipo.
Mas o menino não era tão corajoso a ponto de ousar tocar o duende com as mãos; em vez disso, pôs-se a procurar pelo quarto alguma coisa com que pudesse cutucá-lo. Deixou o olhar vagar do sofá para a mesa de abas; da mesa de abas para a lareira. Olhou as chaleiras, depois a cafeteira, que ficava numa prateleira, perto da lareira; o balde de água junto à porta; e as colheres, facas, garfos, pires e pratos, que se viam pela porta entreaberta do armário. Olhou a espingarda do pai, pendurada na parede ao lado do retrato da família real dinamarquesa, e os gerânios e as fúcsias que floresciam à janela. Por fim, avistou uma velha rede de apanhar borboletas, pendurada no caixilho da janela. Mal pôs os olhos naquela rede, esticou-se, arrancou-a de lá, saltou de pé e brandiu-a junto à borda da arca. Ele próprio ficou espantado com a sorte que tivera. Mal sabia como conseguira aquilo — mas o fato é que apanhara o duende na rede. O pobre homenzinho jazia de cabeça para baixo no fundo da comprida rede, sem conseguir libertar-se.
No primeiro momento, o menino não fazia a menor ideia do que deveria fazer com sua presa. Tratava apenas de balançar a rede para a frente e para trás, a fim de impedir que o duende firmasse os pés e trepasse para fora.
O duende começou a falar e suplicou, oh! tão lastimosamente, que lhe dessem liberdade. Havia trazido boa sorte àquela casa — por muitos anos —, disse ele, e merecia melhor tratamento. Agora, se o menino o soltasse, ele lhe daria uma moeda antiga, uma colher de prata e uma moeda de ouro tão grande quanto a caixa do relógio de prata de seu pai.
O menino não achou que a oferta fosse lá grande coisa; mas aconteceu que — depois de ter o duende em seu poder — ficou com medo dele. Sentiu que entrara em acordo com algo estranho e sinistro; algo que não pertencia ao seu mundo, e ficou mais que satisfeito de livrar-se daquela coisa horrenda.
Por isso aceitou imediatamente a barganha e manteve a rede imóvel, para que o duende pudesse sair dela. Mas, quando o duende já estava quase fora da rede, ocorreu ao menino que devia ter negociado grandes propriedades e toda sorte de bens. Deveria ao menos ter imposto esta condição: que o duende metesse por encanto o sermão inteiro em sua cabeça. “Que tolo fui em deixá-lo escapar!”, pensou, e começou a sacudir a rede violentamente, para que o duende tornasse a cair.
Mas, no mesmo instante em que o menino fez isso, recebeu um tapa tão ardido na orelha que julgou que sua cabeça fosse se despedaçar. Foi lançado — primeiro contra uma parede, depois contra a outra; afundou no chão e ficou ali estendido — sem sentidos.
Quando despertou, estava sozinho na cabana. A tampa da arca estava abaixada, e a rede de apanhar borboletas pendia em seu lugar de sempre, junto à janela. Se não sentisse a bochecha direita arder por causa daquele tapa na orelha, teria sido tentado a acreditar que tudo não passara de sonho. “De todo modo, pai e mãe hão de insistir que não foi outra coisa”, pensou. “Não é provável que façam concessão alguma quanto àquele velho sermão, por causa do duende. É melhor eu voltar logo à leitura”, pensou.
Mas, ao caminhar para a mesa, percebeu algo notável. Não podia ser possível que a cabana tivesse crescido. Mas por que, então, ele era obrigado a dar tantos passos a mais que de costume para chegar à mesa? E o que havia com a cadeira? Ela não parecia maior do que antes; mas agora ele tinha de pisar primeiro na travessa e depois trepar para alcançar o assento. O mesmo se dava com a mesa. Ele não podia olhar por cima do tampo sem subir no braço da cadeira.
“Que diabo é isto?”, disse o menino. “Acho que o duende enfeitiçou a poltrona e a mesa — e a cabana inteira.”
O Comentário estava sobre a mesa e, ao que tudo indicava, não havia mudado; mas devia haver também alguma coisa estranha com ele, pois o menino não conseguia ler uma só palavra sem ficar de pé dentro do próprio livro.
Leu algumas linhas e então, por acaso, ergueu os olhos. Com isso, seu olhar caiu no espelho; e então gritou em voz alta: “Olhem! Há outro!”
Pois, no espelho, viu claramente uma criaturinha, muito pequenina, vestida com um capuz e calções de couro.
“Ora, esse aí está vestido exatamente como eu!”, disse o menino, juntando as mãos de espanto. Mas então viu que a coisa no espelho fazia o mesmo. Começou, então, a puxar os próprios cabelos, beliscar os braços e girar sobre si mesmo; e imediatamente o outro, aquele que se via no espelho, fez tudo igual.
O menino correu várias vezes em torno do espelho, para ver se não havia um homenzinho escondido atrás dele, mas não encontrou ninguém; e então começou a tremer de terror. Pois agora compreendia que o duende o havia enfeitiçado, e que a criatura cuja imagem via no espelho — era ele próprio.
O menino simplesmente não conseguia convencer-se de que havia sido transformado em duende. “Não pode ser senão um sonho — uma fantasia esquisita”, pensou. “Se eu esperar alguns instantes, certamente voltarei a ser humano.”
Colocou-se diante do espelho e fechou os olhos. Abriu-os de novo depois de alguns minutos, esperando então descobrir que tudo passara — mas não passara. Ele era — e continuava sendo — exatamente tão pequeno. Nos demais aspectos, era o mesmo de antes. Os cabelos finos, cor de palha; as sardas sobre o nariz; os remendos nos calções de couro e os cerzidos nas meias, tudo continuava igual, com esta única diferença: haviam diminuído.
Não, de nada lhe adiantaria ficar parado esperando; disso estava certo. Tinha de tentar outra coisa. E pensou que o mais sensato que poderia fazer era tentar encontrar o duende e fazer as pazes com ele.
E, enquanto procurava, chorava, rezava e prometia tudo quanto lhe vinha à mente. Nunca mais quebraria a palavra dada a ninguém; nunca mais seria mau; e nunca, nunca mais adormeceria durante o sermão. Se pudesse apenas tornar a ser humano, seria um menino tão bom, prestativo e obediente. Mas, por mais que prometesse, aquilo não o ajudou nem um pouquinho.
De repente, lembrou-se de ter ouvido a mãe dizer que todo aquele povo miúdo fazia morada nos estábulos; e, de pronto, concluiu que iria até lá, para ver se não conseguia encontrar o duende. Foi sorte a porta da cabana estar meio aberta, pois ele jamais teria alcançado o ferrolho para abri-la; assim, porém, passou por ela sem dificuldade alguma.
Quando chegou ao vestíbulo, procurou seus tamancos; pois dentro de casa, certamente, andara apenas de meias. Perguntava-se como se arranjaria com aqueles tamancos grandes e desajeitados; mas, naquele instante, viu um par de sapatinhos minúsculos na soleira. Ao notar que o duende fora tão previdente a ponto de enfeitiçar também os tamancos, ficou ainda mais aflito. Evidentemente, era intenção dele que aquela desgraça durasse muito tempo.
Sobre a passarela de tábuas diante da cabana, saltitava um pardal cinzento. Mal pôs os olhos no menino, pôs-se a gritar: “Titi! Titi! Olhem o Nils, menino dos gansos! Olhem o Polegarzinho! Olhem o Nils Holgersson Polegarzinho!”
No mesmo instante, tanto os gansos quanto as galinhas se voltaram e fitaram o menino; e então começaram uma cacarejada medonha. “Cocoricó!”, cantou o galo, “bem feito para ele! Cocoricó, ele puxou minha crista.” “Cá, cá, cada, bem feito!”, gritaram as galinhas; e, com isso, mantiveram um cacarejar contínuo. Os gansos se juntaram num grupo apertado, encostaram as cabeças umas nas outras e perguntaram: “Quem terá feito isto? Quem terá feito isto?”
Mas o mais estranho de tudo era que o menino compreendia o que eles diziam. Ficou tão espantado que permaneceu ali como que enraizado à soleira, escutando. “Deve ser porque fui transformado em duende”, disse ele. “É provavelmente por isso que entendo a fala dos pássaros.”
Pareceu-lhe insuportável que as galinhas não parassem de dizer que fora bem feito. Atirou uma pedra nelas e gritou:
“Cale-se essa corja!”
Mas ainda não lhe ocorrera que já não era o tipo de menino a quem as galinhas precisavam temer. O galinheiro inteiro avançou contra ele e formou um círculo à sua volta; então todas gritaram ao mesmo tempo: “Cá, cá, cada, bem feito para você! Cá, cá, cada, bem feito para você!”
O menino tentou escapar, mas as galinhas correram atrás dele e berraram tanto que ele pensou que perderia a audição. É mais que provável que jamais conseguisse livrar-se delas se o gato da casa não tivesse aparecido justamente então. Assim que as galinhas viram o gato, aquietaram-se e fingiram não pensar em outra coisa senão em ciscar a terra à procura de vermes.
Imediatamente, o menino correu até o gato. “Querido bichano!”, disse ele, “tu deves conhecer todos os cantos e esconderijos daqui. Serás um bom gatinho e me dirás onde posso encontrar o duende.”
O gato não respondeu de imediato. Sentou-se, enrolou a cauda num gracioso anel em torno das patas — e fitou o menino. Era um grande gato preto, com uma mancha branca no peito. O pelo jazia liso e macio, e brilhava à luz do sol. As garras estavam recolhidas, e os olhos eram de um cinzento baço, com apenas uma estreita risca escura no centro. O gato parecia inteiramente bondoso e inofensivo.
“Sei muito bem onde vive o duende”, disse ele numa voz suave, “mas isso não quer dizer que eu vá contar a você.”
“Querido bichano, tens de me dizer onde vive o duende!”, disse o menino. “Não vês como ele me enfeitiçou?”
O gato abriu um pouco os olhos, de modo que a maldade verde começou a reluzir. Girou em torno de si mesmo e ronronou de satisfação antes de responder. “Por acaso devo ajudá-lo porque tantas vezes você me agarrou pela cauda?”, disse enfim.
Então o menino ficou furioso e esqueceu por completo quão pequeno e indefeso estava agora. “Oh! Posso puxar sua cauda de novo, posso sim”, disse, e correu para o gato.
No instante seguinte, o gato estava tão transformado que o menino mal podia acreditar que fosse o mesmo animal. Cada pelo de seu corpo se eriçara. O dorso estava arqueado; as pernas tinham-se alongado; as garras raspavam o chão; a cauda se tornara grossa e curta; as orelhas estavam deitadas para trás; a boca espumava; e os olhos estavam arregalados e faiscavam como centelhas de fogo vermelho.
O menino não queria deixar-se assustar por um gato, e deu um passo à frente. Então o gato deu um salto e caiu bem em cima do menino; derrubou-o e ficou sobre ele — as patas dianteiras pousadas em seu peito, e as mandíbulas escancaradas sobre sua garganta.
O menino sentiu como as garras afiadas lhe atravessavam o colete e a camisa e se cravavam na pele; e como os caninos pontiagudos lhe roçavam a garganta. Gritou por socorro tão alto quanto pôde, mas ninguém veio. Pensou, com certeza, que sua última hora havia chegado. Então sentiu que o gato recolhia as garras e largava a presa em sua garganta.
“Pronto!”, disse ele, “por ora basta. Vou deixá-lo ir desta vez, por consideração à minha dona. Só queria que você soubesse qual de nós dois tem o poder agora.”
Com isso, o gato se afastou — parecendo tão liso e piedoso quanto quando aparecera pela primeira vez. O menino ficou tão abatido que não disse palavra; apenas correu para o estábulo das vacas, a fim de procurar o duende.
Não havia ali mais que três vacas, ao todo. Mas, quando o menino entrou, houve tantos mugidos e tanto alvoroço que facilmente se poderia acreditar que havia pelo menos trinta.
“Muuu, muuu, muuu”, mugiu Rosa-de-Maio. “Ainda bem que existe uma coisa chamada justiça neste mundo.”
“Muuu, muuu, muuu”, cantaram as três em uníssono. Ele não conseguia ouvir o que diziam, pois cada uma tentava mugir mais alto que as outras.
O menino queria perguntar pelo duende, mas não pôde fazer-se ouvir, porque as vacas estavam em pleno tumulto. Portavam-se como costumavam fazer quando ele soltava contra elas algum cão estranho. Escoiceavam com as patas traseiras, sacudiam o pescoço, estendiam a cabeça e mediam a distância com os chifres.
“Venha cá, você!”, disse Rosa-de-Maio, “e receberá um coice que não esquecerá tão cedo!”
“Venha cá”, disse Lírio-Dourado, “e você dançará sobre meus chifres!”
“Venha cá, e provará o que senti quando você atirou seus tamancos em mim, como fez no verão passado!”, berrou Estrela.
“Venha cá, e será recompensado por aquela vespa que você soltou dentro da minha orelha!”, rosnou Lírio-Dourado.
Rosa-de-Maio era a mais velha e a mais sábia delas, e era também a mais furiosa. “Venha cá!”, disse ela, “para que eu lhe pague pelas muitas vezes em que você arrancou o balde de leite de sua mãe; e por todas as armadilhas que armou para ela quando vinha carregando os baldes de leite; e por todas as lágrimas que ela derramou aqui, de pé, chorando por sua causa!”
O menino queria dizer-lhes quanto se arrependia de ter sido cruel com elas; e que jamais, jamais — dali em diante — seria outra coisa senão bom, se apenas lhe dissessem onde estava o duende. Mas as vacas não o escutaram. Faziam tamanho alarido que ele começou a temer que uma delas conseguisse se soltar; e pensou que o melhor a fazer era retirar-se em silêncio do estábulo.
Quando saiu, estava completamente desanimado. Compreendia que ninguém na propriedade queria ajudá-lo a encontrar o duende. E provavelmente de pouco lhe adiantaria, mesmo que o duende fosse encontrado.
Subiu, arrastando-se, até a larga cerca viva que rodeava a fazenda, toda coberta de sarças e líquen. Ali se sentou para pensar em como seria sua vida se nunca mais voltasse a ser humano. Quando pai e mãe regressassem da igreja, teriam uma surpresa. Sim, uma surpresa — e ela se espalharia por toda a região; e as pessoas viriam em bandos de East Vemminghög, de Torp e de Skerup. Todo o município de Vemminghög viria fitá-lo. Talvez pai e mãe o levassem consigo e o exibissem na praça do mercado, em Kivik.
Não, aquilo era horrível demais até para pensar. Preferia que nenhum ser humano tornasse jamais a vê-lo.
Sua infelicidade era simplesmente pavorosa! Ninguém em todo o mundo era tão infeliz quanto ele. Já não era um ser humano — mas uma aberração.
Pouco a pouco começou a compreender o que significava não ser mais humano. Estava agora separado de tudo; não podia mais brincar com outros meninos, não poderia tomar conta da fazenda depois que seus pais se fossem; e certamente nenhuma moça pensaria em casar-se com ele.
Sentou-se e contemplou sua casa. Era uma pequena casa de toras, que jazia como se tivesse sido esmagada contra a terra sob o telhado alto e inclinado. As construções externas também eram pequenas; e os pedaços de terra eram tão estreitos que um cavalo mal conseguiria dar meia-volta neles. Mas, por menor e mais pobre que fosse aquele lugar, era bom demais para ele agora. Não podia pedir morada melhor que um buraco sob o assoalho do estábulo.
Fazia um tempo maravilhosamente belo! Tudo brotava, ondulava, murmurava e chilreava ao seu redor. Mas ele estava ali sentado, com uma tristeza tão pesada. Nunca mais seria feliz por coisa alguma.
Nunca vira o céu tão azul como naquele dia. Aves de arribação passavam em viagem. Vinham de terras estrangeiras, haviam atravessado o Mar do Leste pelo caminho de Smygahuk e seguiam agora rumo ao norte. Eram de muitas espécies diferentes; mas ele só conhecia os gansos selvagens, que vinham voando em duas longas fileiras, encontrando-se em ângulo.
Vários bandos de gansos selvagens já haviam passado voando. Iam muito alto; ainda assim, ele podia ouvir como gritavam: “Para as colinas! Agora vamos para as colinas!”
Quando os gansos selvagens viam os gansos domésticos, que andavam pela fazenda, desciam mais perto da terra e chamavam: “Venham conosco! Venham conosco! Vamos para as colinas!”
Os gansos domésticos não conseguiam resistir à tentação de erguer a cabeça e escutar, mas respondiam com muito bom senso: “Estamos muito bem onde estamos. Estamos muito bem onde estamos.”
Era, como dissemos, um dia excepcionalmente belo, com um ar no qual devia ser uma verdadeira delícia voar, tão leve e revigorante. E, a cada novo bando de gansos selvagens que passava, os gansos domésticos ficavam cada vez mais irrequietos. Algumas vezes bateram as asas, como se estivessem quase dispostos a segui-los. Mas então uma velha mamãe gansa sempre lhes dizia: “Agora não sejam tolos. Essas criaturas terão de sofrer fome e frio.”
Havia um ganso novo a quem os gansos selvagens haviam incendiado de paixão pela aventura. “Se outro bando vier por aqui, vou segui-los”, disse ele.
Então veio um novo bando, que gritou como os outros, e o ganso jovem respondeu: “Esperem um minuto! Esperem um minuto! Estou indo.”
Abriu as asas e ergueu-se no ar; mas estava tão desacostumado a voar que tornou a cair no chão.
De todo modo, os gansos selvagens devem ter ouvido seu chamado, pois se viraram e voaram lentamente de volta para ver se ele vinha.
“Esperem, esperem!”, gritou ele, e fez outra tentativa de voar.
Tudo isso o menino ouviu, de onde estava deitado sobre a cerca viva. “Seria uma grande pena”, pensou, “se o grande ganso-pateta fosse embora. Seria uma perda enorme para pai e mãe se ele tivesse desaparecido quando voltassem da igreja.”
Ao pensar nisso, mais uma vez esqueceu por completo que era pequeno e indefeso. Deu um salto bem no meio do bando de gansos e lançou os braços em torno do pescoço do ganso. “Ah, não! Desta vez o senhor não vai embora voando!”, gritou.
Mas, justamente então, o ganso estava pensando em como deveria fazer para erguer-se do chão. Não podia parar para sacudir o menino para longe; por isso teve de levá-lo consigo — para o alto.
Eles avançaram rumo às alturas tão rapidamente que o menino quase perdeu o fôlego. Antes que tivesse tempo de pensar que devia soltar o pescoço do ganso, já estava tão alto que teria morrido na mesma hora se caísse ao chão.
A única coisa que podia fazer para ficar um pouco mais confortável era tentar subir para as costas do ganso. E para lá se arrastou sem demora, mas não sem considerável dificuldade. Tampouco era coisa fácil manter-se seguro sobre o dorso escorregadio, entre duas asas que se balançavam. Teve de cravar as duas mãos fundo nas penas e na penugem para não despencar ao chão.
O menino ficara tão tonto que demorou muito até tornar a si. Os ventos uivavam e batiam contra ele, e o farfalhar das penas e o balanço das asas soavam como uma tempestade inteira. Treze gansos voavam ao redor dele, batendo as asas e grasnando. Dançavam diante de seus olhos e zumbiam em seus ouvidos. Ele não sabia se voavam alto ou baixo, nem em que direção viajavam.
Depois de algum tempo, recuperou o juízo apenas o bastante para compreender que precisava descobrir para onde os gansos o estavam levando. Mas isso não era tão fácil, pois não sabia como reuniria coragem suficiente para olhar para baixo. Tinha certeza de que desmaiaria se tentasse.
Os gansos selvagens não voavam muito alto, porque o novo companheiro de viagem não conseguia respirar no ar mais rarefeito. Por causa dele, voavam também um pouco mais devagar que de costume.
Por fim, o menino conseguiu obrigar-se a lançar um olhar para a terra. Então pensou que um enorme tapete estava estendido sob ele, feito de um número incrível de quadrados grandes e pequenos.
“Onde, afinal de contas, estou agora?”, perguntou-se.
Não via nada além de quadrado sobre quadrado. Alguns eram largos e corriam de través; outros eram longos e estreitos — por toda parte havia ângulos e cantos. Nada era redondo, nada era torto.
“Que espécie de grande pano xadrez é este para o qual estou olhando lá de cima?”, disse o menino consigo, sem esperar que alguém lhe respondesse.
Mas, no mesmo instante, os gansos selvagens que voavam à sua volta gritaram: “Campos e prados. Campos e prados.”
Então compreendeu que o grande pano xadrez sobre o qual viajava era a terra plana do sul da Suécia; e começou a entender por que ela parecia tão quadriculada e multicolorida. Reconheceu primeiro os quadrados de um verde vivo: eram campos de centeio que haviam sido semeados no outono e se conservaram verdes sob as neves do inverno. Os quadrados cinzento-amarelados eram restolhos — os restos da colheita de aveia que ali crescera no verão anterior. Os pardacentos eram velhos prados de trevo; e os negros, pastagens abandonadas ou campos de pousio arados. Os quadrados castanhos com bordas amarelas eram, sem dúvida, florestas de faias; pois nelas se encontram as árvores grandes que crescem no coração da mata — nuas no inverno —, enquanto as faias pequenas, que crescem ao longo das margens, conservam suas folhas secas e amareladas até bem entrada a primavera. Havia também quadrados escuros com centros cinzentos: eram as grandes propriedades edificadas, cercadas pelas casinhas com seus telhados de palha enegrecidos e seus terrenos divididos por muros de pedra. E havia ainda quadrados verdes no meio, com bordas castanhas: eram os pomares, onde os tapetes de relva já começavam a verdejar, embora as árvores e arbustos em redor ainda estivessem nus, em sua casca parda.
O menino não pôde deixar de rir quando viu como tudo parecia quadriculado.
Mas, quando os gansos selvagens o ouviram rir, gritaram — com certo tom de censura: “Terra fértil e boa. Terra fértil e boa.”
O menino já se tornara sério. “Pensar que você é capaz de rir; você, que sofreu a mais terrível desgraça que pode acontecer a um ser humano!”, pensou. E, por um momento, ficou bem sério; mas não demorou muito para que estivesse rindo de novo.
Agora que se havia acostumado um pouco ao passeio e à velocidade, de modo que podia pensar em outra coisa além de manter-se sobre as costas do ganso, começou a notar como o ar estava cheio de aves que voavam para o norte. E havia gritos e chamados de bando para bando. “Então vocês vieram hoje?”, guinchavam alguns. “Sim”, respondiam os gansos. “Como acham que vai a primavera?” “Nem uma folha nas árvores e água gelada nos lagos”, vinha a resposta.
Quando os gansos sobrevoavam algum lugar onde avistavam aves domésticas, meio depenadas, gritavam: “Qual é o nome deste lugar? Qual é o nome deste lugar?” Então os galos empinavam a cabeça e respondiam: “O nome é Lillgarde este ano — o mesmo do ano passado.”
A maioria das cabanas provavelmente recebia o nome de seus donos — como é costume na Escânia. Mas, em vez de dizer que aquela era a casa de “Per Matsson” ou de “Ola Bosson”, os galos inventavam nomes que, a seu ver, eram mais apropriados. Aqueles que viviam em pequenas fazendas e pertenciam a lavradores pobres gritavam: “Este lugar se chama Grão-Escasso.” E os que pertenciam aos mais pobres moradores de choupanas berravam: “O nome deste lugar é Pouco-Que-Comer, Pouco-Que-Comer, Pouco-Que-Comer.”
As fazendas grandes e bem cuidadas recebiam dos galos nomes sonoros — como Prados-Felizes, Eggberga e Vila-Dinheiro.
Mas os galos das grandes propriedades rurais eram altivos e importantes demais para condescender com qualquer coisa parecida com gracejo. Um deles cantou e gritou com tanto brio que parecia querer ser ouvido lá em cima, pelo sol: “Esta é a propriedade do senhor Dybeck; a mesma deste ano e do ano passado; deste ano e do ano passado.”
Um pouco mais adiante, pavoneava-se um galo que cantava: “Isto é Swanholm, com certeza o mundo inteiro sabe!”
O menino observou que os gansos não voavam sempre em linha reta, mas ziguezagueavam para lá e para cá por toda a região sul, como se estivessem felizes por voltar à Escânia e quisessem prestar seus respeitos a cada lugar em particular.
Chegaram a um lugar onde havia vários edifícios grandes e desajeitados, com enormes chaminés altas, e, ao redor deles, uma porção de casas menores. “Esta é a Refinaria de Açúcar de Jordberga!”, gritaram os galos. O menino estremeceu enquanto estava ali, sentado nas costas do ganso. Deveria ter reconhecido aquele lugar, pois não ficava muito longe de sua casa.
Ali trabalhara no ano anterior como menino de guarda; mas, na verdade, nada parecia exatamente o mesmo quando se via assim — lá de cima.
E pensar! Só pensar! Osa, a menina dos gansos, e o pequeno Mats, que haviam sido seus companheiros no ano anterior! De fato, o menino teria gostado de saber se eles ainda estavam por aquelas bandas. Imagine o que teriam dito se suspeitassem que ele estava voando sobre suas cabeças!
Logo Jordberga perdeu-se de vista, e eles viajaram em direção a Svedala e ao Lago Skaber, e depois voltaram por sobre o Mosteiro de Görringe e Häckeberga. Naquele único dia, o menino viu mais da Escânia do que jamais vira antes — em todos os anos que vivera.
Sempre que os gansos selvagens encontravam gansos domésticos, divertiam-se à grande. Voavam adiante bem devagar e gritavam para baixo: “Vamos para as colinas. Vocês vêm conosco? Vocês vêm conosco?”
Mas os gansos domésticos respondiam: “Ainda é inverno neste país. Vocês saíram cedo demais. Voltem! Voltem!”
Os gansos selvagens desciam para que pudessem ser ouvidos um pouco melhor e gritavam: “Venham conosco! Nós lhes ensinaremos a voar e a nadar.”
Então os gansos domésticos ficavam zangados e não lhes respondiam nem com um grasnido.
Os gansos selvagens desciam ainda mais — até quase tocar o chão — e então, rápidos como o relâmpago, erguiam-se de novo, como se tivessem levado um susto terrível. “Oh, oh, oh!”, exclamavam. “Aquelas coisas não eram gansos. Eram só carneiros, eram só carneiros.”
Os que estavam no chão ficavam fora de si de raiva e gritavam: “Que atirem em vocês, em todos vocês! Em todos vocês!”
Quando o menino ouviu toda aquela provocação, riu. Então se lembrou de como as coisas lhe haviam corrido mal, e chorou. Mas, no segundo seguinte, já estava rindo outra vez.
Nunca antes viajara tão depressa; e viajar depressa e de modo temerário — isso sempre lhe agradara. E, naturalmente, nunca sonhara que pudesse ser tão fresco e revigorante lá em cima, no ar; nem que da terra subisse um aroma tão fino de resina e solo. Tampouco jamais sonhara como poderia ser — viajar tão alto acima da terra. Era exatamente como voar para longe da tristeza, dos aborrecimentos e de todo tipo de desgosto que se pudesse imaginar.
O grande ganso doméstico que os havia seguido para o alto sentia-se muito orgulhoso por lhe ser permitido viajar de um lado para o outro sobre a região sul com os gansos selvagens e trocar pilhérias com as aves domésticas. Mas, apesar de seu intenso prazer, começou a cansar-se à medida que a tarde avançava. Tentou respirar mais fundo e bater as asas mais depressa, mas, ainda assim, permaneceu vários comprimentos de ganso atrás dos outros.
Quando os gansos selvagens que voavam por último perceberam que o doméstico não conseguia acompanhá-los, começaram a chamar a gansa que voava no centro do ângulo e liderava a procissão: “Akka de Kebnekaise! Akka de Kebnekaise!” “O que querem de mim?”, perguntou a líder. “O branco ficará para trás; o branco ficará para trás.” “Digam-lhe que é mais fácil voar depressa do que devagar!”, gritou a líder, e seguiu adiante como antes.
O ganso bem que tentou seguir o conselho e aumentar a velocidade; mas então ficou tão exausto que desceu até perto dos salgueiros pendentes que bordejavam os campos e prados.
“Akka, Akka, Akka de Kebnekaise!”, gritaram os que voavam por último e viam a dificuldade que ele passava. “O que querem agora?”, perguntou a líder — e sua voz soava terrivelmente irritada. “O branco está descendo para a terra; o branco está descendo para a terra.” “Digam-lhe que é mais fácil voar alto do que baixo!”, gritou a líder, e não diminuiu nem um pouquinho a velocidade, mas continuou adiante como antes.
O ganso tentou também seguir esse conselho; mas, quando quis erguer-se, ficou tão sem fôlego que quase lhe rebentou o peito.
“Akka, Akka!”, gritaram de novo os que voavam por último. “Não podem me deixar voar em paz?”, perguntou a líder, e soava ainda mais furiosa que antes.
“O branco está a ponto de desabar.” “Digam-lhe que aquele que não tem força para voar com o bando pode voltar para casa!”, gritou a líder. Certamente ela não tinha a menor intenção de reduzir a velocidade — continuou adiante como antes.
“Ah! então é assim que o vento sopra”, pensou o ganso. Compreendeu imediatamente que os gansos selvagens nunca haviam pretendido levá-lo consigo até a Lapônia. Tinham apenas, por brincadeira, atraído-o para longe de casa.
Sentiu-se profundamente exasperado. Pensar que suas forças lhe faltariam agora, de modo que não poderia mostrar àqueles vagabundos que até um ganso doméstico servia para alguma coisa! Mas o mais irritante de tudo era ter caído justamente com Akka de Kebnekaise. Ganso doméstico que era, ouvira falar de uma gansa líder chamada Akka, que tinha mais de cem anos. Seu nome era tão grande que os melhores gansos selvagens do mundo a seguiam. Mas ninguém desprezava tanto os gansos domésticos quanto Akka e seu bando, e de bom grado ele lhes teria mostrado que era igual a eles.
Voava lentamente atrás dos demais, enquanto deliberava se devia voltar ou prosseguir. Por fim, a criaturinha que carregava nas costas disse: “Querido Morten, meu ganso, você sabe muito bem que é simplesmente impossível para você, que nunca voou, acompanhar os gansos selvagens até a Lapônia. Não vai voltar antes de se matar?”
Mas o filho do lavrador era quase a pior coisa que o ganso conhecia, e assim que lhe ocorreu que aquela criatura insignificante realmente acreditava que ele não conseguiria fazer a viagem, decidiu resistir até o fim. “Se disser mais uma palavra sobre isso, vou deixá-lo cair na primeira vala por cima da qual passarmos!”, disse ele; e, ao mesmo tempo, sua fúria lhe deu tanta força que começou a voar quase tão bem quanto qualquer um dos outros.
Não é provável que conseguisse manter aquele ritmo por muito tempo, nem isso foi necessário; pois, justamente então, o sol afundou depressa; e, ao pôr do sol, os gansos desceram, e antes que o menino e o ganso soubessem o que havia acontecido, estavam às margens do Lago Vomb.
“Provavelmente pretendem que passemos a noite aqui”, pensou o menino, e saltou das costas do ganso.
Estava numa praia estreita, junto a um lago de bom tamanho. Era feio de se ver, porque estava quase inteiramente coberto por uma crosta de gelo enegrecida, irregular e cheia de rachaduras e buracos — como geralmente é o gelo da primavera.
O gelo já começava a romper-se. Estava solto, flutuante, e tinha ao redor uma larga faixa de água escura e brilhante; mas ainda restava bastante para espalhar pelo lugar o frio e o terror do inverno.
Do outro lado do lago parecia haver uma região aberta e clara, mas onde os gansos haviam pousado crescia um denso bosque de pinheiros. Parecia que a floresta de abetos e pinheiros tinha o poder de prender o inverno a si. Em toda outra parte, o chão estava nu; mas sob os ramos pontiagudos dos pinheiros jazia neve que derretera e tornara a congelar, derretera e tornara a congelar, até ficar dura como gelo.
O menino pensou que tinha ido parar numa solidão ártica, e estava tão infeliz que teve vontade de gritar. Também estava com fome. Não comera um bocado durante o dia inteiro. Mas onde encontraria comida? Nada de comestível crescia na terra ou nas árvores no mês de março.
Sim, onde encontraria comida, e quem lhe daria abrigo, e quem lhe arrumaria a cama, e quem o protegeria das feras?
Pois agora o sol se fora, e do lago vinha a geada, e a escuridão descia do céu, e o terror avançava sorrateiro pela trilha do crepúsculo, e na floresta começavam os estalidos e os sussurros.
Agora o bom humor que o menino sentira quando estava lá em cima, no ar, desaparecera, e, em sua miséria, ele olhou em volta à procura dos companheiros de viagem. Não tinha ninguém além deles a quem se apegar agora.
Então viu que o ganso passava por apuros ainda piores que os seus. Jazia prostrado no lugar onde pousara; e parecia prestes a morrer. O pescoço estava estendido rente ao chão, os olhos fechados, e sua respiração soava como um débil silvo.
“Querido Morten, meu ganso”, disse o menino, “tente beber um gole de água! O lago está a dois passos.”
Mas o ganso não se mexeu.
O menino certamente fora cruel com todos os animais, e também com o ganso em tempos passados; mas agora sentia que o ganso era o único consolo que lhe restava, e tinha um medo terrível de perdê-lo.
Imediatamente, o menino começou a empurrá-lo e arrastá-lo para levá-lo até a água; mas o ganso era grande e pesado, e aquilo era um trabalho tremendamente difícil para o menino; por fim, porém, conseguiu.
O ganso entrou de cabeça. Por um instante ficou imóvel no lodo, mas logo ergueu a cabeça, sacudiu a água dos olhos e farejou. Depois nadou, orgulhoso, entre os juncos e as algas.
Os gansos selvagens já estavam no lago antes dele. Não tinham olhado em volta nem pelo ganso nem por seu cavaleiro, mas haviam seguido direto para a água. Haviam se banhado e se arrumado, e agora jaziam ali, engolindo ervas de lago meio apodrecidas e trevos-d’água.
O ganso branco teve a boa sorte de avistar uma perca. Agarrou-a depressa, nadou até a margem com ela e a depositou diante do menino. “Aqui está um agradecimento por ter me ajudado a entrar na água”, disse ele.
Era a primeira vez que o menino ouvia uma palavra amistosa naquele dia. Ficou tão contente que teve vontade de lançar os braços em torno do pescoço do ganso, mas se conteve; e também ficou grato pelo presente. A princípio, deve ter pensado que seria impossível comer peixe cru; depois teve a ideia de experimentar.
Apalpou-se para ver se ainda tinha consigo o canivete de bainha; e, com efeito, lá estava ele — pendurado no botão de trás da calça, embora tão diminuído que mal era mais comprido que um fósforo. Bem, de todo modo, servia para escamar e limpar peixe; e não demorou para que a perca fosse comida.
Quando o menino saciou a fome, sentiu um pouco de vergonha por ter sido capaz de comer uma coisa crua. “É evidente que já não sou mais um ser humano, mas um verdadeiro duende”, pensou.
Enquanto o menino comia, o ganso permanecia em silêncio ao seu lado. Mas, quando ele engoliu o último bocado, disse em voz baixa: “É fato que fomos topar com um povo de gansos empinados, que despreza todas as aves domésticas.”
“Sim, já notei isso”, disse o menino.
“Que triunfo seria para mim se eu pudesse segui-los até a Lapônia e lhes mostrar que até um ganso doméstico pode fazer alguma coisa!”
“S-i-i-m”, disse o menino, arrastando a palavra, porque não acreditava que o ganso algum dia pudesse consegui-lo; ainda assim, não quis contradizê-lo. “Mas não creio que eu consiga me arranjar sozinho numa viagem dessas”, disse o ganso. “Gostaria de perguntar se você não poderia vir comigo e me ajudar.” O menino, naturalmente, não esperava outra coisa senão voltar para casa o mais depressa possível, e ficou tão surpreso que mal soube o que responder. “Pensei que fôssemos inimigos, você e eu”, disse. Mas o ganso parecia ter esquecido completamente isso. Só se lembrava de que o menino acabara de salvar sua vida.
“Acho que, na verdade, eu devia voltar para meu pai e minha mãe”, disse o menino. “Oh! Eu o levarei de volta a eles em algum momento do outono”, disse o ganso. “Não o deixarei até pô-lo no chão da soleira da sua própria casa.”
O menino pensou que talvez fosse até melhor para ele escapar por algum tempo de se mostrar diante dos pais. Não estava indisposto a favorecer o plano, e já estava a ponto de dizer que concordava — quando ouviram um forte estrondo atrás de si. Eram os gansos selvagens que haviam subido do lago — todos ao mesmo tempo — e estavam sacudindo a água das costas. Depois disso, organizaram-se numa longa fileira — com a gansa líder ao centro — e vieram na direção deles.
Ao avaliar os gansos selvagens, o ganso branco sentiu-se pouco à vontade. Esperara que fossem mais parecidos com gansos domésticos, e que se sentisse mais aparentado a eles. Eram muito menores do que ele, e nenhum deles era branco. Todos eram cinzentos, salpicados de marrom. Ele quase teve medo dos olhos deles. Eram amarelos e brilhavam como se um fogo tivesse sido aceso por trás. Ao ganso sempre ensinaram que o mais adequado era mover-se devagar e com um balanço roliço, mas aquelas criaturas não caminhavam — quase corriam. Ficou ainda mais alarmado, porém, quando olhou para seus pés. Eram grandes, e as solas pareciam rasgadas e esfarrapadas. Era evidente que os gansos selvagens nunca se perguntavam sobre o que pisavam. Não tomavam atalhos. Eram muito limpos e bem cuidados em todos os outros aspectos, mas podia-se ver pelos pés que eram pobres criaturas da selva.
O ganso só teve tempo de sussurrar ao menino: “Fale logo por si mesmo, mas não conte a eles quem você é!” — antes que os gansos chegassem até eles.
Quando os gansos selvagens pararam diante dos dois, fizeram muitas mesuras com o pescoço, e o ganso também fez o mesmo muitas vezes mais. Assim que as cerimônias terminaram, a gansa líder disse: “Agora suponho que ouviremos que espécie de criaturas são vocês.”
“Não há muito a contar sobre mim”, disse o ganso. “Nasci em Skanör na primavera passada. No outono fui vendido a Holger Nilsson, de West Vemminghög, e lá vivi desde então.” “Você não parece ter linhagem de que se gabar”, disse a gansa líder. “O que é, então, que o torna tão altivo a ponto de desejar associar-se aos gansos selvagens?” “Talvez seja porque quero mostrar a vocês, gansos selvagens, que nós, os domésticos, também podemos servir para alguma coisa”, disse o ganso. “Sim, seria bom se você pudesse nos mostrar isso”, disse a gansa líder. “Já observamos o quanto sabe sobre voar; mas talvez seja mais habilidoso em outros esportes. Possivelmente é forte numa prova de natação?” “Não, não posso me gabar disso”, disse o ganso. Parecia-lhe que a gansa líder já resolvera mandá-lo para casa, de modo que pouco lhe importava o modo como respondia. “Nunca nadei mais longe que a largura de uma vala de marga”, continuou. “Então presumo que seja um corredor de primeira”, disse a gansa. “Nunca vi um ganso doméstico correr, nem eu mesmo jamais fiz isso”, disse o ganso; e fez as coisas parecerem muito piores do que realmente eram.
O grande branco estava agora certo de que a gansa líder diria que, sob circunstância alguma, poderiam levá-lo consigo. Ficou muito espantado quando ela disse: “Você responde às perguntas com coragem; e quem tem coragem pode tornar-se um bom companheiro de viagem, mesmo que seja ignorante no começo. Que diria de ficar conosco por um par de dias, até vermos para que serve?” “Por mim, está muito bem!”, disse o ganso — e ficou completamente feliz.
Então a gansa líder apontou com o bico e disse: “Mas quem é esse que você traz consigo? Nunca vi nada parecido com ele antes.” “É meu camarada”, disse o ganso. “Foi guardador de gansos a vida inteira. Há de ser útil levá-lo conosco na viagem.” “Sim, talvez sirva para um ganso doméstico”, respondeu a selvagem. “Como você o chama?” “Ele tem vários nomes”, disse o ganso, hesitante, sem saber o que inventar às pressas, pois não queria revelar o fato de que o menino tinha um nome humano. “Oh! o nome dele é Polegarzinho”, disse afinal. “Ele pertence à família dos duendes?”, perguntou a gansa líder. “A que horas vocês, gansos selvagens, costumam se recolher?”, disse o ganso depressa, tentando esquivar-se daquela última pergunta. “Meus olhos se fecham por conta própria por volta desta hora.”
Via-se facilmente que a gansa que falava com o ganso era muito velha. Toda a sua plumagem era cinza-gelo, sem nenhuma listra escura. A cabeça era maior, as pernas mais grossas e os pés mais gastos que os de qualquer uma das outras. As penas eram rígidas; os ombros nodosos; o pescoço fino. Tudo isso se devia à idade. Só sobre os olhos o tempo não tivera efeito. Brilhavam mais — como se fossem mais jovens — que os de qualquer uma das outras!
Ela se voltou, muito altiva, para o ganso. “Entenda, senhor Ganso Doméstico, que eu sou Akka de Kebnekaise! E que a gansa que voa mais perto de mim — à direita — é Iksi de Vassijaure, e a que fica à esquerda é Kaksi de Nuolja! Entenda também que a segunda gansa à direita é Kolmi de Sarjektjakko, e a segunda à esquerda é Neljä de Svappavaara; e atrás delas voam Viisi de Oviksfjällen e Kuusi de Sjangeli! E saiba que estas, assim como os seis gansinhos que voam por último — três à direita e três à esquerda —, são todos gansos das altas montanhas, da mais fina raça! Não deve nos tomar por uns patetas de terra firme que travam conhecimento por acaso com qualquer um! E não deve pensar que permitimos a alguém partilhar nossos alojamentos se não nos disser quem foram seus antepassados.”
Quando Akka, a gansa líder, falou desse modo, o menino avançou com vivacidade. Ficara aflito ao ver que o ganso, que havia falado de si com tanta desenvoltura, desse respostas tão evasivas quando se tratava dele. “Não faço questão de esconder quem sou”, disse. “Meu nome é Nils Holgersson. Sou filho de lavrador e, até hoje, fui um ser humano; mas esta manhã...” Não foi além. Assim que disse que era humano, a gansa líder cambaleou três passos para trás, e as demais recuaram ainda mais. Todas esticaram o pescoço e sibilaram contra ele, furiosas.
“Suspeitei disso desde a primeira vez que o vi aqui nestas margens”, disse Akka; “e agora pode tratar de ir embora imediatamente. Não toleramos seres humanos entre nós.”
“Não é possível”, disse o ganso, pensativo, “que vocês, gansos selvagens, tenham medo de alguém tão pequenino! Amanhã, é claro, ele voltará para casa. Com certeza podem deixá-lo passar a noite conosco. Nenhum de nós pode permitir que uma criaturinha tão pobre ande sozinha pela noite — entre doninhas e raposas!”
A gansa selvagem aproximou-se. Mas era evidente que lhe custava dominar o medo. “Fui ensinada a temer tudo que tem forma humana — seja grande ou pequeno”, disse ela. “Mas, se você responder por este aí e jurar que ele não nos fará mal, pode ficar conosco esta noite. Contudo, não creio que nosso pouso noturno seja adequado nem para ele nem para você, pois pretendemos dormir lá fora, sobre o gelo quebrado.”
Ela pensou, naturalmente, que o ganso hesitaria ao ouvir aquilo, mas ele não deu o menor sinal. “Muito sábia é aquela que sabe escolher um leito tão seguro”, disse ele.
“Você será responsável por devolvê-lo aos seus amanhã.”
“Então eu também terei de deixá-los”, disse o ganso. “Jurei que não o abandonaria.”
“Você é livre para voar para onde quiser”, disse a gansa líder.
Com isso, ergueu as asas e voou para o gelo, e uma após outra as gansas selvagens a seguiram.
O menino ficou muito triste ao pensar que sua viagem à Lapônia não se realizaria e, além disso, teve medo daquele pouso gelado para a noite. “Vai ser cada vez pior”, disse ele. “Para começar, vamos morrer congelados sobre o gelo.”
Mas o ganso estava de bom humor. “Não há perigo”, disse ele. “Apenas se apresse, eu lhe peço, e junte toda a relva e toda a palha que conseguir carregar.”
Quando o menino estava com os braços cheios de capim seco, o ganso agarrou-o pela gola da camisa, ergueu-o e voou para o gelo, onde os gansos selvagens já dormiam profundamente, com os bicos metidos sob as asas.
“Agora espalhe a relva sobre o gelo, para que haja alguma coisa onde eu possa ficar em pé, a fim de não congelar preso aqui. Você me ajuda, e eu o ajudarei”, disse o ganso.
O menino assim fez. E, quando terminou, o ganso tornou a erguê-lo pela gola da camisa e o enfiou sob sua asa. “Creio que aí você ficará bem aconchegado e aquecido”, disse o ganso, enquanto o cobria com a asa.
O menino estava tão envolvido em penugem que não podia responder, e sentia-se agradável e confortável. Oh, mas como estava cansado! — E, em menos de dois pestanejos, dormia profundamente.
É verdade que o gelo é sempre traiçoeiro e não merece confiança. No meio da noite, a placa de gelo solta no Lago Vomb moveu-se até que uma de suas pontas tocou a margem. Ora, aconteceu que o senhor Smirre, a raposa, que vivia nessa época no Parque do Mosteiro de Övid — no lado oriental do lago —, avistou aquela ponta enquanto saía para sua caçada noturna. Smirre vira os gansos selvagens no começo da noite e não ousara esperar que pudesse alcançar algum deles; mas agora caminhou direto sobre o gelo.
Quando Smirre já estava muito perto dos gansos, suas garras rasparam o gelo, e os gansos despertaram, bateram as asas e se prepararam para levantar voo. Mas Smirre foi rápido demais para eles. Lançou-se à frente como se tivesse sido disparado; agarrou uma gansa pela asa e correu de volta para a terra.
Mas, naquela noite, os gansos selvagens não estavam sozinhos no gelo, pois havia entre eles um ser humano — por menor que fosse. O menino despertara quando o ganso abriu as asas. Tinha rolado sobre o gelo e estava sentado ali, atordoado. Ainda não compreendera os porquês de toda aquela confusão, até que avistou um cachorrinho de pernas compridas correndo sobre o gelo com uma gansa na boca.
Num instante, o menino saiu atrás daquele cão, tentando arrancar-lhe a gansa. Deve ter ouvido o ganso chamá-lo: “Cuidado, Polegarzinho! Cuidado!” Mas o menino pensou que um cãozinho raquítico daqueles não era coisa de se temer, e correu em frente.
A gansa selvagem que Smirre arrastava consigo ouviu o ruído dos tamancos do menino batendo contra o gelo e mal pôde acreditar nos próprios ouvidos. “Será que esse bebê acha que pode me tirar da raposa?”, perguntou-se. E, apesar de sua aflição, começou a cacarejar alegremente, bem no fundo da garganta. Era quase como se tivesse rido.
“A primeira coisa que lhe acontecerá será cair por uma fenda no gelo”, pensou ela.
Mas, por mais escura que estivesse a noite, o menino via distintamente todas as rachaduras e buracos que havia, e saltava por cima deles com ousadia. Isso porque agora possuía a boa visão dos duendes e podia enxergar no escuro. Via tanto o lago quanto a margem com tanta clareza como se fosse dia.
Smirre saiu do gelo no ponto em que ele tocava a margem. E, justamente quando abria caminho para subir à beira da terra, o menino gritou: “Largue essa gansa, seu tratante!”
Smirre não sabia quem o chamava e não perdeu tempo olhando em volta, mas aumentou o passo. A raposa seguiu direto para a floresta, e o menino foi atrás, sem pensar um só instante no perigo que corria. Tudo em que pensava era no modo desdenhoso como fora recebido pelos gansos selvagens; e decidiu fazê-los ver que um ser humano era algo mais elevado que todas as demais criaturas.
Gritou repetidas vezes para aquele cão, ordenando que largasse sua presa. “Que espécie de cão é você, que consegue roubar uma gansa inteira sem sentir vergonha? Largue-a imediatamente! Ou verá que surra vai levar. Largue-a, estou dizendo, ou vou contar ao seu dono como você se comporta!”
Quando Smirre, a raposa, viu que fora tomado por um cão assustadiço, divertiu-se tanto que quase deixou a gansa cair. Smirre era um grande saqueador, que não se satisfazia em caçar apenas ratos e pombos nos campos, mas também se aventurava nos pátios das fazendas para roubar galinhas e gansos. Sabia que era temido por todo o distrito; e não ouvira nada tão idiota desde que era filhote.
O menino corria tão depressa que as faias cerradas pareciam passar correndo por ele — para trás; mas alcançou Smirre. Por fim, estava tão perto que conseguiu agarrar-lhe a cauda. “Agora vou tirar essa gansa de você de qualquer jeito!”, gritou, segurando com toda a força que podia; mas não tinha força suficiente para deter Smirre. A raposa o arrastou consigo até que a folhagem seca rodopiou ao redor dele.
Mas então Smirre começou a perceber quão inofensiva era a coisa que o perseguia. Parou de repente, pôs a gansa no chão e firmou sobre ela as patas dianteiras, para que não pudesse voar. Estava prestes a morder-lhe o pescoço — mas então não resistiu ao desejo de provocar um pouco o menino. “Corra e vá se queixar ao dono, pois agora vou morder esta gansa até matá-la!”, disse ele.
Certamente quem se surpreendeu ao ver que focinho pontudo tinha aquele cão que perseguia, e ao ouvir que voz rouca e furiosa possuía, foi o menino! Mas agora estava tão enraivecido porque a raposa zombara dele que nem pensou em ter medo. Agarrou a cauda com mais firmeza, apoiou-se contra o tronco de uma faia; e, justamente quando a raposa abriu as mandíbulas sobre a garganta da gansa, puxou com toda a força que tinha. Smirre ficou tão espantado que se deixou arrastar alguns passos para trás — e a gansa selvagem escapou. Ela esvoaçou para cima, fraca e pesada. Uma das asas estava tão ferida que mal podia usá-la. Além disso, não conseguia ver na escuridão noturna da floresta e estava tão desamparada quanto uma cega. Por isso, não podia ajudar o menino de modo algum; assim, foi tateando caminho entre os galhos e voou de volta para o lago.
Então Smirre lançou-se contra o menino. “Se não fico com uma, certamente ficarei com o outro”, disse ele; e podia-se perceber pela voz o quanto estava furioso. “Ah, não conte com isso!”, disse o menino, que estava no melhor dos ânimos por ter salvado a gansa. Agarrou-se firme à cauda da raposa e balançou com ela — para um lado — quando a raposa tentou apanhá-lo.
Houve tal dança naquela floresta que as folhas secas das faias chegaram a voar! Smirre girava sem parar, mas a cauda girava também; enquanto o menino a segurava com força, de modo que a raposa não conseguia agarrá-lo.
O menino estava tão alegre com seu sucesso que, no começo, ria e zombava da raposa. Mas Smirre era persistente — como em geral são os velhos caçadores —, e o menino começou a temer que acabasse sendo capturado. Então avistou uma faiazinha jovem, que havia brotado delgada como uma vara, para que pudesse em breve alcançar o ar livre acima do teto de galhos que as faias velhas estendiam sobre ela.
Rápido como um relâmpago, largou a cauda da raposa e subiu na faia. Smirre, a raposa, estava tão excitado que continuou a dançar em volta da própria cauda.
“Não se incomode mais com a dança!”, disse o menino.
Mas Smirre não podia suportar a humilhação de não conseguir levar a melhor sobre um pirralhinho tão pequeno; por isso deitou-se sob a árvore, para vigiá-lo de perto.
O menino não passava tão bem assim onde estava, escarranchado num ramo frágil. A faia jovem ainda não alcançava a alta copa de galhos, de modo que o menino não podia passar para outra árvore, e não ousava descer. Estava tão frio e entorpecido que quase perdia o aperto em torno do ramo; e tinha um sono terrível; mas não ousava adormecer por medo de despencar.
Nossa! Como era lúgubre ficar sentado daquele jeito a noite inteira, lá fora, na floresta! Nunca antes compreendera o verdadeiro significado da palavra “noite”. Era como se o mundo inteiro tivesse se petrificado e jamais pudesse voltar à vida.
Então começou a amanhecer. O menino alegrou-se ao ver que tudo começava a parecer consigo mesmo outra vez; embora o frio estivesse ainda mais cortante do que estivera durante a noite.
Por fim, quando o sol se levantou, não estava amarelo, mas vermelho. O menino achou que parecia zangado e perguntou-se com o que estaria zangado. Talvez fosse porque a noite tornara a terra tão fria e sombria enquanto o sol estivera ausente.
Os raios de sol desceram em grandes feixes, para ver o que a noite havia aprontado. Podia-se ver como tudo corava — como se todos tivessem a consciência pesada. As nuvens no céu; os ramos acetinados das faias; os pequenos galhos entrelaçados do teto da floresta; a geada branca que cobria a folhagem no chão — tudo se tingiu e avermelhou. Mais e mais raios de sol irromperam pelo espaço, e logo os terrores da noite foram expulsos, e surgiu uma quantidade maravilhosa de seres vivos. O pica-pau-preto, de nuca vermelha, começou a martelar com o bico num galho. O esquilo deslizou para fora do ninho com uma noz, sentou-se num ramo e começou a descascá-la. O estorninho veio voando com um verme, e o dom-fafe cantou no alto da árvore.
Então o menino compreendeu que o sol dissera a todas aquelas criaturinhas: “Acordem agora e saiam dos ninhos! Estou aqui! Agora vocês não precisam ter medo de nada.”
O chamado dos gansos selvagens foi ouvido vindo do lago, enquanto se preparavam para levantar voo; e logo os catorze gansos vieram voando através da floresta. O menino tentou chamá-los, mas eles voavam tão alto que sua voz não conseguiu alcançá-los. Provavelmente acreditavam que a raposa o devorara; e não se deram ao trabalho de procurá-lo.
O menino quase chorou de arrependimento; mas o sol permanecia lá em cima — alaranjado e alegre — e infundia coragem ao mundo inteiro. “Não vale a pena, Nils Holgersson, que você se aflija por coisa alguma, enquanto eu estiver aqui”, disse o sol.
Segunda-feira, vinte e um de março.
Tudo permaneceu inalterado na floresta — por mais ou menos o tempo que uma gansa leva para comer seu desjejum. Mas, justamente quando a manhã começava a pender para o meio-dia, uma gansa veio voando, sozinha, sob a espessa abóbada das árvores. Ia tateando o caminho, hesitante, entre os troncos e galhos, e voava muito devagar. Assim que Smirre, a raposa, a viu, deixou seu lugar debaixo da faia e se esgueirou na direção dela. A gansa selvagem não evitou a raposa, mas voou bem perto dela. Smirre deu um salto alto para agarrá-la, mas errou; e a gansa seguiu seu caminho até o lago.
Não demorou muito até que outra gansa viesse voando. Tomou a mesma rota da primeira; e voava ainda mais baixo e mais devagar. Também ela passou perto de Smirre, a raposa, e ele deu por ela um salto tão alto que suas orelhas roçaram nos pés da ave. Mas esta também escapou ilesa e seguiu seu caminho para o lago, silenciosa como uma sombra.
Passou um pouco de tempo e então veio outra gansa selvagem. Voava ainda mais devagar e mais baixo; e parecia ter dificuldade ainda maior para encontrar caminho entre os galhos das faias. Smirre deu um salto poderoso! Ficou a um fio de cabelo de apanhá-la; mas também essa gansa conseguiu salvar-se.
Logo depois que ela desapareceu, veio uma quarta. Voava tão devagar, e tão mal, que Smirre, a raposa, pensou poder apanhá-la sem muito esforço; mas agora temia fracassar e decidiu deixá-la passar — sem molestá-la. Ela tomou a mesma direção das outras; e, quando chegou bem acima de Smirre, desceu tanto que ele foi tentado a saltar por ela. Saltou tão alto que a tocou com a cauda. Mas ela se lançou rapidamente para o lado e salvou a vida.
Antes que Smirre acabasse de ofegar, três gansas vieram voando em fila. Voavam exatamente como as demais, e Smirre deu grandes saltos por todas elas, mas não conseguiu apanhar nenhuma.
Depois disso vieram cinco gansas; mas estas voavam melhor que as outras. E, embora parecesse que queriam atrair Smirre para que saltasse, ele resistiu à tentação. Depois de bastante tempo, veio uma única gansa. Era a décima terceira. Esta era tão velha que estava toda cinzenta, sem uma mancha escura em parte alguma do corpo. Parecia não usar muito bem uma das asas, mas voava de modo tão miserável e torto que quase tocava o chão. Smirre não apenas deu um grande salto por ela, como a perseguiu, correndo e saltando por todo o caminho até o lago. Mas nem mesmo dessa vez recebeu coisa alguma por seu esforço.
Quando a décima quarta gansa apareceu, parecia muito bonita, porque era branca. E, enquanto suas grandes asas oscilavam, ela reluzia como uma luz na floresta escura. Quando Smirre, a raposa, viu essa, reuniu todos os seus recursos e saltou até a metade do caminho para a copa das árvores. Mas a branca passou voando ilesa, como as outras.
Então houve silêncio por um momento sob as faias. Parecia que todo o bando de gansos selvagens havia passado.
De repente, Smirre lembrou-se de seu prisioneiro e ergueu os olhos para a faia jovem. E, exatamente como poderia esperar — o menino havia desaparecido.
Mas Smirre não teve muito tempo para pensar nele; pois agora a primeira gansa retornava do lago e voava devagar sob a abóbada. Apesar de todo o seu azar, Smirre ficou contente porque ela voltara e arremessou-se atrás dela com um salto alto. Mas tivera pressa demais e não tomara tempo para calcular a distância, e pousou ao lado da gansa. Então veio ainda outra gansa; depois uma terceira; uma quarta; uma quinta; e assim por diante, até que o ângulo se fechou com a velha cinza-gelo e a grande branca. Todas voavam baixo e devagar. Quando oscilavam nas proximidades de Smirre, a raposa, desciam — de um jeito meio convidativo — para que ele as apanhasse. Smirre corria atrás delas e dava saltos de algumas braças de altura — mas não conseguia agarrar uma única.
Foi o dia mais terrível que Smirre, a raposa, já experimentara. Os gansos selvagens não paravam de passar sobre sua cabeça. Iam e vinham — iam e vinham. Grandes e esplêndidas gansas, que haviam engordado nas charnecas e nos campos de cereais da Alemanha, balançaram-se o dia inteiro através do bosque, tão perto dele que as tocou muitas vezes; ainda assim, não lhe foi permitido apaziguar a fome com uma só delas.
O inverno mal se fora, e Smirre recordou noites e dias em que fora obrigado a vagar ocioso, sem ter sequer uma lebre para caçar, quando os ratos se escondiam sob a terra congelada e as galinhas estavam todas trancadas. Mas toda a fome do inverno não fora tão difícil de suportar quanto os erros de cálculo daquele dia.
Smirre não era uma raposa jovem. Muitas vezes tivera cães em seu encalço e ouvira balas zunirem ao redor de suas orelhas. Ficara escondido embaixo, na toca, enquanto os dachshunds rastejavam pelas fendas e quase o encontravam. Mas toda a angústia que Smirre, a raposa, fora obrigado a sofrer sob essa perseguição ardente não se comparava ao que padecia cada vez que errava uma das gansas selvagens.
De manhã, quando a brincadeira começou, Smirre, a raposa, parecia tão deslumbrante que as gansas se admiraram ao vê-lo. Smirre gostava de ostentação. Sua pelagem era de um vermelho brilhante; o peito, branco; o focinho, preto; e a cauda era farta como uma pluma. Mas, quando chegou o entardecer daquele dia, a pelagem de Smirre pendia em dobras frouxas. Estava banhado em suor; os olhos sem brilho; a língua pendia longe das mandíbulas escancaradas; e espuma escorria de sua boca.
À tarde, Smirre estava tão exausto que começou a delirar. Nada via diante dos olhos senão gansas voando. Saltava contra manchas de sol que via no chão; e contra uma pobre borboletinha que saíra cedo demais de sua crisálida.
Os gansos selvagens voavam e voavam, sem cessar. Durante o dia inteiro continuaram a atormentar Smirre. Não sentiram compaixão porque Smirre estava acabado, febril e fora de si. Continuaram sem trégua, embora compreendessem que ele mal os via e que saltava atrás de suas sombras.
Quando Smirre, a raposa, caiu sobre um monte de folhas secas, fraco e impotente, quase pronto para entregar a alma, eles cessaram a provocação.
“Agora sabe, senhor Raposa, o que acontece com quem ousa aproximar-se de Akka de Kebnekaise!”, gritaram em seu ouvido; e, com isso, deixaram-no em paz.
Quinta-feira, vinte e quatro de março.
Justamente naquela época, aconteceu na Escânia uma coisa que provocou muita discussão e chegou até aos jornais, mas que muitos acreditaram ser uma fábula, porque não haviam conseguido explicá-la.
Foi mais ou menos assim: uma senhora esquila fora capturada entre as aveleiras que cresciam às margens do Lago Vomb e levada para uma fazenda ali perto. Todos os moradores da fazenda — jovens e velhos — ficaram encantados com a bonita criatura de cauda felpuda, olhos sábios e curiosos, e pezinhos bem-feitos. Pretendiam divertir-se durante todo o verão observando seus movimentos ágeis; sua maneira engenhosa de descascar nozes; e suas brincadeiras engraçadas. Puseram imediatamente em ordem uma velha gaiola de esquilo, com uma casinha verde e uma roda cilíndrica de arame. A casinha, que tinha portas e janelas, a senhora esquila deveria usar como sala de jantar e quarto de dormir. Por isso, colocaram lá dentro uma cama de folhas, uma tigela de leite e algumas nozes. A roda cilíndrica, por outro lado, ela deveria usar como casa de brincar, onde pudesse correr, trepar e girar.
As pessoas acreditavam ter arranjado tudo de modo muito confortável para a senhora esquila, e ficaram admiradas porque ela não parecia contente; ao contrário, permanecia sentada, abatida e sombria, num canto de seu quarto. De vez em quando soltava um grito agudo e angustiado. Não tocava na comida; e nem uma vez sequer girou na roda. “É provavelmente porque está assustada”, disseram os lavradores. “Amanhã, quando se sentir mais em casa, há de comer e brincar.”
Enquanto isso, as mulheres da fazenda faziam preparativos para uma festa; e, justamente no dia em que a senhora esquila fora capturada, estavam ocupadas com uma fornada trabalhosa. Tinham tido azar com alguma coisa: ou a massa não crescia, ou então haviam se atrasado, pois foram obrigadas a trabalhar até muito depois do escurecer.
Naturalmente, havia grande agitação e azáfama na cozinha, e provavelmente ninguém ali teve tempo de pensar na esquila, nem de se perguntar como ela passava. Mas havia na casa uma velha avó, idosa demais para tomar parte na fornada; ela própria compreendia isso, mas, ainda assim, não lhe agradava a ideia de ficar fora da brincadeira. Sentia-se um tanto abatida; e por essa razão não se deitou, mas sentou-se junto à janela da sala e ficou olhando para fora.
Tinham aberto a porta da cozinha por causa do calor; e, através dela, um claro raio de luz derramava-se pelo pátio; e lá fora ficou tão bem iluminado que a velha podia ver todas as rachaduras e buracos no reboco da parede em frente. Viu também a gaiola da esquila, que pendia justamente onde a luz caía mais clara. E notou como a esquila corria de seu quarto para a roda, e da roda para o quarto, a noite inteira, sem parar um instante. Achou estranha aquela inquietação que se apoderara do animal; mas acreditou, naturalmente, que a luz forte a mantinha desperta.
Entre o estábulo das vacas e a estrebaria havia um portão largo e bonito para carruagens; também ele ficava dentro do raio de luz. À medida que a noite avançava, a velha avó viu uma criaturinha, não maior que um palmo, esgueirar-se cautelosamente pelo portão. Vestia calções de couro e tamancos como qualquer trabalhador. A velha avó soube imediatamente que era o duende, e não se assustou nem um pouco. Sempre ouvira dizer que o duende se mantinha em algum lugar da propriedade, embora jamais o tivesse visto antes; e um duende, sem dúvida, trazia boa sorte onde quer que aparecesse.
Assim que o duende entrou no pátio calçado de pedras, correu direto para a gaiola da esquila. E, como ela pendia tão alto que ele não podia alcançá-la, foi até o depósito buscar uma vara; apoiou-a contra a gaiola e subiu por ela — da mesma maneira que um marinheiro escala uma corda. Quando chegou à gaiola, sacudiu a porta da casinha verde como se quisesse abri-la; mas a velha avó não se mexeu, pois sabia que as crianças tinham posto um cadeado na porta, por temerem que os meninos das fazendas vizinhas tentassem roubar a esquila. A velha viu que, quando o menino não conseguiu abrir a porta, a senhora esquila saiu para a roda de arame. Ali os dois mantiveram uma longa conversa. E, quando o menino ouviu tudo o que o animal aprisionado tinha a lhe dizer, deslizou pela vara até o chão e saiu correndo pelo portão das carruagens.
A velha não esperava ver mais nada do duende naquela noite; mesmo assim, permaneceu à janela. Depois de alguns instantes, ele voltou. Estava com tanta pressa que lhe pareceu que seus pés mal tocavam o chão; e correu direto para a gaiola da esquila. A velha, com seus olhos de longa vista, viu-o distintamente; e viu também que ele trazia alguma coisa nas mãos; mas o que era, não conseguia imaginar. Aquilo que carregava na mão esquerda ele pôs sobre o pavimento; mas aquilo que segurava na mão direita levou consigo para a gaiola. Chutou com tanta força, com seus tamancos, a janelinha, que o vidro se quebrou. Enfiou para a senhora esquila a coisa que trazia na mão. Depois desceu novamente, apanhou aquilo que havia deixado no chão e subiu com aquilo também até a gaiola. No instante seguinte, saiu correndo de novo com tamanha pressa que a velha mal pôde acompanhá-lo com os olhos.
Mas agora era a velha avó quem já não conseguia ficar quieta dentro da casa; saiu, muito devagar, para o quintal dos fundos e postou-se à sombra da bomba, à espera do retorno do duende. E havia outro que também o vira e ficara curioso. Era o gato da casa. Ele se aproximou sorrateiro e parou junto à parede, a apenas dois passos do feixe de luz. Ambos ficaram ali esperando, longa e pacientemente, naquela fria noite de março, e a velha já começava a pensar em entrar de novo quando ouviu um ruído de passos no pavimento e viu que a minúscula criatura de duende vinha trotando outra vez, carregando um fardo em cada mão, como fizera antes. Aquilo que trazia guinchava e se contorcia. E então uma luz se acendeu para a velha avó. Compreendeu que o duende correra até o bosque de aveleiras e trouxera de volta os filhotes da senhora esquila; e que os carregava para ela, a fim de que não morressem de fome.
A velha avó ficou muito quieta, para não perturbá-los; e não parecia que o duende a tivesse notado. Ele estava justamente prestes a pôr um dos filhotes no chão para poder subir até a gaiola com o outro — quando viu os olhos verdes do gato da casa brilharem bem ao seu lado. Ficou ali, aturdido, com um filhote em cada mão.
Virou-se e olhou em todas as direções; então percebeu a presença da velha avó. Não hesitou muito; avançou, estendeu os braços tão alto quanto podia alcançar, para que ela tomasse um dos filhotes de esquilo.
A velha avó não quis mostrar-se indigna daquela confiança; por isso, inclinou-se, tomou o filhote de esquilo e ficou ali segurando-o até que o menino tivesse subido à gaiola com o outro. Então ele voltou para buscar aquele que confiara aos cuidados dela.
Na manhã seguinte, quando os moradores da fazenda se reuniram para o desjejum, foi impossível à velha conter-se e não lhes contar o que vira na noite anterior. Todos riram dela, é claro, e disseram que estivera apenas sonhando. Não havia filhotes de esquilo tão cedo no ano.
Mas ela estava segura do que dizia e pediu que fossem dar uma olhada na gaiola da esquila; e assim fizeram. E lá estavam, sobre o leito de folhas, quatro filhotinhos de esquilo, meio nus e meio cegos, que tinham pelo menos uns dois dias de vida.
Quando o próprio lavrador viu os filhotes, disse: “Seja como for com esta história; uma coisa é certa: nós, nesta fazenda, nos comportamos de tal maneira que ficamos envergonhados diante dos animais e dos seres humanos.” E, em seguida, tirou da gaiola a mãe esquila e todos os seus filhotes, e os pôs no colo da velha avó. “Vá com eles ao bosque de aveleiras”, disse ele, “e devolva-lhes a liberdade!”
Foi esse acontecimento que tanto se comentou, e que chegou até aos jornais, mas no qual a maioria não quis acreditar, porque não conseguia explicar como algo assim poderia ter acontecido.
Sábado, vinte e seis de março.
Dois dias depois, aconteceu outra coisa estranha. Um bando de gansos selvagens veio voando certa manhã e pousou num prado lá na Escânia oriental, não muito longe da mansão de Vittskövle. No bando havia treze gansos selvagens, da variedade cinzenta comum, e um ganso branco, que carregava nas costas um rapazinho minúsculo, vestido com calções de couro amarelos, colete verde e um capuz branco de lã.
Estavam agora muito perto do Mar Oriental; e, no prado onde os gansos haviam pousado, o solo era arenoso, como costuma ser na costa marítima. Parecia que, antigamente, houvera areias movediças naquela vizinhança, que precisaram ser contidas; pois, em várias direções, viam-se grandes pinheirais plantados.
Depois que os gansos selvagens se alimentaram por algum tempo, várias crianças apareceram e caminharam pela borda do prado. A gansa que estava de guarda ergueu-se imediatamente no ar, com ruidosos golpes de asa, para que todo o bando ouvisse que havia perigo por perto. Todos os gansos selvagens levantaram voo; mas o branco continuou a trotar pelo chão, despreocupado. Quando viu os outros voarem, ergueu a cabeça e gritou atrás deles: “Não precisam fugir desses aí! São apenas duas crianças!”
A pequena criatura que viajara em suas costas sentou-se num montículo nos limites do bosque e pôs-se a desfazer uma pinha, para alcançar as sementes. As crianças estavam tão perto dele que não ousou correr pelo prado até o ganso branco. Escondeu-se debaixo de uma grande folha seca de cardo e, ao mesmo tempo, soltou um grito de aviso. Mas o branco evidentemente decidira não se deixar assustar. Continuou andando pelo chão o tempo todo; e nem uma só vez olhou para ver em que direção elas iam.
Enquanto isso, elas se desviaram do caminho, atravessaram o campo e chegaram cada vez mais perto do ganso. Quando enfim ele ergueu os olhos, estavam em cima dele. Ficou tão pasmo e tão confuso que esqueceu que podia voar e tentou escapar correndo. Mas as crianças o seguiram, perseguindo-o até uma vala, e ali o apanharam. O maior dos dois enfiou-o debaixo do braço e levou-o embora.
Quando o menino, que jazia sob a folha de cardo, viu aquilo, saltou como se quisesse arrancar o ganso das mãos deles; então deve ter se lembrado de quão pequeno e impotente era, pois se atirou sobre o montículo e bateu no chão com os punhos cerrados.
O ganso gritava com toda a força por socorro: “Polegarzinho, venha me ajudar! Oh, Polegarzinho, venha me ajudar!” O menino começou a rir no meio de sua aflição. “Ah, sim! Sou mesmo a pessoa certa para ajudar alguém, eu sou!”, disse.
Ainda assim, levantou-se e seguiu o ganso. “Não posso ajudá-lo”, disse, “mas pelo menos descobrirei para onde o estão levando.”
As crianças tinham boa vantagem; mas o menino não teve dificuldade em mantê-las à vista até chegarem a uma depressão onde brotava um riacho. Ali, porém, foi obrigado a correr ao lado dele por algum tempo, antes de encontrar um trecho estreito o bastante para saltar.
Quando subiu da depressão, as crianças haviam desaparecido. Podia ver suas pegadas numa trilha estreita que levava ao bosque, e continuou a segui-las.
Logo chegou a uma encruzilhada. Ali as crianças deviam ter se separado, pois havia pegadas em duas direções. O menino parecia agora como se toda esperança tivesse fugido. Então viu uma pequena penugem branca sobre um montículo de urze, e compreendeu que o ganso a deixara cair à beira do caminho para lhe indicar em que direção fora levado; e por isso continuou sua busca. Seguiu as crianças por todo o bosque. O ganso ele não viu; mas, onde quer que fosse provável perder o rumo, havia uma pequena penugem branca para colocá-lo no caminho certo.
O menino continuou fielmente a seguir os fiapos de penugem. Eles o levaram para fora do bosque, através de um par de prados, até uma estrada, e finalmente pela entrada de uma larga alameda. No fim da alameda havia frontões e torres de telhas vermelhas, decorados com frisos claros e outros ornamentos que cintilavam e reluziam. Quando o menino viu que aquilo era alguma grande mansão, pensou que sabia o que acontecera com o ganso. “Sem dúvida as crianças levaram o ganso para a mansão e o venderam lá. A esta hora, provavelmente já foi abatido”, disse consigo. Mas parecia não se satisfazer com nada menos que uma prova concreta e, com coragem renovada, correu adiante. Não encontrou ninguém na alameda — e isso foi bom, pois criaturas como ele geralmente têm medo de ser vistas por seres humanos.
A mansão a que chegou era uma esplêndida construção antiga, com quatro grandes alas que encerravam um pátio. Na ala oriental, havia um arco alto que levava para dentro do pátio. Até ali o menino correu sem hesitar, mas, ao chegar, parou. Não ousava aventurar-se mais longe; ficou imóvel, ponderando o que deveria fazer agora.
Ali estava ele, com o dedo sobre o nariz, pensando, quando ouviu passos atrás de si; e, ao voltar-se, viu uma companhia inteira marchando pela alameda. Às pressas, escondeu-se atrás de um barril de água que ficava perto do arco.
Os que se aproximavam eram uns vinte rapazes de uma escola popular superior, em excursão a pé. Vinham acompanhados de um dos professores. Quando chegaram ao arco, o mestre pediu que esperassem ali um momento, enquanto ele entrava para perguntar se poderiam visitar o velho castelo de Vittskövle.
Os recém-chegados estavam acalorados e cansados, como se viessem de uma longa caminhada. Um deles estava com tanta sede que foi até o barril de água e se inclinou para beber. Trazia pendurada ao pescoço uma caixa de lata, dessas que os botânicos usam. Evidentemente achou que ela o atrapalhava, pois a atirou ao chão. Com isso, a tampa se abriu, e pôde-se ver que havia ali algumas flores da primavera.
A caixa de botânico caiu bem diante do menino; e ele deve ter pensado que ali estava sua oportunidade de entrar no castelo e descobrir o que acontecera com o ganso. Enfiou-se rapidamente na caixa e escondeu-se o melhor que pôde debaixo das anêmonas e dos tussilagos.
Mal estava escondido quando o rapaz apanhou a caixa, pendurou-a ao pescoço e fechou a tampa com força.
Então o professor voltou e disse que haviam recebido permissão para entrar no castelo. A princípio, não os conduziu além do pátio. Ali parou e começou a falar-lhes sobre aquela antiga construção.
Chamou-lhes a atenção para os primeiros seres humanos que haviam habitado aquele país, obrigados a viver em grutas de montanha e cavernas de terra; nas tocas dos animais selvagens e no matagal; e para o fato de que um período muito longo transcorrera antes que aprendessem a construir cabanas com troncos de árvores. E depois, quanto tempo ainda não haviam sido forçados a trabalhar e lutar antes de avançar da cabana de toras, com seu único aposento, para a construção de um castelo com cem salas — como Vittskövle!
Fora cerca de trezentos e cinquenta anos antes que os ricos e poderosos haviam construído para si castelos como aquele, disse ele. Era muito evidente que Vittskövle fora erguido numa época em que guerras e salteadores tornavam a Escânia insegura. Ao redor de todo o castelo havia uma vala profunda, cheia de água; e, em tempos idos, havia sobre ela uma ponte que podia ser içada. Sobre o arco do portão existe, ainda hoje, uma torre de vigia; e por todos os lados do castelo corriam galerias de sentinela, e nos cantos erguiam-se torres com paredes de um metro de espessura. Ainda assim, o castelo não fora erguido no período mais selvagem das guerras; pois Jens Brahe, que o construíra, também procurara fazer dele um ornamento belo e decorativo. Se pudessem ver a grande e sólida construção de pedra em Glimminge, erguida apenas uma geração antes, perceberiam facilmente que Jans Holgersen Ulfstand, o construtor, não havia pensado em outra coisa — apenas em construir algo grande, forte e seguro, sem dedicar um pensamento sequer a torná-lo belo e confortável. Se visitassem castelos como Marsvinsholm, Snogeholm e o Mosteiro de Övid — erguidos cerca de cem anos mais tarde —, descobririam que os tempos se haviam tornado menos guerreiros. Os senhores que construíram esses lugares não os haviam dotado de fortificações; tinham apenas se esmerado em providenciar para si grandes e esplêndidas casas de moradia.
O professor falou longamente — e em detalhes; e o menino, fechado dentro da caixa, estava bastante impaciente; mas deve ter permanecido muito quieto, pois o dono da caixa não teve a menor suspeita de que o carregava consigo.
Por fim, a companhia entrou no castelo. Mas, se o menino esperara uma chance de rastejar para fora daquela caixa, enganou-se; pois o estudante a levou consigo o tempo todo, e o menino foi obrigado a acompanhá-lo por todos os aposentos. Foi uma caminhada tediosa. O professor parava a cada dois minutos para explicar e instruir.
Numa sala, encontrou uma lareira antiga, e diante dela parou para falar sobre os diferentes tipos de lareira que haviam sido usados ao longo do tempo. A primeira lareira dentro de casa fora uma grande pedra chata no chão da cabana, com uma abertura no teto que deixava entrar tanto o vento quanto a chuva. A seguinte fora uma grande lareira de pedra, sem abertura no teto. Isso devia tornar a cabana muito quente, mas também a enchia de fuligem e fumaça. Quando Vittskövle foi construído, as pessoas já tinham avançado o bastante para abrir a lareira, que, naquela época, possuía uma chaminé larga para a fumaça; mas ela também levava consigo para o ar a maior parte do calor.
Se aquele menino alguma vez na vida fora rabugento e impaciente, recebeu naquele dia uma boa lição de paciência. Devia fazer já uma hora inteira que permanecia perfeitamente imóvel.
No aposento seguinte a que chegaram, o professor parou diante de uma cama antiga, com alto dossel e ricas cortinas. Imediatamente começou a falar sobre as camas e lugares de dormir dos tempos antigos.
O professor não se apressava; mas então, é claro, não sabia que uma pobre criaturinha jazia fechada numa caixa de botânico, esperando apenas que ele terminasse. Quando chegaram a uma sala com tapeçarias de couro dourado, falou-lhes sobre como as pessoas vestiam paredes e tetos desde o princípio dos tempos. E, ao chegar a um velho retrato de família, contou-lhes tudo sobre as diversas mudanças no vestuário. E, nos salões de banquete, descreveu antigos costumes de celebrar casamentos e funerais.
Depois disso, o professor falou um pouco sobre os excelentes homens e mulheres que haviam vivido no castelo; sobre os antigos Brahe e os antigos Barnekow; sobre Christian Barnekow, que dera seu cavalo ao rei para ajudá-lo a fugir; sobre Margareta Ascheberg, que fora casada com Kjell Barnekow e que, viúva, administrara as propriedades e todo o distrito durante cinquenta e três anos; sobre o banqueiro Hageman, filho de lavrador de Vittskövle, que enriquecera tanto que comprara toda a propriedade; sobre os Stjernsvärd, que haviam dado ao povo da Escânia arados melhores, permitindo-lhes descartar os ridículos arados velhos de madeira que três bois mal conseguiam arrastar. Durante tudo isso, o menino permaneceu quieto. Se alguma vez fora travesso e trancara a porta do porão sobre o pai ou a mãe, agora entendia o que eles haviam sentido; pois foram horas e horas antes que aquele professor terminasse.
Por fim, o professor saiu novamente para o pátio. E ali discursou sobre o trabalho incansável da humanidade para obter ferramentas e armas, roupas, casas e ornamentos. Disse que um velho castelo como Vittskövle era um marco miliário na estrada do tempo. Ali se podia ver até onde as pessoas haviam avançado trezentos e cinquenta anos antes; e cada um podia julgar por si mesmo se, desde o tempo delas, as coisas haviam seguido para a frente ou para trás.
Mas o menino escapou de ouvir essa dissertação; pois o estudante que o carregava estava com sede outra vez e esgueirou-se para a cozinha para pedir um copo d’água. Quando o menino foi levado para a cozinha, deveria ter tentado olhar em volta à procura do ganso. Começara a se mexer; e, ao fazer isso, aconteceu de pressionar com força demais contra a tampa — e ela se abriu. Como as tampas das caixas de botânico estão sempre se abrindo, o estudante não deu maior importância ao caso e a fechou de novo. Então a cozinheira perguntou se ele tinha uma cobra na caixa.
“Não, tenho apenas algumas plantas”, respondeu o estudante. “Com certeza havia alguma coisa se mexendo aí”, insistiu a cozinheira. O estudante ergueu a tampa para lhe mostrar que estava enganada. “Veja por si mesma, se...”
Mas não foi adiante, pois agora o menino não ousava mais ficar na caixa; com um só salto, pôs-se no chão e disparou para fora. As criadas mal tiveram tempo de ver o que era aquilo que corria, mas ainda assim saíram apressadas atrás dele.
O professor ainda estava falando quando foi interrompido por gritos agudos. “Peguem-no, peguem-no!”, berravam as que vinham da cozinha; e todos os rapazes correram atrás do menino, que se esgueirava mais rápido que um rato. Tentaram interceptá-lo no portão, mas não era tão fácil agarrar uma criaturinha tão pequena; assim, por sorte, ele conseguiu sair para o espaço aberto.
O menino não ousou correr em direção à alameda aberta, mas tomou outro rumo. Disparou pelo jardim até o quintal dos fundos. O tempo todo, as pessoas corriam atrás dele, gritando e rindo. A pobre criaturinha corria com todas as forças para escapar-lhes; ainda assim, parecia que as pessoas iam alcançá-lo.
Ao passar correndo por uma casa de trabalhador, ouviu uma gansa cacarejar e viu uma penugem branca sobre a soleira. Ali, enfim, estava o ganso! Antes estivera no rastro errado. Já não pensou nas criadas nem nos homens que o perseguiam, mas subiu os degraus — e entrou no corredor. Não pôde ir mais longe, pois a porta estava trancada. Ouviu como o ganso gritava e gemia lá dentro, mas não conseguia abrir a porta. Os caçadores que o perseguiam chegavam cada vez mais perto, e, no quarto, o ganso gritava cada vez mais lastimosamente. Nessa extrema necessidade, o menino finalmente tomou coragem e bateu na porta com todas as suas forças.
Uma criança abriu a porta, e o menino olhou para dentro do quarto. No meio do assoalho estava sentada uma mulher que segurava o ganso com firmeza para cortar-lhe as penas grandes das asas. Tinham sido os filhos dela que o haviam encontrado, e ela não queria fazer-lhe mal algum. Sua intenção era soltá-lo entre seus próprios gansos, se apenas conseguisse cortar-lhe as asas para que ele não voasse embora. Mas destino pior dificilmente poderia acontecer ao ganso, e ele gritava e gemia com todas as suas forças.
E foi uma sorte que a mulher não tivesse começado o corte mais cedo. Agora, apenas duas penas haviam caído sob a tesoura quando a porta se abriu — e o menino surgiu na soleira. Mas uma criatura como aquela a mulher jamais vira antes. Não conseguiu acreditar em outra coisa senão que fosse o próprio Goa-Nisse; e, em seu terror, deixou cair a tesoura, juntou as mãos — e esqueceu-se de segurar o ganso.
Assim que se sentiu livre, ele correu para a porta. Não se deu tempo de parar; mas, ao passar correndo pelo menino, agarrou-o pela gola e o levou consigo. No alpendre, abriu as asas e subiu no ar; ao mesmo tempo, fez um gracioso movimento com o pescoço e acomodou o menino em suas costas lisas e felpudas.
E lá se foram voando — enquanto toda Vittskövle ficava olhando para eles.
Durante todo aquele dia, enquanto os gansos selvagens brincavam com a raposa, o menino dormiu num ninho abandonado de esquilo. Quando despertou, já para o entardecer, sentiu-se muito inquieto. “Bem, agora logo serei mandado de volta para casa! Então terei de me exibir diante de pai e mãe”, pensou. Mas, quando ergueu os olhos e viu os gansos selvagens, que jaziam banhando-se no Lago Vomb, nenhum deles disse uma palavra sobre sua partida. “Provavelmente acham que o branco está cansado demais para viajar comigo de volta para casa esta noite”, pensou o menino.
Na manhã seguinte, os gansos estavam acordados ao romper do dia, muito antes do nascer do sol. Agora o menino estava certo de que teria de ir para casa; mas, curiosamente, tanto ele quanto o ganso branco tiveram permissão para acompanhar os selvagens em seu passeio matinal. O menino não compreendia o motivo da demora, mas explicou aquilo para si mesmo pensando que os gansos selvagens não queriam enviar o ganso em uma viagem tão longa antes que ambos tivessem comido até se fartar. Acontecesse o que acontecesse, alegrava-se por cada instante que passava antes de ter de enfrentar seus pais.
Os gansos selvagens atravessaram a propriedade do Mosteiro de Övid, situada num belo parque a leste do lago, e que tinha um ar muito imponente com seu grande castelo; seu pátio bem planejado, cercado por muros baixos e pavilhões; seu belo jardim antigo com caramanchões cobertos, riachos e fontes; suas árvores magníficas, arbustos aparados e gramados uniformemente ceifados, com canteiros de lindas flores primaveris.
Quando os gansos selvagens passaram sobre a propriedade, naquela primeira hora da manhã, não havia ser humano algum por perto. Depois de se certificarem cuidadosamente disso, desceram na direção do canil e gritaram: “Que espécie de cabaninha é esta? Que espécie de cabaninha é esta?”
No mesmo instante, o cão saiu de sua casinha — furioso de raiva — e latiu para o ar.
“Vocês chamam isto de cabana, seus vagabundos! Não veem que este é um grande castelo de pedra? Não veem que belos terraços, e que porção de paredes bonitas, janelas e grandes portas ele tem, au, au, au, au? Não veem os terrenos, não veem o jardim, não veem as estufas, não veem as estátuas de mármore? Vocês chamam isto de cabana, é? Cabanas têm parques com bosques de faias, moitas de aveleiras, trepadeiras, carvalhos, abetos e terrenos de caça cheios de animais, au, au, au? Chamam isto de cabana? Já viram cabanas com tantas construções anexas ao redor que parecem uma aldeia inteira? Vocês devem conhecer muitas cabanas que têm sua própria igreja e sua própria casa paroquial; e que governam o distrito, as moradias dos camponeses, as fazendas vizinhas e os quartéis, au, au, au! Chamam isto de cabana? A esta cabana pertencem as mais ricas posses da Escânia, seus mendigos! Vocês não conseguem ver um pedaço de terra, daí onde estão pendurados nas nuvens, que não obedeça às ordens desta cabana, au, au, au!”
Tudo isso o cão conseguiu gritar de um só fôlego; e os gansos selvagens voaram para lá e para cá sobre a propriedade, escutando-o até que ele perdesse o ar. Então gritaram: “Por que está tão zangado? Não perguntamos pelo castelo; queríamos apenas saber de sua casinha, seu estúpido!”
Quando o menino ouviu essa brincadeira, riu; então um pensamento se insinuou nele e o tornou imediatamente sério. “Pense em quantas dessas coisas divertidas você ouviria se pudesse seguir com os gansos selvagens por todo o país, até a Lapônia!”, disse consigo. “E agora mesmo, quando você está em tão má situação, uma viagem dessas seria a melhor coisa que poderia lhe acontecer.”
Os gansos selvagens seguiram para um dos vastos campos, a leste da propriedade, para comer raízes de capim, e continuaram nisso por horas. Enquanto isso, o menino vagava pelo grande parque que margeava o campo. Procurou um bosque de faias e começou a examinar os arbustos, para ver se alguma noz do outono passado ainda pendia ali. Mas, uma e outra vez, o pensamento da viagem lhe vinha enquanto caminhava pelo parque. Imaginava para si mesmo que belo tempo teria se fosse com os gansos selvagens. Passar frio e fome: isso acreditava que teria de fazer muitas vezes; mas, em compensação, escaparia tanto do trabalho quanto do estudo.
Enquanto caminhava por ali, a velha gansa líder cinzenta aproximou-se dele e perguntou se havia encontrado algo comestível. Não, não havia encontrado, respondeu ele; e então ela tentou ajudá-lo. Também não conseguiu achar nozes, mas descobriu algumas flores secas que pendiam de uma sarça. O menino as comeu com bom apetite. Mas perguntou-se o que a mãe diria se soubesse que ele vivia de peixe cru e velhas flores ressequidas pelo inverno.
Quando os gansos selvagens enfim se fartaram, partiram outra vez para o lago, onde se divertiram com jogos até quase a hora do jantar.
Os gansos selvagens desafiaram o ganso branco a participar de toda espécie de provas. Fizeram com ele corridas de natação, corridas a pé e corridas de voo. O grande doméstico fez o máximo para manter-se à altura, mas os hábeis gansos selvagens o venceram todas as vezes. Durante todo o tempo, o menino ficou sentado nas costas do ganso, encorajando-o, e divertiu-se tanto quanto os demais. Riam, gritavam e grasnavam; e era notável que as pessoas da propriedade não os ouvissem.
Quando os gansos selvagens se cansaram de brincar, voaram para o gelo e descansaram por algumas horas. A tarde foi passada quase do mesmo modo que a manhã. Primeiro, algumas horas de alimentação; depois banho e brincadeira na água, perto da borda do gelo, até o pôr do sol, quando imediatamente se arrumaram para dormir.
“Esta é exatamente a vida que me convém”, pensou o menino, quando se enfiou sob a asa do ganso. “Mas amanhã, suponho, serei mandado para casa.”
Antes de adormecer, ficou pensando que, se pudesse acompanhar os gansos selvagens, escaparia de todas as broncas por ser preguiçoso. Então poderia andar solto todos os dias, e sua única preocupação seria conseguir algo para comer. Mas hoje em dia precisava de tão pouco; e sempre haveria um jeito de arranjar isso.
Assim, imaginou para si toda a cena; o que veria e todas as aventuras em que se meteria. Sim, seria algo bem diferente do desgaste lá de casa. “Se eu pudesse apenas seguir viagem com os gansos selvagens, não lamentaria ter sido transformado”, pensou o menino.
Ele não tinha medo de nada — exceto de ser mandado para casa; mas nem mesmo na quarta-feira os gansos lhe disseram coisa alguma sobre partir. Aquele dia passou do mesmo modo que a terça; e o menino ficou cada vez mais contente com a vida ao ar livre. Pensava que tinha só para si o adorável parque do Mosteiro de Övid — que era grande como uma floresta —, e não estava ansioso para voltar à cabana abafada e ao pequeno pedaço de terra que havia em casa.
Na quarta-feira, acreditou que os gansos selvagens pensavam em mantê-lo com eles; mas na quinta tornou a perder a esperança.
A quinta-feira começou exatamente como os outros dias; os gansos se alimentaram nos largos prados, e o menino procurou comida no parque. Depois de algum tempo, Akka veio até ele e perguntou se encontrara algo para comer. Não, não encontrara; então ela descobriu uma erva seca de alcarávia, que conservara intactas todas as suas sementinhas.
Quando o menino comeu, Akka disse que achava que ele andava pelo parque com imprudência demais. Perguntou se sabia quantos inimigos precisava evitar — ele, que era tão pequeno. Não, ele não sabia absolutamente nada disso. Então Akka começou a enumerá-los.
Sempre que caminhasse pelo parque, disse ela, deveria tomar cuidado com a raposa e a fuinha; quando chegasse às margens do lago, deveria pensar nas lontras; quando se sentasse sobre o muro de pedra, não deveria esquecer as doninhas, que podiam se infiltrar pelos menores buracos; e, se desejasse deitar-se e dormir sobre um monte de folhas, deveria primeiro descobrir se as víboras não estavam dormindo seu sono de inverno no mesmo monte. Assim que saísse para os campos abertos, deveria ficar atento aos açores e busardos; às águias e falcões que pairavam no ar. Na moita de sarças, poderia ser capturado pelos gaviões; pegas e corvos eram encontrados em toda parte, e neles não deveria depositar confiança demais. Assim que escurecesse, deveria manter os ouvidos atentos e escutar as grandes corujas, que voavam com batidas de asas tão silenciosas que podiam chegar bem perto dele antes que percebesse sua presença.
Quando o menino ouviu que havia tantos à espreita de sua vida, achou que seria simplesmente impossível escapar. Não tinha medo especial de morrer, mas não lhe agradava a ideia de ser devorado; por isso perguntou a Akka o que deveria fazer para se proteger dos animais carnívoros.
Akka respondeu imediatamente que o menino deveria tentar ficar em bons termos com todos os pequenos animais dos bosques e campos: com o povo dos esquilos e a família das lebres; com os dom-fafes, os chapins, os pica-paus e as cotovias. Se fizesse amizade com eles, poderiam avisá-lo dos perigos, encontrar-lhe esconderijos e protegê-lo.
Mas, mais tarde naquele dia, quando o menino tentou aproveitar esse conselho e se voltou para Sirle, o Esquilo, a fim de pedir-lhe proteção, ficou evidente que ele não se importava em ajudá-lo. “Você certamente não pode esperar coisa alguma de mim, nem dos outros pequenos animais!”, disse Sirle. “Pensa que não sabemos que você é Nils, o menino dos gansos, que derrubou o ninho das andorinhas no ano passado, esmagou os ovos dos estorninhos, atirou filhotes de corvo na vala de marga, apanhou tordos em armadilhas e pôs esquilos em gaiolas? Cuide de si mesmo como puder; e ainda pode agradecer por não formarmos uma liga contra você e não o expulsarmos de volta para os da sua espécie!”
Esse era exatamente o tipo de resposta que o menino não teria deixado passar sem castigo, nos tempos em que era Nils, o menino dos gansos. Mas agora só temia que os gansos selvagens também tivessem descoberto quão perverso ele podia ser. Estivera tão ansioso, com medo de não lhe ser permitido ficar com os gansos selvagens, que não ousara meter-se na menor travessura desde que se juntara à companhia deles. Era verdade que agora não tinha poder para causar grande dano, mas, pequeno como era, poderia ter destruído muitos ninhos de pássaros e esmagado muitos ovos, se assim lhe apetecesse. Agora, porém, vinha sendo bom. Não arrancara uma pena sequer da asa de um ganso, nem dera resposta grosseira a ninguém; e todas as manhãs, quando se apresentava a Akka, sempre tirava o gorro e fazia uma reverência.
Durante toda a quinta-feira, pensou que era certamente por causa de sua maldade que os gansos selvagens não queriam levá-lo consigo até a Lapônia. E, à noite, quando soube que a esposa de Sirle, o Esquilo, fora roubada, e que seus filhotes morriam de fome, resolveu ajudá-los. E já nos foi contado quão bem se saiu.
Quando o menino entrou no parque na sexta-feira, ouviu os dom-fafes cantarem em todos os arbustos sobre como a esposa de Sirle, o Esquilo, fora arrancada de seus filhotes por ladrões cruéis, e como Nils, o menino dos gansos, arriscara a vida entre seres humanos e levara os esquilinhos até ela.
“E quem é agora tão honrado no parque do Mosteiro de Övid quanto Polegarzinho?”, cantava o dom-fafe; “ele, a quem todos temiam quando era Nils, o menino dos gansos? Sirle, o Esquilo, lhe dará nozes; as pobres lebres vão brincar com ele; os pequenos animais selvagens o carregarão nas costas e fugirão com ele quando Smirre, a raposa, se aproximar. Os chapins o avisarão contra o gavião, e os tentilhões e as cotovias cantarão sua bravura.”
O menino tinha absoluta certeza de que tanto Akka quanto os gansos selvagens haviam ouvido tudo aquilo. Ainda assim, a sexta-feira passou e nem uma palavra disseram sobre ele permanecer com eles.
Até sábado, os gansos selvagens alimentaram-se nos campos ao redor de Övid, sem serem perturbados por Smirre, a raposa.
Mas, no sábado de manhã, quando saíram para os prados, ele os aguardava de emboscada e os perseguiu de um campo a outro, e não lhes foi permitido comer em paz. Quando Akka compreendeu que ele não pretendia deixá-los tranquilos, tomou depressa uma decisão, ergueu-se no ar e voou com seu bando muitas milhas adiante, sobre as planícies de Färs e as colinas de Linderödsåsen. Não pararam antes de chegar ao distrito de Vittskövle.
Mas em Vittskövle o ganso foi roubado, e como isso aconteceu já foi relatado. Se o menino não tivesse usado todas as suas forças para ajudá-lo, ele nunca mais teria sido encontrado.
No sábado à noite, quando o menino voltou ao Lago Vomb com o ganso, pensou que havia feito um bom dia de trabalho; e especulou bastante sobre o que Akka e os gansos selvagens lhe diriam. Os gansos selvagens não economizaram elogios, mas não disseram a palavra que ele ansiava ouvir.
Então chegou novamente o domingo. Uma semana inteira se passara desde que o menino fora enfeitiçado, e ele continuava tão pequeno quanto antes.
Mas não parecia preocupar-se demais com isso. Na tarde de domingo, estava encolhido dentro de um grande e fofo arbusto de vime, junto ao lago, soprando uma flauta de junco. Ao redor dele, pousavam tantos tentilhões, dom-fafes e estorninhos quantos o arbusto podia comportar, e cantavam canções que ele tentava aprender a tocar. Mas o menino não dominava essa arte. Soprava tão desafinado que as penas dos pequenos mestres de música se eriçavam, e eles piavam e adejavam em desespero. O menino riu tão gostosamente com a agitação deles que deixou cair a flauta.
Começou outra vez, e saiu igualmente mal. Então todos os passarinhos lamentaram: “Hoje você toca pior que de costume, Polegarzinho! Não acerta uma nota sequer! Onde estão seus pensamentos, Polegarzinho?”
“Estão em outro lugar”, disse o menino — e isso era verdade. Estava ali sentado, pensando por quanto tempo lhe seria permitido permanecer com os gansos selvagens; ou se talvez fosse mandado para casa naquele mesmo dia.
Por fim, o menino atirou a flauta ao chão e saltou do arbusto. Vira Akka, e todos os gansos selvagens, vindo em sua direção numa longa fileira. Caminhavam de modo tão incomumente lento e solene que o menino compreendeu imediatamente que agora saberia o que pretendiam fazer com ele.
Quando enfim pararam, Akka disse: “Você bem pode ter motivo para estranhar-me, Polegarzinho, pois ainda não lhe agradeci por me salvar de Smirre, a raposa. Mas sou daquelas que preferem agradecer por atos, e não por palavras. Mandei recado ao duende que o enfeitiçou. A princípio, ele não quis ouvir falar em curá-lo; mas enviei mensagem após mensagem, contando-lhe quão bem você tem se comportado entre nós. Ele o saúda e diz que, assim que você voltar para casa, tornará a ser humano.”
Mas pensem só! Exatamente tão feliz quanto o menino estivera quando os gansos selvagens começaram a falar, tão miserável ficou quando terminaram. Não disse uma palavra, apenas virou-se e chorou.
“Que é isso, afinal?”, disse Akka. “Parece que você esperava de mim mais do que lhe ofereci.”
Mas o menino pensava nos dias despreocupados e nas brincadeiras; nas aventuras, na liberdade e nas viagens, alto acima da terra, que perderia; e, de fato, berrava de tristeza. “Não quero ser humano”, disse. “Quero ir com vocês para a Lapônia.” “Vou lhe dizer uma coisa”, disse Akka. “Esse duende é muito melindroso, e temo que, se você não aceitar agora a oferta dele, será difícil convencê-lo em outra ocasião.”
Havia uma coisa estranha com aquele menino: enquanto vivera, jamais se importara com ninguém. Não se importara com o pai nem com a mãe; nem com o professor; nem com os colegas de escola; nem com os meninos da vizinhança. Tudo o que queriam que ele fizesse — fosse trabalho ou brincadeira —, ele achava apenas maçante. Por isso, não havia ninguém de quem sentisse falta ou por quem ansiasse.
Os únicos com quem chegara perto de se entender eram Osa, a menina dos gansos, e o pequeno Mats — duas crianças que, como ele, cuidavam de gansos nos campos. Mas tampouco se importava particularmente com eles. Não, longe disso! “Não quero ser humano”, berrava o menino. “Quero ir com vocês para a Lapônia. Foi por isso que fui bom durante uma semana inteira!” “Não quero proibi-lo de vir conosco até onde quiser”, disse Akka, “mas pense primeiro se não preferiria voltar para casa. Pode chegar um dia em que se arrependa disso.”
“Não”, disse o menino, “não há nada de que me arrepender. Nunca estive tão bem quanto aqui com vocês.”
“Pois então, que seja como você deseja”, disse Akka.
“Obrigado!”, disse o menino, e sentiu-se tão feliz que teve de chorar de pura alegria — assim como antes chorara de tristeza.
No sudeste da Escânia — não muito longe do mar — há um velho castelo chamado Glimminge. É uma casa de pedra grande e sólida, que pode ser vista sobre a planície a milhas de distância. Não tem mais que quatro andares; mas é tão pesada e imponente que uma casa comum de fazenda, situada na mesma propriedade, parece, em comparação, uma casinha de brinquedo de criança.
A grande casa de pedra tem tetos e divisórias tão espessos que, em seu interior, mal resta espaço para outra coisa além das grossas paredes. As escadas são estreitas, as entradas pequenas; e os aposentos, poucos. Para que as paredes conservassem sua resistência, há apenas pouquíssimas janelas nos andares superiores, e nenhuma nos inferiores. Nos antigos tempos de guerra, as pessoas ficavam tão contentes por poderem se fechar numa casa forte e maciça como esta quanto hoje alguém fica por poder enfiar-se em peles num inverno de frio cortante. Mas, quando veio o tempo de paz, já não quiseram viver nos salões de pedra escuros e frios do velho castelo. Há muito abandonaram o grande castelo de Glimminge e se mudaram para moradias onde a luz e o ar podem penetrar.
Na época em que Nils Holgersson vagava com os gansos selvagens, não havia seres humanos no castelo de Glimminge; mas, ainda assim, ele não estava sem habitantes. Todo verão vivia um casal de cegonhas num grande ninho sobre o telhado. Num ninho no sótão morava um par de corujas cinzentas; nas passagens secretas pendiam morcegos; no forno da cozinha vivia um velho gato; e lá embaixo, na adega, havia centenas de velhos ratos pretos.
Os ratos não são tidos em grande estima pelos outros animais; mas os ratos pretos do castelo de Glimminge eram uma exceção. Eram sempre mencionados com respeito, porque haviam demonstrado grande valor na batalha contra seus inimigos; e muita resistência diante das grandes desgraças que haviam recaído sobre sua espécie. Pertenciam nominalmente a um povo de ratos que, em outros tempos, fora muito numeroso e poderoso, mas que agora se extinguia. Durante um longo período, os ratos pretos haviam possuído a Escânia e o país inteiro. Eram encontrados em cada adega; em cada sótão; em despensas, estábulos e celeiros; em cervejarias e moinhos de farinha; em igrejas e castelos; em toda construção erguida pelo homem. Mas agora haviam sido banidos de tudo isso — e estavam quase exterminados. Apenas em um ou outro lugar antigo e isolado se podia topar com alguns deles; e em nenhum lugar eram encontrados em tão grande número quanto no castelo de Glimminge.
Quando um povo animal se extingue, geralmente são os seres humanos a causa disso; mas não foi esse o caso aqui. As pessoas certamente haviam lutado contra os ratos pretos, mas não tinham conseguido lhes causar dano digno de menção. Quem os conquistara fora um povo animal de sua própria espécie, chamado ratos cinzentos.
Esses ratos cinzentos não viviam na terra desde tempos imemoriais, como os ratos pretos, mas descendiam de um par de pobres imigrantes que desembarcaram em Malmö de uma chalupa líbia cerca de cem anos antes. Eram miseráveis sem lar, esfomeados, que se mantinham perto do porto, nadavam entre as estacas sob as pontes e comiam os refugos que eram atirados à água. Nunca se aventuravam pela cidade, que pertencia aos ratos pretos.
Mas, pouco a pouco, à medida que os ratos cinzentos aumentavam em número, tornavam-se mais ousados. A princípio, mudaram-se para alguns terrenos baldios e velhas casas condenadas que os ratos pretos haviam abandonado. Procuravam alimento nas sarjetas e montes de lixo, e aproveitavam ao máximo toda a imundície que os ratos pretos não se dignavam a cuidar. Eram resistentes, contentes e destemidos; e, em poucos anos, tinham-se tornado tão poderosos que empreenderam expulsar os ratos pretos de Malmö. Tomaram-lhes sótãos, adegas e depósitos, fizeram-nos morrer de fome ou os morderam até a morte, pois não tinham medo algum de lutar.
Quando Malmö foi conquistada, marcharam adiante, em companhias pequenas e grandes, para conquistar todo o país. É quase impossível compreender por que os ratos pretos não se reuniram numa grande expedição de guerra, unida, para exterminar os ratos cinzentos enquanto estes ainda eram poucos. Mas os ratos pretos estavam tão certos de seu poder que não podiam acreditar que lhes fosse possível perdê-lo. Ficaram imóveis em suas propriedades, e, enquanto isso, os ratos cinzentos tomavam-lhes fazenda após fazenda, cidade após cidade. Foram mortos de fome, expulsos, extirpados. Na Escânia, não haviam conseguido manter-se em um único lugar, exceto no castelo de Glimminge.
O velho castelo possuía paredes tão seguras, e tão poucas passagens de ratos atravessavam-nas, que os ratos pretos haviam conseguido proteger-se e impedir que os ratos cinzentos irrompessem para dentro. Noite após noite, ano após ano, a luta continuara entre agressores e defensores; mas os ratos pretos mantinham uma vigília fiel e lutavam com o mais absoluto desprezo pela morte, e, graças à bela casa antiga, sempre haviam vencido.
Terá de ser reconhecido que, enquanto os ratos pretos estiveram no poder, eram evitados por todas as outras criaturas vivas tanto quanto os ratos cinzentos o são em nossos dias — e com justa razão; haviam-se lançado sobre pobres prisioneiros acorrentados e os torturado; haviam profanado os mortos; haviam roubado o último nabo das adegas dos pobres; mordido os pés de gansos adormecidos; roubado ovos e pintinhos das galinhas; e cometido mil depredações. Mas, desde que haviam caído em desgraça, tudo isso parecia ter sido esquecido; e ninguém podia deixar de maravilhar-se diante dos últimos de uma raça que resistira por tanto tempo contra seus inimigos.
Os ratos cinzentos que viviam no pátio de Glimminge e nas redondezas mantinham uma guerra contínua e tentavam vigiar toda possível oportunidade de capturar o castelo. Poder-se-ia imaginar que permitiriam à pequena companhia de ratos pretos ocupar em paz o castelo de Glimminge, já que eles próprios haviam adquirido todo o restante do país; mas podem estar certos de que esse pensamento nunca lhes ocorreu. Costumavam dizer que era uma questão de honra, para eles, conquistar os ratos pretos mais cedo ou mais tarde. Mas aqueles que conheciam os ratos cinzentos deviam saber que era porque os seres humanos usavam o castelo de Glimminge como armazém de grãos que os cinzentos não podiam descansar antes de tomar posse do lugar.
Segunda-feira, vinte e oito de março.
Certa manhã cedo, os gansos selvagens, que estavam dormindo de pé sobre o gelo no Lago Vomb, foram despertados por longos chamados vindos do ar. “Trirop, Trirop!”, soava, “Trianut, o grou, envia saudações a Akka, a gansa selvagem, e a seu bando. Amanhã será o dia da grande dança dos grous em Kullaberg.”
Akka ergueu a cabeça e respondeu de imediato: “Saudações e agradecimentos! Saudações e agradecimentos!”
Com isso, os grous voaram adiante; e os gansos selvagens os ouviram por muito tempo — enquanto viajavam e chamavam sobre cada campo e cada colina arborizada: “Trianut envia saudações. Amanhã será o dia da grande dança dos grous em Kullaberg.”
Os gansos selvagens ficaram muito felizes com esse convite. “Você tem sorte”, disseram ao ganso branco, “por lhe ser permitido assistir à grande dança dos grous em Kullaberg!” “Então é tão extraordinário ver grous dançarem?”, perguntou o ganso. “É algo com que você jamais sonhou!”, responderam os gansos selvagens.
“Agora precisamos pensar no que faremos amanhã com Polegarzinho — para que nenhum mal lhe aconteça enquanto formos correndo a Kullaberg”, disse Akka. “Polegarzinho não será deixado sozinho!”, disse o ganso. “Se os grous não o deixarem ver a dança, então ficarei com ele.”
“Nenhum ser humano jamais teve permissão para assistir ao Congresso dos Animais em Kullaberg”, disse Akka, “e eu não ousaria levar Polegarzinho comigo. Mas discutiremos isso mais longamente no decorrer do dia. Agora precisamos, antes de tudo, pensar em conseguir algo para comer.”
Com isso, Akka deu o sinal para que partissem. Naquele dia, também procurou seu lugar de alimentação a uma boa distância, por causa de Smirre, a raposa, e não pousou até chegar aos prados pantanosos um pouco ao sul do castelo de Glimminge.
Durante todo aquele dia, o menino ficou sentado às margens de um pequeno charco, soprando flautas de junco. Estava de mau humor porque não veria a dança dos grous, e simplesmente não conseguia dizer uma palavra, nem ao ganso, nem a qualquer dos outros.
Era bem duro que Akka ainda desconfiasse dele. Quando um menino desistia de ser humano apenas para viajar com alguns gansos selvagens, eles certamente deveriam compreender que ele não tinha desejo algum de traí-los. Além disso, deveriam compreender que, quando ele havia renunciado a tanto para segui-los, era dever deles deixá-lo ver todas as maravilhas que pudessem lhe mostrar.
“Terei de dizer francamente a eles o que penso”, pensou. Mas hora após hora passou, e ele ainda não chegara a fazê-lo. Pode parecer estranho — mas o menino havia de fato adquirido uma espécie de respeito pela velha gansa líder. Sentia que não era fácil opor sua vontade à dela.
De um lado do prado pantanoso onde os gansos selvagens se alimentavam, havia uma larga cerca de pedras. Ao entardecer, quando o menino finalmente ergueu a cabeça para falar com Akka, seu olhar por acaso pousou nessa cerca. Soltou um pequeno grito de surpresa, e todos os gansos selvagens imediatamente ergueram os olhos e fitaram a mesma direção. A princípio, tanto os gansos quanto o menino pensaram que todas as pedras redondas e cinzentas da cerca haviam criado pernas e começado a correr; mas logo viram que era uma companhia de ratos que corria sobre ela. Moviam-se muito depressa e avançavam apertados, fileira sobre fileira, e eram tão numerosos que, por algum tempo, cobriram toda a cerca de pedras.
O menino tivera medo de ratos até mesmo quando era um ser humano grande e forte. Então, quais não deviam ser seus sentimentos agora, quando era tão minúsculo que dois ou três deles poderiam dominá-lo? Um arrepio após outro desceu-lhe pela espinha enquanto permanecia ali, fitando-os.
Mas, curiosamente, os gansos selvagens pareciam sentir pelos ratos a mesma aversão que ele. Não falaram com eles; e, quando se foram, sacudiram-se como se suas penas tivessem sido salpicadas de lama.
“Uma porção dessas de ratos cinzentos andando por aí!”, disse Iksi de Vassijaure. “Isso não é bom presságio.”
O menino pretendia aproveitar aquela oportunidade para dizer a Akka que achava que ela devia deixá-lo ir com eles a Kullaberg, mas foi novamente impedido, pois, de repente, uma grande ave desceu no meio dos gansos.
Ao olhar para essa ave, poder-se-ia acreditar que ela tomara emprestados o corpo, o pescoço e a cabeça de uma pequena gansa branca. Mas, além disso, arranjara para si grandes asas negras, longas pernas vermelhas e um bico grosso, grande demais para a cabecinha, e que a pesava até lhe dar uma aparência triste e preocupada.
Akka endireitou imediatamente as dobras de suas asas e fez muitas mesuras ao se aproximar da cegonha. Não ficou especialmente surpresa por vê-la na Escânia tão cedo na primavera, pois sabia que os machos das cegonhas têm o hábito de chegar em boa estação para dar uma olhada no ninho e ver se ele não foi danificado durante o inverno, antes que as fêmeas se deem ao trabalho de atravessar o Mar Oriental. Mas se admirou muito do que poderia significar que ele a procurasse, já que as cegonhas preferem associar-se aos membros de sua própria família.
“Mal posso crer que haja algo errado com sua casa, senhor Ermenrich”, disse Akka.
Agora era evidente que é verdade o que dizem: uma cegonha raramente consegue abrir o bico sem se queixar. Mas o que tornava ainda mais lastimosa a coisa que dizia era que lhe era difícil falar claramente. Ficou por muito tempo apenas batendo o bico; depois falou numa voz rouca e fraca. Queixou-se de tudo: o ninho — situado no ponto mais alto da cumeeira do castelo de Glimminge — fora totalmente destruído pelas tempestades de inverno; e já não conseguia alimento algum na Escânia. O povo da Escânia estava se apropriando de todas as suas posses. Cavavam seus brejos e devastavam seus pântanos. Pretendia mudar-se daquele país e nunca mais voltar.
Enquanto a cegonha resmungava, Akka, a gansa selvagem que não tinha casa nem proteção, não pôde deixar de pensar consigo: “Se eu tivesse as coisas tão confortáveis quanto você, senhor Ermenrich, estaria acima das queixas. Você permaneceu uma ave livre e selvagem; e, ainda assim, está em tão boas relações com os seres humanos que ninguém lhe dispara um tiro nem rouba um ovo de seu ninho.” Mas guardou tudo isso para si. À cegonha, observou apenas que não podia acreditar que ele estivesse disposto a mudar-se de uma casa onde cegonhas haviam residido desde que fora construída.
Então a cegonha perguntou de repente aos gansos se tinham visto os ratos cinzentos que marchavam em direção ao castelo de Glimminge. Quando Akka respondeu que vira as criaturas horrendas, ele começou a lhe contar sobre os bravos ratos pretos que, por anos, haviam defendido o castelo. “Mas esta noite o castelo de Glimminge cairá em poder dos ratos cinzentos”, suspirou a cegonha.
“E por que justamente esta noite, senhor Ermenrich?”, perguntou Akka.
“Bem, porque quase todos os ratos pretos foram para Kullaberg ontem à noite”, disse a cegonha, “pois contavam que todos os outros animais também se apressariam para lá. Mas vocês veem que os ratos cinzentos ficaram em casa; e agora estão se reunindo para tomar o castelo de assalto esta noite, quando ele será defendido apenas por umas poucas criaturas velhas, frágeis demais para ir a Kullaberg. Provavelmente alcançarão seu objetivo. Mas vivi aqui em harmonia com os ratos pretos por tantos anos que não me agrada viver num lugar habitado pelos inimigos deles.”
Akka compreendeu então que a cegonha ficara tão enfurecida com o modo de agir dos ratos cinzentos que a procurara como pretexto para se queixar deles. Mas, à maneira das cegonhas, certamente não fizera nada para evitar o desastre. “Enviou recado aos ratos pretos, senhor Ermenrich?”, perguntou. “Não”, respondeu a cegonha, “isso não adiantaria nada. Antes que consigam voltar, o castelo estará tomado.” “Não esteja tão certo disso, senhor Ermenrich”, disse Akka. “Conheço uma velha gansa selvagem, conheço sim, que de bom grado impedirá ultrajes desse tipo.”
Quando Akka disse isso, a cegonha ergueu a cabeça e ficou a fitá-la. E não era de admirar, pois Akka não tinha garras nem bico próprios para lutar; além disso, era uma ave diurna, e assim que escurecia caía, indefesa, no sono, enquanto os ratos travavam suas batalhas à noite.
Mas Akka evidentemente decidira ajudar os ratos pretos. Chamou Iksi de Vassijaure e ordenou-lhe que levasse os gansos selvagens para o Lago Vomb; e, quando os gansos apresentaram desculpas, disse com autoridade: “Creio que será melhor para todos nós que me obedeçam. Preciso voar até a grande casa de pedra, e, se vocês me seguirem, as pessoas do lugar certamente nos verão e nos abaterão a tiros. O único que quero levar comigo nesta viagem é Polegarzinho. Ele pode me prestar grande serviço, porque tem bons olhos e consegue ficar acordado à noite.”
Naquele dia, o menino estava em seu humor mais contrariado. E, quando ouviu o que Akka disse, ergueu-se em toda a sua altura e avançou, as mãos atrás das costas e o nariz empinado, pretendendo dizer que ele, com toda certeza, não desejava tomar parte na luta contra ratos cinzentos. Que ela procurasse assistência em outro lugar.
Mas, no instante em que o menino foi visto, a cegonha começou a se mover. Até então estivera parada como as cegonhas costumam ficar, com a cabeça inclinada para baixo e o bico apertado contra o pescoço. Agora, porém, ouviu-se um gorgolejo lá no fundo de sua garganta, como se fosse rir. Rápida como um relâmpago, abaixou o bico, agarrou o menino e o arremessou alguns metros no ar. Repetiu essa façanha sete vezes, enquanto o menino gritava e os gansos clamavam: “Que está tentando fazer, senhor Ermenrich? Isso não é uma rã. É um ser humano, senhor Ermenrich.”
Por fim, a cegonha pôs o menino no chão, inteiramente ileso. Em seguida, disse a Akka: “Vou voltar agora para o castelo de Glimminge, mãe Akka. Todos os que vivem lá estavam muito preocupados quando parti. Pode ter certeza de que ficarão muito felizes quando eu lhes disser que Akka, a gansa selvagem, e Polegarzinho, o duende humano, estão a caminho para salvá-los.” Com isso, a cegonha esticou o pescoço, abriu as asas e disparou como uma flecha ao deixar um arco bem retesado. Akka compreendeu que ele zombava dela, mas não se deixou incomodar. Esperou até que o menino encontrasse seus tamancos, que a cegonha havia sacudido para longe; então o pôs sobre suas costas e seguiu a cegonha. Por sua própria conta, o menino não fez objeção alguma, nem disse uma palavra sobre não querer ir. Ficara tão furioso com a cegonha que de fato estava sentado bufando. Aquela coisa comprida de pernas vermelhas acreditava que ele não valia nada só porque era pequeno; mas ele lhe mostraria que espécie de homem era Nils Holgersson, de West Vemminghög.
Poucos instantes depois, Akka estava no ninho das cegonhas. Ele tinha uma roda como base, e sobre ela havia várias esteiras de capim e alguns gravetos. O ninho era tão antigo que muitos arbustos e plantas haviam criado raízes lá em cima; e, quando a mãe cegonha se sentava sobre seus ovos no buraco redondo no meio do ninho, não tinha apenas a bela vista de boa parte da Escânia para apreciar, mas também flores silvestres de roseira-brava e sempre-vivas para contemplar.
Tanto Akka quanto o menino viram imediatamente que ali se passava algo que virava de cabeça para baixo a ordem mais regular das coisas. À beira do ninho da cegonha estavam sentadas duas corujas cinzentas, um velho gato listrado de cinza e uma dúzia de ratos velhos e decrépitos, com dentes salientes e olhos lacrimosos. Não eram exatamente o tipo de animais que se costuma encontrar vivendo pacificamente juntos.
Nenhum deles se voltou para olhar para Akka, nem para dar-lhe boas-vindas. Não pensavam em outra coisa senão em ficar sentados e fitar algumas longas linhas cinzentas que surgiam aqui e ali nos prados nus de inverno.
Todos os ratos pretos estavam calados. Podia-se ver que estavam em profundo desespero e provavelmente sabiam que não poderiam defender nem suas próprias vidas nem o castelo. As duas corujas sentavam-se e reviravam os grandes olhos, torciam as enormes sobrancelhas em arco e falavam, com vozes ocas e fantasmagóricas, sobre a crueldade terrível dos ratos cinzentos, e que teriam de se mudar de seu ninho, porque tinham ouvido dizer que eles não poupavam nem ovos nem filhotes de aves. O velho gato listrado de cinza tinha certeza de que os ratos cinzentos o morderiam até a morte, já que vinham para o castelo em tão grande número, e repreendia incessantemente os ratos pretos. “Como puderam ser tão idiotas a ponto de deixar seus melhores combatentes irem embora?”, dizia. “Como puderam confiar nos ratos cinzentos? Isso é absolutamente imperdoável!”
Os doze ratos pretos não disseram palavra. Mas a cegonha, apesar de sua miséria, não pôde se conter de provocar o gato. “Não se aflija tanto, senhor Gato da casa!”, disse ela. “Não vê que mãe Akka e Polegarzinho vieram salvar o castelo? Pode ter certeza de que terão êxito. Agora preciso dormir de pé — e o faço com a maior tranquilidade. Amanhã, quando eu despertar, não haverá um único rato cinzento no castelo de Glimminge.”
O menino piscou para Akka e fez um sinal — enquanto a cegonha se punha bem na beira do ninho, com uma perna recolhida, para dormir — de que queria empurrá-la lá para baixo; mas Akka o conteve. Ela não parecia nem um pouco zangada. Em vez disso, disse com voz confiante: “Seria um negócio muito pobre se alguém tão velho quanto eu não conseguisse sair de dificuldades piores que esta. Se apenas o senhor e a senhora Coruja, que conseguem ficar acordados a noite inteira, voarem levando um par de mensagens para mim, creio que tudo correrá bem.”
As duas corujas estavam dispostas. Então Akka pediu ao senhor Coruja que fosse procurar os ratos pretos que haviam partido e os aconselhasse a voltar para casa imediatamente. A senhora Coruja ela enviou a Flammea, a coruja-da-torre, que vivia na catedral de Lund, com uma missão tão secreta que Akka só ousou confiá-la a ela em sussurro.
Aproximava-se a meia-noite quando os ratos cinzentos, depois de uma busca diligente, conseguiram encontrar uma abertura de ventilação no porão. Ficava bem alta na parede; mas os ratos subiram uns sobre os ombros dos outros, e não demorou para que o mais ousado entre eles estivesse sentado na abertura, pronto para forçar sua entrada no castelo de Glimminge, fora de cujas paredes tantos de seus antepassados haviam caído.
O rato cinzento ficou imóvel por um momento no buraco, esperando um ataque vindo de dentro. A líder dos defensores certamente estava ausente, mas ela supunha que os ratos pretos que ainda estavam no castelo não se renderiam sem luta. Com o coração aos saltos, escutou o menor ruído, mas tudo permaneceu quieto. Então a líder dos ratos cinzentos tomou coragem e saltou para dentro do porão negro como carvão.
Um após outro, os ratos cinzentos seguiram a líder. Todos se mantinham muito quietos; e todos esperavam sofrer uma emboscada dos ratos pretos. Só quando tantos deles se haviam amontoado no porão que o chão já não comportava mais, ousaram avançar.
Embora nunca antes tivessem estado dentro do edifício, não tiveram dificuldade em encontrar o caminho. Logo acharam as passagens nas paredes que os ratos pretos usavam para chegar aos andares superiores. Antes de começar a escalar aqueles degraus estreitos e íngremes, escutaram novamente com grande atenção. Sentiam mais medo porque os ratos pretos se mantinham afastados daquele modo do que se os tivessem encontrado em batalha aberta. Mal podiam acreditar na própria sorte quando chegaram ao primeiro andar sem qualquer contratempo.
Imediatamente ao entrar, os ratos cinzentos sentiram o cheiro do grão, armazenado em grandes compartimentos sobre o assoalho. Mas ainda não era hora de começarem a desfrutar da conquista. Primeiro, vasculharam, com a máxima cautela, os aposentos sombrios e vazios. Subiram pela lareira, que ficava no chão da velha cozinha do castelo, e quase despencaram dentro do poço no aposento interior. Não deixaram sem inspecionar nenhum dos estreitos buracos de espiar, mas não encontraram ratos pretos. Quando esse andar estava inteiramente em seu poder, começaram, com a mesma cautela, a conquistar o seguinte. Então tiveram de aventurar-se numa escalada ousada e perigosa pelas paredes, enquanto, com ansiedade sem fôlego, aguardavam um ataque do inimigo. E, embora fossem tentados pelo odor mais delicioso vindo dos compartimentos de grãos, obrigaram-se, de modo muito sistemático, a inspecionar a cozinha sustentada por pilares dos guerreiros antigos; sua mesa de pedra e sua lareira; os fundos nichos das janelas e o buraco no chão — que, em tempos antigos, fora aberto para despejar piche fervente sobre o inimigo intruso.
Durante todo esse tempo, os ratos pretos permaneciam invisíveis. Os cinzentos tatearam caminho até o terceiro andar e entraram no grande salão de banquetes do senhor do castelo — que ali permanecia frio e vazio, como todos os outros aposentos da velha casa. Até mesmo tatearam caminho até o andar superior, que tinha apenas uma grande sala nua. O único lugar que não pensaram em explorar foi o grande ninho de cegonha no telhado — onde, justamente naquele momento, a senhora Coruja despertava Akka e a informava de que Flammea, a coruja-da-torre, havia atendido seu pedido e lhe enviara aquilo que ela desejava.
Como os ratos cinzentos haviam inspecionado tão conscienciosamente todo o castelo, sentiram-se tranquilos. Tomaram por certo que os ratos pretos haviam fugido e não pretendiam oferecer resistência; e, de coração leve, correram para dentro dos depósitos de grãos.
Mas os ratos cinzentos mal haviam engolido os primeiros grãos de trigo quando se ouviu, vindo do pátio, o som de uma flautinha aguda. Os ratos cinzentos ergueram a cabeça, escutaram ansiosamente, correram alguns passos como se pretendessem deixar o depósito; depois se voltaram e começaram a comer outra vez.
De novo a flauta soou uma nota cortante e penetrante — e então algo maravilhoso aconteceu. Um rato, dois ratos — sim, uma porção inteira de ratos deixou os grãos, saltou dos depósitos e se apressou para o porão pelo caminho mais curto, a fim de sair da casa. Ainda restavam muitos ratos cinzentos. Estes pensavam em toda a labuta e dificuldade que lhes custara conquistar o castelo de Glimminge, e não queriam abandoná-lo. Mas tornaram a captar os sons da flauta, e tiveram de segui-los. Com excitação selvagem, precipitaram-se para fora dos depósitos, deslizaram pelos estreitos buracos nas paredes e atropelaram-se uns aos outros na ânsia de sair.
No meio do pátio estava uma criaturinha minúscula, que soprava uma flauta. Ao redor dela havia um círculo inteiro de ratos que a escutavam, espantados e fascinados; e a cada instante chegavam mais. Uma vez ela tirou a flauta dos lábios — apenas por um segundo —, pôs o polegar no nariz e sacudiu os dedos para os ratos cinzentos; então pareceu que eles queriam atirar-se sobre ela e mordê-la até a morte; mas, assim que ela soprou a flauta, ficaram em seu poder.
Quando a criaturinha tocou todos os ratos cinzentos para fora do castelo de Glimminge, começou a caminhar lentamente do pátio para a estrada; e todos os ratos cinzentos a seguiram, porque os sons daquela flauta soavam tão doces a seus ouvidos que não podiam resistir.
A criaturinha caminhava diante deles e os encantava consigo pela estrada de Vallby. Conduziu-os por toda sorte de voltas, desvios e curvas — através de sebes e para dentro de valas —, e por onde quer que fosse eles tinham de segui-la. Soprava sem cessar sua flauta, que parecia feita de chifre de animal, embora o chifre fosse tão pequeno que, em nossos dias, não havia animais de cuja testa pudesse ter sido arrancado. Tampouco ninguém sabia quem o fizera. Flammea, a coruja-da-torre, encontrara-o num nicho da catedral de Lund. Mostrara-o a Bataki, o corvo; e ambos haviam deduzido que aquele era o tipo de chifre usado em tempos antigos por aqueles que desejavam obter poder sobre ratos e camundongos. Mas o corvo era amigo de Akka; e foi por ele que ela soube que Flammea possuía um tesouro como aquele. E era verdade que os ratos não podiam resistir à flauta. O menino caminhou diante deles e tocou enquanto durou a luz das estrelas — e durante todo esse tempo eles o seguiram. Tocou ao romper da aurora; tocou ao nascer do sol; e, o tempo inteiro, toda a procissão de ratos cinzentos o acompanhou, sendo atraída cada vez para mais longe do grande celeiro de grãos do castelo de Glimminge.
Terça-feira, vinte e nove de março.
Embora haja muitos edifícios magníficos na Escânia, é preciso reconhecer que não há entre eles um só que tenha paredes tão bonitas quanto o velho Kullaberg.
Kullaberg é baixo e bastante comprido. Não é, de modo algum, uma montanha grande ou imponente. Em seu amplo cume encontram-se bosques e campos de cereais, e uma ou outra charneca de urze. Aqui e ali erguem-se colinas arredondadas de urze e penhascos estéreis. Lá em cima não é especialmente bonito. Parece bastante com todos os outros lugares elevados da Escânia.
Quem caminha pela trilha que atravessa o meio da montanha não pode deixar de se sentir um pouco decepcionado. Então talvez lhe aconteça de afastar-se da trilha, vaguear na direção das encostas da montanha e olhar para baixo, sobre os precipícios; e então, de súbito, descobrirá tanta coisa digna de ser vista que mal saberá como terá tempo de abarcar tudo. Pois acontece que Kullaberg não se ergue em terra, com planícies e vales ao redor, como outras montanhas; mas lançou-se dentro do mar, o mais longe que pôde. Nem mesmo a menor faixa de terra fica abaixo da montanha para protegê-la contra as vagas; estas alcançam diretamente as paredes da montanha e podem poli-las e moldá-las à vontade. É por isso que as paredes ali se erguem tão ricamente ornamentadas quanto o mar e sua ajudante, o vento, foram capazes de fazê-las. Encontram-se ravinas escarpadas, profundamente cinzeladas nas encostas da montanha; e penhascos negros que se tornaram lisos e brilhantes sob o açoite constante dos ventos. Há colunas solitárias de rocha que brotam diretamente da água, e grutas escuras com entradas estreitas. Há precipícios nus e perpendiculares, e suaves declives cobertos de folhas. Há pequenas pontas, pequenas enseadas e pedrinhas roladas que são lavadas para cima e para baixo, retinindo a cada vaga que se arrebenta. Há majestosos arcos de pedra que se projetam sobre a água. Há pedras agudas constantemente borrifadas por uma espuma branca; e outras que se espelham em águas imóveis de um verde-escuro invariável. Há cavernas gigantescas de trolls, talhadas na rocha, e grandes fendas que seduzem o caminhante a aventurar-se pelas profundezas da montanha — até o Oco de Kullman.
E, sobre e ao redor de todos esses penhascos e rochedos, rastejam gavinhas e ervas entrelaçadas. Árvores também crescem ali, mas a força do vento é tão grande que as árvores precisam transformar-se em trepadeiras aderentes, para obter firme apoio nos precipícios íngremes. Os carvalhos rastejam pelo chão, enquanto sua folhagem pende sobre eles como um teto baixo; e faias de longos galhos se erguem nas ravinas como grandes tendas de folhas.
Essas notáveis paredes de montanha, com o mar azul abaixo delas e o ar claro e penetrante acima, é que tornam Kullaberg tão querido das pessoas, a ponto de grandes multidões frequentarem o lugar todos os dias enquanto dura o verão. Mas é mais difícil dizer o que o torna tão atraente para os animais, que todos os anos se reúnem ali para um grande encontro de brincadeiras. É um costume observado desde tempos imemoriais; e seria preciso ter estado ali quando a primeira onda do mar se desfez em espuma contra a costa para poder explicar exatamente por que Kullaberg foi escolhido como ponto de encontro, de preferência a todos os outros lugares.
Quando a reunião vai acontecer, os cervos, corços, lebres, raposas e todos os outros quadrúpedes fazem a viagem para Kullaberg na noite anterior, a fim de não serem observados pelos seres humanos. Pouco antes do nascer do sol, todos marcham até o campo de jogos, que é uma charneca de urze à esquerda da estrada, não muito longe do ponto mais extremo da montanha. O campo de jogos é cercado por todos os lados por colinas arredondadas, que o ocultam de qualquer um que por acaso não chegue diretamente até ele. E, no mês de março, não é nada provável que algum pedestre se desvie até lá em cima. Todos os estranhos que costumam passear pelas rochas e escalar as encostas da montanha, as tempestades do outono já os expulsaram há muitos meses. E o faroleiro lá na ponta; a velha senhora da fazenda da montanha; e o camponês da montanha com sua gente seguem seus caminhos habituais, e não ficam correndo pelos campos desertos de urze.
Quando os quadrúpedes chegam ao campo de jogos, tomam seus lugares nas colinas arredondadas. Cada família animal fica consigo mesma, embora se entenda que, num dia como este, reina a paz universal e ninguém precisa temer ataque. Neste dia, uma lebrezinha poderia andar até a colina das raposas sem perder sequer uma de suas longas orelhas. Ainda assim, os animais se organizam em grupos separados. É um costume antigo.
Depois que todos tomaram seus lugares, começam a procurar as aves ao redor. Neste dia sempre faz tempo bonito. Os grous são bons profetas do tempo e não chamariam os animais se esperassem chuva. Embora o ar esteja claro e nada obstrua a visão, os quadrúpedes não veem aves. Isso é estranho. O sol está alto no céu, e as aves já deveriam estar a caminho.
Mas o que os animais, por outro lado, observam é uma e outra pequena nuvem escura que avança lentamente sobre a planície. E vejam! uma dessas nuvens vem aos poucos ao longo da costa do Öresund e sobe na direção de Kullaberg. Quando a nuvem chega bem acima do campo de jogos, ela para e, ao mesmo tempo, a nuvem inteira começa a tinir e chilrear, como se fosse feita de nada além de som. Sobe e desce, sobe e desce, mas o tempo todo tine e chilreia. Por fim, a nuvem inteira cai sobre uma colina — de uma só vez —, e no instante seguinte a colina fica inteiramente coberta de cotovias cinzentas, bonitos dom-fafes vermelhos, brancos e cinzentos, estorninhos pintalgados e chapins amarelo-esverdeados.
Pouco depois, outra nuvem vem sobre a planície. Esta para sobre cada pedaço de terra; sobre a cabana do camponês e o palácio; sobre vilas e cidades; sobre fazendas e estações ferroviárias; sobre aldeias de pescadores e refinarias de açúcar. Cada vez que para, atrai para si, do chão, uma pequena coluna rodopiante de grãos de poeira cinzenta. Desse modo, cresce e cresce. E, por fim, quando está toda reunida e se dirige para Kullaberg, já não é mais uma nuvem, mas uma névoa inteira, tão grande que lança sombra sobre o chão por todo o caminho de Höganäs a Mölle. Quando para sobre o campo de jogos, oculta o sol; e, por muito tempo, teve de chover pardais cinzentos sobre uma das colinas antes que aqueles que vinham voando na parte mais interna da névoa pudessem outra vez vislumbrar a luz do dia.
Mas a maior dessas nuvens de aves é a que aparece agora. Esta foi formada por aves que viajaram de todas as direções para se juntar a ela. É de um cinzento-azulado escuro, e nenhum raio de sol consegue atravessá-la. Está cheia dos ruídos mais sinistros, dos gritos mais medonhos, das risadas mais ferozes e dos grasnidos de mais mau agouro! Todos no campo de jogos se alegram quando ela finalmente se desfaz numa tempestade de asas e crocitos: de corvos, gralhas, gralhas-de-torre e corvos-negros.
Depois disso, não se veem apenas nuvens nos céus, mas uma variedade de listras e figuras. Então aparecem no leste e no nordeste linhas retas e pontilhadas. São aves da floresta vindas dos distritos de Göinge: tetrazes-negros e tetrazes-da-floresta, que vêm voando em longas fileiras, a alguns metros de distância umas das outras. Aves aquáticas que vivem ao redor de Måkläppen, logo adiante de Falsterbo, vêm agora flutuando sobre o Öresund em muitas figuras extraordinárias: em curvas triangulares e compridas; em ganchos agudos e semicírculos.
À grande reunião realizada no ano em que Nils Holgersson viajava com os gansos selvagens, Akka e seu bando chegaram depois de todos os outros. E isso não era de admirar, pois Akka tivera de atravessar toda a Escânia para chegar a Kullaberg. Além disso, assim que despertou, fora obrigada a sair em busca de Polegarzinho, que, por muitas horas, caminhara tocando para os ratos cinzentos e os atraíra para longe do castelo de Glimminge. O senhor Coruja regressara com a notícia de que os ratos pretos estariam em casa imediatamente depois do nascer do sol; e já não havia perigo em deixar silenciar a flauta da coruja-da-torre e dar aos ratos cinzentos a liberdade de ir para onde quisessem.
Mas não foi Akka quem descobriu o menino, onde ele caminhava com seu longo séquito, e rapidamente desceu sobre ele, agarrou-o com o bico e alçou voo levando-o consigo: foi o senhor Ermenrich, a cegonha! Pois o senhor Ermenrich também saíra à procura dele; e, depois de carregá-lo até o ninho das cegonhas, pediu-lhe perdão por tê-lo tratado com desrespeito na noite anterior.
Isso agradou imensamente ao menino, e a cegonha e ele se tornaram bons amigos. Akka também lhe mostrou que sentia muita simpatia por ele; roçou várias vezes a velha cabeça em seus braços e o elogiou por ter ajudado aqueles que estavam em apuros.
Mas isto se deve dizer em crédito do menino: ele não quis aceitar louvor que não havia merecido. “Não, mãe Akka”, disse, “não deve pensar que atraí os ratos cinzentos para ajudar os pretos. Eu só queria mostrar ao senhor Ermenrich que eu tinha alguma importância.”
Mal dissera isso quando Akka se voltou para a cegonha e perguntou se ele achava aconselhável levar Polegarzinho a Kullaberg. “Quero dizer que podemos confiar nele como em nós mesmos”, disse ela. A cegonha aconselhou de imediato, com o maior entusiasmo, que se permitisse a Polegarzinho acompanhá-los. “Certamente a senhora deve levar Polegarzinho a Kullaberg, mãe Akka”, disse ele. “É uma sorte para nós podermos recompensá-lo por tudo quanto suportou esta noite por nossa causa. E, como ainda me aflige pensar que não me conduzi de modo conveniente para com ele na outra noite, serei eu quem o levará nas costas — por todo o caminho até o lugar da reunião.”
Não há muita coisa que tenha gosto melhor do que receber elogios daqueles que são eles próprios sábios e capazes; e o menino certamente jamais se sentira tão feliz quanto se sentiu quando a gansa selvagem e a cegonha falaram dele daquele modo.
Assim, o menino fez a viagem para Kullaberg montado nas costas da cegonha. Embora soubesse que aquilo era uma grande honra, a viagem lhe causou muita ansiedade, pois o senhor Ermenrich era um mestre do voo e partiu num ritmo muito diferente do dos gansos selvagens. Enquanto Akka voava em linha reta, com batidas de asa regulares, a cegonha se divertia executando uma porção de acrobacias aéreas. Ora permanecia imóvel numa altura imensurável e flutuava no ar sem mover as asas; ora se lançava para baixo com uma pressa tão súbita que parecia que iria cair ao chão, desamparada como uma pedra; ora se divertia imensamente voando ao redor de Akka, em círculos grandes e pequenos, como um redemoinho. O menino nunca estivera antes numa cavalgada desse tipo; e, embora ficasse o tempo todo sentado ali, aterrorizado, teve de reconhecer consigo mesmo que nunca antes soubera o que era um bom voo.
Fez-se apenas uma única pausa durante a jornada, e foi no Lago Vomb, quando Akka se reuniu a seus companheiros de viagem e lhes anunciou que os ratos cinzentos haviam sido vencidos. Depois disso, os viajantes voaram diretamente para Kullaberg.
Ali desceram à colina reservada aos gansos selvagens; e, quando o menino deixou o olhar vaguear de colina em colina, viu numa delas as galhadas de muitas pontas dos cervos; e noutra, os penachos do pescoço das garças cinzentas. Uma colina estava vermelha de raposas; outra, cinzenta de ratos; uma estava coberta de corvos negros que grasnavam sem cessar; outra, de cotovias que simplesmente não conseguiam ficar quietas, mas continuavam a se lançar no ar e a cantar de pura alegria.
Exatamente como sempre fora costume em Kullaberg, foram os corvos que iniciaram os jogos e folguedos do dia com sua dança aérea. Dividiram-se em dois bandos, que voavam um em direção ao outro, encontravam-se, viravam e começavam tudo de novo. Essa dança teve muitas repetições e pareceu aos espectadores que não a conheciam monótona demais. Os corvos tinham muito orgulho de sua dança, mas todos os outros ficaram satisfeitos quando ela terminou. Parecia aos animais tão sombria e sem sentido quanto a brincadeira das tempestades de inverno com os flocos de neve. Deprimia-os observá-la, e esperavam ansiosamente por algo que lhes desse um pouco de prazer.
Também não tiveram de esperar em vão; pois, assim que os corvos terminaram, as lebres vieram correndo. Dispararam em longa fila, sem nenhuma ordem aparente. Em algumas das figuras vinha uma só lebre; em outras, corriam três e quatro lado a lado. Todas se haviam erguido sobre duas patas, e avançavam com tamanha rapidez que suas longas orelhas balançavam em todas as direções. Enquanto corriam, giravam em torno de si mesmas, davam grandes saltos e batiam as patas dianteiras contra as traseiras, fazendo-as estalar. Algumas executavam uma longa sucessão de cambalhotas, outras se dobravam e rolavam como rodas; uma ficava de pé numa só pata e girava; outra andava sobre as patas dianteiras. Não havia regra alguma, mas havia muito de engraçado na brincadeira das lebres; e os muitos animais que estavam parados observando-as começaram a respirar mais depressa. Agora era primavera; alegria e arrebatamento avançavam. O inverno terminara; o verão vinha chegando. Em breve, viver seria apenas brincar.
Quando as lebres acabaram de folgar, chegou a vez das grandes aves da floresta se apresentarem. Centenas de tetrazes-da-floresta, em trajes de um castanho-escuro reluzente e com sobrancelhas de vermelho vivo, lançaram-se sobre um grande carvalho que se erguia no centro do campo de jogos. Aquele que pousou no galho mais alto eriçou as penas, baixou as asas e ergueu a cauda, de modo que se vissem as penas brancas de cobertura. Em seguida esticou o pescoço e soltou umas duas notas profundas da garganta grossa. “Tchac, tchac, tchac”, soou. Mais que isso não podia emitir. Apenas gorgolejou algumas vezes lá no fundo da garganta. Então fechou os olhos e sussurrou: “Sis, sis, sis. Ouçam como é bonito! Sis, sis, sis.” Ao mesmo tempo caiu em tamanho êxtase que já não sabia o que se passava ao seu redor.
Enquanto o primeiro tetraz sibilava, os três mais próximos — abaixo dele — começaram a cantar; e, antes que tivessem terminado sua canção, os dez que estavam mais abaixo se juntaram a eles; e assim continuou, de galho em galho, até que a centena inteira de tetrazes cantou, gorgolejou e sibilou. Todos caíram no mesmo êxtase durante sua canção, e isso afetou os outros animais como um arrebatamento contagioso. Há pouco o sangue corria leve e agradável; agora começou a tornar-se pesado e quente. “Sim, isto certamente é a primavera”, pensou todo o povo animal. “O frio do inverno desapareceu. Os fogos da primavera ardem sobre a terra.”
Quando os tetrazes-negros viram que os tetrazes castanhos tinham tanto sucesso, já não conseguiram ficar quietos. Como não havia árvore onde pousassem, lançaram-se ao campo de jogos, onde a urze era tão alta que apenas suas penas de cauda lindamente recurvadas e seus bicos grossos eram visíveis — e começaram a cantar: “Orr, orr, orr.”
Justamente quando os tetrazes-negros começaram a competir com os castanhos, aconteceu algo sem precedentes. Enquanto todos os animais não pensavam em outra coisa senão na brincadeira dos tetrazes, uma raposa se esgueirou devagar até a colina dos gansos selvagens. Deslizou com muita cautela e chegou bem alto na colina antes que alguém a notasse. De repente, uma gansa a avistou; e, como não podia acreditar que uma raposa se tivesse metido entre os gansos com algum bom propósito, começou a gritar: “Cuidado, gansos selvagens! Cuidado!” A raposa golpeou-lhe a garganta — talvez principalmente porque queria fazê-la calar-se —, mas os gansos selvagens já haviam ouvido o grito e todos se ergueram no ar. E, quando voaram para cima, os animais viram Smirre, a raposa, de pé na colina dos gansos selvagens, com uma gansa morta na boca.
Mas, como ele havia desse modo rompido a paz do dia de jogos, foi aplicada a Smirre, a raposa, uma punição tal que, pelo resto de seus dias, haveria de lamentar não ter conseguido dominar sua sede de vingança, mas ter tentado aproximar-se de Akka e de seu bando daquela maneira.
Foi imediatamente cercado por uma multidão de raposas e condenado de acordo com um antigo costume, que exige que todo aquele que perturba a paz no grande dia de jogos seja mandado ao exílio. Nenhuma raposa quis aliviar a sentença, pois todas sabiam que, no instante em que tentassem algo assim, seriam expulsas do campo de jogos e nunca mais teriam permissão de entrar nele. O banimento foi pronunciado contra Smirre sem oposição. Foi proibido de permanecer na Escânia. Foi banido da esposa e da parentela; dos campos de caça, da casa, dos lugares de repouso e dos refúgios que até então possuíra; e teria de tentar a sorte em terras estrangeiras. Para que todas as raposas da Escânia soubessem que Smirre fora posto fora da lei no distrito, a mais velha das raposas mordeu-lhe a ponta da orelha direita. Assim que isso foi feito, todas as raposas jovens começaram a uivar, sedentas de sangue, e se atiraram sobre Smirre. Para ele, não havia alternativa senão fugir; e, com todas as raposas jovens em perseguição ardente, disparou para longe de Kullaberg.
Tudo isso aconteceu enquanto os tetrazes-negros e os tetrazes castanhos prosseguiam com seus jogos. Mas essas aves se perdem tão completamente em seu canto que não ouvem nem veem coisa alguma. Tampouco se deixaram perturbar.
O torneio dos pássaros da floresta mal terminara quando os veados de Häckeberga avançaram para mostrar seu jogo de luta. Havia vários pares de veados combatendo ao mesmo tempo. Atiravam-se uns contra os outros com força tremenda, entrechocavam galhardamente as galhadas, de modo que suas pontas se enredavam, e tentavam empurrar-se para trás. As charnecas de urze eram revolvidas sob seus cascos; a respiração saía-lhes das narinas como fumaça; de suas gargantas arrancavam-se bramidos horrendos, e a espuma lhes escorria sobre os ombros.
Nas elevações ao redor fez-se um silêncio sem fôlego enquanto os hábeis lutadores de galhadas se agarravam. Em todos os animais despertaram-se novas emoções. Todos, sem exceção, sentiam-se corajosos e fortes; reanimados pelas forças que voltavam; renascidos com a primavera; vivos, e prontos para toda sorte de aventuras. Não sentiam inimizade uns pelos outros, embora, por toda parte, asas se erguessem, penas do pescoço se arrepiassem e garras se afiassem. Se os veados de Häckeberga tivessem continuado por mais um instante, uma luta selvagem teria irrompido nas colinas, pois todos haviam sido tomados por um ardente desejo de mostrar que também estavam cheios de vida, agora que a impotência do inverno passara e a força lhes corria pelo corpo.
Mas os veados pararam de lutar no momento exato, e logo um murmúrio passou de colina em colina:
— Os grous estão chegando!
E então vieram as aves cinzentas, vestidas de crepúsculo, com plumas nas asas e ornamentos de penas vermelhas no pescoço. As grandes aves, com suas pernas altas, suas gargantas esguias e suas pequenas cabeças, desceram deslizando pela colina com um abandono cheio de mistério. Enquanto avançavam, giravam — meio voando, meio dançando. Com as asas graciosamente erguidas, moviam-se com rapidez inconcebível. Havia algo de maravilhoso e estranho em sua dança. Era como se sombras cinzentas brincassem num jogo que os olhos mal podiam acompanhar. Era como se o houvessem aprendido com as brumas que pairam sobre os pântanos desertos. Havia feitiçaria naquilo. Todos aqueles que nunca antes tinham estado em Kullaberg compreenderam por que toda a reunião recebia o nome de dança dos grous. Havia nela selvageria; mas, ainda assim, o sentimento que despertava era uma deliciosa saudade. Ninguém pensava mais em lutar. Ao contrário, tanto os alados como os que não tinham asas queriam todos elevar-se para sempre, erguer-se acima das nuvens, buscar o que se ocultava além delas, abandonar o corpo opressivo que os puxava para a terra e alçar voo rumo ao infinito.
Essa ânsia pelo inalcançável, pelos mistérios ocultos por trás desta vida, os animais só a sentiam uma vez por ano: no dia em que contemplavam a grande dança dos grous.
Quarta-feira, 30 de março.
Foi o primeiro dia chuvoso da viagem. Enquanto os gansos selvagens permaneceram nas imediações do lago Vomb, tinham gozado de belo tempo; mas, no dia em que partiram para seguir mais ao norte, começou a chover, e durante várias horas o menino teve de ficar sentado no dorso do ganso, encharcado e tremendo de frio.
De manhã, quando partiram, o céu estava claro e ameno. Os gansos selvagens haviam voado alto no ar — de modo regular e sem pressa —, com Akka à frente, mantendo disciplina rigorosa, e os demais em duas linhas oblíquas atrás dela. Não tinham perdido tempo gritando sarcasmos espirituosos aos animais no chão; mas, como lhes era simplesmente impossível guardar silêncio completo, cantavam sem cessar — no ritmo das batidas das asas — seu chamado habitual e persuasivo:
— Onde estás? Aqui estou. Onde estás? Aqui estou.
Todos participavam daquele chamado persistente, e só paravam, de vez em quando, para mostrar ao ganso doméstico os pontos de referência sobre os quais viajavam. Entre os lugares daquela rota estavam as colinas secas de Linderödsåsen, a propriedade de Ovesholm, o campanário da igreja de Christianstad, o castelo real de Bäckaskog no estreito istmo entre o lago Oppmann e o lago Ivö, e o íngreme precipício do monte Ryss.
Fora uma viagem monótona, e, quando as nuvens de chuva apareceram, o menino achou que aquilo era uma verdadeira distração. Antigamente, quando só vira uma nuvem de chuva por baixo, imaginara que elas fossem cinzentas e desagradáveis; mas era coisa muito diferente estar lá em cima entre elas. Agora via claramente que as nuvens eram carros enormes que atravessavam os céus com cargas altíssimas. Algumas estavam empilhadas de grandes sacos cinzentos, outras de barris; algumas eram tão grandes que poderiam conter um lago inteiro; e umas poucas estavam cheias de grandes utensílios e garrafas, amontoados a uma altura imensa. E, quando tantos desses carros avançaram que encheram o céu inteiro, pareceu que alguém dera um sinal, pois, de súbito, a água começou a derramar-se sobre a terra, vinda de utensílios, barris, garrafas e sacos.
Assim que as primeiras pancadas de chuva da primavera tamborilaram no chão, ergueram-se tais gritos de alegria de todos os passarinhos dos bosques e pastagens que o ar inteiro ressoou com eles, e o menino saltou alto onde estava sentado.
— Agora teremos chuva. A chuva nos dá primavera; a primavera nos dá flores e folhas verdes; folhas verdes e flores nos dão vermes e insetos; vermes e insetos nos dão alimento; e alimento bom e abundante é a melhor coisa que existe — cantavam os pássaros.
Os gansos selvagens também se alegravam com a chuva, que vinha despertar as coisas que crescem de seu longo sono e abrir buracos nos tetos de gelo dos lagos. Já não conseguiam conservar aquela seriedade, e começaram a lançar chamados alegres sobre a vizinhança.
Quando voaram sobre os grandes campos de batatas, tão abundantes na região de Christianstad — e que ainda jaziam nus e negros —, gritaram:
— Acordem e sejam úteis! Aí vem algo que vai despertá-los. Vocês já ficaram ociosos tempo demais.
Quando viam pessoas que se apressavam para escapar da chuva, repreendiam-nas, dizendo:
— Por que tanta pressa? Não estão vendo que chovem pães de centeio e biscoitos?
Era uma névoa grande e espessa que se deslocava para o norte com rapidez, seguindo de perto os gansos. Eles pareciam pensar que arrastavam a névoa consigo; e, naquele momento, quando viram grandes pomares abaixo deles, chamaram orgulhosos:
— Aqui vimos com anêmonas; aqui vimos com rosas; aqui vimos com flores de macieira e botões de cerejeira; aqui vimos com ervilhas e feijões, nabos e repolhos. Quem quiser, que os tome. Quem quiser, que os tome.
Assim soara enquanto caíam as primeiras pancadas, e quando todos ainda se alegravam com a chuva. Mas, quando ela continuou a cair por toda a tarde, os gansos selvagens se impacientaram e gritaram às florestas sedentas ao redor do lago Ivö:
— Vocês ainda não tiveram o bastante? Ainda não tiveram o bastante?
Os céus tornavam-se cada vez mais cinzentos, e o sol se escondera tão bem que ninguém poderia imaginar onde estava. A chuva caía mais e mais depressa, e batia cada vez com mais força contra as asas, como se tentasse achar caminho entre as penas exteriores oleosas até a pele. A terra estava escondida por nevoeiros; lagos, montanhas e bosques flutuavam juntos num emaranhado indistinto, e os pontos de referência não podiam ser reconhecidos. O voo tornou-se cada vez mais lento; os gritos alegres se calaram; e o menino sentia o frio de modo cada vez mais agudo.
Ainda assim, conservara a coragem enquanto cavalgara pelo ar. E à tarde, quando pousaram debaixo de um pequeno pinheiro mirrado, no meio de um grande pântano, onde tudo estava molhado e tudo estava frio; onde algumas elevações estavam cobertas de neve, e outras se erguiam nuas numa poça de água de gelo meio derretido, mesmo então ele não se sentira desanimado, mas correra de um lado para outro de muito bom humor, caçando arandos e mirtilos congelados. Mas então veio a noite, e a escuridão desceu sobre eles tão cerrada que nem mesmo olhos como os do menino podiam atravessá-la; e toda a vastidão selvagem tornou-se estranhamente severa e terrível. O menino ficou aconchegado sob a asa do ganso doméstico, mas não conseguia dormir, porque estava frio e molhado. Ouvia tantos farfalhares, estalos, passos furtivos e vozes ameaçadoras que ficou apavorado e já não sabia para onde ir. Precisava ir a algum lugar onde houvesse luz e calor, se não quisesse morrer de susto.
“E se eu me aventurasse até onde há seres humanos, só por esta noite?”, pensou o menino. “Apenas para poder sentar-me junto ao fogo por um instante e conseguir um pouco de comida. Eu poderia voltar para os gansos selvagens antes do nascer do sol.”
Saiu rastejando de sob a asa e escorregou até o chão. Não acordou nem o ganso doméstico nem nenhum dos outros gansos, mas se esgueirou, silencioso e sem ser visto, pelo pântano.
Não sabia exatamente em que lugar da terra se encontrava: se estava em Skåne, em Småland ou em Blekinge. Mas, pouco antes de descerem no pântano, entrevira uma grande aldeia, e para lá dirigiu seus passos. Também não demorou muito até descobrir uma estrada; e logo estava na rua da aldeia, que era comprida, tinha árvores plantadas dos dois lados e era ladeada por jardim após jardim.
O menino chegara a uma dessas grandes povoações de igreja, tão comuns nas terras altas, mas quase invisíveis lá embaixo na planície.
As casas eram de madeira e construídas com muito gosto. A maioria tinha empenas e fachadas ornadas com molduras entalhadas, e portas envidraçadas, aqui e ali com um vidro colorido, abrindo-se para varandas. As paredes eram pintadas em cores claras a óleo; as portas e os caixilhos das janelas brilhavam em azuis e verdes, e até em vermelhos. Enquanto o menino caminhava por ali e observava as casas, podia ouvir, chegando até a estrada, as pessoas sentadas nas cabanas aquecidas conversando e rindo. Não conseguia distinguir as palavras, mas achou simplesmente encantador ouvir vozes humanas. “Que diriam eles se eu batesse e pedisse que me deixassem entrar?”, pensou.
Era, naturalmente, o que pretendera fazer desde o princípio, mas agora que via as janelas iluminadas, seu medo da escuridão desaparecera. Em vez disso, sentiu de novo aquela timidez que sempre o tomava agora quando estava perto de seres humanos. “Vou dar mais uma olhada pela cidade”, pensou, “antes de pedir a alguém que me acolha.”
Numa das casas havia uma sacada. E, justamente quando o menino passava, as portas foram escancaradas, e uma luz amarela atravessou as cortinas finas e transparentes. Então uma bela jovem senhora saiu à sacada e inclinou-se sobre o parapeito.
— Está chovendo; agora logo teremos primavera — disse ela.
Quando o menino a viu, sentiu uma estranha angústia. Era como se tivesse vontade de chorar. Pela primeira vez, ficou um pouco inquieto por ter-se excluído do convívio dos seres humanos.
Pouco depois, passou diante de uma loja. Do lado de fora da loja havia uma semeadora vermelha. Ele parou para olhá-la; e, por fim, trepou até o assento do condutor e sentou-se. Quando chegou lá, estalou os lábios e fingiu que estava sentado a conduzi-la. Pensou em como seria divertido ter permissão para guiar uma máquina tão bonita por um campo de cereais. Por um instante, esqueceu-se de como era agora; depois lembrou-se, e saltou depressa da máquina. Então uma inquietação ainda maior tomou conta dele. Afinal de contas, os seres humanos eram muito maravilhosos e hábeis.
Passou diante da agência dos correios, e então pensou em todos os jornais que chegavam todos os dias, com notícias dos quatro cantos da terra. Viu a farmácia e a casa do médico, e pensou no poder dos seres humanos, tão grande que eram capazes de combater a doença e a morte. Chegou à igreja. Então pensou em como os seres humanos a haviam construído para poderem ouvir falar de outro mundo além daquele em que viviam, de Deus, da ressurreição e da vida eterna. E, quanto mais andava por ali, mais gostava dos seres humanos.
Com as crianças é assim: nunca pensam mais adiante que o comprimento do próprio nariz. O que lhes está mais próximo, querem imediatamente, sem se importar com o que lhes possa custar. Nils Holgersson não compreendera o que estava perdendo quando escolheu permanecer como duende; mas agora começava a temer terrivelmente que talvez nunca mais recuperasse sua verdadeira forma.
Como, em todo o mundo, deveria proceder para tornar-se humano? Ah! como queria saber isso.
Trepou num degrau de porta e sentou-se sob a chuva torrencial, a meditar. Ficou ali uma hora inteira — duas horas inteiras —, e pensou com tanta força que sua testa se cobriu de rugas; mas não ficou nem um pouco mais sábio. Parecia que os pensamentos apenas rodavam e rodavam dentro de sua cabeça. Quanto mais tempo ficava sentado ali, mais impossível lhe parecia encontrar qualquer solução.
“Esta questão é certamente difícil demais para alguém que aprendeu tão pouco quanto eu”, pensou afinal. “Provavelmente tudo terminará comigo tendo de voltar para o meio dos seres humanos, de um jeito ou de outro. Preciso perguntar ao pastor, ao médico, ao professor e a outros que sejam instruídos, e talvez conheçam remédio para coisas assim.”
Concluiu que faria isso imediatamente, e sacudiu-se — pois estava molhado como um cão que caíra numa poça d’água.
Foi justamente então que viu uma grande coruja vir voando e pousar numa das árvores que ladeavam a rua da aldeia. No instante seguinte, uma coruja fêmea, que estava sentada sob a cornija da casa, começou a chamar:
— Kivitt, Kivitt! O senhor já está de volta, senhor Coruja-Cinzenta? Como passou lá fora?
— Obrigado, senhora Coruja-Parda. Passei muito confortavelmente — disse a coruja cinzenta. — Aconteceu algo fora do comum aqui em casa durante minha ausência?
— Não aqui em Blekinge, senhor Coruja-Cinzenta; mas em Skåne aconteceu uma coisa maravilhosa! Um menino foi transformado por um duende num trasgo não maior que um esquilo; e desde então partiu para a Lapônia com um ganso doméstico.
— Eis uma notícia notável, uma notícia notável. Ele nunca mais poderá ser humano, senhora Coruja-Parda? Nunca mais poderá ser humano?
— Isso é segredo, senhor Coruja-Cinzenta; mas o senhor vai ouvi-lo mesmo assim. O duende disse que, se o menino velar pelo ganso doméstico, de modo que ele volte para casa são e salvo, e...
— Que mais, senhora Coruja-Parda? Que mais? Que mais?
— Voe comigo até a torre da igreja, senhor Coruja-Cinzenta, e ouvirá a história inteira! Receio que possa haver alguém escutando aqui embaixo, na rua.
Com isso, as corujas levantaram voo; mas o menino atirou o boné para o ar e gritou:
— Se eu apenas velar pelo ganso doméstico, de modo que ele volte são e salvo, então me tornarei humano outra vez. Viva! Viva! Então me tornarei humano outra vez!
Gritou “viva” até parecer estranho que não o ouvissem dentro das casas — mas não ouviram, e ele correu de volta para os gansos selvagens, lá fora no pântano molhado, tão depressa quanto as pernas podiam levá-lo.
Quinta-feira, 31 de março.
No dia seguinte, os gansos selvagens pretendiam viajar para o norte através do distrito de Allbo, em Småland. Enviaram Iksi e Kaksi para espionar a terra. Mas, quando voltaram, disseram que toda a água estava congelada e toda a terra coberta de neve.
— Podemos muito bem ficar onde estamos — disseram os gansos selvagens. — Não podemos viajar por uma região onde não há nem água nem alimento.
— Se ficarmos onde estamos, talvez tenhamos de esperar aqui até a próxima lua — disse Akka. — É melhor seguirmos para leste, através de Blekinge, e ver se não conseguimos chegar a Småland pelo caminho de Möre, que fica perto da costa e tem primavera adiantada.
Assim, o menino veio a cavalgar sobre Blekinge no dia seguinte. Agora que havia luz outra vez, estava novamente de ânimo alegre, e não conseguia compreender o que lhe acontecera na noite anterior. Certamente não queria abandonar a viagem e a vida ao ar livre naquele momento.
Havia uma névoa espessa sobre Blekinge. O menino não conseguia ver como era a paisagem lá embaixo. “Pergunto-me se é uma terra boa ou pobre esta sobre a qual estou cavalgando”, pensou, e tentou vasculhar a memória em busca das coisas que ouvira sobre a região na escola. Mas, ao mesmo tempo, sabia muito bem que isso era inútil, pois nunca tivera o costume de estudar suas lições.
De súbito, o menino viu diante de si a escola inteira. As crianças sentavam-se às carteirinhas e levantavam as mãos; o professor estava na cátedra e parecia descontente; e ele mesmo se achava diante do mapa e devia responder a alguma pergunta sobre Blekinge, mas não tinha uma só palavra a dizer. O rosto do mestre tornava-se mais sombrio a cada segundo que passava, e o menino pensou que o professor fazia mais questão de que soubessem geografia do que qualquer outra coisa. Então ele desceu da cátedra, tomou a vareta das mãos do menino e mandou-o voltar ao seu lugar. “Isto não vai acabar bem”, pensou o menino naquela hora.
Mas o professor fora até uma janela, ficara ali por um momento olhando para fora, e depois assobiara baixinho para si mesmo. Então voltara à cátedra e dissera que lhes contaria alguma coisa sobre Blekinge. E aquilo de que falara então fora tão divertido que o menino escutara. Bastava-lhe parar e pensar por um instante para recordar cada palavra.
— Småland é uma casa alta com abetos no telhado — disse o professor —, e, conduzindo até ela, há uma escadaria larga com três grandes degraus; e essa escadaria se chama Blekinge. É uma escadaria bem construída. Estende-se por quarenta e duas milhas ao longo da fachada da casa de Småland, e quem desejar descer por completo até o Mar Oriental, pelo caminho dos degraus, terá vinte e quatro milhas a percorrer.
Muito tempo deve ter transcorrido desde que a escadaria foi construída. Dias e anos se passaram desde que os degraus foram talhados em pedras cinzentas e assentados — regular e suavemente —, para servir de caminho cômodo entre Småland e o Mar Oriental.
Como a escadaria é tão antiga, pode-se, naturalmente, compreender que ela não tem agora a mesma aparência que tinha quando era nova. Não sei quanto se importavam com tais assuntos naquele tempo; mas, grande como era, nenhuma vassoura poderia tê-la conservado limpa. Depois de alguns anos, musgo e líquen começaram a crescer sobre ela. No outono, folhas secas e capim seco eram soprados para cima dos degraus; e, na primavera, ela se enchia de pedras caídas e cascalho. E, como todas essas coisas ficaram ali a apodrecer, acabaram reunindo tanto solo sobre os degraus que não apenas ervas e capim, mas até arbustos e árvores puderam criar raízes ali.
Mas, ao mesmo tempo, surgiu uma grande diferença entre os três degraus. O degrau mais alto, que fica mais próximo de Småland, é em grande parte coberto de solo pobre e pedrinhas, e nenhuma árvore, exceto bétulas, cerejeiras-bravas e abetos — que suportam o frio das alturas e se contentam com pouco —, consegue prosperar lá em cima. Compreende-se melhor como é pobre e seco esse lugar quando se vê quão pequenos são os pedaços de campo arados no meio das terras de floresta; e quantas casinhas o povo constrói para si; e como é grande a distância entre as igrejas. Mas no degrau do meio há solo melhor, e ele tampouco jaz preso sob frio tão severo. Isso se percebe à primeira vista, pois as árvores são mais altas e de melhor qualidade. Ali se encontram bordos, carvalhos, tílias, bétulas-choronas e aveleiras, mas quase nenhuma árvore de cone digna de menção. E isso se nota ainda mais pela quantidade de terra cultivada que se encontra ali; e também porque as pessoas construíram para si casas grandes e belas. No degrau do meio, há muitas igrejas, com grandes povoações ao redor; e, em todos os aspectos, ele apresenta aparência melhor e mais bonita que o degrau de cima.
Mas o degrau mais baixo é o melhor de todos. Está coberto de solo bom e rico; e, ali onde jaz banhando-se no mar, não sente nem de longe o frio de Småland. Faias, castanheiros e nogueiras prosperam lá embaixo; e crescem tão grandes que se erguem acima dos telhados das igrejas. Ali também ficam os maiores campos de cereais; mas as pessoas não vivem apenas da madeira e da lavoura: também se ocupam da pesca, do comércio e da navegação. Por essa razão, encontram-se ali as residências mais custosas e as igrejas mais bonitas; e as paróquias desenvolveram-se em vilas e cidades.
— Mas não é só isso que se diz dos três degraus. Pois é preciso compreender que, quando chove sobre o telhado da grande casa de Småland, ou quando a neve derrete lá em cima, a água precisa ir para algum lugar; e então, naturalmente, muita dela se derrama pela grande escadaria. No princípio, provavelmente escorria por toda a escadaria, vasta como era; depois, apareceram fendas nela e, pouco a pouco, a água acostumou-se a correr ao lado, por sulcos bem escavados. E água é água, faça-se com ela o que se fizer. Nunca tem repouso. Num lugar, corta e desgasta; noutro, acrescenta. Esses sulcos ela escavou até transformá-los em vales, e as paredes dos vales revestiu de terra; e arbustos, árvores e cipós se agarraram a elas desde então — tão cerrados e em tamanha abundância que quase ocultam a corrente de água que serpenteia lá embaixo, no fundo. Mas, quando os riachos chegam aos patamares entre os degraus, lançam-se de cabeça sobre eles; por isso a água vem com tal ímpeto fervilhante que reúne força para mover rodas de moinho e máquinas — e também estas surgiram junto a cada queda-d’água.
— Mas isto ainda não diz tudo que se conta da terra dos três degraus. É preciso contar também que, lá em cima, na grande casa de Småland, viveu certa vez um gigante, que ficara muito velho. E, em sua extrema velhice, cansava-o ser obrigado a descer aquela longa escadaria para apanhar salmões no mar. Parecia-lhe muito mais conveniente que os salmões subissem até ele, onde morava.
— Por isso, subiu ao telhado de sua grande casa; e ali ficou, atirando pedras para dentro do Mar Oriental. Lançava-as com tanta força que elas voavam por sobre toda Blekinge e caíam no mar. E, quando as pedras desabavam, os salmões se assustavam tanto que subiam do mar e fugiam em direção aos riachos de Blekinge; corriam pelas corredeiras; arremessavam-se em altos saltos sobre as quedas-d’água, e paravam.
— Quão verdadeiro é isso pode-se ver pelo número de ilhas e pontas que se estendem ao longo da costa de Blekinge, e que nada mais são, neste mundo, senão as grandes pedras que o gigante atirou.
— Também se pode sabê-lo porque os salmões sempre sobem pelos riachos de Blekinge e abrem caminho por corredeiras e águas tranquilas, até Småland.
— Esse gigante é digno de grandes agradecimentos e muita honra por parte do povo de Blekinge; pois salmão nos riachos e corte de pedra nas ilhas significam trabalho que dá alimento a muitos deles até o dia de hoje.
Sexta-feira, 1º de abril.
Nem os gansos selvagens nem Smirre, a raposa, haviam acreditado que algum dia tornariam a se encontrar depois de deixarem Skåne. Mas aconteceu que os gansos selvagens tomaram justamente a rota por Blekinge, e para lá Smirre também se dirigira.
Até então, ele se mantivera nas partes setentrionais da província; e, como ainda não vira nenhum parque senhorial, nem terrenos de caça cheios de presas e tenros veadinhos, estava mais mal-humorado do que se pode dizer.
Certa tarde, quando Smirre vagueava pela desolada região florestal de Mellanbygden, não muito longe do rio Ronneby, viu um bando de gansos selvagens atravessar o ar. No mesmo instante, observou que um dos gansos era branco e, então, soube naturalmente com quem tinha de lidar.
Smirre começou imediatamente a caçar os gansos — tanto pelo prazer de conseguir uma boa e farta refeição quanto pelo desejo de vingar-se de toda a humilhação que eles haviam amontoado sobre ele. Viu que voavam para o leste até chegarem ao rio Ronneby. Então mudaram de rumo e seguiram o rio para o sul. Compreendeu que pretendiam procurar um lugar para dormir ao longo das margens, e pensou que conseguiria agarrar um par deles sem grande dificuldade. Mas, quando Smirre finalmente descobriu o lugar onde os gansos selvagens haviam buscado refúgio, percebeu que tinham escolhido um ponto tão bem protegido que ele não podia aproximar-se.
O rio Ronneby não é nenhuma corrente de água grande ou importante; contudo, fala-se muito dele por causa de suas belas margens. Em vários pontos, ele abre caminho entre íngremes paredões de montanha que se erguem a prumo da água e estão inteiramente cobertos de madressilvas e cerejeiras-bravas, sorveiras e vimeiros; e poucas coisas podem ser mais agradáveis do que remar pelo pequeno rio escuro, num belo dia de verão, e olhar para cima, para todo aquele verde macio que se prende às encostas ásperas da montanha.
Mas agora, quando os gansos selvagens e Smirre chegaram ao rio, fazia um frio ventoso de fim de inverno; todas as árvores estavam nuas, e provavelmente não havia ninguém que pensasse o mínimo sequer se a margem era feia ou bonita. Os gansos selvagens agradeceram à boa sorte por terem encontrado uma faixa de areia grande o bastante para ficarem de pé, numa íngreme parede de montanha. Diante deles corria o rio, forte e violento no tempo do degelo; atrás deles tinham um paredão de rocha intransponível, e galhos pendentes os protegiam. Não poderiam estar melhor.
Os gansos adormeceram imediatamente; mas o menino não conseguiu pregar olho. Assim que o sol desapareceu, foi tomado pelo medo da escuridão e pelo terror da mata bravia, e sentiu saudade dos seres humanos. Onde estava deitado — aconchegado sob a asa do ganso —, nada podia ver e quase nada podia ouvir; e pensava que, se algum mal sobreviesse ao ganso doméstico, não conseguiria salvá-lo.
Ruídos e farfalhares eram ouvidos de todas as direções, e ele ficou tão inquieto que precisou sair rastejando de sob a asa e sentar-se no chão, ao lado do ganso.
Smirre, de vista comprida, estava no cume da montanha, olhando para baixo, para os gansos selvagens.
“É melhor desistir desta perseguição de uma vez por todas”, disse consigo mesmo. “Não podes escalar uma montanha tão íngreme; não podes nadar numa torrente tão selvagem; e não há a menor faixa de terra ao pé da montanha que leve até o lugar onde dormem. Esses gansos são espertos demais para ti. Nunca mais te incomodes em caçá-los!”
Mas Smirre, como todas as raposas, achava difícil abandonar uma empresa já começada, e por isso deitou-se na ponta extrema da borda da montanha e não tirou os olhos dos gansos selvagens. Enquanto jazia ali e os vigiava, pensava em todo o mal que lhe haviam feito. Sim, fora culpa deles que ele tivesse sido expulso de Skåne e obrigado a mudar-se para a pobre Blekinge. Ali deitado, foi se inflamando a tal ponto que desejou que os gansos selvagens estivessem mortos, ainda que ele próprio não tivesse a satisfação de comê-los.
Quando o ressentimento de Smirre chegou a essa altura, ele ouviu um arranhar num grande pinheiro que crescia perto dele, e viu um esquilo descer da árvore, perseguido com ardor por uma marta. Nenhum dos dois percebeu Smirre; e ele ficou sentado, quieto, observando a perseguição, que ia de árvore em árvore. Olhou para o esquilo, que se movia entre os galhos com tanta leveza como se pudesse voar. Olhou para a marta, que não era tão habilidosa em escalar quanto o esquilo, mas ainda assim corria para cima e ao longo dos ramos com a mesma segurança como se eles fossem caminhos planos na floresta. “Se eu ao menos pudesse trepar com metade da habilidade de qualquer um deles”, pensou a raposa, “aquelas criaturas lá embaixo não dormiriam em paz por muito tempo!”
Assim que o esquilo foi capturado e a perseguição terminou, Smirre caminhou até a marta, mas parou a dois passos dela, para mostrar que não desejava enganá-la e tomar-lhe a presa. Cumprimentou-a de maneira muito amigável e desejou-lhe boa sorte com a caça. Smirre escolhia bem as palavras — como fazem sempre as raposas. A marta, ao contrário, que, com seu corpo longo e esguio, sua cabeça fina, sua pele macia e sua gola castanho-clara, parecia uma pequena maravilha de beleza — mas, na realidade, não passava de uma rude habitante da floresta —, mal lhe respondeu.
— Surpreende-me — disse Smirre — que uma caçadora tão excelente como você se contente em perseguir esquilos, quando há presa muito melhor ao alcance.
Aqui ele se calou; mas, como a marta apenas lhe mostrou os dentes com insolência, continuou:
— Será possível que você não tenha visto os gansos selvagens que estão debaixo do paredão da montanha? Ou será que não é boa escaladora o bastante para chegar até eles?
Desta vez, não precisou esperar resposta. A marta precipitou-se para ele com o dorso arqueado e cada pelo eriçado.
— Você viu gansos selvagens? — silvou ela. — Onde estão? Diga-me imediatamente, ou mordo-lhe o pescoço fora!
— Não! Lembre-se de que tenho o dobro do seu tamanho; portanto, seja um pouco educada. Nada desejo mais do que lhe mostrar os gansos selvagens.
No instante seguinte, a marta já ia descendo pela encosta íngreme; e, enquanto Smirre ficava sentado, observando como ela balançava o corpo semelhante ao de uma serpente de galho em galho, pensou:
“Aquela bela caçadora de árvores tem o coração mais perverso de toda a floresta. Creio que os gansos selvagens terão a mim a agradecer por um despertar sangrento.”
Mas, justo quando Smirre esperava ouvir o estertor de morte dos gansos, viu a marta despencar de galho em galho — e cair de chofre no rio, fazendo a água espirrar alto. Pouco depois, asas bateram forte e ruidosamente, e todos os gansos levantaram voo às pressas.
Smirre pretendia correr atrás dos gansos, mas estava tão curioso para saber como haviam sido salvos que ficou ali sentado até a marta subir, trepando de volta. A pobre criatura estava encharcada de lama, e parava de vez em quando para esfregar a cabeça com as patas dianteiras.
— Ora, não foi exatamente o que pensei? Que você era uma tola e acabaria caindo no rio? — disse Smirre, desdenhoso.
— Não agi como tola. Não precisa me repreender — disse a marta. — Eu estava sentada, toda pronta, num dos galhos mais baixos, pensando em como haveria de despedaçar um bom punhado de gansos, quando uma criaturinha, não maior que um esquilo, saltou e atirou uma pedra contra a minha cabeça com tanta força que caí na água; e, antes que eu tivesse tempo de me recompor...
A marta não precisou dizer mais nada. Já não tinha audiência. Smirre estava longe, perseguindo os gansos selvagens.
Enquanto isso, Akka voara para o sul em busca de um novo lugar para dormir. Ainda restava um pouco de claridade; além disso, a meia-lua erguia-se alta nos céus, de modo que ela podia enxergar um pouco. Felizmente, conhecia bem aquelas paragens, pois mais de uma vez acontecera de ser impelida pelo vento até Blekinge quando atravessava o Mar Oriental na primavera.
Ela seguiu o rio enquanto pôde vê-lo serpentear pela paisagem enluarada como uma cobra negra e brilhante. Desse modo chegou bem abaixo, até Djupafors — onde o rio primeiro se oculta num canal subterrâneo — e depois, claro e transparente, como se fosse feito de vidro, precipita-se por uma fenda estreita e se despedaça contra o fundo em gotas cintilantes e espuma voadora. Abaixo das quedas brancas jaziam algumas pedras, entre as quais a água se lançava numa catarata selvagem e torrencial. Ali mãe Akka pousou. Era outro bom lugar para dormir — especialmente àquela hora avançada da noite, quando nenhum ser humano andava por ali. Ao pôr do sol, dificilmente os gansos poderiam ter acampado naquele ponto, pois Djupafors não fica em nenhuma região deserta. De um lado das quedas há uma fábrica de papel; do outro — que é íngreme e coberto de árvores — fica o parque de Djupadal, onde as pessoas estão sempre passeando pelos caminhos escarpados e escorregadios para apreciar, lá embaixo na ravina, o movimento impetuoso da corrente selvagem.
Ali as coisas se passavam quase como no lugar anterior; nenhum dos viajantes pensou nem por um instante que haviam chegado a um sítio bonito e famoso. Antes pensavam que era horrendo e perigoso ficar dormindo sobre pedras molhadas e escorregadias, no meio de uma queda-d’água ribombante. Mas tinham de se contentar, desde que estivessem protegidos dos animais carnívoros.
Os gansos adormeceram imediatamente, enquanto o menino não conseguia achar repouso no sono, mas ficou sentado junto deles para velar pelo ganso doméstico.
Depois de algum tempo, Smirre veio correndo pela margem do rio. Avistou logo os gansos, que estavam de pé entre os redemoinhos espumantes, e compreendeu que também ali não conseguiria alcançá-los. Ainda assim, não conseguia decidir-se a abandoná-los, e sentou-se na margem a fitá-los. Sentia-se muito humilhado, e pensava que toda a sua reputação de caçador estava em jogo.
De repente, viu uma lontra sair rastejando das quedas, com um peixe na boca. Smirre aproximou-se dela, mas parou a dois passos, para lhe mostrar que não desejava tomar-lhe a presa.
— Você é mesmo uma criatura notável, capaz de contentar-se em apanhar um peixe quando as pedras estão cobertas de gansos! — disse Smirre.
Estava tão ansioso que não tomara tempo para arranjar as palavras com o cuidado de costume. A lontra nem sequer voltou a cabeça na direção do rio. Era uma errante — como todas as lontras — e pescara muitas vezes no lago Vomb, e provavelmente conhecia Smirre, a raposa.
— Sei muito bem como você age quando quer bajular alguém para tomar-lhe uma truta-salmão, Smirre — disse ela.
— Ah! é você, Gripe? — disse Smirre, encantado; pois sabia que aquela lontra em particular era nadadora rápida e hábil. — Não me admira que não queira olhar para os gansos selvagens, já que não consegue chegar até eles.
Mas a lontra, que tinha membranas natatórias entre os dedos, uma cauda rígida — tão boa quanto um remo — e uma pele à prova d’água, não queria que se dissesse dela que havia uma queda-d’água com a qual não fosse capaz de lidar. Virou-se para a corrente; e, assim que avistou os gansos selvagens, largou o peixe, precipitou-se pela margem íngreme e entrou no rio.
Se fosse um pouco mais tarde na primavera, de modo que os rouxinóis de Djupafors já estivessem de volta, teriam cantado por muitos dias a luta de Gripe contra a corredeira. Pois a lontra foi repelida pelas ondas muitas vezes e arrastada rio abaixo; mas abria caminho de volta, sempre com firmeza. Nadava adiante nas águas tranquilas; rastejava sobre as pedras e, pouco a pouco, chegava mais perto dos gansos selvagens. Era uma travessia perigosa, que bem poderia ter merecido o direito de ser cantada pelos rouxinóis.
Smirre acompanhava o percurso da lontra com os olhos, tão bem quanto podia. Por fim, viu que a lontra estava prestes a subir até os gansos selvagens. Mas, nesse instante, ela soltou um grito agudo e feroz. A lontra caiu de costas na água e disparou para longe como se fosse uma gatinha cega. Um momento depois, houve um grande estalar de asas de gansos. Eles se ergueram e voaram para procurar outro lugar para dormir.
A lontra logo chegou à terra. Não disse nada, mas começou a lamber uma das patas dianteiras. Quando Smirre zombou dela por não ter conseguido, ela explodiu:
— Não foi culpa da minha arte de nadar, Smirre. Eu havia corrido por todo o caminho até os gansos, e estava para subir até eles, quando uma criaturinha veio correndo e me espetou o pé com algum ferro afiado. Doeu tanto que perdi o apoio, e então a corrente me levou.
Não precisou dizer mais nada. Smirre já estava longe, a caminho dos gansos selvagens.
Mais uma vez Akka e seu bando tiveram de fazer um voo noturno. Felizmente, a lua ainda não se pusera; e, com a ajuda de sua luz, ela conseguiu encontrar outro daqueles lugares de dormir que conhecia na vizinhança. De novo seguiu o rio brilhante para o sul. Sobre a propriedade de Djupadal, e sobre os telhados escuros de Ronneby e suas quedas-d’água brancas, avançou balançando-se sem pousar. Mas um pouco ao sul da cidade, e não longe do mar, fica a fonte medicinal de Ronneby, com sua casa de banhos e sua casa da fonte; com seu grande hotel e suas casas de verão para os hóspedes das águas. Todas essas construções ficam vazias e desoladas no inverno — coisa que os pássaros sabem perfeitamente; e muitos são os bandos de aves que procuram abrigo nas balaustradas e sacadas dos edifícios desertos durante os tempos de tempestade severa.
Ali os gansos selvagens pousaram numa sacada e, como de costume, adormeceram imediatamente. O menino, ao contrário, não conseguiu dormir, porque não quisera enfiar-se sob a asa do ganso doméstico.
A sacada dava para o sul, de modo que o menino tinha diante de si uma vista do mar. E, já que não conseguia dormir, ficou ali sentado e viu como era bonito o encontro do mar e da terra, ali em Blekinge.
Vê-se que o mar e a terra podem encontrar-se de muitas maneiras diferentes. Em muitos lugares, a terra desce para o mar em prados baixos e tufados, e o mar vai ao encontro da terra com areia voadora, que se acumula em montes e dunas. Parece que ambos se desgostam tanto um do outro que desejam mostrar apenas o que possuem de mais pobre. Mas também pode acontecer que, quando a terra se aproxima do mar, erga diante de si uma muralha de colinas — como se o mar fosse algo perigoso. Quando a terra faz isso, o mar vem até ela com ira ardente, bate, ruge e açoita os rochedos, e parece que vai despedaçar a colina da terra.
Mas em Blekinge tudo é diferente quando o mar e a terra se encontram. Ali a terra se parte em pontas, ilhas e ilhotas; e o mar se divide em fiordes, baías e estreitos; e é talvez isso que faz parecer que eles se encontram em felicidade e harmonia.
Pense primeiro e antes de tudo no mar! Lá longe, ele jaz desolado, vazio e imenso, e nada tem a fazer senão rolar suas vagas cinzentas. Quando vem em direção à terra, depara-se com o primeiro obstáculo. Este ele logo subjuga; arranca tudo o que é verde e o torna tão cinzento quanto ele próprio. Então encontra ainda outro obstáculo. Com este faz a mesma coisa. E ainda outro. Sim, com este também acontece o mesmo. É despido e saqueado, como se tivesse caído nas mãos de ladrões. Então os obstáculos chegam cada vez mais próximos uns dos outros, e então o mar deve compreender que a terra lhe envia seus filhinhos menores a fim de movê-lo à piedade. Também ele se torna mais amistoso quanto mais avança para dentro; rola suas ondas menos alto; modera suas tempestades; deixa que as coisas verdes permaneçam nas fendas e rachaduras; separa-se em pequenos estreitos e enseadas, e acaba tornando-se tão inofensivo dentro da terra que pequenos barcos ousam aventurar-se sobre ele. Certamente já não consegue reconhecer a si mesmo — tão brando e amistoso se tornou.
E então pense na encosta! Ela jaz uniforme, e tem quase por toda parte a mesma aparência. Compõe-se de campos planos de cereais, com um ou outro bosque de bétulas entre eles; ou então de longos trechos de serranias cobertas de floresta. Parece que não pensou em outra coisa senão em cereais, nabos, batatas, abetos e pinheiros. Então vem um fiorde do mar que se interna profundamente nela. Ela não se incomoda com isso, mas o orla de bétulas e amieiros, como se fosse um lago comum de água doce. Depois, ainda outra onda se lança para dentro. A encosta tampouco se preocupa em inclinar-se diante desta, mas também lhe dá a mesma cobertura da primeira. Então os fiordes começam a se alargar e a se separar, recortam campos e bosques, e então a encosta não pode deixar de notá-los. “Creio que é o próprio mar que está chegando”, diz a encosta; e então começa a adornar-se. Coroa-se de flores, sobe e desce em colinas e lança ilhas ao mar. Já não se importa com pinheiros e abetos, mas os descarta como velhas roupas de todos os dias, e depois desfila com grandes carvalhos, tílias e castanheiros, e com caramanchões frondosos em flor, tornando-se tão magnífica quanto o parque de uma mansão. E, quando encontra o mar, está tão mudada que não reconhece a si mesma. Tudo isso não se pode ver muito bem antes do verão; mas, de todo modo, o menino observou como a natureza era branda e amistosa; e começou a sentir-se mais calmo do que estivera antes naquela noite. Então, de repente, ouviu um uivo agudo e feio vindo do parque da casa de banhos; e, quando se levantou, viu, ao luar branco, uma raposa parada no calçamento sob a sacada. Pois Smirre seguira os gansos selvagens mais uma vez. Mas, quando encontrou o lugar onde estavam alojados, compreendeu que era impossível alcançá-los de qualquer maneira; então não conseguira impedir-se de uivar de desgosto.
Quando a raposa uivou desse modo, a velha Akka, a gansa-chefe, despertou. Embora nada pudesse ver, pensou reconhecer a voz.
— É você que anda por aí esta noite, Smirre? — disse ela.
— Sim — disse Smirre —, sou eu; e quero perguntar o que vocês, gansos, acharam da noite que lhes proporcionei.
— Quer dizer que foi você quem mandou a marta e a lontra contra nós? — perguntou Akka.
— Um favor prestado não deve ser negado — disse Smirre. — Certa vez vocês jogaram comigo o jogo dos gansos; agora comecei a jogar com vocês o jogo da raposa; e não estou disposto a desistir enquanto um só de vocês ainda viver, mesmo que tenha de segui-los pelo mundo inteiro!
— Você, Smirre, ao menos deveria pensar se é justo que você, armado de dentes e garras, nos persiga dessa maneira; nós, que não temos defesa — disse Akka.
Smirre achou que Akka parecia assustada, e disse rapidamente:
— Se você, Akka, pegar esse Polegarzinho — que tantas vezes se opôs a mim — e atirá-lo aqui embaixo, prometo fazer as pazes com vocês. Então nunca mais perseguirei você nem nenhum dos seus.
— Não vou lhe entregar Polegarzinho — disse Akka. — Do mais jovem ao mais velho de nós, todos daríamos de bom grado a vida por ele!
— Já que gostam tanto dele — disse Smirre —, prometo que será sobre ele, antes de todos vocês, que hei de descarregar minha vingança.
Akka não disse mais nada e, depois que Smirre soltou mais alguns uivos, tudo ficou em silêncio. O menino permaneceu acordado o tempo todo. Agora eram as palavras de Akka à raposa que o impediam de dormir. Nunca havia sonhado que ouviria coisa tão grande como alguém estar disposto a arriscar a vida por sua causa. A partir daquele momento, já não se podia dizer de Nils Holgersson que ele não se importava com ninguém.
Sábado, 2 de abril.
Era uma noite de luar em Karlskrona — calma e bela. Mas, mais cedo naquele dia, houvera chuva e vento; e as pessoas deviam pensar que o mau tempo ainda continuava, pois quase nenhuma delas se aventurara pelas ruas.
Enquanto a cidade jazia assim deserta, Akka, a gansa selvagem, e seu bando vieram voando em sua direção sobre Vemmön e Pantarholmen. Haviam saído tarde da noite para procurar um lugar de dormir nas ilhas. Não podiam permanecer no interior, porque Smirre, a raposa, os perturbava em todos os lugares onde pousavam.
Quando o menino seguia lá no alto, no ar, e olhava para o mar e para as ilhas que se estendiam diante dele, pensou que tudo parecia estranho e fantasmagórico. Os céus já não eram azuis, mas o envolviam como um globo de vidro verde. O mar era branco como leite e, até onde a vista alcançava, rolavam pequenas ondas brancas, rematadas por ondulações de prata. No meio de todo aquele branco jaziam numerosas ilhotas, absolutamente negras como carvão. Fossem grandes ou pequenas, fossem lisas como prados ou cheias de rochedos, pareciam igualmente negras. Até as casas de moradia, as igrejas e os moinhos de vento, que em outras ocasiões eram brancos ou vermelhos, recortavam-se em negro contra o céu verde. O menino pensou que era como se a terra tivesse sido transformada e ele houvesse chegado a outro mundo.
Pensava que, pelo menos por aquela noite, queria ser corajoso e não ter medo — quando viu algo que de fato o assustou. Era uma ilha de altos rochedos, coberta de grandes blocos angulosos; e, entre os blocos, brilhavam pontos de ouro claro e reluzente. Ele não pôde deixar de pensar em Maglestone, junto de Trolle-Ljungby, que os trolls às vezes erguiam sobre altos pilares de ouro; e perguntou a si mesmo se aquilo não seria algo semelhante.
Mas com as pedras e o ouro talvez tudo corresse razoavelmente bem, se uma porção de coisas horríveis não estivesse espalhada ao redor da ilha. Pareciam baleias, tubarões e outros grandes monstros marinhos. Mas o menino compreendeu que eram os trolls do mar, que se haviam reunido em torno da ilha e pretendiam rastejar até ela para lutar contra os trolls da terra que ali viviam. E os da terra provavelmente estavam com medo, pois ele viu como um grande gigante se erguia no ponto mais alto da ilha e levantava os braços — como se estivesse desesperado por toda a desgraça que cairia sobre ele e sua ilha.
O menino ficou não pouco aterrorizado quando percebeu que Akka começava a descer justamente sobre aquela ilha.
— Não, pelo amor de Deus! Não devemos pousar ali — disse ele.
Mas os gansos continuaram a descer, e logo o menino se espantou de ter visto as coisas de modo tão distorcido. Em primeiro lugar, os grandes blocos de pedra nada mais eram que casas. A ilha inteira era uma cidade; e os pontos brilhantes de ouro eram lampiões de rua e vidraças iluminadas. O gigante que estava no ponto mais alto da ilha e levantava os braços era uma igreja com duas torres em cruz; todos os trolls do mar e monstros que ele julgara ver eram barcos e navios de toda espécie, ancorados ao redor da ilha. Do lado voltado para a terra havia sobretudo barcos a remo, veleiros e pequenos vapores costeiros; mas, do lado voltado para o mar, jaziam couraçados de guerra; alguns eram largos, com chaminés muito grossas e inclinadas; outros eram longos e estreitos, construídos de modo a poder deslizar pela água como peixes.
Ora, que cidade poderia ser aquela? Isso o menino conseguiu descobrir porque viu todos os navios de guerra. Durante toda a vida amara navios, embora nunca tivesse tido trato com nenhum, exceto as barquinhas que pusera a navegar nas valetas das estradas. Sabia muito bem que aquela cidade — onde tantos couraçados se encontravam — não podia ser outro lugar senão Karlskrona.
O avô do menino fora um velho marinheiro; e, enquanto vivera, falara todos os dias de Karlskrona; do grande dique dos navios de guerra e de todas as outras coisas que se podiam ver naquela cidade. O menino sentiu-se perfeitamente em casa, e alegrou-se por ver tudo aquilo de que tanto ouvira falar.
Mas teve apenas um vislumbre das torres e fortificações que guardavam a entrada do porto, e dos muitos edifícios, e do estaleiro — antes que Akka descesse sobre uma das torres achatadas da igreja.
Era um lugar bastante seguro para quem queria escapar de uma raposa, e o menino começou a perguntar a si mesmo se não poderia ousar enfiar-se sob a asa do ganso doméstico por aquela noite. Sim, podia fazê-lo em segurança. Faria bem a ele dormir um pouco. Tentaria ver mais um pouco do dique e dos navios depois que clareasse.
O próprio menino achou estranho conseguir ficar quieto e esperar até a manhã seguinte para ver os navios. Certamente não havia dormido cinco minutos antes de escapar de sob a asa e deslizar pelo para-raios e pela calha de escoamento até chegar ao chão.
Logo estava numa grande praça que se abria diante da igreja. Era coberta de pedras redondas, e para ele era tão difícil atravessá-la quanto para pessoas grandes caminhar por um prado cheio de tufos. Aqueles que estão acostumados a viver ao ar livre — ou bem longe, no campo — sempre se sentem inquietos quando chegam a uma cidade, onde as casas se erguem retas e severas, e as ruas são abertas, de modo que todos podem ver quem passa por ali. E o mesmo aconteceu com o menino. Quando ficou na grande praça de Karlskrona e olhou para a igreja alemã, para a prefeitura e para a catedral da qual acabara de descer, não pôde fazer outra coisa senão desejar estar de volta à torre, com os gansos.
Foi sorte que a praça estivesse inteiramente deserta. Não havia um ser humano por ali — a menos que contasse uma estátua que se erguia sobre um pedestal alto. O menino fitou longamente a estátua, que representava um homem grande e robusto, de chapéu de três pontas, colete comprido, calções até os joelhos e sapatos grosseiros, e perguntou a si mesmo que espécie de sujeito seria aquele. Ele segurava um longo bastão na mão, e parecia saber muito bem como usá-lo — pois tinha uma expressão terrivelmente severa, com um grande nariz adunco e uma boca feia.
— Que faz aqui essa coisa de beiço comprido? — disse o menino por fim.
Nunca se sentira tão pequeno e insignificante quanto naquela noite. Tentou animar-se um pouco dizendo algo atrevido. Depois não pensou mais na estátua, mas dirigiu-se a uma rua larga que descia para o mar.
Mas o menino não havia avançado muito quando ouviu que alguém o seguia. Alguém caminhava atrás dele, pisando no calçamento de pedra com passos pesados e golpeando o chão com um bastão duro. Soava como se o homem de bronze lá da praça tivesse saído para um passeio.
O menino escutava os passos enquanto corria pela rua, e foi ficando cada vez mais convencido de que era o homem de bronze. O chão tremia, e as casas estremeciam. Não podia ser outro senão ele que caminhava tão pesadamente, e o menino ficou tomado de pânico ao pensar no que acabara de lhe dizer. Não ousava virar a cabeça para descobrir se era ele mesmo.
“Talvez ele só tenha saído para caminhar um pouco”, pensou o menino. “Certamente não pode estar ofendido comigo pelas palavras que eu disse. Não foram de modo algum mal-intencionadas.”
Em vez de seguir em frente e tentar descer até o dique, o menino virou por uma rua lateral que levava para leste. Antes de tudo, queria afastar-se daquele que vinha marchando atrás dele.
Mas, no instante seguinte, ouviu que o homem de bronze entrara pela mesma rua; e então o menino ficou tão assustado que não sabia o que fazer de si. E como era difícil encontrar esconderijos numa cidade onde todos os portões estavam fechados! Então viu, à sua direita, uma velha igreja de madeira, situada a curta distância da rua, no centro de um grande arvoredo. Não se deteve nem por um instante para pensar, mas disparou em direção à igreja. “Se eu conseguir chegar lá, então certamente estarei protegido de todo mal”, pensou.
Enquanto corria adiante, de repente avistou um homem que estava num caminho de cascalho e lhe acenava. “Ali certamente há alguém que vai me ajudar!”, pensou o menino; ficou intensamente feliz e apressou-se naquela direção. Estava, de fato, tão amedrontado que o coração quase lhe saltava dentro do peito.
Mas, quando chegou até o homem que estava à beira do caminho de cascalho, sobre um pedestal baixo, ficou absolutamente atônito. “Ora, não pode ter sido este que acenou para mim!”, pensou; pois viu que o homem inteiro era feito de madeira.
Ficou ali parado, a fitá-lo. Era um homem atarracado, de pernas curtas, com um rosto largo e rubicundo, cabelos negros e brilhantes e uma barba preta e cheia. Na cabeça usava um chapéu de madeira; no corpo, um casaco marrom de madeira; em torno da cintura, um cinto preto de madeira; nas pernas trazia calções largos de madeira até os joelhos e meias de madeira; e, nos pés, sapatos pretos de madeira. Estava recém-pintado e recém-envernizado, de modo que cintilava e brilhava ao luar. Isso, sem dúvida, contribuía bastante para lhe dar uma aparência tão bondosa que o menino logo depositou confiança nele.
Na mão esquerda, ele segurava uma tabuleta de madeira, e nela o menino leu:
Humildemente vos peço,
embora voz me falte:
deixai cair uma moedinha,
mas levantai meu chapéu!
Ora essa! O homem era apenas uma caixa de esmolas. O menino sentiu que fora logrado. Esperara que aquilo fosse algo realmente notável. E agora se lembrou de que o avô também falara do homem de madeira, e dissera que todas as crianças de Karlskrona gostavam muito dele. E devia ser verdade, pois também ele achava difícil afastar-se do homem de madeira. Havia nele algo tão antigo que bem se poderia tomá-lo por alguém de muitas centenas de anos; e, ao mesmo tempo, parecia tão forte, audaz e animado — exatamente como se imaginaria que as pessoas fossem nos tempos de outrora.
O menino divertia-se tanto olhando para o homem de madeira que se esqueceu por completo daquele de quem fugia. Mas agora o ouviu. Ele se desviou da rua e entrou no adro da igreja. Seguira-o até ali também! Para onde o menino deveria ir?
Nesse instante, viu o homem de madeira inclinar-se para ele e estender-lhe a mão grande e larga. Era impossível crer nele senão no bem; e, com um salto, o menino ficou de pé em sua mão. O homem de madeira ergueu-o até o chapéu — e enfiou-o debaixo dele.
O menino mal acabara de se esconder, e o homem de madeira mal recolocara o braço na posição correta, quando o homem de bronze parou diante dele e bateu o bastão no chão, de modo que o homem de madeira tremeu sobre o pedestal. Em seguida, o homem de bronze disse com voz forte e ressonante:
— Quem vem a ser este?
O braço do homem de madeira subiu, fazendo ranger a velha madeira, e ele tocou a aba do chapéu ao responder:
— Rosenbom, com a permissão de Vossa Majestade. Outrora contramestre no navio de guerra Dristigheten; depois de concluído o serviço, sacristão na igreja do Almirantado — e, ultimamente, talhado em madeira e exposto no adro da igreja como caixa de esmolas.
O menino estremeceu quando ouviu o homem de madeira dizer “Vossa Majestade”. Pois agora, pensando bem, sabia que a estátua da praça representava aquele que fundara a cidade. Provavelmente não era ninguém menos que o próprio Carlos XI que ele encontrara.
— Ele dá boa conta de si — disse o homem de bronze. — Pode também dizer-me se viu um pirralho que anda correndo pela cidade esta noite? É um malandro insolente; se eu o agarrar, hei de ensinar-lhe boas maneiras!
Com isso, tornou a bater no chão com o bastão e pareceu terrivelmente zangado.
— Com a permissão de Vossa Majestade, eu o vi — disse o homem de madeira; e o menino ficou tão assustado que começou a tremer onde estava, debaixo do chapéu, olhando para o homem de bronze por uma fenda na madeira. Mas se acalmou quando o homem de madeira continuou: — Vossa Majestade está seguindo a pista errada. Aquele jovenzinho certamente pretendia correr para o estaleiro e esconder-se lá.
— Rosenbom diz isso? Pois então não fique mais parado no pedestal; venha comigo e ajude-me a encontrá-lo. Quatro olhos são melhores que dois, Rosenbom.
Mas o homem de madeira respondeu com voz lastimosa:
— Eu pediria mui humildemente que me fosse permitido ficar onde estou. Pareço elegante e bem conservado por causa da pintura, mas estou velho e mofado, e não suporto andar por aí.
O homem de bronze não era daqueles que gostavam de ser contrariados.
— Que ideias são essas? Venha comigo, Rosenbom!
Então ergueu o bastão e deu no outro uma sonora pancada no ombro.
— Rosenbom não vê que ainda se mantém inteiro?
Com isso, partiram e caminharam pelas ruas de Karlskrona — grandes e poderosos — até chegarem a um portão alto que conduzia ao estaleiro. Do lado de fora, de guarda, caminhava um dos marinheiros da armada, mas o homem de bronze passou empertigado por ele e abriu o portão com um pontapé, sem que o marinheiro fingisse notar coisa alguma.
Assim que entraram no estaleiro, viram diante de si um porto amplo e vasto, separado por pontes de estacas. Nas diferentes bacias do porto jaziam os navios de guerra, que de perto pareciam maiores e mais imponentes do que há pouco, quando o menino os vira lá de cima. “Então não era tão loucura assim imaginar que eram trolls do mar”, pensou ele.
— Por onde Rosenbom acha mais conveniente começarmos a busca? — disse o homem de bronze.
— Um ser como ele poderia esconder-se com mais facilidade no salão dos modelos — respondeu o homem de madeira.
Numa estreita faixa de terra que se estendia à direita do portão, ao longo de todo o porto, havia antigas construções. O homem de bronze dirigiu-se a um edifício de paredes baixas, janelas pequenas e telhado vistoso. Bateu na porta com o bastão até que ela se abriu de repente; e subiu pesadamente por alguns degraus gastos. Logo chegaram a um grande salão, cheio de pequenos navios aparelhados e inteiramente armados. O menino compreendeu, sem que ninguém lhe dissesse, que eram modelos dos navios construídos para a marinha sueca.
Havia navios de muitas variedades diferentes. Havia antigos navios de guerra, cujos flancos eriçavam-se de canhões, e que tinham altas estruturas à proa e à popa, e seus mastros carregados com uma rede de velas e cordames. Havia pequenos barcos de ilhas, com bancos de remo ao longo dos lados; havia chalupas canhoneiras sem convés e fragatas ricamente douradas, que eram modelos daquelas que os reis haviam usado em suas viagens. Por fim, havia também os pesados e largos navios encouraçados, com torres e canhões no convés — como os que se usam hoje em dia —, e estreitos e reluzentes torpedeiros que lembravam peixes longos e delgados.
Quando o menino foi levado por entre tudo aquilo, ficou tomado de assombro. “Imaginem que navios tão grandes e magníficos foram construídos aqui na Suécia!”, pensou consigo.
Teve bastante tempo para ver tudo o que havia ali; pois, quando o homem de bronze viu os modelos, esqueceu-se de todo o resto. Examinou-os todos, do primeiro ao último, e fez perguntas sobre eles. E Rosenbom, o contramestre do Dristigheten, contou tanto quanto sabia sobre os construtores dos navios, e sobre aqueles que os tripularam, e sobre os destinos que haviam encontrado. Falou-lhes de Chapman, de Puke e de Trolle; de Hogland e de Svensksund — seguindo até 1809 —; depois disso, não estivera mais ali.
Tanto ele quanto o homem de bronze tinham mais a dizer sobre os belos e antigos navios de madeira. Os novos couraçados eles não pareciam compreender exatamente.
— Posso ouvir que Rosenbom nada sabe dessas coisas modernas — disse o homem de bronze. — Portanto, vamos olhar outra coisa; pois isto me diverte, Rosenbom.
A essa altura, ele já havia abandonado por completo a busca pelo menino, que se sentia calmo e seguro onde estava sentado dentro do chapéu de madeira.
Em seguida, os dois homens percorreram o grande estabelecimento: oficinas de velas, ferraria de âncoras, oficinas de máquinas e de carpintaria. Viram os guindastes de mastros e os diques; os grandes armazéns, o arsenal, a ponte das cordas e o grande dique desativado que fora aberto na rocha com explosivos. Saíram pelas pontes de estacas, onde os navios da armada estavam atracados, subiram a bordo e os examinaram como dois velhos lobos-do-mar; admiraram-se, desaprovaram, aprovaram e se indignaram.
O menino estava em segurança sob o chapéu de madeira, e ouviu tudo sobre como haviam trabalhado e lutado naquele lugar para equipar as frotas que dali haviam partido. Ouviu como vida e sangue haviam sido arriscados; como a última moeda fora sacrificada para construir os navios de guerra; como homens hábeis haviam tensionado todas as suas forças para aperfeiçoar aqueles navios que tinham sido a salvaguarda de sua pátria. Por duas vezes, as lágrimas vieram aos olhos do menino ao ouvir tudo aquilo.
Por último, entraram num pátio aberto, onde estavam agrupadas as figuras de proa dos antigos navios de guerra; e visão mais notável o menino jamais contemplara, pois essas figuras tinham rostos inconcebivelmente poderosos e aterradores. Eram grandes, destemidas e ferozes: cheias do mesmo espírito altivo que havia equipado os grandes navios. Vinham de outro tempo que não o seu. Ele sentiu que se encolhia diante delas.
Mas, quando chegaram ali, o homem de bronze disse ao homem de madeira:
— Tire o chapéu, Rosenbom, diante daqueles que estão aqui! Todos eles lutaram pela pátria.
E Rosenbom — como o homem de bronze — havia esquecido por que tinham começado aquela caminhada. Sem pensar, levantou o chapéu de madeira da cabeça e bradou:
— Tiro meu chapéu àquele que escolheu o porto, fundou o estaleiro e recriou a marinha; ao monarca que despertou tudo isto para a vida!
— Obrigado, Rosenbom! Isso foi bem dito. Rosenbom é um homem excelente. Mas que é isto, Rosenbom?
Pois ali estava Nils Holgersson, bem no alto da cabeça calva de Rosenbom. Já não sentia medo; ergueu o capuz branco de trenó e gritou:
— Viva você, Beiçudo!
O homem de bronze golpeou o chão com força com o bastão; mas o menino nunca ficou sabendo o que ele pretendia fazer, pois agora o sol subiu, e, ao mesmo tempo, tanto o homem de bronze quanto o homem de madeira desapareceram — como se fossem feitos de brumas. Enquanto ele ainda estava ali, olhando para o lugar onde haviam sumido, os gansos selvagens levantaram voo da torre da igreja e oscilaram de um lado para outro sobre a cidade. No mesmo instante, avistaram Nils Holgersson; e então o grande ganso branco precipitou-se do céu e foi buscá-lo.
Domingo, 3 de abril.
Os gansos selvagens foram alimentar-se numa ilha arborizada. Ali por acaso encontraram alguns gansos cinzentos, que ficaram surpresos ao vê-los — pois sabiam muito bem que seus parentes, os gansos selvagens, costumam viajar pelo interior do país.
Eram curiosos e indagadores, e não se dariam por satisfeitos com menos do que ouvir os gansos selvagens lhes contarem tudo sobre a perseguição que tinham de suportar de Smirre, a raposa. Quando eles terminaram, uma gansa cinzenta, que parecia tão velha e tão sábia quanto a própria Akka, disse:
— Foi uma grande desgraça para vocês que Smirre, a raposa, tenha sido declarado fora da lei em sua própria terra. Ele certamente manterá a palavra e seguirá vocês por todo o caminho até a Lapônia. Se eu estivesse no lugar de vocês, não viajaria para o norte por Småland, mas tomaria a rota de fora por Öland, para que ele perca inteiramente o rastro. Para realmente despistá-lo, vocês devem permanecer por alguns dias na ponta sul de Öland. Ali encontrarão muito alimento e muita companhia. Não creio que se arrependerão se forem para lá.”
Era certamente um conselho muito sensato, e os gansos selvagens resolveram segui-lo. Assim que comeram tudo quanto podiam comportar, partiram para a viagem a Öland. Nenhum deles estivera lá antes, mas a gansa cinzenta lhes dera excelentes indicações. Tinham apenas de seguir diretamente para o sul até chegarem a uma grande rota de aves, que se estendia por toda a costa de Blekinge. Todas as aves que tinham morada de inverno junto ao Mar do Oeste, e que agora pretendiam viajar para a Finlândia e a Rússia, voavam por ali — e, ao passarem, tinham sempre o costume de parar em Öland para descansar. Os gansos selvagens não teriam dificuldade em encontrar guias.
Naquele dia o tempo estava perfeitamente calmo e quente — como um dia de verão —, o melhor tempo do mundo para uma viagem pelo mar. A única coisa grave era que não estava inteiramente claro, pois o céu se mostrava cinzento e velado. Aqui e ali havia enormes nuvens de névoa que pendiam bem baixo até a borda exterior do mar e obstruíam a vista.
Quando os viajantes se afastaram da ilha arborizada, o mar estendeu-se tão liso e espelhado que o menino, ao olhar para baixo, pensou que a água havia desaparecido. Já não havia terra alguma sob ele. Nada tinha ao redor senão névoa e céu. Ficou muito tonto e agarrou-se com força ao dorso do ganso, mais assustado do que quando se sentara ali pela primeira vez. Parecia-lhe que não poderia de modo algum se manter preso; tinha de cair para algum lado.
