Leia agora
No País dos Ianques

Universo da obra

No País dos Ianques

Capítulo 6 · No País dos Ianques

V

6 de 17 ≈ 4 min de leitura

Ninguém pode imaginar o que é a chegada de um navio de guerra a porto estrangeiro depois de uma tempestade ou mesmo depois duma ameaça de temporal. A faina torna-se geral e o ruído inevitável. É de ver-se a prontidão, a rapidez com que se executam as ordens. Como que há mais vontade para o trabalho, desenvolve-se logo um contagioso bem-estar, ninguém foge ao serviço.

Tesar cabos de laborar, baldear o convés a ficar alvo e polido como uma sala de visitas, limpar, arear os metais amarelos até ficarem reluzentes como ouro de lei, ferrar o pano a capricho, cuidadosamente, de modo a confundi-lo com as vergas e os mastros, preparar os escaleres – tudo isso é coisa dum abrir e fechar de olhos.

A guarnição do Almirante Barroso, disciplinada e obediente como todas as que serviam sob as ordens do comandante Saldanha, primava pelo asseio, pela ordem, pela destreza e pela atividade. Não se lhe pode fazer maior elogio. Cada marinheiro era como uma máquina pronta sempre ao menor impulso.

A chibata era nesse tempo, como ainda hoje, o terror das guarnições da armada.

Sempre manifestei-me contra esse bárbaro castigo que avilta e corrompe em vez de corrigir. Um castigo de chibata é a coisa mais revoltante que já tenho visto, mormente quando é mandado aplicar por autoridade desumana, sem noções do legítimo direito que a cada homem assiste, quem quer que ele seja, soldado ou pariá.

O meu primeiro passo ao deixar a Escola e envergar a farda de guarda-marinha foi publicar um protesto contra essa pena infamante, e fi-lo desassombradamente, convicto mesmo de que sobre mim ia cair a odiosidade de meus superiores em geral apologistas da chibata.

A primeira vez que minha posição oficial obrigou-me a assistir um desses castigos, tive ímpetos de bradar com toda a força dos pulmões contra semelhante atentado à natureza humana.

Quem já assistiu a uma dessas pavorosas cenas do eito, magistralmente descritas por Júlio Ribeiro na sua obra A Carne, pode fazer idéia do que seja o castigo da chibata.

Despir-se a meio corpo um pobre homem, um servidor da pátria, pés e mãos algemados, muita vez depois de três dias de solitária a pão e água, e descarregar-se-lhe sobre a espinha, sobre as espáduas, sobre o peito, sobre o ventre, na cara mesmo, em todo o corpo cinqüenta, cem, duzentas chibatadas, em presença de todos os seus companheiros, me parece indigno duma geração que se preza, de uma sociedade de homens civilizados, de cidadãos, de cavalheiros que ostentam triunfalmente galões dourados na farda – na farda, que significa a nobreza, a coragem, o patriotismo e a honra duma nação.

Revoltei-me contra semelhante barbaridade inquisitorial, como quem tem consciência de que está praticando uma ação justa e honrosa. Doía-me por um lado pertencer a uma classe nobre por tantos títulos, é certo, mas em cujo seio era permitido a chibata e, o que é mais, o seu abuso.

A esse tempo a Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro publicava semanalmente um boletim literário no louvável intuito de estimular os incipientes das letras. Oferecia-se-me oportunidade para um conto marítimo, cujo assunto fosse a chibata.

Escusado é dizer que o meu artigo provocou o despeito dos culpados indiretamente feridos no seu amor-próprio. Embora! Fiquei satisfeito, como se tivesse sacudido para longe um fardo pesadíssimo; e, é preciso dizer, não hesitei em declarar-me autor do conto que vinha firmado por meu nome, então desconhecido na armada.

Alguns de meus companheiros taxaram-me de imprudente e “indiscreto” Outros levaram seus conselhos até à minha inexperiência de adolescente indisciplinado.

Todo o mundo julgou-se com direito a censurar meu procedimento: “que roupa suja deixa-se ficar em casa; que a chibata era um castigo imprescindível”, e outros arrazoados sofrivelmente banais.

Meu consolo é que dentre aqueles que preconizavam os efeitos prodigiosos da chibata noutros tempos, muitos concorreram em demasia para a sua extinção.

Dei parabéns à pátria e à humanidade.

No País dos Ianques

Sinopse

Leia No País dos Ianques, de Adolfo Caminha, grátis no Literunico. Crônicas de viagem clássicas brasileiras em domínio público, publicadas para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada e espelhos de conteúdo para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

No País dos Ianques

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

No País dos Ianques

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de No País dos Ianques

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral No País dos Ianques Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 6 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir