Universo da obra
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• VI A EDUCAÇÃO NACIONAL Brazil, e da impossibilidade da federação com a monarchia, reparava:' « Pois b~m, forçosamente republicano, não porque acredite na efficacia e infallibilidade da republica,. na qual vejo apenas uma resultante e não um factor, uma formula ' governamental mas não a fórma definitiva que ainda escapa ji.s nossas previsões, porém por julgal-a determinada pelas nossas circumstancia~ politicas e evolução historica, é, sinão com hostilidade, ao menos sem nenhuma sympathia que - encaro o actual movimento republicano,' fadado por ventura a não remoto triumpho. » Está feita a Republica. Sómente veio um pouco mais cedo que o previam quantos os destinos do Brazil occupavam. Si o seu advento a alguem surprehendeu, foi áquelles que mais concorreram para apressal-o, os parlamentaristas e os politicistas.
Com esses realisou-se _o quod volumus ás avessas. Não é tempo ainda de julgar si ella cumprio ou cumprirá as promessas feitas. O facto dà mudança de fórma de governo, maiormente por causas onde não sei si o futuro • • • INTRODUCÇÃO.vrr historiador descobrirá algum elemento de reªVião patriotica, não é, ent~etanto, de per si mesmo bastante para farultar-nós uma éra nova de regeneração. As fórmas ·de governo têm um valor relativo, mesmo porque, consoante o demonstra a historia e o ensinam os mais allumiados pensadores, a forç,a progressiva das nações actúa de baixo pára cima e não de cima para ·baixo. É no. povo que reside, e é a somma ~e seus esforços, em qualquer ordem de phenomenos,. que produz a Civilisação e o Progresso.. No Brazil a republica pqde e, devemos todos · ao menos esperar, ha de.ser um bem,.
por dous motivos de ordem ínais elevada: que o 'parvoinho, jacobinismo com que a preconisavam'hc;mtem ou.a,endeosam hoje os.que fazem d'isto uma questão de fé e sentimento. O primeiro e acaso mais ponderoso é que, comforme disse no trecho que tomei a liberdade.i/ de citar,, ella era fatalm~nte determinada pela nóssa evolução historica e circumstancias politi-.:, r •cas. Ha na historia 1 uma especie de fatalismo, a • VX.[I A EDUCAÇÃO NACIONÂL rever as leis que presidem á evolução geral da Humanidade, e.que, nada obstante· o, ingentetrabalho dos pensadores desde Aristoteles, a. Socioiôgia - sciencia aindç1. vàga e fluctuante - não conseguia até agora estabelecer e demonstrar. ·. A uma d'essas leis, certo, obedec~u a nossa re- \. cente.evoluç~o social apenas apressada pelo fortuito 1e uma causa que logicamente a não devia ' produzir.
É que na historia o acaso, consoante o pensar de Littré, não é um effeito sem causa, ma$ um êffeito produzido' por um encontro de ca~sas entre si independentes. I A outra razãÔ porque deve ser-nos a republica prestadia, é comportar moldes mais amplos, fó.rmas políticas e administrativas mais largas que a monarchia, o que para n6s povos arp.ericanos, mais que necessario, é indispensavel á l • nossa evolução. A federação, erradissimo alvitre para ~alvar ' 1 Ti-ansrationalisme in Rev. de la Phil. Posit. Tom. xxrv, pag. 40., INTRODUCÇÃO a caduca instituição, era irrealisavel sob a fórma • • monarchic;, na qual 1:arnbem se nã; · agei.tavam ' as reformas ptojectadas pelo ~inisterio,,deposto com a dynastia. E,stas lonsiderações, porém, pbr mais incontestaveis q~e s~jam, ~~o nos.
de~em induzir a crêr a simples mudança da nossa fórma de governo C?paz 'de renovar de todo em 't?do e pà~a melhot o paiz: A histor.ic: é feita com um ele-, i;nento, o povo; é, pois, o povo, e não o governo quem em definitiva.pode radicalmente,mudar as '. '. \' condições de uma nação·, cujos vicio? e qefeitos -.-, cumpre in~istirsão antes seus que dos que administtiai;n _e dirigem. Sobrou, por isso, fazão a quem ' disse,. cada pÓvo tem o ·governo,q~e,, merece. Si, como forços9 é reconh~cer, o estado ~o ral do Brazil, e ainda seu e!;,tado material, é pro~' ' ' • t priamente desanimador e precàrio e, soqretudo está muitissim,o áquem das j'ustissimas àspirações dos patriotas · e dos ·gloriosos destin.ós que lhe • • • 1 antevemos, não ha tão pouco negar que nem'só- • X A EJ?