Foi ainda pior quando alcançaram a grande rota de aves de que a gansa cinzenta falara. De fato, vinha bando após bando voando exatamente na mesma direção. Pareciam seguir um caminho fixo. Havia patos e gansos cinzentos, patos-negros e airos, mergulhões e patos-rabudos, serretas, mergulhões-de-crista, ostraceiros e tetrazes-do-mar. Mas agora, quando o menino se inclinava para a frente e olhava na direção onde o mar deveria estar, via toda a procissão de aves refletida na água. Estava, porém, tão tonto que não compreendia como aquilo acontecia: pensou que toda a procissão de aves voava de barriga para cima. Ainda assim, não se admirou tanto disso, pois ele próprio já não sabia o que era em cima e o que era embaixo.
As aves estavam exaustas e impacientes para avançar. Nenhuma delas gritava nem dizia coisa engraçada, e isso fazia tudo parecer singularmente irreal.
“E se tivermos viajado para longe da terra?”, disse consigo. “E se estivermos a caminho do céu?”
Nada via ao redor senão brumas e aves, e começou a achar razoável que estivessem viajando em direção ao céu. Alegrou-se e perguntou a si mesmo o que veria lá em cima. A tontura passou de uma só vez. Sentia-se extraordinariamente feliz ao pensar que estava a caminho do céu e deixava esta terra.
Foi mais ou menos então que ouviu dois tiros fortes e viu duas colunas brancas de fumaça subirem.
Houve um súbito despertar, e inquietação entre as aves.
— Caçadores! Caçadores! — gritavam. — Voem alto! Fujam!
Então o menino viu, afinal, que viajavam o tempo todo sobre a costa do mar, e que certamente não estavam no céu. Em longa fileira jaziam pequenos barcos cheios de caçadores, que disparavam tiro após tiro. Os bandos de aves mais próximos não os haviam percebido a tempo. Tinham voado baixo demais. Vários corpos escuros afundaram em direção ao mar; e, por cada um que caía, erguiam-se gritos de angústia entre os vivos.
Era estranho, para alguém que havia pouco acreditara estar no céu, despertar de repente para tanto medo e lamentação. Akka lançou-se para as alturas tão depressa quanto pôde, e o bando a seguiu com a maior velocidade possível. Os gansos selvagens conseguiram sair do perigo, mas o menino não conseguia vencer seu espanto. “Pensar que alguém pudesse querer atirar em seres como Akka, Yksi e Kaksi, e o ganso doméstico, e os outros! Os seres humanos não faziam ideia do que faziam.”
Assim prosseguiram outra vez, no ar imóvel, e tudo ficou tão quieto quanto antes — com a diferença de que algumas das aves cansadas chamavam de vez em quando:
— Ainda falta muito? Vocês têm certeza de que estamos no caminho certo?
Ao que aqueles que voavam no centro respondiam:
— Estamos voando direto para Öland; direto para Öland.
Os gansos cinzentos estavam exaustos, e os mergulhões voavam ao redor deles.
— Não tenham tanta pressa! — gritavam os patos. — Vocês vão comer todo o alimento antes de chegarmos lá.
— Ora, haverá bastante para vocês e para nós — respondiam os mergulhões.
Antes que tivessem avançado o bastante para avistar Öland, veio contra eles um vento leve. Trazia consigo algo que se assemelhava a imensas nuvens de fumaça branca — como se houvesse um grande incêndio em algum lugar.
Quando as aves viram os primeiros redemoinhos brancos de bruma, ficaram inquietas e aumentaram a velocidade. Mas aquilo que parecia fumaça soprava cada vez mais espesso e, por fim, envolveu-as por completo. Não sentiram cheiro de fumaça; e a fumaça não era escura nem seca, mas branca e úmida. De repente, o menino compreendeu que não passava de neblina.
Quando a neblina se tornou tão espessa que não se podia enxergar um comprimento de ganso adiante, as aves começaram a portar-se como verdadeiras loucas. Todas aquelas que antes haviam viajado em ordem tão perfeita começaram a brincar na neblina. Voavam para cá e para lá, a fim de desencaminhar umas às outras.
— Cuidado! — gritavam. — Vocês só estão voando em círculos. Voltem, pelo amor de Deus! Assim nunca chegarão a Öland.
Todas sabiam perfeitamente onde ficava a ilha, mas faziam o possível para desviar umas às outras.
— Vejam aquelas alvéolas! — ecoava na neblina. — Estão voltando para o Mar do Norte!
— Cuidado, gansos selvagens! — guinchou alguém de outra direção. — Se continuarem assim, vão parar lá em Rügen.
Não havia, naturalmente, perigo de que as aves acostumadas a viajar por ali se deixassem atrair para uma direção errada. Mas aqueles que passavam por dificuldades eram os gansos selvagens. Os zombadores perceberam que eles não estavam seguros do caminho e fizeram tudo quanto podiam para confundi-los.
— Para onde pretendem ir, boa gente? — chamou um cisne.
Ele chegou bem perto de Akka e olhou-a com ar simpático e sério.
— Devemos viajar para Öland; mas nunca estivemos lá antes — disse Akka.
Ela pensou que aquela era uma ave em quem se podia confiar.
— Que pena — disse o cisne. — Eles os atraíram na direção errada. Vocês estão no caminho de Blekinge. Venham comigo, e eu os porei no rumo certo!
E assim voou à frente deles; e, quando os levou tão longe da rota que já não ouviam chamado algum, desapareceu na neblina.
Voaram ao acaso por algum tempo. Mal haviam conseguido encontrar outra vez as aves, quando um pato se aproximou deles.
— O melhor é pousarem na água até que a neblina se dissipe — disse o pato. — É evidente que vocês não estão acostumados a cuidar de si mesmos em viagens.
Aqueles tratantes conseguiram fazer a cabeça de Akka rodar. Tanto quanto o menino pôde perceber, os gansos selvagens voaram em círculos por muito tempo.
— Cuidado! Não veem que estão voando de cabeça para baixo? — gritou um mergulhão ao passar como um raio.
O menino agarrou-se positivamente ao pescoço do ganso doméstico. Era algo que ele temia havia muito tempo.
Ninguém sabe quando teriam chegado, se não tivessem ouvido ao longe um som rolante e abafado.
Então Akka esticou o pescoço, bateu as asas com força e lançou-se adiante a toda velocidade. Agora tinha algo por que se guiar. A gansa cinzenta lhe dissera que não pousasse na ponta sul de Öland, porque ali havia um canhão que as pessoas usavam para atirar contra a neblina. Agora ela sabia o caminho, e agora ninguém no mundo haveria de desencaminhá-la outra vez.
3 a 6 de abril.
Na parte mais meridional de Öland fica uma propriedade real chamada Ottenby. É uma herdade bastante grande, que se estende de costa a costa, diretamente através da ilha; e é notável porque sempre foi refúgio de grandes companhias de aves. No século XVII, quando os reis costumavam ir a Öland para caçar, a propriedade inteira não passava de um parque de cervos. No século XVIII havia ali uma coudelaria, onde se criavam cavalos de corrida de puro-sangue; e uma criação de ovelhas, onde se mantinham várias centenas delas. Em nossos dias, não se encontram em Ottenby nem cavalos de raça nem ovelhas. Em lugar deles vivem grandes manadas de cavalos jovens, que serão usados pela cavalaria.
Em toda a terra certamente não há lugar que pudesse ser melhor morada para animais. Ao longo da extrema costa oriental fica o antigo prado das ovelhas, com uma milha e meia de comprimento, o maior prado de toda Öland, onde os animais podem pastar, brincar e correr, tão livres como se estivessem numa região selvagem. E ali se encontra o célebre bosque de Ottenby, com seus carvalhos centenários, que dão sombra contra o sol e abrigo contra os severos ventos de Öland. E não devemos esquecer o longo muro de Ottenby, que se estende de costa a costa e separa Ottenby do restante da ilha, para que os animais saibam até onde se estende a antiga propriedade real e tomem cuidado para não entrar em outro terreno, onde não estão tão bem protegidos.
Encontram-se muitos animais mansos em Ottenby, mas não é só isso. Quase se poderia crer que os selvagens também sentiam que, numa antiga propriedade da coroa, tanto os bravos como os domesticados podiam contar com abrigo e proteção — pois se aventuravam ali em tão grande número.
Além disso, ainda restam alguns cervos da velha linhagem; e patos-de-toca e perdizes gostam de viver ali, e a propriedade oferece lugar de descanso, na primavera e no fim do verão, para milhares de aves migratórias. Acima de tudo, é na costa oriental pantanosa, abaixo do prado das ovelhas, que as aves migratórias pousam para descansar e alimentar-se.
Quando os gansos selvagens e Nils Holgersson finalmente encontraram o caminho para Öland, desceram, como todos os demais, na margem próxima ao prado das ovelhas. A neblina jazia espessa sobre a ilha, tal como estivera sobre o mar. Mas ainda assim o menino se admirou com todas as aves que conseguiu distinguir, apenas no pequeno e estreito trecho de margem que podia ver.
Era uma costa baixa e arenosa, com pedras e poças, e grande quantidade de algas arrojadas pelo mar. Se fosse permitido ao menino escolher, não é provável que lhe ocorresse pousar ali; mas as aves provavelmente viam aquilo como um verdadeiro paraíso. Patos e gansos andavam pelo prado e se alimentavam; mais perto da água, corriam narcejas e outras aves costeiras. Os mergulhões jaziam no mar e pescavam, mas a vida e o movimento estavam nos longos bancos de algas ao longo da costa. Ali as aves ficavam lado a lado, bem juntas, catando larvas — que deviam existir ali em quantidade ilimitada, pois era muito evidente que nunca havia queixa por falta de alimento.
A grande maioria seguiria viagem e pousara apenas para um breve descanso; e, assim que o chefe de um bando achava que seus companheiros já haviam se recuperado o suficiente, dizia:
— Se já estão prontos, podemos muito bem prosseguir.
— Não, espere, espere! Ainda não tivemos nem de longe o bastante — diziam os seguidores.
— Vocês certamente não acreditam que eu pretenda deixá-los comer tanto que depois não consigam se mexer — dizia o chefe, batia as asas e partia.
Ao longo dos bancos de algas mais exteriores jazia um bando de cisnes. Eles não se davam ao trabalho de ir à terra, mas descansavam deitados, embalando-se sobre a água. De vez em quando mergulhavam os pescoços e traziam alimento do fundo do mar. Quando conseguiam agarrar algo muito bom, entregavam-se a fortes brados que soavam como toques de trombeta.
Quando o menino ouviu dizer que havia cisnes nos baixios, correu para os bancos de algas. Nunca antes vira cisnes selvagens de perto. Teve a sorte a seu favor, de modo que conseguiu chegar bem próximo deles.
O menino não foi o único que ouviu os cisnes. Tanto os gansos selvagens quanto os gansos cinzentos e os mergulhões nadaram entre os bancos, dispuseram-se em círculo ao redor dos cisnes e ficaram a fitá-los. Os cisnes eriçavam as penas, erguiam as asas como velas e levantavam o pescoço alto no ar. De vez em quando, um ou outro nadava até um ganso, ou um grande mergulhão, ou um pato mergulhador, e lhe dizia algumas palavras. E então parecia que aquele a quem se dirigiam mal ousava erguer o bico para responder.
Mas havia ali um pequeno mergulhão — uma coisinha travessa e endiabrada — que não suportava toda aquela cerimônia. Mergulhou de repente e desapareceu sob a superfície da água. Pouco depois, um dos cisnes soltou um grito e afastou-se nadando tão depressa que a água espumou. Então parou e tornou a parecer majestoso. Mas logo outro gritou do mesmo modo que o primeiro, e depois um terceiro.
O pequeno mergulhão já não podia permanecer mais tempo debaixo d’água, e apareceu na superfície, miúdo, negro e venenoso. Os cisnes precipitaram-se em sua direção; mas, quando viram que coisa pobre e pequena ele era, voltaram-se bruscamente — como se se julgassem bons demais para brigar com ele. Então o pequeno mergulhão mergulhou de novo e lhes beliscou os pés. Certamente devia doer; e o pior de tudo era que eles não conseguiam conservar a dignidade. De pronto, tomaram uma resolução firme. Começaram a bater o ar com as asas, de modo que trovejava; avançaram um pouco — como se corressem sobre a água —, apanharam vento sob as asas e se elevaram.
Quando os cisnes se foram, fizeram grande falta; e aqueles que havia pouco se divertiam com as travessuras do pequeno mergulhão repreenderam-no por sua imprudência.
O menino caminhou de volta para a terra. Ali se postou para ver como brincavam as narcejas-das-poças. Pareciam pequenas cegonhas; como estas, tinham corpinhos, pernas e pescoços compridos, e movimentos leves e oscilantes; só que não eram cinzentas, mas pardas. Ficavam em longa fileira na margem, onde as ondas a lavavam. Assim que uma onda avançava, toda a fileira corria para trás; assim que ela recuava, seguiam-na. E continuavam nisso durante horas.
As mais vistosas de todas as aves eram os patos-de-toca. Sem dúvida eram aparentados aos patos comuns; pois, como estes, também tinham corpo atarracado, bico largo e pés palmados; mas estavam muito mais ricamente enfeitados. A própria veste de penas era branca; em torno do pescoço traziam uma larga faixa dourada; o espelho das asas brilhava em verde, vermelho e negro; as bordas das asas eram pretas, e a cabeça, verde-escura, cintilava como cetim.
Assim que algum deles aparecia na praia, os outros diziam:
— Ora, vejam só aquelas criaturas! Sabem se emperiquitar.
— Se não fossem tão chamativos, não precisariam cavar os ninhos na terra, mas poderiam pôr os ovos acima do chão, como qualquer um — disse uma pata-real parda.
— Podem tentar o quanto quiserem, ainda assim nunca chegarão a lugar algum com esses narizes — disse uma gansa cinzenta.
E isso era de fato verdade. Os patos-de-toca tinham uma grande saliência na base do bico, que lhes estragava a aparência.
Perto da margem, gaivotas e andorinhas-do-mar avançavam pela água e pescavam.
— Que espécie de peixe vocês estão pegando? — perguntou uma gansa selvagem.
— É um esgana-gato. É esgana-gato de Öland. É o melhor esgana-gato do mundo — disse uma gaivota. — Não quer provar?
E voou até a gansa, com a boca cheia dos peixinhos, querendo oferecer-lhe alguns.
— Arre! Você acha que eu como semelhante imundície? — disse a gansa selvagem.
Na manhã seguinte, o tempo continuava igualmente nublado. Os gansos selvagens caminhavam pelo prado e se alimentavam; mas o menino fora à beira-mar recolher mexilhões. Havia muitos; e, quando pensou que no dia seguinte talvez estivessem em algum lugar onde não conseguissem alimento algum, resolveu tentar fazer para si uma pequena bolsa, que pudesse encher de mexilhões. Encontrou no prado uma velha ciperácea, forte e resistente; e com ela começou a trançar uma mochila. Trabalhou nisso por várias horas, mas ficou bem satisfeito quando a terminou.
À hora do jantar, todos os gansos selvagens vieram correndo e lhe perguntaram se vira alguma coisa do ganso doméstico branco.
— Não, ele não esteve comigo — disse o menino.
— Ele estava conosco o tempo todo até há pouco — disse Akka —, mas agora já não sabemos onde pode ser encontrado.
O menino saltou de pé, terrivelmente assustado. Perguntou se alguma raposa ou águia aparecera, ou se algum ser humano fora visto nas redondezas. Mas ninguém notara nada perigoso. O ganso doméstico provavelmente se perdera na neblina.
Mas era uma desgraça igualmente grande para o menino, fosse qual fosse a maneira como o branco se perdera, e ele partiu imediatamente à sua procura. A neblina o protegia, de modo que podia correr por onde quisesse sem ser visto, mas também o impedia de enxergar. Correu para o sul ao longo da margem — até o farol e o canhão da neblina, na ponta extrema da ilha. Era a mesma confusão de aves por toda parte, mas nada do ganso doméstico. Aventurou-se até a propriedade de Ottenby e vasculhou cada um dos velhos carvalhos ocos do bosque de Ottenby, mas não viu nenhum vestígio do ganso doméstico.
Procurou até começar a escurecer. Então teve de voltar outra vez para a costa oriental. Caminhava com passos pesados, terrivelmente abatido. Não sabia o que seria dele se não conseguisse encontrar o ganso doméstico. Não havia ninguém de quem pudesse abrir menos mão.
Mas, quando vagava pelo prado das ovelhas, que era aquela grande coisa branca que vinha em sua direção no meio da neblina, senão o ganso doméstico? Ele estava bem, e muito contente por, afinal, ter conseguido encontrar o caminho de volta para os outros. A neblina o deixara tão tonto, disse ele, que ficara perambulando pelo grande prado o dia inteiro. O menino lançou os braços ao redor de seu pescoço, de pura alegria, e pediu-lhe que tomasse cuidado consigo e não se afastasse dos outros. E ele prometeu, positivamente, que nunca mais faria aquilo. Não, nunca mais.
Mas, na manhã seguinte, quando o menino desceu à praia e procurava mexilhões, os gansos vieram correndo e perguntaram se vira o ganso doméstico. Não, é claro que não vira.
— Pois então o ganso doméstico se perdeu outra vez. Desgarrara-se na neblina, exatamente como fizera no dia anterior.
O menino saiu correndo em grande terror e começou a procurar. Encontrou um ponto onde o muro de Ottenby estava tão desmoronado que podia escalá-lo. Depois, andou primeiro pela costa, que pouco a pouco se alargava e se tornava tão grande que havia espaço para campos, prados e fazendas — depois subiu ao planalto raso, que ficava no meio da ilha, onde não havia construções exceto moinhos de vento, e onde a relva era tão fina que o calcário branco brilhava por baixo dela.
Enquanto isso, não conseguia encontrar o ganso doméstico; e, à medida que a tarde se aproximava, e o menino precisava voltar à praia, não conseguia acreditar em outra coisa senão que seu companheiro de viagem estava perdido. Estava tão deprimido que não sabia o que fazer de si mesmo.
Mal havia tornado a escalar o muro quando ouviu uma pedra desabar perto dele. Ao voltar-se para ver o que era, pareceu-lhe distinguir algo que se movia sobre um monte de pedras junto ao muro. Esgueirou-se para mais perto, e viu o ganso doméstico avançar penosamente sobre o monte de pedras, com várias fibras compridas no bico. O ganso doméstico não viu o menino, e o menino não o chamou, mas achou prudente descobrir primeiro por que o ganso doméstico desaparecia dessa maneira repetidas vezes.
E logo soube a razão. Lá em cima, no monte de pedras, jazia uma jovem gansa cinzenta, que gritou de alegria quando o ganso doméstico chegou. O menino aproximou-se rastejando, de modo que pôde ouvir o que diziam; então descobriu que a gansa cinzenta fora ferida numa asa, de modo que não podia voar, e que seu bando viajara sem ela, deixando-a sozinha. Ela estivera às portas da morte pela fome quando o ganso doméstico branco ouvira seu chamado, no outro dia, e fora procurá-la. Desde então, ele lhe levava alimento. Ambos haviam esperado que ela se restabelecesse antes que partissem da ilha, mas, até então, ela não podia nem voar nem andar. Estava muito preocupada com isso, mas ele a consolava com o pensamento de que não viajaria por um bom tempo. Por fim, despediu-se dela e prometeu voltar no dia seguinte.
O menino deixou o ganso doméstico ir; e, assim que ele se afastou, esgueirou-se por sua vez até o monte de pedras. Estava zangado por ter sido enganado, e agora queria dizer àquela gansa cinzenta que o ganso doméstico era sua propriedade. Ele devia levar o menino até a Lapônia, e não se falaria em ele ficar ali por causa dela. Mas agora, quando viu a jovem gansa cinzenta de perto, compreendeu não só por que o ganso doméstico fora levar-lhe alimento durante dois dias, mas também por que não desejara mencionar que a ajudara. Ela tinha a cabecinha mais bonita; sua plumagem era como cetim macio, e os olhos eram suaves e suplicantes.
Quando viu o menino, quis fugir; mas a asa esquerda estava fora do lugar e arrastava-se pelo chão, de modo que lhe atrapalhava os movimentos.
— Você não deve ter medo de mim — disse o menino, e não parecia nem de longe tão zangado quanto pretendia parecer. — Sou Polegarzinho, companheiro de Morten, o ganso doméstico — continuou.
Então ficou ali parado, sem saber o que queria dizer.
Às vezes se encontra alguma coisa entre os animais que faz a gente se perguntar que espécie de criaturas eles realmente são. Quase se teme que possam ser seres humanos transformados. Algo assim acontecia com a gansa cinzenta. Assim que Polegarzinho disse quem era, ela baixou o pescoço e a cabeça diante dele com muito encanto, e disse numa voz tão bonita que ele mal podia acreditar que fosse uma gansa quem falava:
— Fico muito feliz por você ter vindo aqui para me ajudar. O ganso doméstico branco me disse que ninguém é tão sábio e tão bom quanto você.
Ela disse isso com tanta dignidade que o menino ficou realmente embaraçado. “Isto certamente não pode ser uma ave”, pensou ele. “É sem dúvida alguma princesa encantada.”
Encheu-se de desejo de ajudá-la, passou a mão por baixo das penas e apalpou o osso da asa. O osso não estava quebrado, mas havia algo errado na articulação. Ele enfiou o dedo na cavidade vazia.
— Agora, tenha cuidado! — disse.
E agarrou com firmeza o tubo do osso e encaixou-o no lugar onde devia estar. Fez isso muito depressa e bem, considerando que era a primeira vez que tentava algo do gênero. Mas deve ter doído muito, pois a pobre jovem gansa soltou um único grito agudo e então caiu entre as pedras sem dar sinal de vida.
O menino ficou terrivelmente assustado. Quisera apenas ajudá-la, e agora ela estava morta. Deu um grande salto para fora do monte de pedras e saiu correndo. Sentia como se tivesse assassinado um ser humano.
Na manhã seguinte, o tempo estava claro e livre de neblina, e Akka disse que agora deviam continuar viagem. Todos os outros estavam dispostos a partir, mas o ganso doméstico branco arranjou desculpas. O menino compreendeu muito bem que ele não queria deixar a gansa cinzenta. Akka não lhe deu ouvidos, e partiu.
O menino saltou para as costas do ganso doméstico, e o branco seguiu o bando — ainda que devagar e de má vontade. O menino ficou imensamente contente por poderem voar para longe da ilha. Tinha a consciência pesada por causa da gansa cinzenta, e não quisera contar ao ganso doméstico o que acontecera quando tentara curá-la. Provavelmente seria melhor que Morten, o ganso doméstico, jamais viesse a saber disso, pensou; embora, ao mesmo tempo, se perguntasse como o branco tivera coração para abandonar a gansa cinzenta.
Mas, de repente, o ganso doméstico voltou-se. O pensamento na jovem gansa cinzenta o vencera. Que se danasse a viagem à Lapônia: ele não podia seguir com os outros sabendo que ela jazia sozinha e doente, e que morreria de fome.
Com algumas batidas de asa, estava sobre o monte de pedras; mas ali, entre as pedras, não havia nenhuma jovem gansa cinzenta.
— Dunfin! Dunfin! Onde estás? — chamou o ganso doméstico.
“A raposa provavelmente esteve aqui e a levou”, pensou o menino. Mas, nesse momento, ouviu uma voz bonita responder ao ganso doméstico:
— Aqui estou, ganso doméstico; aqui estou! Eu apenas estava tomando um banho matinal.
E da água surgiu a pequena gansa cinzenta — fresca e em boa forma —, e contou como Polegarzinho lhe havia recolocado a asa no lugar, e que estava inteiramente curada, e pronta para segui-los na viagem.
As gotas de água jaziam como orvalho de pérolas sobre suas penas cintilantes, semelhantes a cetim, e Polegarzinho pensou mais uma vez que ela era uma verdadeira princesinha.
Quarta-feira, 6 de abril.
Os gansos viajavam ao longo da costa da longa ilha, que se mostrava nitidamente visível debaixo deles. O menino sentia-se feliz e leve de coração durante a viagem. Estava tão satisfeito e contente quanto estivera sombrio e deprimido no dia anterior, quando vagava lá embaixo pela ilha procurando o ganso doméstico.
Via agora que o interior da ilha consistia num alto planalto árido, com uma grinalda de terra fértil ao longo da costa; e começou a compreender o sentido de algo que ouvira na outra noite.
Acabara de se sentar para descansar um pouco junto a um dos muitos moinhos de vento no planalto, quando um par de pastores apareceu com os cães ao lado e um grande rebanho de ovelhas em seu encalço. O menino não teve medo, porque estava bem escondido sob a escada do moinho. Mas aconteceu que os pastores vieram sentar-se na mesma escada, e então não lhe restou nada a fazer senão ficar perfeitamente quieto.
Um dos pastores era jovem e tinha mais ou menos a aparência comum das pessoas; o outro era um velho esquisito. Seu corpo era grande e nodoso, mas a cabeça era pequena, e o rosto tinha traços sensíveis e delicados. Parecia que o corpo e a cabeça não combinavam de modo algum.
Por um momento ficou sentado em silêncio, contemplando a névoa com uma expressão indizivelmente cansada. Depois começou a falar com seu companheiro. Então o outro tirou pão e queijo de sua mochila para comer a refeição da noite. Quase nada respondia, mas escutava com muita paciência, como se pensasse: “Posso muito bem lhe dar o prazer de deixá-lo tagarelar um pouco.”
— Agora vou lhe contar uma coisa, Eric — disse o velho pastor. — Cheguei à conclusão de que, em tempos antigos, quando tanto os seres humanos quanto os animais eram muito maiores do que são agora, as borboletas também deviam ser extraordinariamente grandes. E houve certa vez uma borboleta que tinha muitas milhas de comprimento, e asas tão largas quanto mares. Essas asas eram azuis e brilhavam como prata, e tão magníficas que, quando a borboleta saía voando, todos os outros animais paravam e ficavam a olhá-la. Ela tinha, porém, este inconveniente: era grande demais. As asas trabalhavam duramente para carregá-la. Mas provavelmente tudo teria corrido muito bem se a borboleta tivesse sido sensata o bastante para permanecer na encosta. Mas não foi; aventurou-se para fora, sobre o Mar Oriental. E não havia avançado muito quando veio a tempestade e começou a rasgar-lhe as asas. Bem, é fácil compreender, Eric, como as coisas haveriam de acontecer quando a tempestade do Mar Oriental começou a lutar com frágeis asas de borboleta. Não demorou muito para que fossem arrancadas e dispersas; e então, naturalmente, a pobre borboleta caiu no mar. Primeiro foi atirada para trás e para a frente sobre as vagas, e depois encalhou sobre alguns fundamentos de rocha diante de Småland. E ali ficou — tão grande e comprida como era.
— Agora penso, Eric, que, se a borboleta tivesse caído em terra, logo teria apodrecido e se desfeito. Mas, como caiu no mar, ficou toda impregnada de cal e tornou-se dura como pedra. Você sabe, é claro, que já encontramos pedras na praia que nada eram senão vermes petrificados. Pois creio que se deu o mesmo com o grande corpo da borboleta. Creio que ele se transformou, ali onde jazia, numa montanha longa e estreita no meio do Mar Oriental. Não acha?
Fez uma pausa para esperar resposta, e o outro lhe acenou com a cabeça.
— Continue, para que eu ouça aonde quer chegar — disse ele.
— E repare, Eric, que esta própria Öland, na qual você e eu vivemos, nada mais é que o antigo corpo da borboleta. Basta pensar nisso para observar que a ilha é uma borboleta. Ao norte, podem-se ver o fino corpo dianteiro e a cabeça redonda; ao sul, vê-se o corpo de trás — que primeiro se alarga e depois se estreita até uma ponta aguda.
Aqui tornou a se calar e olhou para o companheiro com certa ansiedade, para ver como ele receberia tal afirmação. Mas o jovem continuou comendo com a maior calma, e fez-lhe sinal para prosseguir.
— Assim que a borboleta foi transformada numa rocha calcária, muitas espécies diferentes de sementes de ervas e árvores vieram viajando com os ventos e quiseram criar raízes nela. Passou muito tempo antes que algo além de ciperáceas pudesse crescer ali. Depois veio a azedinha, e a esteva, e o arbusto espinhoso. Mas ainda hoje não há tanta vegetação no Alvar que a montanha fique bem coberta; ela brilha aqui e ali por baixo. E ninguém pode pensar em arar e semear aqui em cima, onde a crosta de terra é tão fina. Mas, se você admitir que o Alvar e as muralhas ao redor dele são feitos do corpo da borboleta, então talvez tenha o direito de perguntar de onde veio aquela terra que fica abaixo das muralhas.
— Sim, é justamente isso — disse aquele que comia. — Isso eu de fato gostaria de saber.
— Bem, você deve se lembrar de que Öland jaz no mar há muitíssimos anos, e, no decorrer do tempo, todas as coisas que rolam com as ondas — algas, areia e conchas — se juntaram ao redor dela e ficaram ali. E então pedra e cascalho caíram tanto das muralhas orientais quanto das ocidentais. Desse modo, a ilha adquiriu largas costas, onde cereais, flores e árvores podem crescer.
— Aqui em cima, sobre o duro dorso da borboleta, só andam ovelhas, vacas e cavalinhos. Só quero-queros e tarambolas vivem aqui, e não há construções exceto moinhos de vento e algumas cabanas de pedra, onde nós, pastores, nos enfiamos. Mas lá embaixo, na costa, ficam grandes aldeias e igrejas, paróquias e vilarejos de pescadores, e uma cidade inteira.
Ele olhou interrogativamente para o outro. Este terminara sua refeição e amarrava a sacola de comida.
— Pergunto-me aonde você vai chegar com tudo isso — disse ele.
“É apenas isto que desejo saber”, disse o pastor, baixando a voz até quase sussurrar as palavras, e fitando a névoa com seus olhinhos, que pareciam gastos de tanto espiar tudo aquilo que não existe. “Apenas isto desejo saber: se os camponeses que vivem nas fazendas construídas abaixo das fortalezas, ou os pescadores que tiram do mar o pequeno arenque, ou os comerciantes de Borgholm, ou os banhistas que vêm para cá todos os verões, ou os turistas que vagueiam pelas velhas ruínas do castelo de Borgholm, ou os caçadores que chegam no outono para caçar perdizes, ou os pintores que se sentam aqui no Alvaret para pintar as ovelhas e os moinhos de vento... eu gostaria de saber se algum deles compreende que esta ilha foi uma borboleta, que voava por aí com grandes asas cintilantes.”
“Ah!”, disse de súbito o jovem pastor. “Isso deveria ter ocorrido a alguns deles, quando se sentavam, ao cair da tarde, à beira da fortaleza, e ouviam os rouxinóis trinarem nos bosques abaixo, e olhavam para o Estreito de Kalmar: que esta ilha não podia ter surgido da mesma maneira que as outras.”
“Quero perguntar”, disse o velho, “se ninguém jamais teve vontade de dar asas aos moinhos de vento — tão grandes que alcançassem o céu, tão grandes que pudessem erguer a ilha inteira para fora do mar e deixá-la voar como uma borboleta entre borboletas.”
“É possível que haja alguma coisa no que você diz”, respondeu o jovem; “pois, nas noites de verão, quando os céus se alargam e se abrem sobre a ilha, às vezes pensei que era como se ela quisesse erguer-se do mar e sair voando.”
Mas, quando o velho finalmente conseguiu fazer o jovem falar, já não lhe prestou muita atenção. “Eu gostaria de saber”, disse o velho em voz baixa, “se alguém pode explicar por que se sente uma saudade tão grande aqui em cima, no Alvaret. Eu a senti todos os dias da minha vida; e creio que ela rói cada um daqueles que precisam andar por aqui. Quero saber se ninguém mais compreendeu que toda essa melancolia vem do fato de a ilha inteira ser uma borboleta que sente falta de suas asas.”
Sexta-feira, oito de abril.
Os gansos selvagens haviam passado a noite na ponta norte de Öland e agora estavam a caminho do continente. Um forte vento sul soprava sobre o Estreito de Kalmar, e eles tinham sido empurrados para o norte. Ainda assim, avançavam em direção à terra com boa rapidez. Mas, quando se aproximavam das primeiras ilhas, ouviu-se um poderoso estrondo, como se uma multidão de aves de asas fortes viesse voando; e a água, sob eles, tornou-se de repente completamente negra. Akka recolheu as asas tão bruscamente que quase parou no ar. Em seguida, desceu para pousar à beira do mar. Mas, antes que os gansos tivessem alcançado a água, a tempestade de oeste os apanhou. Já vinha empurrando diante de si nevoeiros, espuma salgada e pequenos pássaros; e arrebatou também os gansos selvagens, virou-os de ponta-cabeça e os lançou para o mar.
Era uma tempestade rude. Os gansos selvagens tentaram voltar, uma e outra vez, mas não conseguiram, e foram impelidos para o Mar do Leste. A tormenta já os havia soprado para além de Öland, e o mar se estendia diante deles — vazio e desolado. Nada lhes restava senão manter-se fora da água.
Quando Akka percebeu que não podiam regressar, pensou que era inútil deixar a tempestade arrastá-los por todo o Mar do Leste. Por isso, baixou até a água. O mar agora estava furioso, e sua violência aumentava a cada segundo. As vagas verde-mar rolavam adiante, com espuma fervilhante nas cristas. Cada uma se erguia mais alto que a outra. Era como se corressem entre si, para ver qual espumava com mais fúria. Mas os gansos selvagens não tinham medo das ondulações. Pelo contrário, aquilo parecia lhes dar grande prazer. Não se esforçavam para nadar; apenas ficavam deitados e se deixavam erguer pelas cristas das ondas e afundar nos vales de água, divertindo-se tanto quanto crianças num balanço. A única preocupação deles era que o bando não se separasse. As poucas aves de terra que passavam lá no alto, levadas pela tormenta, gritavam com inveja: “Vocês, que sabem nadar, não correm perigo!”
Mas os gansos selvagens certamente não estavam livres de todo perigo. Em primeiro lugar, o balanço os deixava irremediavelmente sonolentos. A toda hora queriam virar a cabeça para trás, meter o bico debaixo da asa e dormir. Nada podia ser mais perigoso do que adormecer daquele modo; e Akka gritava sem cessar: “Não durmam, gansos selvagens! Quem adormece se afasta do bando. Quem se afasta do bando está perdido.”
Apesar de todas as tentativas de resistir, um após outro adormeceu; e a própria Akka esteve muito perto de cochilar, quando de repente viu alguma coisa redonda e escura erguer-se no topo de uma onda. “Focas! Focas! Focas!”, gritou Akka, com voz aguda e estridente, erguendo-se no ar com ressoantes batidas de asas. Foi exatamente no momento decisivo. Antes que a última gansa selvagem tivesse tempo de subir da água, as focas já estavam tão perto dela que tentaram agarrar-lhe os pés.
Então os gansos selvagens estavam mais uma vez lá em cima, na tempestade que os empurrava diante de si para o alto-mar. A tormenta não dava descanso nem a si mesma nem aos gansos selvagens; e eles não viam terra alguma — apenas o mar desolado.
Pousaram outra vez na água assim que se atreveram. Mas, depois de balançarem um pouco sobre as ondas, ficaram sonolentos de novo. E, quando adormeciam, as focas vinham nadando. Se a velha Akka não fosse tão vigilante, nenhum deles teria escapado.
A tempestade rugiu o dia inteiro; e causou terrível devastação entre as multidões de passarinhos que, naquela época do ano, migravam. Alguns foram desviados de sua rota para terras estranhas, onde morreram de fome; outros ficaram tão exaustos que caíram no mar e se afogaram. Muitos foram esmagados contra as paredes dos rochedos, e muitos se tornaram presa das focas.
A tempestade continuou durante todo o dia, e por fim Akka começou a se perguntar se ela e seu bando iriam perecer. Estavam agora mortos de cansaço, e em parte alguma viam um lugar onde pudessem repousar. Ao entardecer, ela já não ousava deitar-se no mar, porque ele se enchera de repente de grandes placas de gelo que se chocavam umas contra as outras, e ela temia que fossem esmagados entre elas. Algumas vezes, os gansos selvagens tentaram ficar de pé sobre a crosta de gelo; mas, numa delas, a tempestade feroz os varreu para dentro da água; em outra, as focas impiedosas vieram rastejando sobre o gelo.
Ao pôr do sol, os gansos selvagens estavam novamente no ar. Voavam adiante — temerosos da noite. A escuridão parecia cair depressa demais naquela noite tão cheia de perigos.
Era terrível que ainda não avistassem terra alguma. Que seria deles se fossem obrigados a permanecer no mar a noite inteira? Ou seriam esmagados entre as placas de gelo, ou devorados pelas focas, ou separados pela tempestade.
Os céus estavam cobertos de nuvens, a lua se escondia, e a escuridão veio rapidamente. Ao mesmo tempo, toda a natureza se encheu de um horror que fazia estremecer os corações mais corajosos. Os gritos aflitos das aves viajantes tinham soado sobre o mar durante o dia inteiro, sem que ninguém lhes prestasse a menor atenção; mas agora, quando já não se via quem os soltava, pareciam lúgubres e aterradores. Lá embaixo, no mar, os campos de gelo se chocavam uns contra os outros com forte rumor. As focas entoavam seus selvagens cantos de caça. Era como se céu e terra estivessem prestes a se despedaçar um contra o outro.
O menino ficou por um momento sentado, olhando para baixo, para o mar. De repente, pareceu-lhe que ele começava a rugir mais alto do que nunca. Levantou os olhos. Bem diante dele — a apenas uns dois metros de distância — erguia-se uma parede de montanha áspera e nua. Em sua base, as ondas se arrebentavam em espuma. Os gansos selvagens voavam direto para o penhasco, e o menino não via como poderiam evitar despedaçar-se contra ele. Mal tivera tempo de se admirar de que Akka não houvesse percebido o perigo a tempo, quando já estavam junto à montanha. Então notou também que, diante deles, havia a entrada semicircular de uma gruta. Para dentro dela os gansos se dirigiram; e, no instante seguinte, estavam a salvo.
A primeira coisa em que os gansos selvagens pensaram — antes mesmo de se darem tempo para alegrar-se com a própria salvação — foi verificar se todos os seus companheiros também tinham encontrado abrigo. Sim, ali estavam Akka, Iksi, Kolmi, Nelja, Viisi, Knusi, todos os seis filhotes, o ganso doméstico, Dunfin e Polegarzinho; mas Kaksi de Nuolja, a primeira gansa da esquerda, estava ausente — e ninguém sabia coisa alguma sobre seu destino.
Quando os gansos selvagens descobriram que ninguém além de Kaksi se havia separado do bando, não levaram o caso tão a sério. Kaksi era velha e sábia. Conhecia todos os atalhos e todos os hábitos deles, e certamente saberia encontrar o caminho de volta.
Então os gansos selvagens começaram a olhar em torno dentro da caverna. Entrava luz bastante pela abertura para que pudessem ver que a gruta era funda e larga. Estavam encantados por ter encontrado tão bom abrigo para a noite, quando um deles avistou alguns pontos verdes e brilhantes, que cintilavam num canto escuro. “São olhos!”, gritou Akka. “Há animais grandes aqui dentro.” Eles se precipitaram para a entrada, mas Polegarzinho lhes chamou: “Não há nada de que fugir! São apenas algumas ovelhas deitadas junto à parede da gruta.”
Quando os gansos selvagens se acostumaram à luz fraca da gruta, puderam distinguir muito bem as ovelhas. As adultas deviam ser quase tantas quanto os gansos; além delas, porém, havia alguns cordeirinhos. Um velho carneiro, de longos chifres retorcidos, parecia ser o mais senhoril do rebanho. Os gansos selvagens aproximaram-se dele com muitas reverências e cortesias. “Bem encontrado neste ermo!”, saudaram; mas o grande carneiro permaneceu deitado, imóvel, e não disse uma só palavra de boas-vindas.
Então os gansos selvagens pensaram que as ovelhas estavam aborrecidas porque eles haviam buscado abrigo em sua gruta. “Talvez não seja permitido que tenhamos entrado aqui?”, disse Akka. “Mas não pudemos evitá-lo, pois fomos arrastados pelo vento. Vagamos na tempestade o dia inteiro, e seria muito bom se nos deixassem ficar aqui esta noite.” Depois disso, passou muito tempo antes que alguma das ovelhas respondesse com palavras; em compensação, ouvia-se claramente que duas delas soltavam profundos suspiros. Akka sabia, é verdade, que as ovelhas são sempre tímidas e esquisitas; mas aquelas pareciam não ter a menor ideia de como deviam portar-se. Por fim, uma velha ovelha, que tinha o rosto comprido e patético e uma voz lamentosa, disse: “Não há entre nós ninguém que se recuse a deixá-los ficar; mas esta é uma casa de luto, e não podemos receber hóspedes como fazíamos outrora.” “Não se preocupe com nada disso”, disse Akka. “Se soubesse o que suportamos neste dia, compreenderia sem dúvida que ficamos satisfeitos se conseguirmos apenas um lugar seguro onde dormir.”
Quando Akka disse isso, a velha ovelha ergueu-se. “Creio que seria melhor para vocês voarem pela pior das tempestades do que ficarem aqui. Mas, ao menos, não irão embora antes que tenhamos tido o privilégio de lhes oferecer a melhor hospitalidade que a casa permite.”
Ela os conduziu a uma depressão no chão, cheia de água. Ao lado havia um monte de forragem, cascas e palha miúda; e ela lhes disse que se servissem à vontade. “Tivemos na ilha um inverno de muita neve este ano”, disse ela. “Os camponeses a quem pertencemos vieram até nós com feno e palha de aveia, para que não morrêssemos de fome. E estes restos são tudo quanto sobrou do banquete.”
Os gansos precipitaram-se imediatamente para a comida. Acharam que tinham se saído muito bem e estavam no melhor dos humores. Naturalmente, deviam ter notado que as ovelhas andavam inquietas; mas sabiam como as ovelhas em geral se assustam facilmente, e não acreditavam que houvesse algum perigo real em andamento. Assim que comeram, pretendiam ficar de pé para dormir, como de costume. Mas então o grande carneiro se levantou e caminhou até eles. Os gansos pensaram que nunca tinham visto uma ovelha com chifres tão grandes e grosseiros. Também em outros aspectos ele chamava atenção. Tinha a testa alta e saliente, olhos inteligentes e um porte nobre — como se fosse um animal orgulhoso e corajoso.
“Não posso assumir a responsabilidade de deixar vocês, gansos, permanecerem aqui sem lhes dizer que este lugar não é seguro”, disse ele. “Não podemos receber hóspedes noturnos neste momento.” Enfim Akka começou a compreender que a coisa era séria. “Iremos embora, já que é de fato o que deseja”, disse ela. “Mas não poderia primeiro nos contar o que os aflige? Não sabemos nada a respeito. Nem sequer sabemos onde estamos.” “Esta é a Ilha do Pequeno Karl!”, disse o carneiro. “Fica ao largo de Gottland, e aqui só vivem ovelhas e aves marinhas.” “Então talvez vocês sejam ovelhas selvagens?”, perguntou Akka. “Não estamos muito longe disso”, respondeu o carneiro. “Não temos nada a ver com os seres humanos. Existe um antigo acordo entre nós e alguns camponeses de uma fazenda em Gottland: eles devem nos fornecer forragem caso tenhamos um inverno de neve; em recompensa, têm permissão para levar embora aqueles de nós que se tornem excedentes. A ilha é pequena, e por isso não pode alimentar muitos de nós. Mas, fora isso, cuidamos de nós mesmos durante o ano inteiro, e não vivemos em casas com portas e fechaduras; moramos em grutas como esta.”
“Vocês ficam aqui também no inverno?”, perguntou Akka, surpresa. “Ficamos”, respondeu o carneiro. “Temos boa pastagem aqui em cima da montanha o ano todo.” “Pelo que diz, parece-me que vocês talvez vivam melhor que outras ovelhas”, disse Akka. “Mas qual é a desgraça que lhes sobreveio?” “No inverno passado fez um frio terrível. O mar congelou, e então três raposas atravessaram o gelo até aqui; desde então, permanecem na ilha. Fora isso, não há animais perigosos aqui.” “Oh, oh! As raposas ousam atacar criaturas como vocês?” “Oh, não! Não durante o dia; nesse tempo posso proteger a mim e aos meus”, disse o carneiro, sacudindo os chifres. “Mas elas se aproximam sorrateiras à noite, quando dormimos nas grutas. Tentamos ficar acordados, mas é preciso dormir em algum momento; e então elas caem sobre nós. Já mataram todas as ovelhas das outras grutas, e havia rebanhos tão grandes quanto o meu.”
“Não é agradável dizer que somos tão indefesas”, disse a velha ovelha. “Não conseguimos nos defender melhor do que se fôssemos ovelhas domesticadas.” “Acha que elas virão aqui esta noite?”, perguntou Akka. “Não há outra coisa reservada para nós”, respondeu a velha ovelha. “Estiveram aqui na noite passada e nos roubaram um cordeiro. Com certeza voltarão, enquanto houver algum de nós vivo. Foi o que fizeram nos outros lugares.” “Mas, se lhes permitirem continuar assim, vocês serão inteiramente exterminadas”, disse Akka. “Oh! não demorará muito para que tudo esteja acabado para as ovelhas da Ilha do Pequeno Karl”, disse a ovelha.
Akka ficou ali, hesitante. Não era nada agradável aventurar-se outra vez na tempestade, e tampouco era bom permanecer numa casa onde tais hóspedes eram esperados. Depois de ponderar por algum tempo, voltou-se para Polegarzinho. “Pergunto-me se você nos ajudará, como já fez tantas vezes antes”, disse ela. Sim, ele gostaria de fazê-lo, respondeu. “É uma pena que você não durma!”, disse a gansa selvagem, “mas pergunto-me se consegue ficar acordado até as raposas chegarem e então nos despertar, para que possamos fugir voando.” O menino ficou tão contente com isso — pois qualquer coisa era melhor do que sair de novo para a tempestade — que prometeu manter-se acordado. Desceu até a entrada da gruta, enfiou-se atrás de uma pedra, para ficar protegido da tempestade, e sentou-se para vigiar.
Depois que o menino ficou ali sentado algum tempo, a tempestade pareceu abrandar. O céu clareou, e o luar começou a brincar sobre as ondas. O menino chegou até a abertura para olhar para fora. A gruta ficava bastante alta na montanha. Uma vereda estreita conduzia até ela. Provavelmente era ali que ele devia esperar as raposas.
Até então não via raposa alguma; em compensação, havia algo que, naquele momento, o aterrorizou muito mais. Na faixa de terra abaixo da montanha estavam alguns gigantes, ou outros trolls de pedra — ou talvez fossem verdadeiros seres humanos. A princípio pensou que estivesse sonhando, mas agora tinha certeza de que não adormecera. Via os grandes homens com tanta nitidez que não podia ser ilusão. Alguns estavam parados na faixa de terra, e outros bem na montanha, como se pretendessem escalá-la. Alguns tinham cabeças grandes e grossas; outros não tinham cabeça nenhuma. Alguns possuíam um só braço, e outros tinham corcovas tanto na frente quanto atrás. Ele nunca vira coisa tão extraordinária.
O menino ficou ali, deixando-se tomar pelo pânico por causa daqueles trolls, a ponto de quase esquecer de manter os olhos bem abertos para as raposas. Mas então ouviu uma garra raspar contra uma pedra. Viu três raposas subindo pela encosta íngreme; e, assim que soube que tinha diante de si algo real com que lidar, voltou a ficar calmo, sem sentir o menor medo. Ocorreu-lhe que era uma pena despertar apenas os gansos e abandonar as ovelhas à própria sorte. Pensou que gostaria de arranjar as coisas de outro modo.
Correu depressa até o outro extremo da gruta, sacudiu os chifres do grande carneiro até que ele despertasse e, ao mesmo tempo, içou-se para cima de seu dorso. “Levante-se, carneiro, e vamos tentar assustar um pouco as raposas!”, disse o menino.
Ele tentara fazer o menor ruído possível, mas as raposas devem ter ouvido algum barulho; pois, quando chegaram à boca da gruta, pararam e deliberaram. “Com certeza alguém lá dentro se mexeu”, disse uma. “Será que estão acordados?” “Oh, vá em frente!”, disse outra. “De qualquer modo, eles não podem fazer nada contra nós.”
Quando avançaram mais para dentro da gruta, pararam e farejaram. “Quem levaremos esta noite?”, sussurrou a que ia na frente. “Esta noite levaremos o grande carneiro”, disse a última. “Depois disso, teremos trabalho fácil com o resto.”
O menino estava sentado no dorso do velho carneiro e via como elas se esgueiravam. “Agora, dê uma marrada bem em frente!”, sussurrou o menino. O carneiro deu a marrada, e a primeira raposa foi lançada — de cabeça para baixo e patas para o ar — de volta para a entrada. “Agora, marrada para a esquerda!”, disse o menino, virando a cabeça do grande carneiro naquela direção. O carneiro desferiu um ataque terrível, que atingiu a segunda raposa pelo lado. Ela rolou várias vezes antes de conseguir se pôr de pé outra vez e fugir. O menino teria gostado que a terceira também levasse uma pancada, mas esta já tinha ido embora.
“Agora acho que elas tiveram o bastante por esta noite”, disse o menino. “Também acho”, disse o grande carneiro. “Agora deite-se no meu dorso e enfie-se na lã! Você merece ficar aquecido e confortável, depois de todo o vento e toda a tempestade que enfrentou.”
No dia seguinte, o grande carneiro andou pela ilha com o menino em seu dorso e mostrou-lhe o lugar. A ilha consistia numa única montanha maciça. Era como uma grande casa de paredes perpendiculares e teto plano. Primeiro o carneiro subiu ao teto da montanha e mostrou ao menino as boas pastagens que havia ali, e ele teve de admitir que a ilha parecia ter sido criada especialmente para ovelhas. Na montanha quase nada crescia além de azedinha-das-ovelhas e pequenas ervas aromáticas desse tipo, das quais as ovelhas gostam tanto.
Mas, de fato, havia algo mais além de pasto de ovelhas para contemplar, para quem tivesse subido bem alto pela encosta. Para começar, via-se a maior parte do mar — que agora jazia azul e ensolarado, e avançava em vagas cintilantes. Só aqui e ali, em uma ponta ou outra, a espuma saltava para o alto. A leste ficava Gottland, com sua costa regular e alongada; e a sudoeste ficava a Grande Ilha de Karl, construída segundo o mesmo modelo da pequena ilha. Quando o carneiro caminhou até a própria beira do teto da montanha, para que o menino pudesse olhar pelas paredes rochosas abaixo, ele notou que elas estavam simplesmente repletas de ninhos de aves; e, no mar azul sob seus pés, havia patos-negros, êideres, gaivotas-tridáctilas, araus e alcas-tordas — tão bonitos e tranquilos — ocupados em pescar pequenos arenques.
“Este é realmente um país favorecido”, disse o menino. “Vocês vivem num belo lugar, ovelhas.” “Oh, sim! aqui é belo o bastante”, disse o grande carneiro. Era como se quisesse acrescentar alguma coisa; mas não o fez, apenas suspirou. “Se andar por aqui sozinho, deve tomar cuidado com as fendas que correm por toda a montanha”, continuou ele, depois de um instante. E esse era um bom aviso, pois havia fendas profundas e largas em vários lugares. A maior delas chamava-se Buraco do Inferno. Essa fenda tinha muitas braças de profundidade e quase uma braça de largura. “Se alguém caísse ali dentro, certamente seria o fim dele”, disse o grande carneiro. O menino achou que havia um sentido especial naquilo que ele dizia.
Depois ele conduziu o menino até a estreita faixa de praia. Agora pôde ver de perto aqueles gigantes que o haviam assustado na noite anterior. Não passavam de altas colunas de rocha. O grande carneiro chamava-as de “penhascos”. O menino não se cansava de olhá-las. Pensava que, se algum dia houvesse existido trolls transformados em pedra, deveriam parecer exatamente assim.
Embora fosse bonito lá embaixo na praia, o menino gostava ainda mais do alto da montanha. Ali embaixo era pavoroso; pois por toda parte encontravam ovelhas mortas. Fora ali que as raposas haviam celebrado suas orgias. Ele viu esqueletos cuja carne tinha sido devorada, corpos meio comidos, e outros que elas mal haviam provado, deixando-os intactos. Era de cortar o coração ver como as feras se tinham lançado sobre as ovelhas apenas por diversão — apenas para caçá-las e despedaçá-las até a morte.
O grande carneiro não se deteve diante dos mortos, mas passou por eles em silêncio. O menino, contudo, não pôde deixar de ver todo aquele horror.
Então o grande carneiro subiu de novo ao alto da montanha; mas, quando chegou lá, parou e disse: “Se alguém capaz e sensato pudesse ver toda a miséria que impera aqui, certamente não conseguiria descansar antes que essas raposas fossem castigadas.” “As raposas também precisam viver”, disse o menino. “Sim”, disse o grande carneiro, “aquelas que não despedaçam mais animais do que necessitam para seu sustento podem muito bem viver. Mas estas são criminosas.” “Os camponeses a quem pertence a ilha deveriam vir aqui ajudá-los”, insistiu o menino. “Eles já remaram até aqui muitas vezes”, respondeu o carneiro, “mas as raposas sempre se esconderam nas grutas e nas fendas, de modo que não puderam se aproximar delas para atirar.” “O senhor certamente não quer dizer, pai, que uma pobre criaturinha como eu seria capaz de alcançá-las, quando nem vocês nem os camponeses conseguiram vencê-las.” “Quem é pequeno e ágil pode pôr muita coisa em ordem”, disse o grande carneiro.
Não falaram mais sobre isso, e o menino foi sentar-se entre os gansos selvagens que pastavam no planalto. Embora não tivesse querido mostrar seus sentimentos diante do carneiro, estava muito triste por causa das ovelhas e ficaria contente em ajudá-las. “Ao menos posso conversar com Akka e com Morten, o ganso doméstico, a respeito”, pensou ele. “Talvez eles possam me ajudar com uma boa sugestão.”
Pouco depois, o ganso doméstico branco tomou o menino em seu dorso e seguiu pela planície da montanha — justamente na direção do Buraco do Inferno.
Ele caminhava despreocupado pelo teto aberto da montanha — aparentemente sem consciência de como era grande e branco. Não procurava proteção atrás de tufos de capim nem de qualquer outra saliência, mas seguia em frente. Era estranho que não fosse mais cuidadoso, pois era evidente que se saíra mal na tempestade do dia anterior. Mancava da perna direita, e a asa esquerda pendia e arrastava-se como se pudesse estar quebrada.
Agia como se não houvesse perigo algum, bicava aqui uma folha de capim e outra ali, e não olhava ao redor em direção nenhuma. O menino estava estendido de comprido no dorso do ganso e olhava para o céu azul. Já estava tão acostumado a cavalgar que podia tanto ficar de pé quanto deitar-se sobre o dorso do ganso.
Quando o ganso doméstico e o menino andavam assim tão despreocupados, naturalmente não perceberam que as três raposas tinham subido à planície da montanha.
E as raposas, que sabiam ser quase impossível tirar a vida de um ganso numa planície aberta, pensaram de início que não perseguiriam o ganso doméstico. Mas, como não tinham outra coisa a fazer, por fim se esgueiraram por uma das longas passagens e tentaram aproximar-se dele furtivamente. Fizeram isso com tanto cuidado que o ganso doméstico não conseguiu ver nem sombra delas.
Não estavam longe quando o ganso doméstico fez uma tentativa de erguer-se no ar. Abriu as asas, mas não conseguiu levantar voo. Quando as raposas pareceram compreender que ele não podia voar, apressaram-se com ânimo ainda maior do que antes. Já não se escondiam na fenda, mas subiram ao planalto. Corriam o mais depressa que podiam, atrás de tufos e depressões, e aproximavam-se cada vez mais do ganso doméstico — sem que ele parecesse notar que estava sendo caçado. Por fim, as raposas chegaram tão perto que podiam dar o salto final. Ao mesmo tempo, as três se lançaram, num longo pulo, sobre o ganso doméstico.
Mas, ainda no último instante, ele deve ter percebido alguma coisa, pois desviou-se correndo, de modo que as raposas erraram o bote. Isso, de qualquer maneira, não significava grande coisa, pois o ganso doméstico levava apenas dois metros de vantagem e, além disso, mancava. Mesmo assim, a pobre criatura correu adiante tão depressa quanto pôde.
O menino estava sentado no dorso do ganso — virado para trás — e gritava e chamava as raposas. “Vocês se empanturraram tanto de carneiro que ficaram gordas demais, raposas. Nem conseguem alcançar um ganso.” Ele as provocava tanto que elas ficaram loucas de raiva e só pensavam em avançar.
O branco correu direto para a grande fenda. Quando chegou ali, deu um golpe com as asas e passou para o outro lado. Nesse momento, as raposas já estavam quase sobre ele.
O ganso doméstico continuou a correr com a mesma pressa de antes, mesmo depois de ter atravessado o Buraco do Inferno. Mas mal havia corrido dois metros quando o menino lhe deu umas palmadinhas no pescoço e disse: “Agora você pode parar, ganso doméstico.”
Nesse instante ouviram atrás de si uma porção de uivos selvagens, um raspar de garras e quedas pesadas. Mas das raposas não viram mais nada.
Na manhã seguinte, o faroleiro da Grande Ilha de Karl encontrou um pedaço de casca enfiado debaixo da porta de entrada, e nele estavam entalhadas, em letras inclinadas e angulosas: “As raposas da ilhota caíram no Buraco do Inferno. Cuidem delas!”
E foi isso mesmo que o faroleiro fez.
Sábado, nove de abril.
Era uma noite calma e clara. Os gansos selvagens não se deram ao trabalho de procurar abrigo em nenhuma das grutas, mas ficaram de pé e dormiram no topo da montanha; e o menino deitou-se na relva curta e seca ao lado dos gansos.
Havia um luar brilhante naquela noite; tão brilhante que era difícil para o menino adormecer. Ele ficou deitado, pensando havia quanto tempo estava longe de casa; e calculou que já fazia três semanas desde que partira em viagem. Ao mesmo tempo, lembrou-se de que aquela era a véspera da Páscoa.
“É esta noite que todas as bruxas voltam para casa, vindas de Blakulla”, pensou ele, e riu consigo mesmo. Pois tinha um pouquinho de medo tanto da ninfa do mar quanto do elfo, mas não acreditava nem um pouco em bruxas.
Se houvesse alguma bruxa solta naquela noite, com certeza ele a teria visto. Havia tanta luz no céu que nem a menor pintinha negra poderia mover-se no ar sem que ele a enxergasse.
Enquanto o menino jazia ali, com o nariz voltado para o ar, pensando nisso, seus olhos repousaram em algo encantador. O disco da lua estava inteiro e redondo, e bastante alto, e sobre ele vinha voando uma grande ave. Ela não passou diante da lua; movia-se como se pudesse ter saído de dentro dela. A ave parecia negra contra o fundo luminoso, e as asas estendiam-se de uma borda à outra do disco. Voava adiante, regularmente, na mesma direção, e o menino pensou que ela estava pintada no disco lunar. O corpo era pequeno, o pescoço longo e esguio, as pernas pendiam compridas e finas. Não podia ser outra coisa senão uma cegonha.
Alguns segundos depois, o senhor Ermenrich, a cegonha, pousou ao lado do menino. Inclinou-se e cutucou-o com o bico para despertá-lo.
No mesmo instante, o menino sentou-se. “Não estou dormindo, senhor Ermenrich”, disse ele. “Como é que o senhor está fora a esta hora da noite, e como vão as coisas no castelo de Glimminge? Quer falar com a mãe Akka?”
“Há luz demais para dormir esta noite”, respondeu o senhor Ermenrich. “Por isso resolvi viajar até a Ilha de Karl e procurá-lo, amigo Polegarzinho. Soube pela gaivota que você passaria a noite aqui. Ainda não me mudei para o castelo de Glimminge; continuo vivendo em Pommern.”
O menino ficou simplesmente radiante ao pensar que o senhor Ermenrich o havia procurado. Conversaram sobre todo tipo de coisa, como velhos amigos. Por fim, a cegonha perguntou ao menino se ele não gostaria de sair para cavalgar um pouco naquela bela noite.
Oh, sim! Isso o menino queria fazer, se a cegonha desse um jeito de trazê-lo de volta aos gansos selvagens antes do nascer do sol. Ela prometeu, e lá se foram.
Mais uma vez, o senhor Ermenrich voou direto para a lua. Subiram e subiram; o mar afundou lá embaixo, mas o voo seguia tão leve e fácil que parecia quase que o menino estava parado no ar.
Quando o senhor Ermenrich começou a descer, o menino achou que o voo durara pouco demais, de maneira quase absurda.
Pousaram num trecho desolado da costa, coberto de areia fina e regular. Ao longo de toda a praia corria uma fileira de dunas móveis, com capim-das-dunas no alto. Não eram muito altas, mas impediam o menino de ver qualquer coisa da ilha.
O senhor Ermenrich ficou de pé sobre uma colina de areia, recolheu uma das pernas e curvou a cabeça para trás, a fim de enfiar o bico debaixo da asa. “Você pode andar um pouco pela praia”, disse a Polegarzinho, “enquanto eu descanso. Mas não vá tão longe que depois não consiga encontrar o caminho de volta até mim!”
A princípio, o menino pretendia escalar uma duna e ver como era a terra por trás dela. Mas, depois de ter dado alguns passos, bateu com a ponta do tamanco em alguma coisa dura. Abaixou-se e viu que uma pequena moeda de cobre jazia na areia, tão corroída pelo azinhavre que estava quase transparente. Era tão pobre que ele nem se deu ao trabalho de apanhá-la; apenas a chutou para longe.
Mas, quando se endireitou outra vez, ficou completamente espantado, pois a dois passos dele erguia-se uma muralha alta e escura, com uma grande porta torreada.
No instante anterior, quando o menino se abaixara, o mar estava ali — cintilante e liso; agora, porém, achava-se oculto por uma longa muralha com torres e ameias. Bem diante dele, onde antes havia apenas alguns bancos de algas marinhas, abria-se a grande porta da muralha.
O menino provavelmente compreendeu que se tratava de alguma espécie de aparição; mas aquilo não era nada de que se devesse ter medo, pensou ele. Não eram trolls perigosos, nem qualquer outro mal — desses que ele sempre temia encontrar à noite. Tanto a muralha quanto a porta eram construídas com tamanha beleza que ele só desejava ver o que poderia haver por trás delas. “Preciso descobrir o que é isto”, pensou, e entrou pela porta.
No profundo arco de entrada havia guardas, vestidos com trajes de brocado e guarnecidos de peles, com lanças de longos cabos ao lado, sentados a jogar dados. Pensavam apenas no jogo e não deram atenção alguma ao menino, que passou depressa por eles.
Logo depois da porta, encontrou um espaço aberto, calçado com grandes blocos de pedra lisos e regulares. Ao redor erguiam-se edifícios altos e magníficos; e entre eles abriam-se ruas compridas e estreitas. Na praça — de frente para a porta — fervilhavam seres humanos. Os homens usavam longas capas orladas de pele sobre roupas de cetim; chapéus enfeitados de plumas repousavam de lado sobre suas cabeças; no peito pendiam correntes soberbas. Estavam todos tão regalmente vestidos que o grupo inteiro poderia ser formado por reis.
As mulheres andavam com altos toucados e longos vestidos de mangas justas. Também estavam lindamente trajadas, mas seu esplendor não se comparava ao dos homens.
Aquilo era exatamente como o velho livro de histórias que a mãe tirara do baú — uma única vez — e lhe mostrara. O menino simplesmente não conseguia acreditar nos próprios olhos.
Mas aquilo que era ainda mais maravilhoso de contemplar do que os homens ou as mulheres era a própria cidade. Cada casa fora construída de tal modo que uma empena dava para a rua. E as empenas eram tão ricamente ornamentadas que se poderia crer que competiam umas com as outras para ver qual delas exibiria os enfeites mais belos.
Quando se veem de repente tantas coisas novas, não se consegue guardar tudo na memória. Mas o menino, pelo menos, pôde recordar que vira empenas em degraus, nos vários patamares das quais havia imagens de Cristo e de seus Apóstolos; empenas onde surgiam imagens em nicho após nicho ao longo de toda a parede; empenas incrustadas de pedaços de vidro multicolorido, e empenas listradas e quadriculadas de mármore branco e preto. Enquanto o menino admirava tudo isso, tomou-o de súbito uma sensação de pressa. “Coisa assim meus olhos nunca viram antes. Coisa assim, nunca mais tornarão a ver”, disse consigo mesmo. E começou a correr para dentro da cidade — subindo uma rua e descendo outra.
As ruas eram retas e estreitas, mas não vazias e sombrias como nas cidades que ele conhecia. Havia gente por toda parte. Velhas sentavam-se às portas abertas e fiavam sem roca — apenas com a ajuda de uma lançadeira. As lojas dos mercadores eram como barracas de mercado, abertas para a rua. Todos os artesãos faziam seu trabalho ao ar livre. Num lugar, ferviam óleo bruto; em outro, curtiam peles; num terceiro, havia uma longa cordoaria.
Se o menino tivesse tido tempo bastante, poderia ter aprendido a fabricar todo tipo de coisa. Ali viu como os armeiros martelavam finas couraças; como os torneiros manejavam seus ferros; como os sapateiros solavam sapatos macios e vermelhos; como os trefiladores torciam fios de ouro, e como os tecelões inseriam prata e ouro em seus tecidos.
Mas o menino não tinha tempo para ficar. Apenas corria adiante, para conseguir ver o máximo possível antes que tudo desaparecesse de novo.
A alta muralha corria em volta de toda a cidade e a encerrava, como uma sebe encerra um campo. Ele a via no fim de cada rua — ornamentada de empenas e coroada de ameias. No alto da muralha caminhavam guerreiros em armaduras brilhantes; e, quando correu de um extremo a outro da cidade, chegou a mais uma porta na muralha. Do lado de fora ficavam o mar e o porto. O menino viu navios dos tempos antigos, com bancos de remo atravessados de lado a lado e altas construções na proa e na popa. Alguns jaziam recebendo carga; outros acabavam de lançar âncora. Carregadores e mercadores passavam apressados uns pelos outros. Por toda parte havia vida e movimento.
Mas nem ali parecia haver tempo para se demorar. Tornou a correr para dentro da cidade; e então chegou à grande praça. Ali se erguia a catedral, com suas três altas torres e profundos arcos abobadados cheios de imagens. As paredes tinham sido tão ricamente decoradas por escultores que não havia uma pedra sem seu ornamento próprio. E que magnífica visão de cruzes douradas, altares guarnecidos de ouro e sacerdotes em paramentos áureos cintilava através da porta aberta! Bem em frente à igreja havia uma casa com telhado recortado e uma única torre delgada, altíssima. Aquilo provavelmente era o tribunal. E entre o tribunal e a catedral, ao redor de toda a praça, erguiam-se as belas casas de empenas, com sua multidão de adornos.
O menino correra até ficar quente e cansado. Pensou que agora já vira as coisas mais notáveis, e por isso começou a caminhar mais devagar. A rua em que entrara devia ser certamente aquela onde os habitantes compravam suas roupas finas. Viu multidões paradas diante das pequenas tendas onde os mercadores estendiam brocados, cetins rígidos, pesados tecidos de ouro, veludos cintilantes, véus delicados e rendas tão finas quanto teias de aranha.
Antes, quando o menino corria tão depressa, ninguém lhe prestara atenção. As pessoas deviam ter pensado que era apenas um ratinho cinzento que se lançava veloz por entre elas. Mas agora, quando caminhava rua abaixo, muito devagar, um dos vendedores avistou-o e começou a acenar para ele.
A princípio o menino ficou inquieto e quis sair depressa do caminho, mas o vendedor apenas acenava e sorria, e estendia sobre o balcão uma linda peça de damasco de cetim, como se quisesse tentá-lo.
O menino sacudiu a cabeça. “Nunca serei tão rico a ponto de comprar sequer um metro desse tecido”, pensou.
Mas agora o tinham visto em todas as tendas, por toda a rua. Para onde quer que olhasse, havia um vendedor acenando para ele. Abandonaram suas mercadorias preciosas e pensavam apenas nele. Ele viu como corriam ao canto mais escondido da tenda para buscar o melhor que tinham à venda, e como suas mãos tremiam de ansiedade e pressa ao colocá-lo sobre o balcão.
Quando o menino continuou a andar, um dos mercadores saltou por cima do balcão, agarrou-o e estendeu diante dele tecido de prata e tapeçarias, que brilhavam em cores esplêndidas.
O menino não pôde fazer outra coisa senão rir dele. O vendedor certamente devia compreender que uma pobre criaturinha como ele não podia comprar tais coisas. Ficou parado e estendeu as duas mãos vazias, para que entendessem que ele não tinha nada e o deixassem seguir em paz.
Mas o mercador ergueu um dedo, fez que sim com a cabeça e empurrou para ele toda a pilha de coisas belas.
“Será que ele quer dizer que venderá tudo isto por uma moeda de ouro?”, perguntou-se o menino.
O mercador tirou uma moedinha minúscula, gasta e pobre — a menor que se podia imaginar — e mostrou-a a ele. E estava tão ansioso por vender que aumentou sua pilha com um par de grandes e pesados cálices de prata.
Então o menino começou a remexer os bolsos. Sabia, é claro, que não possuía moeda alguma, mas não pôde deixar de procurar.
Todos os outros mercadores ficaram imóveis, tentando ver como terminaria a venda; e, quando observaram que o menino começava a procurar nos bolsos, lançaram-se sobre os balcões, encheram as mãos de ornamentos de ouro e prata e os ofereceram a ele. E todos lhe mostravam que o pagamento que pediam era apenas um pequeno vintém.
Mas o menino virou do avesso os bolsos do colete e das calças, para que vissem que nada possuía. Então os olhos de todos aqueles mercadores régios, que eram tão mais ricos do que ele, encheram-se de lágrimas. Por fim, ele se comoveu ao vê-los tão aflitos, e ponderou se não poderia ajudá-los de algum modo. E então lhe ocorreu a moeda enferrujada que havia pouco vira na praia.
Começou a correr rua abaixo, e teve a sorte de chegar à mesmíssima porta que encontrara primeiro. Disparou por ela e começou a procurar o pequeno vintém de cobre verde que há pouco jazia na praia.
Também o encontrou muito depressa; mas, quando o apanhou e quis correr de volta à cidade com ele, viu diante de si apenas o mar. Já não se viam muralha, nem porta, nem sentinelas, nem ruas, nem casas — apenas o mar.
O menino não pôde impedir que as lágrimas lhe viessem aos olhos. No começo, acreditara que aquilo que via não passava de uma alucinação, mas disso já se esquecera. Pensava apenas em como tudo era bonito. Sentia uma tristeza verdadeira e profunda porque a cidade havia desaparecido.
Naquele momento, o senhor Ermenrich despertou e veio até ele. Mas o menino não o ouviu, e a cegonha precisou cutucá-lo com o bico para chamar sua atenção. “Creio que você está aí de pé dormindo, exatamente como eu”, disse o senhor Ermenrich.
“Oh, senhor Ermenrich!”, disse o menino. “Que cidade era aquela que estava aqui ainda agora?”
“Você viu uma cidade?”, disse a cegonha. “Você dormiu e sonhou, como eu disse.”
“Não! Eu não sonhei”, disse Polegarzinho, e contou à cegonha tudo o que havia vivido.
Então o senhor Ermenrich disse: “Quanto a mim, Polegarzinho, creio que você adormeceu aqui na praia e sonhou tudo isso.
“Mas não lhe ocultarei que Bataki, o corvo, que é o mais sábio de todos os pássaros, contou-me certa vez que, em tempos antigos, havia uma cidade nesta costa, chamada Vineta. Era tão rica e tão afortunada que nenhuma cidade jamais foi mais gloriosa; mas seus habitantes, infelizmente, entregaram-se à arrogância e ao amor da ostentação. Como castigo por isso, diz Bataki, a cidade de Vineta foi alcançada por uma inundação e afundou no mar. Mas seus habitantes não podem morrer, nem sua cidade foi destruída. E, numa noite a cada cem anos, ela se ergue do mar em todo o seu esplendor e permanece à superfície por apenas uma hora.”
“Sim, deve ser assim”, disse Polegarzinho, “pois foi isso que vi.”
“Mas, quando a hora termina, ela torna a afundar no mar, se, durante esse tempo, nenhum mercador de Vineta tiver vendido alguma coisa a uma única criatura viva. Se você, Polegarzinho, tivesse tido ao menos uma moedinha mínima para pagar aos mercadores, Vineta talvez tivesse permanecido aqui na praia; e seu povo poderia ter vivido e morrido como os outros seres humanos.”
“Senhor Ermenrich”, disse o menino, “agora compreendo por que veio buscar-me no meio da noite. Foi porque acreditava que eu seria capaz de salvar a velha cidade. Sinto tanto que não tenha acontecido como o senhor desejava, senhor Ermenrich.”
Ele cobriu o rosto com as mãos e chorou. Não era fácil dizer qual dos dois parecia mais desconsolado — o menino ou o senhor Ermenrich.
Segunda-feira, onze de abril.
Na tarde da segunda-feira de Páscoa, os gansos selvagens e Polegarzinho estavam em voo. Viajavam sobre Gottland.
A grande ilha estendia-se lisa e uniforme debaixo deles. O solo era quadriculado exatamente como na Escânia, e havia muitas igrejas e fazendas. Mas havia, contudo, esta diferença: aqui existiam mais prados arborizados entre os campos, e as fazendas não eram formadas por pequenas casas. Tampouco havia grandes solares com antigos castelos ornados de torres.
Os gansos selvagens tinham tomado a rota sobre Gottland por causa de Polegarzinho. Havia dois dias ele não parecia o mesmo e não dissera uma só palavra alegre. Isso porque não pensava em outra coisa senão naquela cidade que lhe aparecera de modo tão estranho. Nunca vira nada tão magnífico e régio, e não conseguia conformar-se por não ter conseguido salvá-la. Em geral, não era medroso; mas agora, de fato, lamentava pelos belos edifícios e pelo povo imponente.
Tanto Akka quanto o ganso doméstico tentaram convencer Polegarzinho de que ele fora vítima de um sonho ou de uma alucinação, mas o menino não quis ouvir nada disso. Tinha tanta certeza de que vira realmente o que vira, que ninguém conseguiria demovê-lo dessa convicção. Andava tão desconsolado que seus companheiros de viagem começaram a se inquietar por ele.
Justamente quando o menino estava mais abatido, a velha Kaksi voltou ao bando. Ela havia sido soprada para Gottland e se vira obrigada a atravessar a ilha inteira antes de saber, por intermédio de alguns corvos, que seus companheiros estavam na Ilha do Pequeno Karl. Quando Kaksi descobriu o que havia de errado com Polegarzinho, disse impulsivamente:
“Se Polegarzinho está sofrendo por causa de uma velha cidade, logo poderemos consolá-lo. Venham comigo, e eu os levarei a um lugar que vi ontem! Você não precisará ficar triste por muito tempo.”
Depois disso, os gansos se despediram das ovelhas e partiram rumo ao lugar que Kaksi desejava mostrar a Polegarzinho. Por mais abatido que estivesse, ele não pôde deixar de olhar, como de costume, para a terra sobre a qual viajava.
Achou que toda a ilha parecia ter sido, no princípio, exatamente como a Ilha de Karl — um rochedo alto e escarpado — embora muito maior, é claro. Depois, porém, de algum modo, fora achatada. Alguém pegara um grande rolo de massa e o passara por cima dela, como se fosse um pedaço de massa de pão. Não que a ilha tivesse ficado inteiramente plana e regular, como um pão achatado, pois não era assim. Enquanto viajavam pela costa, ele vira, em várias direções, paredões brancos de calcário, com grutas e penhascos; mas, na maior parte dos lugares, eles estavam nivelados e desciam discretamente para o mar.
Em Gottland, tinham uma tarde de feriado agradável e tranquila. O tempo mostrou-se suave e primaveril; as árvores tinham grandes botões; as flores da primavera vestiam o chão nos prados arborizados; os longos e finos amentilhos dos choupos balançavam; e, nos pequenos jardins que se encontram ao redor de cada cabana, as groselheiras estavam verdes.
O calor e os brotos da primavera haviam atraído as pessoas para os jardins e estradas, e onde quer que se reunisse certo número delas, brincavam. Não eram apenas as crianças que brincavam, mas também os adultos. Atiravam pedras em determinado alvo e lançavam bolas ao ar com pontaria tão certeira que quase tocavam os gansos selvagens. Era alegre e agradável ver gente grande brincando; e o menino certamente teria gostado muito, se pudesse esquecer sua tristeza por não ter conseguido salvar a cidade.
De qualquer modo, teve de admitir que aquela era uma bela viagem. Havia tanto canto e tanto som no ar. Criançinhas brincavam de roda e cantavam enquanto brincavam. O Exército da Salvação estava ao ar livre. Ele viu muita gente vestida de preto e vermelho, sentada numa colina arborizada, tocando violões e instrumentos de metal. Por uma estrada vinha uma grande multidão. Eram Bons Templários que tinham saído em passeio. Ele os reconheceu pelos grandes estandartes com inscrições douradas que ondulavam acima deles. Cantavam uma canção após outra enquanto ainda podia ouvi-los.
Depois disso, o menino nunca mais pôde pensar em Gottland sem pensar ao mesmo tempo nas brincadeiras e nas canções.
Ele estivera sentado por muito tempo olhando para baixo; mas então aconteceu de erguer os olhos. Ninguém poderia descrever seu espanto. Antes que percebesse, os gansos selvagens haviam deixado o interior da ilha e seguido para o oeste — em direção à costa marítima. Agora o vasto mar azul estendia-se diante dele. Contudo, não era o mar que chamava atenção, mas uma cidade que surgia à beira-mar.
O menino vinha do leste, e o sol começara justamente a descer no oeste. Quando se aproximou da cidade, suas muralhas, torres, altas casas de empenas e igrejas erguiam-se perfeitamente negras contra o céu claro da tarde. Por isso, não pôde ver como ela realmente era, e por alguns instantes acreditou que aquela cidade fosse tão bela quanto a que vira na noite de Páscoa.
Quando chegou bem perto dela, viu que era ao mesmo tempo parecida e diferente daquela cidade do fundo do mar. Havia entre as duas o mesmo contraste que existe entre um homem que se vê, num dia, vestido de púrpura e joias, e, em outro dia, vestido de trapos.
Sim, aquela cidade provavelmente fora, outrora, semelhante àquela em que ele pensava. Também esta era cercada por uma muralha com torres e portas. Mas as torres desta cidade, à qual se permitira permanecer em terra, estavam sem telhado, ocas e vazias. As portas não tinham batentes; sentinelas e guerreiros haviam desaparecido. Todo o esplendor reluzente se fora. Nada restava senão o esqueleto nu de pedra cinzenta.
Quando o menino entrou mais adiante na cidade, viu que a maior parte dela era composta de casas pequenas e baixas; mas aqui e ali ainda havia algumas altas casas de empenas e algumas catedrais, vindas dos tempos antigos. As paredes das casas de empenas eram caiadas de branco e inteiramente sem ornamentos; mas, porque o menino vira havia tão pouco tempo a cidade sepultada, pareceu-lhe compreender como haviam sido decoradas: algumas com estátuas, outras com mármore preto e branco. E o mesmo acontecia com as velhas catedrais; a maioria delas estava sem telhado, com o interior desnudado. As aberturas das janelas estavam vazias, o chão coberto de relva, e a hera trepava pelas paredes. Mas agora ele sabia como tinham parecido um dia: que haviam sido cobertas de imagens e pinturas; que o coro tivera altares guarnecidos e cruzes douradas, e que seus sacerdotes se moviam por ali revestidos de paramentos de ouro.
O menino viu também as ruas estreitas, que estavam quase desertas nas tardes de feriado. Ele sabia, sim, que corrente de gente imponente passeara por elas em tempos antigos. Sabia que haviam sido como grandes oficinas, cheias de trabalhadores de toda espécie.
Mas aquilo que Nils Holgersson não viu foi que a cidade — mesmo hoje — era bela e notável. Não viu as alegres casinhas das ruas laterais, com suas paredes negras, cortinas brancas e pelargônios vermelhos por trás das vidraças reluzentes, nem os muitos jardins e alamedas bonitas, nem a beleza das ruínas vestidas de ervas. Seus olhos estavam tão cheios da glória passada que ele não conseguia ver nada de bom no presente.
Os gansos selvagens voaram algumas vezes de um lado para outro sobre a cidade, para que Polegarzinho pudesse ver tudo. Por fim, desceram no chão coberto de relva de uma catedral em ruínas, para passar a noite.
Quando se ajeitaram para dormir, Polegarzinho ainda estava acordado, olhando através dos arcos abertos para o céu vespertino, de um rosa pálido. Depois de ficar ali sentado algum tempo, pensou que não queria mais se afligir por não ter podido salvar a cidade sepultada.
Não, não queria fazer isso agora que vira esta outra. Se aquela cidade que ele vira não tivesse tornado a afundar no mar, então talvez, em pouco tempo, se tornasse tão arruinada quanto esta. Talvez não pudesse resistir ao tempo e à decadência, mas ficasse ali com igrejas sem telhado, casas desnudas e ruas desertas e vazias — exatamente como esta. Então era melhor que permanecesse em toda a sua glória, lá embaixo, nas profundezas.
“Foi melhor que tudo tenha acontecido como aconteceu”, pensou ele. “Se eu tivesse o poder de salvar a cidade, não creio que desejaria fazê-lo.” Então já não se entristeceu mais por esse assunto.
E provavelmente há muitos entre os jovens que pensam da mesma maneira. Mas, quando as pessoas envelhecem e se acostumam a ficar satisfeitas com pouco, então se alegram mais com a Visby que existe do que com uma magnífica Vineta no fundo do mar.
Terça-feira, doze de abril.
Os gansos selvagens haviam feito uma boa travessia sobre o mar e tinham pousado na região de Tjust, no norte de Småland. Aquela região não parecia capaz de decidir se queria ser terra ou mar. Fiordes entravam por toda parte e recortavam a terra em ilhas, penínsulas, pontas e cabos. O mar era tão poderoso que as únicas coisas capazes de manter-se acima dele eram colinas e montanhas. Todas as terras baixas estavam escondidas debaixo da superfície das águas.
Era noite quando os gansos selvagens chegaram vindos do mar; e a terra, com as pequenas colinas, jazia bonita entre os fiordes cintilantes. Aqui e ali, nas ilhas, o menino via cabanas e casinhas; e, quanto mais para o interior avançava, maiores e melhores se tornavam as moradias. Por fim, transformaram-se em grandes solares brancos. Ao longo das margens, havia geralmente uma borda de árvores; e dentro dela ficavam pedaços de campos, e no alto das pequenas colinas havia árvores outra vez. Ele não pôde deixar de pensar em Blekinge. Ali estava novamente um lugar onde a terra e o mar se encontravam de modo tão bonito e pacífico, como se tentassem mostrar um ao outro o melhor e mais encantador que possuíam.
Os gansos selvagens pousaram numa ilha de calcário, bem para dentro do Fiorde dos Gansos. Logo ao primeiro olhar para a margem, observaram que a primavera avançara rapidamente enquanto eles tinham estado longe, nas ilhas. As grandes e belas árvores ainda não estavam cobertas de folhas, mas o chão debaixo delas era bordado de anêmonas brancas, gágeas e anêmonas azuis.
Quando os gansos selvagens viram o tapete de flores, temeram ter demorado demais na parte sul do país. Akka disse imediatamente que não havia tempo para procurar nenhum dos pousos de Småland. Na manhã seguinte, deveriam viajar para o norte, sobre Östergötland.
O menino, então, nada veria de Småland, e isso o entristeceu. Ouvira falar mais de Småland do que de qualquer outra província, e havia muito desejava vê-la com os próprios olhos.
No verão anterior, quando servira como menino dos gansos a um lavrador nas vizinhanças de Jordberga, encontrara quase todos os dias duas crianças de Småland, que também guardavam gansos. Essas crianças o haviam irritado terrivelmente com sua Småland.
Não seria justo dizer que Osa, a menina dos gansos, o incomodara. Ela era sensata demais para isso. Mas quem conseguia ser irritante com todas as forças era seu irmão, o pequeno Mats.
“Você já ouviu, Nils, menino dos gansos, como foi que Småland e a Escânia foram criadas?”, perguntava ele; e, se Nils Holgersson dizia que não, começava imediatamente a contar a velha lenda jocosa.
“Pois bem, foi no tempo em que Nosso Senhor estava criando o mundo. Enquanto fazia seu melhor trabalho, São Pedro passou caminhando por ali. Parou, olhou e então perguntou se aquilo era difícil. ‘Bem, não é exatamente fácil’, disse Nosso Senhor. São Pedro ficou ali mais algum tempo e, quando percebeu como era simples traçar uma paisagem depois da outra, também quis experimentar. ‘Talvez o senhor precise descansar um pouco’, disse São Pedro. ‘Eu poderia cuidar do trabalho em seu lugar enquanto isso.’ Mas Nosso Senhor não quis. ‘Não sei se você entende tanto assim desta arte para que eu possa confiar em você e deixá-lo continuar de onde parei’, respondeu. Então São Pedro se zangou e disse que acreditava poder criar terras tão belas quanto o próprio Nosso Senhor.
“Aconteceu que Nosso Senhor estava justamente criando Småland. Ela nem sequer estava pronta pela metade, mas parecia que seria uma terra indescritivelmente bonita e fértil. Era difícil para Nosso Senhor dizer não a São Pedro; além disso, ele pensou que, muito provavelmente, uma coisa tão bem começada ninguém conseguiria estragar. Por isso disse: ‘Se quiser, provaremos qual de nós dois entende melhor deste tipo de trabalho. Você, que ainda é apenas um principiante, continuará isto que comecei, e eu criarei uma nova terra.’ São Pedro concordou imediatamente; e assim puseram-se ao trabalho — cada um em seu lugar.
“Nosso Senhor deslocou-se um pouco para o sul, e ali se encarregou de criar a Escânia. Não demorou muito para terminar, e logo perguntou se São Pedro havia acabado e se queria vir olhar sua obra. ‘A minha ficou pronta há muito tempo’, disse São Pedro; e pelo som de sua voz podia-se ouvir como estava satisfeito com o que realizara.
“Quando São Pedro viu a Escânia, teve de reconhecer que nada havia a dizer daquela terra que não fosse bom. Era uma terra fértil e fácil de cultivar, com vastas planícies para onde quer que se olhasse e quase nenhum sinal de colinas. Era evidente que Nosso Senhor realmente pensara em fazê-la de tal modo que as pessoas se sentissem em casa ali. ‘Sim, este é um bom país’, disse São Pedro, ‘mas creio que o meu é melhor.’ ‘Então vamos vê-lo’, disse Nosso Senhor.
“A terra já estava pronta ao norte e a leste quando São Pedro começou o trabalho, mas as partes sul e oeste, e todo o interior, ele havia criado sozinho. Ora, quando Nosso Senhor chegou lá, onde São Pedro estivera trabalhando, ficou tão horrorizado que parou de repente e exclamou: ‘Que foi que você fez com esta terra, São Pedro?’
“São Pedro também ficou parado, olhando ao redor, completamente espantado. Tivera a ideia de que nada poderia ser tão bom para uma terra quanto muito calor. Por isso reunira uma massa enorme de pedras e montanhas, erguera um planalto, e fizera tudo isso para que ficasse perto do sol e recebesse grande ajuda do calor solar. Sobre os montes de pedra, espalhara uma fina camada de terra, e então pensara que tudo estava bem arranjado.
“Mas, enquanto ele estava lá embaixo na Escânia, caíram duas chuvas fortes, e nada mais foi necessário para mostrar no que dava o seu trabalho. Quando Nosso Senhor veio inspecionar a terra, toda a terra boa tinha sido lavada, e o fundamento nu da montanha brilhava por toda parte. Nos melhores lugares, havia argila e cascalho pesado sobre as rochas, mas a aparência era tão pobre que era fácil compreender que quase nada além de abetos, zimbros, musgo e urze poderia crescer ali. O que havia em abundância, porém, era água. Ela enchera todas as fendas da montanha; e lagos, rios e riachos viam-se por toda parte, sem falar dos pântanos e brejos, que se espalhavam por grandes extensões. E o mais exasperante de tudo era que, enquanto algumas regiões tinham água demais, em outras ela era tão escassa que campos inteiros jaziam como charnecas secas, onde areia e terra subiam em nuvens ao menor sopro de vento.
“‘Que intenção você pode ter tido ao criar uma terra como esta?’, disse Nosso Senhor. São Pedro apresentou desculpas e declarou que desejara construir uma terra tão alta que tivesse calor de sobra do sol. ‘Mas então você também terá muito do frio da noite’, disse Nosso Senhor, ‘pois ele também vem do céu. Receio muito que o pouco que puder crescer aqui venha a congelar.’
“Nisso, é claro, São Pedro não havia pensado.
“‘Sim, aqui será uma terra pobre e presa à geada’, disse Nosso Senhor. ‘Não há o que fazer.’”
Quando o pequeno Mats chegava a esse ponto da história, Osa, a menina dos gansos, protestava: “Não suporto, pequeno Mats, ouvir você dizer que Småland é tão miserável”, dizia ela. “Você esquece completamente quanta terra boa existe lá. Pense apenas no distrito de Möre, junto ao Estreito de Kalmar! Quero ver onde você encontrará uma região cerealífera mais rica. Há campos e mais campos, exatamente como aqui na Escânia. A terra é tão boa que não consigo imaginar nada que não possa crescer ali.”
“Não tenho culpa disso”, dizia o pequeno Mats. “Estou apenas contando o que outros disseram antes.”
“E ouvi muitos dizerem que não há terra costeira mais bela do que Tjust. Pense nas baías e ilhotas, nos solares e nos bosques!”, dizia Osa. “Sim, isso é bem verdade”, admitia o pequeno Mats. “E você não se lembra”, continuava Osa, “de que o professor disse que não se encontra em toda a Suécia uma região tão viva e pitoresca quanto aquele pedaço de Småland que fica ao sul do lago Vettern? Pense no belo lago e nas montanhas amarelas da costa, e em Grenna e Jönköping, com sua fábrica de fósforos; e pense em Huskvarna, e em todos os grandes estabelecimentos de lá!” “Sim, isso também é bem verdade”, dizia mais uma vez o pequeno Mats. “E pense em Visingsö, pequeno Mats, com as ruínas, os bosques de carvalhos e as lendas! Pense no vale por onde corre o Emån, com todas as aldeias, moinhos de farinha, serrarias e oficinas de carpinteiros!” “Sim, isso é bem verdade”, dizia o pequeno Mats, parecendo aflito.
De repente, ele erguera os olhos. “Agora estamos sendo bem tolos”, disse. “Tudo isso, naturalmente, fica na Småland de Nosso Senhor, naquela parte da terra que já estava pronta quando São Pedro assumiu o trabalho. É natural que ali seja bonito e bom. Mas na Småland de São Pedro é como diz a lenda. E não era de admirar que Nosso Senhor ficasse aflito ao vê-la”, continuou o pequeno Mats, retomando o fio da história. “São Pedro, em todo caso, não perdeu a coragem, mas tentou consolar Nosso Senhor. ‘Não fique tão triste por causa disso!’, disse ele. ‘Espere apenas até eu criar pessoas que saibam cultivar os pântanos e arrancar campos dos morros de pedra.’
“Esse foi o fim da paciência de Nosso Senhor, que disse: ‘Não! Você pode descer à Escânia e fazer o escaniano; mas o smolandês eu mesmo criarei.’ E assim Nosso Senhor criou o smolandês, e o fez perspicaz, satisfeito, alegre, econômico, empreendedor e capaz, para que pudesse tirar o sustento de seu pobre país.”
Então o pequeno Mats se calava; e, se Nils Holgersson também tivesse ficado quieto, tudo teria corrido bem. Mas ele não conseguiu de modo algum deixar de perguntar como São Pedro se saíra ao criar o escaniano.
“Bem, o que você mesmo acha?”, disse o pequeno Mats, olhando-o com tanto desprezo que Nils Holgersson se lançou sobre ele para lhe dar uma surra. Mas Mats era apenas um menininho, e Osa, a menina dos gansos, que era um ano mais velha que ele, correu imediatamente para ajudá-lo. Embora fosse de bom coração, saltava como uma leoa assim que alguém tocava em seu irmão. E Nils Holgersson não queria brigar com uma menina; virou-lhe as costas e não olhou mais para aquelas crianças de Småland pelo resto do dia.
No canto sudoeste de Småland fica uma região chamada Sonnerbo. É uma terra bastante lisa e uniforme. E quem a vê no inverno, quando está coberta de neve, não pode imaginar que haja outra coisa debaixo da neve senão canteiros, campos de centeio e prados de trevo, como costuma acontecer nos países planos. Mas, no começo de abril, quando a neve finalmente derrete em Sonnerbo, torna-se evidente que aquilo que se escondia sob ela não passa de charnecas secas e arenosas, rochedos nus e grandes pântanos encharcados. Há campos aqui e ali, é verdade, mas são tão pequenos que mal merecem menção; e encontram-se também algumas casinhas de fazenda, vermelhas ou cinzentas, ocultas em algum bosque de faias — quase como se tivessem medo de se mostrar.
Onde a região de Sonnerbo toca as fronteiras de Halland, há uma charneca arenosa tão extensa que aquele que se põe numa de suas margens não consegue enxergar a outra. Nada além de urze cresce na charneca, e tampouco seria fácil persuadir outras plantas a prosperarem ali. Para começar, seria preciso arrancar a urze pela raiz; pois com a urze acontece o seguinte: embora tenha apenas uma raiz mirrada, pequenos galhos mirrados e folhas secas e mirradas, imagina que é uma árvore. Por isso age exatamente como as árvores verdadeiras: espalha-se à maneira de floresta por vastas áreas, mantém-se fielmente unida e faz morrer toda vegetação estrangeira que queira insinuar-se em seu território.
O único lugar da charneca onde a urze não é toda-poderosa é uma crista baixa e pedregosa que a atravessa. Ali se encontram moitas de zimbro, sorveiras-bravas e alguns grandes e belos carvalhos. Na época em que Nils Holgersson viajava com os gansos selvagens, havia ali uma pequena cabana, com um pedaço de terra limpa ao redor. Mas as pessoas que um dia tinham vivido nela, por um motivo ou outro, haviam se mudado. A cabaninha estava vazia, e a terra jazia sem uso.
Quando os moradores deixaram a cabana, fecharam o registro da chaminé, prenderam os ganchos das janelas e trancaram a porta. Mas ninguém se lembrou da vidraça quebrada, que fora apenas tapada com um trapo. Depois das chuvas de alguns verões, o trapo mofara e encolhera, e, por fim, um corvo conseguira arrancá-lo a bicadas.
A crista na charneca de urze não era, na verdade, tão desolada quanto se poderia pensar, pois era habitada por um grande povo de corvos. Naturalmente, os corvos não viviam ali o ano inteiro. No inverno, mudavam-se para terras estrangeiras; no outono, viajavam de um campo de cereais a outro por toda a Götaland e catavam grãos; durante o verão, espalhavam-se pelas fazendas da região de Sonnerbo e viviam de ovos, bagas e filhotes de pássaros; mas, a cada primavera, quando chegava a época dos ninhos, voltavam à charneca.
Aquele que arrancara o trapo da janela era um corvo macho chamado Garm Pena-Branca; mas nunca o chamavam de outra coisa senão Fumle ou Drumle, ou mesmo Fumle-Drumle, porque sempre agia de modo desajeitado e tolo, e não servia para nada além de ser alvo de zombaria. Fumle-Drumle era maior e mais forte que todos os outros corvos, mas isso não o ajudava em nada; ele era — e continuava sendo — motivo de riso. E também não lhe valia o fato de vir de linhagem muito boa. Se tudo tivesse corrido normalmente, deveria ter sido chefe de todo o bando, porque essa honra pertencia, desde tempos imemoriais, ao mais velho dos Pena-Branca. Mas, muito antes de Fumle-Drumle nascer, o poder havia saído de sua família e agora era exercido por um corvo selvagem e cruel, chamado Rajada-de-Vento.
Essa transferência de poder se devia ao fato de os corvos da crista desejarem mudar seu modo de viver. Talvez haja muitos que pensem que todos os seres em forma de corvo vivem da mesma maneira; mas não é assim. Há povos inteiros de corvos que levam vidas honradas — isto é, comem apenas grãos, vermes, lagartas e animais mortos; e há outros que levam uma verdadeira vida de bandoleiros, lançando-se sobre filhotes de lebre e passarinhos, e saqueando cada ninho de ave que lhes cai sob os olhos.
Os antigos Pena-Branca tinham sido rigorosos e moderados; e, enquanto haviam conduzido o bando, os corvos tinham sido obrigados a portar-se de tal maneira que as outras aves nada pudessem dizer contra eles. Mas os corvos eram numerosos, e a pobreza entre eles era grande. Não lhes agradava ir tão longe a ponto de viver uma vida estritamente moral; por isso se rebelaram contra os Pena-Branca e entregaram o poder a Rajada-de-Vento, que era o pior saqueador de ninhos e ladrão que se pudesse imaginar — se sua mulher, Aragem-de-Vento, não fosse ainda pior. Sob o governo deles, os corvos tinham começado a levar uma vida tal que agora eram mais temidos que os açores e as corujas.
Naturalmente, Fumle-Drumle nada tinha a dizer no bando. Todos os corvos eram da opinião de que ele não se parecia em nada com seus antepassados e de que não serviria como chefe. Ninguém o teria mencionado se ele não cometesse constantemente novos disparates. Alguns, que eram bastante sensatos, às vezes diziam que talvez fosse sorte para Fumle-Drumle ser um idiota tão atrapalhado; do contrário, Rajada-de-Vento e Aragem-de-Vento dificilmente teriam permitido que ele — que era da antiga estirpe dos chefes — permanecesse no bando.
Agora, por outro lado, eram bastante amigáveis com ele e de bom grado o levavam consigo em suas expedições de caça. Ali todos podiam observar quanto eram mais hábeis e ousados do que ele.
Nenhum dos corvos sabia que fora Fumle-Drumle quem arrancara a bicadas o trapo da janela; e, se soubessem disso, teriam ficado muito espantados. Jamais teriam acreditado que ele ousasse aproximar-se da morada de um ser humano. Ele guardava esse segredo com muito cuidado; e tinha boas razões para isso. Rajada-de-Vento sempre o tratava bem durante o dia, quando os outros estavam por perto; mas, numa noite muito escura, quando os companheiros se achavam no galho de dormir, foi atacado por dois corvos e quase assassinado. Depois disso, todas as noites, ao cair da escuridão, ele saía de seu costumeiro lugar de repouso e se mudava para a cabana vazia.
Ora, numa tarde, quando os corvos tinham posto seus ninhos em ordem na crista, fizeram uma descoberta notável. Rajada-de-Vento, Fumle-Drumle e mais alguns haviam voado para dentro de uma grande depressão num canto da charneca. A depressão não passava de uma cascalheira, mas os corvos não podiam se satisfazer com uma explicação tão simples; voavam continuamente para dentro dela e reviravam cada grão de areia para descobrir por que os seres humanos a haviam cavado. Enquanto os corvos remexiam por ali, uma massa de cascalho caiu de um dos lados. Precipitaram-se até ela e tiveram a boa sorte de encontrar, entre as pedras e restolhos desprendidos, um grande pote de barro, fechado com uma presilha de madeira! Naturalmente, quiseram saber se havia alguma coisa dentro dele e tentaram tanto abrir buracos no pote a bicadas quanto forçar a presilha para cima, mas não tiveram sucesso.
Estavam completamente impotentes, examinando o pote, quando ouviram alguém dizer: “Querem que eu desça e ajude vocês, corvos?” Ergueram rapidamente os olhos. Na borda da depressão estava sentada uma raposa, piscando para eles lá de cima. Era uma das raposas mais bonitas — tanto na cor quanto na forma — que já tinham visto. O único defeito era que perdera uma orelha.
“Se deseja prestar-nos um serviço”, disse Rajada-de-Vento, “não diremos que não.” Ao mesmo tempo, tanto ele quanto os outros voaram para fora da depressão. Então a raposa saltou para o lugar deles, mordeu a jarra e puxou a trava — mas também não conseguiu abri-la.
“Consegue perceber o que há dentro?”, disse Rajada-de-Vento. A raposa rolou a jarra de um lado para outro e escutou atentamente. “Devem ser moedas de prata”, disse.
Isso era mais do que os corvos haviam esperado. “Acha que pode ser prata?”, disseram eles, e seus olhos estavam quase saltando da cabeça de cobiça; pois, por estranho que pareça, não há nada no mundo que os corvos amem tanto quanto moedas de prata.
“Ouçam como chocalha!”, disse a raposa, e rolou o pote mais uma vez. “Só não consigo entender como vamos chegar até elas.” “Isso certamente será impossível”, disseram os corvos. A raposa ficou esfregando a cabeça contra a perna esquerda e refletindo. Talvez agora conseguisse, com a ajuda dos corvos, tornar-se senhora daquele pequeno duende que sempre lhe escapava. “Oh! Conheço alguém que poderia abrir o pote para vocês”, disse a raposa. “Então diga! Diga!”, gritaram os corvos; e estavam tão excitados que despencaram para dentro da cova. “Direi, se primeiro me prometerem que aceitarão minhas condições”, disse ela.
Então a raposa falou aos corvos sobre Polegarzinho, e disse que, se conseguissem trazê-lo à charneca, ele abriria o pote para eles. Mas, como pagamento por esse conselho, exigiu que entregassem Polegarzinho a ela assim que ele lhes tivesse conseguido as moedas de prata. Os corvos não tinham motivo algum para poupar Polegarzinho e, por isso, concordaram de imediato com o pacto. Era fácil concordar com aquilo; mais difícil era descobrir onde Polegarzinho e os gansos selvagens estavam pousados.
O próprio Rajada-de-Vento partiu com cinquenta corvos e disse que logo voltaria. Mas um dia após outro se passou sem que os corvos da crista vissem sequer a sombra dele.
Quarta-feira, treze de abril.
Os gansos selvagens levantaram-se ao romper do dia, para que tivessem tempo de conseguir uma bocada de alimento antes de partir em viagem rumo a Östergötland. A ilha no Fiorde dos Gansos, onde tinham dormido, era pequena e estéril, mas na água ao redor dela havia plantas das quais podiam comer até se fartar. Para o menino, porém, era pior. Ele não conseguia encontrar nada comestível.
Enquanto estava ali, faminto e sonolento, olhando em todas as direções, seu olhar caiu sobre um par de esquilos que brincavam na ponta arborizada, bem em frente à ilha rochosa. Perguntou-se se os esquilos ainda teriam algumas de suas provisões de inverno, e pediu ao ganso doméstico branco que o levasse até a ponta, para que pudesse lhes pedir algumas avelãs.
No mesmo instante, o branco atravessou o estreito a nado com ele; mas, por azar, os esquilos estavam se divertindo tanto a perseguir um ao outro de árvore em árvore que não se deram ao trabalho de escutar o menino. Foram entrando mais para dentro do bosque. Ele se apressou atrás deles e logo desapareceu da vista do ganso doméstico, que ficou para trás, esperando na margem.
O menino avançava por entre alguns caules de anêmonas brancas — tão altos que lhe chegavam ao queixo — quando sentiu que alguém o agarrava por trás e tentava levantá-lo. Virou-se e viu que um corvo o havia apanhado pela gola da camisa. Tentou soltar-se, mas, antes que isso fosse possível, outro corvo correu até ele, agarrou-o pela meia e o derrubou.
Se Nils Holgersson tivesse gritado imediatamente por socorro, o ganso doméstico branco certamente teria podido salvá-lo; mas o menino provavelmente pensou que conseguiria defender-se sozinho contra dois corvos. Esperneou e desferiu golpes, mas os corvos não largaram a presa, e logo conseguiram erguer-se no ar com ele. Para piorar as coisas, voavam de modo tão imprudente que sua cabeça bateu contra um galho. Ele recebeu uma forte pancada na cabeça, tudo escureceu diante de seus olhos, e perdeu os sentidos.
Quando tornou a abrir os olhos, viu-se bem alto acima da terra. Recuperou os sentidos devagar; a princípio não sabia nem onde estava, nem o que via. Quando olhou para baixo, viu que debaixo dele se estendia um tapete lanoso, imensamente grande, tecido em verdes e vermelhos, com grandes desenhos irregulares. O tapete era muito espesso e bonito, mas ele achou uma pena que tivesse sido tão maltratado. Estava, de fato, esfarrapado; longos rasgões o atravessavam; em alguns lugares, grandes pedaços tinham sido arrancados. E o mais estranho de tudo era que parecia estar estendido sobre um chão de espelho; pois, sob os buracos e rasgões do tapete, brilhava um vidro claro e cintilante.
A coisa seguinte que o menino observou foi que o sol se desenrolava nos céus. No mesmo instante, o vidro espelhado sob os buracos e rasgões do tapete começou a reluzir em vermelho e ouro. Parecia magnífico, e o menino se encantou com aquela bela combinação de cores, embora não compreendesse exatamente o que estava vendo. Mas então os corvos desceram, e ele percebeu de imediato que o grande tapete sob ele era a terra, vestida de coníferas verdes e pardas e de árvores folhosas ainda nuas, e que os buracos e rasgões eram fiordes brilhantes e pequenos lagos.
Lembrou-se de que, na primeira vez em que viajara pelos ares, pensara que a terra na Escânia parecia um pedaço de tecido quadriculado. Mas aquele país, que se assemelhava a um tapete rasgado — que poderia ser?
Começou a fazer a si mesmo uma porção de perguntas. Por que não estava sentado no dorso do ganso doméstico? Por que um grande bando de corvos voava em torno dele? E por que o puxavam e sacudiam para cá e para lá, a ponto de quase despedaçá-lo?
Então, de repente, tudo lhe ficou claro. Fora raptado por dois corvos. O ganso doméstico branco ainda estava na margem, esperando, e naquele dia os gansos selvagens deviam viajar para Östergötland. Ele estava sendo levado para sudoeste; compreendeu isso porque o disco do sol ficava atrás dele. O grande tapete de floresta que jazia debaixo de seus pés era certamente Småland.
“Que será agora do ganso doméstico, se eu não puder cuidar dele?”, pensou o menino, e começou a gritar para os corvos que o levassem imediatamente de volta aos gansos selvagens. Não estava nem um pouco inquieto por si mesmo. Acreditava que o estavam carregando apenas por espírito de travessura.
Os corvos não prestaram a menor atenção às suas exortações, mas voaram adiante tão depressa quanto podiam. Depois de algum tempo, um deles bateu as asas de uma maneira que queria dizer: “Cuidado! Perigo!” Logo em seguida, desceram num bosque de abetos, abriram caminho entre galhos espinhosos até o chão e puseram o menino debaixo de um abeto espesso, onde ficou tão bem escondido que nem mesmo um falcão o teria avistado.
Cinquenta corvos o cercaram, com os bicos apontados para ele, vigiando-o. “Agora talvez eu possa ouvir, corvos, qual é a intenção de vocês ao me carregarem embora”, disse ele. Mas mal lhe permitiram terminar a frase antes que uma grande corva sibilasse para ele: “Fique quieto! ou arranco seus olhos.”
Era evidente que a corva falava sério; e nada restava ao menino senão obedecer. Assim, ficou ali sentado, encarando os corvos, e os corvos o encaravam.
Quanto mais os olhava, menos gostava deles. Era horrível ver como estavam empoeiradas e desalinhadas suas vestes de penas — como se não conhecessem nem banhos nem unguentos. Seus dedos e garras estavam encardidos de lama seca, e os cantos da boca cobertos de restos de comida. Eram aves muito diferentes dos gansos selvagens — isso ele observou. Achou que tinham uma aparência cruel, sorrateira, vigilante e ousada, exatamente como degoladores e vagabundos.
“É certamente um verdadeiro bando de ladrões no qual fui cair”, pensou ele.
Nesse instante, ouviu acima de si o chamado dos gansos selvagens. “Onde está você? Aqui estou eu. Onde está você? Aqui estou eu.”
Compreendeu que Akka e os outros tinham saído à sua procura; mas, antes que pudesse responder, a grande corva que parecia ser a chefe do bando sibilou-lhe ao ouvido: “Pense nos seus olhos!” E nada mais lhe restou fazer senão ficar calado.
Talvez os gansos selvagens não soubessem que ele estava tão perto, mas tivessem apenas, por acaso, passado sobre aquela floresta. Ele ouviu o chamado deles mais algumas vezes, e então o som se extinguiu. “Bem, agora você terá de se arranjar sozinho, Nils Holgersson”, disse a si mesmo. “Agora deve provar se aprendeu alguma coisa durante estas semanas ao ar livre.”
Um instante depois, os corvos deram o sinal de partida; e, como aparentemente ainda pretendiam carregá-lo de modo que um o segurasse pela gola da camisa e outro por uma meia, o menino disse: “Não há entre vocês nenhum tão forte que possa me levar no dorso? Já viajaram comigo de maneira tão ruim que me sinto como se estivesse em pedaços. Deixem-me apenas cavalgar! Não saltarei das costas do corvo, prometo.”
“Oh! não pense que nos importamos com o seu estado”, disse a chefe. Mas então o maior dos corvos — um pássaro desgrenhado e grosseiro, que tinha uma pena branca na asa — aproximou-se e disse: “Sem dúvida será melhor para todos nós, Rajada-de-Vento, que Polegarzinho chegue inteiro, e não pela metade; por isso eu o carregarei no dorso.” “Se você consegue fazê-lo, Fumle-Drumle, não me oponho”, disse Rajada-de-Vento. “Mas não o perca!”
Com isso, muito já estava ganho, e o menino de fato voltou a se sentir animado. “Não ganho nada perdendo a coragem porque fui raptado pelos corvos”, pensou ele. “Certamente vou conseguir lidar com essas pobres criaturinhas.”
Os corvos continuaram a voar para sudoeste, sobre Småland. Era uma manhã gloriosa — ensolarada e calma; e as aves lá embaixo, na terra, cantavam suas melhores canções de amor. Numa floresta alta e escura, o próprio tordo estava pousado com as asas caídas e a garganta inchada, e entoava melodia após melodia. “Como és bela! Como és bela! Como és bela!”, cantava ele. “Ninguém é tão bela. Ninguém é tão bela. Ninguém é tão bela.” Assim que terminava essa canção, começava tudo outra vez.
Mas, nesse momento, o menino passou cavalgando sobre a floresta; e, depois de ouvir a canção algumas vezes e perceber que o tordo não sabia nenhuma outra, levou as duas mãos à boca como uma corneta e gritou lá para baixo: “Já ouvimos isso antes. Já ouvimos isso antes.” “Quem é? Quem é? Quem é? Quem zomba de mim?”, perguntou o tordo, tentando entrever aquele que gritava. “É o Raptado-por-Corvos que zomba da sua canção”, respondeu o menino. Então a chefe dos corvos virou a cabeça e disse: “Cuidado com seus olhos, Polegarzinho!” Mas o menino pensou: “Oh! Não me importo com isso. Quero mostrar a vocês que não tenho medo.”
Cada vez mais para o interior viajavam; e havia bosques e lagos por toda parte. Num bosque de bétulas, o pombo-torcaz estava pousado num galho nu, e diante dele achava-se a senhora pomba. Ele eriçava as penas, inclinava a cabeça, levantava e abaixava o corpo, até que as penas do peito roçassem no galho. Durante todo o tempo arrulhava: “Tu, tu, tu és a mais encantadora de toda a floresta. Ninguém na floresta é tão encantadora quanto tu, tu, tu!”
Mas lá no alto o menino passou cavalgando pelo ar e, quando ouviu o senhor Pombo, não conseguiu ficar calado. “Não acredite nele! Não acredite nele!”, gritou.
“Quem, quem, quem é que mente sobre mim?”, arrulhou o senhor Pombo, tentando avistar aquele que gritava contra ele. “É o Pego-por-Corvos que mente sobre você”, respondeu o menino. Mais uma vez Rajada-de-Vento virou a cabeça para o menino e ordenou que se calasse, mas Fumle-Drumle, que o carregava, disse: “Deixe-o tagarelar; assim todos os passarinhos pensarão que nós, corvos, nos tornamos aves espertas e engraçadas.” “Oh! eles também não são tão tolos assim”, disse Rajada-de-Vento; mas, ainda assim, gostou da ideia, pois depois disso deixou o menino gritar quanto quisesse.
Voavam principalmente sobre florestas e matas, mas havia igrejas, paróquias e cabaninhas nos arredores dos bosques. Num lugar, avistaram um bonito solar antigo. Ficava com a floresta às costas e o mar à frente; tinha paredes vermelhas e um telhado com torreões; grandes plátanos pelo terreno e groselheiras grandes e espessas no pomar. No alto do cata-vento estava sentado o estorninho, cantando tão alto que cada nota era ouvida pela companheira, que chocava um ovo no coração de uma pereira. “Temos quatro lindos ovinhos”, cantava o estorninho. “Temos quatro lindos ovinhos redondos. Temos o ninho todo cheio de ovos bonitos.”
Quando o estorninho cantava a canção pela milésima vez, o menino passou cavalgando sobre o lugar. Levou as mãos à boca como uma flauta e gritou: “A pega vai pegá-los. A pega vai pegá-los.”
“Quem é que quer me assustar?”, perguntou o estorninho, batendo as asas, inquieto. “É o Capturado-por-Corvos que assusta você”, disse o menino. Desta vez, a chefe dos corvos nem tentou fazê-lo calar. Ao contrário, tanto ela quanto seu bando se divertiram tanto que grasnaram de satisfação.
Quanto mais avançavam para o interior, maiores eram os lagos, e mais abundantes se tornavam as ilhas e pontas. E, na margem de um lago, um pato macho fazia reverências diante da pata. “Serei fiel a você todos os dias da minha vida. Serei fiel a você todos os dias da minha vida”, dizia o pato. “Isso não dura até o fim do verão”, gritou o menino. “Quem é você?”, chamou o pato. “Meu nome é Roubado-por-Corvos”, gritou o menino.
Na hora do jantar, os corvos pousaram num bosque de comida. Andaram por ali e arranjaram alimento para si, mas nenhum deles pensou em dar alguma coisa ao menino. Então Fumle-Drumle veio cavalgando até o chefe com um ramo de roseira-brava, no qual havia alguns botões secos. “Aqui está alguma coisa para você, Rajada-de-Vento”, disse ele. “É um belo alimento, adequado para você.” Rajada-de-Vento farejou com desprezo. “Você acha que quero comer botões velhos e secos?”, disse ele. “E eu que pensei que você ficaria satisfeito com eles!”, disse Fumle-Drumle; e atirou fora o ramo de roseira-brava como se estivesse desesperado. Mas ele caiu bem diante do menino, e este não foi lento em agarrá-lo e comer até se satisfazer.
Quando os corvos comeram, começaram a tagarelar. “Em que você está pensando, Rajada-de-Vento? Está tão quieto hoje”, disse um deles ao chefe. “Estou pensando que nesta região viveu, certa vez, uma galinha que gostava muito de sua dona; e, para agradá-la de verdade, foi e pôs um ninho cheio de ovos, que escondeu debaixo do assoalho do depósito. A dona da casa, naturalmente, perguntava-se onde a galinha se metera por tanto tempo. Procurou por ela, mas não a encontrou. Consegue adivinhar, Bico-Longo, quem foi que encontrou a galinha e os ovos?”
“Acho que posso adivinhar, Rajada-de-Vento; mas, quando você terminar de contar isso, eu lhe contarei algo parecido. Lembra-se da grande gata preta da casa paroquial de Hinneryd? Ela vivia descontente porque sempre lhe tiravam os filhotes recém-nascidos e os afogavam. Só uma vez conseguiu mantê-los escondidos, e foi quando os pôs num monte de feno, ao ar livre. Ela ficou bastante contente com aqueles gatinhos novos, mas creio que eu tirei mais prazer deles do que ela.”
Agora ficaram tão excitados que todos falaram ao mesmo tempo. “Que espécie de façanha é essa — roubar gatinhos?”, disse um. “Certa vez persegui uma lebre nova, quase crescida. Isso sim significava segui-la de esconderijo em esconderijo.” Não chegou mais longe, pois outro lhe tomou a palavra. “Pode ser divertido, talvez, atormentar galinhas e gatos, mas acho ainda mais notável quando um corvo consegue importunar um ser humano. Certa vez roubei uma colher de prata...”
Mas então o menino achou que era bom demais para ficar sentado ouvindo tal palavrório. “Agora me escutem, corvos!”, disse ele. “Acho que vocês deveriam se envergonhar de falar de todas as suas maldades. Vivi entre gansos selvagens durante três semanas, e deles nunca ouvi nem vi coisa alguma que não fosse boa. Vocês devem ter um mau chefe, já que ele lhes permite roubar e matar dessa maneira. Deveriam começar a levar vidas novas, pois posso lhes dizer que os seres humanos se cansaram tanto da maldade de vocês que estão tentando, com todas as forças, arrancá-los pela raiz. E então logo será o fim de vocês.”
Quando Rajada-de-Vento e os corvos ouviram isso, ficaram tão furiosos que pretendiam lançar-se sobre ele e despedaçá-lo. Mas Fumle-Drumle riu e grasnou, e pôs-se diante dele. “Oh, não, não!”, disse ele, parecendo absolutamente apavorado. “O que vocês acham que Aragem-de-Vento dirá se despedaçarem Polegarzinho antes que ele nos consiga aquelas moedas de prata?” “Tinha de ser você, Fumle-Drumle, com esse medo de mulheres”, disse Rajada. Mas, de qualquer modo, tanto ele quanto os outros deixaram Polegarzinho em paz.
Pouco depois disso, os corvos seguiram adiante. Até então, o menino pensara que Småland não era uma terra tão pobre quanto ouvira dizer. Claro que era arborizada e cheia de serras, mas ao lado das ilhas e dos lagos havia terras cultivadas, e ele não encontrara nenhuma verdadeira desolação. Mas, quanto mais para o interior avançavam, menos aldeias e cabanas havia. Por fim, achou que cavalgava sobre um verdadeiro ermo, onde não via nada além de pântanos, charnecas e colinas de zimbro.
O sol havia se posto, mas ainda era pleno dia quando os corvos chegaram à grande charneca de urze. Rajada-de-Vento enviou um corvo à frente para anunciar que obtivera sucesso; e, quando isso se soube, Aragem-de-Vento, com várias centenas de corvos da Crista dos Corvos, voou ao encontro dos recém-chegados. Em meio ao grasnar ensurdecedor que os corvos soltavam, Fumle-Drumle disse ao menino: “Você foi tão engraçado e tão alegre durante a viagem que realmente me afeiçoei a você. Por isso quero lhe dar um bom conselho. Assim que pousarmos, pedirão que faça um pequeno trabalho que talvez lhe pareça muito fácil; mas cuidado para não fazê-lo!”
Logo depois, Fumle-Drumle pôs Nils Holgersson no fundo de uma cova de areia. O menino atirou-se ao chão, rolou e ficou ali como se estivesse simplesmente acabado de cansaço. Tantos corvos esvoaçavam em torno dele que o ar farfalhava como uma ventania, mas ele não ergueu os olhos.
“Polegarzinho”, disse Rajada-de-Vento, “levante-se agora! Você nos ajudará numa questão que será muito fácil para você.”
O menino não se moveu, mas fingiu estar dormindo. Então Rajada-de-Vento o tomou pelo braço e o arrastou pela areia até um pote de barro de fabricação antiga, que estava na cova. “Levante-se, Polegarzinho”, disse ele, “e abra este pote!” “Por que vocês não me deixam dormir?”, disse o menino. “Estou cansado demais para fazer qualquer coisa esta noite. Esperem até amanhã!”
“Abra o pote!”, disse Rajada-de-Vento, sacudindo-o. “Como uma pobre criancinha seria capaz de abrir um pote desses? Ora, ele é quase tão grande quanto eu.” “Abra!”, ordenou Rajada-de-Vento mais uma vez, “ou será pior para você.” O menino se levantou, cambaleou até o pote, mexeu na presilha e deixou os braços caírem. “Em geral não sou tão fraco”, disse ele. “Se me deixarem apenas dormir até de manhã, acho que serei capaz de dar conta dessa presilha.”
Mas Rajada-de-Vento estava impaciente, e avançou correndo para beliscar o menino na perna. Esse tipo de tratamento o menino não estava disposto a sofrer de um corvo. Soltou-se num arranco, correu alguns passos para trás, tirou a faca da bainha e manteve-a estendida à sua frente. “É melhor tomar cuidado!”, gritou para Rajada-de-Vento.
Este também estava tão enfurecido que não se desviou do perigo. Lançou-se contra o menino como se estivesse cego, e veio tão diretamente contra a faca que ela lhe entrou pelo olho e penetrou na cabeça. O menino puxou a faca depressa, mas Rajada-de-Vento apenas bateu as asas; depois caiu — morto.
“Rajada-de-Vento está morto! O estrangeiro matou nosso chefe, Rajada-de-Vento!”, gritaram os corvos mais próximos, e então houve um alvoroço terrível. Alguns lamentavam, outros clamavam por vingança. Todos correram ou esvoaçaram até o menino, com Fumle-Drumle à frente. Mas ele se portou mal, como de costume. Apenas esvoaçava e abria as asas sobre o menino, impedindo que os outros se aproximassem e lhe enterrassem os bicos.
O menino pensou que as coisas agora pareciam muito ruins para ele. Não podia fugir dos corvos, e não havia lugar onde pudesse se esconder. Então aconteceu de se lembrar do pote de barro. Agarrou firme a presilha e a arrancou. Depois pulou para dentro do pote, a fim de se esconder nele. Mas o pote era um esconderijo pobre, pois estava quase cheio até a borda de pequenas e finas moedas de prata. O menino não conseguia afundar o bastante; então se abaixou e começou a jogar as moedas para fora.
Até então os corvos tinham esvoaçado ao redor dele em enxame espesso e o bicado, mas, quando ele atirou as moedas para fora, esqueceram imediatamente sua sede de vingança e se apressaram a recolher o dinheiro. O menino lançou punhados dele, e todos os corvos — sim, até a própria Aragem-de-Vento — os recolheram. E cada um que conseguia apanhar uma moeda corria para o ninho com a maior velocidade, a fim de escondê-la.
Quando o menino jogou para fora todos os vinténs de prata do pote, ergueu os olhos. Não restava mais que um único corvo na cova de areia. Era Fumle-Drumle, com a pena branca na asa; aquele que carregara Polegarzinho. “Você me prestou um serviço maior do que imagina”, disse o corvo — com uma voz muito diferente e uma entonação diversa daquela que usara até então —, “e quero salvar sua vida. Sente-se no meu dorso, e eu o levarei a um esconderijo onde poderá ficar seguro por esta noite. Amanhã providenciarei para que você volte aos gansos selvagens.”
Quinta-feira, catorze de abril.
Na manhã seguinte, quando o menino despertou, estava deitado numa cama. Ao ver que se achava numa casa, com quatro paredes ao redor e um teto sobre a cabeça, pensou que estava em casa. “Será que mamãe virá logo com um pouco de café?”, murmurou consigo mesmo, ali deitado, meio desperto. Então se lembrou de que estava numa cabana abandonada na Crista dos Corvos, e de que Fumle-Drumle, o da pena branca, o havia levado para lá na noite anterior.
O menino estava dolorido por todo o corpo depois da viagem que fizera no dia anterior, e achou delicioso ficar quieto enquanto esperava Fumle-Drumle, que prometera vir buscá-lo.
Cortinas de algodão xadrez pendiam diante da cama, e ele as afastou para olhar a cabana. Percebeu imediatamente que nunca vira coisa igual àquela cabana. As paredes consistiam apenas em algumas fileiras de toras; depois já começava o telhado. Não havia forro interno, de modo que podia olhar diretamente até a cumeeira. A cabana era tão pequena que parecia ter sido construída mais para criaturas como ele do que para pessoas de verdade. Contudo, a lareira e a chaminé eram tão grandes que ele pensou nunca ter visto maiores. A porta de entrada ficava numa parede de empena ao lado da lareira, e era tão estreita que se parecia mais com uma portinhola do que com uma porta. Na outra parede de empena, viu uma janela baixa e larga, com muitos vidros. Quase não havia móveis soltos na cabana. O banco de um lado e a mesa sob a janela eram fixos — assim como a grande cama onde ele estava deitado e o armário multicolorido.
O menino não pôde deixar de se perguntar quem era o dono da cabana e por que ela estava abandonada. Certamente parecia que as pessoas que ali haviam vivido esperavam voltar. A chaleira de café e a panela de mingau estavam junto à lareira, e havia alguma lenha no fogo; a pá do forno e a pá de padeiro estavam num canto; a roca fora erguida sobre um banco; na prateleira acima da janela jaziam estopa e linho, alguns novelos de fio, uma vela e um maço de fósforos.
Sim, certamente parecia que aqueles que ali haviam vivido tinham a intenção de voltar. Havia roupas de cama sobre o leito; e nas paredes ainda pendiam longas faixas de pano, sobre as quais estavam pintados três cavaleiros chamados Kasper, Melchior e Baltasar. Os mesmos cavalos e cavaleiros apareciam muitas vezes. Cavalgavam ao redor de toda a cabana e continuavam sua cavalgada até mesmo em direção às vigas.
Mas no telhado o menino viu algo que o fez cair em si num instante. Eram dois pães grandes, em forma de bolos achatados, pendurados ali num espeto. Pareciam velhos e mofados, mas, ainda assim, eram pão. Ele lhes deu uma pancada com a pá do forno, e um pedaço caiu no chão. Comeu e encheu a sacola. Era incrível como o pão era bom, afinal.
Olhou mais uma vez ao redor da cabana, tentando descobrir se havia mais alguma coisa útil que pudesse levar consigo. “Já que ninguém mais se importa com isto, posso muito bem pegar o que preciso”, pensou. Mas a maioria das coisas era grande e pesada demais. As únicas que podia carregar talvez fossem alguns fósforos.
Subiu com esforço à mesa e, com a ajuda das cortinas, balançou-se até a prateleira da janela. Enquanto estava ali, enfiando os fósforos na sacola, o corvo da pena branca entrou pela janela. “Bem, aqui estou eu, enfim”, disse Fumle-Drumle, ao pousar sobre a mesa. “Não pude chegar antes porque nós, corvos, elegemos um novo chefe no lugar de Rajada-de-Vento.” “Quem vocês escolheram?”, perguntou o menino. “Ora, escolhemos alguém que não permitirá roubos nem injustiças. Elegemos Garm Pena-Branca, até há pouco chamado Fumle-Drumle”, respondeu ele, endireitando-se até parecer absolutamente régio. “Foi uma boa escolha”, disse o menino, felicitando-o. “Pode muito bem desejar-me sorte”, disse Garm; e então contou ao menino como tinham sido as coisas com Rajada-de-Vento e Aragem-de-Vento.
Durante esse relato, o menino ouviu do lado de fora da janela uma voz que lhe pareceu familiar. “Ele está aqui?”, perguntou a raposa. “Sim, está escondido aí dentro”, respondeu uma voz de corvo. “Cuidado, Polegarzinho!”, gritou Garm. “Aragem-de-Vento está lá fora com aquela raposa que quer devorá-lo.” Não teve tempo de dizer mais, pois Smirre se atirou contra a janela. A velha moldura podre cedeu, e, no segundo seguinte, Smirre estava sobre a mesa da janela. Garm Pena-Branca, que não teve tempo de fugir voando, ele matou imediatamente. Em seguida saltou para o chão e procurou o menino ao redor. Este tentou esconder-se atrás de uma grande espiral de estopa, mas Smirre já o havia descoberto e se encolhia para o salto final. A cabana era tão pequena e tão baixa que o menino compreendeu que a raposa poderia alcançá-lo sem a menor dificuldade. Mas, justamente naquele momento, o menino não estava sem armas de defesa. Acendeu depressa um fósforo, tocou as cortinas com a chama e, quando elas arderam, atirou-as sobre Smirre Raposa. Quando o fogo envolveu a raposa, ela foi tomada por um terror louco. Não pensou mais no menino, mas precipitou-se desvairada para fora da cabana.
Mas parecia que o menino escapara de um perigo apenas para lançar-se em outro maior. Da mecha de estopa que ele arremessara em Smirre, o fogo se espalhara para as cortinas da cama. Ele saltou para o chão e tentou abafá-lo, mas agora as chamas subiam depressa demais. A cabana logo se encheu de fumaça, e Smirre Raposa, que permanecera bem do lado de fora da janela, começou a compreender o que acontecia lá dentro. “Bem, Polegarzinho”, gritou ele, “o que escolhe agora: ser assado vivo aí dentro ou sair aqui para mim? É claro que eu preferiria ter o prazer de devorá-lo; mas, seja de que modo a morte o encontre, ela me será cara.”
O menino não pôde deixar de pensar que a raposa tinha razão, pois o fogo avançava rapidamente. A cama inteira ardia agora, a fumaça subia do chão, e, pelas faixas pintadas nas paredes, o fogo rastejava de cavaleiro em cavaleiro. O menino saltou para dentro da lareira e tentou abrir a porta do forno, quando ouviu uma chave girar lentamente na fechadura. Devia ser gente chegando. E, na terrível extremidade em que se encontrava, ele não sentiu medo, mas apenas alegria. Já estava no limiar quando a porta se abriu. Viu duas crianças diante de si; mas não perdeu tempo para descobrir que aparência tinham ao ver a cabana em chamas: precipitou-se entre elas e saiu para o aberto.
Não ousou correr para longe. Sabia, naturalmente, que Smirre Raposa estava à sua espera, e compreendeu que precisava permanecer perto das crianças. Virou-se para ver que espécie de gente eram, mas mal as olhou por um segundo antes de correr até elas e gritar: “Oh, bom-dia, Osa, menina dos gansos! Oh, bom-dia, pequeno Mats!”
Pois, quando o menino viu aquelas crianças, esqueceu completamente onde estava. Corvos, cabana em chamas e animais falantes desapareceram de sua memória. Ele caminhava por um restolhal, em West Vemminghög, guardando um bando de gansos; e ao lado dele, no campo, caminhavam aquelas mesmas crianças de Småland, com seus gansos. Assim que as viu, correu para cima da cerca de pedras e gritou: “Oh, bom-dia, Osa, menina dos gansos! Oh, bom-dia, pequeno Mats!”
Mas, quando as crianças viram uma criatura tão pequena aproximando-se delas de mãos estendidas, agarraram-se uma à outra, deram alguns passos para trás e olharam apavoradas.
Quando o menino percebeu o terror delas, despertou e lembrou-se de quem era. E então lhe pareceu que nada pior poderia lhe acontecer do que aquelas crianças verem como ele fora encantado. A vergonha e a dor por já não ser um ser humano o dominaram. Virou-se e fugiu. Não sabia para onde.
Mas um encontro feliz aguardava o menino quando ele desceu à charneca. Pois ali, entre as urzes, avistou algo branco, e em sua direção vinha o ganso doméstico branco, acompanhado de Dunfin. Quando o branco viu o menino correndo com tamanha velocidade, pensou que demônios terríveis o perseguiam. Atirou-o às pressas sobre seu dorso e levantou voo com ele.
Quinta-feira, catorze de abril.
Três viajantes cansados andavam ao fim da tarde em busca de um abrigo para a noite. Viajavam por uma parte pobre e desolada do norte de Småland. Mas o tipo de pouso que desejavam deveriam ter podido encontrar; pois não eram fracos que pedissem camas macias ou quartos confortáveis. “Se uma destas longas serras tivesse um pico tão alto e íngreme que uma raposa de modo algum pudesse subir até ele, então teríamos um bom lugar para dormir”, disse um deles. “Se um único dos grandes pântanos estivesse descongelado e fosse tão lamacento e encharcado que uma raposa não ousasse aventurar-se nele, este também seria um abrigo muito bom para a noite”, disse o segundo. “Se o gelo de um dos grandes lagos por que passamos estivesse solto, de modo que uma raposa não pudesse sair por cima dele, então teríamos encontrado exatamente o que procuramos”, disse o terceiro.
O pior de tudo era que, quando o sol se pôs, dois dos viajantes ficaram tão sonolentos que a cada segundo estavam prestes a cair ao chão. O terceiro, que conseguia manter-se acordado, ficava cada vez mais inquieto à medida que a noite se aproximava. “Então foi uma desgraça termos vindo parar numa terra onde lagos e pântanos estão congelados, de modo que uma raposa pode andar por toda parte. Em outros lugares o gelo já derreteu; mas agora estamos bem no alto da Småland mais fria, onde a primavera ainda não chegou. Não sei como hei de conseguir encontrar um bom lugar para dormir! Se eu não achar algum canto bem protegido, Smirre Raposa cairá sobre nós antes da manhã.”
Ele olhou em todas as direções, mas não viu abrigo onde pudesse alojar-se. Era uma noite escura e fria, com vento e garoa. A cada segundo tudo ao redor se tornava mais terrível e desagradável.
Talvez isto pareça estranho, mas os viajantes não davam a menor impressão de desejar pedir pouso em alguma fazenda. Já haviam passado por muitas paróquias sem bater a uma única porta. Tampouco davam atenção às pequenas cabanas de encosta, nos arredores das florestas, que todos os pobres andarilhos se alegram em encontrar. Quase se poderia dizer que mereciam passar maus bocados, já que não buscavam ajuda onde ela podia ser obtida apenas pedindo.
Mas finalmente, quando estava tão escuro que mal restava um lampejo de luz debaixo dos céus, e os dois que precisavam dormir seguiam viagem numa espécie de meio sono, foram dar num terreiro de fazenda muito afastado de todos os vizinhos. E não apenas jazia ali desolado, como parecia também desabitado. Não subia fumaça da chaminé; nenhuma luz brilhava pelas janelas; nenhum ser humano se movia no lugar. Quando aquele entre os três que conseguia manter-se acordado viu o sítio, pensou: “Agora, aconteça o que acontecer, precisamos tentar entrar aqui. Algo melhor dificilmente encontraremos.”
Pouco depois, os três estavam no pátio da casa. Dois deles adormeceram no instante em que ficaram parados, mas o terceiro olhou ao redor com atenção, procurando onde poderiam se abrigar. Não era uma fazenda pequena. Além da casa de moradia, do estábulo e do fumeiro, havia longas fileiras com celeiros, depósitos e currais. Mas tudo parecia terrivelmente pobre e arruinado. As construções tinham paredes cinzentas, cobertas de musgo e inclinadas, que pareciam prontas a desabar. Nos telhados havia buracos escancarados, e as portas pendiam tortas de dobradiças quebradas. Era evidente que ninguém se dera ao trabalho de pregar um único prego numa parede daquele lugar havia muito tempo.
Enquanto isso, aquele que estava acordado descobrira qual construção era o estábulo das vacas. Despertou seus companheiros de viagem e os conduziu até a porta do curral. Felizmente, ela não estava presa por nada além de um gancho, que ele pôde levantar facilmente com uma vara. Soltou um suspiro de alívio ao pensar que logo estariam em segurança. Mas, quando a porta do curral se abriu com um rangido agudo, ouviu uma vaca começar a mugir. “A senhora chegou enfim, patroa?”, disse ela. “Pensei que não pretendesse me dar ceia esta noite.”
Aquele que estava acordado parou na soleira, absolutamente aterrorizado ao descobrir que o estábulo das vacas não estava vazio. Mas logo viu que não havia ali mais que uma vaca e três ou quatro galinhas; então tornou a tomar coragem. “Somos três pobres viajantes que desejam entrar em algum lugar onde nenhuma raposa possa nos atacar, e nenhum ser humano nos capturar”, disse ele. “Queríamos saber se este pode ser um bom lugar para nós.” “Não posso crer que não seja”, respondeu a vaca. “É verdade que as paredes são pobres, mas a raposa ainda não atravessa paredes; e ninguém vive aqui além de uma velha camponesa, que não parece nem um pouco capaz de fazer prisioneiro alguém. Mas quem são vocês?”, continuou ela, torcendo-se em sua baia para enxergar os recém-chegados. “Sou Nils Holgersson, de Vemminghög, que foi transformado em duende”, respondeu o primeiro dos que entravam, “e trago comigo um ganso doméstico, no qual costumo cavalgar, e uma gansa cinzenta.” “Hóspedes tão raros nunca estiveram antes entre minhas quatro paredes”, disse a vaca, “e vocês serão bem-vindos, embora eu preferisse que fosse minha patroa, vinda para me dar a ceia.”
O menino conduziu os gansos para dentro do estábulo, que era bastante grande, e os acomodou numa manjedoura vazia, onde adormeceram imediatamente. Para si mesmo, fez uma pequena cama de palha e esperou que também pegasse no sono de uma vez.
Mas isso foi impossível, pois a pobre vaca, que não recebera sua ceia, não ficou quieta um só instante. Sacudia os flancos, movia-se na baia e se queixava de quanta fome sentia. O menino não conseguiu pregar olho, mas ficou deitado ali, revivendo tudo o que lhe acontecera nestes últimos dias.
Pensou em Osa, a menina dos gansos, e no pequeno Mats, que encontrara de modo tão inesperado; e imaginou que a pequena cabana à qual pusera fogo devia ter sido o antigo lar deles em Småland. Agora se recordava de tê-los ouvido falar justamente de uma cabana assim, e da grande charneca de urze que ficava abaixo dela. Agora Osa e Mats tinham vagado de volta para lá, a fim de rever o antigo lar, e então, ao chegarem, encontraram-no em chamas.
Era de fato uma grande tristeza a que ele lhes causara, e isso lhe doía muito. Se algum dia voltasse a ser um ser humano, tentaria compensá-los pelo dano e pelo infortúnio.
Então seus pensamentos se voltaram para os corvos. E, quando pensou em Fumle-Drumle, que lhe salvara a vida e encontrara a própria morte tão pouco depois de ter sido eleito chefe, ficou tão aflito que os olhos se lhe encheram de lágrimas. Tivera uma vida bem dura nestes últimos dias. Mas, de todo modo, fora uma sorte rara que o ganso doméstico e Dunfin o tivessem encontrado. O ganso doméstico dissera que, assim que os gansos descobriram que Polegarzinho desaparecera, haviam perguntado por ele a todos os pequenos animais da floresta. Logo souberam que um bando de corvos de Småland o levara embora. Mas os corvos já estavam fora de vista, e para onde tinham dirigido o voo ninguém soubera dizer. Para que pudessem encontrar o menino o mais depressa possível, Akka ordenara que os gansos selvagens partissem — dois a dois — em direções diferentes, para procurá-lo. Mas, depois de dois dias de busca, quer o tivessem encontrado ou não, deveriam reunir-se no noroeste de Småland, no alto de uma montanha elevada, semelhante a uma torre abrupta, cortada a pique, chamada Taberg. Depois que Akka lhes deu as melhores instruções e descreveu cuidadosamente como deveriam encontrar Taberg, separaram-se.
O ganso doméstico branco escolheu Dunfin como companheira de viagem, e voaram de um lado para outro com a maior ansiedade por Polegarzinho. Durante essa errância, ouviram um tordo que, sentado na copa de uma árvore, gritava e se lamentava porque alguém, que se chamava Raptado-por-Corvos, zombara dele. Conversaram com o tordo, e ele lhes mostrou em que direção o tal Raptado-por-Corvos viajara. Depois, encontraram um pombo macho, um estorninho e um pato; todos se lamentaram por causa de um pequeno culpado que perturbara seu canto, e que se chamava Pego-por-Corvos, Capturado-por-Corvos e Roubado-por-Corvos. Desse modo, conseguiram seguir o rastro de Polegarzinho até a charneca de urze, na região de Sonnerbo.
Assim que o ganso doméstico e Dunfin encontraram Polegarzinho, partiram para o norte, a fim de alcançar Taberg. Mas era um longo caminho a percorrer, e a escuridão caiu sobre eles antes que avistassem o topo da montanha. “Se apenas chegarmos lá amanhã, certamente todos os nossos problemas estarão acabados”, pensou o menino, e afundou-se na palha para ficar mais aquecido. Durante todo esse tempo, a vaca se agitava e bufava na baia. Então, de repente, começou a falar com o menino. “Tudo está errado comigo”, disse a vaca. “Não fui ordenhada nem cuidada. Não tenho forragem da noite na manjedoura, e nenhuma cama foi feita debaixo de mim. Minha patroa veio aqui ao crepúsculo para pôr as coisas em ordem para mim, mas sentiu-se tão mal que precisou entrar de novo logo em seguida, e não voltou mais.”
“É aflitivo eu ser pequeno e sem forças”, disse o menino. “Não creio que seja capaz de ajudá-la.” “Você não me fará acreditar que é impotente por ser pequeno”, disse a vaca. “Todos os duendes de que ouvi falar eram tão fortes que podiam puxar uma carroça inteira de feno e matar uma vaca com um só golpe do punho.” O menino não pôde deixar de rir da vaca. “Esses eram duendes de uma espécie muito diferente da minha”, disse ele. “Mas vou soltar seu cabresto e abrir a porta, para que possa sair e beber numa das poças do terreiro, e depois tentarei subir ao palheiro e jogar um pouco de feno na sua manjedoura.” “Sim, isso já ajudaria”, disse a vaca.
O menino fez como dissera; e, quando a vaca ficou diante de uma manjedoura cheia, pensou que enfim conseguiria dormir um pouco. Mas mal se enfiara em sua cama quando ela começou de novo a falar com ele.
“Você ficará completamente aborrecido comigo se eu lhe pedir mais uma coisa”, disse a vaca. “Oh, não ficarei, se for algo que eu possa fazer”, disse o menino. “Então vou lhe pedir que entre na cabana, ali em frente, e descubra como está minha patroa. Tenho medo de que alguma desgraça lhe tenha acontecido.” “Não! Isso eu não posso fazer”, disse o menino. “Não ouso me mostrar diante de seres humanos.” “Certamente você não tem medo de uma velha doente”, disse a vaca. “Mas não precisa entrar na cabana. Fique apenas do lado de fora da porta e espie pela fresta!” “Oh! se é só isso que me pede, então eu faço, é claro”, disse o menino.
Com isso, abriu a porta do estábulo e saiu para o pátio. Era uma noite pavorosa! Nem lua nem estrelas brilhavam; o vento soprava em vendaval, e a chuva caía em torrentes. E o pior de tudo era que sete grandes corujas estavam sentadas em fila no beiral da cabana. Já era terrível apenas ouvi-las, ali empoleiradas, resmungando contra o tempo; mas era ainda pior pensar no que lhe aconteceria se uma delas pusesse os olhos nele. Seria o seu fim.
“Pena de quem é pequeno!”, disse o menino, ao aventurar-se pelo pátio. E tinha direito de dizê-lo, pois foi derrubado pelo vento duas vezes antes de chegar à casa: numa delas, a ventania o varreu para dentro de uma poça tão funda que ele quase se afogou. Mas chegou lá, apesar de tudo.
Subiu com esforço alguns degraus, atravessou às pressas uma soleira e entrou no vestíbulo. A porta da cabana estava fechada, mas, embaixo, num canto, um grande pedaço havia sido cortado para que o gato pudesse entrar e sair. Não havia dificuldade alguma para o menino ver como estavam as coisas dentro da cabana.
Mal lançou um olhar para lá quando cambaleou para trás e virou a cabeça. Uma velha de cabelos grisalhos jazia estendida no chão lá dentro. Não se movia nem gemia; e seu rosto brilhava de uma brancura estranha. Era como se uma lua invisível houvesse lançado sobre ele uma luz fraca.
O menino se lembrou de que, quando seu avô morrera, seu rosto também se tornara de uma brancura assim tão estranha. E compreendeu que a velha que jazia no chão da cabana devia estar morta. A morte provavelmente lhe chegara tão de repente que ela nem tivera tempo de se deitar em sua cama.
Ao pensar que estava sozinho com a morta no meio da noite escura, ficou terrivelmente assustado. Atirou-se de cabeça pelos degraus e correu de volta ao estábulo.
Quando contou à vaca o que vira na cabana, ela parou de comer. “Então minha patroa está morta”, disse. “Logo estará tudo acabado para mim também.” “Sempre haverá alguém para cuidar de você”, disse o menino, tentando consolá-la. “Ah! você não sabe”, disse a vaca, “que já tenho o dobro da idade que uma vaca costuma ter antes de ser posta no banco de abate. Mas eu já nem quero mais viver, agora que ela, lá dentro, não pode mais vir cuidar de mim.”
Ela nada disse por algum tempo, mas o menino sem dúvida observou que não dormia nem comia. Não demorou muito para que começasse a falar outra vez. “Ela está deitada no chão nu?”, perguntou. “Está”, disse o menino. “Ela tinha o costume de vir ao estábulo”, continuou, “e falar de tudo o que a afligia. Eu entendia o que ela dizia, embora não pudesse lhe responder. Nestes últimos dias, falou de quanto medo tinha de que não houvesse ninguém com ela quando morresse. Estava aflita, temendo que ninguém lhe fechasse os olhos e cruzasse suas mãos sobre o peito depois que estivesse morta. Talvez você vá lá dentro e faça isso?” O menino hesitou. Lembrou-se de que, quando seu avô morrera, sua mãe fora muito cuidadosa em deixar tudo em ordem. Sabia que aquilo era algo que precisava ser feito. Mas, por outro lado, sentia que não queria ir até a morta, naquela noite pavorosa. Não disse não; tampouco deu um passo em direção à porta do estábulo. Por alguns segundos, a velha vaca ficou calada — como se esperasse uma resposta. Mas, quando o menino nada disse, não repetiu seu pedido. Em vez disso, começou a falar com ele sobre sua patroa.
Havia muito a contar, antes de tudo, sobre todos os filhos que ela criara. Eles estiveram no estábulo todos os dias, e, no verão, levavam o gado para pastar no pântano e nos bosques, de modo que a velha vaca sabia tudo a respeito deles. Tinham sido magníficos, todos eles, alegres e trabalhadores. Uma vaca sabia muito bem para que prestavam aqueles que cuidavam dela.
Também havia muito a dizer sobre a fazenda. Nem sempre fora tão pobre como agora. Era muito grande — embora a maior parte dela consistisse em pântanos e bosques pedregosos. Não havia muito espaço para campos, mas havia por toda parte abundância de boa forragem. Em outros tempos, houvera uma vaca para cada baia do estábulo; e o curral dos bois, que agora estava vazio, em outros tempos estivera cheio de bois. E então havia vida e alegria, tanto na cabana quanto no estábulo. Quando a patroa abria a porta do curral, cantarolava e cantava, e todas as vacas mugiam de contentamento ao ouvi-la chegar.
Mas o bom homem morrera quando os filhos ainda eram tão pequenos que não podiam ajudar em nada, e a patroa teve de assumir a fazenda, e todo o trabalho e toda a responsabilidade. Fora forte como um homem, e havia tanto arado quanto ceifado. Às noites, quando entrava no estábulo para ordenhar, às vezes estava tão cansada que chorava. Então enxugava depressa as lágrimas e tornava a ficar alegre. “Não tem importância. Bons tempos virão para mim também, se apenas meus filhos crescerem. Sim, se apenas crescerem.”
Mas, assim que os filhos cresceram, apoderou-se deles uma estranha saudade. Não queriam ficar em casa, e partiram para uma terra estrangeira. A mãe nunca recebeu ajuda deles. Dois de seus filhos se casaram antes de partir, e deixaram seus próprios filhos no velho lar. E agora essas crianças acompanhavam a patroa no estábulo, exatamente como os dela tinham feito. Cuidavam das vacas e eram gente boa, excelente. E, às noites, quando a patroa estava tão esgotada que podia adormecer no meio da ordenha, recobrava novo ânimo ao pensar nelas. “Bons tempos virão para mim também”, dizia ela — e sacudia o sono —, “quando estas crescerem.”
Mas, quando essas crianças cresceram, partiram para junto dos pais, na terra estrangeira. Ninguém voltou — ninguém ficou em casa —, e a velha patroa permaneceu sozinha na fazenda.
Provavelmente nunca lhes pedira que ficassem com ela. “Você acha, Rödlinna, que eu pediria que eles ficassem aqui comigo, quando podem sair pelo mundo e viver com conforto?”, dizia ela, enquanto estava na baia com a velha vaca. “Aqui em Småland, só têm pobreza pela frente.”
Mas, quando o último neto se foi, tudo acabou para a patroa. De repente, ficou curvada e grisalha, e cambaleava ao andar, como se já não tivesse forças para se mover. Parou de trabalhar. Não se importou mais em cuidar da fazenda, mas deixou tudo ir à ruína. Não consertou as casas; vendeu tanto as vacas quanto os bois. A única que conservou foi a velha vaca que agora falava com Polegarzinho. Deixou-a viver porque todos os filhos haviam cuidado dela.
Ela poderia ter tomado criadas e peões a seu serviço, que a teriam ajudado no trabalho, mas não suportava ver estranhos ao redor, já que os seus a haviam abandonado. Talvez ficasse mais satisfeita em deixar a fazenda arruinar-se, uma vez que nenhum de seus filhos voltaria para tomá-la depois que ela se fosse. Não se importava em ela própria empobrecer, porque não dava valor ao que era apenas seu. Mas a afligia pensar que os filhos poderiam descobrir como lhe era dura a vida. “Que os filhos não saibam disso! Que os filhos não saibam disso!”, suspirava, cambaleando pelo estábulo.
Os filhos escreviam constantemente e lhe pediam que fosse para junto deles; mas isso ela não queria. Não desejava ver a terra que os tomara dela. Tinha raiva daquela terra. “Talvez seja tolice minha não gostar da terra que foi tão boa para eles”, dizia ela. “Mas não quero vê-la.”
Nunca pensava em outra coisa senão nos filhos, e nisto: que eles tinham precisado partir. Quando chegava o verão, conduzia a vaca para pastar no grande pântano. Ficava o dia inteiro sentada à beira do brejo, com as mãos no colo; e, no caminho de volta para casa, dizia: “Veja, Rödlinna, se houvesse aqui grandes e ricos campos, em lugar destes pântanos estéreis, então eles não teriam precisado ir embora.”
Ela podia enfurecer-se com o pântano, que se estendia tão vasto e não servia para nada. Podia ficar sentada falando de como era culpa do pântano que os filhos a tivessem deixado.
Naquela última noite, estivera mais trêmula e fraca do que nunca. Não conseguira sequer fazer a ordenha. Apoiara-se contra a manjedoura e falara de dois estranhos que tinham ido vê-la e perguntado se poderiam comprar o pântano. Queriam drená-lo, semeá-lo e cultivar cereais ali. Isso a deixara ao mesmo tempo inquieta e contente. “Está ouvindo, Rödlinna?”, dissera ela. “Está ouvindo? Eles disseram que grãos podem crescer no pântano. Agora escreverei aos filhos para que voltem para casa. Agora eles não precisarão mais ficar longe; pois agora poderão ganhar o pão aqui em casa.” Fora para isso que entrara na cabana...
O menino não ouviu mais o que a velha vaca dizia. Abrira a porta do estábulo, atravessara o pátio e entrara junto da morta de quem há pouco sentira tanto medo.
A cabana não era tão pobre quanto ele esperava. Estava bem provida daquele tipo de coisas que se costuma encontrar entre os que têm parentes na América. Num canto havia uma cadeira de balanço americana; sobre a mesa diante da janela jazia uma cobertura de pelúcia brocada; havia uma bela colcha sobre a cama; nas paredes, em molduras de madeira entalhada, pendiam os retratos dos filhos e netos que haviam partido; sobre a cômoda erguiam-se vasos altos e um par de castiçais, com velas grossas e espiraladas dentro deles.
O menino procurou uma caixa de fósforos e acendeu essas velas, não porque precisasse de mais luz do que já tinha, mas porque pensou que aquela era uma maneira de honrar a morta.
Depois se aproximou dela, fechou-lhe os olhos, cruzou-lhe as mãos sobre o peito e afastou de seu rosto os finos cabelos grisalhos.
Já não pensava em ter medo dela. Estava profundamente entristecido porque ela fora obrigada a viver a velhice em solidão e saudade. Ele, ao menos, velaria seu corpo morto naquela noite.
Procurou o livro de salmos e sentou-se para ler alguns salmos em voz baixa. Mas, no meio da leitura, parou — porque começara a pensar em sua mãe e em seu pai.
Pensar que os pais podem sentir tanta saudade dos filhos! Isso ele nunca soubera. Pensar que a vida pode ser para eles como se estivesse acabada quando os filhos estão longe! Pensar se aqueles lá de casa sentiam por ele a mesma saudade que aquela velha camponesa sentira!
Esse pensamento o deixou feliz, mas ele não ousava acreditar nele. Não fora alguém de quem qualquer pessoa pudesse sentir saudade.
Mas aquilo que ele não fora, talvez pudesse vir a ser.
Ao redor de si, via os retratos dos que estavam longe. Eram homens e mulheres grandes, fortes, de rostos sérios. Havia noivas de véus compridos, cavalheiros em belas roupas; e havia crianças de cabelos ondulados e bonitos vestidos brancos. E ele pensou que todos olhavam cegamente para o vazio — e não queriam ver.
“Pobres de vocês!”, disse o menino aos retratos. “Sua mãe morreu. Agora não podem reparar o que fizeram, porque partiram para longe dela. Mas minha mãe está viva!”
Aqui ele se deteve, assentiu com a cabeça e sorriu para si mesmo. “Minha mãe está viva”, disse. “Papai e mamãe estão vivos.”
Sexta-feira, quinze de abril.
O menino ficou acordado quase a noite inteira, mas, ao amanhecer, adormeceu; e então sonhou com seu pai e sua mãe. Mal conseguia reconhecê-los. Ambos tinham ficado grisalhos, com rostos velhos e enrugados. Ele perguntou como aquilo acontecera, e eles responderam que haviam envelhecido assim de tanta saudade dele. Ele ficou comovido e espantado, pois nunca acreditara outra coisa senão que estivessem contentes por se verem livres dele.
Quando o menino despertou, a manhã havia chegado, com um tempo bonito e claro. Primeiro, ele próprio comeu um pedaço de pão que encontrou na cabana; depois deu a ração da manhã aos dois gansos e à vaca, e abriu a porta do estábulo para que a vaca pudesse seguir até a fazenda mais próxima. Quando a vaca chegasse sozinha, os vizinhos sem dúvida compreenderiam que havia algo errado com sua patroa. Correriam até a fazenda desolada para ver como estava a velha, e então encontrariam seu corpo morto e o sepultariam.
Mal o menino e os gansos tinham se erguido no ar, avistaram uma montanha alta, de paredes quase perpendiculares e topo abrupto, como que cortado a golpes; e compreenderam que aquela devia ser Taberg. No cume estavam Akka, com Yksi e Kaksi, Kolmi e Neljä, Viisi e Knusi, e todos os seis filhotes, esperando por eles. Houve uma alegria, um grasnar, um bater de asas e um chamar que ninguém pode descrever, quando viram que o ganso doméstico e Dunfin haviam conseguido encontrar Polegarzinho.
Os bosques subiam bastante pelas encostas de Taberg, mas seu pico mais alto era estéril; e dali se podia olhar em todas as direções. Se alguém olhasse para o leste, ou para o sul, ou para o oeste, quase nada se via além de um pobre planalto com abetos escuros, brejos pardos, lagos cobertos de gelo e serras azuladas. O menino não pôde deixar de pensar que era verdade que aquele que criara tudo aquilo não dedicara grande esmero ao trabalho, mas o lançara junto às pressas. Mas, se alguém olhasse para o norte, era completamente diferente. Ali parecia que tudo fora trabalhado com o maior cuidado e afeição. Nessa direção, só se viam belas montanhas, vales suaves e rios sinuosos, até o grande lago Vettern, que jazia livre de gelo e transparente, brilhando como se não estivesse cheio de água, mas de luz azul.
Era o Vettern que tornava tão belo olhar para o norte, porque parecia que uma corrente azul se erguera do lago e se espalhara também sobre a terra. Bosques, colinas e telhados, e as torres da cidade de Jönköping — que cintilava ao longo das margens do Vettern — jaziam envolvidos num azul pálido que acariciava os olhos. Se houvesse países no céu, também deveriam ser azuis como este, pensou o menino, e imaginou ter obtido uma vaga ideia de como devia ser o Paraíso.
Mais tarde, quando os gansos continuaram a viagem, voaram rumo ao vale azul. Estavam em ânimo de festa; grasnavam e faziam tal algazarra que ninguém que tivesse ouvidos podia deixar de ouvi-los.
Aquele vinha a ser o primeiro dia de primavera verdadeiramente belo que tinham tido naquela região. Até então, a primavera fizera seu trabalho entre chuva e ventania; e agora, quando de repente o tempo se tornara ameno, as pessoas sentiam tamanha saudade do calor de verão e dos bosques verdes que mal conseguiam cumprir suas tarefas. E quando os gansos selvagens passaram, lá no alto, alegres e livres, não houve quem não largasse o que tinha nas mãos para erguer os olhos para eles.
Os primeiros que viram os gansos selvagens naquele dia foram os mineiros de Taberg, que arrancavam minério à boca da mina. Quando ouviram o grasnar deles, interromperam a perfuração da rocha, e um dos homens chamou as aves: “Para onde vão? Para onde vão?” Os gansos nada entenderam do que ele dizia, mas o menino inclinou-se sobre o dorso do ganso e respondeu por eles: “Para onde não há nem picareta nem martelo.” Quando os mineiros ouviram aquelas palavras, pensaram que era sua própria saudade que fazia o grasnar dos gansos soar como fala humana. “Levem-nos com vocês! Levem-nos com vocês!”, gritaram. “Este ano, não”, bradou o menino. “Este ano, não.”
Os gansos selvagens acompanharam o rio Taberg até o lago Monk, e durante todo o caminho fizeram a mesma algazarra. Ali, na estreita faixa de terra entre os lagos Monk e Vättern, ficava Jönköping, com suas grandes fábricas. Os gansos selvagens passaram primeiro sobre as fábricas de papel de Monksjö. A hora de descanso do meio-dia acabara havia pouco, e os robustos operários afluíam para o portão da fábrica. Quando ouviram os gansos selvagens, pararam por um instante para escutá-los. “Para onde vão? Para onde vão?”, chamaram os operários. Os gansos selvagens nada compreenderam do que eles diziam, mas o menino respondeu por eles: “Para onde não há nem máquinas nem câmaras de vapor.” Quando os operários ouviram a resposta, acreditaram que era sua própria saudade que fazia o grasnar dos gansos soar como fala humana. “Levem-nos com vocês!” “Este ano, não”, respondeu o menino. “Este ano, não.”
Em seguida, os gansos passaram sobre a conhecida fábrica de fósforos, situada às margens do Vättern — grande como uma fortaleza —, erguendo suas altas chaminés para o céu. Nem uma alma se movia nos pátios; mas, num grande salão, jovens operárias sentavam-se a encher caixas de fósforos. Haviam aberto uma janela por causa do belo tempo, e por ela entrou o chamado dos gansos selvagens. A que estava sentada mais perto da janela inclinou-se para fora, com uma caixa de fósforos na mão, e gritou: “Para onde vão? Para onde vão?” “Para aquela terra onde não há necessidade nem de luz nem de fósforos”, disse o menino. A moça pensou que o que ouvira fora apenas grasnar de gansos; mas, como julgou ter distinguido duas ou três palavras, gritou em resposta: “Levem-me com vocês!” “Este ano, não”, respondeu o menino. “Este ano, não.”
A leste das fábricas ergue-se Jönköping, no mais glorioso sítio que uma cidade poderia ocupar. O estreito Vättern tem altas e íngremes margens de areia, tanto do lado oriental como do ocidental; mas, bem ao sul, os paredões arenosos se rompem, como que para dar lugar a um grande portão pelo qual se alcança o lago. E no meio desse portão — com montanhas à esquerda e montanhas à direita, o lago Monk atrás e o Vättern à frente — fica Jönköping.
Os gansos selvagens seguiram adiante por sobre a cidade longa e estreita, e ali se comportaram exatamente como haviam feito no campo. Mas, na cidade, não houve quem lhes respondesse. Não era de esperar que gente da cidade parasse nas ruas para chamar os gansos selvagens.
A viagem prosseguiu mais além, ao longo das margens do Vättern; e, depois de algum tempo, chegaram ao Sanatório de Sanna. Alguns dos enfermos tinham saído para a varanda a fim de gozar o ar da primavera, e foi assim que ouviram o grasnar dos gansos. “Para onde vão?”, perguntou um deles, com voz tão fraca que mal se podia ouvi-lo. “Para aquela terra onde não há nem tristeza nem doença”, respondeu o menino. “Levem-nos com vocês!”, disseram os doentes. “Este ano, não”, respondeu o menino. “Este ano, não.”
Depois de seguirem ainda mais adiante, chegaram a Huskvarna. A cidade ficava num vale. As montanhas ao redor eram íngremes e de belas formas. Um rio precipitava-se pelas alturas em longas e estreitas quedas. Grandes oficinas e fábricas jaziam abaixo dos paredões da montanha; e, espalhadas pelo fundo do vale, ficavam as casas dos operários, cercadas de pequenos jardins; no centro do vale erguia-se a escola. Justamente quando os gansos selvagens passaram por ali, tocou uma campainha, e uma multidão de crianças saiu marchando em fila. Eram tantas que todo o pátio da escola ficou cheio delas. “Para onde vão? Para onde vão?”, gritaram as crianças ao ouvir os gansos selvagens. “Para onde não se encontram nem livros nem lições”, respondeu o menino. “Levem-nos com vocês!”, guincharam as crianças. “Este ano, não, mas no próximo”, gritou o menino. “Este ano, não, mas no próximo.”
Na margem oriental do Vättern fica o monte Omberg; a leste de Omberg fica Dagmosse; a leste de Dagmosse fica o lago Tåkern. Ao redor de todo o Tåkern estende-se a grande e plana campina de Östergötland.
O Tåkern é um lago bastante grande e, nos tempos antigos, deve ter sido ainda maior. Mas então as pessoas acharam que ele cobria uma parte excessiva da fértil campina, e por isso tentaram drenar suas águas, para poderem semear e colher no fundo do lago. Mas não conseguiram devastar o lago inteiro — o que evidentemente era sua intenção —, e por isso ele ainda oculta uma grande extensão de terra. Desde a drenagem, o lago se tornou tão raso que quase em ponto algum tem mais de dois metros de profundidade. As margens ficaram pantanosas e lamacentas; e, lá dentro do lago, pequenas ilhotas de lodo se erguem acima da superfície da água.
Ora, há alguém que gosta de ficar com os pés dentro d’água, desde que possa manter o corpo e a cabeça ao ar livre: é o caniço. E ele não poderia encontrar lugar melhor para crescer do que as longas e rasas margens do Tåkern, e ao redor das pequenas ilhotas de lodo. Ali prospera tão bem que se ergue mais alto que um homem, e tão cerrado que se torna quase impossível empurrar um barco através dele. Forma uma larga cerca verde ao redor de todo o lago, de modo que só se pode alcançá-lo por uns poucos lugares onde os homens arrancaram os caniços.
Mas, se os caniços mantêm os homens do lado de fora, em compensação dão abrigo e proteção a muitas outras criaturas. Entre eles há uma porção de pequenos diques e canais de água verde e parada, onde a lentilha-d’água e as ervas aquáticas lançam sementes, e onde ovos de mosquitos, peixinhos escuros e vermes se multiplicam em massas incontáveis. E, ao longo das margens desses pequenos diques e canais, há muitos lugares bem escondidos, onde as aves aquáticas chocam seus ovos e criam seus filhotes sem serem perturbadas, nem por inimigos, nem por preocupações de alimento.
Um número incrível de aves vive nos caniços do Tåkern; e mais e mais se reúnem ali a cada ano, à medida que se espalha a notícia de que esplêndida morada ele é. Os primeiros a se instalarem foram os patos selvagens; e ainda vivem ali aos milhares. Mas já não possuem o lago inteiro, pois foram obrigados a dividi-lo com cisnes, mergulhões, galeirões, mobelhas, patos-do-brejo e uma porção de outros.
O Tåkern é certamente o maior e mais precioso lago de aves de todo o país; e os pássaros podem considerar-se felizes enquanto possuírem tal refúgio. Mas é incerto por quanto tempo ainda conservarão o domínio dos caniços e dos bancos de lodo, pois os homens não conseguem esquecer que o lago se estende sobre uma porção considerável de solo bom e fértil; e, de tempos em tempos, volta a surgir entre eles a proposta de drená-lo. E, se tais propostas fossem postas em prática, muitos milhares de aves aquáticas seriam forçadas a abandonar aquelas paragens.
Na época em que Nils Holgersson viajava com os gansos selvagens, vivia no Tåkern um pato selvagem chamado Jarro. Era uma ave jovem, que vivera apenas um verão, um outono e um inverno; agora, era sua primeira primavera. Acabara de voltar da África do Sul e chegara ao Tåkern tão cedo que o gelo ainda cobria o lago.
Certa tarde, quando ele e os outros jovens patos selvagens brincavam de disputar corridas para lá e para cá sobre o lago, um caçador disparou dois tiros contra eles, e Jarro foi ferido no peito. Pensou que fosse morrer; mas, para que aquele que o havia atingido não o tivesse em seu poder, continuou a voar enquanto pôde. Não pensava para onde dirigia o rumo, apenas lutava para se afastar. Quando lhe faltaram as forças, de modo que já não podia voar mais, não estava mais sobre o lago. Havia voado um pouco para o interior, e agora tombou diante da entrada de uma das grandes fazendas que ficam ao longo das margens do Tåkern.
Instantes depois, um jovem trabalhador da fazenda passou por ali. Viu Jarro, aproximou-se e o ergueu do chão. Mas Jarro, que nada pedia senão que o deixassem morrer em paz, reuniu suas últimas forças e bicou o dedo do rapaz, para que ele o soltasse.
Jarro não conseguiu libertar-se. Ainda assim, o encontro teve isto de bom: o trabalhador percebeu que a ave estava viva. Levou-a com muita delicadeza para dentro da casa e mostrou-a à dona — uma jovem mulher de rosto bondoso. Ela tomou Jarro imediatamente das mãos do rapaz, acariciou-lhe o dorso e limpou o sangue que escorria por entre as penas do pescoço. Examinou-o com todo o cuidado; e, ao ver como era belo, com a cabeça verde-escura e luzidia, a faixa branca no pescoço, o dorso vermelho-acastanhado e o espelho azul das asas, deve ter pensado que era uma pena deixá-lo morrer. Sem demora, preparou uma cesta e acomodou a ave dentro dela.
Durante todo esse tempo, Jarro se agitava e lutava para soltar-se; mas, quando compreendeu que aquelas pessoas não pretendiam matá-lo, aquietou-se na cesta com uma sensação de alívio. Então se tornou evidente como estava exausto pela dor e pela perda de sangue. A dona da casa levou a cesta através do aposento para colocá-la no canto, junto à lareira; mas, antes que a pousasse no chão, Jarro já dormia profundamente.
Daí a pouco, Jarro foi despertado por alguém que o tocava de leve. Quando abriu os olhos, sofreu um susto tão terrível que quase perdeu os sentidos. Agora estava perdido, pois diante dele se achava aquele que era mais perigoso do que os seres humanos ou as aves de rapina. Não era nada menos que o próprio César — o cão de pelo comprido — que o farejava curiosamente.
Quão lastimavelmente assustado não ficara ele no verão passado, quando ainda era um patinho de penugem amarela, cada vez que soava por cima das hastes de junco: “César vem aí! César vem aí!” Quando vira o cão malhado de castanho e branco, com as queixadas cheias de dentes, avançar pela água entre os juncos, acreditara contemplar a própria morte. Sempre esperara nunca ter de viver aquele momento em que se encontraria frente a frente com César.
Mas, para sua desgraça, devia ter caído justamente no terreiro onde César morava, pois lá estava ele, bem por cima dele. “Quem é você?”, rosnou. “Como entrou dentro de casa? Você não pertence lá embaixo, entre os juncais?”
Foi com enorme dificuldade que Jarro reuniu coragem para responder. “Não fique zangado comigo, César, por eu ter vindo parar dentro de casa!”, disse ele. “Não é culpa minha. Fui ferido por um tiro. Foram os próprios humanos que me deitaram neste cesto.”
“Oh! então foram os donos da casa que o puseram aqui”, disse César. “Nesse caso, certamente têm intenção de curá-lo; embora, por mim, eu ache que seria mais sensato que o comessem, já que você está em poder deles. Mas, de todo modo, dentro de casa você é tabu. Não precisa me olhar com tanto medo. Aqui não estamos lá em Takern.”
Com isso, César deitou-se para dormir diante da lareira, onde ardia um lenho em chamas. Assim que Jarro compreendeu que aquele terrível perigo havia passado, foi tomado por uma lassidão extrema e adormeceu de novo.
Da vez seguinte em que Jarro despertou, viu que havia diante dele uma tigela com grãos e água. Ainda estava bastante doente, mas sentia fome mesmo assim, e começou a comer. Quando a dona da casa viu que ele comia, aproximou-se, fez-lhe carinho e pareceu satisfeita. Depois disso, Jarro tornou a dormir. Durante vários dias, não fez outra coisa senão comer e dormir.
Certa manhã, Jarro sentiu-se tão bem que saiu do cesto e caminhou pelo assoalho. Mas não foi muito longe antes de tombar de lado e ficar estendido ali. Então César veio, abriu as grandes mandíbulas e o agarrou. Jarro, é claro, acreditou que o cão fosse mordê-lo até a morte; mas César o levou de volta ao cesto sem lhe fazer mal. Por causa disso, Jarro adquiriu tal confiança no cão César que, em seu passeio seguinte pela cabana, foi até o cão e deitou-se ao lado dele. Daí em diante, César e ele se tornaram bons amigos, e todos os dias, por várias horas, Jarro ficava deitado e dormia entre as patas de César.
Mas uma afeição ainda maior do que a que sentia por César, Jarro sentia por sua dona. Dela não tinha o menor medo; esfregava a cabeça em sua mão quando ela vinha alimentá-lo. Sempre que ela saía da cabana, ele suspirava de pesar; e, quando ela voltava, saudava-a com gritos de boas-vindas em sua própria língua.
Jarro esqueceu por completo o medo que tivera, em outros tempos, tanto dos cães quanto dos seres humanos. Agora pensava que eram mansos e bondosos, e os amava. Desejava estar curado, para poder voar até Takern e contar aos patos selvagens que seus inimigos não eram perigosos e que não precisavam temê-los.
Ele observara que os seres humanos, assim como César, tinham olhos serenos, que fazia bem fitar. A única criatura da cabana cujo olhar ele não gostava de encontrar era Clawina, a gata da casa. Ela tampouco lhe fazia mal, mas ele não conseguia depositar nenhuma confiança nela. Além disso, vivia brigando com ele porque ele amava os seres humanos. “Você pensa que eles o protegem porque gostam de você”, dizia Clawina. “Espere só até estar bem gordo! Então eles vão torcer-lhe o pescoço. Eu os conheço, eu conheço.”
Jarro, como todas as aves, tinha um coração terno e afetuoso; e ficava inexprimivelmente angustiado quando ouvia aquilo. Não podia imaginar que sua dona quisesse torcer-lhe o pescoço, nem podia acreditar tal coisa do filho dela, o menininho que ficava horas sentado ao lado de seu cesto, balbuciando e tagarelando. Parecia-lhe que ambos tinham por ele o mesmo amor que ele tinha por eles.
Um dia, quando Jarro e César estavam deitados no lugar de costume, diante do fogo, Clawina sentou-se na lareira e começou a provocar o pato selvagem.
“Gostaria de saber, Jarro, o que vocês, patos selvagens, vão fazer no ano que vem, quando Takern for drenado e transformado em campos de trigo”, disse Clawina. “O que foi que você disse, Clawina?”, gritou Jarro, saltando de pé, tomado de pavor da cabeça aos pés. “Sempre me esqueço, Jarro, de que você não compreende a fala dos humanos, como César e eu”, respondeu a gata. “Do contrário, certamente teria ouvido os homens que estiveram ontem aqui na cabana dizerem que toda a água de Takern vai ser escoada, e que no ano que vem o fundo do lago estará tão seco quanto o assoalho de uma casa. E agora me pergunto para onde irão vocês, patos selvagens.” Quando Jarro ouviu essas palavras, ficou tão furioso que silvou como uma cobra. “Você é tão má quanto uma galinha-d’água qualquer!”, gritou ele para Clawina. “Só quer me incitar contra os seres humanos. Não acredito que eles queiram fazer uma coisa dessas. Devem saber que Takern é propriedade dos patos selvagens. Por que tornariam sem lar e infelizes tantas aves? Com certeza inventou tudo isso para me assustar. Espero que Gorgo, a águia, a despedace! Espero que minha dona lhe corte os bigodes!”
Mas Jarro não conseguiu calar Clawina com esse desabafo. “Então você acha que estou mentindo”, disse ela. “Pergunte a César, então! Ele também estava em casa ontem à noite. César nunca mente.”
“César”, disse Jarro, “você compreende a fala dos humanos muito melhor do que Clawina. Diga que ela não ouviu direito! Pense como seria se os homens drenassem Takern e transformassem o fundo do lago em campos! Então não haveria mais ervas aquáticas nem alimento de pato para os patos selvagens adultos, nem peixinhos pretos, nem vermes, nem ovos de mosquito para os patinhos. Então desapareceriam os juncais — onde agora os patinhos se escondem até serem capazes de voar. Todos os patos seriam obrigados a se mudar daqui e procurar outro lar. Mas onde encontrariam um refúgio como Takern? César, diga que Clawina não ouviu direito!”
Foi extraordinário observar o comportamento de César durante essa conversa. Até então estivera bem desperto o tempo todo, mas agora, quando Jarro se voltou para ele, ofegou, pousou o focinho comprido sobre as patas dianteiras e, num piscar de olhos, estava profundamente adormecido.
A gata olhou para César de cima, com um sorriso sabido. “Creio que César não quer lhe responder”, disse ela a Jarro. “Com ele acontece o mesmo que com todos os cães; nunca admitem que os humanos possam fazer algo errado. Mas você pode confiar em minha palavra, de qualquer modo. Vou lhe contar por que desejam drenar o lago justamente agora. Enquanto vocês, patos selvagens, ainda tinham poder em Takern, eles não queriam drená-lo, pois ao menos tiravam algum proveito de vocês; mas agora mergulhões, galeirões e outras aves que não prestam como alimento infestaram quase todos os juncais, e os homens não acham que precisem deixar o lago existir por causa delas.”
Jarro não se deu ao trabalho de responder a Clawina, mas ergueu a cabeça e gritou no ouvido de César: “César! Você sabe que em Takern ainda há tantos patos que eles enchem o ar como nuvens. Diga que não é verdade que os seres humanos pretendem deixar todos eles sem lar!”
Então César saltou de pé e teve contra Clawina um rompante tão súbito que ela precisou salvar-se pulando para cima de uma prateleira. “Vou lhe ensinar a ficar calada quando eu quero dormir!”, bradou César. “É claro que sei que se fala em drenar o lago este ano. Mas já se falou nisso muitas vezes antes, sem que nada acontecesse. E esse negócio de drenagem é um assunto em que não ponho fé nenhuma. Pois que seria da caça se Takern fosse devastado? Você é uma burra por se regozijar com uma coisa dessas. Com que você e eu vamos nos divertir quando não houver mais aves em Takern?”
Domingo, 17 de abril.
Alguns dias depois, Jarro estava tão bem que já podia voar por toda a casa. Então recebeu muitos carinhos da dona, e o menininho correu para o terreiro e arrancou para ele as primeiras lâminas de capim que haviam brotado. Quando a dona o acariciava, Jarro pensava que, embora agora estivesse tão forte que pudesse voar até Takern a qualquer momento, não gostaria de se separar dos seres humanos. Não se opunha a permanecer com eles por toda a vida.
Mas, certa manhã bem cedo, a dona pôs em Jarro uma correia, ou laço, que o impedia de usar as asas, e depois o entregou ao criado da fazenda que o encontrara no terreiro. O criado enfiou-o debaixo do braço e desceu com ele até Takern.
O gelo derretera enquanto Jarro estivera doente. As folhas velhas e secas do outono ainda se erguiam ao longo das margens e ilhotas, mas todas as plantas aquáticas haviam começado a lançar raízes nas profundezas; e as hastes verdes já haviam alcançado a superfície. E agora quase todas as aves migratórias estavam em casa. Os bicos curvos dos maçaricos espiavam por entre os juncos. Os mergulhões deslizavam de um lado para outro com novos colares de penas ao redor do pescoço; e as narcejas juntavam palhinhas para seus ninhos.
O criado entrou numa chata, deitou Jarro no fundo do barco e começou a impulsioná-lo pelo lago com uma vara. Jarro, que agora se acostumara a esperar apenas o bem dos seres humanos, disse a César, que também fazia parte do grupo, que era muito grato ao criado por levá-lo para o lago. Mas não havia necessidade de mantê-lo tão bem vigiado, pois ele não pretendia fugir voando. A isso, César não respondeu. Estava muito calado naquela manhã.
A única coisa que pareceu a Jarro um tanto estranha foi que o criado tivesse levado sua espingarda. Ele não podia acreditar que alguma das boas pessoas da cabana quisesse atirar nas aves. Além disso, César lhe dissera que os homens não caçavam naquela época do ano. “É tempo de defeso”, dissera ele, “embora isso, é claro, não me diga respeito.”
O criado foi até uma das pequenas ilhotas de lama cercadas de juncos. Ali desceu do barco, juntou alguns juncos velhos num monte e deitou-se atrás dele. Jarro pôde andar pelo chão, com a correia sobre as asas, preso ao barco por uma longa corda.
De repente, Jarro avistou alguns patos e marrecos jovens, em cuja companhia outrora correra de um lado para outro pelo lago. Estavam muito longe, mas Jarro os chamou com dois gritos fortes. Eles responderam, e um bando grande e belo se aproximou. Antes que chegassem, Jarro começou a lhes contar sua maravilhosa salvação e a bondade dos seres humanos. Nesse instante, dois tiros soaram atrás dele. Três patos afundaram entre os juncos — sem vida —, e César saltou para fora e os apanhou.
Então Jarro compreendeu. Os seres humanos só o haviam salvado para poderem usá-lo como pato-chamariz. E haviam conseguido. Três patos tinham morrido por sua causa. Ele pensou que morreria de vergonha. Pensou que até seu amigo César o olhava com desprezo; e, quando voltaram para a cabana, não ousou deitar-se e dormir ao lado do cão.
Na manhã seguinte, Jarro foi novamente levado para as águas rasas. Dessa vez também viu alguns patos. Mas, quando notou que vinham voando em sua direção, gritou-lhes: “Fujam! Fujam! Cuidado! Voem para outro lado! Há um caçador escondido atrás do monte de juncos. Eu sou apenas um pássaro-chamariz!” E de fato conseguiu impedir que eles se aproximassem o bastante para ficarem ao alcance do tiro.
Jarro mal tivera tempo de provar uma folha de capim, tão ocupado estava em montar guarda. Lançava seu aviso assim que uma ave se aproximava. Chegou até a advertir os mergulhões, embora os detestasse porque expulsavam os patos de seus melhores esconderijos. Mas não queria que ave alguma sofresse desgraça por sua causa. E, graças à vigilância de Jarro, o criado teve de voltar para casa sem disparar um único tiro.
Apesar disso, César pareceu menos descontente do que no dia anterior; e, quando veio a noite, tomou Jarro na boca, levou-o até a lareira e deixou que dormisse entre suas patas dianteiras.
Ainda assim, Jarro já não se sentia contente na cabana, mas profundamente infeliz. Seu coração sofria ao pensar que os seres humanos nunca o haviam amado. Quando a dona da casa, ou o menininho, se aproximavam para acariciá-lo, ele metia o bico debaixo da asa e fingia que dormia.
Durante vários dias, Jarro continuou seu penoso serviço de sentinela; e já era conhecido por todo o Takern. Então aconteceu, certa manhã, enquanto ele gritava como de costume: “Tenham cuidado, aves! Não se aproximem de mim! Sou apenas um pato-chamariz”, que um ninho de mergulhão veio flutuando em direção às águas rasas onde ele estava amarrado. Isso não tinha nada de especialmente notável. Era um ninho do ano anterior; e, como os ninhos de mergulhão são construídos de tal modo que podem mover-se sobre a água como barcos, acontece muitas vezes que acabam derivando para o lago. Ainda assim, Jarro ficou ali parado, fitando o ninho, porque ele vinha tão diretamente para a ilhota que parecia que alguém lhe dirigia o curso sobre a água.
Quando o ninho se aproximou, Jarro viu que um pequenino ser humano — o menor que já vira — estava sentado dentro dele e o remava adiante com um par de gravetos. E esse pequeno humano lhe disse: “Chegue o mais perto possível da água, Jarro, e esteja pronto para voar. Em breve você será libertado.”
Alguns segundos depois, o ninho de mergulhão estava perto da terra, mas o pequeno remador não o deixou; permaneceu encolhido entre galhos e palha. Jarro também se manteve quase imóvel. Estava verdadeiramente paralisado de medo de que o salvador fosse descoberto.
A coisa seguinte que aconteceu foi que um bando de gansos selvagens apareceu. Então Jarro despertou para o serviço e os advertiu com gritos estridentes; mas, apesar disso, eles voaram várias vezes para lá e para cá sobre as águas rasas. Mantinham-se tão alto que estavam fora do alcance dos tiros; ainda assim, o criado deixou-se tentar e disparou duas vezes contra eles. Mal os tiros haviam sido dados, a pequena criatura correu para a terra, tirou uma faca minúscula da bainha e, com dois golpes rápidos, cortou a correia de Jarro. “Agora voe, Jarro, antes que o homem tenha tempo de carregar de novo!”, gritou ele, enquanto corria para o ninho de mergulhão e se afastava da margem, impulsionando-o com uma vara.
O caçador estivera com os olhos fixos nos gansos e não percebera que Jarro fora libertado; mas César acompanhara com mais atenção o que acontecera; e, justamente quando Jarro ergueu as asas, avançou de súbito e o agarrou pelo pescoço.
Jarro gritou lastimosamente; e o menino que o libertara disse calmamente a César: “Se você é tão honrado quanto parece, certamente não pode querer obrigar uma boa ave a ficar aqui sentada para atrair outras à desgraça.”
Quando César ouviu essas palavras, arreganhou o lábio superior com ferocidade, mas no instante seguinte largou Jarro. “Voe, Jarro!”, disse ele. “Você é bom demais para ser pato-chamariz. Não era por isso que eu queria mantê-lo aqui; era porque a cabana ficará solitária sem você.”
Quarta-feira, 20 de abril.
De fato, a cabana ficou muito solitária sem Jarro. O cão e a gata achavam o tempo comprido, agora que não o tinham para disputar entre si; e a dona da casa sentia falta do grasnar alegre a que ele se entregava toda vez que ela entrava. Mas quem mais sentia saudades de Jarro era o menininho, Per Ola. Tinha apenas três anos e era filho único; e em toda a sua vida nunca tivera um companheiro de brincadeiras como Jarro. Quando ouviu dizer que Jarro voltara para Takern e para os patos selvagens, não conseguiu conformar-se, mas pensava sem cessar em como poderia trazê-lo de volta.
Per Ola conversara muito com Jarro enquanto ele jazia quieto em seu cesto, e tinha certeza de que o pato o compreendia. Pediu à mãe que o levasse até o lago, para que pudesse encontrar Jarro e persuadi-lo a voltar para eles. A mãe não quis ouvir falar nisso; mas o pequeno nem por isso desistiu de seu plano.
No dia seguinte ao desaparecimento de Jarro, Per Ola corria pelo terreiro. Brincava sozinho, como de costume, mas César estava deitado no alpendre; e, quando a mãe deixou o menino sair, disse: “Tome conta de Per Ola, César!”
Ora, se tudo estivesse como de costume, César também teria obedecido à ordem, e o menino teria sido tão bem guardado que não correria o menor risco. Mas César não andava como ele mesmo naqueles dias. Sabia que os lavradores que viviam ao longo de Takern haviam realizado frequentes conferências sobre o rebaixamento do lago; e que quase haviam decidido a questão. Os patos teriam de partir, e César nunca mais contemplaria uma gloriosa caçada. Estava tão absorvido em pensamentos sobre essa desgraça que não se lembrou de vigiar Per Ola.
E o pequeno mal ficara sozinho no terreiro por um minuto quando percebeu que chegara o momento certo de descer até Takern e conversar com Jarro. Abriu uma porteira e caminhou em direção ao lago pela vereda estreita que corria ao longo das margens. Enquanto podia ser visto da casa, andou devagar; mas depois apressou o passo. Tinha muito medo de que a mãe, ou qualquer outra pessoa, lhe gritasse que não podia ir. Não queria fazer nada de errado, apenas persuadir Jarro a voltar para casa; mas sentia que os de casa não teriam aprovado a empreitada.
Quando Per Ola chegou à margem do lago, chamou Jarro várias vezes. Depois ficou por muito tempo parado, esperando, mas nenhum Jarro apareceu. Viu várias aves que se pareciam com o pato selvagem, mas elas passaram voando sem lhe dar atenção, e ele pôde compreender que nenhuma delas era a certa.
Como Jarro não vinha até ele, o menininho pensou que seria mais fácil encontrá-lo se saísse pelo lago. Havia várias boas embarcações junto à margem, mas estavam amarradas. A única que se achava solta e livre era uma velha chata furada, tão imprestável que ninguém pensava em usá-la. Mas Per Ola trepou nela sem se importar que todo o fundo estivesse cheio de água. Não tinha força suficiente para usar os remos; em vez disso, sentou-se para balançar e fazer a chata oscilar. Certamente nenhum adulto teria conseguido mover uma chata para dentro de Takern dessa maneira; mas, quando as águas estão altas — e a má sorte se põe à frente —, as crianças pequenas têm uma faculdade maravilhosa de se fazer ao largo. Logo Per Ola estava navegando por Takern, chamando por Jarro.
Quando a velha chata foi balançada assim — para dentro do lago —, suas fendas se abriram cada vez mais, e a água de fato começou a jorrar para dentro dela. Per Ola não deu a menor atenção a isso. Sentado no banquinho da frente, chamava cada ave que via e se perguntava por que Jarro não aparecia.
Por fim, Jarro avistou Per Ola. Ouviu que alguém o chamava pelo nome que tivera entre os seres humanos e compreendeu que o menino saíra por Takern à sua procura. Jarro ficou indescritivelmente feliz ao descobrir que um dos humanos realmente o amava. Desceu em direção a Per Ola como uma flecha, pousou ao lado dele e deixou que o acariciasse. Ambos estavam muito felizes por se verem de novo. Mas, de repente, Jarro percebeu o estado da chata. Estava meio cheia de água e quase pronta para afundar. Jarro tentou dizer a Per Ola que ele, que não podia nem voar nem nadar, precisava tentar chegar à terra; mas Per Ola não o compreendeu. Então Jarro não esperou nem um instante, mas apressou-se em ir buscar ajuda.
Jarro voltou dali a pouco, trazendo nas costas uma criaturinha que era muito menor que o próprio Per Ola. Se ela não pudesse falar e mover-se, o menino teria acreditado que era uma boneca. Imediatamente, o pequeno ordenou a Per Ola que apanhasse uma vara comprida e delgada que jazia no fundo da chata e tentasse impulsioná-la em direção a uma das ilhas de juncos. Per Ola obedeceu, e ele e a minúscula criatura, juntos, dirigiram a chata. Com alguns golpes, estavam numa pequena ilha cercada de juncos, e então disseram a Per Ola que devia pisar em terra firme. E, no exato instante em que Per Ola pôs o pé em terra, a chata encheu-se de água e afundou. Quando Per Ola viu aquilo, teve certeza de que papai e mamãe ficariam muito zangados com ele. Teria começado a chorar se logo não encontrasse outra coisa em que pensar: a saber, um bando de grandes aves cinzentas, que pousaram na ilha. O pequenino o levou até elas, disse-lhe seus nomes e o que diziam. E aquilo era tão divertido que Per Ola esqueceu todo o resto.
Enquanto isso, o pessoal da fazenda descobrira que o menino havia desaparecido e começara a procurá-lo. Vasculharam as dependências, olharam dentro do poço e revistaram a adega. Depois saíram pelos caminhos e veredas; foram até a fazenda vizinha para saber se ele se extraviara para lá, e também o procuraram junto ao Takern. Mas, por mais que procurassem, não o encontraram.
César, o cão, compreendeu muito bem que os camponeses procuravam Per Ola, mas nada fez para conduzi-los ao caminho certo; ao contrário, ficou deitado, imóvel, como se o assunto não lhe dissesse respeito.
Mais tarde, naquele dia, as pegadas de Per Ola foram descobertas perto do embarcadouro. Então se notou que a velha chata furada já não estava na praia. E começou-se a compreender como toda a coisa havia acontecido.
O camponês e seus ajudantes imediatamente puseram os barcos na água e saíram à procura do menino. Remaram pelo Takern até muito tarde da noite, sem ver a menor sombra dele. Não podiam deixar de acreditar que a velha chata afundara e que o pequeno jazia morto no fundo do lago.
À noite, a mãe de Per Ola procurava pela praia. Todos os outros estavam convencidos de que o menino se afogara, mas ela não conseguia aceitar isso. Continuava a procurar. Procurava entre juncos e taboas; pisava e pisava na margem lodosa, sem pensar em quão fundo seu pé afundava, nem em quão molhada ficara. Estava indizivelmente desesperada. O coração lhe doía no peito. Não chorava, mas torcia as mãos e chamava pelo filho em tons altos e penetrantes.
Ao redor dela, ouvia gritos de cisnes, patos e maçaricos. Parecia-lhe que a seguiam e que também eles gemiam e se lamentavam. “Certamente eles também devem estar em aflição, já que gemem assim”, pensou ela. Depois se lembrou: eram apenas aves que ela ouvia se queixar. Decerto não tinham preocupações.
Era estranho que não se aquietassem depois do pôr do sol. Mas ela ouvia todas aquelas incontáveis multidões de aves que viviam ao longo do Takern soltarem grito após grito. Várias delas a seguiam para onde quer que fosse; outras passavam roçando em asas leves. Todo o ar estava cheio de gemidos e lamentações.
Mas a angústia que ela própria sofria lhe abriu o coração. Pensou que não estava tão apartada de todas as outras criaturas vivas quanto as pessoas costumam imaginar. Compreendeu, muito melhor do que antes, como viviam as aves. Tinham suas preocupações constantes com o lar e os filhos; elas, como ela. Certamente não havia tão grande diferença entre elas e ela como acreditara até então.
Então lhe ocorreu que estava praticamente decidido que aqueles milhares de cisnes, patos e mergulhões perderiam seus lares ali junto ao Takern. “Será muito duro para eles”, pensou. “Onde criarão agora seus filhos?”
Ela ficou imóvel e meditou sobre isso. Parecia uma realização excelente e agradável transformar um lago em campos e prados, mas que fosse algum outro lago, não o Takern; algum outro lago que não fosse o lar de tantos milhares de criaturas.
Lembrou-se de que, no dia seguinte, a proposta de rebaixar o lago seria decidida, e perguntou-se se era por isso que seu filhinho se perdera — justamente naquele dia.
Seria a vontade de Deus que a dor viesse abrir-lhe o coração — justamente naquele dia — antes que fosse tarde demais para impedir o ato cruel?
Caminhou depressa para a casa e começou a conversar com o marido sobre aquilo. Falou do lago e das aves, e disse que acreditava ser o julgamento de Deus sobre ambos. E logo percebeu que ele era da mesma opinião.
Eles já possuíam uma grande propriedade, mas, se a drenagem do lago fosse levada a cabo, caberia a eles uma porção tão bela do fundo do lago que suas terras quase dobrariam. Por esse motivo, haviam sido mais ansiosos pelo empreendimento do que qualquer um dos outros proprietários das margens. Os demais se preocupavam com as despesas e temiam que a drenagem não se mostrasse mais bem-sucedida dessa vez do que fora na anterior. O pai de Per Ola sabia, no íntimo, que fora ele quem os influenciara a empreender a obra. Usara toda a sua eloquência para poder deixar ao filho uma fazenda duas vezes maior do que a que seu pai lhe deixara.
Ficou ali, ponderando se a mão de Deus estaria por trás do fato de que o Takern lhe tomara o filho na véspera do dia em que ele devia redigir o contrato para devastá-lo. A esposa não precisou dizer-lhe muitas palavras antes que ele respondesse: “Pode ser que Deus não queira que interfiram na Sua ordem. Falarei com os outros sobre isso amanhã, e creio que concluiremos que tudo pode permanecer como está.”
Enquanto os camponeses conversavam sobre isso, César estava deitado diante do fogo. Ergueu a cabeça e escutou com muita atenção. Quando julgou estar seguro do desfecho, foi até a dona, tomou-a pela saia e conduziu-a à porta. “Mas, César!”, disse ela, querendo soltar-se. “Você sabe onde está Per Ola?”, exclamou. César latiu alegremente e atirou-se contra a porta. Ela a abriu, e César disparou em direção ao Takern. A dona estava tão certa de que ele sabia onde Per Ola estava que correu atrás dele. E mal haviam chegado à margem quando ouviram o choro de uma criança lá fora, no lago.
Per Ola tivera o melhor dia de sua vida na companhia de Polegarzinho e das aves; mas agora começara a chorar porque estava com fome e com medo da escuridão. E ficou contente quando papai, mamãe e César vieram buscá-lo.
Sexta-feira, 22 de abril.
Certa noite, quando o menino estava deitado e dormia numa ilha do Takern, foi despertado por remadas. Mal abrira os olhos quando uma luz tão ofuscante caiu sobre eles que ele começou a piscar.
A princípio não conseguiu distinguir o que brilhava tão intensamente ali no lago; mas logo viu que uma chata, com uma grande tocha acesa fincada num espigão à popa, estava junto à beira dos juncos. A chama vermelha da tocha refletia-se claramente no lago escuro da noite; e a luz brilhante devia ter atraído os peixes, pois em torno da chama, lá no fundo, via-se uma porção de manchas escuras que se moviam sem cessar e trocavam de lugar.
Havia dois velhos na chata. Um estava sentado aos remos, e o outro permanecia de pé sobre um banco na popa, segurando na mão uma lança curta, grosseiramente farpada. O que remava era, ao que parecia, um pobre pescador. Era pequeno, ressequido e curtido pelo tempo, e vestia um casaco fino e puído. Via-se que estava tão acostumado a ficar ao ar livre em todo tipo de tempo que não se incomodava com o frio. O outro era bem alimentado e bem vestido, e parecia um camponês próspero e satisfeito consigo mesmo.
“Agora, pare!”, disse o camponês, quando estavam diante da ilha onde o menino se encontrava. Ao mesmo tempo, mergulhou a lança na água. Quando a retirou, veio com ela uma enguia longa e bonita.
“Veja só!”, disse ele, enquanto soltava a enguia da lança. “Essa valeu a pena. Agora acho que já temos o bastante para voltar.”
Seu companheiro não levantou os remos, mas ficou sentado, olhando ao redor. “Está encantador aqui no lago esta noite”, disse ele. E assim era. Havia uma quietude absoluta, de modo que toda a superfície da água jazia em repouso imperturbado, salvo pelo rastro por onde o barco avançara. Esse rastro parecia um caminho de ouro e cintilava à luz do fogo. O céu estava límpido, azul-escuro, densamente salpicado de estrelas. As margens estavam ocultas pelas ilhas de juncos, exceto para o oeste. Ali, o monte Omberg erguia-se alto e escuro, muito mais imponente do que de costume, e recortava uma grande porção triangular da abóbada celeste.
O outro virou a cabeça para tirar a luz dos olhos e olhou ao redor. “Sim, é belo aqui em Östergylln”, disse ele. “Ainda assim, o melhor da província não é sua beleza.” “Então o que é o melhor?”, perguntou o remador. “É que sempre foi uma província respeitada e honrada.” “Isso pode ser bem verdade.” “E também isto: que se sabe que sempre continuará a sê-lo.” “Mas como, neste mundo, se pode saber isso?”, disse o que estava aos remos.
O camponês endireitou-se onde estava e firmou-se na lança. “Há uma velha história que foi transmitida de pai para filho em minha família; e nela se aprende o que acontecerá a Östergötland.” “Então pode muito bem contá-la a mim”, disse o remador. “Não a contamos a qualquer um, mas não desejo guardá-la em segredo de um velho camarada.
“Em Ulvåsa, aqui em Östergötland”, continuou ele (e percebia-se pelo tom de sua voz que falava de algo que ouvira de outros e sabia de cor), “muitos e muitos anos atrás, viveu uma senhora que possuía o dom de olhar para o futuro e dizer às pessoas o que lhes aconteceria — com tanta certeza e exatidão como se já houvesse ocorrido. Por isso, tornou-se amplamente conhecida; e é fácil compreender que as pessoas viessem procurá-la, tanto de longe como de perto, para saber o que teriam de atravessar, de bom ou de mau.
“Um dia, quando a senhora de Ulvåsa estava sentada em seu salão e fiava, como era costume nos tempos antigos, um pobre camponês entrou no aposento e sentou-se no banco junto à porta.
“‘Gostaria de saber em que a senhora está sentada pensando, querida senhora’, disse o camponês, depois de algum tempo.
“‘Estou sentada pensando em coisas elevadas e santas’, respondeu ela. ‘Então talvez não seja conveniente que eu lhe pergunte sobre algo que pesa em meu coração’, disse o camponês.
“‘Provavelmente o que pesa em seu coração não é outra coisa senão o desejo de colher muito trigo em seu campo. Mas estou acostumada a receber comunicações do Imperador sobre como será o destino de sua coroa; e do Papa, sobre como será o destino de suas chaves.’ ‘Coisas assim não devem ser fáceis de responder’, disse o camponês. ‘Também ouvi dizer que ninguém parece sair daqui sem ficar descontente com o que ouviu.’
“Quando o camponês disse isso, viu que a senhora de Ulvåsa mordia o lábio e se endireitava no banco. ‘Então é isso que você ouviu dizer de mim’, disse ela. ‘Pois bem, pode tentar a sorte perguntando-me aquilo que deseja saber; e verá se posso responder de modo que fique satisfeito.’
“Depois disso, o camponês não hesitou em declarar sua missão. Disse que viera perguntar como seria o futuro de Östergötland. Nada lhe era tão caro quanto sua província natal, e sentia que seria feliz até o dia da morte se pudesse obter uma resposta satisfatória à sua pergunta.
“‘Oh! é só isso que deseja saber’, disse a sábia senhora; ‘então creio que ficará contente. Pois daqui, onde agora estou sentada, posso lhe dizer que assim será com Östergötland: ela sempre terá algo de que se orgulhar diante das outras províncias.’
“‘Sim, essa foi uma boa resposta, querida senhora’, disse o camponês, ‘e agora eu ficaria inteiramente em paz se apenas pudesse compreender como tal coisa seria possível.’
“‘Por que não seria possível?’, disse a senhora de Ulvåsa. ‘Você não sabe que Östergötland já é renomada? Ou pensa que há algum lugar na Suécia que possa se vangloriar de possuir, ao mesmo tempo, dois mosteiros como os de Alvastra e Vreta, e uma catedral tão bela quanto a de Linköping?’
“‘Pode ser’, disse o camponês. ‘Mas sou um velho, e sei que os pensamentos das pessoas são inconstantes. Temo que venha um tempo em que já não queiram nos dar glória alguma, nem por Alvastra, nem por Vreta, nem pela catedral.’
“‘Nisso talvez você tenha razão’, disse a senhora de Ulvåsa, ‘mas nem por isso precisa duvidar da profecia. Hei de erguer agora um novo mosteiro em Vadstena, e ele se tornará o mais célebre do Norte. Para lá farão peregrinações tanto os grandes como os humildes, e todos cantarão louvores à província por ter dentro de seus limites um lugar tão santo.’
“O camponês respondeu que se alegrava muito em saber disso. Mas também sabia, é claro, que tudo era perecível; e muito se perguntava o que daria distinção à província se um dia o mosteiro de Vadstena caísse em descrédito.
“‘Você não é fácil de satisfazer’, disse a senhora de Ulvåsa, ‘mas decerto posso ver tão longe que sou capaz de lhe dizer que, antes que o mosteiro de Vadstena perca seu esplendor, será erguido nas proximidades um castelo que será o mais magnífico de sua época. Reis e duques serão hóspedes ali, e será considerado uma honra para toda a província possuir tal ornamento.’
“‘Também me alegra ouvir isso’, disse o camponês. ‘Mas sou um velho, e sei como geralmente acabam as glórias deste mundo. E, se o castelo cair em ruínas, muito me pergunto o que haverá então que possa atrair a atenção das pessoas para esta província.’
“‘Não é pouco o que você quer saber’, disse a senhora de Ulvåsa, ‘mas, certamente, posso olhar longe o bastante no futuro para ver que haverá vida e movimento nas florestas ao redor de Finspång. Vejo como cabanas e forjas se erguem ali, e creio que toda a província será famosa porque o ferro será moldado dentro de seus limites.’
“O camponês não negou que se sentia encantado ao ouvir aquilo. ‘Mas, se tudo fosse tão mal que até a fundição de Finspång perdesse importância, então dificilmente seria possível surgir algo novo de que Östergötland pudesse se orgulhar.’
“‘Você não é fácil de agradar’, disse a senhora de Ulvåsa, ‘mas posso ver tão longe no futuro que percebo como, ao longo das margens do lago, grandes solares — vastos como castelos — são construídos por senhores que travaram guerras em terras estrangeiras. Creio que os solares trarão à província tanta honra quanto qualquer outra coisa que mencionei.’
“‘Mas e se vier um tempo em que ninguém mais louve os grandes solares?’, insistiu o camponês.
“‘Não precisa ficar inquieto de modo algum’, disse a senhora de Ulvåsa. ‘Vejo fontes de saúde borbulharem nos prados de Medevi, às margens do Vättern. Creio que as águas de Medevi trarão à terra tanto louvor quanto você possa desejar.’
“‘Isso é uma coisa muito boa de saber’, disse o camponês. ‘Mas e se vier um tempo em que as pessoas busquem saúde em outras fontes?’
“‘Você não deve se angustiar por causa disso’, respondeu a senhora de Ulvåsa. ‘Vejo como as pessoas cavam e trabalham, de Motala a Mem. Cavam um canal através de todo o país, e então o louvor de Östergötland estará novamente nos lábios de todos.’
“Mas, apesar disso, o camponês parecia perturbado.
“‘Vejo que as corredeiras do rio Motala começam a mover rodas’, disse a senhora de Ulvåsa — e agora duas manchas vermelhas e vivas lhe subiram às faces, pois ela começava a impacientar-se —, ‘ouço martelos ressoarem em Motala, e teares baterem em Norrköping.’
“‘Sim, é bom saber disso’, disse o camponês, ‘mas tudo é perecível, e temo que até isso possa ser esquecido e cair no olvido.’
“Quando o camponês nem mesmo agora se mostrou satisfeito, a paciência da senhora chegou ao fim. ‘Você diz que tudo é perecível’, disse ela, ‘mas agora ainda hei de nomear algo que permanecerá sempre igual a si mesmo; e é que camponeses arrogantes e cabeça-dura como você sempre serão encontrados nesta província — até o fim dos tempos.’
“Mal a senhora de Ulvåsa dissera isso, o camponês levantou-se — feliz e satisfeito — e agradeceu-lhe pela boa resposta. Agora, enfim, estava satisfeito, disse ele.
“‘Em verdade, agora compreendo como você vê a questão’, disse então a senhora de Ulvåsa.
“‘Pois eu a vejo assim, querida senhora’, disse o camponês, ‘que tudo quanto reis, sacerdotes, nobres e mercadores constroem e realizam só pode durar alguns anos. Mas, quando a senhora me diz que em Östergötland sempre haverá camponeses amantes da honra e perseverantes, então sei também que ela poderá conservar sua antiga glória. Pois só aqueles que seguem curvados sob o eterno trabalho da terra podem manter esta terra em boa reputação e honra — de uma época a outra.’”
Sábado, 23 de abril.
O menino seguia adiante — lá no alto, no ar. Tinha sob si a grande planície de Östergötland e ficava sentado contando as muitas igrejas brancas que se erguiam acima dos pequenos bosques frondosos ao redor delas. Não demorou muito para que tivesse contado cinquenta. Depois disso, confundiu-se e já não conseguiu acompanhar a conta.
Quase todas as fazendas eram formadas por grandes casas de dois andares, caiadas de branco, que pareciam tão imponentes que o menino não podia deixar de admirá-las. “Não deve haver camponeses nesta terra”, disse consigo, “pois não vejo nenhuma fazenda de camponês.”
Imediatamente, todos os gansos selvagens gritaram: “Aqui os camponeses vivem como senhores. Aqui os camponeses vivem como senhores.”
Nas planícies, o gelo e a neve haviam desaparecido, e o trabalho da primavera começara. “Que espécie de caranguejos compridos são aqueles que rastejam pelos campos?”, perguntou o menino depois de algum tempo. “Arados e bois. Arados e bois”, responderam os gansos selvagens.
Os bois se moviam tão devagar lá embaixo nos campos que mal se podia perceber que estavam em movimento, e os gansos lhes gritavam: “Vocês não chegarão lá antes do ano que vem. Vocês não chegarão lá antes do ano que vem.” Mas os bois estavam à altura da ocasião. Ergueram os focinhos no ar e mugiram: “Fazemos mais bem em uma hora do que gente como vocês faz em toda uma vida.”
Em alguns lugares, os arados eram puxados por cavalos. Eles avançavam com muito mais ânimo e pressa do que os bois; mas os gansos também não conseguiram deixar de provocá-los. “Vocês não têm vergonha de fazer serviço de boi?”, gritaram os gansos selvagens. “E vocês não têm vergonha de fazer serviço de preguiçoso?”, relincharam os cavalos de volta.
Mas enquanto cavalos e bois trabalhavam nos campos, o carneiro do estábulo caminhava pelo terreiro. Fora tosquiado havia pouco e estava melindroso; derrubava os meninos pequenos, perseguia o cão pastor até a casinha dele, e depois desfilava como se ele sozinho fosse senhor de todo o lugar. “Carneirinho, carneirinho, que fez de sua lã?”, perguntaram os gansos selvagens, que passavam lá no alto. “Eu a mandei para as fábricas de lã de Drag, em Norrköping”, respondeu o carneiro com um balido longo e arrastado. “Carneirinho, carneirinho, que fez de seus chifres?”, perguntaram os gansos. Mas chifres o carneirinho nunca possuíra, para sua tristeza, e não se podia oferecer-lhe insulto maior do que perguntar por eles. Correu por muito tempo de um lado para outro, dando marradas no ar, de tão furioso que estava.
Pela estrada do campo vinha um homem que conduzia um rebanho de porquinhos da Escânia, que não tinham mais do que algumas semanas de vida e iam ser vendidos no interior. Trotavam bravamente, pequenos como eram, e mantinham-se bem juntos — como se buscassem proteção. “Óinc, óinc, óinc, fomos tirados cedo demais de papai e mamãe. Óinc, óinc, óinc, que será de nós, pobres crianças?”, diziam os porquinhos. Os gansos selvagens não tiveram coragem de zombar de criaturinhas tão pobres. “Será melhor para vocês do que podem imaginar”, gritaram, ao passar voando por eles.
Os gansos selvagens nunca ficavam tão alegres como quando voavam sobre uma região plana. Então não se apressavam, mas iam de fazenda em fazenda, fazendo pilhérias com os animais domésticos.
Enquanto o menino cavalgava sobre a planície, lembrou-se de uma lenda que ouvira muito tempo antes. Não a recordava exatamente, mas era algo sobre uma saia, metade feita de veludo tecido a ouro e metade de pano caseiro cinzento. Mas aquela a quem pertencia a saia adornara o pano caseiro com tantas pérolas e pedras preciosas que ele parecia mais rico e mais esplêndido do que o tecido de ouro.
Recordava-se disso a respeito do pano caseiro enquanto olhava para Östergötland, porque ela era formada por uma vasta planície, encaixada entre duas regiões montanhosas e cobertas de florestas — uma ao norte, outra ao sul. As duas alturas florestadas estendiam-se ali, num azul encantador, e cintilavam à luz da manhã como se estivessem ornadas de véus dourados; e a planície, que apenas desdobrava um campo nu de inverno após outro, era, por si só, pouco mais bela de se ver do que o pano caseiro cinzento.
Mas as pessoas deviam estar satisfeitas na planície, porque ela era generosa e benigna, e haviam procurado enfeitá-la da melhor maneira possível. Lá do alto — por onde o menino passava —, parecia-lhe que cidades e fazendas, igrejas e fábricas, castelos e estações ferroviárias estavam espalhados sobre ela como adornos grandes e pequenos. Os telhados resplandeciam, e as vidraças cintilavam como joias. Estradas amarelas, trilhos reluzentes de ferrovia e canais azuis corriam entre as regiões como laços bordados. Linköping estendia-se ao redor de sua catedral como um engaste de pérola em torno de uma pedra preciosa; e os jardins no campo eram como pequenos broches e botões. Não havia muita regularidade no desenho, mas era uma exibição de grandeza da qual nunca se cansava de olhar.
Os gansos haviam deixado a região de Öberg e viajavam para o leste ao longo do canal de Göta. Este também se preparava para o verão. Trabalhadores reforçavam as margens do canal e alcatroavam as enormes comportas. Por toda parte se trabalhava para receber dignamente a primavera, até mesmo nas cidades. Ali, pedreiros e pintores ficavam sobre andaimes e embelezavam as fachadas das casas, enquanto criadas limpavam as janelas. Lá embaixo, no porto, veleiros e vapores eram lavados e postos em ordem.
Em Norrköping, os gansos selvagens deixaram a planície e voaram em direção a Kolmården. Por algum tempo, haviam seguido uma velha estrada montanhosa do campo, que serpenteava em torno de penhascos e avançava por baixo de paredes agrestes de montanha — quando, de repente, o menino soltou um grito. Estivera sentado, balançando o pé para a frente e para trás, e uma de suas tamancas escorregara.
“Ganso, ganso, deixei cair meu sapato!”, gritou o menino. O ganso voltou-se e desceu em direção ao chão; então o menino viu que duas crianças, que caminhavam pela estrada, haviam apanhado seu sapato. “Ganso, ganso”, gritou o menino, aflito, “suba de novo! É tarde demais. Não posso recuperar meu sapato.”
Lá embaixo, na estrada, estavam Osa, a pastora de gansos, e seu irmão, o pequeno Mats, olhando para uma minúscula tamanca que caíra do céu.
Osa, a pastora de gansos, permaneceu calada por longo tempo, refletindo sobre o achado. Por fim, disse, lenta e pensativamente: “Você se lembra, pequeno Mats, de que, quando passamos pelo mosteiro de Övid, ouvimos dizer que as pessoas de um terreiro de fazenda tinham visto um elfo vestido com calças de couro e com tamancas nos pés, como qualquer trabalhador? E se recorda de que, quando chegamos a Vittskövle, uma menina nos contou que vira um Goa-Nisse de tamancas, que fugiu voando nas costas de um ganso? E quando nós mesmos chegamos em casa, à nossa cabana, pequeno Mats, vimos um duende vestido do mesmo modo, que também montava nas costas de um ganso — e saiu voando. Talvez fosse o mesmo que seguia em seu ganso aqui no ar e deixou cair sua tamanca.”
“Sim, deve ter sido”, disse o pequeno Mats.
