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A Emancipada

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A Emancipada

Capítulo 1 · A Emancipada

Capítulo 1

Capítulo 1 Na paróquia de M..., da República equatoriana, o povo se movia em todas as direções, celebrando a festividade da Circuncisão, pois era primeiro de janeiro de 1841.

Apenas um recinto permanecia silencioso: o jardim de uma casa cujas portas haviam ficado cerradas desde a véspera. Ali conversava uma jovem da localidade com um rapaz recém-chegado da capital da República.

O rapaz era de estatura mediana, traços regulares e ar um tanto cogitabundo.

Na jovem, a altura, a flexibilidade e a graça se mostravam como o bambu das margens de seu rio; a tez fina, fresca e delicada a fazia semelhante à estação em que os campos reverdecem; a sobrancelha negra, as pupilas e os cabelos de um castanho-escuro lhe davam certa graça que lhe era própria e exclusivamente sua; o olhar franco e límpido, uma ondulação que mostrava o lábio inferior como a desdenhar o superior, e o perfil audacioso de seu nariz davam ao rosto uma expressão de firmeza inabalável.

Não havia perfeita consonância em suas feições; por isso, o conjunto tinha não sei quê de extraordinário. A limpidez de sua fronte e a maciez de suas faces, que se acendiam com a emoção, pareciam sinais de candor; o queixo perfeitamente arqueado imprimia a todo o rosto certo ar de voluptuosidade; uma contração quase imperceptível no cenho mostrava que, desde muito, ela vinha reprimindo alguma paixão violenta; o pescoço levemente inclinado dava-lhe uma atitude duvidosa entre a timidez e a modéstia, de modo que nenhum fisionomista teria podido adivinhar-lhe, com suficiente precisão, o caráter moral e fisiológico.

De que falavam, pode-se adivinhar facilmente, se se considera que o rapaz havia estudado as matérias do ensino secundário na cidade mais próxima da paróquia de que nos ocupamos, e que ia passar suas temporadas de recreio na casa da jovem.

Conhecer-se-á mais claramente qual fora seu pensamento dominante quando se souber que, terminado o curso de artes, passara a fazer seus estudos profissionais na Capital e estudara com todo o empenho necessário para receber a borla doutoral, dar meia-volta à esquerda e voltar a certo lugar que seus condiscípulos desejavam conhecer, porque ele o havia pintado muitas vezes nos ensaios literários que o obrigavam a escrever na aula de Retórica. Em um destes dissera:

Ficai vós, filhos da corte, na região das Pandectas, do Digesto e das Partidas. Eu passarei da hierarquia de doutor à de aldeão, porque ali mora a felicidade.

Os vales dos rios Malacatus, Uchima, Chambo e Solanda, com suas preciosidades vegetais e suas vistas pitorescas, acolherão o resto de meus dias.

As várzeas são ali um salpicado caprichoso de alquerias, casas de palha, engenhos de açúcar, bananais, plantações de cana-doce e pequenas encostas em que pasta o gado. Tudo isso recebe realce surpreendente do relevo das árvores, ora gigantescas, ora medianas, que nascem e crescem sem sistema artístico e com a única simetria que a natureza lhes pôde dar. A ceiba, o abacateiro, a goiabeira, a laranjeira e o limoeiro são os matizes mais comuns dos bananais, dos canaviais e dos prados.

À margem dos rios levantam-se, estendem-se e se entrelaçam os bambus, os carrizos, os loureiros, o salgueiro e o amieiro. Nas colinas ergue-se o arupo para mostrar, do alto, sua copa e seus ramalhetes.

Como o prazer e a dor no coração do homem, assim alternam, na aba desses cerros e na parte agreste desses vales, o faique com seus espinhos e a chirimóia com a frescura de sua folhagem, a fragrância de suas flores e o sabor de seu fruto.

Os canais que, partindo dos açudes, vão umedecer os terrenos irrigados, dão de beber às plantas, atravessam as cercas e percorrem as herdades, movendo-se e cintilando como serpente de diamante.

Nos barrancos forma-se, às vezes, uma sociedade heterogênea: as cabras, as vacas, as éguas ramoneiam a relva que Deus criara para elas; e, a par destas, o homem recolhe nos mesmos lugares o díctamo, o açafrão, a douradinha, a canchalágua, e extrai o mel e a cera que fabricam as abelhas. Mais além, os altiplanos povoados de figueirões, cedros, faiques e guaiacans servem de aprisco e majada aos rebanhos, e de sesteadouros para o camponês.

A mais célebre de suas cordilheiras é Auritosinga, cujo nome viajou ao redor do mundo unido à preciosa casca que ali se descobriu.

As campinas e as florestas estão sempre animadas pela antifonia das aves canoras e das aves ruidosas.

Tal é o templo em que darei culto a uma Divindade.

Quando se lhe impunha o dever de escrever memórias geográficas de sua província, falava a duras penas de tudo o que não fosse sua paróquia predileta; e, quando escrevia sobre esta, mencionava até os pormenores mais insignificantes, ainda que ficassem fora do tema que lhe haviam assinalado. Em um dos ensaios dizia, com referência a seu povo:

Do dia 24 de dezembro até meados de janeiro, aqueles campos mostravam suas cenas peculiares.

Em algumas alquerias de segunda ordem formavam-se os chamados altares de Nascimento. São simulacros mais ou menos grotescos do portal de Belém. A manjedoura de Jesus ocupa o cume, e vão descendo, em forma de anfiteatro, os reis, os pastores, os meninos degolados por Herodes, o paraíso terreno com hortas e animais, tudo misturado a acontecimentos mais recentes e ainda a quadros de costumes locais.

