Universo da obra
Universo da obra
A CASA NEGREIRA I Os prejuizos que soffria a fortuna particular com a sêcca, eram enormes. O Ceará tinha empregado suas economias em gados, economias de mais de trinta annos, e que subiam a algumas dezenas de mil contos. Além d'essa riqueza, representada pela industria pastoril, havia no milhão de habitantes da provincia uma população escrava de cêrca de trinta e cinco mil almas. Esgotados todos os recursos com o aniquilamento de quatro quintos dos rebanhos mortos de fome e peste, tornava-se cada vez mais precaria a sorte do criador, que, para escapar da miseria, tinha apenas terras sem valor e o escravo, considerado quasi como uma pessoa da familia. A propriedade escrava ficou sendo a unica fonte de receita.
A maioria dos negociantes da Fortaleza entregavam-se ao commercio de captivos, que faziam embarcar para o sul do imperio, como faziam outr'ora com o algodão, café e assucar para o estrangeiro. Raro era o dia em que não entravam no mercado da capital levas de escravos trazidos do sertão por seus senhores ou pelos mascates italianos. Á entrada da cidade, nas diversas estradas, os corretores açambarcavam a mercadoria com a gana da gorgeta, cujo valor dependia do numero das peças levadas ao escriptorio do traficante. Ignacio da Paixão não escaparia ao faro dos corretores. Entrou, já dia claro, pela estrada empedrada de Arronches, com um matuto, que tambem vinha á capital, como procurador de seu amo, a vender um magote de escravos.. Viriato de Maria, corretor do traficante commendador Prisco da Trindade, tinha amanhecido em Bemfica, arrabalde da Fortaleza, e sentado á sombra de uma das mungubeiras que enfeitam as orlas da estrada, esperava a entrada de alguma partida de captivos . - Oh lá, amigo, os negrinhos são para negocio? perguntou Viriato sahindo ao encontro de Ignacio da Paixão e do companheiro. Sim, senhor, conforme o preço . -Pelo maior da praça : meu patrão é quem paga hoje melhor este genero, disse Viriato já de braço ao pescoço de Ignacio e caminhando em direcção á Fortaleza como dois antigos conhecidos.
- matuto . Os negros vieram, foi para vender, disse o -E pelo melhor preço do mercado. O meu patrão, que é o commendador Prisco da Trindade, o homem mais rico e mais honrado d'esta terra, está agora quasi intrigado com todos os collegas de negocio, e porque ? por estar pagando melhor do que todos a mercadoria. Coisas da vida: teve um pedido de um fazendeiro, seu parente, de S. Paulo, de cem escravos de flôr, e querendo aviar com presteza a encommenda apresentou-se no mercado pagando melhor do que os outros ; eis a intriga, o barulho todo. - Queremos é encontrar um homem sério e que nos despache logo. -Nada maisjusto do que esta exigencia. Quanto a seriedade, juro que ninguem tem mais do que o commendador. Viriato de Maria seguiu conversando com os matutos até á casa de Prisco da Trindade, dispondo-lhes o animo quanto lhe era possivel em favor do commendador. As informações foram taes e prestadas com tanta habilidade, que os sertanejos acreditavam poder sem receio effectuar as suas transacções com o traficante, em quem suppunham um cumulo de probidade. Com as melhores disposições a seu respeito chegaram á porta do palacete : um casarão de rica fachada, onde as gradações da mortecôr esbatiam a cornija e as molduras brancas das janellas. A porta estava aberta e as vidraças fechadas reflectiam a luz do sol nascente em clarões de incendio.
