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Mistério do Natal

Capítulo 23 · Mistério do Natal

Capítulo XXIII: Palavras de Maria

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Como eu agora compreendo que se viva escravizada a um sorriso!

Quando tenho meu filho ao colo, nutrindo-se do meu sangue, que deixa a cor da púrpura e veste-se de branco para não macular os lábios inocentes, toda a minha vida nele se concentra.

A felicidade e a desgraça sentam-se junto de mim, sinto-as no contentamento que me alvoroça e nos presságios estranhos que me ocorrem.

É preciso ser mãe, ter gerado para conhecer o verdadeiro amor.

A alma sai-me do corpo e fica junto do infante. Se me arredo um momento sinto-me logo atraída como por uma pesada corrente que se me prende ao coração. E tanto o contemplo, tanto! que fico com ele dentro dos olhos como quem fita um objeto ao sol e depois o vê em toda a parte, ainda na treva mais densa.

Dantes, quando as mães falavam-me de seus filhos, sempre eu as achava exageradas nos louvores. Que diriam de mim as que agora me ouvissem!

O meu desejo era não ter na boca outras palavras senão estas: “Meu filho!” São as que o coração me inspira, são as que me agradam ouvir.

Elas fazem um giro alegre como um casal de passarinhos brincando. Saem-me dos lábios, entram-me pelos ouvidos cantando, circulam o meu coração e me tornam à boca.

Meu filho! E não há todo um mundo de amor dentro delas? Que mais é preciso para a ventura?

Quando as suas pálpebras se descerram inclino-me e busco ver nas suas pupilas – que são agora os meus espelhos – o que elas contém.

Fico tão perto que elas só a mim reproduzem.

Do mais tenho ciúme, nem quero que seus olhos tenham outros habitantes.

Quando ele estremece, tremo. Quando ele sorri é tão grande a minha alegria que fico num atordoamento desvairado, sem saber que faça, e choro e rio.

Ai! de mim quando ele chora.

Não tendes notado que eu sou agora como uma faminta perdida que não se sacia de alimento?

Não é que tenha fome, não; mas penso nele e, como é preciso que ele encontre sempre farto o peito em que se nutre, transformo-me em celeiro.

Dormir, nem sei se durmo, porque ao mais leve movimento que ele faça surpreendo-me a mim mesma achando-me a seu lado, agasalhando-o, afagando-o, procurando readormecê-lo ou acalentando-o, se chora.

Eu não era assim amorosa, meu senhor. Agora que o tenho não parece que vivo no mundo, só dele me lembro. Onde ele está aí é que me apraz viver.

O seu berço é o oásis em imenso deserto.

Dizeis, às vezes, que me distraio porque não vos respondo de pronto. Não é distração, é que alma está junto dele – o corpo fica vazio como uma casa fechada cujo dono trabalha na seara.

Disseste uma vez: “As mães adivinham.” Como conheceis o coração materno!

E há mais que ficam no mundo quando lhes morre o filho. Como se podem guiar na vida? Como podem caminhar sem arrimo? Como podem ver sem a luz? Como não soçobram no pranto? Eu...

- Por que choras, Maria?

- Porque sou feliz, meu senhor...

Mistério do Natal

Sinopse

Leia gratuitamente Mistério do Natal, de Coelho Neto, obra brasileira em domínio público publicada em 1911, com leitura online por capítulos no Literunico. A edição digital foi preparada a partir de fonte pública revisada no Wikisource para busca, redes sociais, pesquisa por IA e consulta literária.

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