UCAÇÃÓ NACIONAL mente a monarchia e as instituições que lhe eram · miqistras, sinão n6s todos somos d'isso culpados. É, pois, a n6s mesmos, é ao· povo, é á nação; que cumpre corrigir e. reformar, si quizermos realise a republica as bem furidadas e auspiciosas esperanças que alvoresceu nos corações bra-.' zileiros. · Para reformar e restaurar um pov<?,, um s6 meio se conhece, quando não infallivel; certo e " seguro, é a educação, no mais.largo sentido, na mais alevantada accepção d'esta palavra.. Nenhum momento mais propicio que este para te~tar esse meio, que não querem· adiado. ' os interesses da patria. A~rma um perspícuo e o~iginal historiador da pedagogia, que do estudo da historia e evoluimento da educação publica result'a, entre outras, esta conclusão:.«uma reforma.
profunda na educação publica e nacional presume uma reforma egualmente radiçal no governo. » 1 1 C. Issaurat, La Pédagogze,son évolution et son k istoire, Paris, 1886, pag. 485. " 1) INTRODUCÇÃO ~ 6s ' tivemos já -a reforma radical:no governp, cumpre-nos c,ompletar a obra da revolu- ~ão pela reforma p~ofunda _da nossa educação Brazileiro' nenhum, com amdr, á: ' i falta de talento, a sua: patria, em todas as mapi-, ' ' [estações da sua vida, na sua Politica, na sua.; ' '- Arte, na sua_ Industria, na sua Litt~ratura, e ~té. nos seus Costumes e Tradições, deixará de verir fic~r, consternado a pobreza do nosso sentimento nac;:ional. Por,s.entimento nacional entendo ·éu não s6 essà maneira espedal de ·_sentir, isto é, de receber·~ reproduzir as impressões, que distingue os '.
' 'povos uns dos outros, mas ainda o conjuncto de impressões recebidas em uma perenne communhão com a patria e trapsformadas no cere~ro • f' • XU A EDUCAÇÃO NACIONAL em idéas ou sensações que têm a patria por origem e fim, causa e effeito. D'est'arte concebido o sentimento nacional é elle independente do caracter nacional, antes dependente de causas extrinsecas de ordem physica que de causas moraes de ordem psychica. O Brazil, graças á unid?,de de raça formada pelo franco cruzamento das tres que,aqui con-, correram no inicio da nossa constituição nacional, graças a não perturbação d'esse primeiro resultado pela concurrencia de elementos estrangeiros, assim como á unidade da lingua, da religião, e, em summa, das tradições que mais poderam influir n'aquelle facto, _isto é, as portuguezas, tem incontestavelmente mais -accentuado caracter nacional que os Estados -Unidos.
E semelhante facto, escrevi eu algures ', nos assegur;i um movimento social mais lento, é verdade, porém mais firme.,; A s Populações indigenas e mestir,as da Amazom'a, in Sccnas da Vtiia Amazonica, Lisboa, 1886, pag. 28. ", • IN'TRODUCÇÃO XIII Ali, onde um grave pensador allemão, o celebre Dr. Strauss, não reconhece caracter nacional, 1 são muitos, diversos e desencontrados, os elementos ethnicos e sociaes. Ha o allemão, saxonio, lutherano ou evangelico; ha o inglez, anglosaxonio, presbyteriano ou anglicano; ha o irlandez, celta-bretão, catholico, além do francez, além do negro, além do hollandez, sem co_ntar com o indio e o chinez quasi eliminados. Cada um, guarda mais ou menos a sua lingua ou o seu dialecto, e, ainda a sua litteratura e as suas tradições.