Eles viraram a tamanca de um lado para outro e a examinaram cuidadosamente — pois não é todo dia que alguém encontra na estrada a tamanca de um Goa-Nisse.
“Espere, espere, pequeno Mats!”, disse Osa, a pastora de gansos. “Há alguma coisa escrita de um lado.”
“Ora, há mesmo! Mas são letras tão pequenas.”
“Deixe-me ver! Diz... diz: ‘Nils Holgersson, de V. Vemminghög.’ É a coisa mais maravilhosa que já ouvi!”, disse o pequeno Mats.
Cerca de doze anos antes de Nils Holgersson iniciar suas viagens com os gansos selvagens, havia em Kolmården um fabricante que queria livrar-se de um de seus cães. Mandou chamar seu guarda-caça e disse-lhe que era impossível conservar o cão, porque não se conseguia arrancar-lhe o hábito de perseguir todas as ovelhas e aves domésticas que lhe caíam sob os olhos; e pediu ao homem que levasse o cão à floresta e o matasse a tiro.
O guarda-caça passou a correia no cão para conduzi-lo a um lugar da floresta onde todos os cães imprestáveis da propriedade eram abatidos e enterrados. Não era um homem cruel, mas estava muito satisfeito por ter de matar aquele cão, pois sabia que ovelhas e galinhas não eram as únicas criaturas que ele caçava. Inúmeras vezes o vira entrar na floresta e servir-se de uma lebre ou de um filhote de tetraz.
O cão era um pequeno setter preto e castanho. Chamava-se Karr, e era tão inteligente que compreendia tudo o que se dizia.
Enquanto o guarda-caça o conduzia pelos matagais, Karr sabia muito bem o que o aguardava. Mas ninguém poderia adivinhar isso por seu comportamento, pois ele nem baixava a cabeça nem arrastava a cauda; parecia tão despreocupado como sempre.
Era por estarem na floresta que o cão tomava tanto cuidado para não parecer nem um pouco ansioso.
Havia grandes extensões de mata por todos os lados da fábrica, e essa floresta era famosa tanto entre os animais como entre os seres humanos, porque, durante muitos e muitos anos, os proprietários haviam cuidado tanto dela que se privavam até das árvores necessárias para a lenha. Tampouco tinham tido coragem de desbastá-las ou conduzir seu crescimento. As árvores haviam sido deixadas crescer como bem queriam. Naturalmente, uma floresta assim protegida era um refúgio amado pelos animais selvagens, que ali se encontravam em grande número. Entre eles, chamavam-na de Floresta da Liberdade, e a consideravam o melhor retiro de todo o país.
Enquanto o cão era levado pela mata, pensava no espantalho que fora para todos os pequenos animais e aves que ali viviam.
“Agora, Karr, como ficariam felizes em suas tocas se apenas soubessem o que o espera!”, pensou; mas, ao mesmo tempo, abanava a cauda e latia alegremente, para que ninguém imaginasse que estivesse preocupado ou abatido.
“Que graça teria tido viver, se eu não tivesse caçado de vez em quando?”, raciocinou. “Que se arrependa quem quiser; Karr é que não vai!”
Mas, no instante em que o cão disse isso, uma mudança singular se operou nele. Esticou o pescoço como se tivesse vontade de uivar. Já não trotava ao lado do guarda-caça, mas caminhava atrás dele. Era evidente que começara a pensar em algo desagradável.
Era começo do verão; as fêmeas dos alces acabavam de dar à luz seus filhotes, e, na noite anterior, o cão conseguira separar da mãe um filhote de alce de não mais que cinco dias, empurrando-o para dentro do pântano. Ali o perseguira de um lado para outro sobre os tufos de terra — não com a ideia de capturá-lo, mas apenas pelo prazer de ver como conseguia assustá-lo. A fêmea do alce sabia que o pântano era sem fundo tão pouco tempo depois do degelo, e que ainda não podia sustentar um animal tão grande quanto ela; por isso ficou por muito tempo em terra firme, observando. Mas, quando Karr continuou a perseguir o filhote cada vez mais para longe, ela irrompeu pelo pântano, enxotou o cão, tomou o filhote consigo e voltou-se para a terra firme. Os alces são mais hábeis do que outros animais em atravessar terrenos pantanosos e perigosos, e parecia que ela alcançaria a terra sólida em segurança; mas, quando estava quase lá, um tufo sobre o qual pisara afundou no lodo, e ela desceu com ele. Tentou erguer-se, mas não conseguiu encontrar apoio seguro, e assim afundou e afundou. Karr ficou parado, olhando, sem ousar mover-se. Quando viu que a alce não podia se salvar, fugiu o mais depressa que pôde, pois começara a pensar na surra que levaria se se descobrisse que ele causara a desgraça de uma mãe alce. Ficou tão aterrorizado que não ousou parar para tomar fôlego antes de chegar em casa.
Era disso que o cão se recordava; e aquilo o perturbava de modo muito diferente da lembrança de todas as suas outras más ações. Sem dúvida, porque ele não quisera realmente matar nem a mãe alce nem seu filhote, mas os privara da vida sem desejar fazê-lo.
“Mas talvez ainda estejam vivos!”, pensou o cão. “Não estavam mortos quando fugi; talvez tenham conseguido se salvar.”
Foi tomado por um desejo irresistível de saber com certeza, enquanto ainda havia tempo para descobrir. Notou que o guarda-caça não segurava a correia com firmeza; então deu um salto repentino, soltou-se e disparou pela mata em direção ao pântano com tamanha rapidez que já estava fora de vista antes que o guarda-caça tivesse tempo de apontar a espingarda.
Nada restou ao guarda-caça senão correr atrás dele. Quando chegou ao pântano, encontrou o cão de pé sobre um tufo, uivando com todas as forças.
O homem achou melhor descobrir o significado daquilo; por isso largou a espingarda e rastejou pelo pântano de mãos e joelhos. Não avançara muito quando viu uma fêmea de alce caída, morta, no atoleiro. Bem junto dela jazia um filhote. Ainda estava vivo, mas tão exausto que não conseguia mover-se. Karr estava parado ao lado do filhote, ora abaixando-se e lambendo-o, ora uivando agudamente por socorro.
O guarda-caça ergueu o filhote e começou a arrastá-lo em direção à terra firme. Quando o cão compreendeu que o filhote seria salvo, ficou louco de alegria. Saltava ao redor do guarda-caça, lambia-lhe as mãos e latia de satisfação.
O homem levou o filhote de alce para casa e o fechou numa baia de bezerro no estábulo das vacas. Depois conseguiu ajuda para arrastar a mãe alce para fora do pântano. Só depois de feito isso se lembrou de que devia matar Karr. Chamou o cão e tornou a levá-lo para a floresta.
O guarda-caça caminhou diretamente para o túmulo do cão; mas durante todo o tempo parecia pensar profundamente. De repente, virou-se e seguiu para a propriedade.
Karr trotava tranquilamente; mas, quando o guarda-caça se virou e começou a voltar para casa, ficou inquieto. O homem devia ter descoberto que fora ele quem causara a morte da alce, e agora voltava à propriedade para que ele apanhasse antes de ser morto!
Ser espancado era pior do que tudo! Diante dessa perspectiva, Karr já não conseguiu conservar o ânimo e baixou a cabeça. Quando chegou à propriedade, não ergueu os olhos, mas fingiu que não conhecia ninguém ali.
O senhor estava de pé na escadaria que levava ao vestíbulo quando o guarda-caça se aproximou.
“De onde, neste mundo, veio esse cão?”, exclamou ele. “Com certeza não pode ser Karr. Ele já deve estar morto há muito tempo!”
Então o homem começou a contar a seu senhor tudo a respeito da mãe alce, enquanto Karr se fazia tão pequeno quanto podia e se agachava atrás das pernas do guarda-caça.
Para sua grande surpresa, o homem só tinha elogios para ele. Disse que era evidente que o cão sabia que os alces estavam em perigo e quisera salvá-los.
“Faça como quiser, mas eu não posso matar esse cão!”, declarou o guarda-caça.
Karr ergueu-se e aguçou as orelhas. Mal podia acreditar que ouvira direito. Embora não quisesse mostrar quão aflito estivera, não conseguiu deixar de ganir um pouco. Seria possível que lhe poupassem a vida simplesmente porque se inquietara por causa dos alces?
O senhor achou que Karr se comportara bem, mas, como não queria ficar com o cão, não pôde decidir de imediato o que se faria com ele.
“Se você se encarregar dele e responder por seu bom comportamento no futuro, ele pode muito bem viver”, disse por fim.
Isso o guarda-caça aceitou com a maior alegria, e foi assim que Karr veio a morar na cabana do guarda-caça.
Desde o dia em que Karr foi viver com o guarda-caça, abandonou por completo sua caça proibida na floresta. Isso se devia não apenas ao fato de ter levado um grande susto, mas também a não desejar que o guarda-caça se zangasse com ele. Desde que seu novo senhor lhe salvara a vida, o cão o amava acima de tudo. Só pensava em segui-lo e vigiá-lo. Se ele saía de casa, Karr corria adiante para certificar-se de que o caminho estava livre; e, se ele ficava em casa, Karr deitava-se diante da porta e mantinha estreita vigilância sobre todos os que entravam e saíam.
Quando tudo estava quieto na cabana, quando não se ouviam passos na estrada e o guarda-caça trabalhava em seu jardim, Karr se divertia brincando com o filhote de alce.
No começo, o cão não tinha desejo algum de deixar seu senhor nem por um instante. Como o acompanhava por toda parte, ia com ele ao estábulo das vacas. Quando ele dava leite ao filhote de alce, o cão ficava sentado fora da baia e olhava para ele. O guarda-caça chamou o filhote de Pele-Cinzenta, porque achava que ele não merecia nome mais bonito, e Karr concordava com ele nesse ponto.
Toda vez que o cão olhava para ele, pensava que jamais vira coisa tão feia e desajeitada quanto aquele filhote de alce, com suas pernas longas e trôpegas, que pendiam do corpo como pernas-de-pau frouxas. A cabeça era grande, velha e enrugada, e vivia caída para um lado. A pele jazia em pregas e dobras, como se o animal tivesse vestido um casaco que não fora feito para ele. Sempre triste e descontente, curiosamente saltava de pé toda vez que Karr aparecia, como se ficasse contente em vê-lo.
O filhote de alce se tornava menos esperançoso a cada dia, não crescia nada e, por fim, já nem conseguia levantar-se quando via Karr. Então o cão saltava para dentro da manjedoura para saudá-lo, e nesse momento uma luz se acendia nos olhos da pobre criatura — como se um anseio querido se cumprisse.
Depois disso, Karr visitava o filhote de alce todos os dias e passava muitas horas com ele, lambendo-lhe o pelo, brincando e correndo com ele, até lhe ensinar um pouco de tudo quanto um animal da floresta deve saber.
Era notável que, desde o momento em que Karr começou a visitar o filhote de alce em sua baia, este pareceu mais satisfeito e começou a crescer. Depois que tomou impulso, cresceu tão depressa que, em poucas semanas, a baia já não podia contê-lo, e foi preciso transferi-lo para um bosque.
Quando estava no bosque havia dois meses, suas pernas eram tão compridas que ele podia passar por cima da cerca quando quisesse. Então o senhor da propriedade deu ao guarda-caça permissão para erguer uma cerca mais alta e conceder-lhe mais espaço. Ali o alce viveu por vários anos e cresceu até se tornar um animal forte e belo. Karr lhe fazia companhia sempre que podia; mas agora já não era por compaixão, pois uma grande amizade havia nascido entre os dois. O alce sempre tendia a ser melancólico, apático e indiferente, mas Karr sabia como torná-lo brincalhão e feliz.
Pele-Cinzenta vivera cinco verões na propriedade do guarda-caça quando seu dono recebeu uma carta de um jardim zoológico no estrangeiro, perguntando se o alce poderia ser comprado.
O senhor ficou satisfeito com a proposta; o guarda-caça ficou aflito, mas não tinha poder para dizer não; por isso se decidiu que o alce seria vendido. Karr logo descobriu o que estava no ar e correu até o alce para conversar com ele. O cão estava muito angustiado com a ideia de perder o amigo, mas o alce recebeu a notícia com calma e não pareceu nem alegre nem triste.
“Você pensa em deixar que o mandem embora sem oferecer resistência?”, perguntou Karr.
“De que adiantaria resistir?”, perguntou Pele-Cinzenta. “Eu preferiria ficar onde estou, naturalmente, mas, se fui vendido, terei de ir, é claro.”
Karr olhou para Pele-Cinzenta e mediu-o com os olhos. Era evidente que o alce ainda não estava plenamente crescido. Não possuía os largos galhos, a alta corcova e a longa crina do alce adulto; mas certamente tinha força bastante para lutar por sua liberdade.
“Vê-se que passou a vida inteira em cativeiro”, pensou Karr, mas nada disse.
Karr foi embora e não voltou ao bosque senão muito depois da meia-noite. Àquela hora, sabia que Pele-Cinzenta estaria acordado e tomando seu desjejum.
“É claro que você faz bem, Pele-Cinzenta, em deixar que o levem embora”, observou Karr, que agora parecia calmo e satisfeito. “Você será prisioneiro num grande parque e não terá responsabilidades. É pena que precise partir daqui sem ter visto a floresta. Você sabe que seus antepassados têm um ditado: ‘os alces são um só com a floresta’. Mas você nem sequer esteve numa floresta!”
Pele-Cinzenta ergueu os olhos do trevo que mastigava.
“De fato, eu adoraria ver a floresta, mas como hei de passar por cima da cerca?”, disse com sua apatia habitual.
“Oh, isso é difícil para quem tem pernas tão curtas!”, disse Karr.
O alce lançou um olhar malicioso ao cão, que saltava a cerca muitas vezes por dia — pequeno como era.
Caminhou até a cerca e, com um salto, estava do outro lado, sem saber como aquilo acontecera.
Então Karr e Pele-Cinzenta entraram na floresta. Era uma bela noite de luar, no fim do verão; mas entre as árvores estava escuro, e o alce avançava devagar.
“Talvez seja melhor voltarmos”, disse Karr. “Você, que nunca antes palmilhou a floresta selvagem, poderia facilmente quebrar as pernas.” Pele-Cinzenta passou a mover-se com mais rapidez e mais coragem.
Karr conduziu o alce a uma parte da floresta onde os pinheiros cresciam tão cerrados que vento algum conseguia penetrar entre eles.
“É aqui que os de sua espécie costumam procurar abrigo contra o frio e a tempestade”, disse Karr. “Aqui ficam sob o céu aberto durante todo o inverno. Mas você passará muito melhor para onde vai, pois ficará num galpão, com um teto sobre a cabeça, como um boi.”
Pele-Cinzenta não fez comentário algum, mas ficou quieto, aspirando o ar forte dos pinheiros.
“Você tem mais alguma coisa para me mostrar, ou já vi agora toda a floresta?”, perguntou.
Então Karr foi com ele até um grande pântano e mostrou-lhe os tufos de terra e o lamaçal.
“Por este pântano os alces fogem quando estão em perigo”, disse Karr. “Não sei como conseguem, mas, grandes e pesados como são, podem caminhar aqui sem afundar. É claro que você não conseguiria se sustentar em terreno tão perigoso, mas também não há motivo para fazê-lo, pois nunca será perseguido por caçadores.”
Pele-Cinzenta não retrucou, mas, com um salto, lançou-se ao pântano e sentiu-se feliz ao perceber como os tufos balançavam sob seus pés. Disparou através do brejo e voltou outra vez para junto de Karr, sem ter pisado num atoleiro.
“Já vimos toda a floresta agora?”, perguntou.
“Não, ainda não”, disse Karr.
Em seguida, conduziu o alce até a orla da floresta, onde cresciam belos carvalhos, tílias e álamos.
“Aqui os de sua espécie comem folhas e cascas, que consideram o mais escolhido dos alimentos; mas provavelmente você receberá comida melhor no estrangeiro.”
Pele-Cinzenta ficou maravilhado ao ver as enormes árvores frondosas se abrirem como um grande dossel sobre ele. Comeu tanto folhas de carvalho quanto casca de álamo.
“Elas têm um gosto deliciosamente amargo e bom!”, observou. “Melhor que trevo!”
“Então não foi bom que você as provasse uma vez?”, disse o cão.
Depois disso, levou o alce até um pequeno lago da floresta. A água estava lisa como um espelho e refletia as margens, veladas por névoas finas e leves. Quando Pele-Cinzenta viu o lago, ficou como que encantado.
“O que é isto, Karr?”, perguntou.
Era a primeira vez que via um lago.
“É uma grande extensão de água — um lago”, disse Karr. “Os de sua raça nadam através dele, de uma margem a outra. Dificilmente se poderia esperar que você conhecesse isso; mas pelo menos devia entrar e dar um mergulho!”
O próprio Karr se lançou à água para nadar. Pele-Cinzenta ficou ainda algum tempo na margem, mas por fim o seguiu. Ficou sem fôlego de prazer quando a água fresca se insinuou suavemente ao redor de seu corpo. Queria senti-la também sobre o dorso, e por isso avançou mais. Então percebeu que a água podia sustentá-lo e começou a nadar. Nadou em torno de Karr, mergulhando e bufando, perfeitamente à vontade na água.
Quando voltaram à margem, o cão perguntou se não seria melhor irem para casa agora.
“Ainda falta muito para amanhecer”, observou Pele-Cinzenta, “por isso podemos andar um pouco mais pela floresta.”
Entraram novamente no pinheiral. Pouco depois chegaram a uma clareira aberta, iluminada pelo luar, onde a relva e as flores cintilavam sob o orvalho. Alguns grandes animais pastavam naquele prado da floresta — um alce macho, várias fêmeas de alce e alguns filhotes. Quando Pele-Cinzenta os avistou, parou bruscamente. Mal olhou para as fêmeas ou para os pequenos, mas ficou fitando o velho macho, que tinha largos galhos com muitas pontas, uma alta corcova e uma longa mecha de pelo pendendo da garganta.
“Que espécie de animal é aquele?”, perguntou Pele-Cinzenta, maravilhado.
“Ele se chama Coroa-de-Galhos”, disse Karr, “e é seu parente. Um dia você também terá largos galhos como aqueles, e uma crina igual; e, se ficasse na floresta, muito provavelmente também teria uma manada para conduzir.”
“Se ele é meu parente, devo me aproximar e olhá-lo melhor”, disse Pele-Cinzenta. “Eu nunca sonhei que um animal pudesse ser tão majestoso!”
Pele-Cinzenta caminhou até os alces, mas quase imediatamente voltou para junto de Karr, que permanecera à beira da clareira.
“Você não foi muito bem recebido, foi?”, disse Karr.
“Eu lhe disse que era a primeira vez que encontrava alguns dos meus parentes, e perguntei se poderia caminhar com eles pelo prado. Mas eles me expulsaram, ameaçando-me com seus galhos.”
“Você fez bem em recuar”, disse Karr. “Um jovem alce macho, com apenas uma coroa de pontas curtas, deve tomar cuidado ao lutar com um alce velho. Outro teria desonrado seu nome em toda a floresta por recuar sem resistência, mas coisas assim não precisam preocupar você, que vai se mudar para uma terra estrangeira.”
Karr mal terminara de falar quando Pele-Cinzenta se virou e caminhou até o prado. O velho alce veio ao seu encontro, e imediatamente começaram a lutar. Seus galhos se encontraram e se chocaram, e Pele-Cinzenta foi empurrado para trás por todo o prado. Aparentemente, não sabia como fazer uso de sua força; mas, quando chegou à borda da floresta, fincou os pés no chão, empurrou com força usando os galhos e começou a obrigar Coroa-de-Galhos a recuar.
Pele-Cinzenta lutava em silêncio, enquanto Coroa-de-Galhos bufava e resfolegava. O velho alce, por sua vez, agora era forçado para trás pelo prado. De repente, ouviu-se um grande estalo! Uma ponta dos galhos do velho alce se partira. Ele se desprendeu e disparou para dentro da floresta.
Karr ainda estava parado à orla da mata quando Pele-Cinzenta chegou.
“Agora que você viu o que há na floresta”, disse Karr, “virá para casa comigo?”
“Sim, já está na hora”, observou o alce.
Ambos ficaram calados no caminho de volta. Karr suspirou várias vezes, como se estivesse decepcionado com alguma coisa; mas Pele-Cinzenta caminhava com a cabeça erguida e parecia encantado com a aventura. Seguiu adiante sem hesitar até chegarem ao cercado. Ali parou. Olhou para dentro da estreita paliçada onde vivera até então; viu a terra batida, a forragem envelhecida, o pequeno cocho onde bebera água e o galpão escuro em que dormira.
“Os alces são um só com a floresta!”, gritou. Então jogou a cabeça para trás, de modo que o pescoço repousou contra o dorso, e precipitou-se furiosamente para dentro da mata.
Num bosque de pinheiros no coração da Floresta da Liberdade, todos os anos, no mês de agosto, apareciam algumas mariposas branco-acinzentadas da espécie chamada mariposas-freiras. Eram pequenas e poucas em número, e quase ninguém as notava. Depois de esvoaçarem nas profundezas da floresta por algumas noites, punham alguns milhares de ovos nos galhos das árvores; e pouco depois caíam sem vida no chão.
Quando vinha a primavera, pequenas lagartas espinhosas saíam dos ovos e começavam a comer as agulhas dos pinheiros. Tinham bom apetite, mas nunca pareciam causar dano sério às árvores, porque eram perseguidas ardentemente pelas aves. Raramente mais de algumas centenas de lagartas escapavam dos perseguidores.
As pobres criaturas que viviam até crescer por completo subiam pelos galhos, teciam ao redor de si teias brancas e ficavam por algumas semanas imóveis como crisálidas. Durante esse período, em geral, mais da metade delas era raptada. Se cem mariposas-freiras surgiam em agosto, aladas e perfeitas, isso era considerado um bom ano para elas.
Essa espécie de existência incerta e obscura levaram as mariposas por muitos anos na Floresta da Liberdade. Não havia em todo o país povo de insetos tão escasso, e elas teriam permanecido inteiramente inofensivas e sem poder se, do modo mais inesperado, não tivessem recebido um ajudante.
Esse fato tem alguma ligação com a fuga de Pele-Cinzenta do cercado do guarda-caça. Pele-Cinzenta vagueava pela floresta para se familiarizar melhor com o lugar. No fim da tarde, aconteceu de ele se espremer por alguns matagais atrás de uma clareira onde o solo era lamacento e viscoso, e no centro dela havia uma poça turva. Esse espaço aberto era cercado por pinheiros altos, quase desnudos pela idade e pelo ar miasmático. Pele-Cinzenta não gostou do lugar e o teria deixado imediatamente se não avistasse algumas folhas de cala, verdes e brilhantes, que cresciam perto da poça.
Quando inclinou a cabeça para os caules de cala, aconteceu de perturbar uma grande cobra negra, que dormia sob eles. Pele-Cinzenta ouvira Karr falar das víboras venenosas que se encontravam na floresta. Por isso, quando a cobra ergueu a cabeça, lançou a língua para fora e silvou para ele, pensou ter encontrado um réptil terrivelmente perigoso. Ficou apavorado e, erguendo a pata, golpeou com o casco com tanta força que esmagou a cabeça da cobra. Então fugiu dali a toda pressa!
Assim que Pele-Cinzenta se foi, outra cobra, tão comprida e tão negra quanto a primeira, saiu da poça. Rastejou até a morta e lambeu a pobre cabeça esmagada.
“Será verdade que você está morta, velha Inofensiva?”, silvou a cobra. “Nós duas vivemos juntas tantos anos; nós duas fomos tão felizes uma com a outra, e nos demos tão bem aqui no brejo, que chegamos a ser mais velhas que todas as outras cobras-d’água da floresta! Esta é a pior tristeza que poderia ter-me acontecido!”
A cobra estava tão despedaçada de dor que seu longo corpo se retorcia como se tivesse sido ferido. Até os sapos, que viviam em constante medo dela, tiveram pena.
“Que criatura perversa deve ser para assassinar uma pobre cobra-d’água que não pode se defender!”, silvou a cobra. “Ele certamente merece um castigo severo. Tão certo quanto meu nome é Desamparado e sou a mais velha cobra-d’água de toda a floresta, serei vingado! Não descansarei até que aquele alce esteja tão morto no chão quanto minha pobre velha esposa.”
Quando a cobra fez esse juramento, enrolou-se como um aro e começou a meditar. Dificilmente se pode imaginar algo mais difícil para uma pobre cobra-d’água do que vingar-se de um alce grande e forte; e o velho Desamparado meditou dia e noite sem encontrar solução alguma.
Certa noite, enquanto jazia ali com seus pensamentos de vingança, ouviu um leve roçar acima da cabeça. Ergueu os olhos e viu algumas leves mariposas-freiras brincando entre as árvores.
Seguiu-as com os olhos por longo tempo; depois começou a silvar alto para si mesmo, aparentemente satisfeito com o pensamento que lhe ocorrera — então adormeceu.
Na manhã seguinte, a cobra-d’água foi ver Rastejante, a víbora, que vivia numa parte pedregosa e montanhosa da Floresta da Liberdade. Contou-lhe tudo sobre a morte da velha cobra-d’água e pediu que ele, capaz de desferir golpes tão mortais, se encarregasse da obra de vingança. Mas Rastejante não estava exatamente disposto a entrar em guerra com um alce.
“Se eu atacasse um alce”, disse a víbora, “ele me mataria imediatamente. A velha Inofensiva está morta e enterrada, e não podemos trazê-la de volta à vida; então por que eu me lançaria ao perigo por causa dela?”
Quando a cobra-d’água recebeu essa resposta, ergueu a cabeça a um palmo inteiro do chão e silvou furiosamente:
“Vish vash! Vish vash!”, disse. “É uma pena que você, que foi abençoado com tais armas de defesa, seja tão covarde que não ouse usá-las!”
Quando a víbora ouviu isso, também ficou zangada.
“Rasteje para longe, velho Desamparado!”, silvou. “O veneno está em minhas presas, mas prefiro poupar alguém de quem se diz que é meu parente.”
Mas a cobra-d’água não se moveu do lugar, e por muito tempo as cobras ficaram ali, silvando insultos uma à outra.
Quando Rastejante estava tão furioso que já não conseguia silvar, mas apenas projetar a língua para fora, a cobra-d’água mudou de assunto e começou a falar num tom muito diferente.
“Eu ainda tinha outra incumbência, Rastejante”, disse ele, baixando a voz para um sussurro suave. “Mas agora suponho que você esteja tão zangado que não queira me ajudar.”
“Se não me pedir nenhuma tolice, certamente estarei a seu serviço.”
“Nos pinheiros lá embaixo, junto ao brejo, vive um povo de mariposas que voa a noite inteira.”
“Sei tudo sobre elas”, observou Rastejante. “O que há com elas agora?”
“Elas são a menor família de insetos da floresta”, disse Desamparado, “e a mais inofensiva, já que as lagartas se contentam em roer apenas agulhas de pinheiro.”
“Sim, eu sei”, disse Rastejante.
“Temo que essas mariposas sejam logo exterminadas”, suspirou a cobra-d’água. “Há tantos que arrancam as lagartas na primavera.”
Agora Rastejante começou a compreender que a cobra-d’água queria as lagartas para seu próprio propósito, e respondeu amavelmente:
“Deseja que eu diga às corujas que deixem em paz esses vermes dos pinheiros?”
“Sim, seria bom que você, que tem alguma autoridade na floresta, fizesse isso”, disse Desamparado.
“Eu também poderia dizer uma boa palavra, entre os tordos, em favor dos colhedores de agulhas de pinheiro”, ofereceu-se a víbora. “Terei prazer em servi-lo quando você não exigir nada desarrazoado.”
“Agora você me deu uma boa promessa, Rastejante”, disse Desamparado, “e fico contente por ter vindo procurá-lo.”
Certa manhã — vários anos depois —, Karr estava adormecido no alpendre. Era o começo do verão, a estação das noites claras, e estava luminoso como de dia, embora o sol ainda não tivesse nascido. Karr foi despertado por alguém que chamava seu nome.
“É você, Pele-Cinzenta?”, perguntou, pois estava acostumado às visitas noturnas do alce. De novo ouviu o chamado; então reconheceu a voz de Pele-Cinzenta e apressou-se na direção do som.
Karr ouviu ao longe os passos do alce, enquanto ele disparava para dentro do pinheiral mais cerrado, atravessando diretamente a mata, sem seguir nenhuma trilha pisada. Karr não conseguia alcançá-lo e tinha grande dificuldade até mesmo para seguir seu rastro. “Karr, Karr!”, vinha o grito, e a voz era certamente a de Pele-Cinzenta, embora tivesse agora um timbre que o cão nunca ouvira antes.
“Estou indo, estou indo!”, respondeu o cão. “Onde você está?”
“Karr, Karr! Você não vê como cai e cai?”, disse Pele-Cinzenta.
Então Karr notou que as agulhas de pinheiro caíam sem parar das árvores, como uma chuva constante.
“Sim, vejo como cai”, gritou ele, e correu para longe, mata adentro, em busca do alce.
Pele-Cinzenta continuou correndo pelos matagais, enquanto Karr estava quase perdendo outra vez o rastro.
“Karr, Karr!”, rugiu Pele-Cinzenta; “você não sente esse cheiro estranho na floresta?”
Karr parou e farejou.
Não havia pensado nisso antes, mas agora percebeu que os pinheiros exalavam um odor muito mais forte que o habitual.
“Sim, sinto o cheiro”, disse. Não se deteve o bastante para descobrir a causa, mas apressou-se atrás de Pele-Cinzenta.
O alce corria adiante com tamanha rapidez que o cão não conseguia alcançá-lo.
“Karr, Karr!”, chamava ele; “você não ouve o mastigar nos pinheiros?” Agora seu tom era tão lastimoso que teria derretido uma pedra.
Karr parou para escutar. Ouviu um “tap, tap” fraco, mas distinto, nas árvores. Soava como o tique-taque de um relógio.
“Sim, ouço como bate”, gritou Karr, e não correu mais. Compreendeu que o alce não queria que ele o seguisse, mas que prestasse atenção a algo que estava acontecendo na floresta.
Karr estava sob os galhos pendentes de um grande pinheiro. Olhou-o com cuidado; as agulhas se moviam. Aproximou-se e viu uma massa de lagartas branco-acinzentadas rastejando pelos galhos, roendo as agulhas. Cada ramo estava coberto delas. O crac, crac nas árvores vinha do trabalho de suas pequenas mandíbulas atarefadas. As agulhas roídas caíam ao chão numa chuva contínua, e dos pobres pinheiros vinha um odor tão forte que o cão sofria com ele.
“O que pode significar isto?”, perguntou-se Karr. “É uma pena pelas belas árvores! Logo não lhes restará beleza alguma.”
Foi de árvore em árvore, tentando, com sua pobre vista, ver se tudo ia bem com elas.
“Há um pinheiro que elas não tocaram”, pensou. Mas também dele haviam tomado posse. “E aqui há uma bétula — não, esta também! O guarda-caça não ficará satisfeito com isto”, observou Karr.
Correu mais fundo pelos matagais, para saber até onde a destruição se espalhara. Para onde quer que fosse, ouvia o mesmo tique-taque; sentia o mesmo odor; via a mesma chuva de agulhas. Não havia necessidade de parar para investigar. Compreendia tudo por esses sinais. As pequenas lagartas estavam por toda parte. A floresta inteira estava sendo devastada por elas!
De repente, chegou a uma extensão onde não havia odor e onde tudo estava em silêncio.
“Aqui termina o domínio delas”, pensou o cão, enquanto parava e olhava ao redor.
Mas ali era ainda pior; pois as lagartas já haviam feito seu trabalho, e as árvores estavam sem agulhas. Pareciam mortas. A única coisa que as cobria era uma rede de fios esfarrapados, que as lagartas haviam tecido para usar como estradas e pontes.
Ali dentro, entre as árvores moribundas, Pele-Cinzenta esperava por Karr.
Ele não estava sozinho. Com ele havia quatro alces velhos — os mais respeitados da floresta. Karr os conhecia: eram Dorso-Torto, que era um alce pequeno, mas tinha uma corcova maior que a dos outros; Coroa-de-Galhos, que era o mais digno dos alces; Crina-Áspera, de pelagem espessa; e um velho de pernas compridas que, até o outono anterior, quando recebera uma bala na coxa, fora terrivelmente irritadiço e briguento.
“O que, neste mundo, está acontecendo com a floresta?”, perguntou Karr ao chegar junto dos alces. Eles estavam de cabeça baixa, os lábios superiores muito projetados, e pareciam perplexos.
“Ninguém sabe dizer”, respondeu Pele-Cinzenta. “Esse povo de insetos costumava ser o menos nocivo de todos na floresta, e nunca antes causara dano algum. Mas nestes últimos anos tem-se multiplicado tão depressa que agora parece que a floresta inteira será destruída.”
“Sim, a situação parece grave”, concordou Karr, “mas vejo que os animais mais sábios da floresta se reuniram para deliberar. Talvez já tenham encontrado algum remédio?”
Quando o cão disse isso, Dorso-Torto ergueu solenemente sua pesada cabeça, aguçou as longas orelhas e falou:
“Nós o chamamos aqui, Karr, para saber se os humanos têm conhecimento desta desolação.”
“Não”, disse Karr, “nenhum ser humano jamais vem tão longe na floresta quando não é tempo de caça. Eles nada sabem desta desgraça.”
Então Coroa-de-Galhos disse:
“Nós, que vivemos há muito na floresta, não julgamos poder combater sozinhos essa praga de insetos.”
“Depois disto, não haverá mais paz na floresta!”, interveio Crina-Áspera.
“Mas não podemos deixar toda a Floresta da Liberdade ir à ruína!”, protestou Grande-e-Forte. “Teremos de consultar os humanos; não há alternativa.”
Karr compreendeu que os alces tinham dificuldade em expressar o que desejavam dizer, e tentou ajudá-los.
“Talvez queiram que eu informe às pessoas como estão as coisas aqui?”, sugeriu.
Todos os alces velhos assentiram com a cabeça.
“É muitíssimo lamentável que sejamos obrigados a pedir ajuda aos seres humanos, mas não temos escolha.”
Um instante depois, Karr estava a caminho de casa. Enquanto corria adiante, profundamente aflito com tudo o que ouvira e vira, uma grande cobra-d’água negra aproximou-se deles.
“Bem encontrado na floresta!”, silvou a cobra-d’água.
“Bem encontrado outra vez!”, rosnou Karr, e passou correndo sem parar.
A cobra se virou e tentou alcançá-lo.
“Talvez essa criatura também esteja preocupada com a floresta”, pensou Karr, e esperou.
Imediatamente a cobra começou a falar sobre a grande desgraça.
“Será o fim da paz e do sossego na floresta quando os seres humanos forem chamados para cá”, disse a cobra.
“Temo que sim”, concordou o cão; “mas os mais antigos moradores da floresta sabem o que fazem!”, acrescentou.
“Creio conhecer um plano melhor”, disse a cobra, “se puder receber a recompensa que desejo.”
“Você não é aquele a quem todos por aqui chamam de velho Desamparado?”, disse o cão, zombeteiro.
“Sou um antigo habitante da floresta”, disse a cobra, “e sei como livrá-la de pragas assim.”
“Se você limpar a floresta dessa peste, estou certo de que poderá obter qualquer coisa que pedir”, disse Karr.
A cobra não respondeu a isso antes de rastejar para baixo de um toco de árvore, onde estava bem protegida. Então disse:
“Diga a Pele-Cinzenta que, se ele deixar a Floresta da Liberdade para sempre e for para o extremo norte, onde não cresce carvalho algum, enviarei doença e morte a todas as coisas rastejantes que roem os pinheiros e os abetos!”
“O que foi que você disse?”, perguntou Karr, eriçando-se. “Que mal Pele-Cinzenta já lhe fez?”
“Ele matou aquela a quem eu mais amava”, declarou a cobra, “e quero vingança.”
Antes que a cobra terminasse de falar, Karr arremeteu contra ela; mas o réptil jazia em segurança sob o toco.
“Fique onde está!”, concluiu Karr. “Havemos de expulsar as lagartas sem sua ajuda.”
Na primavera seguinte, enquanto Karr corria pela floresta certa manhã, ouviu alguém atrás dele chamar: “Karr! Karr!”
Virou-se e viu uma velha raposa parada diante de sua toca.
“Você precisa me dizer se os humanos estão fazendo alguma coisa pela floresta”, disse a raposa.
“Sim, pode ter certeza de que estão!”, disse Karr. “Estão trabalhando tanto quanto podem.”
“Eles mataram todos os meus parentes e logo me matarão também”, protestou a raposa. “Mas serão perdoados por isso se ao menos salvarem a floresta.”
Naquele ano, Karr nunca entrava na mata sem que algum animal lhe perguntasse se os humanos poderiam salvar a floresta. Não era fácil para o cão responder; as próprias pessoas não estavam certas de que poderiam vencer as mariposas. Mas, considerando o quanto o velho Kolmården sempre fora temido e odiado, era notável que, todos os dias, mais de cem homens fossem até lá para trabalhar. Limpavam o mato rasteiro. Derrubavam árvores mortas, cortavam galhos das vivas para que as lagartas não pudessem rastejar facilmente de árvore em árvore; também cavavam largas valas ao redor das partes devastadas e erguiam cercas caiadas de cal para mantê-las fora de novos territórios. Depois pintavam anéis de cal em torno dos troncos das árvores, para impedir que as lagartas deixassem aquelas que já haviam despido. A ideia era obrigá-las a permanecer onde estavam até morrerem de fome.
As pessoas trabalharam na floresta até bem entrada a primavera. Estavam esperançosas e mal podiam esperar que as lagartas saíssem dos ovos, certos de que as haviam enclausurado com tanta eficácia que a maioria morreria de inanição.
Mas, no começo do verão, as lagartas surgiram, mais numerosas que nunca.
Estavam por toda parte! Rastejavam pelas estradas do campo, pelas cercas, pelas paredes das cabanas. Vagavam para além dos limites da Floresta da Liberdade, rumo a outras partes de Kolmården.
“Elas não vão parar até que todas as nossas florestas estejam destruídas!”, suspiravam as pessoas, que estavam em grande desespero e não podiam entrar na mata sem chorar.
Karr estava tão enjoado da visão de todas aquelas coisas rastejantes e roedoras que mal suportava pôr a pata para fora da porta. Mas um dia sentiu que precisava ir descobrir como Pele-Cinzenta estava passando. Tomou o atalho mais curto para os lugares frequentados pelo alce e apressou-se, com o focinho rente à terra. Quando chegou ao toco de árvore onde encontrara Desamparado no ano anterior, a cobra ainda estava ali e o chamou:
“Você contou a Pele-Cinzenta o que lhe disse quando nos encontramos pela última vez?”, perguntou a cobra-d’água.
Karr apenas rosnou e tentou alcançá-la.
“Se não contou, faça-o sem falta!”, insistiu a cobra. “Você deve ver que os humanos não conhecem cura alguma para esta praga.”
“Nem você!”, retrucou o cão, e seguiu correndo.
Karr encontrou Pele-Cinzenta, mas o alce estava tão abatido que mal saudou o cão. Começou logo a falar da floresta.
“Não sei o que eu não daria para que esta miséria chegasse ao fim!”, disse.
“Pois agora vou lhe contar que se diz que você poderia salvar a floresta.” Então Karr transmitiu a mensagem da cobra-d’água.
“Se qualquer outro além de Desamparado tivesse prometido isso, eu partiria imediatamente para o exílio”, declarou o alce. “Mas como pode uma pobre cobra-d’água ter poder para realizar tal milagre?”
“É claro que é apenas bravata”, disse Karr. “Cobras-d’água sempre gostam de fingir que sabem mais que as outras criaturas.”
Quando Karr se preparou para voltar para casa, Pele-Cinzenta o acompanhou por parte do caminho. Pouco depois, Karr ouviu um tordo, pousado no alto de um pinheiro, gritar:
“Lá vai Pele-Cinzenta, que destruiu a floresta! Lá vai Pele-Cinzenta, que destruiu a floresta!”
Karr pensou que não ouvira direito, mas no instante seguinte uma lebre disparou pelo caminho. Quando a lebre os viu, parou, sacudiu as orelhas e gritou:
“Aqui vem Pele-Cinzenta, que destruiu a floresta!” Então correu o mais depressa que pôde.
“O que querem dizer com isso?”, perguntou Karr.
“Na verdade, não sei”, disse Pele-Cinzenta. “Penso que os pequenos animais da floresta estão descontentes comigo porque fui eu quem propôs que pedíssemos ajuda aos seres humanos. Quando o mato rasteiro foi cortado, todas as suas tocas e esconderijos foram destruídos.”
Caminharam juntos por mais algum tempo, e Karr ouviu o mesmo grito vindo de todas as direções:
“Lá vai Pele-Cinzenta, que destruiu a floresta!”
Pele-Cinzenta fingiu não ouvir; mas Karr compreendeu por que o alce estava tão abatido.
“Diga-me, Pele-Cinzenta, o que a cobra-d’água quer dizer ao afirmar que você matou aquela a quem ela mais amava?”
“Como posso saber?”, disse Pele-Cinzenta. “Você sabe muito bem que eu nunca mato coisa alguma.”
Pouco depois, encontraram os quatro alces velhos — Dorso-Torto, Coroa-de-Galhos, Crina-Áspera e Grande-e-Forte —, que vinham avançando devagar, um atrás do outro.
“Bem encontrados na floresta!”, chamou Pele-Cinzenta.
“Bem encontrado também!”, responderam os alces.
“Estávamos justamente à sua procura, Pele-Cinzenta, para nos aconselharmos com você sobre a floresta.”
“O fato é”, começou Dorso-Torto, “que fomos informados de que um crime foi cometido aqui, e que toda a floresta está sendo destruída porque o criminoso não foi punido.”
“Que espécie de crime foi esse?”
“Alguém matou uma criatura inofensiva que não podia comer. Um ato assim é considerado crime na Floresta da Liberdade.”
“Quem poderia ter feito coisa tão covarde?”, admirou-se Pele-Cinzenta.
“Dizem que foi um alce, e estávamos justamente indo perguntar se você sabia quem era.”
“Não”, disse Pele-Cinzenta, “nunca ouvi falar de um alce que matasse uma criatura inofensiva.”
Pele-Cinzenta separou-se dos quatro alces velhos e seguiu adiante com Karr. Estava calado e caminhava de cabeça baixa. Aconteceu de passarem por Rastejante, a víbora, que jazia em sua prateleira de pedra.
“Lá vai Pele-Cinzenta, que destruiu a floresta inteira!”, silvou Rastejante, como todos os outros.
A essa altura, a paciência de Pele-Cinzenta se esgotou. Aproximou-se da cobra e ergueu uma pata dianteira.
“Você pensa em me esmagar como esmagou a velha cobra-d’água?”, silvou Rastejante.
“Eu matei uma cobra-d’água?”, perguntou Pele-Cinzenta, espantado.
“No primeiro dia em que esteve na floresta, você matou a esposa do pobre velho Desamparado”, disse Rastejante.
Pele-Cinzenta afastou-se depressa da víbora e continuou a andar com Karr. De repente, parou.
“Karr, fui eu quem cometeu esse crime! Matei uma criatura inofensiva; portanto, é por minha causa que a floresta está sendo destruída.”
“O que você está dizendo?”, interrompeu Karr.
“Você pode dizer à cobra-d’água, Desamparado, que Pele-Cinzenta parte para o exílio esta noite!”
“Isso eu jamais direi a ele!”, protestou Karr. “O Extremo Norte é uma terra perigosa para os alces.”
“Você acha que desejo permanecer aqui, quando causei uma desgraça como esta?”, protestou Pele-Cinzenta.
“Não seja precipitado! Durma sobre isso antes de fazer qualquer coisa!”
“Foi você quem me ensinou que os alces são um só com a floresta”, disse Pele-Cinzenta, e, dizendo isso, separou-se de Karr.
O cão voltou sozinho para casa; mas aquela conversa com Pele-Cinzenta o atormentava, e na manhã seguinte retornou à floresta para procurá-lo. Pele-Cinzenta, porém, não pôde ser encontrado, e o cão não o procurou por muito tempo. Compreendeu que o alce tomara a cobra ao pé da letra e partira para o exílio.
No caminho de volta, Karr estava infeliz demais para dizer uma palavra. Não conseguia compreender por que Pele-Cinzenta deixara aquele miserável de uma cobra-d’água enganá-lo e afastá-lo dali. Nunca ouvira falar de tamanha tolice! “Que poder pode ter esse velho Desamparado?”
Enquanto Karr caminhava, com a mente cheia desses pensamentos, aconteceu de ver o guarda-caça, que estava apontando para o alto de uma árvore.
“O que você está olhando?”, perguntou um homem que estava ao lado dele.
“A doença chegou entre as lagartas”, observou o guarda-caça.
Karr ficou assombrado, mas ficou ainda mais enfurecido ao ver que a cobra tinha poder para cumprir sua palavra. Pele-Cinzenta teria de permanecer longe por muito, muito tempo, pois, é claro, aquela cobra-d’água nunca morreria.
No auge de sua dor, ocorreu a Karr um pensamento que o consolou um pouco.
“Talvez a cobra-d’água não viva tanto tempo assim, afinal!”, pensou. “Certamente ela não poderá ficar sempre protegida debaixo de uma raiz de árvore. Assim que tiver acabado com as lagartas, sei de alguém que lhe arrancará a cabeça a dentadas!”
Era verdade que uma enfermidade aparecera entre as lagartas. No primeiro verão, não se espalhou muito. Mal havia começado quando chegou a hora de as larvas se transformarem em crisálidas. Destas surgiram milhões de mariposas. Voavam entre as árvores como uma nevasca cegante e puseram incontáveis ovos. Uma destruição ainda maior foi profetizada para o ano seguinte.
A destruição veio não apenas para a floresta, mas também para as lagartas. A doença espalhou-se rapidamente de floresta em floresta. As lagartas doentes paravam de comer, rastejavam até os galhos das árvores e morriam ali.
Houve grande júbilo entre as pessoas quando as viram morrer, mas houve júbilo ainda maior entre os animais da floresta.
Dia após dia, o cão Karr andava por ali com feroz alegria, pensando na hora em que poderia atrever-se a matar Desamparado.
Mas as lagartas, enquanto isso, haviam se espalhado por milhas de pinheirais. Não foi em um só verão que a doença alcançou todas elas. Muitas viveram para se tornar crisálidas e mariposas.
Pele-Cinzenta enviava mensagens a seu amigo Karr pelas aves de passagem, dizendo que estava vivo e passava bem. Mas as aves contaram confidencialmente a Karr que, em várias ocasiões, Pele-Cinzenta fora perseguido por caçadores furtivos, e que só com a maior dificuldade conseguira escapar.
Karr vivia em contínuo estado de tristeza, saudade e ansiedade. Ainda assim, teve de esperar dois verões inteiros antes que chegasse o fim das lagartas!
Mal Karr ouviu o guarda-caça dizer que a floresta estava fora de perigo, partiu à caça de Desamparado. Mas, quando estava no coração da mata, fez uma descoberta terrível: já não podia caçar, não podia correr, não podia farejar o inimigo e não conseguia enxergar quase nada!
Durante os longos anos de espera, a velhice alcançara Karr. Ele envelhecera sem perceber. Não tinha forças nem mesmo para matar uma cobra-d’água. Não era capaz de salvar seu amigo Pele-Cinzenta de seu inimigo.
Certa tarde, Akka de Kebnekaise e seu bando pousaram à margem de um lago da floresta.
A primavera estava atrasada — como sempre acontece nas regiões montanhosas. O gelo cobria todo o lago, salvo uma estreita faixa junto à terra. Os gansos mergulharam imediatamente na água para se banhar e procurar alimento. Pela manhã, Nils Holgersson havia deixado cair uma de suas tamancas; por isso desceu entre os olmos e as bétulas que cresciam ao longo da margem, à procura de alguma coisa que pudesse amarrar em torno do pé.
O menino caminhou uma boa distância antes de encontrar algo que pudesse usar. Olhava ao redor, nervoso, pois não gostava de estar na floresta.
“Dêem-me as planícies e os lagos!”, pensou. “Lá se pode ver o que provavelmente se há de encontrar. Ora, se isto fosse um bosque de pequenas bétulas, estaria muito bem, pois então o chão estaria quase nu; mas como as pessoas podem gostar destas florestas selvagens, sem trilhas, é incompreensível para mim. Se eu fosse dono desta terra, derrubaria cada árvore.”
Por fim, avistou um pedaço de casca de bétula; e, justamente quando o ajustava ao pé, ouviu um roçar atrás de si. Virou-se depressa. Uma cobra disparou do mato direto em sua direção!
A cobra era extraordinariamente comprida e grossa, mas o menino logo viu que ela tinha uma mancha branca em cada face.
“Ora, é apenas uma cobra-d’água”, riu ele; “não pode me fazer mal.”
Mas, no instante seguinte, a cobra lhe deu um golpe poderoso no peito, que o derrubou. O menino pôs-se de pé num segundo e saiu correndo, mas a cobra vinha atrás dele! O chão era pedregoso e coberto de arbustos; o menino não conseguia avançar muito depressa, e a cobra estava bem em seus calcanhares.
Então o menino viu uma grande rocha diante de si e começou a escalá-la.
“Espero que a cobra não consiga me seguir até aqui!”, pensou; mas mal alcançou o topo da rocha, viu que a cobra o seguia.
Bem perto do menino, numa estreita saliência no alto da rocha, jazia uma pedra redonda, do tamanho da cabeça de um homem. À medida que a cobra se aproximava, o menino correu para trás da pedra e a empurrou. Ela rolou direto sobre a cobra, arrastando-a consigo até o chão, onde caiu sobre sua cabeça.
“Essa pedra fez bem o seu trabalho!”, pensou o menino com um suspiro de alívio, ao ver a cobra se contorcer um pouco e depois ficar perfeitamente imóvel.
“Acho que não estive em perigo maior em toda a viagem”, disse ele.
Mal se recuperara do susto quando ouviu um roçar acima de si e viu uma ave circular pelo ar para pousar no chão bem ao lado da cobra. A ave era como um corvo em tamanho e forma, mas vestia uma bela plumagem de penas negras e brilhantes.
O menino recuou cautelosamente para dentro de uma fenda da rocha. Sua aventura, quando fora sequestrado pelos corvos, ainda estava fresca na memória, e não queria se mostrar quando não havia necessidade.
A ave caminhou de um lado para outro junto ao corpo da cobra e virou-o com o bico. Por fim, abriu as asas e começou a gritar em tons de ensurdecer:
“É certamente Desamparado, a cobra-d’água, que jaz morto aqui!” Mais uma vez, percorreu o comprimento da cobra; depois ficou profundamente pensativo e coçou o pescoço com a pata.
“Não é possível que haja duas cobras tão grandes assim na floresta”, ponderou. “Deve ser Desamparado, sem dúvida!”
Estava justamente para enfiar o bico na cobra, mas subitamente se conteve.
“Não seja cabeça-oca, Bataki!”, observou para si mesmo. “Certamente você não está pensando em comer a cobra antes de chamar Karr! Ele não acreditaria que Desamparado está morto se não pudesse vê-lo com os próprios olhos.”
O menino tentou ficar quieto, mas a ave era tão ridiculamente solene, enquanto andava de um lado para outro tagarelando consigo mesma, que ele teve de rir.
A ave o ouviu e, com um bater de asas, subiu para a rocha. O menino levantou-se depressa e caminhou em sua direção.
“Você não é aquele que se chama Bataki, o corvo? E não é amigo de Akka de Kebnekaise?”, perguntou o menino.
A ave fitou-o atentamente; depois assentiu três vezes.
“Com certeza você não é o sujeitinho que voa por aí com os gansos selvagens, e a quem eles chamam de Polegarzinho?”
“Oh, você não está tão longe da verdade”, disse o menino.
“Que sorte eu ter encontrado você! Talvez possa me dizer quem matou esta cobra-d’água?”
“A pedra que rolei sobre ela a matou”, respondeu o menino, e contou como tudo acontecera.
“Foi feito com inteligência para alguém tão minúsculo quanto você!”, disse o corvo. “Tenho um amigo nestas paragens que ficará contente em saber que esta cobra foi morta, e eu gostaria de lhe prestar um serviço em troca.”
“Então me diga por que você está contente com a morte da cobra-d’água”, respondeu o menino.
“É uma longa história”, disse o corvo; “você não teria paciência para ouvi-la.”
Mas o menino insistiu que teria, e então o corvo lhe contou toda a história de Karr, Pele-Cinzenta e Desamparado, a cobra-d’água. Quando terminou, o menino ficou quieto por um momento, olhando para a frente. Depois falou:
“Parece que gosto mais da floresta desde que ouvi isso. Gostaria de saber se ainda resta alguma coisa da velha Floresta da Liberdade.”
“A maior parte dela foi destruída”, disse Bataki. “As árvores parecem ter passado por um incêndio. Terão de ser removidas, e levará muitos anos até que a floresta volte a ser o que era.”
“Aquela cobra mereceu a morte!”, declarou o menino. “Mas me pergunto se seria possível que fosse tão sábia a ponto de enviar doença às lagartas.”
“Talvez soubesse que elas frequentemente adoecem desse modo”, insinuou Bataki.
“Sim, pode ser; mas, ainda assim, devo dizer que era uma cobra muito astuta.”
O menino parou de falar porque viu que o corvo não o escutava, mas estava sentado com o olhar desviado. “Escute!”, disse ele. “Karr está nas proximidades. Como ficará feliz quando vir que Desamparado está morto!”
O menino voltou a cabeça na direção do som.
“Ele está falando com os gansos selvagens”, disse.
“Oh, pode ter certeza de que se arrastou até a praia para obter as últimas notícias de Pele-Cinzenta!”
Tanto o menino como o corvo saltaram ao chão e correram para a margem. Todos os gansos tinham saído do lago e estavam conversando com um cão velho, tão fraco e decrépito que parecia prestes a cair morto a qualquer momento.
“Aquele é Karr”, disse Bataki ao menino. “Deixe-o ouvir primeiro o que os gansos selvagens têm a lhe dizer; depois lhe contaremos que a cobra-d’água está morta.”
Pouco depois, ouviram Akka falar com Karr.
“Aconteceu no ano passado, enquanto fazíamos nossa viagem costumeira de primavera”, observou a gansa-chefe. “Partimos certa manhã — Yksi, Kaksi e eu — e voamos sobre as grandes florestas fronteiriças entre Dalecarlia e Hälsingland. Sob nós víamos apenas densos pinheirais. A neve ainda era funda entre as árvores, e os córregos estavam em sua maior parte congelados.
“De repente, notamos três caçadores furtivos lá embaixo, na floresta! Estavam de esquis, traziam cães presos à coleira, carregavam facas nos cintos, mas não tinham espingardas.
“Como havia uma crosta dura sobre a neve, não se deram ao trabalho de seguir as trilhas sinuosas da floresta, mas esquiaram em linha reta. Aparentemente sabiam muito bem para onde deviam ir para encontrar aquilo que procuravam.
“Nós, gansos selvagens, voávamos lá no alto, de modo que toda a floresta sob nós ficava visível. Quando avistamos os caçadores furtivos, quisemos descobrir onde estava a caça; por isso começamos a circular para cima e para baixo, espiando por entre as árvores. Então, num matagal denso, vimos algo que parecia grandes rochas cobertas de musgo, mas não podiam ser rochas, pois não havia neve sobre elas.
“Descemos de repente e pousamos no centro do matagal. As três rochas se moveram. Eram três alces — um macho e duas fêmeas — descansando na floresta agreste.
“Quando pousamos, o alce macho se levantou e veio em nossa direção. Era o animal mais esplêndido que já tínhamos visto. Quando percebeu que eram apenas uns pobres gansos selvagens que o haviam despertado, deitou-se de novo.
“‘Não, velho avô, você não deve voltar a dormir!’, gritei. ‘Fuja o mais depressa que puder! Há caçadores furtivos na floresta, e eles se dirigem justamente para este refúgio de cervos.’
“‘Obrigado, mãe gansa!’, disse o alce. Parecia cair no sono enquanto falava. ‘Mas certamente você deve saber que nós, alces, estamos sob a proteção da lei nesta época do ano. Esses caçadores furtivos provavelmente estão atrás de raposas’, bocejou.
“‘Há muitas trilhas de raposa na floresta, mas os caçadores não estão procurando por elas. Acredite em mim, velho avô! Eles sabem que você está deitado aqui e vêm atacá-lo. Não trazem espingardas — apenas lanças e facas — porque não ousam disparar um tiro nesta estação.’
“O alce macho ficou ali deitado, tranquilo, mas as fêmeas pareceram inquietas.
“‘Pode ser como dizem os gansos’, observaram elas, começando a se mexer.
“‘Fiquem deitadas!’, disse o alce macho. ‘Não há caçadores vindo para cá; disso podem estar certas.’
“Nada mais havia a fazer; por isso nós, gansos selvagens, tornamos a subir no ar. Mas continuamos a circular sobre o lugar, para ver como as coisas terminariam para os alces.
“Mal havíamos alcançado nossa altitude habitual de voo quando vimos o alce macho sair do matagal. Farejou um pouco o ar e depois caminhou direto em direção aos caçadores furtivos. Enquanto avançava, pisava em gravetos secos que estalavam ruidosamente. Um grande pântano estéril se estendia logo adiante. Para lá ele foi e se postou no meio, onde nada podia escondê-lo da vista.
“Ali permaneceu até que os caçadores furtivos surgiram da mata. Então se virou e fugiu na direção oposta. Os caçadores soltaram os cães e eles próprios esquiaram atrás dele a toda velocidade.
“O alce jogou a cabeça para trás e correu o mais depressa que pôde. Levantava neve até que ela voasse como uma nevasca em torno dele. Tanto os cães como os homens ficaram muito para trás. Então o alce parou, como se esperasse que eles se aproximassem. Quando estavam à vista, disparou adiante novamente. Compreendemos que ele atraía os caçadores de propósito para longe do lugar onde estavam as fêmeas. Achamos corajoso de sua parte enfrentar o perigo sozinho, para que aqueles que lhe eram caros permanecessem em segurança. Nenhum de nós quis deixar o lugar antes de ver como tudo aquilo acabaria.
“Assim a perseguição continuou por duas horas ou mais. Admirávamo-nos de que os caçadores furtivos se dessem ao trabalho de perseguir o alce quando não estavam armados com rifles. Não podiam imaginar que conseguiriam cansar um corredor como ele!
“Então notamos que o alce já não corria tão depressa. Pisava na neve com mais cuidado, e, a cada vez que levantava as patas, via-se sangue em suas pegadas.
“Compreendemos por que os caçadores haviam sido tão persistentes! Contavam com a ajuda da neve. O alce era pesado, e a cada passo afundava até o fundo do monte. A crosta dura da neve lhe raspava as pernas. Raspava-lhe o pelo e arrancava pedaços de carne, de modo que ele sofria tormentos toda vez que punha a pata no chão.
“Os caçadores furtivos e os cães, tão leves que a crosta de gelo podia sustentar seu peso, continuavam a persegui-lo. Ele corria e corria — seus passos se tornando cada vez mais incertos e vacilantes. Ofegava para respirar. Não apenas sofria dores intensas, mas também estava exausto de avançar pelos profundos montes de neve.
“Por fim, perdeu toda a paciência. Parou para deixar que caçadores e cães caíssem sobre ele, e estava pronto para lutar com eles. Enquanto esperava ali, olhou para cima. Quando nos viu, os gansos selvagens, circulando acima dele, gritou:
“‘Fiquem aqui, gansos selvagens, até que tudo termine! E, da próxima vez que voarem sobre Kolmården, procurem Karr e perguntem se ele não acha que seu amigo Pele-Cinzenta teve um fim feliz.’”
Quando Akka chegou a esse ponto de sua história, o velho cão se levantou e caminhou para mais perto dela.
“Pele-Cinzenta levou uma boa vida”, disse ele. “Ele me compreende. Sabe que sou um cão valente e que ficarei contente em saber que teve um fim feliz. Agora me diga como...”
Ergueu a cauda e jogou a cabeça para trás, como se quisesse dar a si mesmo um porte audaz e orgulhoso — então desabou.
“Karr! Karr!”, chamou uma voz de homem vinda da floresta.
O velho cão se levantou obediente.
“Meu senhor está me chamando”, disse ele, “e não devo me demorar mais. Acabo de vê-lo carregar a espingarda. Agora nós dois vamos entrar na floresta pela última vez.
“Muito obrigado, gansa selvagem! Sei tudo o que preciso saber para morrer contente!”
Em tempos passados, havia em Närke algo cuja igual não se encontrava em nenhum outro lugar: era uma bruxa chamada Ysätter-Kaisa.
O nome Kaisa lhe fora dado porque ela tinha muito a ver com vento e tempestade — e essas bruxas do vento são sempre chamadas assim. O sobrenome fora acrescentado porque se supunha que viesse do pântano de Ysätter, na paróquia de Asker.
Parecia que sua verdadeira morada devia ficar em Asker; mas ela costumava aparecer também em outros lugares. Em parte alguma de Närke se podia ter certeza de não encontrá-la.
Não era uma bruxa sombria e pesarosa, mas alegre e brincalhona; e o que mais amava no mundo era uma ventania. Assim que havia vento bastante, lá se punha ela a voar para a planície de Närke, a fim de dançar à vontade. Nos dias em que um redemoinho varria a planície, Ysätter-Kaisa se divertia! Ficava bem no meio do vento e girava, com os longos cabelos subindo até as nuvens e a comprida cauda de seu vestido varrendo o chão como uma nuvem de poeira, enquanto toda a planície se estendia sob ela como o piso de um salão de baile.
De manhã, Ysätter-Kaisa sentava-se no alto de algum pinheiro elevado, no topo de um precipício, e olhava através da planície. Se por acaso fosse inverno e ela visse muitas parelhas nas estradas, apressava-se a soprar uma nevasca, acumulando montes tão altos que as pessoas mal conseguiam voltar para casa ao anoitecer. Se acontecia ser verão e tempo bom para a colheita, Ysätter-Kaisa ficava quieta até que os primeiros montes de feno tivessem sido carregados; então descia com dois aguaceiros pesados, que punham fim ao trabalho daquele dia.
Era verdade demais que raramente pensava em outra coisa além de provocar travessuras. Os carvoeiros lá em cima, nas montanhas de Kil, mal ousavam tirar um cochilo, pois, assim que ela via uma carvoeira sem vigilância, aproximava-se sorrateira e soprava sobre ela até fazê-la arder numa grande labareda. Se os carroceiros de metal de Laxå e Svartå ficavam fora até tarde da noite, Ysätter-Kaisa velava as estradas e a região ao redor com nuvens tão escuras que homens e cavalos perdiam o caminho e conduziam as pesadas carroças para dentro de brejos e atoleiros.
Se, num dia de verão, a esposa do deão em Glanshammar havia posto a mesa do chá no jardim e vinha uma rajada de vento que levantava a toalha da mesa e virava xícaras e pires, todos sabiam quem causara a travessura! Se o chapéu do prefeito de Örebro saía voando, de modo que ele precisava correr por toda a praça atrás dele; se a roupa no varal voava para longe e ficava coberta de sujeira, ou se a fumaça entrava pelas cabanas e parecia incapaz de encontrar a saída pela chaminé, era fácil adivinhar quem andava por aí se divertindo!
Embora Ysätter-Kaisa gostasse de todo tipo de brincadeira provocadora, não havia nela nada de realmente mau. Via-se que era mais severa com os briguentos, os avarentos ou os perversos; enquanto os honestos e as pobres criancinhas ela tomava sob sua proteção. Os velhos contam que, certa vez, quando a igreja de Asker ardia em chamas, Ysätter-Kaisa varreu os ares, pousou entre fogo e fumaça no telhado da igreja e desviou a desgraça.
Ainda assim, o povo de Närke muitas vezes se cansava bastante de Ysätter-Kaisa, mas ela nunca se cansava de lhes pregar peças. Quando se sentava à beira de uma nuvem e olhava para baixo, para Närke, que repousava tão tranquila e confortavelmente sob ela, devia pensar: “Os habitantes viveriam bem demais se eu não existisse. Ficariam sonolentos e enfadonhos. É preciso haver alguém como eu para despertá-los e mantê-los de bom ânimo.”
Então ria desvairadamente e, tagarelando como uma pega, saía correndo, dançando e rodopiando de uma ponta a outra da planície. Quando um homem de Närke a via chegar arrastando sua cauda de poeira sobre a planície, não conseguia deixar de sorrir. Provocadora e cansativa ela certamente era, mas possuía um espírito alegre. Para os camponeses, encontrar Ysätter-Kaisa era tão revigorante quanto para a planície ser fustigada pela ventania.
Hoje em dia se diz que Ysätter-Kaisa está morta e desaparecida, como todas as outras bruxas, mas nisso mal se pode acreditar. É como se alguém viesse dizer que, dali por diante, o ar estaria sempre parado sobre a planície, e que o vento nunca mais dançaria por ela com rajadas impetuosas e aguaceiros encharcantes.
Quem imagina que Ysätter-Kaisa está morta e desaparecida pode muito bem ouvir o que aconteceu em Närke no ano em que Nils Holgersson viajou por aquela parte do país. Depois, que diga o que pensa a respeito.
Quarta-feira, 27 de abril.
Era o dia anterior à grande Feira de Gado de Örebro; chovia em torrentes e as pessoas pensavam: “Isto é exatamente como no tempo de Ysätter-Kaisa! Nas feiras, ela costumava ser mais travessa que de costume. Era bem de seu feitio arranjar um aguaceiro destes numa véspera de feira.”
À medida que o dia avançava, a chuva aumentava, e para o entardecer vieram verdadeiros dilúvios. As estradas pareciam pântanos sem fundo. Os lavradores que haviam partido de casa com o gado logo cedo, para chegar em hora conveniente, passavam muito mal. Vacas e bois estavam tão cansados que mal conseguiam mover-se, e muitos dos pobres animais caíam no meio da estrada, para mostrar que estavam exaustos demais para seguir adiante. Todos os que moravam ao longo do caminho tiveram de abrir suas portas aos viajantes que iam para a feira e abrigá-los como podiam. Casas de fazenda, celeiros e galpões logo ficaram apinhados até o limite.
Enquanto isso, os que ainda podiam lutar para seguir até a estalagem assim faziam; mas, quando chegavam, desejavam ter parado em alguma cabana pelo caminho. Todas as manjedouras no celeiro e todas as baias no estábulo já estavam ocupadas. Não restava escolha senão deixar cavalos e gado do lado de fora, na chuva. Seus donos mal conseguiam arranjar abrigo para si mesmos.
O aperto, a lama e a enxurrada no terreiro da estalagem eram assustadores! Alguns dos animais estavam parados em poças e nem sequer podiam se deitar. Havia, é claro, donos atenciosos, que conseguiam palha para os animais se deitarem e estendiam cobertores sobre eles; mas havia também aqueles que ficavam sentados na estalagem, bebendo e jogando, inteiramente esquecidos das criaturas mudas que deviam proteger.
Naquela noite, o menino e os gansos selvagens haviam chegado a uma pequena ilha arborizada no lago Hjälmar. A ilha era separada da terra firme por um riacho estreito e raso, e, quando as águas estavam baixas, podia-se atravessá-lo de pés secos.
Chovia na ilha tão forte quanto em todos os outros lugares. O menino não conseguia dormir por causa da água que não parava de pingar sobre ele. Por fim, levantou-se e começou a andar. Imaginava que sentia menos a chuva quando se movia.
Mal havia dado a volta na ilha quando ouviu um chapinhar no riacho. Pouco depois, viu um cavalo solitário avançando entre as árvores. Nunca em toda a sua vida vira semelhante destroço de cavalo! Era asmático, tinha os joelhos duros e era tão magro que se podiam ver todas as costelas sob o couro. Não trazia arreio nem sela — apenas uma velha rédea, da qual pendia uma ponta de corda meio apodrecida. Evidentemente, não tivera dificuldade alguma em se soltar.
O cavalo caminhou direto para o lugar onde os gansos selvagens dormiam. O menino temeu que ele pisasse neles.
“Para onde você vai? Olhe onde pisa!”, gritou o menino.
“Oh, aí está você!”, exclamou o cavalo. “Andei milhas para encontrá-lo!”
“Você ouviu falar de mim?”, perguntou o menino, admirado.
“Tenho ouvidos, mesmo sendo velho! Há muitos que falam de você hoje em dia.”
Enquanto falava, o cavalo inclinou a cabeça para enxergar melhor, e o menino notou que ele tinha cabeça pequena, belos olhos e um focinho suave e sensível.
“Deve ter sido um bom cavalo no começo, embora tenha caído em desgraça na velhice”, pensou.
“Gostaria que você viesse comigo e me ajudasse em uma coisa”, suplicou o cavalo.
O menino pensou que seria embaraçoso acompanhar uma criatura de aparência tão miserável, e desculpou-se por causa do mau tempo.
“Você não ficará pior nas minhas costas do que está deitado aí”, disse o cavalo. “Mas talvez não ouse ir com um velho cavalo vagabundo como eu.”
“É claro que ouso!”, disse o menino.
“Então acorde os gansos, para que possamos combinar com eles onde irão buscá-lo amanhã”, disse o cavalo.
Logo o menino estava sentado no lombo do animal. O velho pangaré trotava melhor do que ele julgara possível. Foi uma longa cavalgada sob a chuva e a escuridão antes que parassem perto de uma grande estalagem, onde tudo parecia terrivelmente pouco convidativo! Os sulcos das rodas na estrada eram tão fundos que o menino temeu afogar-se se caísse dentro deles. Ao longo da cerca que delimitava o terreiro, uns trinta ou quarenta cavalos e bois estavam amarrados, sem proteção contra a chuva, e no terreiro havia carroças empilhadas de caixotes, nos quais ovelhas, bezerros, porcos e galinhas estavam encerrados.
O cavalo aproximou-se da cerca e parou ali. O menino permaneceu sentado sobre seu lombo e, com seus bons olhos noturnos, viu claramente como os animais passavam mal.
“Como é que vocês estão aqui fora, de pé na chuva?”, perguntou.
“Estamos a caminho de uma feira em Örebro, mas fomos obrigados a pousar aqui por causa da chuva. Isto é uma estalagem; mas chegaram tantos viajantes que já não há lugar para nós nos celeiros.”
O menino não respondeu, mas ficou sentado, olhando ao redor em silêncio. Poucos animais dormiam, e de todos os lados ele ouvia queixas e protestos indignados. Eles tinham motivos de sobra para resmungar, pois o tempo estava ainda pior do que no começo do dia. Um vento gelado começara a soprar, e a chuva que caía batendo sobre eles se transformava em neve. Era fácil compreender com que o cavalo queria que o menino o ajudasse.
“Está vendo aquele belo terreiro de fazenda bem em frente à estalagem?”, observou o cavalo.
“Sim, estou vendo”, respondeu o menino, “e não compreendo por que não tentaram encontrar abrigo para todos vocês ali. Talvez já esteja cheio?”
“Não, não há estranhos naquele lugar”, disse o cavalo. “As pessoas que moram naquela fazenda são tão avarentas e egoístas que seria inútil alguém lhes pedir abrigo.”
“Se é assim, suponho que terão de ficar onde estão.”
“Nasci e fui criado naquela fazenda”, disse o cavalo; “sei que há um grande celeiro e um grande estábulo de vacas, com muitas baias e manjedouras vazias, e fiquei pensando se você não poderia conseguir, de algum modo, fazer-nos entrar lá.”
“Não acho que eu pudesse me arriscar...”, hesitou o menino. Mas sentia tanta pena dos pobres animais que queria ao menos tentar.
Correu para o terreiro estranho e viu logo que todas as dependências estavam trancadas e que as chaves haviam sido levadas. Ficou ali, perplexo e desamparado, quando a ajuda lhe veio de uma fonte inesperada. Uma rajada de vento passou varrendo tudo com força terrível e escancarou a porta de um galpão bem diante dele.
O menino não demorou a voltar para junto do cavalo.
“Não é possível entrar no celeiro nem no estábulo das vacas”, disse, “mas há um grande galpão de feno vazio que esqueceram de trancar. Posso conduzi-los para dentro dele.”
“Obrigado!”, disse o cavalo. “Será bom dormir mais uma vez em chão conhecido. É a única felicidade que posso esperar nesta vida.”
Enquanto isso, na próspera fazenda em frente à estalagem, a família permaneceu acordada muito mais tarde que de costume naquela noite.
O dono do lugar era um homem de trinta e cinco anos, alto e digno, com um rosto belo, mas melancólico. Durante o dia, estivera fora sob a chuva e se molhara, como todos os outros, e, à ceia, pediu à velha mãe, que ainda era a senhora da casa, que acendesse o fogo na lareira para que ele pudesse secar as roupas. A mãe acendeu uma chama fraca — pois naquela casa não se desperdiçava lenha —, e o dono pendurou o casaco no encosto de uma cadeira e a colocou diante do fogo. Com um pé sobre o suporte de ferro da lareira e uma das mãos apoiada no joelho, ficou olhando para as brasas. Assim permaneceu por duas horas inteiras, sem outro movimento além de lançar de vez em quando um pedaço de lenha ao fogo.
A senhora retirou as coisas da ceia e preparou-lhe a cama para a noite antes de ir para seu próprio quarto e sentar-se. De tempos em tempos, vinha até a porta e olhava para o filho com espanto.
“Não é nada, mãe. Estou apenas pensando”, disse ele.
Seus pensamentos estavam em algo que havia acontecido pouco antes: quando passou pela estalagem, um negociante de cavalos lhe perguntara se não queria comprar um cavalo, e lhe mostrara um velho pangaré tão castigado pelo tempo que ele perguntou ao negociante se o tomava por tolo, já que queria lhe impingir uma besta tão acabada.
“Oh, não!”, disse o negociante de cavalos. “Apenas pensei que, como o cavalo já pertenceu ao senhor, talvez quisesse dar-lhe um lar confortável na velhice; ele precisa disso.”
Então ele olhou para o cavalo e o reconheceu como um que ele próprio criara e domara; mas não lhe ocorreu comprar uma criatura tão velha e inútil por causa disso. Não, de modo algum! Ele não era homem de desperdiçar dinheiro.
Ainda assim, a visão do cavalo despertara muitas lembranças — e eram as lembranças que o mantinham acordado.
Aquele cavalo fora um belo animal. Seu pai o deixara cuidar dele desde o começo. Ele o havia domado e o amara acima de tudo. O pai se queixava de que costumava alimentá-lo bem demais, e muitas vezes ele fora obrigado a sair às escondidas para lhe contrabandear aveia.
Certa vez, quando se atreveu a falar com o pai sobre deixá-lo comprar um terno de casimira, ou mandar pintar a carroça, o pai ficou como que petrificado, e ele pensou que o velho teria um ataque. Tentou fazer o pai compreender que, quando alguém tinha um belo cavalo para conduzir, também devia apresentar-se bem.
O pai não respondeu, mas dois dias depois levou o cavalo a Örebro e o vendeu.
Aquilo fora cruel de sua parte. Mas era claro que o pai temera que aquele cavalo o conduzisse à vaidade e à extravagância. E agora, tanto tempo depois, ele precisava admitir que o pai estivera certo. Um cavalo como aquele certamente teria sido uma tentação. A princípio, sofrera terrivelmente com a perda. Muitas vezes descera até Örebro, apenas para ficar numa esquina e ver o cavalo passar, ou para esgueirar-se até o estábulo e lhe dar um torrão de açúcar. Pensava: “Se um dia eu ficar com a fazenda, a primeira coisa que farei será comprar meu cavalo de volta.”
Agora seu pai se fora, e ele próprio era o senhor havia dois anos, mas não fizera nenhum movimento para comprar o cavalo. Não pensara nele por muitíssimo tempo, até aquela noite.
Era estranho que tivesse esquecido tão completamente o animal!
Seu pai fora um homem muito obstinado e dominador. Quando o filho cresceu e os dois passaram a trabalhar juntos, o pai ganhou poder absoluto sobre ele. O rapaz acabou pensando que tudo quanto o pai fazia era certo, e, depois que se tornou senhor, apenas tentou agir exatamente como o pai teria agido.
Sabia, é claro, que as pessoas diziam que seu pai era avarento; mas era bom manter firme a mão sobre a bolsa e não jogar dinheiro fora sem necessidade. Os bens que se recebeu não devem ser desperdiçados. Era melhor viver numa propriedade livre de dívidas e ser chamado de avarento do que carregar pesadas hipotecas, como outros donos de fazenda.
Chegara até aí em seus pensamentos quando foi trazido de volta por um som estranho. Era como se uma voz aguda e zombeteira repetisse seus pensamentos: “É melhor manter firme a mão sobre a bolsa e ser chamado de avarento do que estar endividado, como outros donos de fazenda.”
Parecia que alguém tentava zombar de sua sabedoria, e ele estava prestes a perder a paciência quando percebeu que tudo não passava de engano. O vento começava a enfurecer-se, e ele estivera ali de pé, ficando tão sonolento que confundira o uivo do vento na chaminé com fala humana.
Ergueu os olhos para o relógio de parede, que naquele instante bateu onze horas.
“Já é hora de você estar na cama”, observou consigo mesmo. Então se lembrou de que ainda não fizera a ronda pelo terreiro da fazenda, como era seu costume todas as noites, para certificar-se de que todas as portas estavam fechadas e todas as luzes apagadas. Era algo que nunca negligenciara desde que se tornara senhor. Vestiu o casaco e saiu para a tempestade.
Encontrou tudo como devia estar, exceto que a porta do galpão de feno vazio fora escancarada pelo vento. Entrou para apanhar a chave, trancou a porta do galpão e pôs a chave no bolso do casaco. Depois voltou para casa, tirou o casaco e pendurou-o diante do fogo. Mesmo então não se recolheu, mas começou a caminhar de um lado para outro pelo assoalho. A tempestade lá fora, com seu vento cortante e sua chuva misturada à neve, era terrível, e seu velho cavalo estava de pé nessa tempestade, sem sequer um cobertor para protegê-lo! Ao menos devia ter dado a seu velho amigo um teto sobre a cabeça, já que ele viera de tão longe.
Na estalagem do outro lado da estrada, o menino ouviu um velho relógio de parede bater onze vezes. Justamente então estava desamarrando os animais para conduzi-los ao galpão no terreiro da fazenda em frente. Levou algum tempo para despertá-los e pô-los em fila. Quando todos estavam prontos, marcharam em longa procissão para dentro do terreiro do fazendeiro avarento, tendo o menino como guia. Enquanto o menino os reunia, o fazendeiro fizera a ronda pelo terreiro e trancara o galpão de feno, de modo que, quando os animais chegaram, a porta estava fechada. O menino ficou ali consternado. Não podia deixar as criaturas do lado de fora! Precisava entrar na casa e encontrar a chave.
“Fique com eles quietos aqui fora enquanto entro e busco a chave!”, disse ao velho cavalo, e saiu correndo.
No caminho, bem diante da casa, parou para pensar em como entraria. Enquanto estava ali, notou duas pequenas andarilhas descendo pela estrada, que pararam diante da estalagem.
O menino viu de imediato que eram duas menininhas e correu em direção a elas.
“Vamos, Britta Maja!”, disse uma. “Você não deve chorar mais. Agora estamos na estalagem. Aqui certamente nos acolherão.”
A menina mal acabara de dizer isso quando o menino a chamou:
“Não, vocês não devem tentar entrar aí. É simplesmente impossível. Mas na casa da fazenda em frente não há hóspedes. Vão para lá em vez disso.”
As menininhas ouviram as palavras distintamente, embora não pudessem ver quem falava com elas. Não estranharam muito, porém, pois a noite era negra como piche. A maior das meninas respondeu prontamente:
“Não queremos entrar naquele lugar, porque os que moram ali são avarentos e cruéis. É culpa deles que nós duas tenhamos de sair pelas estradas pedindo esmola.”
“Pode ser”, disse o menino, “mas, ainda assim, vocês devem ir para lá. Verão que tudo acabará bem para vocês.”
“Podemos tentar, mas é duvidoso que ao menos nos deixem entrar”, observaram as duas menininhas, enquanto subiam até a casa e batiam à porta.
O senhor estava junto ao fogo, pensando no cavalo, quando ouviu as batidas. Foi até a porta para ver o que havia, pensando o tempo todo que não se deixaria tentar a admitir nenhum viajante. Enquanto mexia na fechadura, veio uma rajada de vento, arrancou-lhe a porta da mão e escancarou-a. Para fechá-la, teve de sair à varanda, e, quando voltou para dentro da casa, as duas menininhas estavam ali.
Eram duas pobres meninas mendigas, esfarrapadas, sujas e famintas — duas criaturinhas curvadas sob o peso de suas trouxas de mendigas, tão grandes quanto elas próprias.
“Quem são vocês, que andam rondando a esta hora da noite?”, disse o senhor, asperamente.
As duas crianças não responderam de imediato; primeiro retiraram as trouxas. Depois caminharam até o homem e estenderam-lhe as mãozinhas em cumprimento.
“Somos Anna e Britta Maja, da Engärd”, disse a mais velha, “e vínhamos pedir pouso por uma noite.”
Ele não tomou as mãos estendidas e estava prestes a expulsar as crianças mendigas quando uma nova lembrança lhe surgiu diante dos olhos. Engärd — não era aquela uma pequena cabana onde vivera uma pobre viúva com cinco filhos? A viúva devia a seu pai algumas centenas de coroas e, para recuperar o dinheiro, ele vendera a cabana dela. Depois disso, a viúva, com seus três filhos mais velhos, fora para Norrland em busca de trabalho, e as duas menores ficaram a cargo da paróquia.
Ao recordar isso, tornou-se amargo. Sabia que seu pai fora severamente censurado por arrancar aquele dinheiro, que, por direito, lhe pertencia.
“O que vocês fazem hoje em dia?”, perguntou em tom ríspido. “A junta de assistência não tomou conta de vocês? Por que andam por aí mendigando?”
“Não é culpa nossa”, respondeu a menina maior. “As pessoas com quem vivemos nos mandaram sair para pedir esmola.”
“Bem, suas trouxas estão cheias”, observou o fazendeiro, “portanto não podem se queixar. Agora é melhor tirarem um pouco da comida que trazem e comerem até se fartar, pois aqui não receberão alimento, já que todas as mulheres da casa estão deitadas. Depois poderão se estender no canto junto à lareira, para não congelarem.”
Ele fez um gesto com a mão, como para afastá-las, e seus olhos assumiram uma expressão dura. Sentia-se grato por ter tido um pai cuidadoso com seus bens. Do contrário, talvez ele próprio tivesse sido obrigado, na infância, a correr por aí pedindo esmola, como aquelas crianças agora faziam.
Mal levara esse pensamento até o fim quando a voz aguda e zombeteira que ouvira uma vez antes naquela noite o repetiu, palavra por palavra.
Ele escutou e logo compreendeu que não era nada — apenas o vento rugindo na chaminé. Mas o estranho era que, quando o vento repetia seus pensamentos, eles pareciam tão estupidamente duros e falsos!
Enquanto isso, as crianças haviam se estendido lado a lado no chão. Não estavam quietas, mas deitadas ali, murmuravam.
“Fiquem caladas, querem?”, rosnou ele, pois estava de humor tão irritadiço que poderia tê-las espancado.
Mas o murmúrio continuou, e outra vez ele pediu silêncio.
“Quando mamãe foi embora”, pipilou uma vozinha clara, “ela me fez prometer que todas as noites eu diria minha oração. Preciso fazer isso, e Britta Maja também. Assim que dissermos ‘Deus, que cuida das criancinhas...’, ficaremos quietas.”
O senhor ficou inteiramente imóvel enquanto as pequenas faziam suas orações; depois se levantou e começou a andar de um lado para outro, de um lado para outro, torcendo as mãos o tempo todo, como se houvesse encontrado uma grande tristeza.
“O cavalo expulso e arruinado, estas duas crianças transformadas em mendigas de estrada — ambas as coisas feitas por meu pai! Talvez meu pai não tenha agido certo, afinal?”, pensou.
Sentou-se de novo e enterrou a cabeça nas mãos. De repente, seus lábios começaram a tremer, e lágrimas lhe vieram aos olhos, que ele enxugou depressa. Novas lágrimas vieram, e ele foi igualmente rápido em afastá-las; mas era inútil, pois outras se seguiram.
Quando a mãe entrou no aposento, ele virou a cadeira depressa e lhe deu as costas. Ela deve ter notado algo fora do comum, pois ficou em silêncio atrás dele por longo tempo, como se esperasse que ele falasse. Percebia como é sempre difícil para os homens falar das coisas que sentem mais profundamente. Naturalmente, precisava ajudá-lo.
De seu quarto, observara tudo o que acontecera na sala, de modo que não precisava fazer perguntas. Caminhou muito suavemente até as duas crianças adormecidas, ergueu-as e levou-as para sua própria cama. Depois voltou para junto do filho.
“Lars”, disse ela, como se não visse que ele chorava, “é melhor você me deixar ficar com estas crianças.”
“O quê, mãe?”, arfou ele, tentando sufocar os soluços.
“Tenho sofrido há anos — desde que seu pai tomou a cabana da mãe delas, e você também.”
“Sim, mas...”
“Quero ficar com elas aqui e fazer delas gente de valor; são boas demais para mendigar.”
Ele não conseguiu falar, pois agora as lágrimas estavam além de seu controle; mas tomou a mão ressequida da velha mãe e a acariciou.
Então saltou de pé, como se alguma coisa o tivesse assustado.
“O que pai teria dito disso?”
“Seu pai teve seu tempo de mandar”, retrucou a mãe. “Agora é o seu tempo. Enquanto seu pai viveu, tivemos de obedecer a ele. Agora é hora de mostrar quem você é.”
O filho ficou tão espantado que parou de chorar.
“Mas eu acabei de mostrar quem sou!”, respondeu.
“Não, não mostrou”, protestou a mãe. “Você apenas tenta ser como ele. Seu pai passou por tempos difíceis, que o fizeram temer a pobreza. Acreditava que precisava pensar primeiro em si mesmo. Mas você nunca teve dificuldades que devessem torná-lo duro. Você tem mais do que precisa, e seria contrário à sua natureza não pensar nos outros.”
Quando as duas menininhas entraram na casa, o menino entrou atrás delas e se escondeu num canto escuro. Não fazia muito tempo que estava ali quando avistou a chave do galpão, que o fazendeiro enfiara no bolso do casaco.
“Quando o dono da casa expulsar as crianças, pego a chave e corro”, pensou.
Mas as crianças não foram expulsas, e o menino ficou encolhido no canto, sem saber o que devia fazer em seguida.
A mãe conversou longamente com o filho, e, enquanto ela falava, ele parou de chorar. Pouco a pouco, suas feições se suavizaram; parecia outra pessoa. Durante todo o tempo, acariciava a velha mão consumida.
“Agora é melhor irmos nos recolher”, disse a velha senhora, quando viu que ele estava calmo outra vez.
“Não”, disse ele, levantando-se de súbito, “ainda não posso me recolher. Há um estranho lá fora a quem preciso dar abrigo esta noite!”
Não disse mais nada, mas vestiu depressa o casaco, acendeu a lanterna e saiu. Lá fora havia o mesmo vento e o mesmo frio, mas, ao pisar na varanda, começou a cantar baixinho. Perguntava-se se o cavalo o reconheceria e se ficaria contente em voltar ao seu velho estábulo.
Ao atravessar o terreiro da casa, ouviu uma porta bater.
“A porta daquele galpão se abriu de novo com o vento”, pensou, e foi fechá-la.
Um instante depois, estava junto ao galpão e já ia fechar a porta quando ouviu um rumor lá dentro.
O menino, que aguardara sua oportunidade, correra direto para o galpão onde deixara os animais; mas eles já não estavam do lado de fora, na chuva: um vento forte havia muito escancarara a porta e os ajudara a encontrar um teto sobre a cabeça. O ruído que o senhor ouviu fora causado pelo menino correndo para dentro do galpão.
À luz da lanterna, o homem pôde ver o interior do galpão. Todo o chão estava coberto de gado adormecido. Não se via nenhum ser humano; os animais não estavam amarrados, mas deitados aqui e ali, sobre a palha.
Ele se enfureceu com a invasão e começou a esbravejar e gritar para acordar os que dormiam e expulsá-los. Mas as criaturas ficaram quietas e não se deixaram perturbar. O único que se levantou foi um velho cavalo, que veio lentamente em sua direção.
De repente, o homem ficou em silêncio. Reconheceu o animal pelo modo de andar. Ergueu a lanterna, e o cavalo se aproximou e pousou a cabeça em seu ombro. O senhor o afagou e acariciou.
“Meu velho cavalinho, meu velho cavalinho!”, disse. “O que fizeram com você? Sim, querido, vou comprá-lo de volta. Nunca mais terá de deixar este lugar. Você fará o que quiser, meu cavalinho! Aqueles que trouxe consigo podem ficar aqui, mas você virá comigo para o estábulo. Agora posso lhe dar toda a aveia que for capaz de comer, sem ter de contrabandeá-la. E você também não está acabado! O cavalo mais bonito da colina da igreja — é isso que voltará a ser! Pronto, pronto! Pronto, pronto!”
Quinta-feira, 28 de abril.
No dia seguinte, o tempo estava claro e belo. Soprava um forte vento de oeste; as pessoas se alegravam com isso, pois ele secava as estradas, que tinham sido encharcadas pelas pesadas chuvas do dia anterior.
Logo cedo, as duas crianças de Småland, Osa, a pastora de gansos, e o pequeno Mats, estavam na estrada que levava de Sörmland a Närke. A estrada corria ao longo da margem sul do lago Hjälmar, e as crianças caminhavam olhando para o gelo, que cobria a maior parte dele. O sol da manhã lançava seus raios claros sobre o gelo, que não parecia escuro e ameaçador, como a maior parte do gelo de primavera, mas cintilava de modo tentador. Até onde podiam ver, o gelo era firme e seco. A chuva escorrera para dentro de fendas e depressões, ou fora absorvida pelo próprio gelo. As crianças viam apenas o gelo bom.
Osa, a pastora de gansos, e o pequeno Mats estavam a caminho do Norte, e não conseguiam deixar de pensar em todos os passos que poupariam se pudessem cortar direto pelo lago, em vez de contorná-lo. Sabiam, é verdade, que o gelo de primavera é traiçoeiro, mas aquele parecia perfeitamente seguro. Podiam ver que tinha vários centímetros de espessura perto da margem. Viam um caminho que poderiam seguir, e a margem oposta parecia tão próxima que deviam ser capazes de alcançá-la em uma hora.
“Vamos, tentemos!”, disse o pequeno Mats. “Se apenas olharmos bem à nossa frente, para não cairmos em algum buraco, podemos conseguir.”
Então saíram sobre o lago. O gelo não era muito escorregadio, antes bastante fácil de caminhar. Havia mais água sobre ele do que esperavam ver, e aqui e ali havia fendas, por onde a água murmurava para cima. Era preciso tomar cuidado com esses lugares; mas isso era fácil em plena luz do dia, com o sol brilhando.
As crianças avançaram depressa e falavam apenas de como tinham sido sensatas por sair sobre o gelo em vez de palmilhar a estrada encharcada.
Depois de caminharem por algum tempo, chegaram à ilha de Vin, onde uma velha os avistara de sua janela. Ela correu para fora da cabana, acenou para que voltassem e gritou algo que eles não puderam ouvir. Compreenderam muito bem que ela os avisava para não seguir adiante; mas acharam que não havia perigo imediato. Seria tolice deixar o gelo quando tudo corria tão bem!
Por isso continuaram para além da ilha de Vin e tinham à frente uma extensão de sete milhas de gelo.
Lá fora havia tanta água que as crianças foram obrigadas a fazer rodeios; mas aquilo era uma brincadeira para elas. Competiam para ver quem encontrava o gelo mais sólido. Não estavam cansadas nem famintas. Tinham o dia inteiro diante de si e riam de cada obstáculo que encontravam.
De vez em quando, lançavam um olhar à frente, para a margem mais distante. Ela ainda parecia longe, embora já caminhassem havia uma boa hora. Ficaram um tanto surpresos que o lago fosse tão largo.
“A margem parece estar se afastando de nós”, observou o pequeno Mats.
Lá fora, as crianças não estavam protegidas contra o vento, que se tornava mais forte a cada minuto e pressionava suas roupas tão rente ao corpo que mal conseguiam seguir adiante. O vento frio foi a primeira coisa desagradável que encontraram na jornada.
Mas o espantoso era que o vento vinha varrendo tudo com um forte rugido — como se trouxesse consigo o ruído de um grande moinho ou de uma fábrica, embora nada disso se encontrasse lá fora, sobre o gelo. Haviam caminhado a oeste da grande ilha, Valen; agora pensavam estar se aproximando da margem norte. De repente, o vento começou a soprar cada vez mais, enquanto o forte rugido crescia tão rapidamente que começaram a se inquietar.
Subitamente lhes ocorreu que o rugido era causado pelas ondas espumantes e impetuosas quebrando contra uma margem. Mesmo isso parecia improvável, já que o lago ainda estava coberto de gelo.
De qualquer modo, pararam e olharam ao redor. Notaram, longe a oeste, uma faixa branca que se estendia por todo o lago. A princípio, pensaram que fosse um banco de neve ao lado de uma estrada. Depois compreenderam que eram ondas coroadas de espuma arremessando-se contra o gelo! Deram-se as mãos e correram sem dizer uma palavra. Mar aberto jazia além, a oeste, e de súbito a faixa de espuma pareceu mover-se para leste. Perguntaram-se se todo o gelo ia se partir. O que iria acontecer? Sentiam agora que estavam em grande perigo.
De repente, pareceu-lhes que o gelo sob seus pés se erguia — erguia-se e afundava, como se alguém o empurrasse por baixo. Pouco depois, ouviram um estrondo oco, e então surgiram fendas no gelo ao redor deles. As crianças podiam ver como elas rastejavam por baixo da cobertura gelada.
No instante seguinte tudo ficou quieto; depois o erguer e afundar recomeçou. Então as fendas começaram a se alargar em rachaduras por onde a água borbulhava. Pouco a pouco, as rachaduras se tornaram aberturas. Logo depois, o gelo se dividiu em grandes blocos flutuantes.
“Osa”, disse o pequeno Mats, “isto deve ser a ruptura do gelo!”
“Pois é, pequeno Mats”, disse Osa, “mas ainda podemos chegar à terra. Corra pela sua vida!”
Na verdade, o vento e as ondas ainda tinham muito trabalho a fazer para limpar o gelo do lago. A parte mais difícil estava feita quando a crosta gelada se partiu em pedaços, mas todos esses pedaços precisavam ser quebrados e arremessados uns contra os outros, para serem esmagados, gastos e dissolvidos. Ainda restava muito gelo duro e firme, que formava grandes superfícies intactas.
O maior perigo para as crianças estava no fato de que não tinham uma visão geral do gelo. Não viam os lugares onde as aberturas eram tão largas que não poderiam saltar por cima delas, nem sabiam onde encontrar blocos que as sustentassem; assim, vagavam sem rumo de um lado para outro, indo mais para dentro do lago em vez de mais perto da terra. Por fim, confusas e aterrorizadas, pararam e choraram.
Então um bando de gansos selvagens, em voo rápido, passou impetuoso por ali. Eles gritavam alto e agudo; mas o estranho foi que, acima do grasnar dos gansos, as criancinhas ouviram estas palavras:
“Vocês devem ir para a direita, a direita, a direita!” Começaram imediatamente a seguir o conselho; mas não demorou muito para que estivessem outra vez paradas, indecisas, diante de outra larga abertura.
De novo ouviram os gansos gritando acima delas, e de novo, em meio ao grasnar, distinguiram algumas palavras:
“Fiquem onde estão! Fiquem onde estão!”
As crianças não disseram uma palavra uma à outra, mas obedeceram e ficaram imóveis. Pouco depois, os blocos de gelo flutuaram juntos, de modo que puderam atravessar a abertura. Então tornaram a se dar as mãos e correram. Tinham medo não apenas do perigo, mas também da ajuda misteriosa que lhes havia chegado.
Logo tiveram de parar outra vez, e imediatamente o som da voz lhes chegou aos ouvidos.
— Em frente, em frente! — dizia ela.
Aquela condução continuou por cerca de meia hora; a essa altura, haviam alcançado a Ponta de Ljunger, onde deixaram o gelo e vadearam até a margem. Ainda estavam terrivelmente assustados, embora já pisassem terra firme. Não pararam para olhar para trás, para o lago — onde as ondas arremessavam os blocos de gelo cada vez mais depressa —, mas continuaram a correr. Quando tinham avançado pequena distância ao longo da ponta, Osa deteve-se de repente.
— Espere aqui, pequeno Mats — disse ela. — Esqueci uma coisa.
Osa, a menina dos gansos, desceu novamente até a praia, onde parou para remexer em sua sacola. Por fim, tirou de dentro dela um tamancozinho de madeira, que colocou sobre uma pedra, onde pudesse ser visto claramente. Depois correu para junto do pequeno Mats sem olhar para trás uma só vez.
Mas, no instante em que ela lhe voltou as costas, um grande ganso branco desceu do céu como um relâmpago, arrebatou o tamanco de madeira e voou com ele.
Quinta-feira, vinte e oito de abril.
Quando os gansos selvagens e Polegarzinho ajudaram Osa, a menina dos gansos, e o pequeno Mats a atravessar o gelo, voaram para Westmanland, onde pousaram num campo de cereais para se alimentar e descansar.
Um forte vento de oeste soprou durante quase todo o dia em que os gansos selvagens viajaram sobre os distritos mineiros, e, assim que tentavam dirigir o rumo para o norte, eram açoitados para o leste. Ora, Akka pensava que Smirre Raposo andava à solta na parte oriental da província; por isso não queria voar naquela direção, mas tornava atrás, vez após vez, lutando para o oeste com grande dificuldade. Nesse passo, os gansos selvagens avançavam muito devagar, e, já tarde da tarde, ainda se achavam nos distritos mineiros de Westmanland. Ao cair da noite, o vento amainou de súbito, e os viajantes cansados esperaram ter um intervalo de voo fácil antes do pôr do sol. Então sobreveio uma violenta rajada de vento, que lançou os gansos adiante de si como bolas; e o menino, que estava sentado comodamente, sem nenhum pensamento de perigo, foi erguido do dorso do ganso e arremessado no espaço.
Pequeno e leve como era, não podia cair diretamente ao chão em semelhante ventania; por isso, a princípio, foi levado por ela, descendo devagar e aos arrancos, como uma folha que cai de uma árvore.
— Ora, isto não é tão ruim assim! — pensou o menino enquanto caía. — Estou rolando tão suavemente como se fosse apenas um pedaço de papel. Morten Ganso-Macho sem dúvida se apressará e virá me apanhar.
A primeira coisa que o menino fez ao pousar em terra foi arrancar o gorro da cabeça e agitá-lo, para que o grande ganso branco visse onde ele estava.
— Aqui estou eu, onde estás tu? Aqui estou eu, onde estás tu? — chamou ele, bastante surpreendido de que Morten Ganso-Macho ainda não estivesse ao seu lado.
Mas o grande ganso branco não se via em parte alguma, nem o bando dos gansos selvagens se recortava contra o céu. Havia desaparecido por completo.
Aquilo lhe pareceu um tanto singular, mas ele não ficou nem preocupado nem assustado. Nem por um segundo lhe ocorreu que seres como Akka e Morten Ganso-Macho pudessem abandoná-lo. A inesperada rajada de vento provavelmente os levara consigo. Assim que conseguissem voltar-se, certamente retornariam para buscá-lo.
Mas que era aquilo? Onde, afinal, viera ele parar? Estivera de pé, fitando o céu, em busca de algum sinal dos gansos; mas agora aconteceu-lhe lançar os olhos ao redor. Não descera em terreno plano, mas caíra dentro de uma profunda e ampla caverna na montanha — ou fosse lá o que fosse. Era grande como uma igreja, com paredes quase perpendiculares pelos quatro lados, e sem teto algum. No chão havia enormes rochedos, entre os quais cresciam musgo, moitas de airela e bétulas anãs. Aqui e ali, na parede, havia saliências das quais pendiam escadas bambas. De um lado abria-se uma passagem escura, que aparentemente conduzia para muito dentro da montanha.
O menino não viajara durante um dia inteiro sobre os distritos mineiros à toa. Compreendeu logo que aquela grande fenda fora aberta pelos homens que haviam extraído minério naquele lugar.
— Preciso tentar subir de volta à terra — pensou ele —, do contrário temo que meus companheiros não me encontrem!
Estava prestes a dirigir-se à parede quando alguém o agarrou por trás, e ele ouviu uma voz rouca rosnar-lhe ao ouvido:
— Quem és tu?
O menino virou-se depressa e, na confusão do momento, julgou estar diante de um enorme rochedo coberto de musgo pardacento. Então notou que o rochedo tinha largas patas com que andar, uma cabeça, dois olhos e uma boca que rosnava.
Ele não conseguiu recobrar-se para responder, nem a grande fera pareceu esperar isso dele, pois o derrubou, rolou-o de um lado para outro com as patas e o farejou. Parecia já prestes a engoli-lo, quando mudou de ideia e chamou:
— Brumme e Mulle, vinde cá, filhotes, que tereis uma coisa boa para comer!
Um par de filhotes desgrenhados, tão inseguros nas patas e tão lanudos como cachorrinhos, veio cambaleando.
— Que foi que arranjaste, Mamãe Ursa? Podemos ver, oh, podemos ver? — gritaram os filhotes, excitados.
— Oh! então caí no meio de ursos — pensou o menino consigo. — Agora Smirre Raposo não precisará mais dar-se ao trabalho de correr atrás de mim!
A mãe ursa empurrou o menino para junto dos filhotes. Um deles o abocanhou depressa e fugiu com ele; mas não mordeu com força. Estava brincalhão e queria divertir-se um pouco com Polegarzinho antes de comê-lo. O outro filhote correu atrás do primeiro para arrebatar o menino para si e, enquanto avançava desajeitado, conseguiu cair diretamente sobre a cabeça daquele que carregava o menino. Assim, os dois filhotes rolaram um por cima do outro, mordendo, arranhando e rosnando.
Durante a luta, o menino conseguiu soltar-se, correu até a parede e começou a escalá-la. Então ambos os filhotes precipitaram-se atrás dele e, trepando agilmente pelo rochedo, alcançaram-no e o atiraram de volta sobre o musgo, como uma bola.
— Agora sei o que acontece a um pobre ratinho quando cai nas garras do gato — pensou o menino.
Fez várias tentativas de escapar. Correu para o fundo do velho túnel, escondeu-se atrás das rochas e trepou nas bétulas; mas os filhotes o descobriam, fosse para onde fosse. No instante em que o apanhavam, tornavam a soltá-lo, para que ele pudesse fugir outra vez e eles tivessem o prazer de recapturá-lo.
Por fim, o menino ficou tão farto e tão cansado de tudo aquilo que se atirou ao chão.
— Foge — rosnaram os filhotes —, ou nós te comeremos!
— Então tereis de me comer — disse o menino —, pois não posso mais correr.
Imediatamente os dois filhotes correram para junto da mãe ursa e se queixaram:
— Mamãe Ursa, oh, Mamãe Ursa, ele não quer brincar mais.
— Então deveis dividi-lo igualmente entre vós — disse a Mãe Ursa.
Quando o menino ouviu isso, ficou tão apavorado que saltou de pé no mesmo instante e começou a brincar outra vez.
Como já era hora de dormir, Mãe Ursa chamou os filhotes, dizendo que agora deviam vir aconchegar-se a ela e adormecer. Haviam-se divertido tanto que queriam continuar a brincadeira no dia seguinte; por isso tomaram o menino entre si e puseram as patas sobre ele. Não queriam que ele se movesse sem acordá-los. Adormeceram imediatamente. O menino pensou que, dali a pouco, tentaria escapar às escondidas. Mas nunca em toda a sua vida fora tão sacudido, arremessado, caçado e rolado! E estava tão exausto que também adormeceu.
Daí a pouco, Pai Urso veio descendo aos trambolhões pela parede da montanha. O menino despertou ao ouvi-lo arrancar pedras e cascalho enquanto se lançava para dentro da velha mina. O menino tinha medo de mover-se muito; mas conseguiu esticar-se e virar-se, de modo que pôde ver o grande urso. Era uma fera velha, enorme e terrivelmente grosseira, com grandes patas, presas largas e reluzentes, e olhinhos perversos! O menino não pôde deixar de estremecer ao contemplar aquele velho monarca da floresta.
— Cheira a ser humano por aqui — disse Pai Urso assim que se aproximou de Mãe Ursa, e seu rosnado era como o rolar do trovão.
— Como podes imaginar coisa tão absurda? — disse Mãe Ursa, sem se perturbar. — Ficou resolvido, de uma vez por todas, que não havemos mais de fazer mal ao gênero humano; mas, se algum deles aparecesse aqui, onde os filhotes e eu temos nosso abrigo, não sobraria dele o bastante para que tu pudesses sequer farejar-lhe o cheiro!
Pai Urso deitou-se ao lado de Mãe Ursa. — Devias conhecer-me bastante para compreender que não permito que nada perigoso se aproxime dos filhotes. Fala, antes, do que tens feito. Não te vejo há uma semana inteira!
— Estive procurando uma nova morada — disse Pai Urso. — Primeiro fui até Vermland, para saber de nossos parentes de Ekshärad como lhes ia naquele país; mas tive meu trabalho em vão. Não restava uma só toca de urso em toda a floresta.
— Creio que os homens querem a terra inteira só para eles — disse Mãe Ursa. — Mesmo que deixemos em paz as pessoas e o gado, e vivamos unicamente de airelas, insetos e coisas verdes, não podemos permanecer sem ser molestados na floresta! Gostaria de saber para onde poderíamos nos mudar a fim de viver em paz.
