Universo da obra
Universo da obra
Frio e pálido, esfumado em brumas, o crepúsculo baixava na tristeza da tarde silenciosa.
No remonte dos cerros pedregosos, hirtas palmeiras imóveis pareciam gravadas em negro no fundo dourado do ocaso. Aves esvoaçavam caladas.
Docemente, com um trêmulo murmúrio, fluíam pelos canais de rega as águas levadias, e as vozes soturnas dos bois soltos, errando, devagar, no campo restolhado, soavam como gemidos.
Os peregrinos seguiam uma vereda suave, entre debruns de anêmonas.
Maria parava de instante a instante, arfando.
Amolecida, alquebrada, olhava com desânimo os outeiros ainda longínquos e suspirava, sem atrever-se a dizer ao esposo o seu cansaço.
José, porém, notou-lhe a lentidão dos passos e, amparando-a, animou-a carinhoso:
- Estamos a chegar. Lá aparecem as casas de Belém; as luzes brilham por entre as árvores. Mais um momento e teremos repouso em alguma estalagem.
Ela parou, ficou a olhar o céu nublado como a implorar alento para chegar ao termo da viagem.
- É um peso que me curva, murmurou em voz sumida. Sinto-me tão fraca que não sei se poderei acompanhar-vos até as colinas de além. toda eu esmoreço. O meu desejo é deixar-me ficar no caminho, deitada nas ervas, e dormir um sono grande.
Nunca me pesou tanto o corpo, o próprio espírito pesa-me, tão carregado está de medo e de cuidados sombrios.
Que será de mim e d’Ele ao nascer em tão desabrigados lugares, longe de tudo, à friagem da noite, com este vento que retalha as carnes como um ferro mortal?
O chiar de um carro levou-lhes a atenção para o caminho deserto. Uma voz cantava na tristeza da tarde moribunda:
Ervas do campo florido, Que aroma! que trescalar! Bem se vê que o seu vestido Andou por vós a roçar. Outeiro em flor, o teu velo, Verde e fino, ao meu ciúme Confessa que o seu cabelo Deixou nele o perfume.
O carro apareceu acogulado de trigo, rinchando, ao passo moroso dos bois que traziam os cornos floridos de acácias.
José dirigiu-se ao carreiro, robusto e moço, e pediu-lhe passagem para Maria, mostrando-a, prostrada e lânguida, entre o rosmaninho cheiroso.
O moço acedeu e os dois ajudaram a Virgem a subir, fizeram-lhe lugar macio sobre as paveias louras e os bois arrancaram.
E caminhando, José ia enlevado na esposa e o carreiro, d’aguilhada ao ombro, olhos fitos no céu, insistia na égloga:
Ervas do campo florido, Que aroma! que trescalar! Bem se vê que o seu vestido Andou por vós a roçar.
Leia gratuitamente Mistério do Natal, de Coelho Neto, obra brasileira em domínio público publicada em 1911, com leitura online por capítulos no Literunico. A edição digital foi preparada a partir de fonte pública revisada no Wikisource para busca, redes sociais, pesquisa por IA e consulta literária.
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