Por causas especialissimas, e que serão ainda n'este livro indagadas, esta amalgama • pôde produzir uma grandefnação, á qual todavia mais que a nós falha caracter nacional. Porém, singularíssima anomalia, ali, onde tal caracter quasi não existe, é forte o sentimento nacional que a nós, com caracteristicas muito mais distinctas e maior homogeneidade nos fal1. L' A11árn11c d!a 11oui•elle foi, Trad. Narva], Paris, 1876, pag. 23 9. • • XI\' A EDUCAÇÃO KACIOKAL lece. Para accentuar esta profunda differença entre nós e aquella nação, sobejam duas causas: Ali a desusada prosperidade nacional que a copiosissima immigração e a abundancia de excellentes terras em grande parte explicam, gerou em uma raça naturalmente desvanecida o orgulho nacional, que no americano entra por muito no sentimento a que alludo.
Na collectividade, como no individuo, o orgulho - tomada esta expressão a boa parte - é uma das forças do caracter, aquella que nos não consente baixezas e nos instiga melhorias. Em uma nação é ella por tarita maneira util, que pode ser causa ou estimulo do patriotismo, como nos EstadosUnidos. Acolá, chegada a nação ao apogêo dos progredimentos materiaes, a ponto de competir com as mais velhas e adeantadas do mundo, a consc1encia do trabalho feito e da relevancia dos esforços de envolta com a certeza do triumpho, geraram n'uma raça já de si soberba o orgulho nacional, revelando-se caracteristicamente na in- • f) • I_ --------------------· ' INTRODUCÇÃO XV dinação ao grandioso e collossal. As suas cidades, as suas construcções, os seus edificios e monumentos, á falta.de gosto ou arte, são ao menos estupendos.
No Brazil não havemos desgraçadamente de que ter orgulho nacional.•Em alguma parte da sua Historia da Littdatura Brazileirn, observa • o Sr. Sylvio Roméro que quando outros povos, citam vaidosos os seus grandes homens ou as suas grandes obras, os seus poetas, os seus sabios, os seus estadistas eminentes, os seus poderosos escriptores, nós, é á nossa natureza que vamos buscar d'onde vangloriar-nos, e emquanto elles nos.repetem os seus nomes celebres ou os seus trabalhos famosos, nós contestamos-lhes.. com o « magestoso Amazonas, » as « soberbas florestas, » os « rios gigantes, » quando não vamos até errar a geographia patria, falando em « montanhas que tocam as nuvens. » A educação nacional, largamente derramada e diffundida, com o superior espírito de ser um factor moral de nacionalismo, poderosíssima- • A EDüC.\ÇÃO NACIONAL mente concorreu para despertar no americano o sentimento patriotico.
Teve esse grande povo a intuição de que a escola, isto é, a mesma educação prodigamente distribuida a todos os cidadãos, devia de ser a cadeia que ligasse os ele-, mentos heterogeneos da nação. 1 E assim, sem, obstaculo da federação e do espírito individua- • lista do elemento anglo-saxonio ali predominante, a unidade escolar, unidade de espirita, entenda-se, veio a ser um remedia ás funda..<; diversidades _de raça, de religião e de costumes. Não succedeu no Brazil infelizmente· o mesmo. Além de nunca lhe havermos dado a importancia social que lhes mereceu a elles, jamais a espalhamos em relação siquer comparavel com o que elles fizeram. E sem impedimento da nossa centralisação administrativa e politica, a escola brazileira, isolada na esphera de uma pura e estreita acção de rudimentar instrucção pnmana, não teve a minima influencia nem na 1 V.
adeante o Cap. A Edusap,o lvàczima!. • • • •, INTRODUCÇÃO XVII formação do caracter, nem no desenvolvimento do sentimento nacional. Sem orgulho pa~riotico, sem educação civica, sem concurrencia de especie al,e-uma, o caracter brazileiro, já de si indolente e molle, como que deprimia-se, e o sentimento nacional que luz pela primeira vez na lucta com os hollandezes, e depois nos conflictos de nacionaes e portuguezes nas epocas que proximamente antecederam ou seguiram a Independencia,.esmorece, diminue, quasi desparece. Indagando, com esta minh velha preoccupação de nacionalismo, as manifestações d'esse sentimento nas mais caracteristicas f6rmas do sentir de um povo, na _sua poesia e na sua arte, foram sempre negativos os resultados. Em abono de asserto semelhante escrevi eu em outro ensejo: «As maiores commoções politicas ou sociaes por que tem passado o Brazil, como, e não falo sinão de factos contemporaneos, as reyoluções de I 7 em Pernambuco e 42' em Minas, os diversos movimentos sediciosos do momento da \ • XVIII A EDUCAÇÃO NACIONAL ' Independencia, a revolução do Rio Grande do Sul, a guerra da Cisplatina ou a guerr'a do Paraguay, os phenomenos mais caracteristicos da nossa nacionalidade, como a escravidão, não só.
como instituição juridica Jnas como um facto consuetudinario, digamos assim, nada d'isso deixou um signal apreciavel em o nosso romance ou em a nossa poesia. » 1 Varias causas acudiram a estorvar em nós o brazi!eirismo. Direi das mais salientes. É principal a desmarcada estensão do paiz comparada com a sua escassa e rareada população. Isolados nas localidades, nas capitanias e depois nas provincias, os habitantes, por assim dizer, viveram alheios ao paiz. Desenvolveu-se n'elles antes o sentimento local que o patrio. Ha bahianos, ha paraenses, ha paulistas, ha riograndenses. Raro existe o brazileiro. É phrase commum: Primeiro sou paraense (por exemplo) depois • 1 O romance naturalista no Brazil, estudos publicados na Provincia do Pará de 17-23 Janeiro de 89.
• • • • • rn fRODUCÇAO XIX brazileiro. Outros dizem: a Bahia é dos bahianos, o Brazi! é dos bra::;i/eiros. Pela falta de vias de communicação, care~tia e difficuldade das poucas existentes, quasi nenhuma havia entre as provincias. Rarissimo ha de ser encontrar um brazileiro que por prazer ou instrucção haja viajado o Brazil. Durante muito tempo os estudos se iam fazer â Europa, muito especialmente a Portugal. Lisboa e Coimbra eram as nossas capitaes intellectuaes. As relações commerciaes foram até bem pouco tempo quasi exclusivamente com aquelle continente e com aquelle estado. Tudo isto vinha não só da geographia do paiz, mas tambem da ciosa legislação portugueza que de industria procurando isolar as capitanias, longe de acoroçoar as relações entre ellas, preferia as tivessem com o reino.
D'estes <lifferentes motivos procede o estreito provincialismo brazileiro, conhecido sob o significativo appellido de bairrismo, que hostilisava e refogava de si o mesmo brazileiro oriundo de outra província alcunhando-o, no Pará por exemplo, de barlaventúta. • XX A EDUCAÇAO NACIONAL A falta de uma organisação ' consciente da educação publica do mesmo passo cooperou para manter esse isolamento e como quer que seja, essa incompatibilidade entre os filhos e habitantes das diversas provincias. A educação nacional a que os Estados-Unidos recorreram para reduzir e atalhar os perigos que á unidade da nação trouxesse um demasiado espirito local, nunca a houvemos, nem ainda hoje a temos aqu\r Pessimamente organisada, a instrucção publica no Brazil, não procurou.
jamais ter uma funcção pa integração do espírito nacional. A escola viveu sempre accaso mais isolada pelo espírito que pelo espaço e topographia. Si n'ella se tratava da patria, não era com mais individualidade, cuidado e amor que de outras terras. Era antes vulgar merecer menos. A mesma província não foi jamais objecto de estudo especial. Porém essa, ao menos de experiencia propria e. por assim dizer intuitivamente, vinha mais ou menos a conhecel-a o natural. Foi durante muito.. • • •> INTRODUCÇÃO XXI tempo numeroso o exodo das crianças a estudar f6ra do paiz, na idade justamente em que se começa a formar o c:;aracter e o coração: e em que se recebem as primeiras e eternas impressões do amor da.familia e do amor da terra. Nem ao menos vinham a ser uteis esses cidadãos, assim alheiados da patria.
Não iam em idade de adquirir outro saber que não aquelle, galantemente taxado por Montaigne de sciencia livresca, e tor- 'nav~m em geral descaroaveis da patria e de seus costumesi e profundissimamente ignorantes d'ella. Muitos d'esses achavam-se depois - imagine-se com que sentimento nacional-á frente dos seus negoc10s. O illetrado brazileiro - aipda ha pouco 84 % da população - nada encontrou que impressionando seus sentidos lhe falasse da patria e a seu modo fosse tambem um facto~ da sua educação. Não ha museus, não ha monumentos, não ha festas nacionaes. O que frequentou a escola, onde lh'a não fizeram conhecer e amar, desadorando a leitura e o estudo, não procurou fazer-se a si 2, XXII A EDUCAÇÃO NACIONAL proprio uma educação patriotica. Esta mesma boa vontade ser-lhe-hia aliás difficil realisar, pela falta de elementos indispensaveis.
Poi:q_ue, em virtude mesmo d'esta indifferença pelas cousas nacionaes, conforme vou aqui apontando, de modo algum combatida pela educação publica, é pauperrima a nossa litteratura nacionalistica. O · nosso jornalismo, quiçá mais numeroso que notavel, afóra a política e as pequenas noticias, osfaits divers, escassamente occupa-se do Brazil. É mais facil encontrar n'elles noticia de cousas estrangeiras - européas para ser mais preciso - que do paiz; e nas províncias si raro é o jornal de algum valor que não tenha uma correspondencia de Lisboa ou de Paris, porventura se toparia algum que a tivesse, não de outra parte do Brazil, mas do Rio de Janeiro. Não possuímos uma unica revista que leve a todos os cantos do paiz os trabalhos dos seus escriptores, dos seus pensadores, dos seus artistas e os estudos do paiz feitos.
Não temos illustrações.. • INTRODUCÇÃO XXIII por onde fiquemos conhecendo os diversos aspectos da variadíssima paizagem brazileira, ou as obras e construcções no Brazil e por brazileiros feitas, nem os nossos homens e successos notaveis, nem algum raro monumento erigido. 1 Os excellentes livros que sobre nós escreveram alguns saqios viajantes estrangeiros, ficaram até agora por traduzir e, desencontradiços nos livreiros indígenas, sómente na livraria de algum raro curioso de cousas patrias, se nos deparam. Livros proprios sobre cousas brazileiras, tirante os romances que, de passada note-se, esses mesmos começam a escacear - são raros. 1 Aqui na capital do Pará, onde escrevo (e o mesmo, sei, acontece em geral nas outras capitaes dos estados) cidade de população talvez não inferior a 80 mil habitantes, é mais difficil encontrar ou obter um livro (ou outro qualquer producto) brazileiro que qualquer obra estrangeira, mesmo allemã ou italiana.
As principaes revistas européas têem aqui assignantes. A recente Revista de Portugal possue talvez mais de trinta. A mallograda Revista Brazilez'ra, creio apenas tinha uns quatio. Livro ou periodico publicado fóra do Rio de Janeiro, é para nós como si o fôra na China. • XXIV A EDUCAÇÃO NACIONAL O desanimador resultado d'estes factos infelizmente incontestaveis, é esta dolorosa verdade: - Nós nos ignoramos a nós mesmos! E a funestíssima consequencia d'esta ignorancia é a extremJ. pobreza sinão.falha completa de sentimento nacional. O mencionado isolamento elas capitanias primeiro e das províncias ao depois, não só determinado, segundo vimos, por condições geographicas e economicá.s, 'como nos tempos coloniaes systematicamente acoroçoaclo pela metropole como medida política, preparou de longa mão o espírito regional do Brazil, e assim tornou.9ossivel sem abalo nem vexa~e a actual federação.
