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No País dos Ianques

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No País dos Ianques

Capítulo 17 · No País dos Ianques

XVI

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Estava terminada a nossa estação de quase dois meses em Nova Iorque.

No dia 30 de julho o Barroso deixou aquele porto em direção a Newport, outra cidade dos Estados Unidos, refúgio da população aristocrática nos quentes dias de verão. Uma perfeita cidade balneária, muito fresca e saudável, à beira-mar, olhando para o largo oceano e recebendo-lhe as emanações salinas, com um Cassino e um Passeio Público.

Os banqueiros e a gente rica de Nova Iorque costumam fazer aí o seu ninho de verão, e, de vez em vez, para amenizar a vida monótona que se leva nesse pequeno mundo de simplicidade e conforto, promovem regatas na esplêndida enseada que orla a cidade e que nesses dias de festa marítima toma uma feição ridente e característica de aquarela inglesa, com os seus cutters à vela, com os seus iates de recreio bordejando ao largo como um bando de gaivotas pousadas n’água...

Apostam-se milhões de libras. De França e de Inglaterra príncipes e lordes vêm assistir e tomar parte no jogo.

A regata é um dos divertimentos prediletos dos americanos. Todas as cidades marítimas e fluviais dos Estados Unidos têm pelo menos um clube de regatas.

Nota curiosa: em Newport não se bebe álcool. É proibida a im­portação de bebidas que contenham espírito, ou qualquer outra substância nociva. Não se encontra um só botequim na cidade. Para tomarmos um refrigerante, uma simples limonada, fomos bater a uma farmácia! Garantiram-nos que esse preceito contra o álcool é escrupulosamente observado naquela cidade. Custávamos a acreditar, mas, enfim, não havia jeito senão ser delicados...

De resto, uma cidadezinha elegante e sossegada, Newport. O comércio aí é quase nulo.

No fim de oito dias o Barroso deixava de urna vez o país dos ianques, fazendo-se de vela para os Açores.

Já agora não nos doía muito a saudade desse belo e prodigioso país. O regresso à pátria, depois de uma ausência de quase um ano, enchia-nos o coração de alegria.

Não fora a perda de um companheiro em Nova Orleans e voltaríamos todos, sem faltar ninguém, sadios e fortes, cheios de impressões novas e cheios de esperança.

Voltávamos, sim, mas tínhamos deixado atrás, em terra estrangeira, num cemitério de Nova Orleans, um dos nossos camaradas.

Trazíamos uma convicção, e é que nenhum povo sabe compreender tão bem o problema da vida humana como os americanos dos Estados Unidos. A idéia da morte não os preocupa: um ianque triste é coisa rara e toma proporções de fenômeno.

Eles, os americanos, são geralmente alegres, bem-dispostos, amigos do trabalho, compenetrados de seus deveres, e, acima de tudo, amam a sua pátria mais do que qualquer outro povo.

A pátria e a família são os seus principais objetivos. Menos egoístas que os ingleses, enérgicos e resolutos, sobra-lhes tempo e dinheiro para se divertirem.

Esse povo verdadeiramente democrático não pede lições a país nenhum: engrandeceu à custa de seus próprios esforços e dia a dia prospera, assombrando o mundo com as suas empresas colossais.

Se a Alemanha representa no século XIX a pátria das ciências morais, aos Estados Unidos compete o primeiro lugar na ordem dos países que têm concorrido grandemente para o aperfeiçoamento e bem-estar humanos.

Enquanto as nações da Europa digladiam-se numa luta contínua, perdendo na guerra o que dificilmente acumularam em poucos anos de paz, a grande nação americana deixa-se estar quieta e desarmada, sem exército e sem marinha, confiada no seu próprio valor, no patriotismo de seus filhos, certa de que, num dado momento, cada cidadão, cada americano saberá cumprir com heroísmo o seu dever e honrar as suas tradições de povo independente e forte.

Go ahead! never mind! help yourself! – eis a máxima de todo ianque. Eles não a esquecem nunca e marcham desassombradamente na vida, como quem tem absoluta confiança no próprio valor.

Ceará, 1890.

No País dos Ianques

Sinopse

Leia No País dos Ianques, de Adolfo Caminha, grátis no Literunico. Crônicas de viagem clássicas brasileiras em domínio público, publicadas para leitura online em HTML, com fonte Wikisource validada e espelhos de conteúdo para busca, redes sociais e pesquisa por IA.

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