Ignacio da Paixão e o companheiro, Miguel das Andorinhas, sentaram-se com os escravos no cordão da calçada, emquanto o corretor ia ter com o traficante. Uma das portas lateraes do salão de visita aberta para o corredor, deixava entrar a claridade necessaria ás escravas, que espanavam os moveis. Era um salão de luxo, porém ornado á moda parisiense e que seria um conforto, uma delicia n'um clima frio, mas no equador era uma estufa, uma tortura. Uma mobilia de mogno á Luiz xiv, estofada, com as cadeiras em duas filas aos lados do sofá, n'uma symetria monotona e rotineira, enchia o espaço da parede do outão ao meio da sala. As cadeiras pisavam com os pés calçados de cadeados de metal amarello um espesso tapete francez, verdoengo com allegoricas figuras chinezas . Sobre o marmore dos dunkerques espelhos de crystal encaixilhados em quadrilongas molduras douradas, com festões aureos de narcisos e tulipas. Dois a dois, sobre a pedra do movel, empinavam-se os jarros de porcelana, mostrando na convexidade do bojo ramalhetes de rosas em relevo apparentando a côr e frescura naturaes. Entre as flores petrificadas appareciam as figuras esbeltas e sadias de camponezas meio núas, deixando perceber nas fórmas descobertas a morbidez da carnação feminina. Do centro do tecto, um fôrro de pesado estuque, em desaccordo na altura com os preceitos architectonicos, descia o supporte de um candieiro de gaz com doze luzes. As
tres janellas, que se abriam para a rua, eram decoradas de cortinados de sêda branca franjados de ouro. Os pannos de parede eram forrados de papel azul celeste com flores douradas. Nos claros das janellas e nos espaços vazios dos lados do grande espelho oval sobre o sofá, pendiam retratos de familia em telas ricamente molduradas. Entre as personagens, que o pincel do artista copiou, duas prendiam a attenção : uma pela exquisitice do trajo, outra pela irregularidade das feições. Eram ellas um homem e uma mulher. De vis-à-vis olhavam um para o outro, mas com um olhar morto, um olhar apathico de animal que rumina. As duas escravas encarregadas da espanação, depois de concluida a tarefa, pararam defronte de um dos retratos e apupavam-no com uma vaia muda de gestos e de sorrisos de mofa. O retrato era de um homem de meia idade cuja fealdade de feições e a moda antiga do trajo provocavam o motejo das raparigas. A espessa cabelleira empoada reunia-se em uma comprida trança, que se terminava apertada por um laço de fita preta e cahia nas costas. Vestia o tronco uma casaca de panno azul de mangas estreitas e apertadas terminadas em um canhão justo ao punho e abotoadas por dois botões. A golla da casaca dobra-se na base de um collarinho de linho branco bem teso e tão alto que tocava as orelhas. Os membros inferiores, vestidos tambem á côrte de D. João vi, trajavam calções largos de panno fino até o joelho, onde se terminavam por umas ligas negras com fivelas de ouro e que pren10
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diam as meias de sêda côr de rosa. Os pés eram calçados por sapatos de couro envernisado, entrada baixa, rosto curto e ornados de grandes fivelas de ouro. Do peito do retrato pendia uma commenda da ordem de Nossa Senhora de Villa Viçosa de Portugal. As raparigas faziam uma zombaria innocente d'aquelle documento antigo, zombavam de um trajo, que ainda no começo d'este seculo no Ceará, no governo de Manoel Ignacio Sampaio, era usado por este governador e por todos que desejavam agradal-o arremedando os nobres da metropole. Surprehendidas pelo corretor, as escravas julgavam-se rés de um grande delicto e iam-se retirar para o interior da casa quando Viriato perguntou Thes : O senhor já se levantou? Está no gabinete, responderam ellas a uma voz meio desorientadas . O corretor deu as costas á entrada do salão, e, aproximando-se de uma porta fechada vis-à-vis áquella, deu tres pancadas compassadas com o cabo do chapéo de sol. Immediatamente ouviu-se o soar de uma campainha electrica e minutos depois a porta era aberta por um escravo ainda rapaz. Viriato entrou no gabinete do commendador e saudou o traficante com uma respeitosa venia. O creado retirou-se. Prisco da Trindade deitado em uma espreguiça-