C~rto não vir~ ao esp_irito de nenhum brazileiro atacar a federação instituída pela revolução. --- - de I 5 de Novembro, da qual esperamos tocj.os largos beneficios para o paiz. Mas sómente aos políticos obsecados pelas suas paixões partidarias, será licito cegar-se á evidencia das cousas e confiar inteiramente em fórmas e formulas de governo. A confederação em s1 mesma tem os INTRODUCÇAO XXV seus perigos, que avultam n'üm paiz qual o no~so onde o sentimento regional prevalece· ao 11acional e. onde - diga-se francamente - é latente, em alguns estados ao menos, o espirito separatista. Um.publicista americano, consid~rando b - antagonismo entre a.confedei;ação e a nação, · ' d'est'arte se éxprime: «O estado conf~derado é a real antit!lese do principio nacional, como a confederação é fatalmente a antagonista da nação historicamente considerada.
A qualquer luz encaradas, tornam-se manifestas estas antithe...: ses. A nação, como organismo socíal, suppõe · uma unidade organica; e este organismo é que a ninguem é dado transmittir. Para ~ confederação é artificial a eÀ'istencia da. sociedade, for_ -· mada como uma associação de homens em determinada communidade de interesses, ou apenas como a reunião d'aquelles que vivendo antes separados, voluntariamente a ellas accederam. É no desenvolvimento da ·vida histori_ca do povo · na sua unidade, que origina-se a nação; a confederação prejulga como origem da sociedade.o acto.. • XXVI A EDUCAÇÃO NACIONAL voluntario d'aquelles que individual ou collectivamente a realisaram, e suas instituições tem apenas esse precedente formalistice.» l • Estas differenças fundamentaes na evolução e indole da nação encerram os perigos intrinsecos d'esta f6rma, perigos que aos politicos previdentes cabe antever e conjurar.
Além d'esses a federação brazileira encerra especialmente um outro e gravissimo, qual é a indicada falta ou pobreza de ·sentimento nacional, tornando acaso provaveis, e em todo o caso possiveis, as tenta~ tivas dé; separação. Estados sei eu onde o partido bastante ousado e anti-patriotice para soltar o grito de separação, estaria certo de acordar secretas aspirações e geraes sympathias, que não duvidariam talvez virá praça manifestar-se. Um pequeno facto, entre mil que o observador está nos casos de verificar: n'este Estado foi a gloriosa ba_ndeira. bra1 E. Mulford, The lvation, the foundation of civil order and po!itical life in United-States, Boston, 1882, pag. 324. INTRODUCÇAO XXVII zileira, nunca· d'antes arriada di;mte de ninguem, nem por ninguem impunemente menospresada, substit~ida no tope do palacio do governo por / um estandarte de.que usava o Club Republicano, branco e encarnado.
Reintegrada depois - desgraçadamente com modificações infelicíssimas - até hoje, quatro mezes após, não foi ainda hasteada em nenhum dos edificios publicos do Estado. Identico successo teve aqui tambem lugar _com o nosso entre todos bellissimo restaurado hymno nacional. É este apprehensivo estado do espirito publico, antepondo o sentimento provincial ao sentimento nacional, e gerando, em alguns E~tados ao menos, um claro.espirito separatista que é preciso debellar, si queremos realmente conservar intacta a gloriosa herança de nossos paes, a ~vicl.a,yeJ. da patria - condição indisp~nsavel para a realisação dos seus altos e preclaros destinos. •.. XXVIII A EDUCAÇÃO NACIONAL III Para a realisação d'esses destinos -- e deve ser esta a nossa cara, ardente e constante pre- •Occupação e esperança, como para despertar o sentimento da patria, do mesmo passo combater o espírito separatista e acima do principio federativo pôr a unidade moral da nação - im1 ' põe-se-nos como o mais urgente dever a creação da educação nacional.
Horacio Mann, uma d'essas nobres figuras que com Franklin, William Penn, Washington, Jefferson, Lincoln e outros serão· a eterna honra e a 'eterna gloria dos Estados-Unidos, declarava falando da educação _publica: «O primeiro-dever dos nossos magistrados e dos chefes da nossa.. republica é de subc,rdinar.tudo a este interesse súpremo. Em nossos paizes e em nossos dias, INTRODUCÇÃO XXI. X nmguem é beneme~ito do titulo de homem de estado, si a educação pratica do povo não tem o primeiro lugar no seu programma. Pode um homem ser eloquente, conhecer a fundo a historia, a diplomacia, a jurisprudencia, o que lhe basta aliás para pretender a elevada condição de homem de estado; mas si suas palavras, seus projectos, seus esforços não forem por toda a parte constantemente consagrados á, educação do povo, ellé não é, l)ão pode ser homem de estado americano.
» 1 Deve esta tambem ser a, preoccupação cons'- tante, activa e effectiva de quantos pretenderem · não só as honras sinão a honra de estadistas brazileiros. Mais talvez que os Estados-Unidos pede e reclama o Brazil, tanto a diffusão e exaltação '- da instrucção publica como, e maiormente, a organisação da educação nacional. Dous paiies se nos offerecem contempora1 Apud Spuller, Au Ministere de l' I nstruction p ubliqu~, Paris, 1888, Préface. " XXX A EDUCAÇÃO NACIONAL neamente, como exemplo eloquente e memoravel de quanto pode para a regeneração nacional a educação publica, quando servida conscienciosa-.. mente e devotadamente não só pelos governos mas por todos -os cidadãos. São esses pa1zes a França e a Italia. É principalmente dos seus escriptores, dos seus p~etas, dos seus publicistas, dos seus ora-.dores, dos seus professores a obra da unifica- -ção da Italia.
Cav'our, como soe acontecer-ainda aos mais proeminentes estadistas, não foi sinão um d'esses homens que em dado momento 'historico consubstanciam em si e representam o trabalho accumulado das gerações e as suas aspirações, que aquelles criaram, educaram e dirigiram. O risorgimento, como a esta phase da sua vida nacional chamam os italianos, é propriamente uma resultante do trabalho giganteo de uma nova educação, não feita sómente nas escolas, porém nas universidades, na imprensa, nos livros e na tribuna. E graças a este movimento, " INTRODUCÇÃO XXXI aquella nação que apenas saía de ser uma expressão geographica na dura fraze de Metternich, surge-nos, vinte annos depois, na primeira linha das nações européas. · Vencida e mutilada, diminuida no seu territorio e fundamente ferida no seu orgulho, é para a educação publica que se volve a França.
Não é facil dizer concisamente o que se fez em_França n'este intento. Á Allemanha, á propria •vencedo-. ra, foram-se, uns expontaneamente outros em commissões officiaes, professores e pedagogos a estudar n'aquelle fóco scientifico nem só a organisação, sinão os methodos, os systemas, o machinismo, a theorica e a pratica do ensino publico. E não.foi ·sómente a Allemanha o veio explorado, mas ainda a Inglaterra, os EstadosUnidos, a Suecia, a Hollanda, a Suissa. Estadistas que mereceram o nobilíssimo appellidà de ministros pedagogos como Julio Ferr,y, como Spuller, como Julio Simon, tra~aram as q;1estões da educação publica, e isto diz muito, com a mesma attenção com que outros tratavam os assumptos XXXII A EDUCAÇÃO NACIONAL da reorganisação militar.
Sabios como Paulo Bert, como Carlos Robin, como Miguel Bréal, como Berthe~ot, como Faye, deixaram os seus gabinetes e laboratorios para virem excitar o prélio sagrado a favor da educação nacional. A litteratura pedagogica até então em França pouco menos de nulla, desenvolveu-se em proporções extraordinarias, e multiplicaram-se a encherem bibliothecas os trabalhos théoricos e os trabalhos praticos, os trabalhos philosophicos e os traba140~ historicos, sobre as varias feições da sciencia e da arte de educar. Surgiram numerosos os ' jornaes, as revistas e ás âssociações pedagogicas e, quasi se pode dizer sem exagero, que a reorganisação da educação publica mereceu aos fran1 cezes igual sollicitude que a restauração da sua força militar. Em um solemne congresso de professores, dizia um d'esses ministros acima referidos: «Foi e~tão (depois dos desastres da guerra) que a democracia comprehendeu a necessidade de transformar a instrucção prima~ia, para refazer á França, não direi um espírito novo, mas IN l'RODUCÇÃO XXXIII um temperamento, costumes, idé~s adequadas aos seus novos destinos.» 1 Nós tambem temos de refazer-nos, não sómente temperamento, idéas e costumes novos, sinão tambem um espirito novo, o espirito nacio~al tão enfraquecido em nós.