— Vivemos confortavelmente por muitos anos neste fosso — observou Pai Urso. — Mas agora não posso mais contentar-me aqui, desde que construíram a grande oficina de barulho bem em nossa vizinhança. Ultimamente andei dando uma olhada nas terras a leste do Rio Dal, para os lados da Montanha Garpen. Também ali há velhos poços de mina em abundância, e outros belos refúgios. Pareceu-me que lá se poderia estar razoavelmente protegido dos homens...
No instante em que Pai Urso disse isso, sentou-se e começou a farejar.
— É extraordinário que, sempre que falo de seres humanos, torno a sentir esse cheiro esquisito — observou ele.
— Vai ver por ti mesmo, se não acreditas em mim! — desafiou Mãe Ursa. — Eu bem gostaria de saber onde um ser humano conseguiria esconder-se aqui embaixo.
O urso andou por toda a caverna, farejando. Por fim, voltou e deitou-se sem dizer palavra.
— Que foi que eu te disse? — falou Mãe Ursa. — Mas, naturalmente, pensas que ninguém além de ti tem nariz ou ouvidos!
— Nunca se é cuidadoso demais, com vizinhos como os que temos — disse Pai Urso mansamente. Então ergueu-se de um salto, com um rugido. Como quis o acaso, um dos filhotes havia posto a pata sobre o rosto de Nils Holgersson, e o pobre pequenino não conseguia respirar, mas começou a espirrar. Já não foi possível a Mãe Ursa conter Pai Urso por mais tempo. Ele empurrou os pequenos para a direita e para a esquerda e avistou o menino antes que este tivesse tempo de se sentar.
Ele o teria engolido instantaneamente se Mãe Ursa não se tivesse lançado entre ambos.
— Não lhe toques! Ele pertence aos filhotes — disse ela. — Divertiram-se tanto com ele a noite inteira que não tiveram coragem de comê-lo, mas quiseram guardá-lo até de manhã.
Pai Urso empurrou Mãe Ursa para o lado.
— Não te metas no que não entendes! — rugiu ele. — Não sentes de longe esse cheiro humano que há nele? Hei de comê-lo agora mesmo, ou ele ainda nos pregará alguma peça maldosa.
Abriu de novo as mandíbulas; mas, nesse meio-tempo, o menino tivera tempo de pensar e, rápido como um relâmpago, meteu a mão em sua mochila e tirou alguns fósforos — sua única arma de defesa —, riscou um em seus calções de couro e enfiou o fósforo aceso na boca aberta do urso.
Pai Urso bufou ao sentir o cheiro de enxofre, e com isso a chama se apagou. O menino já estava pronto com outro fósforo; mas, curiosamente, Pai Urso não repetiu o ataque.
— Podes acender muitas dessas florzinhas azuis? — perguntou Pai Urso.
— Posso acender o bastante para acabar com a floresta inteira — respondeu o menino, pois pensou que assim talvez conseguisse assustar Pai Urso.
— Oh, isso não seria façanha para mim! — gabou-se o menino, esperando que aquilo fizesse o urso respeitá-lo.
— Bom! — exclamou o urso. — Hás de prestar-me um serviço. Agora estou muito contente por não te haver comido!
Pai Urso tomou cuidadosamente o menino entre as presas e subiu para fora do fosso. Fê-lo com notável facilidade e agilidade, considerando que era tão grande e pesado. Assim que chegou acima, tomou depressa o rumo da mata. Era evidente que Pai Urso fora criado para espremer-se através de florestas cerradas. O corpo pesado abria caminho pelo matagal como um barco pela água.
Pai Urso correu até chegar a uma colina à orla da floresta, de onde podia ver a grande oficina de barulho. Ali deitou-se e colocou o menino diante de si, segurando-o firmemente entre as patas dianteiras.
— Agora olha lá embaixo para aquela grande oficina de barulho! — ordenou. A grande fundição, com muitos edifícios altos, erguia-se à beira de uma queda-d’água. Altas chaminés lançavam nuvens escuras de fumaça, os altos-fornos ardiam em plena labareda, e a luz brilhava em todas as janelas e aberturas. Lá dentro, martelos e laminadores trabalhavam com tal força que o ar ressoava com seu estrépito e seu fragor. Ao redor das oficinas propriamente ditas havia imensos depósitos de carvão, grandes montes de escória, armazéns, pilhas de lenha e galpões de ferramentas. Logo além estendiam-se longas fileiras de casas de operários, belas vilas, escolas, salões de reunião e lojas. Mas ali tudo estava quieto, e aparentemente todos dormiam. O menino não olhou naquela direção, mas fitou atentamente a fundição. A terra ao redor dela era negra; o céu por cima parecia uma grande cúpula de fogo; as corredeiras, brancas de espuma, precipitavam-se ao lado, enquanto os próprios edifícios lançavam luz e fumaça, fogo e centelhas. Era o espetáculo mais grandioso que o menino já vira!
— Certamente não queres dizer que és capaz de pôr fogo num lugar como aquele? — observou o urso, desconfiado.
O menino estava comprimido entre as patas da fera, pensando que a única coisa capaz de salvá-lo talvez fosse fazer o urso ter alta opinião de sua capacidade e poder.
— Para mim dá no mesmo — respondeu com ar superior. — Grande ou pequeno, posso queimá-lo por completo.
— Então vou contar-te uma coisa — disse Pai Urso. — Meus antepassados viveram nesta região desde o tempo em que as florestas brotaram pela primeira vez. Deles herdei terrenos de caça e pastagens, covis e esconderijos, e aqui vivi em paz toda a minha vida. No princípio, não fui muito incomodado pela raça humana. Cavavam as montanhas e recolhiam um pouco de minério aqui embaixo, junto às corredeiras; tinham uma forja e um forno, mas os martelos soavam apenas algumas horas durante o dia, e o forno não era aceso por mais de duas luas seguidas. Não era tão mau que eu não pudesse suportar; mas, nestes últimos anos, desde que construíram esta oficina de barulho, que mantém o mesmo alarido tanto de dia como de noite, a vida aqui se tornou intolerável. Antigamente viviam aqui apenas um administrador e uns dois ferreiros; agora, porém, há tanta gente que nunca posso sentir-me seguro contra eles. Pensei que teria de mudar-me, mas descobri coisa melhor!
O menino perguntou-se o que Pai Urso teria imaginado, mas não lhe foi dada oportunidade de perguntar, pois o urso tornou a tomá-lo entre as presas e desceu a colina pesadamente. O menino nada podia ver, mas sabia, pelo ruído crescente, que se aproximavam dos laminadores.
Pai Urso conhecia bem a fundição. Havia rondado por ali em muitas noites escuras, observara o que se passava lá dentro e perguntara a si mesmo se nunca haveria cessação daquele trabalho. Testara as paredes com as patas e desejara ser forte o bastante para derrubar toda a construção com um só golpe.
Ele não se distinguia facilmente contra o solo escuro e, além disso, quando permanecia à sombra das paredes, havia pouco perigo de ser descoberto. Agora caminhava sem medo entre as oficinas e subiu ao topo de um monte de escória. Ali sentou-se sobre as ancas, tomou o menino entre as patas dianteiras e ergueu-o.
— Tenta olhar para dentro da casa! — ordenou. Uma forte corrente de ar era lançada para dentro de um grande cilindro suspenso do teto e cheio de ferro derretido. Quando essa corrente irrompia na massa de ferro com um rugido medonho, chuvas de centelhas de todas as cores espirravam para cima, em cachos, em borrifos, em longos feixes! Batiam contra a parede e vinham salpicar por toda a grande sala. Pai Urso deixou o menino contemplar o esplêndido espetáculo até que o sopro terminou e o aço vermelho, fluido e faiscante, foi despejado em moldes de lingotes.
O menino ficou completamente encantado com aquela exibição maravilhosa e quase se esqueceu de que estava aprisionado entre as duas patas de um urso.
Pai Urso deixou-o olhar para dentro do laminador. Viu um operário retirar de uma boca de forno uma barra curta e grossa de ferro em brasa branca e colocá-la sob um cilindro. Quando o ferro saiu de sob o cilindro, estava achatado e alongado. Imediatamente outro operário o agarrou e o colocou debaixo de um cilindro mais pesado, que o tornou ainda mais comprido e mais fino. Assim passava de cilindro em cilindro, comprimido e estirado até que, por fim, se enroscava pelo chão como um longo fio vermelho.
Mas enquanto a primeira barra de ferro era prensada, uma segunda era retirada do forno e colocada sob os cilindros, e, quando esta já avançara um pouco, traziam uma terceira. Continuamente novos fios vinham rastejando pelo chão, como serpentes sibilantes. O menino ficou deslumbrado com o ferro. Mas achou ainda mais esplêndido observar os operários que, com destreza e delicadeza, agarravam com suas tenazes as serpentes incandescentes e as forçavam sob os cilindros. Parecia brincadeira para eles manejar o ferro sibilante.
— A isso é que chamo verdadeiro trabalho de homem! — observou o menino consigo mesmo.
O urso então deixou que o menino desse uma espiada no forno e na forja, e ele ficou cada vez mais admirado ao ver como os ferreiros manejavam o ferro e o fogo.
— Estes homens não têm medo do calor nem das chamas — pensou. Os operários estavam enegrecidos de fuligem e sujos. Imaginou que fossem alguma espécie de povo do fogo — era por isso que podiam dobrar e moldar o ferro como quisessem. Não podia acreditar que fossem simples homens comuns, já que possuíam tamanho poder!
— Eles continuam com isto dia após dia, noite após noite — disse Pai Urso, deixando-se cair fatigado no chão. — Podes compreender que uma pessoa se canse um pouco de coisa assim. Estou poderosamente contente porque enfim posso pôr fim a isso!
— Deveras? — disse o menino. — E como farás?
— Oh, pensei que tu fosses pôr fogo nos edifícios! — disse Pai Urso. — Isso poria fim a todo este trabalho, e eu poderia permanecer em meu antigo lar.
O menino estremeceu inteiro.
Então era para isso que Pai Urso o trouxera ali!
— Se puseres fogo nas oficinas de barulho, prometo poupar tua vida — disse Pai Urso. — Mas, se não o fizeres, acabarei contigo num instante! As enormes oficinas eram construídas de tijolo, e o menino pensava consigo que Pai Urso podia ordenar quanto quisesse, pois era impossível obedecer-lhe. Logo, porém, viu que talvez não fosse impossível, afinal. Bem perto deles havia uma pilha de lascas e aparas à qual ele poderia facilmente pôr fogo, e ao lado dela havia uma pilha de lenha que quase alcançava o depósito de carvão. O depósito de carvão estendia-se até as oficinas, e, se este pegasse fogo uma vez, as chamas logo voariam para o telhado da fundição de ferro. Tudo que fosse combustível arderia, as paredes cairiam com o calor, e as máquinas seriam destruídas. — Queres ou não queres? — exigiu Pai Urso. O menino sabia que devia responder prontamente que não; mas também sabia que então as patas do urso o esmagariam até a morte; por isso respondeu:
— Terei de pensar a respeito.
— Muito bem, pensa — concordou Pai Urso. — Deixa-me dizer-te que o ferro é a coisa que deu aos homens vantagem sobre nós, ursos, o que é mais uma razão para eu desejar pôr fim ao trabalho daqui.
O menino pensou que usaria a demora para imaginar algum plano de fuga, mas estava tão aflito que não conseguia dirigir os pensamentos para onde queria; em vez disso, começou a pensar na grande ajuda que o ferro prestara à humanidade. Precisavam de ferro para tudo. Havia ferro no arado que rasgava o campo, no machado que derrubava a árvore para construir casas, na foice que ceifava o trigo, e na faca, que podia ser usada para toda sorte de coisas. Havia ferro no freio do cavalo, na fechadura da porta, nos pregos que mantinham unidos os móveis, no revestimento que cobria o telhado. A espingarda que afugentava as feras era feita de ferro, assim como a picareta que abrira a mina. O ferro cobria os navios de guerra que ele vira em Karlskrona; as locomotivas avançavam fumegantes pelo país sobre trilhos de ferro; a agulha que costurara seu casaco era de ferro; as tesouras que tosquiavam as ovelhas e a chaleira que cozinhava a comida. Grandes e pequenas igualmente — muitas coisas indispensáveis eram feitas de ferro. Pai Urso tinha toda razão ao dizer que fora o ferro que dera aos homens o domínio sobre os ursos.
— E agora, queres ou não queres? — repetiu Pai Urso.
O menino despertou sobressaltado de suas meditações. Ali estava ele, pensando em assuntos inteiramente desnecessários, e ainda não encontrara um meio de salvar-se!
— Não deves ser tão impaciente — disse ele. — Isto é um assunto sério para mim, e preciso de tempo para considerar.
— Pois bem, considera mais um momento — disse Pai Urso. — Mas deixa-me dizer-te que é por causa do ferro que os homens se tornaram muito mais sábios que nós, ursos. Só por isso, se por nada mais fosse, eu gostaria de pôr fim ao trabalho daqui.
Outra vez o menino esforçou-se por imaginar um plano de fuga, mas seus pensamentos divagavam, quisesse ele ou não. Ficaram presos ao ferro. E, pouco a pouco, começou a compreender quanto os homens deviam ter pensado e calculado antes de descobrir como produzir ferro a partir do minério; e pareceu-lhe ver os antigos ferreiros, negros de fuligem, curvados sobre a forja, meditando como deveriam manejá-lo convenientemente. Talvez fosse por terem pensado tanto no ferro que a inteligência se desenvolvera na humanidade, até que por fim os homens se tornaram tão adiantados que puderam construir grandes obras como aquelas. A verdade era que os homens deviam ao ferro mais do que eles próprios sabiam.
— Bem, que dizes? Queres ou não queres? — insistiu Pai Urso.
O menino encolheu-se. Ali estava ele, pensando pensamentos inúteis, e não fazia ideia do que deveria fazer para salvar-se.
— Não é coisa tão fácil de decidir como pensas — respondeu. — Deves dar-me tempo para refletir.
— Posso esperar por ti um pouco mais — disse Pai Urso. — Mas depois disso não terás mais graça. Deves saber que é culpa do ferro que a raça humana possa viver aqui, na propriedade dos ursos. E agora compreendes por que desejo livrar-me desse trabalho.
O menino pretendia usar o último momento para imaginar algum meio de salvar-se, mas, ansioso e perturbado como estava, seus pensamentos tornaram a divagar. Agora começou a pensar em tudo o que vira quando voara sobre os distritos mineiros. Era estranho que houvesse tanta vida e atividade, tanto trabalho lá atrás, no ermo.
— Imagina como este lugar seria pobre e desolado se não houvesse ferro aqui!
Esta própria fundição dava emprego a muitos e reunira ao seu redor muitos lares cheios de gente, que, por sua vez, haviam atraído para ali estradas de ferro, fios telegráficos e...
— Vamos, vamos! — rosnou o urso. — Queres ou não queres?
O menino passou a mão pela testa. Nenhum plano de fuga lhe viera ainda à mente, mas isto ele sabia: não desejava causar dano algum ao ferro, que era tão útil aos ricos e aos pobres igualmente, e que dava pão a tanta gente naquela terra.
— Não quero! — disse ele.
Pai Urso apertou-o com um pouco mais de força, mas nada disse.
— Não conseguirás fazer-me destruir a fundição! — desafiou o menino. — O ferro é uma bênção tão grande que jamais se deve fazer-lhe mal.
— Então, naturalmente, não esperas que te deixem viver por muito tempo? — disse o urso.
— Não, não espero — respondeu o menino, olhando o urso diretamente nos olhos.
Pai Urso agarrou-o ainda com mais força. Doía tanto que o menino não pôde conter as lágrimas, mas não gritou nem disse palavra.
— Muito bem, então — disse Pai Urso, erguendo a pata muito devagar, esperando que o menino cedesse no último momento.
Mas justamente então o menino ouviu algo estalar bem perto deles e viu o cano de uma espingarda a dois passos de distância. Tanto ele como Pai Urso haviam estado tão absortos em seus próprios assuntos que não perceberam que um homem se aproximara furtivamente deles.
— Pai Urso! Não ouves o estalo de um gatilho? — gritou o menino. — Corre, ou serás baleado!
Pai Urso precipitou-se terrivelmente apressado. Contudo, concedeu-se tempo suficiente para apanhar o menino e levá-lo consigo. Enquanto corria, soaram alguns tiros, e as balas lhe roçaram as orelhas; mas, por sorte, ele escapou.
O menino pensou, enquanto pendia da boca do urso, que nunca fora tão estúpido como naquela noite. Se apenas tivesse ficado quieto, o urso teria sido abatido, e ele próprio estaria livre. Mas se acostumara tanto a ajudar os animais que o fizera naturalmente, como coisa evidente.
Depois que Pai Urso correu certa distância para dentro da mata, parou e pôs o menino no chão.
— Obrigado, pequenino! — disse ele. — Atrevo-me a dizer que aquelas balas me teriam acertado se não estivesses ali. E agora quero prestar-te um serviço em troca. Se algum dia encontrares outro urso, dize-lhe apenas isto — que te sussurrarei —, e ele não tocará em ti.
Pai Urso sussurrou uma ou duas palavras ao ouvido do menino e apressou-se em partir, pois julgou ouvir cães e caçadores perseguindo-o.
O menino ficou parado na floresta, livre e ileso, e mal podia compreender como aquilo era possível.
Os gansos selvagens haviam voado de um lado para outro a noite inteira, espiando e chamando, mas não tinham conseguido encontrar Polegarzinho. Procuraram muito depois que o sol se pôs e, por fim, quando a escuridão se tornou tal que foram obrigados a pousar em algum lugar para passar a noite, estavam muito abatidos. Não havia um só entre eles que não pensasse que o menino fora morto pela queda e jazia morto na floresta, onde não podiam vê-lo.
Mas, na manhã seguinte, quando o sol espiou por sobre as colinas e despertou os gansos selvagens, o menino dormia, como de costume, no meio deles. Quando acordou e os ouviu grasnar e cacarejar de espanto, não pôde deixar de rir.
Estavam tão ansiosos por saber o que lhe acontecera que não quiseram ir ao desjejum antes que ele lhes contasse toda a história. O menino logo narrou toda a sua aventura com os ursos, mas depois disso pareceu relutante em continuar.
— Como voltei para junto de vós talvez já saibais? — disse ele.
— Não, nada sabemos. Pensávamos que estavas morto.
— Que curioso! — observou o menino. — Oh, sim! Quando Pai Urso me deixou, subi num pinheiro e adormeci. Ao romper do dia, fui despertado por uma águia que pairava sobre mim. Ela me apanhou com as garras e me levou embora. Não me feriu, mas voou diretamente para cá, até vós, e me deixou cair entre todos.
— Ela não te disse quem era? — perguntou o grande ganso branco.
— Partiu antes mesmo que eu tivesse tempo de agradecer-lhe. Pensei que Mamãe Akka a tivesse mandado buscar-me.
— Que extraordinário! — exclamou o ganso-macho branco. — Mas tens certeza de que era uma águia?
— Eu nunca vira uma águia antes — disse o menino —, mas ela era tão grande e magnífica que não posso dar-lhe nome mais humilde!
Morten Ganso-Macho voltou-se para os gansos selvagens, a fim de ouvir o que pensavam daquilo; mas eles ficaram fitando o ar, como se estivessem pensando em outra coisa.
— Não devemos esquecer inteiramente de tomar o desjejum hoje — disse Akka, abrindo depressa as asas.
De primeiro a quatro de maio.
Uma terrível tempestade rugia na região ao norte do lago Mälar, e durou vários dias. O céu era de um cinzento opaco, o vento assobiava, e a chuva batia com força. Tanto as pessoas como os animais sabiam que a primavera não podia ser introduzida por nada menos que aquilo; ainda assim, julgavam-no insuportável.
Depois que choveu durante um dia inteiro, os montes de neve nas florestas de pinheiros começaram a derreter de verdade, e os regatos da primavera tornaram-se vivos. Todas as poças nas fazendas, a água parada nas valas, a água que escorria entre os tufos nos pântanos e brejos — tudo se pôs em movimento e tentou achar caminho para os córregos, a fim de ser levado adiante até o mar.
Os córregos corriam o mais depressa possível para os rios, e os rios faziam todo o possível para levar a água até o lago Mälar.
Todos os lagos e rios de Uppland e do distrito mineiro rapidamente se desfizeram de suas capas de gelo num só e mesmo dia, de modo que os córregos se encheram de blocos de gelo que subiam até a altura das margens.
Inchados como estavam, despejavam-se no lago Mälar, e não demorou muito para que o lago houvesse recebido tanta água quanto podia conter. Lá embaixo, junto à saída, havia uma torrente furiosa. Norrström é um canal estreito, e não conseguia escoar a água com rapidez suficiente. Além disso, havia um forte vento de leste que açoitada a terra, obstruindo a corrente quando ela tentava levar a água doce para o Mar do Leste. Como os rios continuavam a correr para Mälaren com mais água do que ele podia despachar, nada restava ao grande lago senão transbordar por suas margens.
Ele subiu muito lentamente, como se relutasse em ferir suas belas praias; mas, como estas eram em sua maior parte baixas e de declive gradual, não demorou muito até que a água houvesse inundado vários acres de terra, e isso bastou para criar o maior alarme.
O lago Mälar é único à sua maneira, sendo composto de uma sucessão de fiordes estreitos, baías e enseadas. Em nenhum lugar se alarga num centro de tempestades, mas parece ter sido criado apenas para passeios de recreio, excursões de iate e pescarias. Em parte alguma apresenta margens áridas, desoladas, varridas pelo vento. Parece que jamais pensou que suas margens pudessem abrigar outra coisa senão casas de campo, vilas de verão, solares e lugares de divertimento. Mas, justamente porque costuma apresentar aparência muito agradável e amistosa, tanto maior é a devastação quando por acaso abandona, na primavera, sua expressão sorridente e mostra que pode ser sério.
Naquele momento crítico, aconteceu de Smirre Raposo vir esgueirando-se por um bosque de bétulas logo ao norte do lago Mälar. Como de costume, pensava em Polegarzinho e nos gansos selvagens, e imaginava como haveria de encontrá-los novamente. Perdera todo o rastro deles.
Enquanto avançava furtivamente, mais desanimado que de costume, avistou Agar, a pomba-correio, que pousara num ramo de bétula.
— Ora, mas que sorte a minha encontrar-te, Agar! — exclamou Smirre. — Talvez possas dizer-me onde Akka de Kebnekaise e seu bando vivem atualmente?
— É bem possível que eu saiba onde estão — insinuou Agar —, mas não é provável que eu te diga!
— Como quiseres! — retrucou Smirre. — Apesar disso, podes levar-lhes uma mensagem que tenho para eles. Provavelmente conheces a atual condição do lago Mälar? Há uma grande inundação lá embaixo, e todos os cisnes que vivem na Baía de Hjälsta estão prestes a ver seus ninhos, com todos os ovos, destruídos. Luz do Dia, o rei dos cisnes, ouviu falar do pequenino que viaja com os gansos selvagens e conhece remédio para todo mal. Enviou-me para perguntar a Akka se ela trará Polegarzinho até a Baía de Hjälsta.
— Creio que posso transmitir tua mensagem — respondeu Agar —, mas não consigo entender como o menino pequeno poderá ajudar os cisnes.
— Eu tampouco — disse Smirre —, mas ele parece capaz de fazer quase tudo.
— Surpreende-me que Luz do Dia envie suas mensagens por intermédio de uma raposa — observou Agar.
— Bem, não somos exatamente o que se chamaria bons amigos — disse Smirre, suavemente —, mas, numa emergência como esta, devemos ajudar uns aos outros. Talvez fosse melhor não contar a Akka que recebeste a mensagem de uma raposa. Cá entre nós, ela tende a ser um pouco desconfiada.
O refúgio mais seguro para aves aquáticas em todo o distrito de Mälar é a Baía de Hjälsta. Tem margens baixas, águas rasas e é também coberta de juncos.
Não é, de modo algum, tão grande quanto o lago Tåkern, mas, ainda assim, Hjälsta é um bom retiro para as aves, visto que há muito tempo é território proibido aos caçadores.
É o lar de grande número de cisnes, e o dono do velho castelo das imediações proibiu todo tiro na baía, para que eles não fossem molestados.
Assim que Akka recebeu notícia de que os cisnes precisavam de sua ajuda, apressou-se a descer à Baía de Hjälsta. Chegou com seu bando numa tarde e viu de relance que ocorrera ali uma grande desgraça. Os grandes ninhos dos cisnes tinham sido arrancados, e o vento forte os impelia baía abaixo. Alguns já se haviam desfeito, dois ou três tinham emborcado, e os ovos jaziam no fundo do lago.
Quando Akka pousou na baía, todos os cisnes que viviam ali estavam reunidos junto à margem oriental, onde ficavam protegidos do vento.
Embora tivessem sofrido muito com a enchente, eram orgulhosos demais para deixar que alguém o percebesse.
— É inútil chorar — diziam. — Há aqui muitas fibras de raiz e hastes; logo poderemos construir novos ninhos.
Nenhum deles pensara em pedir ajuda a um estranho, e os cisnes não faziam ideia de que Smirre Raposo mandara chamar os gansos selvagens!
Várias centenas de cisnes repousavam sobre a água. Haviam-se colocado segundo sua categoria e posição. Os jovens e inexperientes ficavam mais para fora; os velhos e sábios, mais perto do meio do grupo; e bem no centro estavam Luz do Dia, o rei dos cisnes, e Branca de Neve, a rainha dos cisnes, que eram mais velhos que todos os outros e consideravam o restante dos cisnes como seus filhos.
Os gansos pousaram na margem ocidental da baía; mas, quando Akka viu onde estavam os cisnes, nadou imediatamente em direção a eles. Estava muito surpreendida por terem mandado chamá-la, mas considerava aquilo uma honra e não queria perder um instante em socorrê-los.
Ao aproximar-se dos cisnes, Akka fez uma pausa para verificar se os gansos que a seguiam nadavam em linha reta e a distâncias iguais uns dos outros.
— Agora, nademos depressa! — ordenou. — Não fiqueis olhando para os cisnes como se nunca tivésseis visto algo belo antes, e não deis atenção ao que eles porventura vos disserem!
Não era a primeira vez que Akka visitava os aristocráticos cisnes. Eles sempre a haviam recebido de maneira condizente com uma grande viajante como ela.
Ainda assim, ela não gostava da ideia de nadar entre eles. Nunca se sentia tão cinzenta e insignificante como quando se encontrava entre cisnes. Um ou outro deles certamente deixava cair algum comentário sobre “penas-cinzentas comuns” e “gente pobre”. Mas é sempre melhor não dar atenção a tais coisas.
Desta vez, tudo transcorreu excepcionalmente bem. Os cisnes abriram caminho polidamente para os gansos selvagens, que nadaram adiante por uma espécie de passagem, formando uma alameda ladeada por aves brancas e cintilantes.
Era um belo espetáculo vê-los abrir as asas, como velas, para parecerem bem diante dos estranhos. Abstiveram-se de fazer comentários, o que surpreendeu bastante Akka.
Evidentemente, Luz do Dia havia notado seu mau comportamento no passado e dissera aos cisnes que deviam portar-se de maneira adequada — assim pensou a gansa-chefe.
Mas, justamente quando os cisnes se esforçavam por observar as regras da etiqueta, avistaram o ganso-macho, que nadava por último na longa fileira dos gansos. Então houve entre os cisnes um murmúrio de desaprovação, até mesmo de ameaças, e de súbito chegou ao fim todo o bom comportamento deles!
— Que é isto? — guinchou um. — Os gansos selvagens pretendem vestir-se de penas brancas?
— Não pensem que isso fará deles cisnes — gritou outro.
Começaram a gritar — um mais alto que o outro — com suas vozes fortes e ressoantes. Era impossível explicar que um ganso-macho doméstico viera com os gansos selvagens.
— Deve ser o próprio rei dos gansos que vem chegando — disseram eles, em tom de escárnio. — Não há limite para a audácia dessa gente!
— Isso não é ganso, é apenas um pato doméstico.
O grande ganso branco recordou a advertência de Akka para não dar atenção, fosse o que fosse que ouvisse. Ficou calado e nadou adiante o mais depressa que pôde, mas de nada adiantou. Os cisnes tornavam-se cada vez mais impertinentes.
— Que espécie de sapo ele carrega nas costas? — perguntou um. — Devem pensar que não vemos que é um sapo só porque está vestido como ser humano.
Os cisnes, que um momento antes repousavam em tão perfeita ordem, agora nadavam para cima e para baixo, excitados. Todos procuravam avançar para conseguir um vislumbre do ganso selvagem branco.
— Esse ganso-macho branco devia envergonhar-se de vir aqui desfilar diante de cisnes!
— Provavelmente é tão cinzento quanto os outros. Só esteve metido num barril de farinha em alguma casa de fazenda!
Akka acabara de chegar até Luz do Dia e estava prestes a perguntar que espécie de ajuda ele queria dela, quando o rei dos cisnes notou o tumulto entre os cisnes.
— Que vejo eu? Não vos ensinei a ser corteses com os estrangeiros? — disse ele, franzindo o cenho.
Branca de Neve, a rainha dos cisnes, nadou para restabelecer a ordem entre seus súditos, e Luz do Dia voltou-se novamente para Akka.
Pouco depois, Branca de Neve retornou, parecendo muito agitada.
— Não consegues mantê-los quietos? — gritou Luz do Dia.
— Há ali um ganso selvagem branco — respondeu Branca de Neve. — Não é vergonhoso? Não me admiro que estejam furiosos!
— Um ganso selvagem branco? — escarneceu Luz do Dia. — Isso é ridículo demais! Não pode existir tal coisa. Deves estar enganada.
As multidões ao redor de Morten Ganso-Macho tornavam-se cada vez maiores. Akka e os outros gansos selvagens tentaram nadar até ele, mas foram empurrados de um lado para outro e não conseguiram alcançá-lo.
O velho rei dos cisnes, que era o mais forte entre eles, nadou rapidamente, empurrou todos os outros para o lado e abriu caminho até o grande ganso branco. Mas, quando viu que realmente havia um ganso branco sobre a água, ficou tão indignado quanto os demais.
Sibilou de raiva, voou diretamente contra Morten Ganso-Macho e arrancou-lhe algumas penas.
— Eu te darei uma lição, ganso selvagem — guinchou ele —, para que não tornes a vir aos cisnes trajado dessa maneira!
— Voa, Morten Ganso-Macho! Voa, voa! — gritou Akka, pois sabia que, do contrário, os cisnes arrancariam todas as penas que o ganso-macho tinha.
— Voa, voa! — gritou também Polegarzinho.
Mas o ganso-macho estava tão cercado pelos cisnes que não tinha espaço suficiente para abrir as asas. Ao redor dele, os cisnes estendiam seus longos pescoços, abriam seus fortes bicos e lhe arrancavam as penas.
Morten Ganso-Macho defendia-se como podia, batendo e mordendo. Os gansos selvagens também começaram a lutar contra os cisnes.
Era evidente como aquilo teria terminado se os gansos não recebessem ajuda de modo inteiramente inesperado.
Um rabirruivo notou que eles estavam sendo maltratados pelos cisnes. No mesmo instante, soltou o chamado agudo que os passarinhos usam quando precisam de ajuda para expulsar um gavião ou um falcão.
Mal haviam soado três chamados, todos os passarinhos das redondezas desceram disparados à Baía de Hjälsta, como se viessem em asas de relâmpago.
Essas delicadas criaturinhas arremeteram contra os cisnes, guincharam-lhes aos ouvidos e lhes obstruíram a vista com o tremular de suas pequeninas asas. Deixaram-nos atordoados com seu esvoaçar e os levaram à loucura com seus gritos de “Vergonha, vergonha, cisnes!”
O ataque dos pequenos pássaros durou apenas um momento. Quando eles se foram e os cisnes recobraram os sentidos, viram que os gansos tinham levantado voo e voado para a outra extremidade da baía.
Havia ao menos isto a dizer em favor dos cisnes: quando viram que os gansos selvagens haviam escapado, eram orgulhosos demais para persegui-los. Além disso, os gansos podiam permanecer sobre um tufo de juncos com perfeita compostura e dormir.
Nils Holgersson estava faminto demais para dormir.
— É necessário que eu arranje algo para comer — disse ele.
Naquele tempo, quando toda sorte de coisas flutuava sobre a água, não era difícil para um menino pequeno como Nils Holgersson encontrar uma embarcação. Não parou para deliberar, mas saltou sobre um toco que havia derivado para o meio dos juncos. Então apanhou um gravetinho e começou a impeli-lo em direção à margem.
Justamente quando desembarcava, ouviu um chapinhar na água. Estacou de repente. Primeiro viu uma senhora cisne adormecida em seu grande ninho, bem perto dele; depois notou que uma raposa havia dado alguns passos dentro da água e se esgueirava até o ninho da cisne.
— Ei, ei, ei! Levanta-te, levanta-te! — gritou o menino, batendo na água com seu graveto.
A senhora cisne levantou-se, mas não tão depressa que a raposa não pudesse ter saltado sobre ela, se quisesse. Contudo, ela se conteve e, em vez disso, apressou-se diretamente para o menino.
Polegarzinho viu a raposa vindo e correu por sua vida.
Largas extensões de campina estendiam-se diante dele. Não via árvore em que pudesse subir, nem buraco onde se esconder; só lhe restava continuar correndo.
O menino era bom corredor, mas é claro que não podia disputar corrida com uma raposa!
Não muito longe da baía havia algumas pequenas cabanas, com luzes de vela brilhando através das janelas. Naturalmente, o menino correu naquela direção, mas percebeu que, muito antes de alcançar a cabana mais próxima, a raposa o alcançaria.
Certa vez, a raposa chegou tão perto que parecia que o menino certamente seria sua presa, mas Nils saltou depressa para o lado e voltou em direção à baía. Com esse movimento, a raposa perdeu tempo, e, antes que pudesse alcançar o menino, este já correra até dois homens que iam para casa depois do trabalho.
Os homens estavam cansados e sonolentos; não haviam notado nem o menino nem a raposa, embora ambos corressem bem diante deles. Tampouco o menino pediu ajuda aos homens; contentou-se em caminhar bem junto deles.
— Certamente a raposa não ousará aproximar-se dos homens — pensou.
Mas pouco depois a raposa veio trotando. Provavelmente contava que os homens a tomassem por um cão, pois foi diretamente até eles.
— De quem será esse cachorro que anda se esgueirando por aqui? — perguntou um. — Parece pronto para morder.
O outro parou e olhou para trás.
— Vai-te embora! — disse ele, e deu na raposa um pontapé que a lançou para o lado oposto da estrada. — Que estás fazendo aqui?
Depois disso, a raposa manteve-se a uma distância segura, mas continuou seguindo-os o tempo todo.
Pouco depois, os homens chegaram a uma cabana e entraram. O menino pretendia entrar com eles; mas, ao chegar ao patamar, viu um grande cão de guarda, peludo e desgrenhado, precipitar-se para fora da casota a fim de saudar o dono. De súbito, o menino mudou de ideia e ficou ao relento.
— Escuta, cão de guarda! — sussurrou o menino assim que os homens fecharam a porta. — Gostarias, por acaso, de ajudar-me a apanhar uma raposa esta noite?
O cão enxergava mal e se tornara irritadiço e rabugento por viver acorrentado.
— Eu, apanhar uma raposa? — latiu ele, furioso. — Quem és tu, que zombas de mim? Chega-te ao alcance das minhas patas e eu te ensinarei a não gracejar comigo!
— Não penses que tenho medo de me aproximar de ti! — disse o menino, correndo até o cão.
Quando o cão o viu, ficou tão espantado que não conseguiu falar.
— Sou aquele a quem chamam Polegarzinho, que viaja com os gansos selvagens — disse o menino, apresentando-se. — Nunca ouviste falar de mim?
— Creio que os pardais chilrearam alguma coisa a teu respeito — respondeu o cão. — Dizem que fizeste coisas maravilhosas para alguém do teu tamanho.
— Tenho tido bastante sorte até agora — admitiu o menino. — Mas agora tudo estará acabado para mim se não me ajudares! Há uma raposa no meu encalço. Está à minha espreita ali na esquina.
— Pensas que não consigo farejá-la? — retrucou o cão. — Mas logo nos veremos livres dela! — Com isso, o cão saltou até onde a corrente permitia, latindo e rosnando por muito tempo. — Agora não creio que ela torne a mostrar o focinho esta noite! — disse o cão.
— Será preciso algo além de um belo latido para assustar aquela raposa! — observou o menino. — Ela logo estará aqui de novo, e é exatamente isso que desejo, pois meti na cabeça que tu a apanharás.
— Estás zombando de mim agora? — perguntou o cão.
— Vem apenas comigo para dentro de tua casota, e eu te direi o que fazer.
O menino e o cão de guarda entraram rastejando na casota e ali se agacharam, sussurrando.
Daí a pouco, a raposa pôs o focinho para fora de seu esconderijo. Quando tudo ficou quieto, avançou cautelosamente. Farejou o menino por todo o caminho até a casota, mas deteve-se a uma distância segura e sentou-se para imaginar algum modo de atraí-lo para fora.
De súbito, o cão de guarda pôs a cabeça para fora e rosnou para ela:
— Vai-te embora, ou eu te apanho!
— Ficarei aqui quanto me aprouver, apesar de todos vós! — desafiou a raposa.
— Vai-te embora! — repetiu o cão, ameaçador —, ou depois desta noite não haverá mais caçadas para ti.
Mas a raposa apenas sorriu, sem se mover um dedo.
— Sei até onde tua corrente alcança — disse ela.
— Já te avisei duas vezes — disse o cão, saindo da casota. — Agora culpa a ti mesma!
Com isso, o cão saltou sobre a raposa e a agarrou sem o menor esforço, pois estava solto. O menino havia desafivelado sua coleira.
Houve uma luta ardente, mas logo terminou. O cão foi o vencedor. A raposa jazia no chão e não ousava mover-se.
— Não te mexas, ou eu te mato! — rosnou o cão. Então tomou a raposa pelo cangote e a arrastou até a casota. Ali o menino já estava pronto com a corrente. Colocou a coleira do cão ao redor do pescoço da raposa, apertando-a de modo que ela ficou seguramente acorrentada. Durante tudo isso, a raposa teve de permanecer quieta, pois tinha medo de se mover.
— Agora, Smirre Raposo, espero que sejas um bom cão de guarda — riu o menino quando terminou.
Sexta-feira, seis de maio.
Ninguém podia ser mais meiga e bondosa do que a pequena gansa cinzenta Dunfin. Todos os gansos selvagens a amavam, e o ganso-macho branco doméstico teria morrido por ela. Quando Dunfin pedia alguma coisa, nem mesmo Akka podia dizer não.
Assim que Dunfin chegou ao lago Mälar, a paisagem lhe pareceu familiar. Logo além do lago ficava o mar, com muitas ilhas arborizadas, e ali, numa pequena ilhota, viviam seus pais e seus irmãos e irmãs. Ela suplicou aos gansos selvagens que voassem até sua casa antes de seguirem viagem mais ao norte, para que pudesse deixar sua família ver que ainda estava viva. Isso lhes daria tamanha alegria.
Akka declarou francamente que, em sua opinião, os pais, irmãos e irmãs de Dunfin não haviam demonstrado grande amor por ela quando a abandonaram em Öland; mas Dunfin não admitia que Akka tivesse razão. — Que mais havia a fazer, quando viram que eu não podia voar? — protestou ela. — Certamente não poderiam permanecer em Öland por minha causa!
Dunfin começou a contar aos gansos selvagens tudo sobre sua casa no arquipélago, para tentar induzi-los a fazer a viagem. Sua família vivia numa ilha rochosa. Vista de longe, parecia não haver ali senão pedra; mas, quando alguém se aproximava, encontravam-se os mais escolhidos petiscos de ganso em fendas e cavidades, e seria preciso procurar muito para achar lugares de nidificação melhores do que aqueles escondidos nas rachaduras da montanha ou entre os salgueirais. Mas o melhor de tudo era o velho pescador que vivia ali. Dunfin ouvira dizer que, em sua juventude, ele fora um grande atirador e sempre ficava ao largo caçando aves. Mas agora, em sua velhice — desde que a esposa morrera e os filhos haviam deixado a casa, de modo que ele ficara sozinho na cabana —, começara a cuidar das aves de sua ilha. Nunca disparava um tiro contra elas, nem permitia que outros o fizessem. Andava entre os ninhos das aves e, quando as mães estavam chocando, levava-lhes comida. Nenhuma tinha medo dele. Todas o amavam.
Dunfin estivera muitas vezes em sua cabana, e ele a alimentara com migalhas de pão. Por ser bondoso com as aves, elas afluíam à sua ilha em tão grande número que ela estava ficando superlotada. Se alguém por acaso chegasse um pouco tarde na primavera, todos os lugares de nidificação já estavam ocupados. Foi por isso que a família de Dunfin fora obrigada a deixá-la.
Dunfin suplicou com tanta insistência que por fim conseguiu o que queria, embora os gansos selvagens sentissem que estavam perdendo tempo e que, na verdade, deveriam seguir diretamente para o norte. Mas uma pequena viagem como aquela até a ilha de penhascos não os atrasaria mais que um dia.
Assim, partiram certa manhã, depois de se fortalecerem com um bom desjejum, e voaram para leste sobre o lago Mälar. O menino não sabia ao certo para onde iam; mas notou que, quanto mais para leste voavam, mais movimento havia no lago e mais construídas estavam as margens.
Barcaças e chalupas pesadamente carregadas, barcos e pesqueiros seguiam para leste, e estes eram encontrados e ultrapassados por muitos bonitos vapores brancos. Ao longo das margens corriam estradas de campo e trilhos de ferro — todos na mesma direção. Havia algum lugar mais adiante, a leste, para onde todos desejavam ir pela manhã.
Numa das ilhas, o menino viu um grande castelo branco, e, a leste dele, as margens estavam salpicadas de vilas. A princípio, estas ficavam bem distantes umas das outras; depois se tornaram cada vez mais próximas, e, pouco depois, toda a margem estava ladeada por elas. Eram de toda variedade — aqui um castelo, ali uma cabana; depois aparecia um solar baixo, ou uma mansão, com muitas pequenas torres. Algumas erguiam-se em jardins, mas a maioria ficava nas matas bravas que bordejavam as margens. Apesar de tão diferentes entre si, tinham um ponto de semelhança: não eram simples e sombrias, como outros edifícios, mas pintadas vistosamente em verdes e azuis vivos, vermelhos e branco, como casinhas de brinquedo.
Enquanto o menino estava sentado no dorso do ganso e olhava para baixo, para as curiosas mansões da margem, Dunfin gritou de alegria:
— Agora sei onde estou! Ali adiante fica a Cidade que Flutua sobre a Água.
O menino olhou para a frente. A princípio, não viu senão algumas nuvens leves e névoas rolando sobre a água, mas logo avistou algumas torres altas, e depois uma casa e outra, com muitas fileiras de janelas. Apareciam e desapareciam — rolando de um lado para outro —, mas ele não via uma só faixa de margem! Tudo ali adiante parecia repousar sobre a água.
Mais perto da cidade, não viu mais bonitas casinhas de brinquedo ao longo das margens — apenas fábricas sombrias. Grandes montes de carvão e lenha estavam empilhados atrás de altas pranchas, e, junto a docas negras e fuliginosas, jaziam volumosos vapores de carga; mas sobre tudo se espalhava uma névoa cintilante e transparente, que fazia todas as coisas parecerem tão grandes, fortes e maravilhosas que eram quase belas.
Os gansos selvagens passaram voando por fábricas e vapores de carga e aproximavam-se das torres envoltas em nuvens. De súbito, todas as névoas desceram para a água, salvo as finas e flocosas que circulavam sobre suas cabeças, lindamente tingidas de azul e rosa. As outras nuvens rolavam sobre a água e a terra. Encobriam por completo as partes inferiores das casas; só os andares superiores, os telhados e os frontões eram visíveis. Alguns edifícios pareciam tão altos quanto a Torre de Babel. O menino sem dúvida sabia que estavam construídos sobre colinas e montanhas, mas estas ele não via — apenas as casas que pareciam flutuar entre as nuvens brancas e errantes. Na realidade, os edifícios eram escuros e sombrios, pois o sol, a leste, não brilhava sobre eles.
O menino sabia que cavalgava acima de uma grande cidade, pois via torres e telhados erguendo-se das nuvens em todas as direções. Às vezes abria-se uma clareira nas névoas circulantes, e ele olhava para baixo, para uma correnteza sinuosa e veloz; mas terra alguma conseguia ver. Tudo aquilo era belo de contemplar, mas ele se sentia bastante perturbado — como acontece quando alguém se depara com algo que não consegue compreender.
Quando passou além da cidade, descobriu que o chão já não estava escondido pelas nuvens, mas que margens, correntes e ilhas eram novamente bem visíveis. Voltou-se para ver melhor a cidade, mas não pôde, pois agora ela parecia inteiramente encantada. As névoas haviam tomado cor da luz do sol e rolavam adiante nos vermelhos, azuis e amarelos mais brilhantes. As casas eram brancas, como se construídas de luz, e as janelas e torres faiscavam como fogo. Todas as coisas flutuavam sobre a água como antes.
Os gansos viajavam diretamente para leste. Voaram sobre fábricas e oficinas; depois sobre mansões que orlavam as margens. Vapores e rebocadores fervilhavam sobre a água; mas agora vinham do leste e seguiam fumegando para oeste, rumo à cidade.
Os gansos selvagens continuaram a voar, mas, em vez dos estreitos fiordes de Mälar e das pequenas ilhas, águas mais amplas e ilhas maiores se estendiam sob eles. Por fim, a terra ficou para trás e não se viu mais.
Voaram ainda mais para fora, onde já não encontraram grandes ilhas habitadas — apenas inumeráveis ilhotas rochosas estavam espalhadas sobre a água. Agora os fiordes não eram comprimidos pela terra. O mar estendia-se diante deles, vasto e ilimitado.
Ali os gansos selvagens pousaram numa ilha de penhascos, e, assim que seus pés tocaram o chão, o menino voltou-se para Dunfin.
— Que cidade foi aquela sobre a qual acabamos de voar? — perguntou.
— Não sei que nome os seres humanos lhe deram — disse Dunfin. — Nós, gansos cinzentos, chamamo-la “a Cidade que Flutua sobre a Água”.
Dunfin tinha duas irmãs, Prettywing e Goldeye. Eram aves fortes e inteligentes, mas não tinham uma plumagem tão macia e brilhante quanto a de Dunfin, nem possuíam sua índole doce e meiga. Desde que eram pequenos gansinhos amarelos, seus pais e parentes, e até mesmo o velho pescador, haviam-lhes mostrado claramente que davam mais valor a Dunfin do que a elas. Por isso, as irmãs sempre a tinham odiado.
Quando os gansos selvagens pousaram na ilha de penhascos, Prettywing e Goldeye estavam se alimentando de um pouco de capim perto da praia, e logo avistaram os estrangeiros.
— Vê, irmã Goldeye, que belos gansos vieram à nossa ilha! — exclamou Prettywing. — Raramente vi aves tão graciosas. Reparaste que há entre eles um ganso-macho branco? Já puseste os olhos em ave mais formosa? Quase se poderia tomá-lo por um cisne!
Goldeye concordou com a irmã em que aqueles eram, sem dúvida, estrangeiros muito distintos que haviam chegado à ilha; mas de repente interrompeu-se e chamou:
— Irmã Prettywing! Oh, irmã Prettywing! Não vês quem eles trazem consigo?
Prettywing também avistou Dunfin e ficou tão assombrada que permaneceu longo tempo com o bico escancarado, apenas sibilando.
— Não é possível que seja ela! Como conseguiu meter-se com gente dessa classe? Ora, nós a deixamos em Öland para congelar e morrer de fome.
— O pior é que ela vai contar ao pai e à mãe que voamos tão perto dela que lhe deslocamos a asa — disse Goldeye. — Verás que isso acabará conosco expulsas da ilha!
— Só temos aborrecimentos à nossa espera, agora que essa pequena voltou! — resmungou Prettywing. — Ainda assim, creio que o melhor será parecermos tão contentes quanto possível com seu regresso. Ela é tão tola que talvez nem tenha percebido que a empurramos de propósito.
Enquanto Prettywing e Goldeye falavam nesse tom, os gansos selvagens haviam permanecido na praia, alisando as penas depois do voo. Agora marchavam em longa fila pela margem rochosa, até a fenda onde os pais de Dunfin costumavam pousar.
Os pais de Dunfin eram boa gente. Viviam na ilha havia mais tempo que todos os demais, e tinham por hábito aconselhar e ajudar todos os recém-chegados. Eles também tinham visto os gansos se aproximarem, mas não haviam reconhecido Dunfin no bando.
— É estranho ver gansos selvagens pousarem nesta ilha — observou o pai-ganso. — É um belo bando; percebe-se isso pelo voo.
— Mas não será fácil encontrar pasto para tantos — disse a mãe-gansa, que era meiga e doce de temperamento, como Dunfin.
Quando Akka chegou marchando com sua companhia, os pais de Dunfin saíram ao seu encontro para lhe dar as boas-vindas à ilha. Dunfin voou de seu lugar no fim da fila e pousou entre seus pais.
— Mãe e pai, finalmente estou aqui! — gritou ela, jubilosa. — Não conheceis Dunfin?
A princípio, os velhos pais-gansos não conseguiram compreender bem o que viam; mas, quando reconheceram Dunfin, ficaram absurdamente felizes, é claro.
Enquanto os gansos selvagens, Morten Ganso-Macho e Dunfin tagarelavam excitadamente, tentando contar como ela fora salva, Prettywing e Goldeye vieram correndo. Gritaram “bem-vinda” e fingiram estar tão felizes porque Dunfin voltara para casa que ela ficou profundamente comovida.
Os gansos selvagens passaram bem na ilha e decidiram não seguir viagem antes da manhã seguinte. Depois de algum tempo, as irmãs perguntaram a Dunfin se ela queria ir com elas ver os lugares onde pretendiam construir seus ninhos. Ela as acompanhou prontamente e viu que haviam escolhido lugares de nidificação retirados e bem protegidos.
— E agora, onde te estabelecerás, Dunfin? — perguntaram.
— Eu? Ora, não pretendo ficar na ilha — disse ela. — Vou com os gansos selvagens para a Lapônia.
— Que pena que precises deixar-nos! — disseram as irmãs.
— Eu teria ficado muito contente em permanecer aqui com pai e mãe e convosco — disse Dunfin —, se não tivesse prometido ao grande, branco...
— Quê! — guinchou Prettywing. — Vais ficar com o belo ganso-macho? Então é... — Mas aqui Goldeye deu-lhe uma cotovelada forte, e ela se calou de repente.
As duas irmãs cruéis tiveram muito de que falar durante toda a tarde. Estavam furiosas porque Dunfin tinha um pretendente como o ganso-macho branco. Elas próprias tinham pretendentes, mas os seus eram apenas gansos cinzentos comuns, e, depois de verem Morten Ganso-Macho, acharam-nos tão feios e malnascidos que nem sequer desejavam olhar para eles.
— Isto me fará morrer de desgosto! — choramingou Goldeye. — Se ao menos fosses tu, irmã Prettywing, quem o tivesse conquistado!
— Eu preferiria vê-lo morto a passar o verão inteiro por aqui pensando que Dunfin conquistou um ganso-macho branco! — fez beicinho Prettywing.
Contudo, as irmãs continuaram a parecer muito amistosas com Dunfin, e à tarde Goldeye levou Dunfin consigo, para que ela visse aquele com quem pensava casar-se.
— Ele não é tão atraente quanto aquele que terás — disse Goldeye. — Mas, em compensação, pode-se ter certeza de que ele é o que é.
— Que queres dizer, Goldeye? — perguntou Dunfin. A princípio, Goldeye não quis explicar o que quisera dizer, mas por fim o disse claramente.
— Nunca vimos um ganso branco viajar com gansos selvagens — disse a irmã —, e perguntamo-nos se ele não estará enfeitiçado.
— És muito tola — retrucou Dunfin, indignada. — Naturalmente, ele é um ganso doméstico.
— Ele traz consigo alguém que está enfeitiçado — disse Goldeye — e, nessas circunstâncias, ele também deve estar enfeitiçado. Não tens medo de que seja um corvo-marinho preto? — Ela falava bem e conseguiu assustar Dunfin por completo.
— Tu não estás falando sério — suplicou a pequena gansa cinzenta. — Queres apenas assustar-me!
— Quero o que é para o teu bem, Dunfin — disse Goldeye. — Não posso imaginar coisa pior do que ver-te voar para longe com um corvo-marinho preto! Mas agora te direi uma coisa: tenta persuadi-lo a comer algumas das raízes que colhi aqui. Se ele estiver enfeitiçado, isso se mostrará imediatamente. Se não estiver, permanecerá como é.
O menino estava sentado entre os gansos selvagens, escutando Akka e o velho pai-ganso, quando Dunfin veio voando até ele.
— Polegarzinho, Polegarzinho! — gritou ela. — Morten Ganso-Macho está morrendo! Eu o matei!
— Deixa-me subir em teu dorso, Dunfin, e leva-me até ele!
Lá se foram voando, e Akka e os outros gansos selvagens os seguiram. Quando chegaram ao ganso-macho, ele jazia estendido no chão. Não podia proferir palavra — apenas arquejava em busca de ar.
— Faz-lhe cócegas sob o papo e bate-lhe nas costas! — ordenou Akka. O menino assim fez, e pouco depois o grande ganso branco tossiu e expeliu uma grande raiz branca, que ficara presa em sua garganta.
— Estiveste comendo destas? — perguntou Akka, apontando para algumas raízes que jaziam no chão.
— Sim — gemeu o ganso-macho.
— Então foi bom que tenham ficado presas em tua garganta — disse Akka —, pois são venenosas. Se as tivesses engolido, certamente terias morrido.
— Dunfin mandou-me comê-las — disse o ganso-macho.
— Minha irmã as deu a mim — protestou Dunfin, e contou tudo.
— Deves acautelar-te contra essas tuas irmãs, Dunfin! — advertiu Akka. — Pois elas não te desejam bem, podes contar com isso!
Mas Dunfin era de tal natureza que não podia pensar mal de ninguém e, um momento depois, quando Prettywing lhe pediu que viesse conhecer seu pretendente, ela foi imediatamente com a irmã.
— Oh, ele não é tão belo quanto o teu — disse a irmã —, mas é muito mais corajoso e ousado!
— Como sabes que ele o é? — desafiou Dunfin.
— Há algum tempo tem havido pranto e lamentação entre as gaivotas e os patos selvagens da ilha. Todas as manhãs, ao romper do dia, uma estranha ave de rapina vem e leva um deles.
— Que espécie de ave é? — perguntou Dunfin.
— Não sabemos — respondeu a irmã. — Uma de sua espécie nunca foi vista antes na ilha e, coisa estranha, jamais atacou um de nós, gansos. Mas agora meu pretendente decidiu desafiá-la amanhã de manhã e expulsá-la.
— Oh, espero que ele consiga! — disse Dunfin.
— Mal creio que conseguirá — respondeu a irmã. — Se meu ganso-macho fosse tão grande e forte quanto o teu, eu teria esperança.
— Queres que eu peça a Morten Ganso-Macho que enfrente a ave estranha? — perguntou Dunfin.
— De fato, quero! — exclamou Prettywing, excitada. — Não poderias prestar-me serviço maior.
Na manhã seguinte, o ganso-macho levantou-se antes do sol. Postou-se no ponto mais alto da ilha e espreitou em todas as direções. Pouco depois viu uma grande ave escura vindo do oeste. Suas asas eram extraordinariamente grandes, e era fácil perceber que se tratava de uma águia. O ganso-macho não esperara adversário mais perigoso que uma coruja, e então compreendeu que não poderia escapar daquele encontro com vida. Mas não lhe ocorreu evitar uma luta com uma ave muitas vezes mais forte que ele.
A grande ave precipitou-se sobre uma gaivota e cravou-lhe as garras. Antes que a águia pudesse abrir as asas, Morten Ganso-Macho investiu contra ela.
— Solta isso! — gritou ele. — E não tornes a vir aqui, ou terás de haver-te comigo!
— Que espécie de louco és tu? — disse a águia. — É sorte tua que eu nunca lute com gansos, ou logo estarias liquidado!
Morten Ganso-Macho pensou que a águia se julgava boa demais para lutar com ele e lançou-se contra ela, enfurecido, mordendo-a na garganta e batendo-lhe com as asas. Isso, naturalmente, a águia não podia tolerar, e começou a lutar, embora não com toda a sua força.
O menino dormia no lugar onde Akka e os outros gansos selvagens repousavam, quando Dunfin chamou:
— Polegarzinho, Polegarzinho! Morten Ganso-Macho está sendo despedaçado por uma águia.
— Deixa-me subir em teu dorso, Dunfin, e leva-me até ele! — disse o menino.
Quando chegaram ao local, Morten Ganso-Macho estava muito dilacerado e sangrando, mas ainda lutava. O menino não podia combater a águia; tudo o que podia fazer era procurar ajuda mais eficaz.
— Depressa, Dunfin, vai chamar Akka e os gansos selvagens! — gritou ele. No instante em que disse isso, a águia recuou em voo e deixou de lutar.
— Quem está falando de Akka? — perguntou ele. Viu Polegarzinho e ouviu os gansos selvagens grasnando, de modo que abriu as asas.
— Dize a Akka que eu jamais esperava encontrá-la, nem a qualquer de seu bando, aqui fora, no mar! — disse ele, e elevou-se em voo rápido e gracioso.
— É exatamente a mesma águia que certa vez me trouxe de volta aos gansos selvagens — observou o menino, fitando a ave com assombro enquanto ela se afastava.
Os gansos haviam decidido deixar a ilha ao romper da aurora, mas antes queriam alimentar-se por algum tempo. Enquanto andavam de um lado para outro e beliscavam a comida, um pato montês aproximou-se de Dunfin.
— Tenho uma mensagem de tuas irmãs para ti — disse o pato. — Elas não ousam mostrar-se entre os gansos selvagens, mas pediram-me que te lembrasse de não deixar a ilha sem visitar o velho pescador.
— É verdade! — exclamou Dunfin. Mas agora estava tão assustada que não queria ir sozinha, e pediu ao ganso-macho e a Polegarzinho que a acompanhassem até a cabana.
A porta estava aberta, de modo que Dunfin entrou, mas os outros permaneceram do lado de fora. Depois de um momento, ouviram Akka dar o sinal de partida e chamaram Dunfin. Uma gansa cinzenta saiu e voou com os gansos selvagens para longe da ilha.
Já haviam percorrido boa distância ao longo do arquipélago quando o menino começou a estranhar a gansa que os acompanhava. Dunfin sempre voava leve e silenciosamente, mas esta batia as asas com golpes pesados e ruidosos. — Estamos em má companhia. É Prettywing quem nos segue!
Mal o menino pronunciara essas palavras, a gansa soltou um grito tão feio e furioso que todos souberam quem ela era. Akka e os outros voltaram-se para ela, mas a gansa cinzenta não fugiu imediatamente. Em vez disso, lançou-se contra o grande ganso-macho, arrebatou Polegarzinho e voou com ele no bico.
Houve uma perseguição selvagem sobre o arquipélago. Prettywing voava depressa, mas os gansos selvagens estavam logo atrás dela, e não havia possibilidade de escapar.
De repente, viram uma baforada de fumaça erguer-se do mar e ouviram uma explosão. Em sua excitação, não haviam notado que estavam exatamente sobre um barco no qual se achava sentado um pescador solitário.
Contudo, nenhum dos gansos foi ferido; mas ali mesmo, por cima do barco, Prettywing abriu o bico e deixou Polegarzinho cair no mar.
Há alguns anos, em Skansen — o grande parque logo nos arredores de Stockholm, onde reuniram tantas coisas maravilhosas — vivia um velhinho chamado Clement Larsson. Era de Hälsingland e viera para Skansen com sua rabeca, para tocar danças populares e outras melodias antigas. Como músico, apresentava-se sobretudo à noite. Durante o dia, seu trabalho era ficar de guarda numa das muitas e belas choupanas camponesas que haviam sido levadas para Skansen de todas as partes do país.
No princípio, Clement pensou que em sua velhice lhe coubera sorte melhor do que jamais ousara sonhar; mas, depois de algum tempo, começou a desgostar terrivelmente do lugar, sobretudo enquanto estava de vigia. Tudo ia muito bem quando os visitantes entravam na choupana para olhar ao redor; mas em certos dias Clement ficava sentado muitas horas completamente sozinho. Então sentia tanta saudade de casa que temia ser obrigado a deixar o emprego. Era muito pobre e sabia que, em sua terra, se tornaria um encargo para a paróquia. Por isso, tentava resistir o máximo que podia, embora se sentisse mais infeliz a cada dia.
Numa bela tarde do começo de maio, concederam a Clement algumas horas de licença. Ele descia pela colina íngreme que saía de Skansen, quando encontrou um pescador das ilhas vindo com sua bolsa de caça. O pescador era um jovem ativo que trazia para Skansen aves marinhas que conseguira capturar vivas. Clement já o encontrara muitas vezes.
O pescador deteve Clement para perguntar se o superintendente de Skansen estava em casa. Depois que Clement respondeu, perguntou, por sua vez, que coisa rara o pescador trazia na bolsa.
— Podes ver o que tenho — respondeu o pescador —, se em troca me deres uma ideia do que devo pedir por isso.
Abriu a bolsa, e Clement espiou para dentro uma vez — e outra —, depois recuou depressa um ou dois passos.
— Santo Deus, Ashbjörn! — exclamou. — Como apanhaste esse aí?
Recordou-se de que, quando era criança, sua mãe costumava falar do povo miúdo que vivia sob o assoalho da cabana. Ele não tinha permissão para chorar nem para ser travesso, a fim de não provocar aquelas pequenas criaturas. Depois de crescido, acreditara que sua mãe inventara tais histórias sobre os elfos para fazê-lo portar-se bem. Mas parecia que não fora invenção de sua mãe; pois ali, na bolsa de Ashbjörn, jazia um dos pequeninos.
Restava em Clement um pouco daquele terror natural da infância, e ele sentiu um calafrio correr-lhe pela espinha ao espiar dentro da bolsa. Ashbjörn viu que ele estava assustado e começou a rir; mas Clement levou a coisa a sério.
— Dize-me, Ashbjörn, onde o encontraste? — perguntou.
— Podes ter certeza de que eu não estava à espreita dele! — disse Ashbjörn. — Foi ele que veio até mim. Saí cedo esta manhã e levei a espingarda no barco. Mal me havia afastado da margem com a vara, quando avistei alguns gansos selvagens vindo do leste, gritando como loucos. Disparei contra eles, mas não acertei nenhum. Em vez disso, esta criatura despencou na água — tão perto do barco que só precisei estender a mão e apanhá-la.
— Espero que não tenhas atirado nele, Ashbjörn?
— Oh, não! Está são e salvo; mas, quando caiu, ficou meio aturdido no começo, de modo que aproveitei a ocasião para enrolar as pontas de dois fios de vela em torno de seus tornozelos e pulsos, para que não pudesse fugir. “Ah! Eis aqui alguma coisa para Skansen”, pensei no mesmo instante.
Clement ficou estranhamente perturbado enquanto o pescador falava. Tudo o que ouvira na infância sobre o povo miúdo — sobre sua vingança contra os inimigos e sua benevolência para com os amigos — voltou-lhe à memória. Nunca acabara bem para aqueles que haviam tentado manter um deles em cativeiro.
— Devias tê-lo soltado imediatamente, Ashbjörn — disse Clement.
— Cheguei bem perto de ser forçado a libertá-lo — respondeu o pescador. — Podes muito bem saber, Clement, que os gansos selvagens me seguiram por todo o caminho até em casa, e cruzaram a ilha de um lado para outro durante a manhã inteira, grasnando, grasnando, como se o quisessem de volta. Não só eles, mas a população inteira — gaivotas, andorinhas-do-mar e muitas outras que não valem um tiro de pólvora — pousou na ilha e fez uma algazarra medonha. Quando saí, esvoaçaram ao meu redor até que tive de voltar. Minha mulher suplicou-me que o deixasse partir, mas eu metera na cabeça que ele viria para Skansen; por isso coloquei uma das bonecas das crianças na janela, escondi o anãozinho no fundo da bolsa e parti. As aves devem ter imaginado que era ele quem estava parado à janela, pois me permitiram ir embora sem me perseguir.
— Ele fala alguma coisa? — perguntou Clement.
— Sim. A princípio tentou chamar as aves, mas não permiti e pus-lhe uma mordaça na boca.
— Oh, Ashbjörn! — protestou Clement. — Como podes tratá-lo assim! Não vês que ele é algo sobrenatural?
— Não sei o que ele é — disse Ashbjörn calmamente. — Que outros pensem nisso. Fico satisfeito se conseguir uma boa soma por ele. Agora dize-me, Clement, quanto achas que o doutor de Skansen me dará.
Houve uma longa pausa antes que Clement respondesse. Sentia muita pena do pobre pequenino. Chegou mesmo a imaginar que sua mãe estava ao seu lado, dizendo-lhe que devia sempre ser bondoso com o povo miúdo.
— Não faço ideia do que o doutor lá de cima gostaria de te dar, Ashbjörn — disse por fim. — Mas, se o deixares comigo, pagarei vinte coroas por ele.
Ashbjörn encarou o violinista com assombro ao ouvi-lo nomear soma tão grande. Pensou que Clement acreditava que o anãozinho possuísse algum poder misterioso e talvez lhe pudesse ser útil. Não tinha certeza alguma de que o doutor o julgasse achado tão extraordinário, ou se oferecesse para pagar soma tão alta por ele; por isso aceitou a proposta de Clement.
O violinista enfiou sua compra num dos bolsos largos, voltou para Skansen e entrou numa cabana coberta de musgo, onde não havia nem visitantes nem guardas. Fechou a porta atrás de si, tirou o anãozinho, que ainda estava atado de pés e mãos e amordaçado, e deitou-o suavemente sobre um banco.
— Agora escuta o que digo! — disse Clement. — Sei, naturalmente, que criaturas como tu não gostam de ser vistas pelos homens, mas preferem andar por aí e ocupar-se à sua própria maneira. Portanto, decidi dar-te a liberdade — mas apenas com a condição de que permaneças neste parque até que eu te permita partir. Se concordas com isso, acena três vezes com a cabeça.
Clement fitou o anãozinho com confiante expectativa, mas este não moveu um músculo.
— Não passarás mal — continuou Clement. — Cuidarei para que sejas alimentado todos os dias, e terás tanto que fazer aqui que o tempo não te parecerá longo. Mas não deves ir a outro lugar até que eu te dê licença. Agora combinaremos um sinal. Enquanto eu puser tua comida numa tigela branca, deves ficar. Quando eu a puser numa azul, poderás ir.
Clement fez nova pausa, esperando que o anãozinho desse o sinal de aprovação, mas ele não se mexeu.
— Muito bem — disse Clement —, então não há escolha senão mostrar-te ao senhor deste lugar. Nesse caso, serás posto numa caixa de vidro, e toda a gente da grande cidade de Stockholm virá olhar para ti.
Isso assustou o anãozinho, e ele prontamente deu o sinal.
— Assim está certo — disse Clement, enquanto cortava a corda que prendia as mãos do anãozinho. Depois se apressou para a porta.
O menino soltou as amarras em torno dos tornozelos e arrancou a mordaça antes de pensar em qualquer outra coisa. Quando se voltou para agradecer a Clement, este já se fora.
Logo à porta, Clement encontrou um senhor belo e de aparência nobre, que se dirigia a um lugar ali perto de onde havia uma bela vista. Clement não se lembrava de já ter visto antes o majestoso velho, mas este certamente devia ter reparado em Clement alguma vez enquanto tocava rabeca, pois parou e falou com ele.
— Bom dia, Clement! — disse. — Como vai? Não estás doente, estás? Creio que andaste ficando um pouco magro ultimamente.
Havia no velho cavalheiro tal expressão de bondade que Clement criou coragem e lhe contou sua saudade de casa.
— O quê! — exclamou o velho cavalheiro. — Tens saudade de casa estando em Stockholm? Não é possível! — Pareceu quase ofendido. Depois refletiu que falava apenas com um velho camponês ignorante de Hälsingland — e então retomou sua atitude amistosa.
— Certamente nunca ouviste contar como foi fundada a cidade de Stockholm. Se tivesses ouvido, compreenderias que tua ansiedade de partir não passa de uma fantasia tola. Vem comigo até aquele banco ali adiante, e eu te contarei alguma coisa sobre Stockholm.
Quando o velho cavalheiro se sentou no banco, lançou o olhar para baixo, sobre a cidade, que se estendia em toda a sua glória abaixo dele, e respirou fundo, como se quisesse beber toda a beleza da paisagem. Em seguida, voltou-se para o violinista.
— Olha, Clement! — disse ele, e, enquanto falava, traçou com a bengala um pequeno mapa na areia diante deles. — Aqui fica Uppland, e aqui, ao sul, avança uma ponta de terra, recortada por numerosas baías. E aqui temos Sörmland, com outra ponta de terra, igualmente recortada, que se dirige em linha reta para o norte. Aqui, do oeste, vem um lago cheio de ilhas: é o lago Mälar. Do leste vem outra massa de água, que mal consegue espremer-se entre as ilhas e ilhotas. É o Mar do Leste. Aqui, Clement, onde Uppland se une a Sörmland e Mälaren se une ao Mar do Leste, corre um rio curto, no centro do qual jazem quatro pequenas ilhotas que dividem o rio em vários braços — um dos quais se chama Norrström, mas outrora se chamava Stocksund.
— No princípio, essas ilhotas eram simples ilhas arborizadas, como ainda hoje se encontram em abundância no lago Mälar, e durante eras permaneceram inteiramente desabitadas. Estavam bem situadas entre duas massas de água e duas porções de terra; mas ninguém reparava nisso. Ano após ano se passou; povoou-se o lago Mälar e o arquipélago, mas essas ilhas do rio não atraíam moradores. Às vezes acontecia que algum homem do mar entrasse no porto de uma delas e ali armasse sua tenda para a noite; mas ninguém permanecia ali por muito tempo.
— Certo dia, um pescador que vivia na ilha de Liding, lá no Fiorde Salgado, dirigiu seu barco para o lago Mälar, onde teve tanta sorte na pescaria que se esqueceu de voltar para casa a tempo. Não conseguiu ir além das quatro ilhotas, e o melhor que pôde fazer foi desembarcar numa delas e esperar até mais tarde da noite, quando haveria claro luar.
— Era fim de verão, e fazia calor. O pescador puxou o barco para terra, deitou-se ao lado dele, com a cabeça apoiada numa pedra, e adormeceu. Quando despertou, a lua já estava alta havia muito tempo. Pairava bem sobre ele e brilhava com tal esplendor que parecia pleno dia.
— O homem pôs-se de pé de um salto e ia empurrar o barco para a água, quando viu uma porção de pontinhos negros movendo-se na correnteza. Um bando de focas seguia a toda velocidade para a ilha. Ao ver que pretendiam rastejar para terra, o pescador inclinou-se para pegar sua lança, que sempre levava consigo no barco. Mas, quando se endireitou, não viu focas. Em vez disso, estavam na praia as mais belas donzelas, vestidas de verde, com longas túnicas de cetim arrastando-se atrás delas, e coroas de pérolas sobre a cabeça. O pescador compreendeu que eram sereias que viviam em ilhas rochosas desertas, muito longe no mar, e que haviam assumido disfarces de foca para subir à terra e gozar o luar nas ilhotas verdes.
— Pousou a lança com muita cautela e, quando as jovens donzelas subiram à ilha para brincar, esgueirou-se por trás delas e as observou. Ouvira dizer que as ninfas do mar eram tão belas e fascinantes que ninguém podia vê-las sem ficar encantado por seus encantos; e teve de admitir que isso não era exagero.
— Depois de permanecer algum tempo sob a sombra das árvores, contemplando a dança, desceu à praia, tomou uma das peles de foca que ali jaziam e escondeu-a debaixo de uma pedra. Depois voltou para seu barco, deitou-se ao lado dele e fingiu dormir.
— Pouco depois, viu as donzelas descerem saltitantes à praia para vestir suas peles de foca. A princípio houve só brincadeiras e risos, que se transformaram em pranto e lamentação quando uma das sereias não conseguiu encontrar sua veste de foca. Suas companheiras correram de um lado para outro pela praia e a ajudaram a procurá-la, mas não puderam encontrar sinal algum dela. Enquanto procuravam, perceberam que o céu empalidecia e o dia nascia; portanto não podiam demorar mais, e todas nadaram para longe, deixando para trás aquela cuja pele de foca desaparecera. Ela sentou-se na praia e chorou.
— O pescador sentiu pena dela, naturalmente, mas obrigou-se a permanecer imóvel até romper o dia. Então se levantou, empurrou o barco para a água e entrou nele, para fazer parecer que a vira por acaso depois de erguer os remos.
— “Quem és tu?” — gritou. — “Sofreste naufrágio?”
— Ela correu até ele e perguntou se ele vira sua pele de foca. O pescador fez cara de quem não sabia do que ela falava. Ela sentou-se outra vez e chorou. Então ele resolveu levá-la consigo no barco. “Vem comigo até minha cabana”, ordenou, “e minha mãe cuidará de ti. Não podes ficar aqui na ilha, onde não tens alimento nem abrigo!” Falou com tanta convicção que ela se deixou persuadir a entrar em seu barco.
— Tanto o pescador como sua mãe foram muito bondosos com a pobre sereia, e ela parecia feliz com eles. Tornou-se mais contente a cada dia, ajudava a velha em seus trabalhos e era exatamente como qualquer outra moça das ilhas — apenas era muito mais bonita. Um dia, o pescador perguntou se ela queria ser sua esposa, e ela não se opôs, mas disse logo que sim.
— Fizeram-se os preparativos para o casamento. A sereia vestiu-se de noiva com sua túnica verde e comprida e com a cintilante coroa de pérolas que usava quando o pescador a vira pela primeira vez. Não havia igreja nem pastor na ilha naquele tempo, de modo que a comitiva nupcial se acomodou nos barcos para remar até a primeira igreja que encontrassem.
— O pescador levava a sereia e sua mãe em seu barco, e remava tão bem que ia muito à frente de todos os demais. Quando avançou o bastante para avistar a ilhota no rio onde conquistara sua noiva, não pôde deixar de sorrir.
— “De que estás sorrindo?” — perguntou ela.
— “Oh, estou pensando naquela noite em que escondi tua pele de foca” — respondeu o pescador, pois se sentia tão seguro dela que julgava já não haver necessidade de ocultar-lhe coisa alguma.
— “Que estás dizendo?” — perguntou a noiva, espantada. — “Certamente jamais possuí uma pele de foca!” Parecia que ela se esquecera de tudo.
— “Não te lembras de como dançavas com as sereias?” — perguntou ele.
— “Não sei o que queres dizer” — disse a noiva. — “Creio que deves ter sonhado um sonho estranho esta noite.”
— “Se eu te mostrar tua pele de foca, provavelmente acreditarás em mim!” — riu o pescador, virando prontamente o barco para a ilhota. Desembarcaram, e ele tirou a pele de foca de debaixo da pedra onde a havia escondido.
— Mas, no instante em que a noiva pôs os olhos na pele de foca, agarrou-a e puxou-a sobre a cabeça. Ela se ajustou estreitamente ao seu corpo — como se houvesse vida nela —, e imediatamente a moça se lançou na correnteza.
— O noivo a viu nadar para longe e mergulhou na água atrás dela; mas não conseguiu alcançá-la. Quando viu que não podia detê-la de outro modo, em sua dor agarrou a lança e a arremessou. Acertou melhor do que pretendia, pois a pobre sereia soltou um grito lancinante e desapareceu nas profundezas.
— O pescador ficou na praia, esperando que ela aparecesse de novo. Observou que a água ao seu redor começava a adquirir um suave fulgor, uma beleza que ele nunca vira antes. Cintilava em rosa e branco, como o jogo de cores no interior das conchas marinhas.
— À medida que a água reluzente lambia as margens, o pescador pensou que também elas se transformavam. Começaram a florescer e a exalar seus perfumes. Um brilho suave espalhou-se sobre elas, e também assumiram uma beleza que jamais possuíram antes.
— Ele compreendeu como tudo aquilo acontecera. Pois assim se dá com as sereias: quem as contempla deve necessariamente achá-las mais belas que qualquer outra criatura, e, misturando-se o sangue da sereia à água que banhava as margens, sua beleza foi transferida para ambas. Todos os que as vissem deveriam amá-las e suspirar por elas. Esse foi o legado da sereia.
Quando o majestoso velho cavalheiro chegou a esse ponto da narrativa, voltou-se para Clement e olhou para ele. Clement inclinou a cabeça com reverência, mas não fez comentário, pois não queria interromper a história.
— Agora deves guardar isto na memória, Clement — continuou o velho cavalheiro, com um brilho malicioso nos olhos. — Daquele tempo em diante, as pessoas emigraram para as ilhas. A princípio estabeleceram-se ali apenas pescadores e camponeses, mas outros também foram atraídos para elas. Certo dia, o rei e seu conde subiram o rio em seus navios. Começaram logo a falar dessas ilhas, tendo observado que estavam situadas de tal modo que toda embarcação que navegasse rumo ao lago Mälar tinha de passar por elas. O conde sugeriu que se devia pôr uma fechadura no canal, que pudesse ser aberta ou fechada à vontade, para deixar entrar navios mercantes e excluir piratas.
— Essa ideia foi posta em prática — disse o velho cavalheiro, erguendo-se e tornando a traçar na areia com sua bengala. — Na maior dessas ilhas, o conde ergueu uma fortaleza com uma torre forte, chamada “Kärnan”. E ao redor da ilha construiu-se uma muralha. Aqui, nas extremidades norte e sul da muralha, fizeram portões e colocaram sobre eles torres robustas. Através das outras ilhas construíram pontes; estas foram igualmente providas de altas torres. Na água, ao redor, puseram uma coroa de estacas com barras que podiam abrir e fechar, de modo que nenhuma embarcação passasse sem permissão.
— Portanto, vês, Clement, que as quatro ilhas que por tanto tempo haviam jazido despercebidas logo ficaram poderosamente fortificadas. Mas isso não foi tudo, pois as margens e o estreito atraíam as pessoas, e em pouco tempo vieram de todos os lados para se estabelecer ali. Construíram uma igreja, que desde então se chamou “Storkyrkan”. Aqui ela se ergue, perto do castelo. E aqui, dentro das muralhas, ficavam as pequenas cabanas que os pioneiros construíram para si. Eram primitivas, mas serviam ao seu propósito. Não era preciso mais, naquele tempo, para que o lugar passasse por cidade. E a cidade recebeu o nome de Stockholm.
— Chegou um dia, Clement, em que o conde que havia começado a obra foi para seu repouso final, e Stockholm ficou sem mestre construtor. Monges chamados Frades Cinzentos vieram para o país. Stockholm os atraiu. Pediram permissão para erguer ali um mosteiro, e o rei lhes deu uma ilha — uma das menores —, esta voltada para o lago Mälar. Ali construíram, e o lugar foi chamado Ilha dos Frades Cinzentos. Vieram outros monges, chamados Frades Negros. Também eles pediram o direito de construir em Stockholm, perto do portão sul. Nesta, a maior das ilhas ao norte da cidade, foi construída uma “Casa do Espírito Santo”, ou hospital; ao passo que, na menor, homens industriosos ergueram um moinho, e ao longo das pequenas ilhas próximas os monges pescavam. Como sabes, agora há apenas uma ilha, pois o canal entre as duas se encheu; mas ela ainda se chama Ilha do Espírito Santo.
— E agora, Clement, todas as pequenas ilhas arborizadas estavam salpicadas de casas, mas as pessoas continuavam a afluir; pois estas margens e estas águas têm o poder de atraí-las. Para cá vieram mulheres piedosas da Ordem de Santa Clara e pediram terreno para construir. Para elas não houve escolha senão estabelecer-se na margem norte, em Norrmalm, como é chamada. Podes estar certo de que não ficaram demasiado satisfeitas com essa localização, pois através de Norrmalm corria uma alta crista, e nela a cidade tinha seu monte da forca, de modo que era um lugar detestado. Apesar disso, as Clarissas ergueram sua igreja e seu convento na praia abaixo da crista. Depois que se estabeleceram ali, logo encontraram muitos seguidores. Sobre a própria crista foram construídos um hospital e uma igreja, consagrados a São Göran, e logo abaixo da crista ergueu-se uma igreja dedicada a São Jacob.
— E até em Södermalm, onde a montanha se ergue perpendicularmente desde a praia, começaram a construir. Ali ergueram uma igreja a Santa Maria.
— Mas não deves pensar que somente gente de claustro se mudou para Stockholm! Havia também muitos outros — principalmente mercadores e artesãos alemães. Estes eram mais hábeis que os suecos e foram bem recebidos. Estabeleceram-se dentro das muralhas da cidade, onde derrubaram as miseráveis cabaninhas que ali se erguiam e construíram altas e magníficas casas de pedra. Mas o espaço não era abundante dentro dos muros; por isso tiveram de construir as casas muito próximas umas das outras, com os frontões voltados para as ruelas estreitas. Assim vês, Clement, que Stockholm sabia atrair as pessoas!
Nesse ponto da narrativa, apareceu outro cavalheiro, que desceu rapidamente pelo caminho em direção ao homem que falava com Clement; mas este fez um gesto com a mão, e o outro permaneceu à distância. O velho cavalheiro digno continuou sentado no banco ao lado do violinista.
— Agora, Clement, deves prestar-me um serviço — disse ele. — Não tenho tempo para falar mais contigo, mas hei de enviar-te um livro sobre Stockholm, e deverás lê-lo de capa a capa. De certo modo, lancei para ti os alicerces de Stockholm. Estuda o restante por tua conta e aprende como a cidade prosperou e mudou. Lê como a pequena cidade estreita, cercada por muralhas, nas ilhas, se espalhou até se tornar este grande mar de casas abaixo de nós. Lê como, no lugar onde outrora se erguia a torre escura de Kärnan, foi erguido o belo e claro castelo abaixo de nós, e como a igreja dos Frades Cinzentos se transformou no sepulcro dos reis suecos; lê como ilhota após ilhota foi ocupada por fábricas; como a crista foi rebaixada e o estreito aterrado; como as hortas nas extremidades sul e norte da cidade foram convertidas em belos parques ou bairros edificados; como o parque particular de cervos do Rei se tornou o passeio favorito do povo. Deves sentir-te em casa aqui, Clement. Esta cidade não pertence exclusivamente aos stockholmeses. Pertence a ti e a todos os suecos.
— Quando leres sobre Stockholm, lembra-te de que falei a verdade, pois a cidade tem o poder de atrair todos a si. Primeiro o Rei se mudou para cá, depois os nobres construíram aqui seus palácios, e então um após outro foi atraído para este lugar, de modo que agora, como vês, Stockholm não é uma cidade apenas para si mesma ou para os distritos vizinhos; cresceu até tornar-se uma cidade para todo o reino.
— Tu sabes, Clement, que há tribunais judiciais em cada paróquia por todo o país, mas em Stockholm eles têm jurisdição sobre toda a nação. Sabes que há juízes em cada tribunal distrital do país, mas em Stockholm há um só tribunal ao qual todos os outros prestam contas. Sabes que há quartéis e tropas em todas as partes da terra, mas os de Stockholm comandam todo o exército. Por toda parte no país encontrarás estradas de ferro, mas todo o grande sistema nacional é controlado e administrado em Stockholm; aqui encontrarás os conselhos governantes do clero, dos professores, dos médicos, dos meirinhos e dos jurados. Este é o coração de teu país, Clement. Toda a moeda trocada que levas no bolso é cunhada aqui, e os selos postais que colas em tuas cartas são feitos aqui. Há aqui alguma coisa para cada sueco. Aqui ninguém precisa sentir saudade de casa, pois aqui todos os suecos estão em casa.
— E, quando leres tudo o que foi trazido aqui para Stockholm, pensa também no que há de mais recente que a cidade atraiu para si: estas antigas cabanas camponesas aqui em Skansen; as velhas danças; os antigos trajes e móveis domésticos; os músicos e os contadores de histórias. Tudo o que havia de bom nos velhos tempos Stockholm seduziu para cá, para Skansen, a fim de honrá-lo, para que, por sua vez, possa apresentar-se diante do povo com glória renovada.
— Mas, antes de tudo e por fim, lembra-te, enquanto leres sobre Stockholm, de que deves sentar-te neste lugar. Deves ver como as ondas cintilam em brincadeira alegre e como as margens resplandecem de beleza. Cairás sob o encanto de sua feitiçaria, Clement.
O belo velho cavalheiro havia erguido a voz, de modo que ela soava forte e imperiosa, e seus olhos brilhavam. Depois se levantou e, com um aceno de mão a Clement, afastou-se. Clement compreendeu que aquele que lhe falara era um grande homem, e inclinou-se diante dele tão baixo quanto pôde.
No dia seguinte, veio um lacaio real com um grande livro vermelho e uma carta para Clement, e na carta dizia-se que o livro vinha do Rei.
Depois disso, o pequeno velho Clement Larsson ficou atordoado por vários dias, e era impossível arrancar dele uma palavra sensata. Quando uma semana se passou, foi até o superintendente e apresentou seu aviso de saída. Simplesmente precisava voltar para casa.
— Por que precisas voltar para casa? Não podes aprender a contentar-te aqui? — perguntou o doutor.
— Oh, estou contente aqui — disse Clement. — Esse assunto já não me perturba, mas, ainda assim, preciso voltar para casa.
Clement estava bastante perturbado porque o Rei dissera que ele devia aprender tudo sobre Stockholm e ser feliz ali. Mas não conseguia descansar enquanto não contasse a todos em sua terra que o Rei lhe havia dito aquelas palavras. Não podia renunciar à ideia de ficar no outeiro da igreja, em casa, e contar a grandes e pequenos que o Rei fora tão bondoso com ele, que se sentara ao seu lado no banco, que lhe enviara um livro e tomara tempo para conversar com ele — um pobre violinista — durante uma hora inteira, a fim de curá-lo de sua saudade de casa. Era bom relatar isso aos lapões e às camponesas da Dalecarlia em Skansen, mas que era isso comparado a poder contá-lo em casa?
Mesmo que Clement acabasse no asilo dos pobres, isso não seria tão duro depois daquilo. Era um homem completamente diferente do que fora, e seria respeitado e honrado de modo muito diverso.
Essa nova ânsia tomou posse de Clement. Simplesmente precisava subir até o doutor e dizer que tinha de voltar para casa.
Muito acima, entre as montanhas da Lapônia, havia um velho ninho de águia numa saliência que se projetava de um alto penhasco. O ninho era feito de galhos secos de pinheiro e abeto, entrelaçados uns aos outros até formarem uma perfeita rede. Ano após ano o ninho fora reparado e reforçado. Tinha cerca de dois metros de largura, e quase a altura de uma cabana lapã.
O penhasco em que se situava o ninho da águia elevava-se acima de um grande vale, habitado no verão por um bando de gansos selvagens, pois era para eles um excelente refúgio. Ficava tão isolado entre rochedos que poucos o conheciam, mesmo entre os próprios lapões.
No coração desse vale havia um pequeno lago redondo, no qual abundava alimento para os minúsculos gansinhos, e nas margens tufadas do lago, cobertas de salgueiros e bétulas anãs, os gansos encontravam ótimos lugares para nidificar.
Em todas as eras, águias haviam vivido na montanha, e gansos no vale. Todos os anos, as primeiras arrebatavam alguns dos segundos, mas tinham muito cuidado para não apanhar tantos que os gansos selvagens tivessem medo de permanecer no vale. Os gansos, por sua vez, achavam as águias bastante úteis. Eram ladrões, sem dúvida, mas mantinham afastados outros ladrões.
Dois anos antes de Nils Holgersson viajar com os gansos selvagens, a velha gansa-chefe, Akka de Kebnekaise, estava de pé ao pé da encosta da montanha, olhando para o ninho da águia.
As águias tinham o hábito de partir para a caça logo depois do nascer do sol; durante os verões em que Akka vivera no vale, ela vigiara todas as manhãs sua partida, para descobrir se paravam no vale para caçar ou se voavam para além dele, rumo a outros campos de caça.
Não precisou esperar muito até que as duas águias deixassem a saliência do penhasco. Imponentes e terríveis, elevaram-se no ar. Dirigiram seu rumo para a planície, e Akka respirou aliviada.
Os dias de nidificação e criação de filhotes da velha gansa-chefe haviam terminado, e durante o verão ela passava o tempo indo de um território de gansos a outro, dando conselhos sobre a incubação e o cuidado dos pequenos. Além disso, mantinha os olhos atentos não apenas às águias, mas também à raposa-das-montanhas, às corujas e a todos os demais inimigos que eram ameaça aos gansos selvagens e a seus filhotes.
Por volta do meio-dia, Akka começou novamente a vigiar as águias. Fizera isso todos os dias durante todos os verões em que vivera no vale. Podia saber imediatamente, pelo voo delas, se a caçada fora bem-sucedida, e nesse caso sentia-se aliviada quanto à segurança daqueles que lhe pertenciam. Mas naquele dia em particular não vira as águias voltarem. “Devo estar ficando velha e estúpida”, pensou, depois de esperar algum tempo por elas. “As águias provavelmente já estão em casa há muito.”
À tarde, ela olhou outra vez para o penhasco, esperando ver as águias pousadas na saliência rochosa onde costumavam tomar seu descanso vespertino; ao cair da noite, quando elas tomavam banho no lago do vale, tentou novamente avistá-las, mas sem êxito. Mais uma vez lamentou o fato de estar envelhecendo. Estava tão habituada a ter as águias na montanha acima dela que não podia imaginar a possibilidade de não terem regressado.
Na manhã seguinte, Akka despertou em boa hora para vigiar as águias; mas não as viu. Em compensação, ouviu, no silêncio da manhã, um grito que soava ao mesmo tempo colérico e lastimoso, e parecia vir do ninho das águias. “Será possível que algo esteja mal com as águias?”, perguntou-se. Abriu depressa as asas e subiu tão alto que pôde perfeitamente olhar para dentro do ninho.
Ali não viu nenhuma das águias. Não havia ninguém no ninho senão uma pequena aguiazinha meio emplumada, que gritava por comida.
Akka desceu em direção ao ninho das águias, devagar e relutante. Era um lugar horrendo de se aproximar! Via-se claramente que espécie de gente ladra vivia ali! No ninho e na saliência do penhasco jaziam ossos descorados, penas ensanguentadas, pedaços de pele, cabeças de lebres, bicos de aves e as garras tufadas de tetrazes. A aguiazinha, deitada no meio de tudo aquilo, era repulsiva de se ver, com o grande bico escancarado, o corpo desajeitado coberto de penugem e as asas ainda não formadas, onde as futuras penas se eriçavam como espinhos.
Por fim, Akka venceu sua repugnância e pousou na beira do ninho, olhando ao mesmo tempo, ansiosa, em todas as direções, pois a cada segundo esperava ver as velhas águias regressarem.
— É bom que alguém tenha vindo enfim — gritou a pequena águia. — Busca-me comida imediatamente!
— Bem, bem, não tenhas tanta pressa — disse Akka. — Primeiro me conta onde estão teu pai e tua mãe.
— Isso é o que eu mesmo gostaria de saber. Foram embora ontem de manhã e me deixaram um lêmingue para eu viver enquanto estivessem fora. Podes acreditar que ele foi comido há muito tempo. É uma vergonha mamãe me deixar morrer de fome deste jeito!
Akka começou a pensar que as águias haviam sido realmente abatidas, e raciocinou que, se deixasse a aguiazinha morrer de fome, talvez se livrasse para sempre de toda aquela tribo de salteadores. Mas repugnava-lhe muito não socorrer, até onde pudesse, um filhote abandonado.
— Por que ficas aí sentada, olhando? — ralhou a aguiazinha. — Não me ouviste dizer que quero comida?
Akka abriu as asas e desceu até o pequeno lago no vale. Um momento depois voltou ao ninho das águias trazendo uma truta-salmão no bico.
A aguiazinha teve um acesso de cólera quando ela deixou cair o peixe diante dele.
— Pensas que posso comer uma coisa dessas? — guinchou, empurrando-o para o lado e tentando golpear Akka com o bico. — Busca-me um tetraz-dos-salgueiros ou um lêmingue, estás ouvindo?
Akka estendeu a cabeça e deu na aguiazinha uma beliscada forte no pescoço.
— Deixa-me dizer-te uma coisa — observou a velha gansa. — Se sou eu quem há de conseguir alimento para ti, deves contentar-te com o que eu te der. Teu pai e tua mãe estão mortos, e deles não podes receber auxílio algum; mas, se queres ficar aí deitado e morrer de fome enquanto esperas por tetrazes e lêmingues, não te impedirei.
Depois de dizer o que pensava, Akka retirou-se imediatamente e não voltou a mostrar o rosto no ninho das águias por algum tempo. Mas, quando regressou, a aguiazinha havia comido o peixe; e, quando ela deixou cair outro diante dele, ele o engoliu de imediato, embora fosse claro que o achava muito desagradável.
Akka impusera a si mesma uma tarefa fastidiosa. As velhas águias nunca mais apareceram, e só ela tinha de obter para a aguiazinha todo o alimento de que ele precisava. Dava-lhe peixes e rãs, e ele não parecia passar mal com essa dieta, mas crescia grande e forte. Logo esqueceu seus pais, as águias, e imaginou que Akka fosse sua verdadeira mãe. Akka, por sua vez, amava-o como se fosse seu próprio filho. Procurava dar-lhe boa criação e curá-lo de sua selvageria e de seus modos soberbos.
Depois de uma quinzena, Akka observou que se aproximava o tempo de mudar as penas e vestir nova plumagem, a fim de estar pronta para voar. Durante uma lua inteira não poderia levar comida à pequena águia, e ele talvez morresse de fome.
Assim, Akka lhe disse certo dia:
— Gorgo, não posso mais vir trazer-te peixes. Tudo depende agora de tua coragem; isto é, se ousas aventurar-te a descer ao vale, para que eu possa continuar a conseguir comida para ti. Deves escolher entre morrer de fome e voar para baixo, até o vale; mas isso também pode custar-te a vida.
Sem hesitar um só segundo, a aguiazinha subiu à beira do ninho. Mal se deu ao trabalho de medir a distância até o fundo; abriu as pequenas asas e lançou-se. Rolou e tornou a rolar no espaço, mas, ainda assim, serviu-se bastante das asas para alcançar o chão quase ileso.
Lá embaixo, no vale, Gorgo passou o verão na companhia dos pequenos gansinhos e foi para eles um bom camarada. Como se considerava um gansinho, tentava viver como eles viviam; quando nadavam no lago, ele os seguia até quase se afogar. Era-lhe muito embaraçoso não conseguir aprender a nadar, e foi a Akka queixar-se de sua incapacidade.
— Por que não posso nadar como os outros? — perguntou.
— Tuas garras cresceram curvadas demais, e teus dedos, grandes demais, enquanto estavas lá em cima no penhasco — respondeu Akka. — Mas, ainda assim, serás uma bela ave.
As asas da aguiazinha logo cresceram tanto que já podiam carregá-lo; mas só no outono, quando os gansinhos aprenderam a voar, lhe ocorreu que podia usá-las para o voo. Então veio para ele um tempo de orgulho, pois naquele exercício era igual a todos. Seus companheiros nunca permaneciam no ar por mais tempo do que precisavam, mas ele ficava ali quase o dia inteiro, praticando a arte de voar. Até então não lhe ocorrera que pertencesse a uma espécie diferente da dos gansos, mas não podia deixar de notar uma porção de coisas que o surpreendiam, e interrogava Akka constantemente.
— Por que os tetrazes e os lêmingues correm e se escondem quando veem minha sombra no penhasco? — perguntou. — Não demonstram tamanho medo dos outros gansinhos.
— Tuas asas cresceram grandes demais quando estavas no penhasco — disse Akka. — É isso que assusta os pobres pequeninos. Mas não fiques infeliz por causa disso. Ainda assim, serás uma bela ave.
Depois que a águia aprendeu a voar, ensinou a si mesma a pescar e a apanhar rãs. Mas, pouco a pouco, começou também a refletir sobre isso.
— Como acontece que eu viva de peixes e rãs? — perguntou. — Os outros gansinhos não vivem assim.
— Isso se deve ao fato de que eu não tinha outro alimento para te dar quando estavas no penhasco — disse Akka. — Mas não deixes que isso te entristeça. Ainda assim, serás uma bela ave.
Quando os gansos selvagens começaram sua migração de outono, Gorgo voou junto com o bando, considerando-se o tempo todo um deles. O ar estava cheio de aves a caminho do sul, e houve grande excitação entre elas quando Akka apareceu com uma águia em sua comitiva. O bando de gansos selvagens era constantemente rodeado por enxames de curiosos, que expressavam em voz alta seu espanto. Akka ordenava que se calassem, mas era impossível deter tantas línguas mexeriqueiras.
— Por que me chamam de águia? — perguntou Gorgo repetidas vezes, ficando cada vez mais exasperado. — Não veem que sou um ganso selvagem? Não sou comedor de aves, que se alimenta de seus semelhantes. Como ousam dar-me nome tão feio?
Certo dia, voavam acima de um terreiro onde muitas galinhas andavam sobre um monte de detritos e ciscavam.
— Uma águia! Uma águia! — guincharam as galinhas, e puseram-se a correr em busca de abrigo. Mas Gorgo, que ouvira falar das águias como criminosas selvagens, não pôde dominar sua cólera. Fechou as asas e despencou para o chão, cravando as garras numa das galinhas.
— Eu vos ensinarei, sim, que não sou águia! — gritou furiosamente, golpeando com o bico.
Naquele instante ouviu Akka chamá-lo do ar e ergueu-se obediente. A gansa selvagem voou em sua direção e começou a repreendê-lo.
— Que estás tentando fazer? — gritou, batendo nele com o bico. — Era porventura tua intenção despedaçar aquela pobre galinha?
Mas, quando a águia recebeu o castigo da gansa selvagem sem protesto, ergueu-se da grande multidão de aves ao redor deles uma verdadeira tempestade de zombarias e insultos. A águia ouviu aquilo e voltou-se para Akka com os olhos em chamas, como se desejasse atacá-la. Mas de súbito mudou de ideia e, com rápidos golpes de asa, lançou-se no ar, subindo tão alto que nenhum chamado podia alcançá-lo; e ficou a planar lá em cima enquanto os gansos selvagens o puderam ver.
Dois dias depois, tornou a aparecer no bando dos gansos selvagens.
— Sei quem sou — disse a Akka. — Já que sou uma águia, devo viver como convém a uma águia; mas penso que ainda assim podemos ser amigos. A ti, ou a qualquer dos teus, jamais atacarei.
Mas Akka havia posto o coração em conseguir educar uma águia para ser ave mansa e inofensiva, e não podia tolerar que ele quisesse fazer o que bem entendesse.
— Pensas que desejo ser amiga de um comedor de aves? — perguntou ela. — Vive como te ensinei a viver, e poderás viajar com meu bando como antes.
Ambos eram orgulhosos e obstinados, e nenhum dos dois quis ceder. Tudo terminou com Akka proibindo a águia de mostrar o rosto em sua vizinhança, e sua cólera contra ele era tão intensa que ninguém ousava mencionar o nome dele em sua presença.
Depois disso, Gorgo vagueou pelo país, solitário e evitado, como todos os grandes salteadores. Muitas vezes ficava abatido, e certamente suspirava não poucas vezes pelos dias em que se julgava um ganso selvagem e brincava com os alegres gansinhos.
Entre os animais, tinha grande reputação de coragem. Costumavam dizer dele que não temia ninguém além de sua mãe adotiva, Akka. E também podiam dizer dele que jamais usava violência contra um ganso selvagem.
Gorgo tinha apenas três anos e ainda não pensara em casar-se nem em arranjar uma morada para si, quando certo dia foi capturado por um caçador e vendido ao Jardim Zoológico de Skansen, onde já havia duas águias mantidas cativas numa jaula construída de barras de ferro e fios de aço. A jaula ficava ao ar livre e era tão grande que algumas árvores haviam sido facilmente transplantadas para dentro dela, e ali se erguia também um monte bastante grande de pedras. Apesar de tudo isso, as aves eram infelizes. Ficavam sentadas, imóveis, no mesmo lugar, quase o dia inteiro. Suas belas plumagens escuras tornaram-se ásperas e sem brilho, e seus olhos permaneciam cravados, com saudade sem esperança, no céu lá fora.
Durante a primeira semana do cativeiro de Gorgo, ele ainda se manteve desperto e cheio de vida; mas depois caiu sobre ele um torpor pesado. Pousou num só lugar, como as outras águias, e ficou fitando o vazio. Já não sabia como os dias passavam.
Certa manhã, quando Gorgo estava sentado em seu torpor habitual, ouviu alguém chamá-lo lá de baixo. Estava tão sonolento que mal conseguiu despertar o bastante para baixar o olhar.
— Quem está me chamando? — perguntou.
— Oh, Gorgo! Não me conheces? Sou Polegarzinho, que costumava voar por aí com os gansos selvagens.
— Akka também foi capturada? — perguntou Gorgo, no tom de quem tenta reunir os pensamentos depois de um longo sono.
— Não; Akka, o ganso-macho branco e todo o bando provavelmente estão sãos e salvos lá em cima, na Lapônia, nesta estação — disse o menino. — Sou apenas eu que estou prisioneiro aqui.
Enquanto o menino falava, notou que Gorgo desviava o olhar e começava novamente a fitar o espaço.
— Águia-real! — gritou o menino. — Não esqueci que certa vez me levaste de volta aos gansos selvagens, e que poupaste a vida do ganso-macho branco! Dize-me se posso ajudar-te de algum modo!
Gorgo mal ergueu a cabeça.
— Não me perturbes, Polegarzinho — bocejou. — Estou aqui sentado, sonhando que sou livre e que subo voando entre as nuvens. Não quero estar acordado.
— Deves despertar e ver o que se passa ao teu redor — advertiu o menino —, ou logo ficarás tão miserável quanto as outras águias.
— Quem me dera ser como elas! Estão tão perdidas em seus sonhos que nada mais pode perturbá-las — disse a águia.
Quando veio a noite e as três águias estavam adormecidas, ouviu-se um leve raspar nos fios de aço estendidos sobre o alto da jaula. As duas velhas cativas apáticas não se deixaram incomodar pelo ruído, mas Gorgo despertou.
— Quem está aí? Quem se mexe lá em cima, no teto? — perguntou.
— Sou eu, Polegarzinho, Gorgo — respondeu o menino. — Estou aqui serrando os fios de aço, para que possas escapar.
A águia ergueu a cabeça e viu, à luz da noite, como o menino estava sentado, limando os fios de aço no alto da jaula. Por um instante sentiu esperança, mas logo o desânimo tomou a dianteira.
— Sou uma ave grande, Polegarzinho — disse Gorgo. — Como conseguirás limar fios suficientes para que eu possa sair? É melhor abandonares isso e me deixares em paz.
— Oh, vai dormir e não te preocupes comigo! — disse o menino. — Não terminarei esta noite nem amanhã à noite, mas hei de tentar libertar-te a tempo, pois aqui tu te tornarás uma ruína completa.
Gorgo adormeceu. Quando despertou na manhã seguinte, viu de relance que vários fios tinham sido limados. Naquele dia sentiu-se menos sonolento do que antes. Abriu as asas e esvoaçou de galho em galho, para tirar a rigidez das juntas.
Certa manhã bem cedo, assim que apareceu a primeira faixa de luz do sol, Polegarzinho despertou a águia.
— Tenta agora, Gorgo! — sussurrou.
A águia olhou para cima. O menino havia de fato limado tantos fios que agora havia um grande buraco na rede de arame. Gorgo bateu as asas e impulsionou-se para cima. Duas vezes errou e caiu de volta na jaula; mas por fim conseguiu sair.
Com orgulhosos golpes de asa, elevou-se para as nuvens. O pequeno Polegarzinho ficou sentado, fitando-o com expressão pesarosa. Desejava que alguém viesse também dar-lhe a liberdade.
O menino agora morava em Skansen. Conhecera todos os animais dali e fizera muitos amigos entre eles. Tinha de admitir que havia tanto para ver e aprender naquele lugar que não lhe era difícil passar o tempo. É verdade que seus pensamentos iam todos os dias para Morten Ganso-Macho e seus outros companheiros, e ele suspirava por eles.
— Se ao menos eu não estivesse preso à minha promessa — pensava —, encontraria alguma ave que me levasse até eles!
Pode parecer estranho que Clement Larsson não tivesse restituído a liberdade ao menino, mas é preciso lembrar como o pequeno violinista estava excitado quando deixou Skansen. Na manhã de sua partida, pensara em pôr a comida do anãozinho numa tigela azul, mas, infelizmente, não conseguira encontrar uma. Toda a gente de Skansen — lapões, camponesas, artesãos e jardineiros — viera despedir-se dele, e ele não tivera tempo de procurar uma tigela azul. Era hora de partir, e no último momento teve de pedir ajuda ao velho lapão.
— Uma criatura do povo miúdo está morando aqui em Skansen — disse Clement —, e todas as manhãs ponho um pouco de comida para ela. Farias o favor de tomar estas poucas moedas e comprar com elas uma tigela azul? Põe nela um pouco de mingau e leite e, amanhã de manhã, deixa-a sob os degraus da cabana de Bollnäs.
O velho lapão pareceu surpreso, mas não houve tempo para Clement explicar mais, pois precisava partir para a estação ferroviária.
O lapão desceu à aldeia zoológica para comprar a tigela. Como não viu nenhuma azul que lhe parecesse apropriada, comprou uma branca, e esta, conscienciosamente, enchia e punha para fora todas as manhãs.