deira, lia os jornaes do dia ainda de chambre de linho branco. A vista do corretor áquella hora indicava alguma transacção, e interrompendo a leitura interrogou-o : - O que temos de novo ? -Uma partida de escravos, que acaba de entrar do sertão. - Onde está ella? Em frente do palacete de v. exc.a Que taes as peças ? De primeira qualidade. Custou-me obter dos matutos a preferencia ; vinham com destino a outra casa. Peça permissão aos vendedores para recolher os escravos á senzala e depois leve os matutos ao hotel onde almoçará com elles, disse Prisco dando ao corretor uma nota de vinte mil reis. -E a que horas poderemos procurar v. exc. * ? -Depois de onze horas. Viriato retirou-se. O creado, avisado pela campainha, veio fechar a porta e o commendador continuou a lêr. *
II Prisco da Trindade tinha no gabinete o escriptorio de compra de escravos. Era uma sala um pouco menor do que a das visitas, esteirada, com algumas cadeiras de descanço, um sofá, uma secretária de ebano e uma grande burra de ferro á prova de fogo. Este compartimento communicava pela parte posterior por duas portas com um grande quarto, cuja mobilia constava de um sofá sem verniz, duas cadeiras ordinarias, um lavatorio de ferro com os pertences, dois cabides tendo cada um uma toalha felpuda de algodão : este era o quarto em que o medico examinava os captivos. O commendador tinha uns quarenta annos e possuia algumas dezenas de contos de reis, ganhas quasi todas no commercio de escravos. Pela regularidade
das feições não se diria que a ambição era uma de suas qualidades psychologicas . O rosto tinha uma expressão agradavel, embora deixasse perceber a sensualidade do temperamento, sensualidade que corria parelhas com a dos bodes. A questão capital de Prisco era ser millionario, e no pé em que estavam os seus negocios, com algum esforço e improbidade sel-o-ia em breve. A quadra para a realisação de seus desejos era a melhor possivel ; no sul do imperio a propriedade escrava subia de valor, era o sustentaculo da industria agricola, que se alargando todos os dias tinha necessidade de braços, que o Ceará fornecia por elevados preços . Prisco tinha uma ambição desmedida e contra a qual o coração e a consciencia nada podiam. Um cofre cheio de ouro e mulheres para gozar, eis o seu ideal. Ás dez horas da manhã o commendador deixou o gabinete e foi para o quarto de vestir preparar-se para o almoço. Na sala de jantar esperavam-no uma mulher e um menino. A mulher era D. Faustina, esposa de Prisco, e a creança seu filho. D. Faustina era um typo commum. Não era feia, nem bonita. Pela flacidez das carnes balofas e descoramento da pelle sabia-se o seu temperamento quanto tinha de lymphatico. O seu corpo avolumava-se cada anno á custa do excesso de nutrição que era accumulado e convertido em tecido adiposo. O abdomen era o armazem de taes reservas, e por isso i
D. Faustina parecia estar sempre no nono mez de gravidez. O volume era para si mais um incommodo moral do que physico. Gostava de se vestir bem, tinha a mania das modas, mas a barriga não se accommodava ás exigencias da costureira. Casára-se muito nova mais por um arranjo do que por affeição. Tinha necessidade de um marido e Prisco estava em condições de satisfazel-a. A vida de esposa era de uma monotonia estupida ; gozava os carinhos maritaes, mas já arrefecidos pelas noites de volupia no leito das concubinas: um resto de sensualidade capaz de um só espasmo e esse incompleto, quasi forçado. Rara era a noite em que Prisco não chegava ao leito conjugal tresandando a senzala, trazendo a barba e cabellos impregnados de um fedor de anum. Faustina não levava muito em conta as poucas vergonhas do marido, elle dava-lhe outros gozos que não eram os da carne, com que se conformava seu temperamento frio e sem volupia. Governava a casa por um systema novo e adoptado por sua indolencia. Repotreava-se em um divan estofado de marroquim e d'ahi dirigia o serviço domestico. Punia as faltas dos escravos com castigos corporaes, ás vezes barbaros e em completo desaccordo com as praticas religiosas que diariamente exercia. Além da mania das modas revelava grande paixão pela intriga, e não era muito prejudicial por esse lado por causa da preguiça. O intrigante deve ter facilidade de locomoção ; encarnado em um macaco chegaria á perfectibili-