Assim urgente quanto imperiosamente o estão igualmente exigindo os nossos novos destinos. Aqui, como ali, como por toda a parte, é á educação nacional que compete essa tarefa. Este livro - que nenhum outro valor tem sinão o da intenção que o inspirou e anima-o, fora a mais bella obra da minha obscura vida, o mais alto e como quer que seja exagerado galardão dos meus desvaliosos mas sinceros esforços, si por ventura pu~~sse chamar a attenção do nosso publico para esta momentosissima questão da educação nacional. 1 Spuller, Ministro da Instmcção Publica, in Rév. Pedagogique, Tome XI, pag. 485. XXXIV A EDUCAÇÃO NACIONAL Não é seu intuito discutir a nossa instrucção publica, porém mostrar como ella carece de espírito brazileiro, como ella.é alheia a qualquer ~<leal sup~rior de educação, em uma palavra, como ella absolutamente não merece o nome de educação nacional, e, ao rp.esmo tempo indicar o que deve ser para se tornar um factor na obra augusta da grandeza da patria.
A este escopo primar-io, prendem-se questões estreitamente connexas para não poderem ser esquecidas na indagação e resolução d'éste problema capital de preparar á patria a luminosa estrada do seu futuro. Precisamos ser physica, moral e intellectualmente fortes, e que a Humé\,nidade conte comnosco. Para isso poréin, carecemos primeiramente ser brazileiros. O amor da patria alenta-se do conhecimento do seu passado, e do seu presente, e da fé no seu futuro. « Não ha na historia povo,.conceitúa um escriptor francez, que não tenha devido o seu renome á magnitude de um idéal por muito INTRODUCCÃO XXXV tempo ambicionad·o e ardentemente buscado.» 1 «Nos Estados-Unidos, ensina-nos Tocqueville, a ' patria pulsa em toda a parte e desde a ultima aldeia até o conjuncto da União é objecto da mais viva sollicitude.
O habitante affeiçoa-se _<1:- cada um dos interessesd o se~ paiz como aos.,, proprios. ·Desvanece-se da gloria da nação, julga vêr nos seus successos o seu proprio trabalho e t com isso orgulha-se. Tem pela sua patria analogo sentimento ao que vota á familia.» 2 N'este Novo-Mundo, o Brazil, certo, tem um.primeiro lugar e os mais insignes destinos. Sejamos ·brazileiros com todo o ardor dos nossos temperamentos, mas sem os langores e desfallecimentos que o neutralizam. Não copiemos ninguem, mas estudemos tudo e todos, e principalmente estudemo-nos a nós mesmos. Tiremos do conhecitr1ento da patria, os mesmos elementos 1 Le P. Didon, Les Allemands, Paris, l 884, pag. l I. • Alexis de Tocqueville, De la Démocratie en Ameriqzte, 17•m• édit. Paris, 1888, Tom.
I, pag. 163. • • xxxvr. A EDUCAÇÃO NACIONAL com que lhe havemos de preparar a grandeza. Que superior aos Estados-Unidos pela unidade ethnologica e pela maior accentuação do caracter nacional,' ella o venha ·a ser tambem por juntar ás energias novas da America as delica~ dezas espirituaes da Europa, consorciando os mais altos dotes de espirito e coração, o sentimento e a intelligencia, com as maximas actividad~s da nossa coeva civilisação industrial. Que igual aos Estados-Unidos pela força, pela riqueza, por todos os progressos da arte e da indus~ tria, lhes sejamos superior pela elevação moral. da nossa concepção da vida - realisando na America, sem fazer do successo um criterio de moralidade, o typo ideal das futu~as civilisações, que apenas!obrigamos através das generosas illusões da nossa fé no progresso indefinido.
Pará, Março de 1 8 9 o.
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