As figuras em que tudo isso se representa são de diversos materiais, mas, mais comumente, de madeira; algumas dessas figuras têm movimento, e as fazem desempenhar seus ofícios empregando algum mecanismo simples ou engenhoso.

Cada casa em que se ergue um desses altares tem preparadas biscoitelas, queijo, frutas escolhidas, bebidas frescas, licores ordinários e também um guitarrista e um tamborileiro, para obsequiar os visitantes com comida, bebida e bailinhos de fandango.

Quando a dança vai começar, retira-se a Sagrada Família em sinal de acatamento.

Como esses altares distam uns dos outros pelo menos um quilômetro, os passeios são sempre a cavalo.

Assim prosseguiam as descrições que os melindres da crítica qualificavam de pesadas e ridículas, sem atender a que o compositor nada podia encontrar de útil nem de belo fora de seu recinto predileto.

A jovem, por sua parte, com menos regras, mas com mais coração, escrevera suas memórias para apresentá-las algum dia à única pessoa que podia ser seu consolo sobre a terra. Nessas memórias, também os espíritos levianos teriam encontrado muito que desprezar, pois elas se reduziam a pintar ao natural aquilo que sua mãe produzira nela por haver recebido lições de um religioso ilustrado, chamado padre Mora, a quem o Libertador Bolívar incumbira da fundação das escolas lancasterianas.

Ela pintava os sentimentos ternos que essa mãe assim instruída sabia inspirar; e, depois de referir as cenas que haviam precedido o falecimento daquela boa mãe, acrescentava:

Uma semana depois de sepultar minha mãe, quando meus olhos ainda estavam inchados de lágrimas, meu pai recolheu todos os meus livros, o papel, a ardósia, as penas, a viola e os pincéis; fez de tudo isso um embrulho, foi depositá-lo no convento e voltou para me dizer: “Rosaura, já tens doze anos completos. É necessário que, de hoje em diante, vivas com temor de Deus; é necessário endireitar tua educação, embora a arvorezinha já esteja torta pela moda. Tua mãe era muito teimosa e, com suas novidades, estragou todos os planos que eu tinha para fazer de ti uma boa filha; quero que te eduques para senhora, e essa educação começará hoje.

Ficarás sempre na recâmara e, ao ouvires que alguém chega, passarás imediatamente ao quarto dos fundos; não haverá mais passeios, nem visitas a ninguém, nem de ninguém. Eduardo não voltará aqui. O que teu pai te disser, ouvirás de olhos baixos, e obedecerás sem responder, salvo quando fores perguntada.” “E não poderei ler alguma coisa?”, perguntei-lhe. “Sim”, disse-me ele, “poderás ler estes livros”; e apontou-me Desiderio e Electo, os sermões do padre Barcia e os Cânones penitenciais.

Assentados esses antecedentes — e também o de que o jovem sabia bem que o pai de Rosaura jamais faltava aos passeios de ano-novo, nem à prática de deixar a filha encerrada quando saía para se divertir; e constando-lhe, além disso, que os caminhos estavam ocupados por fileiras de homens e mulheres que discorriam alegres fazendo a visita dos altares; que cada altar era uma estação; que os pátios estavam coalhados de cavalos, bestas muares e burriquinhos em grande número — já se pode deduzir que o flamante doutor penetrara até o jardim de Rosaura sem temor de que alguém o surpreendesse; e também se pode suspeitar que de suas conversações sublimes resultava o recíproco propósito de unirem sua sorte para sempre, caso pudessem ser vencidas as tenazes resistências que oporia o teimoso pai da jovem.

Isso que é fácil suspeitar foi o que, de fato, sucedeu: passados os primeiros momentos de surpresa, sustos, exclamações e monossílabos, referiram reciprocamente o que se passara durante a ausência. Ao falar Eduardo de seus planos de futuro enlace, travou-se este diálogo, que não será inútil referir:

— Eduardo! — disse Rosaura —, eu conheço meu pai, e estremeço ao pensar que algum de teus passos pudesse irritá-lo, pois o resultado não seria outro senão separar-nos para sempre.

— Que a alma se separe do corpo — respondeu Eduardo — pode-se compreender; mas que duas almas que se amam como eu te amo cheguem a desunir-se, isso não, Rosaura; se pensas assim, é que não me amas.

— Eduardo, quero que me compreendas. Em meus dezoito anos de vida, ou antes, em minha noite de dezoito anos, não houve mais que duas luzes para mim: a de minha mãe, que se apagou, e a que agora me alumia, e temo que se afaste por cometer uma imprudência... A meu ver, quando o amor não se acende, a alma está em trevas... quis dizer que amo minha mãe no céu, porque não posso amá-la de outro modo: este é um amor que faz chorar; o teu é um amor vivo, que faz esperar, sonhar e estremecer... Falo fora de mim... Que hei de fazer! Afinal, direi tudo: meu pai tem interesse em que ninguém me conheça, e menos tu, porque teme que se descubram alguns segredos... Mas retira-te por agora, meu amigo, porque vai anoitecer e pode vir alguém.

A Emancipada

Sinopse

A Emancipada, publicada em 1863, costuma ser lembrada como a primeira novela equatoriana publicada. Na história de Rosaura, Miguel Riofrío transforma o drama de uma jovem submetida ao casamento imposto em crítica social: a narrativa expõe a autoridade patriarcal, o controle moral exercido pela religião, a fragilidade da justiça local e a ausência de liberdade real para a mulher.

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