Foi por isso que o menino não foi libertado de seu compromisso. Sabia que Clement havia partido, mas ele não tinha permissão para ir embora.
Naquela noite, o menino ansiava mais do que nunca por sua liberdade. Isso acontecia porque o verão agora chegara de fato. Durante suas viagens, sofrera muito com o frio e o tempo tempestuoso, e, quando chegara pela primeira vez a Skansen, pensara que talvez fosse melhor mesmo ter sido obrigado a interromper a jornada. Teria morrido congelado se tivesse ido para a Lapônia no mês de maio. Mas agora fazia calor; a terra estava vestida de verde, bétulas e álamos cobriam-se de folhagem acetinada, e as cerejeiras — na verdade, todas as árvores frutíferas — estavam cobertas de flores. Os arbustos de bagas tinham frutos verdes nos ramos; os carvalhos haviam desdobrado cuidadosamente suas folhas, e ervilhas, couves e feijões cresciam na horta de Skansen.
— Agora deve estar quente lá em cima, na Lapônia — pensou o menino. — Eu gostaria de estar sentado no dorso de Morten Ganso-Macho numa bela manhã como esta! Seria grande divertimento cavalgar pelo ar quente e quieto e olhar para baixo, para a terra, tal como agora jaz adornada de relva verde e embelezada por lindas flores.
Estava ele meditando nisso quando a águia, de súbito, precipitou-se do céu e pousou ao lado do menino, no alto da jaula.
— Quis experimentar minhas asas para ver se ainda serviam para alguma coisa — disse Gorgo. — Não supunhas que eu pretendesse deixar-te aqui em cativeiro, não é? Sobe em minhas costas, e eu te levarei a teus companheiros.
— Não, isso é impossível! — respondeu o menino. — Dei minha palavra de que ficaria aqui até ser libertado.
— Que espécie de disparate estás dizendo? — protestou Gorgo. — Em primeiro lugar, trouxeram-te para cá contra a tua vontade; depois te forçaram a prometer que permanecerias aqui. Certamente deves compreender que uma promessa assim não precisa ser cumprida.
— Oh, não, preciso cumpri-la — disse o menino. — Agradeço-te do mesmo modo por tua boa intenção, mas não podes ajudar-me.
— Oh, não posso? — disse Gorgo. — Veremos isso! — Num abrir e fechar de olhos, agarrou Nils Holgersson em suas grandes garras e elevou-se com ele rumo aos céus, desaparecendo na direção norte.
Quarta-feira, quinze de junho.
A águia continuou voando até estar a grande distância ao norte de Stockholm. Então desceu a uma colina arborizada, onde afrouxou a presa sobre o menino.
No instante em que Polegarzinho se viu fora das garras de Gorgo, começou a correr de volta para a cidade o mais depressa que podia.
A águia fez um longo rasante, alcançou o menino e o deteve com a garra.
— Pretendes voltar para a prisão? — perguntou.
— Isso é assunto meu. Posso ir para onde quiser, apesar de todos vós! — retrucou o menino, tentando escapar. Então a águia o segurou com suas fortes garras e ergueu-se no ar.
Agora Gorgo circulou sobre toda a província de Uppland e não parou outra vez até chegar às grandes quedas-d’água de Älvkarleby, onde pousou numa rocha no meio das corredeiras impetuosas, abaixo das quedas rugidoras. Novamente afrouxou a presa sobre o cativo.
O menino viu que ali não havia possibilidade de escapar da águia. Acima deles, a branca muralha de espuma da queda-d’água desabava, e ao redor o rio corria numa torrente poderosa. Polegarzinho estava muito indignado por pensar que, daquela maneira, fora forçado a tornar-se quebrador de promessa. Voltou as costas à águia e não quis falar com ela.
Agora que a ave havia posto o menino num lugar de onde ele não podia fugir, contou-lhe confidencialmente que fora criado por Akka de Kebnekaise e que brigara com sua mãe adotiva.
— Agora, Polegarzinho, talvez compreendas por que desejo levar-te de volta aos gansos selvagens — disse ele. — Ouvi dizer que gozas de grande favor junto de Akka, e era meu propósito pedir-te que fizesses as pazes entre nós.
Assim que o menino compreendeu que a águia não o levara embora por espírito de contrariedade, sentiu simpatia por ela.
— Eu gostaria muito de ajudar-te — respondeu —, mas estou preso à minha promessa.
Em seguida, explicou à águia como caíra em cativeiro e como Clement Larsson deixara Skansen sem libertá-lo.
Ainda assim, a águia não quis abandonar seu plano.
— Escuta-me, Polegarzinho — disse. — Minhas asas podem levar-te aonde desejares ir, e meus olhos podem procurar tudo o que quiseres encontrar. Dize-me como é o homem que exigiu de ti essa promessa, e eu o encontrarei e te levarei até ele. Então caberá a ti fazer o resto.
Polegarzinho aprovou a proposta.
— Vejo bem, Gorgo, que tiveste uma ave sábia como Akka por mãe adotiva — observou o menino.
Deu uma descrição vívida de Clement Larsson e acrescentou que ouvira em Skansen que o pequeno violinista era de Hälsingland.
— Havemos de procurá-lo por toda Hälsingland — de Ljungby a Mellansjö, da Grande Montanha a Hornland — disse a águia. — Amanhã, antes do pôr do sol, terás uma conversa com esse homem!
— Receio que estejas prometendo mais do que podes cumprir — duvidou o menino.
— Eu seria uma águia bem miserável se não pudesse fazer tanto — disse Gorgo.
Assim, quando Gorgo e Polegarzinho deixaram Älvkarleby, eram bons amigos, e o menino aceitou de boa vontade montar no dorso da águia. Desse modo, teve oportunidade de ver muito do país.
Quando estivera preso nas garras da águia, não vira nada. Talvez fosse melhor assim, pois, pela manhã, viajara sobre Upsala, as grandes fábricas de Österby, a Mina de Dannemora e o antigo castelo de Örbyhus, e teria ficado tristemente desapontado por não vê-los, se soubesse de sua proximidade.
A águia levou-o velozmente sobre Gästrikland. Na parte meridional da província havia muito pouco que atraísse o olhar. Mas, à medida que voavam para o norte, a paisagem começou a se tornar interessante.
— Esta terra está vestida com uma saia de abetos e uma jaqueta de pedra cinzenta — pensou o menino. — Mas, em torno da cintura, usa um cinturão que não tem igual em valor, pois é bordado de lagos azuis e bosques verdes. As grandes fundições a adornam como uma fileira de pedras preciosas, e sua fivela é uma cidade inteira, com castelos, catedrais e grandes aglomerados de casas.
Quando os viajantes chegaram à região das florestas do norte, Gorgo pousou no topo de uma montanha. Ao desmontar, o menino ouviu a águia dizer:
— Há caça nesta floresta, e não posso esquecer meu recente cativeiro nem sentir-me verdadeiramente livre enquanto não tiver ido caçar. Não te importas que eu te deixe por algum tempo?
— Não, naturalmente que não — assegurou-lhe o menino.
— Podes ir aonde quiseres, contanto que estejas de volta aqui ao pôr do sol — disse a águia, enquanto levantava voo.
O menino sentou-se numa pedra, contemplando o terreno nu e rochoso e as grandes florestas ao redor.
Sentia-se um tanto solitário. Mas logo ouviu canto na floresta abaixo e viu algo brilhante movendo-se entre as árvores. Pouco depois avistou uma bandeira azul e amarela, e soube, pelos cantos e pela conversa alegre, que ela era levada à frente de uma procissão. Lá vinha ela, subindo pelo caminho sinuoso; ele se perguntou para onde ela e aqueles que a seguiam iriam. Não podia acreditar que alguém viesse até uma vastidão tão feia e desolada como o lugar onde ele estava sentado. Mas a bandeira aproximava-se da orla da floresta, e atrás dela marchavam muitas pessoas felizes, para as quais ela abrira caminho. De súbito, houve vida e movimento por toda a planície da montanha; depois disso, havia tanto para o menino ver que ele não teve um momento de tédio.
Sobre o largo dorso da montanha onde Gorgo deixou Polegarzinho, houvera um incêndio florestal dez anos antes. Desde então, as árvores carbonizadas haviam sido derrubadas e removidas, e a grande área varrida pelo fogo começara a adornar-se de verde pelas bordas, onde confinava com a floresta sadia. Contudo, a maior parte do topo ainda era árida e terrivelmente desolada. Tocos carbonizados, de pé como sentinelas entre as saliências de rocha, testemunhavam que outrora houvera ali uma bela floresta; mas nenhuma raiz nova brotava do chão.
Certo dia, no começo do verão, todas as crianças da paróquia se haviam reunido diante da escola, perto da montanha queimada pelo fogo. Cada criança carregava uma pá ou uma enxada ao ombro, e uma cesta de comida na mão. Assim que todos se reuniram, marcharam em longa procissão rumo à floresta. A bandeira ia primeiro, com os professores de cada lado; depois vinham dois guardas-florestais e uma carroça carregada de mudas de pinheiro e sementes de abeto; em seguida, as crianças.
A procissão não parou em nenhum dos bosques de bétulas perto dos povoados, mas marchou para o fundo da floresta. Enquanto avançava, as raposas punham a cabeça para fora das tocas com espanto e perguntavam-se que espécie de gente dos matos seria aquela. Ao passarem por velhas covas de carvão, onde as carvoarias eram acesas todos os outonos, os cruza-bicos torciam seus bicos recurvos e perguntavam uns aos outros que espécie de carvoeiros seriam aqueles que agora enchiam a floresta.
Por fim, a procissão alcançou a grande planície da montanha queimada. As rochas tinham sido despojadas das delicadas trepadeiras de flor-gêmea que outrora as cobriam; tinham sido privadas do bonito musgo prateado e do atraente líquen-das-renas. Ao redor da água escura reunida em fendas e cavidades, já não havia azedinhas. As pequenas manchas de terra nas rachaduras e entre as pedras estavam sem samambaias, sem flores-estrelas, sem todas as coisas verdes e vermelhas, claras, macias e consoladoras que normalmente vestem o chão da floresta.
Foi como se uma luz brilhante relampejasse sobre a montanha quando todas as crianças da paróquia a cobriram. Ali havia novamente algo doce e delicado; algo fresco e rosado; algo jovem e em crescimento. Talvez aquelas crianças trouxessem um pouco de nova vida à pobre floresta abandonada.
Quando as crianças descansaram e comeram seu almoço, agarraram enxadas e pás e começaram a trabalhar. Os guardas-florestais lhes mostraram o que fazer. Plantaram muda após muda em cada trecho livre de terra que puderam encontrar.
Enquanto trabalhavam, falavam entre si com bastante conhecimento sobre como as pequenas mudas que plantavam firmariam o solo para que ele não escapasse, e como nova terra se formaria sob as árvores. Com o tempo, sementes cairiam e, dentro de alguns anos, colheriam tanto morangos como framboesas onde agora havia apenas rochas nuas. As pequenas mudas que plantavam se tornariam gradualmente árvores altas. Talvez delas fossem construídas grandes casas e magníficos navios!
Se as crianças não tivessem vindo ali plantar enquanto ainda havia um pouco de terra nas fendas, todo o solo teria sido levado pelo vento e pela água, e a montanha nunca mais poderia vestir-se de verde.
— Foi bom termos vindo — disseram as crianças. — Chegamos bem a tempo! — Sentiam-se muito importantes.
Enquanto elas trabalhavam na montanha, seus pais estavam em casa. Pouco a pouco, começaram a perguntar-se como as crianças estariam se saindo. Naturalmente, aquilo de plantarem uma floresta era apenas brincadeira, mas talvez fosse divertido ver o que tentavam fazer.
Assim, pouco depois, pais e mães seguiam caminho para a floresta. Quando chegaram às fazendas de criação afastadas, encontraram alguns vizinhos.
— Estais indo para a montanha queimada pelo fogo? — perguntaram.
— É para lá que vamos.
— Para dar uma olhada nas crianças?
— Sim, para ver o que andam fazendo.
— É só brincadeira, naturalmente.
— Não é provável que muitas árvores da floresta sejam plantadas pelos pequenos. Trouxemos a cafeteira, para podermos beber algo quente, já que teremos de ficar ali o dia todo só com as provisões das cestas de almoço.
Assim, os pais das crianças subiram a montanha. A princípio, pensaram apenas em como era bonito ver todos os pequenos de faces rosadas espalhados pelas colinas cinzentas. Depois observaram como as crianças trabalhavam — como umas plantavam mudas, enquanto outras abriam sulcos e semeavam. Outras ainda arrancavam urzes para impedir que sufocassem as árvores jovens. Viram que as crianças levavam o trabalho a sério e estavam tão concentradas no que faziam que mal tinham tempo de erguer os olhos.
Os pais e mães ficaram um momento observando; depois também começaram a arrancar urzes — apenas por divertimento. As crianças eram os instrutores, pois já estavam treinadas e tinham de mostrar aos mais velhos o que fazer.
Assim aconteceu que todos os adultos que haviam vindo observar as crianças tomaram parte no trabalho. Então, naturalmente, aquilo se tornou mais divertido que antes. Pouco a pouco, as crianças tiveram ainda mais ajuda. Eram necessários outros instrumentos, de modo que dois meninos de pernas compridas foram enviados à aldeia em busca de pás e enxadas. Quando passaram correndo pelas cabanas, os que tinham ficado em casa saíram e perguntaram:
— Que aconteceu? Houve algum acidente?
— Nada disso! Mas a paróquia inteira está lá em cima, na montanha queimada, plantando uma floresta.
— Se a paróquia inteira está lá, não podemos ficar em casa!
Então grupo após grupo de camponeses subiu apinhando-se até o topo da montanha queimada. Ficavam um momento olhando. A tentação de se juntar aos trabalhadores era irresistível.
— É um prazer semear os próprios acres na primavera e pensar no grão que há de brotar da terra; mas este trabalho é ainda mais sedutor — pensavam.
Daquela semeadura não viriam apenas lâminas delgadas, mas árvores poderosas, com troncos altos e ramos robustos. Aquilo significava dar nascimento não apenas ao trigo de um verão, mas ao crescimento de muitos anos. Significava o zumbido desperto dos insetos, o canto do tordo, a brincadeira dos tetrazes e toda espécie de vida na montanha desolada. Além disso, era como erguer um monumento para as gerações vindouras. Poderiam ter deixado por herança uma altura nua e sem árvores. Em vez disso, deixariam uma floresta gloriosa.
As gerações futuras saberiam que seus antepassados haviam sido um povo bom e sábio, e os recordariam com reverência e gratidão.
Quinta-feira, dezesseis de junho.
No dia seguinte, o menino viajou sobre Hälsingland. Ela se estendia abaixo dele com novos brotos verde-claros nos pinheiros, novas folhas de bétula nos bosques, nova relva verde nos prados e grãos germinando nos campos. Era uma terra montanhosa, mas diretamente através dela corria um vale largo e claro, de ambos os lados do qual se ramificavam outros vales — alguns curtos e estreitos, outros largos e compridos.
— Esta terra se parece com uma folha — pensou o menino —, pois é verde como uma folha, e os vales a subdividem mais ou menos da mesma maneira que as nervuras folheiam uma folha.
Os vales ramificados, como o principal, eram cheios de lagos, rios, fazendas e aldeias. Aconchegavam-se, claros e sorridentes, entre as montanhas escuras, até que pouco a pouco eram comprimidos pelas colinas. Ali se tornavam tão estreitos que não podiam conter mais que um pequeno riacho.
Nas terras altas entre os vales havia florestas de pinheiros que não tinham terreno plano onde crescer. Havia montanhas por toda parte, e a floresta cobria o conjunto como uma pele lanuda estendida sobre um corpo ossudo.
Era um país pitoresco de se contemplar lá do alto, e o menino viu boa parte dele, porque a águia tentava encontrar o velho violinista, Clement Larsson, e voava de ravina em ravina à sua procura.
Pouco mais tarde, pela manhã, havia vida e movimento em todas as fazendas. As portas dos estábulos foram escancaradas, e as vacas foram soltas. Eram bonitas de cor, pequenas, flexíveis e vivazes, e tão firmes nos cascos que davam os saltos e pulos mais cômicos. Depois delas vieram os bezerros e as ovelhas, e via-se claramente que também estavam no melhor dos humores.
O movimento crescia a cada instante nos pátios das fazendas. Duas jovens, com mochilas às costas, caminhavam entre o gado; um menino com uma longa vara mantinha reunidas as ovelhas, e um cãozinho corria de um lado para outro entre as vacas, latindo para aquelas que tentavam chifrá-lo. O lavrador atrelou um cavalo a uma carroça carregada de tinas de manteiga, caixas de queijo e toda espécie de comestíveis. As pessoas riam e conversavam. Elas e os animais estavam igualmente alegres — como se aguardassem um dia de verdadeiro prazer.
Um momento depois, todos seguiam caminho para a floresta. Uma das moças ia à frente e atraía o gado com chamados bonitos e musicais. Os animais a seguiam em longa fila. O pastorinho e o cão das ovelhas corriam daqui para ali, para ver se nenhuma criatura se desviava do rumo certo; e, por último, vinham o lavrador e seu criado. Caminhavam ao lado da carroça para impedir que ela virasse, pois a estrada que seguiam era uma vereda estreita e pedregosa da floresta.
Talvez fosse costume de todos os camponeses de Hälsingland enviarem seu gado às florestas no mesmo dia — ou talvez aquilo houvesse acontecido apenas naquele ano; de todo modo, o menino viu como procissões de pessoas e animais felizes saíam de todos os vales e de todas as fazendas e se precipitavam para a floresta solitária, enchendo-a de vida. Das profundezas da mata cerrada, o menino ouvia os cantos das pastoras e o tilintar dos sinos das vacas. Muitas das procissões tinham caminhos longos e difíceis a percorrer; e o menino viu como atravessavam pântanos, como eram obrigadas a fazer rodeios para passar por árvores tombadas pelo vento, e como, vez após vez, as carroças batiam contra pedras e viravam com todo o seu conteúdo. Mas as pessoas enfrentavam todos os obstáculos com gracejos e risos.
À tarde chegaram a uma clareira onde haviam sido construídos estábulos e um par de cabanas rústicas. As vacas mugiram de alegria ao pisar a relva verde e suculenta nos pátios entre as cabanas, e logo começaram a pastar. Os camponeses, com conversas alegres e brincadeiras, levaram para a cabana maior a água, a lenha e tudo o que fora trazido nas carroças. Pouco depois, a fumaça subiu da chaminé, e então as leiteiras, o pastorinho e os homens acocoraram-se sobre uma pedra chata e comeram a ceia.
Gorgo, a águia, tinha certeza de que encontraria Clement Larsson entre aqueles que haviam partido para a floresta. Sempre que via uma procissão de fazenda de pasto, descia e a examinava com seus olhos agudos; mas hora após hora se passou sem que encontrasse aquele que procurava.
Depois de muito circular, ao cair da tarde chegaram a uma região pedregosa e desolada a leste do grande vale principal. Ali o menino viu outra fazenda afastada debaixo de si. As pessoas e o gado haviam chegado. Os homens rachavam lenha, e as leiteiras ordenhavam as vacas.
— Olha ali! — disse Gorgo. — Creio que o encontramos.
Ele desceu e, para grande assombro do menino, viu que a águia tinha razão. Ali estava, de fato, o pequeno Clement Larsson rachando lenha.
Gorgo pousou num pinheiro, na mata cerrada, um pouco afastado da casa.
— Cumpri minha obrigação — disse a águia, com altivo meneio de cabeça. — Agora deves tentar falar com o homem. Ficarei pousado aqui, no alto do pinheiro cerrado, esperando por ti.
O trabalho do dia estava concluído nas fazendas da floresta, a ceia terminara, e os camponeses estavam sentados, conversando. Fazia muito tempo que não passavam uma noite de verão na floresta, e pareciam relutantes em ir para a cama e dormir. Estava claro como de dia, e as leiteiras ocupavam-se de seus trabalhos de agulha. De quando em quando levantavam a cabeça, olhavam para a floresta e sorriam.
— Agora estamos aqui outra vez! — diziam.
A cidade, com sua inquietação, desvanecia-se de seus pensamentos, e a floresta, com sua paz silenciosa, as envolvia. Quando estavam em casa, haviam-se perguntado como poderiam suportar a solidão dos bosques; mas, uma vez ali, sentiam que estavam passando seu melhor tempo.
Muitas moças e muitos rapazes das fazendas vizinhas tinham vindo visitá-las, de modo que havia bastante gente sentada na relva diante das cabanas; mas não achavam fácil começar uma conversa. Os homens voltariam para casa no dia seguinte, e por isso as leiteiras lhes davam pequenos encargos e pediam que levassem saudações a seus amigos na aldeia. Era quase tudo o que se dissera.
De súbito, a mais velha das moças leiteiras ergueu os olhos do trabalho e disse, rindo:
— Não precisamos ficar aqui tão calados esta noite, pois temos conosco dois contadores de histórias. Um é Clement Larsson, que está sentado ao meu lado, e o outro é Bernhard de Sunnasjö, que está ali atrás olhando para a Crista Negra. Creio que devemos pedir a cada um deles que nos conte uma história. Àquele que nos divertir melhor, darei o cachecol que estou tricotando.
A proposta recebeu aplausos calorosos. Os dois competidores apresentaram desculpas frouxas, naturalmente, mas foram depressa persuadidos. Clement pediu a Bernhard que começasse, e ele não se opôs. Pouco sabia de Clement Larsson, mas supunha que ele sairia com alguma história de fantasmas e trolls. Como sabia que as pessoas gostavam de ouvir tais coisas, achou melhor escolher algo da mesma espécie.
— Há alguns séculos — começou ele —, um deão aqui da freguesia de Delsbo atravessava a densa floresta a cavalo numa véspera de Ano-Novo. Ia montado, vestido com casaco e gorro de pele. No arção da sela pendia uma bolsa em que guardava o serviço de comunhão, o Livro de Orações e a veste clerical. Fora chamado para uma incumbência paroquial num remoto povoado da floresta, onde conversara com uma pessoa enferma até tarde da noite. Agora seguia para casa, mas temia não chegar à reitoria antes da meia-noite.
— Como precisava ficar na sela quando deveria estar em casa, em sua cama, alegrou-se por não ser uma noite áspera. O tempo era suave, o ar estava parado e o céu, encoberto. Por trás das nuvens pendia uma lua cheia e redonda, que dava alguma claridade, embora estivesse fora de vista. Não fosse aquela luz tênue, teria sido impossível distinguir caminhos de campos, pois aquele era um inverno sem neve, e todas as coisas tinham a mesma cor castanho-acinzentada.
— O cavalo em que o deão montava era um animal que ele estimava muito. Era forte e robusto, e tão sensato quanto um ser humano. Podia encontrar o caminho de casa a partir de qualquer lugar da freguesia. O deão observara isso em várias ocasiões e confiava nele com tal sensação de segurança que nunca se dava ao trabalho de pensar para onde ia quando montava aquele cavalo. Assim seguia agora, na noite cinzenta, através da floresta desnorteante, com as rédeas pendentes e os pensamentos muito longe.
— Pensava no sermão que deveria pregar no dia seguinte, e em muitas outras coisas além disso, e demorou muito até lhe ocorrer reparar em quanto havia avançado no caminho de volta. Quando afinal ergueu os olhos, viu que a floresta era tão cerrada ao seu redor quanto no princípio, e ficou um tanto surpreso, pois cavalgara por tanto tempo que já deveria ter chegado à parte habitada da freguesia.
— Delsbo era então mais ou menos como agora. A igreja, a casa paroquial e todas as grandes fazendas e aldeias ficavam na extremidade norte da freguesia, enquanto na parte sul havia apenas florestas e montanhas. O deão viu que ainda estava na região despovoada e soube que se encontrava na parte sul, devendo cavalgar para o norte a fim de chegar em casa. Não havia estrelas nem lua que o guiassem; mas ele era homem que tinha os quatro pontos cardeais na cabeça. Sentia positivamente que estava viajando para o sul, ou talvez para o leste.
— Pretendia virar o cavalo imediatamente, mas hesitou. O animal nunca se havia extraviado, e não parecia provável que o fizesse agora. Era mais provável que o deão estivesse enganado. Estivera longe em pensamentos e não olhara para a estrada. Por isso deixou que o cavalo continuasse na mesma direção e de novo se perdeu em seu devaneio.
— De repente, um grande galho o atingiu e quase o varreu para fora da sela. Então compreendeu que precisava descobrir onde estava.
— Olhou para baixo e viu que cavalgava por um brejo macio, onde não havia caminho batido. O cavalo trotava em passo vivo e não demonstrava incerteza alguma. Mais uma vez o deão teve certeza de que ia na direção errada, e agora não hesitou em interferir. Agarrou as rédeas e fez o cavalo voltar, guiando-o de volta à estrada. Mal chegou a ela, o animal virou outra vez e rumou diretamente para o mato.
— O deão estava certo de que ele ia errado, mas, porque a besta era tão persistente, pensou que provavelmente tentava encontrar um caminho melhor, e deixou-a seguir.
— O cavalo se saiu muito bem, embora não tivesse trilha a seguir. Se um precipício lhe obstruía a passagem, ele o escalava agilmente como uma cabra, e depois, quando tinham de descer, juntava os cascos e escorregava pelos declives rochosos.
— “Que ele ao menos encontre o caminho de casa antes da hora da igreja!” — pensou o deão. — “Pergunto-me como a gente de Delsbo receberia isso se eu não chegasse à minha igreja a tempo.”
— Não teve de cismar sobre isso por muito tempo, pois logo chegou a um lugar que lhe era familiar. Era um pequeno riacho onde pescara no verão anterior. Agora via que era como temera: estava nas profundezas da floresta, e o cavalo seguia penosamente numa direção sudeste. Parecia decidido a levar o deão o mais longe possível da igreja e da reitoria.
— O clérigo apeou-se. Não podia deixar que o cavalo o levasse para o ermo. Precisava voltar para casa. E, visto que o animal persistia em seguir na direção errada, decidiu caminhar e conduzi-lo até que chegassem a estradas mais familiares. O deão enrolou as rédeas ao redor do braço e começou a andar. Não era coisa fácil avançar pela floresta com um pesado casaco de pele; mas o deão era forte e resistente, e pouco temia o excesso de esforço.
— O cavalo, entretanto, causou-lhe nova inquietação. Não queria segui-lo, mas fincava firmemente os cascos no chão.
— Por fim, o deão se irritou. Nunca batera naquele cavalo, nem desejava fazê-lo agora. Em vez disso, atirou as rédeas ao chão e afastou-se.
— “Podemos muito bem separar-nos aqui, já que queres seguir teu próprio caminho” — disse ele.
— Não havia dado mais de dois passos quando o cavalo veio atrás dele, mordeu-lhe cautelosamente a manga do casaco e o deteve. O deão voltou-se e olhou o cavalo diretamente nos olhos, como se procurasse descobrir por que ele se comportava de modo tão estranho.
— Depois, o deão não pôde compreender bem como aquilo fora possível, mas é certo que, escura como estava a noite, viu claramente a face do cavalo e a leu como a de um ser humano. Percebeu que o animal estava tomado de terrível apreensão e medo. Dirigia ao dono um olhar ao mesmo tempo suplicante e repreensivo.
— “Servi-te dia após dia e cumpri tuas ordens” — parecia dizer. — “Não me seguirás nesta única noite?”
— O deão comoveu-se com o apelo nos olhos do animal. Era claro que o cavalo precisava de sua ajuda naquela noite, de um modo ou de outro. Sendo homem por inteiro, o deão decidiu prontamente segui-lo. Sem mais demora, saltou para a sela. “Vai!” — disse. — “Não te abandonarei, já que precisas de mim. Ninguém há de dizer do deão de Delsbo que ele se recusou a acompanhar qualquer criatura que estivesse em aflição.”
— Deixou o cavalo seguir como desejava e pensou apenas em manter-se na sela. A viagem revelou-se arriscada e trabalhosa — subindo ladeiras na maior parte do caminho. A floresta era tão cerrada que ele não podia ver dois palmos à frente, mas parecia-lhe que estavam subindo uma alta montanha. O cavalo escalava encostas perigosas. Se fosse o deão quem estivesse guiando, não teria pensado em cavalgar por terreno semelhante.
— “Certamente não pretendes subir à Crista Negra, pretendes?” — riu o deão, que sabia ser aquele um dos picos mais altos de Hälsingland.
— Durante a cavalgada, descobriu que ele e o cavalo não eram os únicos que andavam fora naquela noite. Ouvia pedras rolarem e galhos estalarem, como se animais abrissem caminho pela floresta. Lembrou-se de que havia muitos lobos naquela região e perguntou-se se o cavalo queria levá-lo a um encontro com feras.
— Subiam, subiam, e quanto mais alto chegavam, mais espaçadas eram as árvores. Por fim, cavalgavam por uma terra alta quase nua, de onde o deão podia olhar em todas as direções. Contemplou extensões imensuráveis de terra, que subiam e desciam em montanhas e vales cobertos por florestas sombrias. Estava tão escuro que ele tinha dificuldade em discernir qualquer disposição ordenada; mas pouco depois conseguiu reconhecer onde estava.
— “Ora, naturalmente é à Crista Negra que vim parar!” — observou consigo mesmo. — “Não pode ser outra montanha, pois ali, a oeste, vejo a Ilha Jarv, e a leste o mar cintila ao redor da Ilha Ag. Também ao norte vejo algo brilhante. Deve ser Dellen. Nas profundezas abaixo de mim vejo a fumaça branca das Cataratas de Nian. Sim, estou no alto da Crista Negra. Que aventura!”
— Quando chegaram ao cume, o cavalo parou atrás de um pinheiro espesso, como se quisesse esconder-se. O deão inclinou-se para a frente e afastou os ramos, a fim de ter uma vista desimpedida.
— O dorso calvo da montanha apresentou-se diante dele. Não estava vazio e desolado, como ele havia esperado. No meio do espaço aberto havia um imenso rochedo, em torno do qual muitas feras se haviam reunido. Aparentemente celebravam algum tipo de conclave.
— Perto da grande rocha, viu ursos, tão firmes e pesadamente construídos que pareciam blocos de pedra vestidos de pele. Jaziam deitados, e seus olhinhos piscavam com impaciência; era evidente que haviam saído do sono de inverno para comparecer ao tribunal, e que mal conseguiam manter-se acordados. Atrás deles, em fileiras cerradas, estavam centenas de lobos. Estes não tinham sono, pois os lobos são mais alertas no inverno que no verão. Sentavam-se sobre as ancas, como cães, chicoteando o chão com a cauda e arquejando — as línguas pendendo muito para fora das mandíbulas. Atrás dos lobos esgueiravam-se os linces, de pernas rígidas e movimentos desajeitados, como gatos deformados. Detestavam estar entre os outros animais, e silvavam e cuspiam quando algum se aproximava deles. A fila atrás dos linces era ocupada pelos glutões, com cara de cão e pelagem de urso. Não se sentiam bem no chão e batiam as patas impacientemente, ansiando por subir às árvores. Atrás deles, cobrindo todo o espaço até a orla da floresta, saltavam as raposas, as doninhas e as martas. Estas eram pequenas e perfeitamente formadas, mas pareciam ainda mais selvagens e sanguinárias que as feras maiores.
— Tudo isso o deão via claramente, pois o lugar inteiro estava iluminado. Sobre a enorme rocha no centro estava a Ninfa da Floresta, que segurava na mão uma tocha de pinho ardendo numa grande chama vermelha. A Ninfa era tão alta quanto a mais alta árvore da floresta. Vestia um manto de ramos de abeto e tinha cabelos de pinhas. Permanecia muito imóvel, com o rosto voltado para a floresta. Observava e escutava.
— O deão via tudo tão claro quanto podia ser, mas seu assombro era tão grande que tentou combatê-lo e não quis acreditar no testemunho de seus próprios olhos.
— “Tais coisas não podem acontecer!” — pensou. — “Cavalguei por tempo demais na floresta agreste. Isto não passa de uma ilusão de óptica.”
— Não obstante, prestou a mais cuidadosa atenção ao espetáculo e perguntou-se o que estaria para acontecer.
— Não teve de esperar muito até captar o som de um sino familiar, vindo das profundezas da floresta, e no instante seguinte ouviu passos e estalar de ramos — como quando muitos animais abrem caminho pelo mato.
— Um grande rebanho de gado subia a montanha. Vinham pela floresta na mesma ordem em que haviam marchado para as fazendas das montanhas. Primeiro vinha a vaca do sino, seguida pelo touro; depois, as outras vacas e os bezerros. As ovelhas, bem reunidas, vinham atrás. Depois delas vinham as cabras, e por último os cavalos e potros. O cão das ovelhas trotava ao lado do rebanho; mas nenhum pastor nem pastora os acompanhava.
— O deão achou de cortar o coração ver os animais domésticos vindo diretamente ao encontro das feras. Teria gostado de barrar-lhes o caminho e gritar “Alto!”, mas compreendeu que não estava ao alcance do poder humano deter a marcha do gado naquela noite; por isso não fez movimento algum.
— Os animais domésticos estavam num estado de tormento diante daquilo que tinham de enfrentar. Se por acaso era a vez da vaca do sino, ela avançava de cabeça baixa e passo vacilante. As cabras não tinham desejo nem de brincar nem de dar cabeçadas. Os cavalos procuravam manter-se corajosos, mas seus corpos tremiam inteiros de medo. O mais patético de todos era o cão das ovelhas. Mantinha a cauda entre as pernas e rastejava pelo chão.
— A vaca do sino conduziu a procissão até a Ninfa da Floresta, que estava sobre o rochedo no topo da montanha. A vaca deu a volta ao redor da pedra e depois se voltou para a floresta sem que nenhuma das feras a tocasse. Do mesmo modo, todo o gado passou ileso pelas feras.
— À medida que as criaturas desfilavam, o deão viu a Ninfa da Floresta baixar a tocha de pinho sobre uma e outra delas.
— Cada vez que isso acontecia, as feras de presa irrompiam em rugidos altos e exultantes — sobretudo quando a tocha era baixada sobre uma vaca ou alguma outra criatura grande. O animal que via a tocha voltar-se para ele soltava um grito penetrante, como se tivesse recebido uma punhalada na carne, enquanto todo o rebanho a que pertencia mugia suas lamentações.
— Então o deão começou a compreender o significado do que via. Sem dúvida ouvira dizer que os animais de Delsbo se reuniam na Crista Negra a cada véspera de Ano-Novo, para que a Ninfa da Floresta assinalasse quais, entre os animais mansos, seriam naquele ano presa das feras selvagens. O deão teve piedade das pobres criaturas que ficavam à mercê de animais ferozes, quando na verdade não deveriam ter outro senhor senão o homem.
— O primeiro rebanho mal havia partido quando outro sino tilintou, e o gado de outra fazenda subiu pesadamente ao topo da montanha. Estes vieram na mesma ordem que os primeiros e marcharam diante da Ninfa da Floresta, que ali estava, severa e solene, indicando animal após animal para a morte.
— Rebanho após rebanho se seguiu, sem interrupção na linha da procissão. Alguns eram tão pequenos que incluíam apenas uma vaca e algumas ovelhas; outros consistiam somente num par de cabras. Era evidente que vinham de lares muito humildes, mas também eles eram compelidos a passar em revista.
— O deão pensou nos lavradores de Delsbo, que tinham tanto amor por seus animais. “Se ao menos soubessem disso, certamente não permitiriam que tal coisa se repetisse!” — pensou. — “Arriscariam a própria vida antes de deixar seu gado vagar entre ursos e lobos, para ser condenado pela Ninfa da Floresta!”
— O último rebanho a aparecer foi o da fazenda paroquial. O deão ouviu o som do sino familiar de muito longe. O cavalo também devia tê-lo ouvido, pois começou a tremer em todos os membros e ficou banhado de suor.
— “Então agora é tua vez de passar diante da Ninfa da Floresta para receber tua sentença” — disse o deão ao cavalo. — “Não tenhas medo! Agora sei por que me trouxeste aqui, e não te deixarei.”
— O belo gado da fazenda da paróquia emergiu da floresta e marchou até a Ninfa da Floresta e as feras selvagens. Por último na fila vinha o cavalo que trouxera seu dono à Crista Negra. O deão não deixou a sela, mas permitiu que o animal o levasse até a Ninfa da Floresta.
— Não tinha faca nem espingarda para se defender, mas havia tirado o Livro de Orações e estava sentado, apertando-o contra o peito enquanto se expunha à batalha contra o mal.
— A princípio pareceu que ninguém o observara. O gado do deão passou diante da Ninfa da Floresta na mesma ordem em que os outros haviam passado. Ela não agitou a tocha em direção a nenhum deles, mas, assim que o cavalo inteligente avançou, fez um movimento para marcá-lo para a morte.
— No mesmo instante, o deão ergueu o Livro de Orações, e a luz da tocha caiu sobre a cruz de sua capa. A Ninfa da Floresta soltou um grito alto e agudo e deixou a tocha cair da mão.
— Imediatamente a chama se apagou. Na súbita passagem da luz para a escuridão, o deão nada viu, nem coisa alguma ouviu. Ao redor dele reinava o profundo silêncio de uma região selvagem no inverno.
— Então as nuvens escuras se apartaram, e pela abertura avançou a lua cheia e redonda, derramando sua luz sobre o chão. O deão viu que ele e o cavalo estavam sozinhos no cume da Crista Negra. Nem uma só das muitas feras estava ali. O solo não fora pisoteado pelos rebanhos que haviam passado sobre ele; mas o próprio deão estava sentado com o Livro de Orações diante de si, enquanto o cavalo sob ele permanecia trêmulo e espumante.
— Quando o deão chegou a casa, já não sabia se aquilo que vira fora sonho, visão ou realidade; mas tomou-o como uma advertência para lembrar-se das pobres criaturas que estavam à mercê das feras selvagens. Pregou com tanta força aos camponeses de Delsbo que, em seu tempo, todos os lobos e ursos foram exterminados daquela parte do país, embora possam ter retornado depois.
Aqui Bernhard terminou sua história. Recebeu elogios de todos os lados, e parecia coisa decidida que ele ganharia o prêmio. A maioria achava quase uma pena que Clement tivesse de competir com ele.
Mas Clement, sem se intimidar, começou:
— Certo dia, quando eu vivia em Skansen, logo nos arredores de Stockholm, e sentia saudades de casa...
Então contou sobre o minúsculo anãozinho que resgatara, para que não tivesse de ser encerrado numa jaula e ficar exposto aos olhares de toda a gente. Contou também que mal havia praticado aquele ato de misericórdia, já fora recompensado por ele. Falou e falou, e o espanto de seus ouvintes crescia cada vez mais; mas, quando chegou ao lacaio real e ao belo livro, todas as leiteiras deixaram cair seus trabalhos de agulha e ficaram olhando para Clement de olhos arregalados, maravilhadas com suas extraordinárias experiências.
Assim que Clement terminou, a mais velha das leiteiras anunciou que ele deveria receber o cachecol.
— Bernhard contou apenas coisas que aconteceram a outro, mas Clement foi ele próprio o herói de uma história verdadeira, o que considero muito mais importante.
Todos concordaram com isso. Passaram a olhar Clement com olhos muito diferentes depois de ouvir que ele falara com o Rei, e o pequeno violinista tinha medo de mostrar o orgulho que sentia. Mas, no auge de sua exaltação, alguém lhe perguntou que fim levara o anãozinho.
— Não tive tempo de pôr eu mesmo a tigela azul para ele — disse Clement —, por isso pedi ao velho lapão que o fizesse. O que aconteceu com ele desde então, não sei.
Mal acabara de falar, uma pequena pinha veio pelo ar e o atingiu no nariz. Não caíra de uma árvore, e nenhum dos camponeses a arremessara. Era simplesmente impossível dizer de onde viera.
— Ah, Clement! — piscou a leiteira. — Parece que o povo miúdo está nos escutando. Não deverias ter deixado a outro a tarefa de pôr aquela tigela azul!
Sexta-feira, dezessete de junho.
O menino e a águia estavam fora bem cedo na manhã seguinte. Gorgo esperava conseguir chegar bem ao alto, à Bótnia Ocidental, naquele dia. Por acaso, ouviu o menino comentar consigo mesmo que, num país como aquele por onde agora viajavam, devia ser impossível para as pessoas viverem.
A terra que se estendia abaixo deles era o sul de Medelpad. Quando a águia ouviu o comentário do menino, respondeu:
— Aqui em cima, eles têm florestas por campos.
O menino pensou no contraste entre os campos claros de centeio dourado, com suas hastes delicadas que brotam num só verão, e a escura floresta de abetos, com suas árvores sólidas, que levavam muitos anos para amadurecer até a colheita.
— Quem precisa tirar o sustento de um campo assim deve ter grande dose de paciência! — observou.
Nada mais foi dito até chegarem a um lugar onde a floresta havia sido derrubada, e o chão estava coberto de tocos e galhos cortados. Enquanto voavam sobre aquele terreno, a águia ouviu o menino murmurar consigo que era um lugar tremendamente feio e miserável.
— Este campo foi limpo no inverno passado — disse a águia.
O menino pensou nos ceifeiros de sua terra, que, nas belas manhãs de verão, seguiam em suas máquinas de ceifar e, em pouco tempo, cortavam um grande campo. Mas o campo da floresta era colhido no inverno. Os lenhadores saíam para o ermo quando a neve era profunda e o frio mais severo. Era trabalho penoso abater uma única árvore, e para derrubar uma floresta como aquela deviam ter passado muitas semanas ao ar livre.
— É preciso serem homens resistentes para ceifar um campo desta espécie — disse ele.
Quando a águia deu mais dois golpes de asa, avistaram uma cabana de troncos à beira da clareira. Não tinha janelas e, por porta, apenas duas tábuas soltas. O teto fora coberto de cascas e ramos, mas agora se abria em buracos, e o menino pôde ver que dentro da cabana havia somente algumas grandes pedras servindo de lareira e dois bancos de tábuas. Quando estavam sobre a cabana, a águia suspeitou que o menino se perguntava quem poderia ter vivido numa choça tão miserável como aquela.
— Os ceifeiros que colheram o campo da floresta viveram ali — disse a águia.
O menino lembrou-se de como os ceifeiros de sua terra voltavam do trabalho diário alegres e felizes, e de como o melhor que sua mãe tinha na despensa era sempre posto diante deles; ali, porém, depois do árduo trabalho do dia, deviam descansar em bancos duros, numa cabana pior que uma dependência de quintal. E o que tinham para comer ele não conseguia imaginar.
— Pergunto-me se há alguma festa da colheita para estes trabalhadores — questionou.
Um pouco mais adiante, viram abaixo deles uma estrada miseravelmente ruim, que serpenteava pela floresta. Era estreita e ziguezagueante, cheia de subidas, pedras e cortada por riachos em muitos lugares. Enquanto voavam sobre ela, a águia soube que o menino se perguntava o que era transportado por uma estrada como aquela.
— Por esta estrada a colheita foi levada ao monte — disse a águia.
O menino recordou como era divertido em sua terra quando as carroças da colheita, puxadas por dois cavalos robustos, levavam o grão do campo. O homem que guiava sentava-se orgulhoso no alto da carga; os cavalos dançavam e arrebitavam as orelhas, enquanto as crianças da aldeia, a quem se permitia subir aos feixes, ficavam ali rindo e gritando, meio contentes, meio assustadas. Mas ali os grandes troncos eram arrastados para cima e para baixo de colinas íngremes; ali os pobres cavalos deviam ser exigidos até o limite, e o condutor muitas vezes devia correr perigo.
— Receio que tenha havido muito pouca alegria por esta estrada — observou o menino.
A águia continuou voando com poderosos golpes de asa, e logo chegaram à margem de um rio coberta de troncos, lascas e cascas. A águia percebeu que o menino se perguntava por que tudo lá embaixo parecia tão entulhado.
— Aqui a colheita foi empilhada — disse-lhe a águia.
O menino pensou em como os montes de grão em sua parte do país eram empilhados perto das fazendas, como se fossem seus maiores ornamentos, enquanto ali a colheita era levada a uma praia desolada de rio e deixada ali.
— Pergunto-me se alguém, neste ermo, conta seus montes e os compara com os do vizinho — disse ele.
Pouco depois chegaram a Ljungen, um rio que desliza por um amplo vale. Imediatamente tudo se transformou tanto que bem poderiam pensar ter chegado a outro país. A escura floresta de abetos cessara nas encostas acima do vale, e os declives estavam vestidos de bétulas e álamos de troncos claros. O vale era tão largo que, em muitos lugares, o rio se alargava em lagos. Ao longo das margens estendia-se uma grande e florescente cidade.
Enquanto planavam sobre o vale, a águia percebeu que o menino se perguntava se os campos e prados dali poderiam prover sustento a tanta gente.
— Aqui vivem os ceifeiros que colhem os campos da floresta — disse a águia.
O menino pensava nas cabanas humildes e nas fazendas cercadas lá em Skåne quando exclamou:
— Ora, aqui os camponeses vivem em verdadeiros solares. Parece que vale a pena trabalhar na floresta!
A águia pretendia viajar diretamente para o norte, mas, quando voou sobre o rio, compreendeu que o menino se perguntava quem cuidava da madeira depois que ela era empilhada na margem.
O menino recordou quanto cuidado tinham em sua terra para nunca deixar que um grão se perdesse, enquanto ali havia grandes jangadas de troncos flutuando rio abaixo, abandonadas. Não podia acreditar que mais da metade dos troncos chegasse algum dia ao destino. Muitos flutuavam no meio da corrente, e para eles tudo corria suavemente; outros moviam-se perto da margem, chocando-se contra pontas de terra, e alguns ficavam para trás nas águas paradas dos riachos. Nos lagos havia tantos troncos que cobriam toda a superfície da água. Estes pareciam encalhados por tempo indefinido. Nas pontes ficavam presos; nas quedas amontoavam-se, depois se empilhavam em pirâmides e se partiam ao meio; adiante, nas corredeiras, eram detidos pelas pedras e acumulados em grandes montões.
— Pergunto-me quanto tempo leva para os troncos chegarem ao moinho — disse o menino.
A águia continuou seu voo lento rio abaixo, pelo Ljungen. Sobre muitos lugares, parava no ar com as asas abertas, para que o menino pudesse ver como se fazia aquele tipo de trabalho de colheita.
Pouco depois chegaram a um lugar onde os madeireiros trabalhavam. A águia notou que o menino se perguntava o que faziam.
— São estes que cuidam de toda a colheita atrasada — disse a águia.
O menino lembrou-se da perfeita facilidade com que sua gente, em casa, levava o grão ao moinho. Ali os homens corriam ao longo das margens com longos ganchos de barco, e com esforço e fadiga impeliam os troncos adiante. Entravam na água do rio e ficavam encharcados da cabeça aos pés. Saltavam de pedra em pedra, muito para dentro das corredeiras, e caminhavam sobre os montes de troncos rolantes tão calmamente como se estivessem em terreno plano. Eram homens ousados e decididos.
— Ao observar isto, lembro-me dos moldadores de ferro nos distritos mineiros, que brincam com o fogo como se fosse perfeitamente inofensivo — observou o menino. — Estes madeireiros brincam com a água como se fossem seus senhores. Parecem tê-la subjugado, de modo que ela não ousa lhes fazer mal.
Pouco a pouco, aproximaram-se da foz do rio, e a Baía de Bótnia estava adiante deles. Gorgo não voou mais em linha reta para a frente, mas seguiu para o norte ao longo da costa. Antes de terem viajado muito longe, viram um acampamento madeireiro tão grande quanto uma pequena cidade. Enquanto a águia circulava de um lado para outro acima dele, ouviu o menino observar que aquele lugar parecia interessante.
— Aqui tens o grande acampamento madeireiro chamado Svartvik — disse a águia.
O menino pensou no moinho de sua terra, que ficava pacificamente mergulhado na folhagem e movia as asas muito devagar. Este moinho, onde se moía a colheita da floresta, erguia-se sobre a água.
O açude da serraria estava abarrotado de troncos. Um por um, os ajudantes os agarravam com seus ganchos, empurravam-nos para as calhas e os apressavam em direção às serras giratórias. O que acontecia aos troncos lá dentro, o menino não podia ver, mas ouvia altos zumbidos e estrondos, e da outra extremidade da casa saíam pequenos vagões carregados de tábuas brancas. Os vagões corriam sobre trilhos brilhantes até o pátio de madeira, onde as tábuas eram empilhadas em fileiras, formando ruas — como quarteirões de casas numa cidade. Num lugar construíam novas pilhas; noutro desmontavam as antigas. Estas eram levadas a bordo de dois grandes navios que esperavam carga. O lugar fervilhava de operários, e no bosque, atrás do pátio, ficavam suas casas.
— Logo conseguirão serrar todas as florestas de Medelpad, se trabalharem deste modo — disse o menino.
A águia moveu apenas um pouco as asas e levou o menino acima de outro grande acampamento, muito parecido com o primeiro, com a serraria, o pátio, o cais e as casas dos operários.
— Este se chama Kukikenborg — disse a águia.
Bateu lentamente as asas, passou por dois grandes acampamentos madeireiros e aproximou-se de uma grande cidade. Quando a águia ouviu o menino perguntar seu nome, gritou:
— Esta é Sundsvall, o solar dos distritos madeireiros.
O menino lembrou-se das cidades de Skåne, que pareciam tão velhas, cinzentas e solenes; ao passo que ali, no Norte agreste, a cidade de Sundsvall se voltava para uma bela baía e parecia jovem, feliz e radiante. Havia algo singular na cidade quando vista de cima, pois no meio erguia-se um agrupamento de altas construções de pedra, tão imponentes que dificilmente se encontraria igual em Stockholm. Ao redor dos edifícios de pedra havia um grande espaço aberto; depois vinha uma coroa de casas de madeira, que pareciam bonitas e aconchegantes em seus pequenos jardins; mas pareciam conscientes de que eram muito mais pobres que as casas de pedra e não ousavam aventurar-se em sua vizinhança.
— Esta deve ser uma cidade rica e poderosa — observou o menino. — Será possível que o pobre solo da floresta seja a fonte de tudo isto?
A águia bateu de novo as asas e seguiu para a Ilha Aln, que fica defronte de Sundsvall. O menino ficou muito surpreendido ao ver todas as serrarias que adornavam as margens. Na Ilha Aln, elas se erguiam uma ao lado da outra, e, no continente defronte, havia serraria após serraria, pátio de madeira após pátio de madeira. Contou pelo menos quarenta, mas acreditou que houvesse muitas mais.
— Como tudo isto parece maravilhoso aqui de cima! — maravilhou-se. — Tanta vida e atividade não vi em lugar algum, salvo aqui, durante toda a viagem. É um grande país o que temos! Aonde quer que eu vá, há sempre alguma coisa nova da qual as pessoas tiram sustento.
Sábado, dezoito de junho.
Na manhã seguinte, quando a águia havia voado certa distância para dentro de Ångermanland, observou que naquele dia era ela quem estava com fome e precisava encontrar algo para comer. Deixou o menino num enorme pinheiro, sobre uma alta crista de montanha, e saiu voando.
O menino encontrou um assento cômodo numa forquilha, de onde podia olhar para baixo sobre Ångermanland. Era uma manhã gloriosa! A luz do sol dourava as copas das árvores; uma brisa suave brincava nas agulhas dos pinheiros; a mais doce fragrância vinha da floresta; uma bela paisagem se estendia diante dele; e o próprio menino estava feliz e sem preocupações. Sentia que ninguém poderia estar melhor.
Tinha uma vista perfeita em todas as direções. A terra a oeste era toda picos e planaltos, e quanto mais distantes ficavam, mais altos e selvagens pareciam. A leste também havia muitos picos, mas estes desciam cada vez mais rumo ao mar, onde a terra se tornava perfeitamente plana. Por toda parte via rios e riachos cintilantes, que faziam penosa jornada entre corredeiras e quedas enquanto corriam entre montanhas, mas se alargavam claros e amplos ao se aproximarem da costa. A Baía de Bótnia era salpicada de ilhas e recortada por pontas, mas mais adiante havia água aberta e azul, como um céu de verão.
Quando o menino se fartou da paisagem, desatou a mochila, tirou um pedaço de fino pão branco e começou a comer.
— Creio que nunca provei pão tão bom — disse ele. — E quanto ainda me resta! Há o bastante para durar uns dois dias. — Enquanto mastigava, pensou em como havia conseguido o pão.
— Deve ser porque o obtive de maneira tão bonita que ele me parece tão gostoso — disse.
A águia-real deixara Medelpad na tarde anterior. Mal havia cruzado a fronteira de Ångermanland, quando o menino avistou um vale fértil e um rio que superavam tudo do gênero que ele vira antes.
Ao olhar para baixo, para o rico vale, o menino queixou-se de estar com fome. Não comia havia dois dias inteiros, disse, e agora estava faminto. Gorgo não queria que se dissesse que o menino passara pior em sua companhia do que quando viajava com os gansos selvagens; por isso diminuiu a velocidade.
— Por que não falaste disso antes? — perguntou. — Terás toda a comida que quiseres. Não há necessidade de passares fome quando tens uma águia por companheira de viagem.
Nesse instante, a águia avistou um lavrador que semeava um campo perto da margem do rio. O homem carregava as sementes numa cesta suspensa ao pescoço, e, cada vez que ela se esvaziava, tornava a enchê-la num saco de sementes que estava na extremidade do sulco. A águia raciocinou que o saco devia estar cheio do melhor alimento que o menino poderia desejar, e lançou-se em direção a ele. Mas, antes que a ave pudesse chegar lá, ergueu-se ao seu redor um clamor terrível. Pardais, corvos e andorinhas precipitaram-se com gritos selvagens, pensando que a águia pretendia cair sobre alguma ave.
— Fora, fora, salteadora! Fora, fora, matadora de aves! — gritavam. Fizeram tamanho alarido que atraíram o lavrador, que veio correndo, de modo que Gorgo teve de fugir, e o menino não conseguiu nenhuma semente.
Os pequenos pássaros comportaram-se da maneira mais extraordinária. Não só forçaram a águia a fugir, como a perseguiram por longa distância vale abaixo, e por toda parte as pessoas ouviam seus gritos. Mulheres saíam e batiam palmas, de modo que o som parecia uma descarga de mosquetes, e os homens corriam para fora com espingardas.
A mesma coisa se repetia toda vez que a águia se precipitava em direção ao chão. O menino abandonou a esperança de que a águia pudesse conseguir-lhe comida. Nunca lhe ocorrera antes que Gorgo fosse tão odiada. Quase teve pena dela.
Pouco depois chegaram a uma propriedade onde a dona de casa acabara de assar pão. Ela pusera uma travessa de pãezinhos açucarados no quintal para esfriar e estava de pé ao lado dela, vigiando para que o gato e o cão não roubassem os pães.
A águia desceu em círculos até o quintal, mas não ousou pousar bem debaixo dos olhos da camponesa. Voou para cima e para baixo, indecisa; duas vezes desceu até a altura da chaminé, depois subiu novamente.
A camponesa notou a águia. Ergueu a cabeça e a acompanhou com o olhar.
— Como ela age de modo peculiar! — observou. — Creio que quer um dos meus pãezinhos.
Era uma bela mulher, alta e clara, de semblante alegre e aberto. Rindo de bom coração, tirou um pão da travessa e o ergueu acima da cabeça.
— Se o queres, vem buscá-lo! — desafiou.
Embora a águia não compreendesse sua língua, soube imediatamente que ela lhe oferecia o pão. Com rapidez de relâmpago, precipitou-se sobre o pão, arrebatou-o e voou em direção às alturas.
Quando o menino viu a águia apanhar o pão, chorou de alegria — não porque escaparia de sofrer fome por alguns dias, mas porque ficou tocado pelo gesto da camponesa, que partilhara seu pão com uma ave de rapina selvagem.
Onde agora estava sentado, no galho do pinheiro, podia recordar à vontade a mulher alta e clara, tal como estivera no quintal, erguendo o pão.
Ela devia saber que a grande ave era uma águia-real — uma saqueadora, normalmente recebida com tiros ruidosos; sem dúvida também vira o estranho enjeitado que ela carregava nas costas. Mas não pensara no que eles eram. Assim que compreendeu que estavam famintos, repartiu com eles seu bom pão.
— Se algum dia eu voltar a ser humano — pensou o menino —, procurarei a bela mulher que mora perto do grande rio e lhe agradecerei por sua bondade para conosco.
Enquanto o menino ainda tomava seu desjejum, sentiu um leve cheiro de fumaça vindo do norte. Voltou-se e viu uma pequena espiral, branca como névoa, erguer-se de uma crista de floresta — não da mais próxima, mas da que ficava além dela. Parecia estranho ver fumaça na floresta selvagem, mas talvez houvesse por lá uma fazenda de pasto na montanha, e as mulheres estivessem fervendo o café da manhã.
Era notável o modo como a fumaça aumentava e se espalhava! Não podia vir de uma fazenda; talvez, porém, houvesse carvoarias na floresta.
A fumaça crescia a cada instante. Agora se enrolava por todo o cume da montanha. Não era possível que tanta fumaça viesse de uma carvoaria. Devia haver algum tipo de incêndio, pois muitas aves voavam para a crista mais próxima. Falcões, tetrazes e outras aves tão pequenas que era impossível reconhecê-las a tal distância fugiam do fogo.
A pequenina espiral branca de fumaça cresceu até formar uma espessa nuvem branca, que rolou sobre a beira da crista e desceu para o vale. Centelhas e flocos de fuligem saltavam das nuvens, e aqui e ali se podia ver uma chama vermelha no meio da fumaça. Um grande fogo rugia por ali, mas o que estaria queimando? Certamente não havia nenhuma grande fazenda escondida na floresta.
A origem de tal incêndio devia ser mais que uma fazenda. Agora a fumaça vinha não só da crista, mas também do vale abaixo dela, que o menino não podia ver, porque a crista seguinte lhe obstruía a vista. Grandes nuvens de fumaça subiam; a própria floresta estava ardendo!
Era-lhe difícil compreender a ideia de que os pinheiros frescos e verdes pudessem arder. Se fosse realmente a floresta que estava queimando, talvez o fogo se espalhasse até ele. Parecia improvável; mas desejava que a águia voltasse logo. O melhor seria afastar-se dali. O simples cheiro da fumaça, que aspirava a cada respiração, era um tormento.
De repente, ouviu um crepitar e um estalar terríveis. Vinham da crista mais próxima dele. Ali, no ponto mais alto, erguia-se um pinheiro alto como aquele em que ele estava sentado. Um momento antes, fora de um vermelho esplêndido à luz da manhã. Agora todas as agulhas relampejavam, e o pinheiro pegou fogo. Nunca antes parecera tão belo! Mas era a última vez que podia exibir qualquer beleza, pois o pinheiro foi a primeira árvore da crista a arder. Era impossível dizer como as chamas o haviam alcançado. Teria o fogo voado em asas vermelhas, ou rastejado pelo chão como uma serpente? Não era fácil dizê-lo, mas ali estava ele, de todo modo. O grande pinheiro ardia como um tronco de bétula.
Ah, vede! Agora a fumaça se enroscava em muitos lugares da crista. O incêndio da floresta era ao mesmo tempo ave e serpente. Podia voar pelo ar por largas extensões, ou esgueirar-se pelo chão. Toda a crista estava em chamas!
Houve uma fuga apressada de aves que subiam em círculos através da fumaça como grandes flocos de fuligem. Voaram através do vale e vieram para a crista onde o menino estava sentado. Uma coruja-de-chifres pousou ao lado dele, e num galho logo acima pousou uma fêmea de falcão. Em qualquer outro momento, essas teriam sido vizinhas perigosas, mas agora nem sequer lançaram um olhar em sua direção — apenas fitavam o fogo. Provavelmente não conseguiam compreender o que havia de errado com a floresta. Uma marta subiu correndo pelo pinheiro até a ponta de um galho e olhou para as alturas ardentes. Bem ao lado da marta sentava-se um esquilo, mas não pareciam notar um ao outro.
Agora o fogo vinha precipitando-se encosta abaixo, silvando e rugindo como um tornado. Através da fumaça, podia-se ver as chamas saltarem de árvore em árvore. Antes que um ramo pegasse fogo, era primeiro envolto por um fino véu de fumaça; depois todas as agulhas se tornavam vermelhas ao mesmo tempo, e ele começava a crepitar e flamejar.
No vale abaixo corria um pequeno riacho, margeado por olmos e pequenas bétulas. Parecia que as chamas se deteriam ali. Árvores frondosas não se inflamam tão prontamente quanto os abetos. O fogo de fato parou, como diante de um portão que pudesse detê-lo. Resplandeceu, crepitou e tentou saltar por cima do riacho até o pinhal do outro lado, mas não conseguiu alcançá-lo.
Por breve tempo o fogo ficou assim contido; então lançou uma longa labareda até o grande pinheiro seco que se erguia na encosta, e este logo ficou em chamas. O fogo atravessara o riacho! O calor era tão intenso que cada árvore da montanha estava pronta para arder. Com o fragor e o ímpeto da mais louca tempestade e da mais selvagem torrente, o incêndio da floresta voou para a crista.
Então o falcão e a coruja ergueram voo, e a marta disparou árvore abaixo. Em poucos segundos mais, o fogo alcançaria o topo do pinheiro, e também o menino teria de se mover. Não era fácil escorregar pelo longo e reto tronco do pinheiro. Agarrou-se a ele com toda a firmeza que pôde e deslizou em longos trechos entre os galhos nodosos; por fim, despencou de cabeça no chão. Não teve tempo de descobrir se se machucara — apenas de fugir depressa. O fogo descia pelo pinheiro como uma tempestade furiosa; o chão sob seus pés estava quente e fumegante. De cada lado dele corriam um lince e uma víbora, e bem junto à serpente esvoaçava uma mãe tetraz que se apressava com seus pequenos filhotes penugentos.
Quando os refugiados desceram a montanha para o vale, encontraram pessoas combatendo o fogo. Estavam ali havia algum tempo, mas o menino fitara tão intensamente a direção do incêndio que não as percebera antes.
Naquele vale havia um riacho, margeado por uma fileira de árvores frondosas, e atrás dessas árvores trabalhavam as pessoas. Derrubavam os abetos mais próximos dos olmos, tiravam água do riacho e a derramavam sobre o chão, lavando urzes e murtas para impedir que o fogo se esgueirasse até as moitas de bétulas.
Elas também pensavam apenas no fogo, que agora avançava impetuosamente em sua direção. Os animais em fuga corriam por entre os pés dos homens, entrando e saindo, sem atrair atenção. Ninguém golpeava a víbora nem tentava apanhar a mãe tetraz enquanto ela corria de um lado para outro com seus pequenos filhotes piadores. Nem sequer se ocuparam de Polegarzinho. Nas mãos seguravam grandes galhos carbonizados de pinheiro que haviam caído no riacho, e parecia que pretendiam desafiar o fogo com aquelas armas. Não eram muitos homens, e era estranho vê-los ali de pé, prontos para lutar, quando todas as outras criaturas vivas fugiam.
Quando o fogo veio rugindo e precipitando-se encosta abaixo, com seu calor intolerável e sua fumaça sufocante, pronto para se arremessar por sobre o riacho e a muralha de árvores frondosas a fimcho e a muralha de árvores frondosas a fim de alcançar a margem oposta sem precisar parar, as pessoas recuaram a princípio, como se não pudessem resistir; mas não fugiram longe antes de se voltarem.
O incêndio rugia com força selvagem, centelhas caíam como uma chuva de fogo sobre as árvores frondosas, e longas línguas de chama disparavam sibilantes para fora da fumaça, como se a floresta do outro lado as sugasse para dentro.
Mas a muralha de árvores frondosas era um obstáculo atrás do qual os homens trabalhavam. Quando o chão começava a fumegar, eles traziam água em seus recipientes e o umedeciam. Quando uma árvore se enlaçava em fumaça, derrubavam-na imediatamente, atiravam-na ao chão e apagavam as chamas. Onde o fogo rastejava pela urze, batiam nele com os galhos molhados de pinheiro e o sufocavam.
A fumaça era tão densa que envolvia tudo. Não era possível ver como ia a batalha, mas era bastante fácil compreender que era uma luta dura, e que várias vezes o fogo chegou perto de penetrar mais adiante.
Mas vede! Depois de algum tempo, o forte rugido das chamas diminuiu, e a fumaça se dissipou. A essa altura, as árvores frondosas haviam perdido toda a folhagem, o chão sob elas estava carbonizado, os rostos dos homens estavam enegrecidos pela fumaça e gotejavam suor; mas o incêndio da floresta fora vencido. Deixara de se erguer em labaredas. Uma fumaça branca e suave rastejava pelo chão, e dela espiavam muitos tocos negros. Era tudo o que restava da bela floresta!
O menino escalou com dificuldade uma rocha, para ver como o fogo fora extinto. Mas agora que a floresta estava salva, começava seu perigo. A coruja e o falcão voltaram simultaneamente os olhos para ele. Nesse instante ouviu uma voz familiar chamá-lo.
Gorgo, a águia-real, veio varrendo a floresta, e logo o menino subia entre as nuvens — salvo de todos os perigos.
Certa vez, em Skansen, o menino estivera sentado sob os degraus da cabana de Bollnäs e ouvira Clement Larsson e o velho lapão conversarem sobre Norrland. Ambos concordavam que era a parte mais bela da Suécia. Clement achava que a parte meridional era a melhor, enquanto o lapão favorecia a parte setentrional.
Enquanto discutiam, tornou-se claro que Clement nunca estivera mais ao norte que Härnösand. O lapão riu dele por falar com tanta segurança de lugares que nunca vira.
— Creio que terei de te contar uma história, Clement, para te dar alguma ideia da Lapônia, já que não a viste — ofereceu-se o lapão.
— Não se dirá de mim que me recuso a ouvir uma história — retrucou Clement, e o velho lapão começou:
— Aconteceu certa vez que as aves que viviam lá embaixo, na Suécia, ao sul da grande Saméland, pensaram que estavam apertadas demais ali e propuseram mudar-se para o norte.
— Reuniram-se para considerar o assunto. As aves jovens e impacientes queriam partir imediatamente, mas as mais velhas e mais sábias aprovaram uma resolução para enviar exploradores que examinassem a nova terra.
— “Que cada uma das cinco grandes famílias de aves envie um explorador” — disseram as aves velhas e sábias —, “para saber se há lugar para todos nós lá em cima — alimento e esconderijos.”
— Cinco aves inteligentes e capazes foram imediatamente designadas pelas cinco grandes famílias de aves.
— As aves da floresta escolheram um tetraz; as aves dos campos, uma cotovia; as aves do mar, uma gaivota; as aves de água doce, um mergulhão; e as aves dos penhascos, um pardal-das-neves.
— Quando os cinco escolhidos estavam prontos para partir, o tetraz, que era o maior e mais imponente, disse:
— “Há grandes extensões de terra à nossa frente. Se viajarmos juntos, demoraremos muito a cobrir todo o território que devemos explorar. Se, por outro lado, viajarmos separadamente — cada qual explorando sua porção especial do país —, toda a tarefa poderá ser realizada em poucos dias.”
— Os outros exploradores julgaram boa a sugestão e concordaram em agir segundo ela.
— Decidiu-se que o tetraz exploraria as terras centrais. A cotovia viajaria para o leste; a gaivota, ainda mais para o leste, onde a terra margeava o mar; enquanto o mergulhão voaria sobre o território a oeste das terras centrais, e o pardal-das-neves, para o extremo oeste.
— De acordo com esse plano, as cinco aves voaram sobre toda a Terra do Norte. Depois voltaram e contaram à assembleia das aves o que haviam descoberto.
— A gaivota, que viajara ao longo da costa marítima, falou primeiro.
— “O Norte é um belo país” — disse ela. — “Os estreitos estão cheios de peixes, e há pontas e ilhas sem número. A maioria delas é desabitada, e as aves encontrarão ali espaço de sobra. Os humanos pescam um pouco e navegam pelos estreitos, mas não o bastante para perturbar as aves. Se as aves marinhas seguirem meu conselho, mudar-se-ão imediatamente para o norte.”
— Quando a gaivota terminou, a cotovia, que explorara a terra para além da costa, falou:
— “Não sei o que a gaivota quer dizer com suas ilhas e pontas” — disse a cotovia. — “Viajei apenas sobre grandes campos e prados floridos. Nunca antes vi um país atravessado por tantos grandes cursos d’água. Suas margens são salpicadas de propriedades, e na foz dos rios há cidades; mas, em sua maior parte, o país é muito desolado. Se as aves dos campos seguirem meu conselho, mudar-se-ão imediatamente para o norte.”
— Depois da cotovia veio o tetraz, que havia voado sobre as terras centrais.
— “Não sei o que a cotovia quer dizer com seus prados, nem a gaivota com suas ilhas e pontas” — disse ele. — “Nesta viagem inteira, não vi senão florestas de pinheiros. Há também muitos cursos d’água impetuosos e grandes extensões de pântanos cobertos de musgo; mas tudo que não é rio nem brejo é floresta. Se as aves da floresta seguirem meu conselho, mudar-se-ão imediatamente para o norte.”
— Depois do tetraz veio o mergulhão, que explorara a região fronteiriça a oeste.
— “Não sei o que o tetraz quer dizer com suas florestas, nem sei onde poderiam estar os olhos da cotovia e da gaivota” — observou o mergulhão. — “Mal há terra lá em cima — apenas grandes lagos. Entre belas margens reluzem lagos claros e azuis de montanha, que se despejam em cachoeiras rugidoras. Se as aves de água doce seguirem meu conselho, mudar-se-ão imediatamente para o norte.”
— O último a falar foi o pardal-das-neves, que havia voado ao longo da fronteira ocidental.
— “Não sei o que o mergulhão quer dizer com seus lagos, nem sei que países o tetraz, a cotovia e a gaivota podem ter visto” — disse ele. — “Encontrei ao norte uma vasta região montanhosa. Não deparei com campos nem com florestas de pinheiros, mas com pico após pico e terras altas. Vi campos de gelo e neve, e riachos de montanha, com água branca como leite. Não vi lavradores, nem gado, nem propriedades; apenas lapões, renas e cabanas se ofereceram aos meus olhos. Se as aves dos penhascos seguirem meu conselho, mudar-se-ão imediatamente para o norte.”
— Quando os cinco exploradores apresentaram seus relatos à assembleia, começaram a chamar uns aos outros de mentirosos, e estavam prontos a se lançar uns contra os outros para provar a verdade de seus argumentos.
— Mas as aves velhas e sábias que os haviam enviado escutaram seus relatos com alegria e acalmaram suas inclinações combativas.
— “Não deveis brigar entre vós” — disseram. — “Compreendemos, por vossos relatos, que lá ao norte há grandes regiões de montanha, uma vasta região de lagos, grandes terras florestais, uma ampla planície e um grande grupo de ilhas. Isto é mais do que esperávamos — mais do que muitos reinos poderosos podem ostentar dentro de suas fronteiras.”
Sábado, dezoito de junho.
O menino se lembrara da história do velho lapão porque ele próprio viajava agora sobre a terra de que aquele falara. A águia lhe disse que a extensão de costa que se espalhava abaixo deles era Bótnia Ocidental, e que as cristas azuis muito a oeste ficavam na Lapônia.
Só o fato de estar novamente sentado com conforto no dorso de Gorgo, depois de tudo o que sofrera durante o incêndio da floresta, já era um prazer. Além disso, faziam uma bela viagem. O voo era tão fácil que, às vezes, parecia que estavam parados no ar. A águia batia e batia as asas, sem parecer mover-se do lugar; por outro lado, tudo debaixo deles parecia estar em movimento. A terra inteira e todas as coisas sobre ela moviam-se lentamente para o sul. As florestas, os campos, as cercas, os rios, as cidades, as ilhas, as serrarias — tudo marchava. O menino perguntava-se para onde se dirigiam. Ter-se-iam cansado de ficar tão ao norte e desejariam mover-se para o sul?
Entre todos os objetos em movimento, havia apenas um que permanecia parado: era um trem. Estava diretamente abaixo deles, pois com o trem se dava o mesmo que com Gorgo — não podia mover-se do lugar. A locomotiva lançava fumaça e faíscas. O estrépito das rodas podia ser ouvido até lá em cima, onde estava o menino, mas o trem não parecia mover-se. As florestas passavam correndo; a parada de bandeira passava correndo; cercas e postes telegráficos passavam correndo; mas o trem permanecia imóvel. Um rio largo, com uma longa ponte, veio ao seu encontro, mas o rio e a ponte deslizaram sob o trem com perfeita facilidade. Por fim, surgiu uma estação ferroviária. O chefe da estação estava na plataforma com sua bandeira vermelha e movia-se lentamente em direção ao trem.
Quando ele agitou sua pequena bandeira, a locomotiva expeliu rolos de fumaça ainda mais escuros que antes e apitou tristemente porque precisava ficar parada. De repente, começou a mover-se para o sul, como todas as outras coisas.
O menino viu todas as portas dos vagões se abrirem e os passageiros descerem, enquanto tanto os vagões como as pessoas se moviam para o sul.
Desviou os olhos da terra e tentou olhar diretamente para a frente. Fitar aquele estranho trem lhe dera vertigem; mas, depois de contemplar por um momento uma pequena nuvem branca, cansou-se dela e tornou a olhar para baixo — pensando o tempo todo que a águia e ele estavam inteiramente parados, e que todo o resto viajava para o sul. Imaginai! Suponhamos que o campo de trigo que naquele instante corria sob ele — e que devia ter sido semeado havia pouco, pois ele vira nele uma lâmina verde — viajasse até Skåne, onde o centeio estava em plena flor naquela estação!
Lá em cima, as florestas de pinheiros eram diferentes: as árvores eram nuas, os ramos curtos, e as agulhas quase negras. Muitas árvores estavam calvas no topo e pareciam enfermas. Se uma floresta assim viajasse até Kolmården e visse uma floresta de verdade, como se sentiria inferior!
Os jardins que ele via agora tinham alguns arbustos bonitos, mas nenhuma árvore frutífera, nenhuma tília, nenhum castanheiro — apenas sorveiras e bétulas. Havia alguns canteiros de hortaliças, mas ainda não tinham sido cavados nem plantados.
— Se uma desculpa de jardim como esta entrasse arrastando-se em Sörmland, a província dos jardins, não se julgaria um pobre ermo em comparação?
Imaginai uma imensa planície como aquela que agora deslizava sob ele chegando bem diante dos olhos dos pobres camponeses de Småland! Eles se apressariam a deixar seus canteiros magros e seus campos pedregosos para começar a arar e semear.
Havia uma coisa, porém, que esta Terra do Norte possuía em maior abundância que as outras terras: luz. A noite devia ter caído, pois os grou dormiam no brejo; mas estava claro como de dia. O sol não viajara para o sul, como todas as outras coisas. Em vez disso, fora tão longe para o norte que brilhava no rosto do menino. Ao que parecia, não tinha nenhuma intenção de se pôr naquela noite.
Se apenas essa luz e esse sol brilhassem sobre West Vemmenhög! Seria perfeito para o pai e a mãe do menino terem um dia de trabalho que durasse vinte e quatro horas.
Domingo, dezenove de junho.
O menino ergueu a cabeça e olhou ao redor, completamente desnorteado. Era muito estranho! Ali estava ele, dormindo em algum lugar onde jamais estivera antes. Não, nunca vira aquele vale, nem as montanhas ao redor; e nunca notara bétulas tão mirradas e encolhidas como aquelas sob as quais agora jazia.
Onde estava a águia? O menino não via sinal dela. Gorgo devia tê-lo abandonado. Bem, ali estava outra aventura!
O menino deitou-se outra vez, fechou os olhos e tentou recordar as circunstâncias em que havia adormecido.
Lembrava-se de que, enquanto viajava sobre Bótnia Ocidental, imaginara que a águia e ele estavam imóveis no ar, e que a terra sob eles se movia para o sul. Quando a águia virou para noroeste, o vento veio daquele lado, e ele sentiu novamente uma corrente de ar, de modo que a terra abaixo parou de se mover e ele percebeu que a águia o levava adiante com velocidade terrível.
— Agora estamos voando para a Lapônia — dissera Gorgo, e o menino inclinara-se para a frente, a fim de ver a terra de que tanto ouvira falar.
Mas sentira-se um tanto desapontado por não ver senão grandes extensões de floresta e amplos pântanos. Floresta seguia pântano, e pântano seguia floresta. A monotonia de tudo aquilo por fim o deixou tão sonolento que quase despencou ao chão.
Disse à águia que não podia permanecer em suas costas nem mais um minuto, mas precisava dormir um pouco. Gorgo imediatamente desceu em rasante para o chão, onde o menino se deixou cair sobre um tufo de musgo. Então Gorgo pôs uma garra ao redor dele e tornou a elevar-se no ar com ele.
— Dorme, Polegarzinho! — gritou. — A luz do sol me mantém desperto, e quero continuar a viagem.
Embora o menino pendesse naquela posição incômoda, de fato cochilou e sonhou.
Sonhou que estava numa estrada larga no sul da Suécia, apressando-se tanto quanto suas perninhas podiam levá-lo. Não estava sozinho; muitos viajantes marchavam na mesma direção. Bem ao seu lado marchavam hastes de centeio cheias de grão, centáureas floridas e margaridas amarelas. Macieiras carregadas avançavam bufando, seguidas por pés de feijão cobertos de ramas, grandes tufos de margaridas brancas e massas de arbustos de bagas. Altas faias, carvalhos e tílias passeavam vagarosamente no meio da estrada, balançando os ramos, e não se desviavam para ninguém. Entre os pés minúsculos do menino corriam as florzinhas — flores de morangueiro silvestre, anêmonas brancas, trevos e miosótis. A princípio, pensou que apenas a família vegetal estivesse em marcha, mas logo viu que animais e pessoas os acompanhavam. Os insetos zumbiam ao redor dos arbustos em avanço; os peixes nadavam em valas que se moviam; as aves cantavam em árvores passeantes. Animais mansos e selvagens corriam, e entre tudo isso moviam-se pessoas — umas com pás e foices, outras com machados, e outras ainda com redes de pesca.
A procissão marchava com alegria e contentamento, e ele não se admirou disso quando viu quem a conduzia. Não era menos que o próprio Sol, que rolava adiante como uma grande cabeça brilhante, com cabelos de raios de muitas cores e um semblante radiante de jovialidade e bondade!
— Adiante, marcha! — não cessava de chamar. — Ninguém precisa sentir ansiedade enquanto eu estiver aqui. Adiante, marcha!
— Pergunto-me para onde o Sol quer nos levar — observou o menino. Uma haste de centeio que caminhava ao lado dele o ouviu e respondeu imediatamente:
— Ele quer nos levar lá para cima, à Lapônia, para combater a Bruxa do Gelo.
Pouco depois, o menino notou que alguns dos viajantes hesitavam, diminuíam o passo e, por fim, ficavam completamente parados. Viu que a alta faia parara, e que o corço e a haste de trigo se detinham à beira do caminho; do mesmo modo o arbusto de amora, o pequeno ranúnculo amarelo, o castanheiro e o tetraz.
Olhou ao redor e tentou descobrir por que tantos paravam. Então percebeu que já não estavam no sul da Suécia. A marcha fora tão rápida que já se encontravam em Svealand.
Lá em cima, o carvalho começou a mover-se com mais cautela. Parou um pouco para considerar, deu alguns passos vacilantes e então ficou imóvel.
— Por que o carvalho não vem também? — perguntou o menino.
— Tem medo da Bruxa do Gelo — disse uma jovem bétula clara, que saltitava com tanta audácia e alegria que era um prazer contemplá-la. A multidão apressou-se como antes. Em pouco tempo chegaram a Norrland, e agora de nada adiantava que o Sol gritasse e persuadisse — a macieira parou, a cerejeira parou, a haste de centeio parou!
O menino voltou-se para eles e perguntou:
— Por que não vindes também? Por que abandonais o Sol?
— Não ousamos! Temos medo da Bruxa do Gelo, que vive na Lapônia — responderam.
O menino compreendeu que estavam muito ao norte, pois a procissão ficava cada vez mais rala. A haste de centeio, a cevada, o morangueiro silvestre, o arbusto de mirtilo, o pé de ervilha, a groselheira haviam chegado até ali. O alce e a vaca doméstica caminhavam lado a lado, mas agora paravam. O Sol sem dúvida teria ficado quase abandonado se novos seguidores não tivessem surgido. Moitas de salgueiros e muita vegetação arbustiva juntaram-se à procissão. Lapões e renas, coruja-das-montanhas, raposa-das-montanhas e tetraz-dos-salgueiros seguiram-no.
Então o menino ouviu algo vindo ao encontro deles. Viu grandes rios e riachos avançando com terrível força.
— Por que têm tanta pressa? — perguntou.
— Fogem da Bruxa do Gelo, que vive lá em cima, nas montanhas.
De repente, o menino viu diante de si uma alta muralha escura, com torres. No mesmo instante, o Sol voltou seu rosto radiante para essa muralha e inundou-a de luz. Então ficou evidente que não era muralha alguma, mas as mais gloriosas montanhas, que se erguiam — uma atrás da outra. Seus picos eram rosados à luz do sol, suas encostas azuis e tingidas de ouro.
— Adiante, adiante! — incitou o Sol, enquanto escalava os penhascos íngremes. — Não há perigo enquanto eu estiver convosco.
Mas, a meio caminho da subida, a jovem bétula ousada desertou — e também o pinheiro robusto, o abeto persistente, e ali também desertaram o lapão e as moitas de salgueiro. Por fim, quando o Sol alcançou o topo, não havia ninguém senão o pequeno Nils Holgersson, que o seguira.
O Sol rolou para dentro de uma caverna, cujas paredes estavam adornadas de gelo, e Nils Holgersson quis segui-lo; mas além da entrada da caverna não ousou aventurar-se, pois lá dentro viu algo terrível.
Bem no fundo da caverna estava sentada uma velha bruxa, com corpo de gelo, cabelos de pingentes e um manto de neve!
A seus pés jaziam três lobos negros, que se ergueram e abriram as mandíbulas quando o Sol se aproximou. Da boca de um vinha um frio cortante; da do segundo, um vento norte tempestuoso; e da do terceiro, uma escuridão impenetrável.
— Esta deve ser a Bruxa do Gelo e sua tribo — pensou o menino.
Compreendeu que agora era tempo de fugir, mas estava tão curioso para ver o desfecho do encontro entre o Sol e a Bruxa do Gelo que se demorou.
A Bruxa do Gelo não se moveu — apenas voltou o rosto horrendo para o Sol. Isso continuou por breve tempo. Pareceu ao menino que a bruxa começava a suspirar e a tremer. Seu manto de neve caiu, e os três lobos ferozes uivaram menos selvagemente.
De súbito, o Sol gritou:
— Agora meu tempo terminou! — e rolou para fora da caverna.
Então a Bruxa do Gelo soltou seus três lobos. No mesmo instante, o Vento Norte, o Frio e a Escuridão precipitaram-se para fora da caverna e começaram a perseguir o Sol.
— Expulsai-o! Fazei-o voltar! — guinchou a Bruxa do Gelo. — Persegui-o tão longe que nunca mais possa regressar! Ensinai-lhe que a Lapônia é MINHA!
Mas Nils Holgersson sentiu-se tão infeliz ao ver que o Sol seria expulso da Lapônia que despertou com um grito. Quando recobrou os sentidos, achou-se no fundo de uma ravina.
Mas onde estava Gorgo? Como descobrir onde ele próprio se encontrava?
Levantou-se e olhou ao redor. Então aconteceu de lançar os olhos para cima e viu uma estrutura peculiar de galhos e ramos de pinheiro, erguida numa saliência do penhasco.
— Deve ser um daqueles ninhos de águia de que Gorgo... — Mas não foi além. Arrancou o gorro da cabeça, agitou-o no ar e soltou vivas.
Agora compreendia para onde Gorgo o havia trazido. Aquele era o próprio vale onde os gansos selvagens viviam no verão, e logo acima ficava o penhasco das águias.
Em poucos momentos encontraria Morten Ganso-Macho, Akka e todos os outros companheiros. Hurra!
Tudo estava quieto no vale. O sol ainda não havia subido acima dos penhascos, e Nils Holgersson sabia que era cedo demais para os gansos estarem despertos.
O menino caminhou devagar, procurando seus amigos. Antes de ir muito longe, parou com um sorriso, pois viu uma cena muito bonita. Uma gansa selvagem dormia num pequeno ninho bem arrumado, e ao lado dela estava seu ganso-macho. Ele também dormia, mas era evidente que se postara tão perto dela para estar a postos, caso surgisse algum perigo.
O menino seguiu adiante sem perturbá-los e espiou dentro das moitas de salgueiro que cobriam o chão. Não demorou muito para avistar outro casal de gansos. Eram estranhos, não pertenciam ao seu bando, mas ele estava tão feliz que começou a cantarolar — apenas por ter encontrado gansos selvagens.
Espiou em outro trecho de arbustos. Ali, finalmente, viu dois que lhe eram familiares.
Certamente era Neljä que nidificava ali, e o ganso-macho que estava ao lado dela era sem dúvida Kolme. Ora, naturalmente! O menino teve grande vontade de acordá-los, mas deixou-os dormir e afastou-se.
Na moita seguinte, viu Viisi e Kuusi, e não longe deles encontrou Yksi e Kaksi. Todos os quatro dormiam, e o menino passou sem perturbá-los. Ao aproximar-se da próxima moita, pensou ver algo branco cintilando entre os arbustos, e seu coração bateu de alegria. Sim, era como esperava. Lá dentro estava a delicada Dunfin, sentada num ninho cheio de ovos. Ao lado dela estava seu ganso-macho branco. Embora dormisse, era fácil ver como se sentia orgulhoso de velar por sua esposa ali em cima, entre as montanhas da Lapônia. O menino não quis acordar o ganso-macho, e por isso seguiu adiante.
Teve de procurar por muito tempo antes de encontrar mais gansos selvagens. Por fim, viu numa pequena elevação algo que se assemelhava a um tufo de musgo cinzento, e soube que ali estava Akka de Kebnekaise. Ela se mantinha de pé, bem desperta, olhando ao redor como se montasse guarda sobre todo o vale.
— Bom dia, Mamãe Akka! — disse o menino. — Por favor, não acordes os outros gansos ainda, pois desejo falar contigo em particular.
A velha gansa-chefe desceu correndo a colina e veio até o menino.
Primeiro agarrou-o e o sacudiu; depois o acariciou com o bico, antes de sacudi-lo novamente. Mas não disse uma palavra, já que ele lhe pedira que não acordasse os outros.
Polegarzinho beijou a velha Mamãe Akka nas duas faces; depois contou-lhe como fora levado para Skansen e mantido prisioneiro ali.
— Agora preciso te contar que Smirre Raposo, sem uma orelha, estava preso na jaula das raposas em Skansen — disse o menino. — Embora tenha sido muito mau conosco, não pude deixar de sentir pena dele. Havia muitas outras raposas na jaula, e pareciam bastante satisfeitas ali, mas Smirre ficava o tempo todo abatido, ansiando pela liberdade.
— Fiz muitos bons amigos em Skansen, e certo dia soube, pelo cão lapão, que um homem viera a Skansen para comprar raposas. Era de alguma ilha muito longe no oceano. Todas as raposas haviam sido exterminadas ali, e os ratos estavam prestes a levar vantagem sobre os habitantes; por isso queriam as raposas de volta.
— Assim que soube disso, fui à jaula de Smirre e lhe disse:
— “Amanhã alguns homens virão aqui buscar um casal de raposas. Não te escondas, Smirre, mas permanece bem à frente e cuida para que sejas escolhido. Então estarás livre outra vez.”
— Ele seguiu minha sugestão, e agora corre solto pela ilha. Que dizes disso, Mamãe Akka? Se estivesses em meu lugar, não terias feito o mesmo?
— Agiste de um modo que me faz desejar ter feito eu mesma tal coisa — disse a gansa-chefe, orgulhosa.
— É um alívio saber que aprovas — disse o menino. — Agora há ainda uma coisa sobre a qual desejo te perguntar:
— Certo dia, aconteceu de eu ver Gorgo, a águia — aquela que lutou com Morten Ganso-Macho —, prisioneiro em Skansen. Estava na jaula das águias e parecia tristemente abandonado. Pensei em limar o teto de arame sobre ele e deixá-lo sair, mas também pensei que ele era um salteador perigoso e comedor de aves, e me perguntei se eu estaria agindo corretamente ao soltar tal saqueador, e se talvez não fosse melhor deixá-lo ficar onde estava. Que dizes, Mamãe Akka? Foi justo pensar assim?
— Não, não foi justo! — retrucou Akka. — Dize o que quiseres das águias; elas são aves orgulhosas e mais amantes da liberdade que todas as outras. Não é justo mantê-las em cativeiro. Sabes o que eu sugeriria? Isto: assim que estiveres bem descansado, nós dois faremos juntos a viagem até a grande prisão das aves e libertaremos Gorgo.
— Era justamente essa a palavra que eu esperava de ti, Mamãe Akka — respondeu o menino, ansioso.
— Há quem diga que já não tens amor no coração por aquele que criaste com tanto carinho, porque ele vive como as águias precisam viver. Mas agora sei que isso não é verdade. E agora quero ver se Morten Ganso-Macho está acordado.
— Enquanto isso, se desejas dizer um “obrigado” àquele que me trouxe até ti, creio que o encontrarás lá em cima, na saliência do penhasco, onde certa vez encontraste uma aguiazinha indefesa.
No ano em que Nils Holgersson viajou com os gansos selvagens, todos falavam de duas crianças pequenas, um menino e uma menina, que atravessavam o país a pé. Vinham da freguesia de Sunnerbo, em Småland, e outrora haviam vivido com os pais e quatro irmãos e irmãs numa pequena cabana na charneca.
Quando as duas crianças, Osa e Mats, ainda eram pequenas, uma pobre mulher sem lar veio à sua cabana certa noite e pediu abrigo. Embora o lugar mal coubesse a família, ela foi acolhida, e a mãe lhe preparou uma cama no chão. Durante a noite, tossiu com tanta força que as crianças imaginaram que a casa tremia. Pela manhã estava doente demais para continuar suas andanças. O pai e a mãe das crianças foram tão bondosos com ela quanto puderam. Cederam-lhe a cama e dormiram no chão, enquanto o pai foi ao médico e lhe trouxe remédio.
Nos primeiros dias, a mulher enferma comportou-se como uma selvagem; exigia atenção constante e nunca pronunciava uma palavra de agradecimento. Mais tarde tornou-se mais submissa e, por fim, suplicou que a levassem para fora, à charneca, e a deixassem ali para morrer.
Quando seus anfitriões não quiseram ouvir falar disso, ela lhes contou que, nos últimos anos, vagueara com um bando de ciganos. Ela própria não era de sangue cigano, mas filha de um lavrador abastado. Fugira de casa e seguira com os nômades. Acreditava que uma cigana, enfurecida contra ela, lhe havia lançado aquela doença. E não era só isso: a cigana também a amaldiçoara, dizendo que todos aqueles que a acolhessem sob seu teto ou fossem bondosos com ela sofreriam destino semelhante. Ela acreditava nisso e, por isso, suplicou que a expulsassem de casa e nunca mais a vissem. Não queria trazer desgraça sobre gente tão boa. Mas os camponeses recusaram-se a obedecê-la. Era bem possível que estivessem alarmados, mas não eram espécie de gente capaz de pôr na rua uma pobre pessoa enferma.
Pouco depois ela morreu, e então vieram as desgraças. Antes, nunca houvera naquela cabana senão felicidade. Seus moradores eram pobres, mas não tão pobres assim. O pai era fabricante de pentes de tear, e a mãe e os filhos o ajudavam no trabalho. O pai fazia as armações; a mãe e os filhos mais velhos faziam a amarração, enquanto os menores aplainavam os dentes e os recortavam. Trabalhavam de manhã até a noite, mas o tempo passava agradavelmente, sobretudo quando o pai falava dos dias em que viajava por terras estrangeiras e vendia pentes de tear. O pai era tão alegre que às vezes a mãe e as crianças riam até lhes doerem os lados com suas pilhérias e gracejos engraçados.
As semanas que se seguiram à morte da pobre vagabunda permaneceram na memória das crianças como um horrível pesadelo. Não sabiam se aquele tempo fora longo ou curto, mas lembravam-se de que estavam sempre tendo funerais em casa. Um após outro, perderam os irmãos e irmãs. Por fim, a cabana ficou muito quieta e triste.
A mãe conservava alguma medida de coragem, mas o pai já não era em nada parecido consigo mesmo. Já não podia trabalhar nem gracejar, mas ficava sentado da manhã à noite, a cabeça enterrada nas mãos, apenas cismando.
Certa vez — depois do terceiro enterro — o pai irrompera em falas desvairadas, que assustaram as crianças. Disse que não conseguia compreender por que tais desgraças haviam caído sobre eles. Haviam praticado uma boa ação ao ajudar a mulher enferma. Poderia ser verdade, então, que o mal neste mundo fosse mais poderoso que o bem?
A mãe tentou fazê-lo raciocinar, mas não conseguiu acalmá-lo.
Poucos dias depois, a filha mais velha foi atingida. Ela sempre fora a predileta do pai; assim, quando ele percebeu que ela também teria de partir, fugiu de toda aquela miséria. A mãe nunca disse nada, mas julgou melhor que ele estivesse longe, pois temia que perdesse a razão. Cismara por tempo demais sobre essa única ideia: que Deus permitira que uma pessoa perversa causasse tanto mal.
Depois que o pai se foi, tornaram-se muito pobres. Por algum tempo ele lhes enviou dinheiro, mas depois as coisas devem ter corrido mal com ele, pois nada mais veio.
No dia do enterro da filha mais velha, a mãe fechou a cabana e deixou o lar com os dois filhos restantes, Osa e Mats. Desceu para Skåne para trabalhar nos campos de beterraba e encontrou lugar na usina açucareira de Jordberga. Era boa trabalhadora e tinha natureza alegre e generosa. Todos gostavam dela. Muitos se admiravam de que pudesse permanecer tão calma depois de tudo o que passara, mas a mãe era muito forte e paciente. Quando alguém lhe falava de seus dois filhos robustos, ela apenas dizia: “Logo os perderei também”, sem um tremor na voz nem uma lágrima nos olhos. Havia-se acostumado a não esperar outra coisa.
Mas não aconteceu como temia. Em vez disso, a enfermidade caiu sobre ela própria. Fora para Skåne no começo do verão; antes do outono, já se fora, e as crianças ficaram sozinhas.
Enquanto a mãe esteve enferma, muitas vezes disse aos filhos que deviam lembrar-se de que nunca se arrependera de ter deixado a mulher doente ficar com eles. Não era difícil morrer quando se havia feito o que era certo, dizia ela, pois então se podia partir de consciência limpa.
Antes de falecer, a mãe tentou tomar alguma providência para os filhos. Pediu às pessoas com quem vivia que os deixassem permanecer no quarto que ela ocupara. Se as crianças tivessem apenas um abrigo, não se tornariam fardo para ninguém. Sabia que podiam cuidar de si mesmas.
Osa e Mats tiveram permissão de conservar o quarto, com a condição de que guardassem os gansos, pois era sempre difícil encontrar crianças dispostas a fazer esse trabalho. Aconteceu como a mãe esperava: conseguiram sustentar-se. A menina fazia doces, e o menino entalhava brinquedos de madeira, que vendiam nas fazendas. Tinham talento para o comércio e logo começaram a comprar ovos e manteiga dos lavradores, que vendiam aos trabalhadores da usina açucareira. Osa era a mais velha e, quando tinha treze anos, já era tão responsável quanto uma mulher feita. Era calada e séria, enquanto Mats era vivo e falador. Sua irmã costumava dizer-lhe que ele conseguia cacarejar mais que os gansos.
Quando as crianças estavam havia dois anos em Jordberga, houve certa noite uma conferência na escola. Evidentemente, era destinada a adultos, mas as duas crianças de Småland estavam na plateia. Não se consideravam crianças, e poucas pessoas pensavam nelas como tais. O conferencista falou sobre a terrível doença chamada Peste Branca, que todos os anos arrebatava tanta gente na Suécia. Falou com muita clareza, e as crianças compreenderam cada palavra.
Depois da conferência, esperaram do lado de fora da escola. Quando o conferencista saiu, deram-se as mãos e se aproximaram dele gravemente, perguntando se poderiam falar-lhe.
O estranho deve ter-se admirado com aquelas duas crianças rosadas, de rostos infantis, que estavam ali falando com uma seriedade mais própria de pessoas três vezes mais velhas; mas ouviu-as com benevolência. Elas narraram o que acontecera em seu lar e perguntaram ao conferencista se ele achava que sua mãe, suas irmãs e seus irmãos tinham morrido da doença que ele descrevera.
— Muito provavelmente — respondeu ele. — Dificilmente poderia ter sido outra enfermidade.
Se ao menos a mãe e o pai soubessem o que as crianças aprenderam naquela noite, talvez pudessem ter-se protegido. Se tivessem queimado as roupas da vagabunda; se tivessem esfregado e arejado a cabana e não tivessem usado a roupa de cama velha, todos aqueles por quem as crianças choravam talvez ainda estivessem vivos. O conferencista disse que não podia afirmar com certeza, mas acreditava que nenhum de seus entes queridos teria adoecido se houvessem compreendido como se proteger da infecção.
Osa e Mats esperaram um pouco antes de fazer a pergunta seguinte, pois era a mais importante de todas. Então não era verdade que a cigana enviara a doença porque eles haviam protegido aquela contra quem ela estava enfurecida. Não era algo especial que atingira somente a eles. O conferencista assegurou-lhes que nenhuma pessoa tinha poder de lançar doença sobre outra dessa maneira.
Depois disso, as crianças lhe agradeceram e foram para seu quarto. Conversaram até tarde naquela noite.
No dia seguinte avisaram que não poderiam guardar gansos por mais um ano, mas precisavam ir para outro lugar. Para onde iriam? Ora, tentar encontrar o pai. Precisavam contar-lhe que a mãe e os outros filhos haviam morrido de uma moléstia comum, e não de algo especial lançado sobre eles por uma pessoa enfurecida. Estavam muito contentes por terem descoberto isso. Agora era seu dever contar ao pai, pois provavelmente ele ainda tentava resolver o mistério.
Osa e Mats partiram para seu antigo lar na charneca. Quando chegaram, ficaram chocados ao encontrar a pequena cabana em chamas. Foram à casa paroquial e ali souberam que um operário ferroviário vira o pai deles em Malmberget, muito ao norte, na Lapônia. Ele estivera trabalhando numa mina e possivelmente ainda se encontrava lá. Quando o clérigo soube que as crianças queriam sair em busca do pai, trouxe um mapa e lhes mostrou quão longe ficava Malmberget, tentando dissuadi-las de fazer a viagem; mas as crianças insistiram que precisavam encontrar o pai. Ele deixara o lar acreditando numa coisa que não era verdade. Precisavam encontrá-lo e dizer-lhe que tudo fora um engano.
Não queriam gastar suas pequenas economias comprando passagens de trem; portanto decidiram seguir todo o caminho a pé, do que nunca se arrependeram, pois a viagem se revelou extraordinariamente bela.
Antes de saírem de Småland, pararam numa fazenda para comprar comida. A dona da casa era uma alma bondosa e maternal, que se interessou pelas crianças. Perguntou quem eram e de onde vinham, e elas lhe contaram sua história. “Meu Deus, meu Deus! Meu Deus, meu Deus!”, ela interpolava vez após vez enquanto elas falavam. Depois mimou as crianças e as encheu de toda espécie de guloseimas, pelas quais não quis aceitar um vintém. Quando se levantaram para agradecer-lhe e partir, a mulher pediu-lhes que parassem na fazenda de seu irmão, na freguesia vizinha. Naturalmente, as crianças ficaram encantadas.
— Levai-lhe minhas saudações e contai-lhe o que vos aconteceu — disse a camponesa.
As crianças assim fizeram e foram bem tratadas. De cada fazenda em diante, era sempre: “Se por acaso seguirdes em tal e tal direção, parareis aqui ou ali e lhes contareis o que vos aconteceu.”
Em cada casa de fazenda a que eram enviadas, havia sempre um tuberculoso. Assim, Osa e Mats atravessavam o país, ensinando inconscientemente as pessoas a combater aquela terrível doença.
Muito, muito tempo atrás, quando a peste negra devastava o país, dizia-se que um menino e uma menina eram vistos vagueando de casa em casa. O menino carregava um ancinho, e, se parasse e ancinhasse diante de uma casa, isso significava que ali muitos morreriam, mas não todos; pois o ancinho tem dentes largos e não leva tudo consigo. A menina carregava uma vassoura, e, se ela viesse e varresse diante de uma porta, isso significava que todos os que viviam lá dentro deveriam morrer; pois a vassoura é um instrumento que varre tudo por completo.
Parece bastante notável que, em nosso tempo, duas crianças vagueiem pelo país por causa de uma doença cruel. Mas essas crianças não assustavam as pessoas com o ancinho e a vassoura. Antes diziam: “Não nos contentaremos apenas em passar o ancinho no terreiro e varrer o chão; usaremos esfregão e escova, água e sabão. Conservaremos limpa a parte de dentro e a de fora da porta, e nós mesmos seremos limpos tanto de espírito como de corpo. Desse modo venceremos a doença.”
Certo dia, ainda na Lapônia, Akka levou o menino a Malmberget, onde descobriram o pequeno Mats caído, inconsciente, à boca do poço. Ele e Osa haviam chegado ali pouco tempo antes. Naquela manhã, andara vagueando por lá, na esperança de encontrar o pai. Aventurara-se perto demais do poço e fora ferido por pedras arremessadas depois da explosão de uma carga.
Polegarzinho correu até a beira do poço e chamou os mineiros lá embaixo, dizendo que um menininho estava ferido.
Imediatamente vários trabalhadores vieram correndo até o pequeno Mats. Dois deles o carregaram para a cabana onde ele e Osa estavam hospedados. Fizeram tudo o que puderam para salvá-lo, mas era tarde demais.
Polegarzinho sentiu tanta pena da pobre Osa. Queria ajudá-la e consolá-la; mas sabia que, se fosse até ela agora, apenas a assustaria — tal como ele era!
Na noite depois do enterro do pequeno Mats, Osa trancou-se imediatamente em sua cabana.
Sentou-se sozinha, recordando, uma após outra, coisas que o irmão dissera e fizera. Havia tanto em que pensar que não foi logo para a cama, mas permaneceu acordada a maior parte da noite. Quanto mais pensava no irmão, mais percebia como seria difícil viver sem ele. Por fim, deixou cair a cabeça sobre a mesa e chorou.
— Que farei agora que o pequeno Mats se foi? — soluçou.
Já ia longe a madrugada, e Osa, esgotada pela tensão de seu dia penoso, finalmente adormeceu.
Sonhou que o pequeno Mats abria suavemente a porta e entrava no quarto.
— Osa, deves ir procurar nosso pai — disse ele.
— Como poderei, se nem sequer sei onde ele está? — respondeu ela em seu sonho.
— Não te aflijas com isso — replicou o pequeno Mats, com seu jeito alegre de sempre. — Mandarei alguém para te ajudar.
Justamente quando Osa, a menina dos gansos, sonhou que o pequeno Mats dizia isso, alguém bateu à porta. Foi uma batida real — não algo que ela ouvisse em sonho —, mas ela estava tão presa ao sonho que não conseguia distinguir o real do irreal. Enquanto ia abrir a porta, pensou:
— Deve ser a pessoa que o pequeno Mats prometeu enviar-me.
E tinha razão, pois era Polegarzinho, que viera falar-lhe sobre seu pai.
Quando viu que ela não tinha medo dele, contou-lhe em poucas palavras onde estava seu pai e como poderia chegar até ele.
Enquanto ele falava, Osa, a menina dos gansos, recobrava pouco a pouco a consciência; quando ele terminou, ela estava bem desperta.
Então ficou tão aterrorizada com a ideia de estar falando com um elfo que não conseguiu dizer obrigada, nem qualquer outra coisa, mas fechou depressa a porta.
Ao fazer isso, pareceu-lhe ver uma expressão de dor atravessar o rosto do elfo, mas não pôde evitar o que fez, pois estava fora de si de medo. Meteu-se na cama tão depressa quanto pôde e puxou as cobertas sobre a cabeça.
Embora tivesse medo do elfo, sentia que ele lhe queria bem. Por isso, no dia seguinte, apressou-se em fazer como ele lhe dissera.
Certa tarde de julho, chovia terrivelmente ao redor do lago Luossajaure. Os lapões, que durante o verão viviam quase sempre ao ar livre, haviam-se enfiado sob a tenda e estavam acocorados ao redor do fogo, bebendo café.
Os novos colonos da margem oriental do lago trabalhavam diligentemente para aprontar suas casas antes que chegasse o rigoroso inverno ártico. Admiravam-se dos lapões, que haviam vivido no extremo norte durante séculos sem sequer pensar que fosse necessária melhor proteção contra o frio e a tempestade do que a fina cobertura de uma tenda.
Os lapões, por sua vez, admiravam-se de que os novos colonos se dessem tanto trabalho duro e desnecessário, quando nada mais era preciso para viver confortavelmente do que algumas renas e uma tenda.
Só tinham de cravar os postes no chão e estender sobre eles as coberturas, e suas moradas estavam prontas. Não precisavam incomodar-se com decoração ou mobília. O principal era espalhar alguns ramos de abeto pelo chão, estender algumas peles e pendurar o grande caldeirão, no qual cozinhavam a carne de rena, numa corrente suspensa do alto dos postes da tenda.
Enquanto os lapões conversavam sobre suas xícaras de café, um barco a remo, vindo do lado de Kiruna, encostou à margem no acampamento dos lapões.
Um operário e uma menina, entre treze e catorze anos, saíram do barco. A menina era Osa. Os cães lapões desceram pulando ao encontro deles, latindo alto, e um nativo pôs a cabeça para fora da abertura da tenda para ver o que se passava.
Alegrou-se ao ver o operário, pois era amigo dos lapões — homem bondoso e sociável, capaz de falar a língua deles. O lapão chamou-o para entrar debaixo da tenda.
— Chegas bem a tempo, Söderberg! — disse ele. — A cafeteira está no fogo. Ninguém pode trabalhar com esta chuva; portanto entra e conta-nos as novidades.
O operário entrou e, com muito alvoroço e entre muitas risadas e gracejos, abriram-se lugares para Söderberg e Osa, embora a tenda já estivesse apinhada de nativos até o limite. Osa não entendia nada da conversa. Sentou-se muda e olhou maravilhada para o caldeirão e a cafeteira; para o fogo e a fumaça; para os homens lapões e as mulheres lapãs; para as crianças e os cães; para as paredes e o chão; para as xícaras de café e os cachimbos; para as vestes multicoloridas e os utensílios rudes. Tudo aquilo era novo para ela.
De repente, baixou os olhos, consciente de que todos na tenda a fitavam. Söderberg devia ter dito algo sobre ela, pois agora tanto os homens como as mulheres lapãs tiravam os cachimbos curtos da boca e a encaravam com assombro e respeito de olhos arregalados. O lapão ao seu lado deu-lhe palmadinhas no ombro e acenou com a cabeça, dizendo em sueco: “bra, bra!” (bom, bom!). Uma mulher lapã encheu uma xícara de café até a borda e a passou com dificuldade, enquanto um menino lapão, mais ou menos da idade dela, se contorcia e rastejava entre os acocorados até chegar junto dela.
Osa sentiu que Söderberg estava contando aos lapões que ela acabara de sepultar seu irmãozinho, Mats. Desejava que ele descobrisse algo sobre seu pai.
O elfo dissera que ele vivia com os lapões que acampavam a oeste do lago Luossajaure, e ela pedira permissão para subir num vagão de areia a fim de procurá-lo, já que os trens regulares de passageiros não chegavam tão longe. Tanto trabalhadores como capatazes a haviam ajudado como puderam. Um engenheiro enviara Söderberg com ela através do lago, pois ele falava lapão. Ela esperara encontrar o pai assim que chegasse. Seu olhar percorria ansiosamente rosto após rosto, mas via apenas nativos. Seu pai não estava ali.
Percebeu que os lapões e o sueco, Söderberg, ficavam cada vez mais sérios enquanto conversavam entre si. Os lapões sacudiam a cabeça e tocavam a testa, como se falassem de alguém que não estivesse muito certo do juízo.
Ela ficou tão inquieta que já não pôde suportar a incerteza e perguntou a Söderberg o que os lapões sabiam de seu pai.
— Dizem que ele foi pescar — disse o operário. — Não têm certeza de que possa voltar ao acampamento esta noite; mas, assim que o tempo melhorar, um deles sairá à procura dele.
Então voltou-se para os lapões e continuou a falar com eles. Não queria dar a Osa oportunidade de interrogá-lo mais sobre Jon Esserson.
O próprio Ola Serka, que era o homem mais distinto entre os lapões, dissera que encontraria o pai de Osa, mas não parecia ter pressa e estava encolhido do lado de fora da tenda, pensando em Jon Esserson e em qual seria o melhor modo de lhe contar a chegada da filha. Seria preciso diplomacia para que Jon Esserson não se alarmasse e fugisse. Era um homem esquisito, que tinha medo de crianças. Costumava dizer que vê-las lhe dava tamanha melancolia que ele não conseguia suportar.
Enquanto Ola Serka deliberava, Osa, a menina dos gansos, e Aslak, o jovem lapão que a fitara com tanta insistência na noite anterior, estavam sentados no chão diante da tenda, conversando.
Aslak frequentara a escola e sabia falar sueco. Contava a Osa sobre a vida do “povo samé”, assegurando-lhe que viviam melhor do que as outras pessoas.
Osa achava que viviam miseravelmente e disse-lhe isso.
— Não sabes do que estás falando! — disse Aslak, secamente. — Fica conosco apenas uma semana, e verás que somos o povo mais feliz da terra.
— Se eu ficasse aqui uma semana inteira, seria sufocada por toda a fumaça da tenda — retrucou Osa.
— Não digas isso! — protestou o menino. — Nada sabes de nós. Deixa-me contar-te uma coisa que te fará compreender que, quanto mais tempo ficares conosco, mais contente te tornarás.
Então Aslak começou a contar a Osa como certa vez uma doença chamada “Peste Negra” assolara todo o país. Não tinha certeza se ela havia varrido a verdadeira “Saméland”, onde agora se encontravam, mas em Jämtland havia rugido com tanta brutalidade que, entre o povo samé que vivia nas florestas e montanhas dali, todos haviam morrido, exceto um rapaz de quinze anos. Entre os suecos que viviam nos vales, ninguém restara senão uma moça, também de quinze anos.
O menino e a menina, separadamente, atravessaram a pé o país desolado durante todo o inverno, em busca de outros seres humanos. Finalmente, ao aproximar-se a primavera, os dois se encontraram. Aslak continuou:
— A menina sueca suplicou ao rapaz lapão que a acompanhasse para o sul, onde poderia encontrar gente de sua própria raça. Não queria demorar-se mais em Jämtland, onde só havia propriedades vazias. “Eu te levarei para onde quiseres ir”, disse o rapaz, “mas não antes do inverno. Agora é primavera, e minhas renas seguem para o oeste, rumo às montanhas. Sabes que nós, do povo samé, devemos ir para onde nossas renas nos levam.” A menina sueca era filha de pais ricos. Estava acostumada a viver sob um teto, dormir numa cama e comer à mesa. Sempre desprezara os pobres montanheses e pensara que aqueles que viviam sob o céu aberto eram os mais infelizes; mas tinha medo de voltar para casa, onde não havia senão mortos. “Ao menos deixa-me ir contigo para as montanhas”, disse ao rapaz, “para que eu não tenha de andar por aqui completamente sozinha, sem nunca ouvir o som de uma voz humana.”
O rapaz consentiu de boa vontade; assim, a menina foi com as renas para as montanhas.
O rebanho ansiava pelas boas pastagens dali e todos os dias percorria longas distâncias para se alimentar do musgo. Não havia tempo para armar tendas. As crianças tinham de deitar-se sobre a neve e dormir quando as renas paravam para pastar. A menina muitas vezes suspirava e se queixava de estar tão cansada que precisava voltar ao vale. Ainda assim, continuava seguindo, para não ficar sem companhia humana.
Quando chegaram às terras altas, o rapaz armou uma tenda para a menina numa bela colina que descia em declive para um riacho de montanha.
À tarde, laçava e ordenhava as renas e dava à menina leite para beber. Tirou carne seca de rena e queijo de rena, que sua gente havia guardado nas alturas quando ali estivera no verão anterior.
Ainda assim, a menina resmungava o tempo todo e nunca estava satisfeita. Não queria comer carne de rena nem queijo de rena, nem beber leite de rena. Não conseguia acostumar-se a ficar acocorada na tenda, nem a deitar-se no chão tendo apenas uma pele de rena e alguns ramos de abeto por cama.
O filho das montanhas ria de suas aflições e continuava a tratá-la com bondade.
Depois de alguns dias, a menina aproximou-se do rapaz quando ele ordenhava e perguntou se podia ajudá-lo. Em seguida, encarregou-se de acender o fogo sob o caldeirão no qual a carne de rena seria cozida, depois de buscar água e de fazer queijo. Assim o tempo passava agradavelmente. O clima era brando, e o alimento era facilmente obtido. Juntos armavam laços para a caça, pescavam trutas-salmão nas corredeiras e colhiam amoras-dos-brejos no pântano.
Quando o verão se foi, desceram mais pelas montanhas, até onde as florestas de pinheiros e as de árvores frondosas se encontram. Ali armaram sua tenda. Tinham de trabalhar duro todos os dias, mas passavam melhor, pois o alimento era ainda mais abundante do que no verão por causa da caça.
Quando veio a neve e os lagos começaram a congelar, seguiram mais para leste, rumo às densas florestas de pinheiros.
Assim que a tenda foi erguida, começou o trabalho de inverno. O rapaz ensinou a menina a fazer corda com tendões de rena, a tratar peles, a fazer sapatos e roupas de couro, a fabricar pentes e ferramentas de chifre de rena, a andar sobre esquis e a conduzir um trenó puxado por renas.
Quando atravessaram o inverno escuro e o sol começou a brilhar durante todo o dia e a maior parte da noite, o rapaz disse à menina que agora a acompanharia para o sul, para que pudesse encontrar alguém de sua própria raça.
Então a menina olhou para ele, espantada.
— Por que queres mandar-me embora? — perguntou. — Anseias por ficar sozinho com tuas renas?
— Pensei que fosses tu quem ansiava por partir — disse o rapaz.
— Vivi a vida do povo samé por quase um ano — respondeu a menina. — Não posso voltar para minha gente e viver a vida encerrada depois de ter vagado livremente pelas montanhas e florestas. Não me expulses; deixa-me ficar aqui. Vosso modo de viver é melhor que o nosso.
A menina ficou com o rapaz pelo resto da vida e nunca mais sentiu saudades dos vales. E tu, Osa, se ficasses conosco apenas um mês, jamais poderias separar-te de nós outra vez.
Com estas palavras, Aslak, o rapaz lapão, terminou sua história. Nesse instante, seu pai, Ola Serka, tirou o cachimbo da boca e levantou-se.
O velho Ola compreendia mais sueco do que queria deixar que alguém soubesse, e ouvira as observações do filho. Enquanto escutava, subitamente lhe ocorrera como devia tratar aquele assunto delicado de contar a Jon Esserson que sua filha viera procurá-lo.
Ola Serka desceu até o lago Luossajaure e caminhara pequena distância pela margem, quando encontrou um homem sentado numa pedra, pescando.
O pescador tinha cabelos grisalhos e o corpo curvado. Seus olhos piscavam cansados, e havia nele algo frouxo e desamparado. Parecia um homem que tentara carregar fardo pesado demais para si, ou resolver um problema difícil demais, e que se quebrantara e desalentara com o fracasso.
— Deves ter tido sorte na pesca, Jon, já que passaste a noite inteira nisso — disse o montanhês em lapão, ao se aproximar.
O pescador sobressaltou-se e então ergueu os olhos. A isca em seu anzol desaparecera, e peixe algum jazia na margem ao seu lado. Apressou-se em pôr nova isca no anzol e lançar a linha. Enquanto isso, o montanhês acocorou-se na relva ao lado dele.
— Há um assunto sobre o qual eu queria conversar contigo — disse Ola. — Sabes que eu tinha uma filhinha que morreu no inverno passado, e sempre sentimos falta dela na tenda.
— Sim, eu sei — disse o pescador abruptamente, enquanto uma sombra lhe passava pelo rosto, como se lhe desagradasse ser lembrado de uma criança morta.
— Não vale a pena passar a vida lamentando — disse o lapão.
— Suponho que não.
— Agora estou pensando em adotar outra criança. Não achas que seria uma boa ideia?
— Isso depende da criança, Ola.
— Vou te contar o que sei da menina — disse Ola. Então contou ao pescador que, por volta do meio do verão, duas crianças estranhas — um menino e uma menina — tinham vindo às minas procurar o pai; mas, como o pai estava ausente, haviam ficado ali esperando seu retorno. Enquanto estavam lá, o menino fora morto por uma explosão de rocha.
Então Ola fez uma bela descrição de como a menina fora corajosa, e de como conquistara a admiração e a simpatia de todos.
— É essa a menina que queres levar para tua tenda? — perguntou o pescador.
— Sim — respondeu o lapão. — Quando ouvimos sua história, ficamos todos profundamente comovidos e dissemos entre nós que uma irmã tão boa também daria uma boa filha; e esperamos que ela venha para nós.
O pescador ficou sentado em silêncio, pensando por um momento. Era claro que continuava a conversa apenas para agradar ao amigo lapão.
— Presumo que a menina seja de tua raça?
— Não — disse Ola —, ela não pertence ao povo samé.
— Talvez seja filha de algum novo colono e esteja acostumada à vida daqui?
— Não, ela vem do extremo sul — respondeu Ola, como se isso tivesse pouca importância.
O pescador tornou-se mais interessado.
— Então não creio que possas levá-la — disse. — É duvidoso que ela suporte viver numa tenda no inverno, já que não foi criada desse modo.
— Encontrará pais bondosos e irmãos e irmãs bondosos na tenda — insistiu Ola Serka. — É pior estar sozinho do que congelar.
O pescador tornou-se cada vez mais zeloso em impedir a adoção. Parecia não poder suportar a ideia de que uma criança de pais suecos fosse acolhida por lapões.
— Disseste há pouco que ela tinha um pai na mina.
— Está morto — disse o lapão, abruptamente.
— Suponho que tenhas investigado bem esse assunto, Ola?
— De que serve todo esse trabalho? — desdenhou o lapão. — Eu devo saber! A menina e o irmão teriam sido obrigados a vaguear pelo país se tivessem um pai vivo? Duas crianças teriam sido forçadas a cuidar de si mesmas se tivessem pai? A própria menina pensa que ele está vivo, mas eu digo que deve estar morto.
O homem de olhos cansados voltou-se para Ola.
— Qual é o nome da menina, Ola? — perguntou.
O montanhês pensou um pouco, depois disse:
— Não consigo me lembrar. Preciso perguntar a ela.
— Perguntar a ela! Ela já está aqui?
— Está lá no acampamento.
— Como, Ola! Tu a acolheste antes de saber a vontade do pai?
— Que me importa o pai dela! Se não está morto, provavelmente é o tipo de homem que nada se importa com a filha. Talvez até fique contente de que outro a tome sob seus cuidados.
O pescador atirou a vara ao chão e levantou-se com uma vivacidade de movimentos que denunciava vida nova.
— Não creio que o pai dela possa ser como os outros homens — continuou o montanhês. — Aposto que é um homem assombrado por sombrios pressentimentos e que por isso não consegue trabalhar com constância. Que espécie de pai seria esse para a menina?
Enquanto Ola falava, o pescador começou a subir pela margem.
— Aonde vais? — perguntou o lapão.
— Vou dar uma olhada em tua filha adotiva, Ola.
— Bom! — disse o lapão. — Vem e conhece-a. Creio que dirás que ela será uma boa filha para mim.
O sueco avançava tão depressa que o lapão mal podia acompanhá-lo.
Depois de um momento, Ola disse ao companheiro:
— Agora me lembro que o nome dela é Osa — essa menina que estou adotando.
O outro homem apenas continuou a apressar-se, e o velho Ola Serka ficou tão satisfeito que teve vontade de rir alto.
Quando avistaram as tendas, Ola disse ainda algumas palavras.
— Ela veio até nós, povo samé, para encontrar o pai, e não para tornar-se minha filha adotiva. Mas, se não o encontrar, ficarei contente em conservá-la em minha tenda.
O pescador apressou-se ainda mais.
— Bem que eu podia saber que ele se alarmaria quando eu ameaçasse levar sua filha para o acampamento dos lapões — riu Ola consigo mesmo.
Quando o homem de Kiruna, que havia levado Osa à tenda, voltou mais tarde naquele dia, tinha consigo no barco duas pessoas que se sentavam bem juntas, de mãos dadas — como se nunca mais quisessem se separar.
Eram Jon Esserson e sua filha. Ambos estavam diferentes do que haviam sido algumas horas antes.
O pai parecia menos curvado e cansado, e seus olhos estavam claros e bons, como se enfim houvesse encontrado a resposta àquilo que por tanto tempo o atormentara.
Osa, a menina dos gansos, não olhava em redor com saudade, pois encontrara alguém que cuidasse dela, e agora podia voltar a ser criança.
Sábado, primeiro de outubro.
O menino estava sentado no dorso do ganso-macho e cavalgava entre as nuvens. Cerca de trinta gansos, em ordem regular, voavam rapidamente para o sul. Havia um rumor de penas, e as muitas asas batiam o ar com tamanho ruído que mal se podia ouvir a própria voz. Akka de Kebnekaise voava à frente; depois dela vinham Yksi e Kaksi, Kolme e Neljä, Viisi e Kuusi, Morten Ganso-Macho e Dunfin. Os seis gansinhos que haviam acompanhado o bando no outono anterior agora tinham partido para cuidar de si mesmos. Em seu lugar, os gansos velhos levavam consigo vinte e dois gansinhos que haviam crescido no vale naquele verão. Onze voavam à direita, onze à esquerda; e faziam o possível para manter distâncias iguais, como as aves grandes.
Os pobres novatos nunca antes haviam feito uma viagem longa e, de início, tiveram dificuldade em acompanhar o voo rápido.
— Akka de Kebnekaise! Akka de Kebnekaise! — clamavam em tons lamentosos.
— Que há? — disse a gansa-chefe, com severidade.
— Nossas asas estão cansadas de se mover, nossas asas estão cansadas de se mover! — choramingaram os pequenos.
— Quanto mais continuardes, melhor correrá — respondeu a gansa-chefe, sem diminuir a velocidade. E ela tinha toda a razão, pois, quando os gansinhos haviam voado mais duas horas, já não se queixavam de cansaço.
Mas, no vale da montanha, tinham o hábito de comer o dia inteiro, e muito depressa começaram a sentir fome.
— Akka, Akka, Akka de Kebnekaise! — choramingaram os gansinhos, lastimosos.
— Qual é o problema agora? — perguntou a gansa-chefe.
— Estamos com tanta fome que não podemos mais voar! — lamuriaram-se os gansinhos. — Estamos com tanta fome que não podemos mais voar!
— Gansos selvagens precisam aprender a comer ar e beber vento — disse a gansa-chefe, e continuou a voar.
De fato, parecia que os pequenos estavam aprendendo a viver de vento e ar, pois, depois de voarem mais um pouco, nada disseram sobre estar com fome.
O bando de gansos ainda estava nas regiões montanhosas, e os gansos velhos chamavam em voz alta os nomes de todos os picos por que passavam, para que os jovens os aprendessem. Depois de terem gritado por algum tempo:
— Este é Porsotjokko, este é Särjaktjokko, este é Sulitelma — e assim por diante, os gansinhos tornaram a ficar impacientes.
— Akka, Akka, Akka! — guincharam em tons de cortar o coração.
— Que há de errado? — disse a gansa-chefe.
— Não temos espaço na cabeça para mais nenhum desses nomes horríveis! — guincharam os gansinhos.
— Quanto mais puserdes dentro da cabeça, mais podereis pôr nela — retrucou a gansa-chefe, e continuou a chamar aqueles nomes estranhos.
O menino estava sentado, pensando que já era tempo de os gansos selvagens se dirigirem para o sul, pois caíra tanta neve que o chão estava branco até onde a vista alcançava. Não adiantava negar que, para o fim, as coisas se haviam tornado bastante desagradáveis no vale. Chuva e neblina se sucediam sem alívio, e, mesmo quando clareava de vez em quando, logo entrava a geada. Bagas e cogumelos, de que o menino se sustentara durante o verão, estavam congelados ou apodrecidos. Por fim, vira-se obrigado a comer peixe cru, coisa que lhe desagradava. Os dias tinham-se encurtado, e as longas tardes e as manhãs tardias eram um tanto enfadonhas para quem não podia dormir durante todo o tempo em que o sol estava ausente.
Agora, enfim, as asas dos gansinhos haviam crescido, de modo que os gansos podiam partir para o sul. O menino estava tão contente que ria e cantava enquanto cavalgava no dorso do ganso. Não era apenas por causa da escuridão e do frio que ansiava por deixar a Lapônia; havia também outras razões.
Nas primeiras semanas de sua permanência ali, o menino não sentira a menor saudade de casa. Achava que nunca vira país tão glorioso. A única preocupação que tivera fora impedir que os mosquitos o devorassem.
O menino vira muito pouco o ganso-macho, porque o grande ganso branco pensava apenas em sua Dunfin e não queria deixá-la nem por um momento. Por outro lado, Polegarzinho se apegara a Akka e a Gorgo, a águia, e os três haviam passado muitas horas felizes juntos.
As duas aves o haviam levado consigo em longas viagens. Ele estivera de pé sobre o monte Kebnekaise, coberto de neve, olhara para baixo, para as geleiras, e visitara muitos altos penhascos raramente pisados por pés humanos. Akka lhe mostrara vales de montanha profundamente escondidos e o deixara espiar cavernas onde mães lobas criavam seus filhotes. Também travara conhecimento com as renas domesticadas que pastavam em rebanhos ao longo das margens do belo lago Torne, e descera até as grandes quedas para levar saudações aos ursos que viviam por ali, da parte de seus amigos e parentes em Westmanland.
Desde que vira Osa, a menina dos gansos, ansiava pelo dia em que pudesse voltar para casa com Morten Ganso-Macho e tornar-se outra vez um ser humano normal. Queria voltar a ser ele mesmo, para que Osa não tivesse medo de falar com ele e não lhe fechasse a porta na cara.
Sim, realmente, estava contente por finalmente seguirem velozes para o sul. Agitou o gorro e soltou vivas quando viu a primeira floresta de pinheiros. Da mesma maneira saudou a primeira cabana cinzenta, a primeira cabra, o primeiro gato e a primeira galinha.
Encontravam constantemente aves de arribação, que agora voavam em bandos maiores do que na primavera.
— Para onde ides, gansos selvagens? — chamavam as aves que passavam. — Para onde ides?
— Nós, como vós, vamos para terras estrangeiras — responderam os gansos.
— Esses vossos gansinhos não estão prontos para voar — gritavam os outros. — Jamais atravessarão o mar com essas asas franzinas!
Lapões e renas também deixavam as montanhas. Quando os gansos selvagens avistavam as renas, desciam em círculos e chamavam:
— Obrigados por vossa companhia neste verão!
— Boa viagem para vós e sede bem-vindos de volta! — respondiam as renas.
Mas, quando os ursos viam os gansos selvagens, apontavam-nos aos filhotes e rosnavam:
— Olhai aqueles gansos; têm tanto medo de um pouco de frio que não ousam ficar em casa no inverno.
Mas os gansos velhos estavam prontos com uma réplica e gritavam aos gansinhos:
— Olhai aquelas feras que ficam em casa e dormem metade do ano, só para não se darem ao trabalho de viajar para o sul!
Lá embaixo, na floresta de pinheiros, os jovens tetrazes ficavam encolhidos uns contra os outros e fitavam com saudade os grandes bandos de aves que, entre alegria e alvoroço, seguiam para o sul.
— Quando chegará a nossa vez? — perguntavam à mãe tetraz.
— Tereis de ficar em casa com mamãe e papai — dizia ela.
Terça-feira, quatro de outubro.
O menino já tivera três dias de viagem sob chuva e neblina e ansiava por algum canto abrigado, onde pudesse descansar um pouco.
Por fim, os gansos pousaram para se alimentar e aliviar um pouco as asas. Para grande alívio seu, o menino viu uma torre de observação numa colina próxima e arrastou-se até ela.
Quando subiu ao topo da torre, encontrou ali um grupo de turistas; por isso, depressa se enfiou num canto escuro e logo adormeceu profundamente.
Quando o menino despertou, começou a sentir-se inquieto, porque os turistas demoravam-se muito na torre, contando histórias. Pensou que nunca iriam embora. Morten Ganso-Macho não poderia vir buscá-lo enquanto eles estivessem ali, e ele sabia, naturalmente, que os gansos selvagens tinham pressa de continuar a viagem. No meio de uma história, pareceu-lhe ouvir grasnidos e bater de asas, como se os gansos estivessem voando para longe, mas não ousou aproximar-se da balaustrada para descobrir se era assim.
Por fim, quando os turistas se foram e o menino pôde sair rastejando de seu esconderijo, não viu nenhum ganso selvagem, e nenhum Morten Ganso-Macho veio buscá-lo. Chamou: “Aqui estou eu, onde estais vós?”, tão alto quanto pôde, mas seus companheiros de viagem não apareceram. Nem por um segundo pensou que o tivessem abandonado; mas temeu que lhes tivesse acontecido algum infortúnio e perguntava-se o que deveria fazer para encontrá-los, quando Bataki, o corvo, pousou ao seu lado.
O menino jamais sonhara que saudaria Bataki com uma alegria tão grande como a que agora lhe demonstrou.
— Querido Bataki — irrompeu ele —, que sorte estares aqui! Talvez saibas o que aconteceu a Morten Ganso-Macho e aos gansos selvagens?
— Acabo de vir com uma saudação deles — respondeu o corvo. — Akka viu um caçador espreitando pela montanha e, por isso, não ousou ficar para esperar por ti, mas seguiu adiante. Sobe em minhas costas, e logo estarás com teus amigos.
O menino sentou-se depressa no dorso do corvo, e Bataki logo teria alcançado os gansos se não fosse impedido por uma neblina. Era como se o sol da manhã a houvesse despertado para a vida. Leves véus de bruma ergueram-se subitamente do lago, dos campos e da floresta. Adensaram-se e espalharam-se com maravilhosa rapidez, e logo o chão inteiro ficou oculto à vista por névoas brancas e rolantes.
Bataki voava acima da névoa, em ar claro e sol cintilante, mas os gansos selvagens deviam ter descido em círculos entre as nuvens úmidas, pois era impossível avistá-los. O menino e o corvo chamaram e gritaram, mas não obtiveram resposta.
— Bem, isto é um golpe de má sorte! — disse Bataki por fim. — Mas sabemos que estão viajando para o sul, e naturalmente os encontrarei assim que a névoa se dissipar.
O menino afligia-se com a ideia de separar-se de Morten Ganso-Macho justamente agora, quando os gansos estavam em viagem, e o grande branco poderia encontrar toda sorte de infortúnios. Depois de Polegarzinho ficar sentado, preocupado, por duas horas ou mais, observou consigo mesmo que, até então, nenhum desastre acontecera, e que não valia a pena perder a coragem.
Nesse instante, ouviu um galo cantar lá embaixo, no chão, e imediatamente inclinou-se para a frente no dorso do corvo e chamou:
— Qual é o nome da terra sobre a qual estou viajando?
— Chama-se Härjedalen, Härjedalen, Härjedalen — cantou o galo.
— Como ela é aí embaixo, onde estás? — perguntou o menino.
— Penhascos a oeste, bosques a leste, largos vales atravessando todo o país — respondeu o galo.
— Obrigado — gritou o menino. — Dás uma descrição clara.
Quando haviam viajado um pouco mais, ouviu uma gralha grasnar lá embaixo, na névoa.
— Que espécie de gente vive neste país? — gritou o menino.
— Camponeses bons e industriosos — respondeu a gralha. — Camponeses bons e industriosos.
— Que fazem eles? — perguntou o menino. — Que fazem eles?
— Criam gado e derrubam florestas — grasnou a gralha.
— Obrigado — respondeu o menino. — Respondes bem.
Um pouco mais adiante, ouviu uma voz humana gorgeando e cantando lá embaixo, na névoa.
— Há alguma grande cidade nesta parte do país? — perguntou o menino.
— Quê? Quê? Quem é que chama? — gritou a voz humana.
— Há alguma grande cidade nesta região? — repetiu o menino.
— Quero saber quem é que chama — bradou a voz humana.
— Eu bem podia saber que não obteria informação alguma quando fizesse uma pergunta civilizada a um ser humano — retrucou o menino.
Não demorou muito para que a névoa desaparecesse tão subitamente quanto viera. Então o menino viu uma bela paisagem, com altos penhascos como em Jämtland, mas não havia grandes e florescentes povoações nas encostas das montanhas. As aldeias ficavam muito afastadas umas das outras, e as fazendas eram pequenas. Bataki seguiu o curso d’água para o sul até avistarem uma aldeia. Ali pousou num campo de restolho e deixou o menino descer.
— No verão, trigo crescia neste chão — disse Bataki. — Olha ao redor e vê se não consegues encontrar algo comestível.
O menino seguiu a sugestão e, pouco depois, encontrou uma haste de trigo. Enquanto retirava os grãos e os comia, Bataki falou com ele.
— Vês aquela montanha erguendo-se diretamente ao sul de nós? — perguntou.
— Sim, naturalmente a vejo — disse o menino.
— Chama-se Sonfjället — continuou o corvo. — Podes imaginar que, em outros tempos, havia muitos lobos ali.
— Deve ter sido um lugar ideal para lobos — disse o menino.
— As pessoas que viviam aqui no vale eram frequentemente atacadas por eles — observou o corvo.
— Talvez te lembres de uma boa história de lobos que possas me contar? — disse o menino.
— Contaram-me que, há muito, muito tempo, os lobos de Sonfjället teriam armado uma emboscada a um homem que saíra para vender suas mercadorias — começou Bataki. — Ele era de Hede, uma aldeia a algumas milhas vale abaixo. Era inverno, e os lobos avançaram contra ele enquanto atravessava de trenó o gelo do lago Ljusna. Eram uns nove ou dez, e o homem de Hede tinha um pobre cavalo velho; portanto havia pouquíssima esperança de escapar.
— Quando o homem ouviu os lobos uivarem e viu quantos vinham atrás dele, perdeu a cabeça, e não lhe ocorreu que deveria atirar para fora do trenó seus barris e cântaros, para aliviar a carga. Apenas chicoteou o cavalo e fez a melhor velocidade que pôde, mas logo observou que os lobos ganhavam terreno. As margens eram desertas, e ele estava a catorze milhas da fazenda mais próxima. Pensou que sua última hora chegara e ficou paralisado de medo.
— Enquanto estava ali sentado, aterrorizado, viu algo mover-se entre os arbustos que tinham sido postos no gelo para marcar o caminho; e, ao descobrir quem caminhava ali, seu medo cresceu cada vez mais.
— Não eram feras que vinham ao seu encontro, mas uma pobre velha chamada Finn-Malin, que tinha o hábito de vagar por caminhos e atalhos. Era corcunda e um pouco manca, de modo que ele a reconheceu de longe.
— A velha caminhava diretamente rumo aos lobos. O trenó os havia ocultado de sua vista, e o homem compreendeu imediatamente que, se seguisse adiante sem avisá-la, ela caminharia direto para as mandíbulas das feras, e, enquanto a dilacerassem, ele teria tempo suficiente para escapar.
— A velha caminhava devagar, curvada sobre uma bengala. Era claro que estaria perdida se ele não a ajudasse, mas, mesmo que parasse e a tomasse no trenó, de modo algum era certo que ela estaria salva. Era mais provável que os lobos os alcançassem, e ele, ela e o cavalo seriam mortos. Perguntou-se se não seria melhor sacrificar uma vida para que duas fossem poupadas — isso lhe passou pela cabeça no minuto em que viu a velha. Também teve tempo de pensar em como ficaria consigo depois — se por acaso não se arrependeria de não a ter socorrido, ou se algum dia as pessoas viessem a saber daquele encontro e de que ele não tentara ajudá-la. Era uma tentação terrível.
— “Eu preferia não tê-la visto” — disse consigo mesmo.
— Justamente então, os lobos uivaram ferozmente. O cavalo empinou, lançou-se para a frente e disparou passando pela velha mendiga. Ela também ouvira o uivo dos lobos e, quando o homem de Hede passou por ela, ele viu que a velha sabia o que a aguardava. Ficou imóvel, a boca aberta para um grito, os braços estendidos em busca de auxílio. Mas nem gritou nem tentou atirar-se ao trenó. Algo parecia tê-la transformado em pedra. “Fui eu”, pensou o homem. “Devo ter parecido um demônio ao passar.”
— Tentou sentir-se satisfeito, agora que estava certo de escapar; mas naquele exato momento o coração o censurou. Nunca antes fizera coisa covarde, e sentiu então que toda a sua vida estava arruinada.
— “Venha o que vier” — disse, puxando as rédeas do cavalo —, “não posso deixá-la sozinha com os lobos!”
— Foi com grande dificuldade que conseguiu fazer o cavalo voltar, mas por fim conseguiu e imediatamente retornou até ela.
— “Sê rápida e sobe no trenó” — disse rispidamente, pois estava furioso consigo mesmo por não ter deixado a velha entregue ao próprio destino.
— “Bem poderias ficar em casa de vez em quando, velha bruxa!” — rosnou. — “Agora tanto meu cavalo como eu nos perderemos por tua causa.”
— A velha não disse palavra, mas o homem de Hede não estava disposto a poupá-la.
— “O cavalo já percorreu trinta e cinco milhas hoje, e a carga não ficou mais leve desde que subiste nela!” — resmungou —, “de modo que deves compreender que logo ficará exausto.”
— Os patins do trenó rangiam sobre o gelo, mas, apesar disso, ele ouvia os lobos arquejarem e sabia que as feras estavam quase sobre ele.
— “Estamos perdidos!” — disse. — “De muito serviu, a ti ou a mim, esta tentativa de te salvar, Finn-Malin!”
— Até esse ponto, a velha permanecera calada — como alguém acostumado a suportar injúrias —, mas agora disse algumas palavras.
— “Não consigo entender por que não atiras fora tuas mercadorias e alivias a carga. Podes voltar amanhã e recolhê-las.”
— O homem percebeu que aquele era bom conselho e se surpreendeu por não ter pensado nisso antes. Atirou as rédeas à velha, soltou as cordas que prendiam os barris e os lançou para fora. Os lobos estavam bem sobre eles, mas então pararam para examinar o que fora jogado no gelo, e os viajantes tornaram a ganhar dianteira.
— “Se isto não te ajudar” — disse a velha —, “compreendes, naturalmente, que eu me entregarei voluntariamente aos lobos, para que possas escapar.”
— Enquanto ela falava, o homem tentava empurrar do trenó comprido uma pesada cuba de cervejeiro. Ao puxá-la, parou, como se não conseguisse decidir-se a lançá-la fora; mas, na verdade, sua mente estava ocupada com algo inteiramente diverso.
— “Certamente um homem e um cavalo que não têm enfermidades não precisam deixar que uma velha fraca seja devorada por lobos por causa deles!” — pensou. — “Deve haver outro meio de salvação. Ora, naturalmente que há! É apenas minha estupidez que me impede de encontrar o caminho.”
— Tornou a empurrar a cuba; depois parou mais uma vez e rompeu em gargalhadas.
— A velha se alarmou e perguntou-se se ele teria enlouquecido; mas o homem de Hede ria de si mesmo por ter sido tão estúpido o tempo todo. Era a coisa mais simples do mundo salvar os três. Não podia imaginar por que não pensara naquilo antes.
— “Escuta o que te digo, Malin!” — disse ele. — “Foi esplêndido de tua parte estares disposta a te atirar aos lobos. Mas não precisarás fazer isso, porque sei como nós três podemos ser salvos sem pôr em risco a vida de ninguém. Lembra-te: seja o que for que eu faça, deves ficar sentada e conduzir o trenó até Linsäll. Lá deves acordar os moradores e dizer-lhes que estou sozinho aqui no gelo, cercado de lobos, e pedir-lhes que venham me ajudar.”
— O homem esperou até que os lobos estivessem quase sobre o trenó. Então rolou para fora a grande cuba de cervejeiro, saltou ao chão e rastejou para dentro dela.
— Era uma cuba enorme, grande o bastante para conter uma fermentação inteira de Natal. Os lobos se lançaram sobre ela e morderam os arcos, mas a cuba era pesada demais para que pudessem movê-la. Não conseguiam alcançar o homem lá dentro.
— Ele sabia que estava seguro e riu dos lobos. Pouco depois ficou sério outra vez.
— “Daqui em diante, quando eu estiver em aperto, hei de lembrar-me desta cuba, e hei de ter em mente que nunca preciso lesar a mim mesmo nem a outros, pois há sempre uma terceira saída para uma dificuldade, se ao menos se conseguir encontrá-la.”
Com isso, Bataki encerrou sua narrativa.
O menino notou que o corvo nunca falava sem que houvesse algum sentido especial por trás de suas palavras, e quanto mais o escutava, mais pensativo ficava.
— Pergunto-me por que me contaste essa história — observou o menino.
— Apenas me ocorreu enquanto eu estava aqui, olhando para Sonfjället — respondeu o corvo.
Agora haviam viajado mais para baixo, ao longo do lago Ljusna, e em uma hora ou pouco mais chegaram a Kolsätt, perto da fronteira de Hälsingland. Ali o corvo pousou junto a uma pequena cabana que não tinha janelas — apenas uma portinhola. Da chaminé subiam faíscas e fumaça, e de dentro vinha o som de marteladas pesadas.
— Sempre que vejo esta ferraria — observou o corvo —, lembro-me de que, em tempos passados, havia aqui em Härjedalen ferreiros tão hábeis, especialmente nesta aldeia, que não tinham igual em todo o país.
— Talvez também te lembres de uma história sobre eles? — disse o menino.
— Sim — respondeu Bataki —, lembro-me de uma sobre um ferreiro de Härjedalen que certa vez convidou dois outros mestres ferreiros — um da Dalecarlia e outro de Vermland — para competir com ele na fabricação de pregos. O desafio foi aceito, e os três ferreiros se encontraram aqui em Kolsätt. O dalecarliano começou. Forjou uma dúzia de pregos tão regulares, lisos e pontiagudos que não poderiam ser melhorados. Depois dele veio o vermlandês. Também forjou uma dúzia de pregos absolutamente perfeitos e, além disso, terminou-os na metade do tempo que o dalecarliano levara. Quando os juízes viram isso, disseram ao ferreiro de Härjedalen que não valia a pena ele tentar, pois não poderia forjar melhor que o dalecarliano nem mais depressa que o vermlandês.
— “Não desistirei! Ainda deve haver outro modo de sobressair” — insistiu o ferreiro de Härjedalen.
— Pôs o ferro sobre a bigorna sem aquecê-lo na forja; simplesmente o martelou até esquentá-lo e forjou prego após prego, sem o uso de bigorna nem de foles. Nenhum dos juízes jamais vira um ferreiro manejar o martelo com mais maestria, e o ferreiro de Härjedalen foi proclamado o melhor da terra.
Com essas observações, Bataki se calou, e o menino ficou ainda mais pensativo.
— Pergunto-me qual foi teu propósito ao me contar isso — indagou.
— A história me veio à lembrança quando vi outra vez a velha ferraria — disse Bataki, com ar indiferente.
Os dois viajantes ergueram-se de novo no ar, e o corvo levou o menino para o sul até chegarem à Paróquia de Lillhärdal, onde pousou sobre um monte frondoso no alto de uma crista.
— Pergunto-me se sabes sobre que monte estás de pé — disse Bataki.
O menino teve de confessar que não sabia.
— Isto é um túmulo — disse Bataki. — Debaixo deste monte jaz o primeiro colono de Härjedalen.
— Talvez tenhas uma história para contar sobre ele também? — disse o menino.
— Não ouvi muito a respeito dele, mas creio que era norueguês. Servira a um rei da Noruega, caiu em desgraça perante ele e teve de fugir do país.
— Mais tarde, passou-se para o rei sueco, que vivia em Upsala, e entrou a seu serviço. Mas, depois de algum tempo, pediu a mão da irmã do rei em casamento, e, como o rei não quis dar-lhe uma noiva de tão alto nascimento, fugiu com ela. A essa altura, conseguira cair em tamanho desfavor que já não era seguro viver nem na Noruega nem na Suécia, e não desejava mudar-se para um país estrangeiro. “Mas ainda deve haver um caminho aberto para mim”, pensou. Com seus servos e tesouros, viajou através da Dalecarlia até chegar às florestas desoladas além dos limites da província. Ali se estabeleceu, construiu casas e abriu terras. Assim, vês, foi o primeiro homem a fixar morada nesta parte do país.
Enquanto o menino escutava a última história, parecia muito sério.
— Pergunto-me qual é teu objetivo ao me contar tudo isso — repetiu.
Bataki se torceu, virou-se e apertou os olhos, e demorou algum tempo antes de responder ao menino.
— Já que estamos aqui a sós — disse por fim —, aproveitarei a ocasião para te interrogar sobre certo assunto.
— Alguma vez tentaste descobrir sob que condições o elfo que te transformou deveria devolver-te à forma normal de ser humano?
— A única estipulação de que ouvi falar foi que eu deveria levar o ganso-macho branco até a Lapônia e trazê-lo de volta a Skåne, são e salvo.
— Foi o que pensei — disse Bataki —; pois, quando nos encontramos pela última vez, falaste com confiança de que nada havia mais desprezível do que enganar um amigo que confia em alguém. Será melhor perguntares a Akka quais são as condições. Sabes, suponho, que ela esteve em tua casa e conversou com o elfo.
— Akka não me contou isso — disse o menino, admirado.
— Ela deve ter pensado que era melhor para ti não saber exatamente o que o elfo disse. Naturalmente, preferiria ajudar a ti do que a Morten Ganso-Macho.
— É singular, Bataki, que sempre tenhas um modo de me fazer sentir infeliz e ansioso — disse o menino.
— Talvez assim pareça — continuou o corvo —, mas desta vez creio que me agradecerás por te dizer que as palavras do elfo foram neste sentido: tu voltarias a ser um ser humano normal se trouxesses Morten Ganso-Macho de volta para que tua mãe pudesse pô-lo no cepo e cortar-lhe a cabeça.
O menino saltou.
— Isso é apenas uma de tuas infames invenções! — gritou, indignado.
— Podes perguntar tu mesmo a Akka — disse Bataki. — Vejo-a vindo ali em cima com todo o seu bando. E não te esqueças do que te contei hoje. Geralmente há uma saída para todas as dificuldades, se apenas se consegue encontrá-la. Terei interesse em ver que êxito terás.
Quarta-feira, cinco de outubro.
Nesse dia, o menino aproveitou a hora de descanso, quando Akka se alimentava apartada dos outros gansos selvagens, para perguntar-lhe se aquilo que Bataki relatara era verdade, e Akka não pôde negá-lo. O menino fez a gansa-chefe prometer que não revelaria o segredo a Morten Ganso-Macho. O grande ganso branco era tão bravo e generoso que poderia fazer alguma imprudência se soubesse das estipulações do elfo.
Mais tarde, o menino sentou-se no dorso do ganso, sombrio e calado, de cabeça baixa. Ouviu os gansos selvagens gritarem aos gansinhos que agora estavam em Dalarne, que podiam ver Städjan ao norte, e que agora voavam sobre o rio Österdal rumo ao lago Horrmund, chegando ao rio Vesterdal. Mas o menino não se importava nem mesmo em olhar para tudo aquilo.
— Provavelmente viajarei com os gansos selvagens pelo resto da vida — observou consigo mesmo —, e é provável que eu veja desta terra mais do que desejo.
Ficou igualmente indiferente quando os gansos selvagens lhe gritaram que agora haviam chegado a Vermland e que o curso d’água que seguiam para o sul era o Klarälven.
— Já vi tantos rios — pensou o menino —, por que me dar ao trabalho de olhar mais um?
Mesmo que estivesse mais ansioso por contemplar paisagens, não havia muito que ver, pois o norte de Vermland não passa de vastas extensões monótonas de floresta, pelas quais o Klarälven serpenteia — estreito e rico em corredeiras. Aqui e ali se pode ver uma carvoaria, uma clareira na mata, ou algumas cabanas baixas, sem chaminés, ocupadas por finlandeses. Mas a floresta, em conjunto, é tão extensa que se poderia imaginar estar bem longe, na Lapônia.
Quinta-feira, seis de outubro.
Os gansos selvagens seguiram o Klarälven até as grandes fundições de ferro em Monk Fors. Depois prosseguiram para oeste, rumo a Fryksdalen. Antes de chegarem ao lago Fryken, começou a escurecer, e pousaram num pequeno brejo úmido, numa colina arborizada. O brejo era certamente um bom pouso noturno para os gansos selvagens, mas o menino o achou sombrio e áspero, e desejou um lugar melhor para dormir. Enquanto ainda estava alto no ar, notara que abaixo da crista havia algumas fazendas, e com grande pressa partiu para procurá-las.
Estavam mais longe do que ele imaginara, e várias vezes sentiu-se tentado a voltar. Pouco depois, a mata tornou-se menos cerrada, e ele chegou a uma estrada que contornava a orla da floresta. Dela se ramificava uma bonita alameda ladeada de bétulas, que descia até uma fazenda, e imediatamente ele se apressou para lá.
Primeiro, o menino entrou num pátio de fazenda tão grande quanto uma praça de mercado de cidade, cercado por uma longa fileira de casas vermelhas. Ao atravessar o pátio, viu outra fazenda, onde a casa de moradia dava para um caminho de cascalho e um amplo gramado. Atrás da casa havia um jardim espesso de folhagem. A própria moradia era pequena e humilde, mas o jardim era cercado por uma fileira de sorveiras extraordinariamente altas, tão juntas umas das outras que formavam uma verdadeira muralha ao redor dele. Pareceu ao menino como se entrasse numa grande câmara de abóbada elevada, tendo o belo céu azul por teto. As sorveiras estavam carregadas de cachos de bagas vermelhas; os relvados ainda eram verdes, naturalmente, mas naquela noite havia lua cheia, e, quando o claro luar caía sobre a relva, ela parecia branca como prata.
Não havia ser humano à vista, e o menino podia vaguear livremente por onde quisesse. Quando estava no jardim, viu algo que quase o pôs de bom humor. Havia subido numa sorveira para comer bagas, mas antes que pudesse alcançar um cacho avistou um arbusto de bérberis, também cheio de frutos. Deslizou pelo ramo da sorveira e trepou no arbusto de bérberis, mas mal chegou ali descobriu uma groselheira, da qual ainda pendiam longos cachos vermelhos. Em seguida viu que o jardim estava cheio de groselheiras, framboeseiras e roseiras-bravas; que havia couves e nabos nos canteiros de hortaliças, bagas em cada arbusto, sementes nas ervas e espigas cheias de grãos em cada haste. E ali no caminho — não, naturalmente não podia enganar-se — havia uma grande maçã vermelha que brilhava ao luar.
O menino sentou-se à beira do caminho, com a grande maçã vermelha diante de si, e começou a cortar pequenos pedaços dela com sua faca de bainha.
— Não seria coisa tão grave ser elfo a vida inteira se fosse sempre tão fácil conseguir boa comida como aqui — pensou.
Sentou-se e cismou enquanto comia, perguntando-se por fim se não seria melhor para ele permanecer ali e deixar os gansos selvagens viajarem para o sul sem ele.
— Não sei, por minha vida, como poderei jamais explicar a Morten Ganso-Macho que não posso voltar para casa — pensou. — Seria melhor que eu o deixasse de uma vez. Poderia reunir provisões suficientes para o inverno, como fazem os esquilos, e, se vivesse num canto escuro do estábulo ou do curral, não morreria congelado.
Justamente quando pensava nisso, ouviu um leve farfalhar sobre a cabeça, e, um segundo depois, algo que se assemelhava a um toco de bétula estava de pé no chão ao seu lado.
O toco se torceu e se virou, e dois pontos brilhantes no alto dele reluziram como brasas. Parecia algum encantamento. Contudo, o menino logo reparou que o toco tinha um bico adunco e grandes coroas de penas ao redor dos olhos resplandecentes. Então soube que aquilo não era encantamento algum.
— É um verdadeiro prazer encontrar uma criatura viva — observou o menino. — Talvez tenha a bondade de me dizer o nome deste lugar, Senhora Coruja-Parda, e que espécie de gente vive aqui.
Naquela tarde, como em todas as outras, a coruja pousara num degrau da grande escada encostada ao telhado, de onde olhava para baixo, para os caminhos de cascalho e os relvados, à espreita de ratos. Para sua grande surpresa, nem uma só pele-cinzenta aparecera. Viu, em vez disso, algo que parecia um ser humano, mas muito, muito menor, movendo-se pelo jardim.
— É esse aí que está espantando os ratos! — pensou a coruja. — Que coisa no mundo poderá ser? Não é esquilo, nem gatinho, nem doninha — observou. — Suponho que uma ave que vive num velho lugar como este há tanto tempo quanto eu deveria saber de tudo no mundo; mas isto está além da minha compreensão — concluiu.
Ficara fitando o objeto que se movia no caminho de cascalho até seus olhos arderem. Por fim, a curiosidade levou a melhor, e ela voou até o chão para ver de perto o estranho.
Quando o menino começou a falar, a coruja inclinou-se para a frente e o examinou de alto a baixo.
— Ele não tem garras nem chifres — observou ela consigo mesma —, mas quem sabe se não possui uma presa venenosa ou alguma arma ainda mais perigosa. Preciso tentar descobrir por que espécie de criatura o tomam antes de me aventurar a tocá-lo.
— O lugar se chama Mårbacka — disse a coruja —, e gente distinta viveu aqui outrora. Mas tu, quem és?
— Penso em me mudar para cá — ofereceu o menino, sem responder à pergunta da coruja. — Achas que seria possível?
— Oh, sim; mas agora não é grande coisa, comparado ao que foi um dia — disse a coruja. — Creio que poderás aguentar-te aqui. Tudo depende daquilo de que pretendes viver. Tencionas dedicar-te à caça aos ratos?
— Oh, de modo algum! — declarou o menino. — Há mais perigo de os ratos me comerem do que de eu lhes fazer algum mal.
“Não pode ser que ele seja tão inofensivo quanto diz”, pensou a coruja-parda. “Mesmo assim, creio que farei uma tentativa...” Ergueu-se no ar, e num segundo suas garras estavam cravadas no ombro de Nils Holgersson, enquanto ela tentava bicar-lhe os olhos.
O menino protegeu os dois olhos com uma das mãos e tentou libertar-se com a outra, ao mesmo tempo chamando por socorro com todas as suas forças. Compreendeu que estava em perigo mortal e pensou que desta vez, certamente, tudo estava acabado para ele!
Agora devo contar-vos uma estranha coincidência: no mesmo ano em que Nils Holgersson viajou com os gansos selvagens, havia uma mulher que pensava em escrever um livro sobre a Suécia, próprio para ser lido pelas crianças nas escolas. Pensara nisso desde o tempo do Natal até o outono seguinte; mas não escrevera uma só linha do livro. Por fim ficou tão cansada de tudo aquilo que disse a si mesma: “Não és talhada para esse trabalho. Senta-te e compõe histórias e lendas, como de costume, e deixa que outro escreva este livro, que precisa ser sério e instrutivo, e no qual não deve haver uma só palavra inverídica.”
Estava praticamente decidido que abandonaria a ideia. Mas pensava, muito naturalmente, que teria sido agradável escrever algo belo sobre a Suécia, e lhe era difícil renunciar ao trabalho. Por fim, ocorreu-lhe que talvez fosse por viver numa cidade, cercada apenas de ruas cinzentas e paredes de casas, que não conseguia avançar na escrita. Talvez, se fosse para o campo, onde pudesse ver bosques e campos, as coisas corressem melhor.
Ela era de Vermland, e estava perfeitamente claro para ela que desejava começar o livro por aquela província. Antes de tudo, escreveria sobre o lugar onde crescera. Era uma pequena propriedade rural, muito afastada do grande mundo, onde se conservavam muitos hábitos e costumes antigos. Pensava que seria divertido para as crianças ouvir falar dos múltiplos afazeres que se sucediam ao longo do ano. Queria contar-lhes como se celebravam o Natal, o Ano-Novo, a Páscoa e o dia de São João em sua casa; que espécie de mobília tinham; como eram a cozinha e a despensa, e que aspecto tinham o curral das vacas, o estábulo, o celeiro e a casa de banho. Mas, quando ia escrever sobre isso, a pena não se movia. Por que isso acontecia, ela não podia compreender minimamente; ainda assim, era assim.
É verdade que se lembrava de tudo com tanta nitidez como se ainda vivesse no meio daquilo. Argumentou consigo mesma que, já que de qualquer modo iria ao campo, talvez devesse fazer uma pequena viagem à antiga propriedade, para vê-la de novo antes de escrever sobre ela. Não estivera lá havia muitos anos e não achou nada mau ter uma razão para a viagem. Na verdade, sempre ansiara por estar ali, não importava em que parte do mundo se encontrasse. Vira muitos lugares mais imponentes e mais bonitos. Mas em parte alguma encontrara tal conforto e proteção como no lar de sua infância.
Não era coisa tão fácil para ela voltar para casa como se poderia imaginar, pois a propriedade fora vendida a pessoas que ela não conhecia. Sentia, sem dúvida, que a receberiam bem, mas não lhe agradava ir ao velho lugar para sentar-se e conversar com estranhos, pois queria recordar como fora nos tempos passados. Por isso planejou chegar ali tarde da noite, quando o trabalho do dia estivesse terminado e as pessoas estivessem dentro de casa.
Nunca imaginara que seria tão maravilhoso voltar para casa! Enquanto estava sentada na carroça e seguia rumo à antiga propriedade, pareceu-lhe que ficava cada vez mais jovem a cada minuto, e que em breve já não seria uma pessoa um tanto idosa, de cabelos que começavam a embranquecer, mas uma menina de saias curtas e longa trança loura. À medida que reconhecia cada fazenda ao longo da estrada, não podia imaginar outra coisa senão que tudo em casa estaria como nos dias antigos. Seu pai, sua mãe, seus irmãos e irmãs estariam de pé no alpendre para recebê-la; a velha governanta correria até a janela da cozinha para ver quem chegava, e Nero, Freja e mais um ou dois cães viriam pulando e saltando ao seu encontro.
Quanto mais se aproximava do lugar, mais feliz se sentia. Era outono, o que significava tempo ocupado, com uma sucessão de tarefas. Deviam ser todos esses afazeres variados que impediam a casa de ser monótona. Ao longo de todo o caminho, os lavradores cavavam batatas, e provavelmente fariam o mesmo em sua casa. Isso significava que logo deveriam começar a ralar batatas e fazer fécula de batata. O outono fora ameno; perguntou-se se tudo no jardim já teria sido guardado. As couves ainda estavam do lado de fora, mas talvez o lúpulo já tivesse sido colhido, e todas as maçãs.
Seria bom se não estivessem em plena limpeza da casa. O tempo da feira de outono se aproximava; por toda parte, a limpeza e a lavagem tinham de ser feitas antes da abertura da feira. Isso era considerado um grande acontecimento — sobretudo pelos criados. Era um prazer entrar na cozinha na véspera do mercado e ver o chão recém-esfregado, coberto de ramos de zimbro, as paredes caiadas e os utensílios de cobre reluzentes, suspensos do teto.
Mesmo depois de passadas as festividades da feira, não haveria muito alento, pois então vinha o trabalho do linho. Durante os dias caniculares, o linho fora estendido num prado para macerar. Agora era levado para a velha casa de banho, onde o fogão era aceso para secá-lo. Quando estava seco o bastante para ser manejado, chamavam-se todas as mulheres da vizinhança. Sentavam-se do lado de fora da casa de banho e desfiavam o linho em pedaços. Depois o batiam com espadelas, para separar as finas fibras brancas dos caules secos. Enquanto trabalhavam, as mulheres ficavam cinzentas de pó; seus cabelos e roupas cobriam-se de sementes de linho, mas não pareciam se importar. O dia inteiro as espadelas batiam, e a conversa prosseguia, de modo que, quando alguém se aproximava da velha casa de banho, parecia que uma tempestade barulhenta se soltara ali.
Depois do trabalho com o linho, vinham a grande fornada de pão duro, a tosquia das ovelhas e o tempo de mudança dos criados. Em novembro havia os dias atarefados da matança, com a salga das carnes, a feitura de salsichas, o preparo de morcela e a imersão das velas. A costureira que costumava confeccionar os vestidos de tecido caseiro naturalmente tinha de vir nessa época, e essas eram sempre duas semanas agradáveis — quando as mulheres se sentavam juntas e se ocupavam da costura. O sapateiro, que fazia sapatos para toda a casa, trabalhava ao mesmo tempo nos aposentos dos criados, e nunca se cansava alguém de observá-lo enquanto cortava o couro, punha solas e saltos nos sapatos e fazia ilhoses nos buracos dos cadarços.
Mas a maior correria vinha perto do Natal. O dia de Santa Lúcia — quando a criada andava vestida de branco, com velas no cabelo, e servia café a todos às cinco da manhã — vinha como uma espécie de lembrete de que, nas duas semanas seguintes, não se podia contar com muito sono. Pois agora era preciso preparar a cerveja de Natal, pôr de molho em lixívia o peixe natalino, fazer os assados de Natal e a limpeza de Natal.
Ela estava no meio da fornada, com assadeiras de pães de Natal e bandejas de biscoitos ao redor, quando o cocheiro puxou as rédeas no fim da alameda, como ela pedira. Estremeceu como alguém subitamente despertado de um sono profundo. Era triste para ela, que acabara de sonhar-se rodeada por toda a sua gente, estar sentada sozinha no fim da tarde. Ao descer da carroça e começar a subir a longa alameda a pé, para chegar sem ser observada ao antigo lar, sentiu com tanta força o contraste entre então e agora que teria preferido voltar.
— De que serve vir aqui? — suspirou. — Não pode ser como nos velhos tempos!
Por outro lado, sentia que, já que viajara tão longa distância, veria o lugar de qualquer modo, e continuou a caminhar, embora se sentisse mais abatida a cada passo.
Ouvira dizer que estava muito mudado; e certamente estava! Mas não percebeu isso agora, à noite. Antes pensou que tudo era exatamente o mesmo. Ali estava o açude, que em sua juventude fora cheio de carpas e onde ninguém ousava pescar, porque era desejo de seu pai que as carpas fossem deixadas em paz. Lá ficavam os aposentos dos criados, a despensa e o celeiro, com o sino do pátio sobre uma empena e o cata-vento sobre a outra. O terreiro da casa era como um aposento circular, sem vista para lado algum, tal como fora no tempo de seu pai — pois ele não tinha coragem de cortar sequer um arbusto.
Ela se demorou na sombra sob a grande sorveira à entrada da fazenda e ficou olhando ao redor. Enquanto estava ali, aconteceu algo estranho; um bando de pombas veio e pousou junto dela.
Mal podia acreditar que fossem aves reais, pois as pombas não têm o hábito de se mover depois do pôr do sol. Devia ter sido o belo luar que as despertara. Devem ter pensado que era aurora e voado de seus pombais, apenas para ficarem confusas, mal sabendo onde estavam. Quando viram um ser humano, voaram até ela, como se ela pudesse orientá-las.
Havia muitos bandos de pombas no solar quando seus pais viviam ali, pois as pombas estavam entre as criaturas que seu pai tomara sob seu cuidado especial. Se alguém chegasse a mencionar matar uma pomba, isso o deixava de mau humor. Ela se agradou de que as lindas aves tivessem vindo encontrá-la no velho lar. Quem poderia dizer que as pombas não haviam voado pela noite para lhe mostrar que não tinham esquecido que, outrora, tivera ali uma boa morada?
Talvez seu pai tivesse enviado as aves com uma saudação para ela, para que não se sentisse tão triste e solitária ao chegar à antiga casa.
Ao pensar nisso, brotou dentro dela uma saudade tão intensa dos velhos tempos que seus olhos se encheram de lágrimas. A vida fora bela naquele lugar. Tinham tido semanas de trabalho interrompidas por muitas festas de feriado. Labutavam duramente o dia inteiro, mas à noite se reuniam em torno da lâmpada e liam Tegner e Runeberg, Fru Lenngren e Mamsell Bremer. Cultivavam trigo, mas também rosas e jasmim. Fiavam linho, mas cantavam canções populares enquanto fiavam. Trabalhavam com afinco em história e gramática, mas também representavam teatro e escreviam versos. Ficavam diante do fogão da cozinha preparando comida, mas aprendiam também a tocar flauta e violão, violino e piano. Plantavam couves e nabos, ervilhas e feijões numa horta, mas tinham outra cheia de maçãs e peras e toda sorte de bagas. Viviam por si mesmos, e era por isso que tantas histórias e lendas estavam guardadas em suas memórias. Vestiam roupas de tecido caseiro, mas também eram capazes de levar vidas despreocupadas e independentes.
“Em nenhum outro lugar do mundo sabem tirar tanto da vida quanto tiravam numa dessas pequenas propriedades no tempo da minha infância!”, pensou ela. “Havia trabalho na medida certa e brincadeira na medida certa, e em cada dia havia uma alegria. Como eu gostaria de voltar para cá outra vez! Agora que vi o lugar, é difícil deixá-lo.”
Então se voltou para o bando de pombas e lhes disse — rindo de si mesma todo o tempo:
— Não quereis voar até meu pai e dizer-lhe que anseio por voltar para casa? Vagueei tempo bastante por lugares estranhos. Perguntai-lhe se não pode arranjar as coisas de modo que eu logo possa regressar ao lar da minha infância.
No momento em que disse isso, o bando de pombas ergueu-se e voou para longe. Ela tentou segui-las com os olhos, mas desapareceram instantaneamente. Era como se toda aquela companhia branca se houvesse dissolvido no ar cintilante.
Mal as pombas tinham partido quando ela ouviu um par de gritos agudos vindos do jardim, e, ao apressar-se para lá, viu uma cena singular. Ali estava um minúsculo anãozinho, não mais alto que um palmo, lutando com uma coruja-parda. A princípio ficou tão assombrada que não conseguiu se mover. Mas, quando o anãozinho gritou cada vez mais lastimosamente, ela avançou depressa e separou os combatentes. A coruja lançou-se para dentro de uma árvore, mas o anãozinho ficou de pé no caminho de cascalho, sem tentar esconder-se nem fugir.
— Obrigado por tua ajuda — disse ele. — Mas foi muita estupidez tua deixar a coruja escapar. Não posso sair daqui, porque ela está sentada lá em cima, na árvore, vigiando-me.
— Foi irrefletido de minha parte deixá-la ir. Mas, para reparar isso, não posso acompanhar-te até tua casa? — perguntou aquela que escrevia histórias, um tanto surpresa por pensar que, de modo tão inesperado, entrara em conversa com uma das criaturas miúdas. Ainda assim, afinal, não se surpreendia tanto. Era como se, durante todo o tempo, enquanto caminhava ao luar diante de seu antigo lar, estivesse à espera de alguma experiência extraordinária.
— A verdade é que pensei em passar a noite aqui — disse o anãozinho. — Se apenas me mostrares um lugar seguro para dormir, não serei obrigado a voltar para a floresta antes do romper do dia.
— Devo eu mostrar-te um lugar para dormir? Não és daqui?
— Compreendo que me tomes por uma das criaturas miúdas — disse o anãozinho —, mas sou um ser humano, como tu, embora tenha sido transformado por um elfo.
— Isso é a coisa mais extraordinária que já ouvi! Não gostarias de me contar como vieste cair em tal situação?
O menino não se importou de lhe contar suas aventuras, e, à medida que a narrativa prosseguia, aquela que o escutava ficava cada vez mais assombrada e feliz.
“Que sorte encontrar alguém que viajou por toda a Suécia no dorso de um ganso!”, pensou ela. “Justamente isto que ele está contando eu escreverei em meu livro. Agora já não preciso preocupar-me com esse assunto. Foi bom ter vindo para casa. Pensar que eu encontraria tal auxílio assim que chegasse ao velho lugar!”
Instantaneamente outro pensamento lhe atravessou a mente. Ela enviara ao pai, pelas pombas, a mensagem de que ansiava pelo lar, e quase no mesmo instante recebera ajuda para a questão sobre a qual meditara por tanto tempo. Não poderia ser aquela a resposta do pai à sua prece?
Sexta-feira, sete de outubro.
Desde o começo da viagem de outono, os gansos selvagens tinham voado diretamente para o sul; mas, quando deixaram Fryksdalen, desviaram para outra direção, viajando sobre o oeste de Vermland e Dalsland, rumo a Bohuslän.
Foi uma viagem alegre! Os gansinhos agora estavam tão habituados a voar que já não se queixavam de cansaço, e o menino recuperava rapidamente o bom humor. Estava contente por ter conversado com um ser humano. Sentiu-se encorajado quando ela lhe disse que, se continuasse a fazer o bem a todos que encontrasse, como até então, aquilo não poderia terminar mal para ele. Ela não soubera dizer-lhe como recuperar sua forma natural, mas lhe dera um pouco de esperança e confiança, o que inspirou o menino a imaginar um modo de impedir que o grande ganso branco voltasse para casa.
— Sabes, Morten Ganso-Macho, que será um tanto monótono ficarmos em casa durante todo o inverno depois de termos feito uma viagem como esta — disse ele, enquanto voavam muito alto no ar. — Estou aqui pensando que deveríamos ir para terras estrangeiras com os gansos.
— Certamente não estás falando sério! — disse o ganso-macho. Desde que provará aos gansos selvagens sua capacidade de viajar com eles até a Lapônia, estava perfeitamente satisfeito em voltar ao cercado dos gansos, no curral de Holger Nilsson.
O menino permaneceu calado por algum tempo e contemplou Vermland lá embaixo, onde os bosques de bétulas, as matas frondosas e os jardins estavam vestidos das cores vermelhas e amarelas do outono.
— Creio que nunca vi a terra abaixo de nós tão bela como hoje! — observou por fim. — Os lagos parecem fitas de cetim azul. Não achas que seria uma pena fixar-nos em West Vemminghög e nunca mais ver nada do mundo?
— Pensei que querias voltar para casa, para tua mãe e teu pai, e mostrar-lhes que esplêndido menino te havias tornado — disse o ganso-macho.
Durante todo o verão ele sonhara com o momento orgulhoso em que pousaria no terreiro diante da cabana de Holger Nilsson e mostraria Dunfin e os seis gansinhos aos gansos e às galinhas, às vacas e ao gato, e à própria Mãe Holger Nilsson; por isso não ficou muito feliz com a proposta do menino.
— Ora, Morten Ganso-Macho, não achas tu mesmo que seria duro nunca mais ver coisa alguma bela? — disse o menino.
— Eu preferiria ver os gordos campos de trigo de Söderslätt a estas colinas magras — respondeu o ganso-macho. — Mas deves saber muito bem que, se realmente desejas continuar a viagem, não posso separar-me de ti.
— Era justamente essa a resposta que eu esperava de ti — disse o menino, e sua voz traía que se livrara de uma grande ansiedade.
Mais tarde, quando viajaram sobre Bohuslän, o menino observou que as extensões de montanha eram mais contínuas, os vales pareciam mais pequenas ravinas abertas na base rochosa, enquanto os lagos compridos ao pé delas eram negros como se viessem do mundo subterrâneo. Também aquele era um país glorioso, e, ao vê-lo, ora com uma faixa de sol, ora com uma sombra, o menino pensou que havia nele algo estranho e selvagem. Não sabia por quê, mas ocorreu-lhe a ideia de que, outrora, houvera naquelas regiões misteriosas muitos heróis fortes e bravos, que haviam passado por muitas aventuras perigosas e ousadas. Despertou nele a antiga paixão de querer tomar parte em toda sorte de aventuras maravilhosas.
— Talvez eu sentisse falta de não estar em perigo de vida ao menos uma vez a cada dia ou dois — pensou. — De qualquer modo, é melhor contentar-me com as coisas como são.
Não falou dessa ideia ao grande ganso branco, porque os gansos agora voavam sobre Bohuslän com toda a velocidade que podiam reunir, e o ganso-macho ofegava com tanta força que não teria tido fôlego para responder.
O sol estava muito baixo no horizonte e desaparecia de vez em quando atrás de uma colina; ainda assim, os gansos continuavam a avançar.
Por fim, a oeste, viram uma faixa brilhante de luz, que se alargava mais e mais a cada bater de asas. Logo o mar se estendeu diante deles, branco como leite, com cintilações de rosa-vermelho e azul-celeste; e, quando haviam contornado em círculos os penhascos da costa, viram novamente o sol, que pairava sobre o mar, grande e vermelho, pronto para mergulhar nas ondas.
Enquanto o menino contemplava o mar largo e sem fim e o sol vermelho do entardecer, que tinha um brilho tão bondoso que ele ousava olhá-lo diretamente, sentiu uma sensação de paz e calma penetrar-lhe a alma.
— Não vale a pena ficar triste, Nils Holgersson — disse o Sol. — Este é um mundo belo para se viver, tanto para os grandes como para os pequenos. Também é bom ser livre e feliz, e ter acima de si uma grande cúpula de céu aberto.
Os gansos dormiam sobre uma pequena ilhota rochosa, logo além de Fjällbacka. Quando se aproximou a meia-noite e a lua pendia alta nos céus, a velha Akka sacudiu a sonolência dos olhos. Depois caminhou ao redor e despertou Yksi e Kaksi, Kolme e Neljä, Viisi e Kuusi, e, por último, deu em Polegarzinho uma cutucada com o bico que o fez despertar assustado.
— Que foi, Mamãe Akka? — perguntou ele, saltando alarmado.
— Nada grave — garantiu a gansa-chefe. — É apenas isto: nós sete, que há tanto tempo estamos juntos, queremos voar esta noite uma pequena distância mar adentro, e nos perguntamos se gostarias de vir conosco.
O menino sabia que Akka não teria proposto aquele movimento se não houvesse algo importante em curso; por isso sentou-se prontamente em seu dorso. O voo seguiu diretamente para oeste. Os gansos selvagens primeiro passaram sobre uma faixa de ilhas grandes e pequenas perto da costa; depois, sobre uma ampla extensão de mar aberto, até alcançarem o grande agrupamento conhecido como Ilhas Väder. Todas eram baixas e rochosas, e ao luar podia-se ver que eram bastante grandes.
Akka olhou para uma das ilhas menores e pousou ali. Consistia numa colina redonda de pedra cinzenta, com uma larga fenda atravessando-a, dentro da qual o mar lançara fina areia branca e algumas conchas.
Quando o menino deslizou do dorso da gansa, notou bem perto de si algo que parecia uma pedra irregular. Mas quase no mesmo instante viu que era uma grande ave de rapina que escolhera a ilha rochosa como pouso noturno. Antes que o menino tivesse tempo de se admirar de os gansos pousarem tão imprudentemente perto de um inimigo perigoso, a ave voou até eles, e o menino reconheceu Gorgo, a águia.
Evidentemente Akka e Gorgo haviam combinado o encontro, pois nenhum dos dois foi apanhado de surpresa.
— Foi bondade tua, Gorgo — disse Akka. — Não esperava que chegasses ao lugar do encontro antes de nós. Estás aqui há muito tempo?
— Vim no começo da noite — respondeu Gorgo. — Mas receio que o único elogio que mereço seja por ter cumprido meu compromisso contigo. Não tive muito êxito em executar as ordens que me deste.
— Tenho certeza, Gorgo, de que fizeste mais do que queres admitir — assegurou Akka. — Mas antes que relates tuas experiências na viagem, pedirei a Polegarzinho que me ajude a encontrar algo que se supõe estar enterrado nesta ilha.
O menino estava contemplando, admirado, duas belas conchas, mas, quando Akka pronunciou seu nome, ergueu os olhos.
— Deves ter-te perguntado, Polegarzinho, por que saímos de nosso rumo para voar até aqui, ao Mar do Oeste — disse Akka.
— Para ser franco, achei estranho — respondeu o menino. — Mas sabia, naturalmente, que sempre tens uma boa razão para tudo o que fazes.
— Tens boa opinião de mim — tornou Akka —, mas quase temo que agora a percas, pois é muito provável que tenhamos feito esta viagem em vão.
— Há muitos anos aconteceu que duas das outras gansas velhas e eu encontramos tempestades terríveis durante um voo de primavera e fomos impelidas pelo vento até esta ilha. Quando descobrimos que diante de nós havia apenas mar aberto, tememos ser arrastadas para tão longe que nunca mais encontraríamos o caminho de volta à terra; por isso nos deitamos sobre as ondas entre estes penhascos nus, onde a tempestade nos obrigou a permanecer por vários dias.
— Sofremos terrivelmente de fome; certa vez nos aventuramos a subir até a fenda desta ilha em busca de alimento. Não conseguimos encontrar uma única folha verde, mas vimos várias bolsas bem amarradas, meio enterradas na areia. Esperamos encontrar grãos nas bolsas e as puxamos e repuxamos até rasgar o pano. Contudo, não saiu grão algum, mas moedas de ouro reluzentes. Para tais coisas nós, gansos selvagens, não tínhamos utilidade; portanto as deixamos onde estavam. Não pensamos naquele achado durante todos estes anos; mas neste outono surgiu algo que nos faz desejar ouro.
— Não sabemos se o tesouro ainda está aqui, mas viajamos todo este caminho para te pedir que investigues o assunto.
Com uma concha em cada mão, o menino saltou para dentro da fenda e começou a retirar a areia. Não encontrou bolsas; mas, quando abrira um buraco profundo, ouviu o tilintar de metal e viu que havia encontrado uma moeda de ouro. Então cavou com os dedos e sentiu muitas moedas na areia. Por isso apressou-se a voltar até Akka.
— As bolsas apodreceram e se desfizeram — exclamou —, e o dinheiro está espalhado por toda a areia.
— Está bem! — disse Akka. — Agora enche o buraco e alisa-o, para que ninguém note que a areia foi remexida.
O menino fez como lhe haviam ordenado; mas, quando subiu da fenda, ficou admirado ao ver que os gansos selvagens estavam enfileirados, com Akka à frente, e marchavam em sua direção com grande solenidade.
Os gansos pararam diante dele, e todos inclinaram muitas vezes a cabeça, com tal gravidade que ele teve de tirar o gorro e fazer-lhes uma reverência.
— A verdade é — disse Akka — que nós, gansos velhos, estivemos pensando que, se Polegarzinho tivesse estado a serviço dos seres humanos e tivesse feito por eles tanto quanto fez por nós, não o deixariam partir sem recompensá-lo bem.
— Eu não vos ajudei; fostes vós que cuidastes bem de mim — respondeu o menino.
— Também pensamos — continuou Akka — que, quando um ser humano nos acompanhou durante uma viagem inteira, não se deve permitir que nos deixe tão pobre quanto chegou.
— Sei que aquilo que aprendi este ano convosco vale para mim mais que ouro ou terras — disse o menino.
— Visto que estas moedas de ouro ficaram todos estes anos sem dono na fenda, creio que deves ficar com elas — declarou a gansa selvagem.
— Pensei que havias dito algo sobre precisardes vós mesmas desse dinheiro — lembrou o menino.
— Precisamos dele para poder dar-te uma recompensa que faça tua mãe e teu pai pensarem que trabalhaste como menino dos gansos entre gente digna.
O menino virou-se meio de lado e lançou um olhar para o mar; depois voltou-se e fitou diretamente os olhos brilhantes de Akka.
— Acho estranho, Mamãe Akka, que me despeças de teu serviço desse modo e me pagues antes que eu tenha dado aviso — disse ele.
— Enquanto nós, gansos selvagens, permanecermos na Suécia, confio que ficarás conosco — disse Akka. — Eu apenas queria mostrar-te onde estava o tesouro enquanto podíamos alcançá-lo sem nos afastarmos demais de nosso caminho.
— Mesmo assim, parece que desejas livrar-te de mim antes que eu queira partir — argumentou Polegarzinho. — Depois de todos os bons momentos que tivemos juntos, acho que deverias permitir que eu fosse para terras estrangeiras convosco.
Quando o menino disse isso, Akka e os outros gansos selvagens esticaram os longos pescoços bem para cima e permaneceram um momento, com os bicos entreabertos, bebendo o ar.
— Isso é algo em que eu não havia pensado — disse Akka, quando se recompôs. — Antes que decidas vir conosco, é melhor ouvirmos o que Gorgo tem a dizer. Convém que saibas que, quando deixamos a Lapônia, o acordo entre Gorgo e eu foi que ele viajaria até tua casa, lá em Skåne, para tentar obter melhores condições para ti junto ao elfo.
— É verdade — afirmou Gorgo —, mas, como já te disse, a sorte me foi contrária. Logo encontrei a pequena propriedade de Holger Nilsson e, depois de circular para cima e para baixo sobre o lugar por algumas horas, avistei o elfo esgueirando-se entre os galpões.
— Imediatamente me lancei sobre ele e voei com ele até um prado, onde pudéssemos conversar sem interrupção.
— Disse-lhe que fora enviado por Akka de Kebnekaise para perguntar se ele não poderia dar a Nils Holgersson condições mais fáceis.
— “Eu bem gostaria de poder!” — respondeu ele —, “pois ouvi dizer que ele se comportou bem durante a viagem; mas isso não está em meu poder.”
— Então fiquei furioso e disse que lhe arrancaria os olhos se não cedesse.
— “Podes fazer como quiseres” — retrucou ele —, “mas, quanto a Nils Holgersson, tudo se passará exatamente como eu disse. Podes dizer-lhe, de minha parte, que faria bem em voltar logo com seu ganso, pois os negócios da fazenda estão em má situação. Seu pai teve de pagar uma fiança por seu irmão, em quem confiava. Comprou um cavalo com dinheiro emprestado, e o animal ficou manco na primeira vez em que o guiou. Desde então, não lhe serviu para coisa alguma neste mundo. Dize a Nils Holgersson que seus pais tiveram de vender duas das vacas e que terão de abandonar a pequena propriedade se não receberem ajuda de algum lugar.”
Ao ouvir isso, o menino franziu a testa e cerrou os punhos com tanta força que as unhas lhe cravaram na carne.
— É cruel da parte do elfo tornar as condições tão duras para mim, de modo que eu não possa ir para casa aliviar meus pais; mas ele não há de transformar-me em traidor de um amigo! Meu pai e minha mãe são pessoas honestas e retas. Sei que prefeririam abrir mão de minha ajuda a receber-me de volta com a consciência culpada.
Quinta-feira, três de novembro.
Certo dia, no começo de novembro, os gansos selvagens voaram sobre a Crista de Halland e entraram em Skåne. Durante várias semanas haviam descansado nas vastas planícies ao redor de Falköping. Como muitos outros bandos de gansos selvagens também paravam ali, os gansos adultos haviam passado um tempo agradável visitando velhos amigos, e houve toda sorte de jogos e corridas entre as aves mais jovens.
Nils Holgersson não ficara contente com a demora em Westergötland. Tentara manter o coração firme; mas era-lhe difícil conformar-se com seu destino.
— Se eu apenas estivesse bem longe de Skåne, em alguma terra estrangeira — pensara —, saberia com certeza que nada tenho a esperar, e minha mente ficaria mais tranquila.
Finalmente, certa manhã, os gansos partiram e voaram rumo a Halland.
No começo, o menino teve muito pouco interesse por aquela província. Pensou que não havia nada novo para se ver ali. Mas, quando os gansos selvagens prosseguiram viagem mais para o sul, ao longo das estreitas terras costeiras, o menino inclinou-se sobre o pescoço do ganso e não desviou os olhos do chão.
Viu as colinas desaparecerem pouco a pouco e a planície se estender sob ele; ao mesmo tempo, notou que a costa se tornava menos agreste, enquanto o grupo de ilhas ao largo se rareava, até finalmente desaparecer, e o vasto mar aberto chegava diretamente à terra firme. Ali já não havia florestas: ali a planície reinava. Estendia-se até o horizonte. Uma terra tão exposta, com campo após campo, lembrava ao menino Skåne. Sentiu-se feliz e triste ao contemplá-la.
— Não devo estar muito longe de casa — pensou.
Muitas vezes durante a viagem, os gansinhos haviam perguntado aos gansos velhos:
— Como são as terras estrangeiras?
— Esperai, esperai! Logo vereis — os gansos velhos responderam.
Quando os gansos selvagens passaram a Crista de Halland e avançaram certa distância para dentro de Skåne, Akka gritou:
— Agora olhai para baixo! Olhai ao redor! É assim nas terras estrangeiras.
Justamente então voavam sobre a Crista de Söder. Toda a longa cadeia de colinas estava vestida de bosques de faias, e belos castelos com torres surgiam aqui e ali.
Entre as árvores pastavam corços, e na clareira da floresta saltitavam as lebres. Chifres de caçadores soavam nos bosques; o forte latido dos cães podia ser ouvido até lá em cima, onde estavam os gansos selvagens. Largas alamedas serpenteavam por entre as árvores, e nelas senhoras e cavalheiros passeavam em carruagens polidas ou montavam belos cavalos. Ao pé da crista jazia o lago Ring, com o antigo Mosteiro de Bosjö numa península estreita.
— É assim que parecem as terras estrangeiras? — perguntaram os gansinhos.
— Parecem exatamente assim onde quer que haja cristas cobertas de floresta — respondeu Akka —, só que não se veem muitas delas. Esperai! Vereis como é em geral.
Akka conduziu os gansos mais para o sul, até a grande planície de Skåne. Ali ela se estendia, com campos de cereais; com acres e acres de beterrabas açucareiras, onde os colhedores trabalhavam; com casas de fazenda e dependências baixas, caiadas de branco; com inúmeras igrejazinhas brancas; com feias refinarias de açúcar cinzentas e pequenas aldeias junto às estações ferroviárias. Pequenos lagos de campina, circundados de faias, cada qual adornado por seu próprio solar imponente, cintilavam aqui e ali.
— Agora olhai para baixo! Olhai com atenção! — chamou a gansa-chefe. — Assim é nas terras estrangeiras, desde a costa do Báltico até os altos Alpes. Mais longe que isso nunca viajei.
Quando os gansinhos viram a planície, a gansa-chefe desceu em voo pela costa do Öresund. Campinas pantanosas desciam gradualmente em direção ao mar. Em alguns lugares havia barrancos altos e íngremes; em outros, campos de areia movediça, onde a areia jazia amontoada em bancos e colinas. Aldeias de pescadores erguiam-se ao longo de toda a costa, com longas fileiras de casas baixas e uniformes de tijolo, com um farol à beira do quebra-mar e redes de pesca pardas penduradas nos varais de secagem.
— Agora olhai para baixo! Olhai bem! É assim que parecem as costas nas terras estrangeiras.
Depois que Akka voou desse modo por longo tempo, pousou de repente num pântano da freguesia de Vemminghög, e o menino não pôde deixar de pensar que ela havia viajado sobre Skåne apenas para deixá-lo ver que a terra dele era um país capaz de comparar-se favoravelmente com qualquer outro no mundo. Isso era desnecessário, pois o menino não pensava se o país era rico ou pobre.
Desde o instante em que vira o primeiro bosque de salgueiros, seu coração doía de saudade.
Terça-feira, oito de novembro.
A atmosfera estava baça e enevoada. Os gansos selvagens haviam-se alimentado na grande campina ao redor da igreja de Skerup e descansavam ao meio-dia, quando Akka se aproximou do menino.
— Parece que teremos tempo calmo por algum tempo — observou ela —, e creio que atravessaremos o Báltico amanhã.
— Deveras! — disse o menino, abruptamente, pois sua garganta se apertara tanto que mal podia falar. Durante todo o tempo, acalentara a esperança de que seria libertado do encantamento enquanto ainda estivesse em Skåne.
— Estamos bem perto de West Vemminghög agora — disse Akka —, e pensei que talvez gostasses de ir para casa por um tempo. Pode demorar até que tenhas outra oportunidade de ver os teus.
— Talvez seja melhor eu não ir — disse o menino, hesitante, mas algo em sua voz traiu que se alegrava com a proposta de Akka.
— Se o ganso-macho permanecer conosco, nenhum mal lhe poderá acontecer — assegurou Akka. — Creio que farás bem em descobrir como teus pais estão passando. Talvez possas ajudá-los de algum modo, ainda que não sejas um menino normal.
— Tens razão, Mamãe Akka. Eu devia ter pensado nisso há muito tempo — disse o menino, impulsivamente.
No segundo seguinte, ele e a gansa-chefe estavam a caminho de sua casa. Não demorou muito para que Akka pousasse atrás da cerca de pedra que rodeava a pequena fazenda.
— É estranho como tudo por aqui parece natural! — observou o menino, trepando depressa ao alto da cerca, para poder olhar ao redor. — Parece-me que foi ontem que te vi pela primeira vez vir voando pelo ar.
— Pergunto-me se teu pai tem uma espingarda — disse Akka de repente.
— Podes ter certeza de que tem — respondeu o menino. — Foi justamente a espingarda que me manteve em casa naquele domingo de manhã em que eu deveria ter ido à igreja.
— Então não me atrevo a ficar aqui esperando por ti — disse Akka. — É melhor encontrares-nos em Smygahök amanhã bem cedo, para que possas passar a noite em casa.
— Oh, não vás ainda, Mamãe Akka! — suplicou o menino, saltando da cerca.
Não sabia dizer exatamente por quê, mas sentia como se algo fosse acontecer, ou à gansa selvagem ou a ele mesmo, impedindo que se encontrassem outra vez.
— Sem dúvida vês que estou aflito por não poder recuperar minha forma verdadeira; mas quero te dizer que não me arrependo de ter partido contigo na primavera passada — acrescentou. — Eu preferiria perder a oportunidade de voltar a ser humano a não ter feito aquela viagem.
Akka respirou depressa antes de responder.
— Há uma pequena questão que eu deveria ter mencionado a ti antes, mas, como não voltarás para casa definitivamente, pensei que não havia pressa. Ainda assim, convém dizê-la agora.
— Sabes muito bem que estou sempre contente em cumprir tuas ordens — disse o menino.
— Se aprendeste alguma coisa conosco, Polegarzinho, já não pensas que os seres humanos devam ter a terra inteira só para si — disse a gansa selvagem, solenemente. — Lembra-te de que tendes um país vasto e podeis facilmente permitir que algumas rochas nuas, alguns lagos rasos e pântanos, alguns penhascos desolados e florestas remotas sejam deixados a nós, pobres criaturas mudas, onde possamos viver em paz. Durante todos os meus dias fui perseguida e caçada. Seria um consolo saber que existe em algum lugar um refúgio para alguém como eu.
— Deveras, eu ficaria contente em ajudar, se pudesse — disse o menino —, mas não é provável que eu volte a ter influência alguma entre os seres humanos.
— Bem, estamos aqui falando como se nunca mais fôssemos nos encontrar — disse Akka —, mas é claro que nos veremos amanhã. Agora voltarei ao meu bando.
Ela abriu as asas e começou a voar, mas voltou e acariciou Polegarzinho de cima a baixo com o bico antes de partir.
Era pleno dia, mas nenhum ser humano se movia na fazenda, e o menino podia ir aonde quisesse. Apressou-se para o curral das vacas, porque sabia que poderia obter as melhores informações delas.
O curral parecia bastante vazio. Na primavera, havia ali três belas vacas; agora havia apenas uma: Rosa-de-Maio. Era bem evidente que ela sentia falta das companheiras. Sua cabeça pendia tristemente, e mal havia tocado a ração no cocho.
— Bom dia, Rosa-de-Maio! — disse o menino, correndo sem medo para dentro de sua baia. — Como estão mamãe e papai? Como estão o gato e as galinhas? Que aconteceu a Estrela e a Lírio-de-Ouro?
Quando Rosa-de-Maio ouviu a voz do menino, sobressaltou-se e pareceu que iria chifrá-lo. Mas agora já não era tão temperamental como antes e teve tempo de olhar bem para Nils Holgersson.
Ele estava tão pequeno quanto quando partira, e usava as mesmas roupas; contudo, estava completamente mudado. O Nils Holgersson que partira na primavera tinha um andar pesado e lento, uma fala arrastada e olhos sonolentos. Aquele que voltara era ágil e alerta, pronto de palavra, e tinha olhos que cintilavam e dançavam. Trazia um porte confiante que impunha respeito, pequeno como era. Embora ele próprio não parecesse feliz, inspirava felicidade nos outros.
— Muuu! — mugiu Rosa-de-Maio. — Disseram-me que ele havia mudado, mas eu não podia acreditar. Bem-vindo ao lar, Nils Holgersson! Bem-vindo ao lar! Este é o primeiro momento feliz que conheço em muitíssimo tempo!
— Obrigado, Rosa-de-Maio! — disse o menino, muito feliz por ser tão bem recebido. — Agora conta-me tudo sobre papai e mamãe.
— Não têm tido senão dificuldades desde que foste embora — disse Rosa-de-Maio. — O cavalo foi um cuidado dispendioso durante todo o verão, pois ficou no estábulo o tempo inteiro e não ganhou a própria comida. Teu pai é bondoso demais para abatê-lo e não pode vendê-lo. Foi por causa do cavalo que Estrela e Lírio-de-Ouro tiveram de ser vendidas.
Havia ainda outra coisa que o menino desejava muito saber, mas sentia acanhamento em fazer a pergunta diretamente. Por isso disse:
— Mamãe deve ter ficado muito triste quando descobriu que Morten Ganso-Macho havia voado?
— Ela não teria se preocupado muito com Morten Ganso-Macho se soubesse de que modo ele partiu. O que mais a entristece é pensar que seu filho fugiu de casa com um ganso-macho.
— Ela realmente pensa que eu roubei o ganso-macho? — disse o menino.
— Que outra coisa poderia pensar?
— Papai e mamãe devem imaginar que andei vagando pelo país como um vagabundo qualquer?
— Pensam que te perdeste — disse Rosa-de-Maio. — Lamentaram por ti como se lamenta a perda da coisa mais querida da terra.
Assim que o menino ouviu isso, precipitou-se para fora do curral e desceu até o estábulo.
Era pequeno, mas limpo e arrumado. Tudo mostrava que seu pai tentara tornar o lugar confortável para o novo cavalo. Na baia estava um animal forte e belo, que parecia bem alimentado e bem cuidado.
— Bom dia para ti! — disse o menino. — Ouvi dizer que há aqui um cavalo doente. Certamente não és tu, que pareces tão saudável e forte.
O cavalo virou a cabeça e fitou o menino fixamente.
— És tu o filho? — perguntou. — Ouvi muitos maus relatos dele. Mas tens um rosto tão bom que eu não acreditaria que fosses tu, se não soubesse que ele foi transformado em elfo.
— Sei que deixei má fama atrás de mim quando parti da fazenda — admitiu Nils Holgersson. — Minha própria mãe pensa que sou ladrão. Mas que importa isso? Não ficarei aqui muito tempo. Enquanto isso, quero saber o que tens.
— Pena que não vás ficar — disse o cavalo —, pois tenho a sensação de que tu e eu poderíamos nos tornar bons amigos. Tenho algo no pé — a ponta de uma faca, ou alguma coisa afiada —, é tudo que me aflige. Entrou tão fundo que o médico não consegue encontrá-la, mas corta de tal modo que não posso andar. Se apenas contasses a teu pai o que há de errado comigo, tenho certeza de que ele poderia me ajudar. Eu gostaria de ser útil. Na verdade, sinto vergonha de ficar aqui comendo sem fazer trabalho algum.
— É bom que não tenhas nenhuma doença verdadeira — observou Nils Holgersson. — Devo cuidar disso imediatamente, para que fiques bom outra vez. Não te importas se eu raspar um pouco teu casco com minha faca, importas?
Nils Holgersson mal havia terminado quando ouviu o som de vozes. Abriu um pouco a porta do estábulo e espiou para fora.
Seu pai e sua mãe vinham descendo pela alameda. Era fácil ver que estavam alquebrados por muitas tristezas. Sua mãe trazia muitas rugas no rosto, e os cabelos do pai haviam embranquecido. Ela conversava com ele sobre tomar um empréstimo com o cunhado.
— Não, não quero pedir mais dinheiro emprestado — disse o pai, quando passavam diante do estábulo. — Nada é tão duro quanto estar endividado. Seria melhor vender a cabana.
— Se não fosse pelo menino, eu não me importaria de vendê-la — objetou a mãe. — Mas que será dele, se um dia voltar, miserável e pobre — como é provável que esteja —, e nós já não estivermos aqui?
— Tens razão nisso — concordou o pai. — Mas teremos de pedir às pessoas que ficarem com o lugar que o recebam com bondade e lhe façam saber que será bem-vindo de volta a nós. Não lhe diremos uma palavra áspera, seja ele o que for, não é, mãe?
— Não, decerto! Se eu apenas o tivesse de volta, para poder ter certeza de que não passa fome nem frio pelas estradas, nada mais pediria!
Então seu pai e sua mãe entraram, e o menino não ouviu mais a conversa.
Sentiu-se feliz e profundamente comovido ao saber que o amavam tão ternamente, embora acreditassem que ele se extraviara. Ansiava por correr para os braços deles.
— Mas talvez fosse uma tristeza ainda maior se me vissem como estou agora.
Enquanto estava ali, hesitando, uma carroça parou junto ao portão. O menino abafou um grito de surpresa, pois quem desceria da carroça e entraria no terreiro senão Osa, a menina dos gansos, e seu pai!
Caminharam de mãos dadas em direção à cabana. Quando estavam a meio caminho, Osa deteve o pai e disse:
— Agora lembra-te, pai, de que não deves mencionar o tamanco de madeira, nem os gansos, nem o pequeno duende que se parecia tanto com Nils Holgersson que, se não era ele mesmo, devia ter alguma ligação com ele.
— Certamente não! — disse Jon Esserson. — Direi apenas que o filho deles foi de grande ajuda para ti em várias ocasiões, quando tentavas me encontrar, e que por isso viemos perguntar se não podemos prestar-lhes um serviço em troca, já que agora sou um homem rico e tenho mais do que preciso, graças à mina que descobri lá na Lapônia.
— Sei, pai, que podes dizer a coisa certa do modo certo — elogiou Osa. — É apenas esse ponto particular que não quero que menciones.
Entraram na cabana, e o menino teria gostado de ouvir sobre o que conversavam lá dentro; mas não ousou aventurar-se perto da casa. Não demorou muito para que saíssem de novo, e seu pai e sua mãe os acompanharam até o portão.
Seus pais estavam estranhamente felizes. Pareciam ter conquistado novo apego à vida.
Quando os visitantes partiram, pai e mãe ficaram algum tempo junto ao portão, olhando atrás deles.
— Já não me sinto infeliz desde que ouvi tantas coisas boas sobre nosso Nils — disse a mãe.
— Talvez ele tenha recebido mais elogios do que realmente merecia — ponderou o pai.
— Não te bastou que viessem aqui especialmente para dizer que queriam nos ajudar porque nosso Nils lhes prestara muitos serviços? Acho, pai, que deverias ter aceitado a oferta deles.
— Não, mãe, não quero aceitar dinheiro de ninguém, nem como presente nem como empréstimo. Antes de tudo, quero livrar-me de todas as dívidas; depois trabalharemos para nos reerguer. Não somos assim tão velhos, somos, mãe? — O pai riu cordialmente ao dizer isso.
— Creio que achas divertido vender este lugar, no qual gastamos tanto tempo e tanto trabalho duro — protestou a mãe.
— Oh, sabes por que estou rindo — retrucou o pai. — Era o pensamento de que o menino se perdera que me pesava tanto que não me restavam forças nem coragem. Agora que sei que ele ainda vive e que se saiu bem, verás que Holger Nilsson ainda tem fibra.
A mãe entrou sozinha, e o menino apressou-se a se esconder num canto, pois o pai entrou no estábulo. Foi até o cavalo e examinou-lhe o casco, como de costume, tentando descobrir o que havia de errado.
— Que é isto! — gritou, ao descobrir algumas letras riscadas no casco.
— “Retira o pedaço afiado de ferro do pé” — leu, e olhou ao redor, interrogativamente. Contudo, passou os dedos pela parte de baixo do casco e examinou-o com cuidado.
— Creio, de fato, que há algo afiado aqui! — disse.
Enquanto o pai se ocupava do cavalo e o menino permanecia encolhido num canto, aconteceu que outros visitantes chegaram à fazenda.
O fato era que, quando Morten Ganso-Macho se viu tão perto de seu antigo lar, simplesmente não conseguiu resistir à tentação de mostrar a esposa e os filhos aos velhos companheiros da fazenda. Por isso levou Dunfin e os gansinhos consigo e tomou o rumo de casa.
Não havia viva alma no terreiro quando o ganso-macho chegou. Pousou, caminhou confiante por todo o lugar e mostrou a Dunfin quão luxuosamente vivera quando era um ganso doméstico.
Depois de terem visto a fazenda inteira, notou que a porta do curral estava aberta.
— Olha aqui dentro por um momento — disse ele —, então verás como eu vivia antigamente. Era muito diferente de acampar em brejos e pântanos, como fazemos agora.
O ganso-macho parou à porta e olhou para dentro do curral.
— Não há viva alma aqui — disse. — Vem, Dunfin, e verás o cercado dos gansos. Não tenhas medo; não há perigo.
Logo o ganso-macho, Dunfin e todos os seis gansinhos bambolearam para dentro do cercado, a fim de ver a elegância e o conforto em que o grande ganso branco vivera antes de se juntar aos gansos selvagens.
— Era assim antigamente: aqui ficava meu lugar, e ali ficava a gamela, que estava sempre cheia de aveia e água — explicou o ganso-macho.
— Espera! Ainda há alguma ração nela. — Com isso, correu até a gamela e começou a devorar a aveia.
Mas Dunfin estava nervosa.
— Vamos sair outra vez! — disse ela.
— Só mais dois grãos — insistiu o ganso-macho. No segundo seguinte, soltou um grito e correu para a porta, mas era tarde demais! A porta bateu, a patroa estava do lado de fora e passou o ferrolho. Estavam trancados!
O pai havia retirado um pedaço afiado de ferro do casco do cavalo e estava contente, acariciando o animal, quando a mãe entrou correndo no estábulo.
— Vem, pai, ver a captura que fiz!
— Não, espera um minuto! — disse o pai. — Olha primeiro aqui. Descobri o que afligia o cavalo.
— Creio que nossa sorte mudou — disse a mãe. — Imagina só! O grande ganso-macho branco que desapareceu na primavera passada deve ter fugido com os gansos selvagens. Voltou para nós em companhia de sete gansos selvagens. Entraram direto no cercado dos gansos, e eu os tranquei todos lá dentro.
— Isso é extraordinário — observou o pai. — Mas o melhor de tudo é que não precisamos mais pensar que nosso menino roubou o ganso-macho quando foi embora.
— Tens toda razão, pai — disse ela. — Mas receio que teremos de matá-los esta noite. Daqui a dois dias é o Dia do Ganso de Morten[1], e precisamos nos apressar se quisermos levá-los ao mercado a tempo.
[Nota 1: Na Suécia, o dia 10 de novembro é chamado Dia do Ganso de Morten e corresponde ao Dia de Ação de Graças americano.]
— Acho que seria uma indignidade abater o ganso-macho agora que ele voltou para nós com uma família tão grande — protestou Holger Nilsson.
— Se os tempos fossem mais fáceis, nós o deixaríamos viver; mas, já que vamos nos mudar daqui, não podemos conservar gansos. Vem agora e ajuda-me a levá-los para a cozinha — instou a mãe.
Saíram juntos e, poucos momentos depois, o menino viu o pai chegar com Morten Ganso-Macho e Dunfin, um debaixo de cada braço. Ele e a esposa entraram na cabana.
O ganso-macho gritou:
— Polegarzinho, vem me ajudar! — como sempre fazia quando estava em perigo, embora não soubesse que o menino estava por perto.
Nils Holgersson o ouviu, mas permaneceu junto à porta do curral.
Não hesitava por saber que seria bom para ele se o ganso-macho fosse decapitado — naquele momento nem sequer se lembrava disso —, mas porque temia ser visto pelos pais.
— Eles já têm dificuldades suficientes — pensou. — Devo eu trazer-lhes uma nova tristeza?
Mas, quando a porta se fechou atrás do ganso-macho, o menino despertou.
Disparou através do terreiro, saltou para o passadiço de tábuas que levava à porta de entrada e correu para o corredor, onde tirou os tamancos à maneira antiga e costumeira, e caminhou para a porta.
Durante todo o tempo contrariava-o tanto aparecer diante do pai e da mãe que ele não conseguia erguer a mão para bater.
— Mas isto diz respeito à vida do ganso-macho — disse consigo mesmo —, aquele que tem sido meu melhor amigo desde a última vez em que estive aqui.
Num instante, o menino recordou tudo o que ele e o ganso-macho haviam sofrido em lagos presos pelo gelo, mares tempestuosos e entre feras selvagens de rapina. O coração se lhe encheu de gratidão; venceu-se a si mesmo e bateu à porta.
— Há alguém querendo entrar? — perguntou o pai, abrindo a porta.
— Mamãe, não toques no ganso-macho! — gritou o menino.
No mesmo instante, tanto o ganso-macho como Dunfin, que jaziam sobre um banco com os pés atados, soltaram um grito de alegria, de modo que ele teve certeza de que estavam vivos.
Outra pessoa soltou um grito de alegria: sua mãe!
— Meu Deus, como cresceste e ficaste bonito! — exclamou ela.
O menino não havia entrado na cabana, mas estava parado no limiar, como alguém que não tem certeza de como será recebido.
— Louvado seja o Senhor, que te tenho de volta! — disse sua mãe, rindo e chorando. — Entra, meu menino! Entra!
— Bem-vindo! — acrescentou o pai, e nenhuma outra palavra conseguiu pronunciar.
Mas o menino ainda ficou no limiar. Não conseguia compreender por que estavam tão felizes em vê-lo — tal como ele era. Então a mãe veio, pôs os braços ao redor dele e o puxou para dentro da sala, e ele soube que tudo estava bem.
— Mamãe e papai! — gritou ele. — Sou um menino grande. Sou de novo um ser humano!
Quarta-feira, nove de novembro.
O menino levantou-se antes da aurora e desceu até a costa. Estava sozinho na praia a leste da aldeia pesqueira de Smyge antes do nascer do sol. Já estivera no cercado com Morten Ganso-Macho para tentar acordá-lo, mas o grande ganso branco não tinha desejo algum de deixar o lar. Não disse uma palavra; apenas enfiou o bico debaixo da asa e tornou a dormir.
Ao que tudo indicava, o tempo prometia ser quase tão perfeito quanto fora naquele dia de primavera em que os gansos selvagens chegaram a Skåne. Mal havia uma ondulação na água; o ar estava imóvel, e o menino pensou na boa travessia que os gansos teriam. Ele próprio ainda se achava numa espécie de torpor — ora pensando ser um elfo, ora um ser humano. Quando via uma cerca de pedras ao lado da estrada, tinha medo de seguir adiante antes de se certificar de que nenhum animal selvagem ou ave de rapina se escondia atrás dela. Logo depois ria de si mesmo e se alegrava por ser grande e forte e não precisar ter medo de coisa alguma.
Quando chegou à costa, pôs-se de pé, grande como era, bem à beira da praia, para que os gansos selvagens pudessem vê-lo.
Era um dia atarefado para as aves de arribação. Chamados de aves soavam continuamente no ar. O menino sorriu ao pensar que ninguém, a não ser ele, compreendia o que as aves diziam umas às outras. Pouco depois, vieram gansos selvagens voando; um grande bando seguia outro.
— Contanto que não sejam meus gansos indo embora sem me dizer adeus — pensou. Queria tanto contar-lhes como tudo havia terminado e mostrar-lhes que já não era um elfo, mas um ser humano.
Veio um bando que voava mais depressa e grasnava mais alto que os outros, e algo lhe disse que aquele devia ser o bando; mas agora ele não estava tão certo disso como estaria no dia anterior.
O bando diminuiu o voo e circulou para cima e para baixo ao longo da costa.
O menino soube que era o bando certo, mas não conseguia compreender por que os gansos não desciam diretamente até ele. Não podiam deixar de vê-lo onde estava. Tentou emitir um chamado que os trouxesse para junto dele, mas imaginem só! sua língua não lhe obedecia. Não conseguia produzir o som correto! Ouviu os chamados de Akka, mas não compreendeu o que ela dizia.
— Que pode significar isto? Terão os gansos selvagens mudado de língua? — perguntou-se.
Agitou o gorro para eles e correu pela praia, chamando:
— Aqui estou eu, onde estais vós?
Mas isso pareceu apenas assustar os gansos. Eles subiram e voaram mais para fora, sobre o mar. Por fim, ele compreendeu. Não sabiam que ele era humano, não o haviam reconhecido. Não podia chamá-los para si porque os seres humanos não sabem falar a língua das aves. Não podia falar a língua deles, nem podia compreendê-la.
Embora o menino estivesse muito contente por ter sido libertado do encantamento, ainda assim achou duro que, por causa disso, tivesse de se separar dos velhos companheiros.
Sentou-se na areia e enterrou o rosto nas mãos. De que serviria continuar olhando atrás deles?
Pouco depois, ouviu o rumor de asas. A velha Mamãe Akka achara difícil voar para longe de Polegarzinho e voltara; e agora, como o menino estava inteiramente imóvel, ela se aventurou a voar para mais perto dele. De súbito, algo deve tê-la feito reconhecer quem ele era, pois pousou bem ao seu lado.
Nils soltou um grito de alegria e tomou a velha Akka nos braços. Os outros gansos selvagens se apinharam ao seu redor e o acariciaram com os bicos. Grasnavam, tagarelavam e lhe desejavam toda sorte de boa ventura, e ele também falou com eles e agradeceu pela maravilhosa viagem que lhe fora concedido fazer em sua companhia.
De repente, os gansos selvagens ficaram estranhamente quietos e se afastaram dele, como se dissessem:
— Ai! ele é um homem. Não nos compreende; nós não o compreendemos!
Então o menino se levantou e foi até Akka; acariciou-a e afagou-a. Fez o mesmo com Yksi e Kaksi, Kolme e Neljä, Viisi e Kuusi — as aves velhas que haviam sido suas companheiras desde o começo.
Depois disso, caminhou mais para cima pela praia. Sabia perfeitamente que as tristezas das aves não duram muito, e queria separar-se delas enquanto ainda estivessem tristes por perdê-lo.
Ao atravessar as campinas da praia, voltou-se e observou os muitos bandos de aves que voavam sobre o mar. Todos soltavam seus chamados persuasivos — apenas um bando de gansos voou em silêncio enquanto ele pôde acompanhá-lo com os olhos. A cunha era perfeita, a velocidade boa, e os golpes de asa fortes e seguros.
O menino sentiu tamanha saudade dos companheiros que partiam que quase desejou ser novamente Polegarzinho e poder viajar por terra e mar com um bando de gansos selvagens.
A aventura clássica de Selma Lagerlöf acompanha Nils Holgersson em uma viagem mágica pela Suécia no dorso dos gansos selvagens. Esta edição Literunico em português-BR foi preparada a partir de uma fonte em domínio público para leitura no Aurora e para a Copa do Mundo Literunico.
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