Universo da obra
Universo da obra
Tomando a urna, ao clarear d’alva, quando o velho pastor saia com o rebanho, José acompanhou-o para que ele o guiasse à fonte.
Logo que os dois homens desapareceram, as ervas que ourelavam a caverna cresceram prodigiosamente, emaranhando-se em tapigo que encobriu a entrada.
A Virgem, de instante a instante, abria os olhos e, soerguendo-se, ficava em êxtase contemplando o filho,cujo hálito débil cheirava docemente a leite. Posto que apenas tivesse horas, já ela lhe havia descoberto todos os encantos e se lho arrebatassem dos braços, confundindo-o com mil crianças, reconhecê-lo-ia sem trabalho, tanto o tinha nos olhos e no coração gravado.
Olhava-o quando o sentiu mover-se, contorcendo-se. Num tremor de sobressalto enrijou os bracinhos, bateu as palhas com os pés rosados e rompeu num choro forte que repercutia no interior como se as pedras chorassem com ele, comovidas.
Tomou-o Maria ao colo, acalentando-o ao calor do seio. Falava-lhe com ternura, interrogava-o, chamava-o e, sem poder aliviá-lo, pôs-se a chorar aflita e, sobre a divina face as suas lágrimas caiam gota a gota como o orvalho cai das folhas sacudidas pelo vento.
Ai! dela, como se julgava culpada e infeliz vendo sofrer o pequenino amor, tão novo, tão inocente, tão sem culpa e já suportando as torturas herdadas da carne.
Começava a divindade a visitar o sofrimento; a peregrinação de Deus através da agonia anunciava-se pelo primeiro choro.
Ele havia de conhecer todas as dores, todas as angústias para poder julgá-las aliviando o homem, cuja redenção trazia.
Teatro, mal pousado na vida, já estrebuchava doridamente. E começava apenas – era a iniciação.
Outros maiores tormentos formavam a falange suplicante, a alameda trágica da existência, onde a alegria é como o nimbo solar que passa dificilmente por entre as frondes compactas.
Que fazer? Deu-lhe o peito. Pôs-se o infante a mamar vagindo, estremecendo a ela, relanceando em torno dos olhos úmidos e aflitos, implorava o mistério.
Tudo era silêncio em volta, ninguém que a socorresse. E os anjos? Já haviam regressado ao céu.
O infante ficara entregue ao seu piedoso voto. Deus entrara desacompanhado
no mundo, ser como os demais seres, homem como os outros homens, integrando-se na humanidade.
Só lhe valeram os carinhos de Maria; o calor do colo, o enlace amoroso dos braços, os beijos repetidos foram, pouco a pouco, aliviando-o e, de novo, adormeceu tranqüilo, não mais sobre a palha loura, mas aconchegado ao seio, ninado pelas palpitações do coração materno.
Leia gratuitamente Mistério do Natal, de Coelho Neto, obra brasileira em domínio público publicada em 1911, com leitura online por capítulos no Literunico. A edição digital foi preparada a partir de fonte pública revisada no Wikisource para busca, redes sociais, pesquisa por IA e consulta literária.
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