dade, e D. Faustina quando muito teria a agilidade da tartaruga. Assim mesmo bisbilhotava, espionava com a lingua e olhos das escravas, que lhe diziam o que se comia e tudo mais que se passava em casa do visinho. No circulo de suas relações, bastante largo pela posição e fortuna do marido, era considerada como parte de um todo, que por convenção chama-se élite da sociedade . Uma ironia caricata da qual a mulher do traficante não comprehendia a mordacidade. Tratavam-na com a distincção de que eram crédores os contos de reis de Prisco. Nas rodas mais intimas, quando accusavam-na de leviana, de intrigante, attenuavam-lhe os defeitos qualificando-os de desfastio. Faustina gastava inutilmente o tempo. O filho, que se chamava Jacob, contava dez annos e era creado á lei da natureza. Amava-o, porém, com um amor de mulher lymphatica, estupida e ignorante. Proporcionava-lhe todos os gozos, satisfazia-lhe todas as exigencias da leviandade de menino, e nem um dia lembrára-se de pôl-o na escóla, fallára-lhe na carta de abc. Jacob era filho unico, e desde que nasceu que os paes o appellidaram de Sinhosinho. Todas as suas vontades eram satisfeitas com graves prejuizos de sua educação physica e moral. N'essa manhã, quando Prisco entrava na sala de jantar, elle, deitado no regaço de Faustina, teimava com ella, porque queria para almoço uma compoteira de dôce de goiaba. O commendador não perdia o tempo com a edu-
cação do filho ; a mulher que o guiasse como quizesse e entendesse. Prisco sentou-se á mesa e Faustina veio-se collocar ao lado d'elle. Ambos tinham um pelo outro uma indifferença de estatua. Tinham começado a almoçar havia quinze minutos, quando o postilhão gritou á porta de entrada : Correio. - Um creado foi receber a correspondencia, que trouxe e collocou ao lado de Prisco. O commendador descançou o talher e tirando uma carta de entre as muitas que tinham vindo do sul no paquete fundeado havia poucas horas, abriu-a e leu com interesse. Faustina continuou a comer com invejavel appetite. Não podendo arrumar mais coisa alguma no estomago, cruzou o talher e disse para o marido : Ojornal de modas ? Eil-o . E Prisco entregou um folheto a Faustina, que abriu e folheava com uma pressa e interesse contrarios á sua indole e temperamento. O rosto do commendador deixava perceber todos os transportes da alegria. As palavras da carta davam-lhe um contentamento, que se expandia em todas as linhas da physionomia. tina.-Não veio o jornal francez? perguntou Fausquete. A mala da Europa não alcançou este pa-
A moda aqui sempre está atrazada por causa d'essa irregularidade de serviço. -Prestas mais attenção ao fôfo de um vestido do que ao resultado de meus negocios. O correspondente escreve-me e nunca me perguntas se foram boas as contas de venda ! -Não entendo d'isso, sabes . Sei, mas quero hoje que partilhes do meu contentamento. A ultima partida de escravos que embarquei, deu um resultado esplendido. Houve peças vendidas a dois contos e trezentos mil reis ! Em cem escravos tivemos um lucro liquido de sessenta contos de reis ! -Procura o jornal francez que talvez tivesse vindo. -Sempre a te preoccupares com as modas mais do que com tudo no mundo ! A posse de mais sessenta contos vale menos a ti do que a vinda de um novo molde de vestido, de um panier mais moderno. - Cada qual n'aquillo para que Deus o fez . Soou a campainha de entrada. Era Viriato que chegava com os matutos. Prisco levantou-se da mesa levando comsigo a correspondencia, e foi mesmo abrir a porta aos sertanejos . O corretor convidou-os a entrar. Os matutos um pouco desconfiados apertaram com força a mão do traficante dando-lhe o tratamento de capitão . Prisco, com arte e uma amabilidade fingida e :
bem estudada, supportou o aperto e sacalão das callosas e grosseiras mãos dos matutos, desfazendo-se em attenções a suas pessoas, ás quaes mostrava toda a estima e prestava a maior consideração . Os sertanejos com os rostos afogueados pelos vapores alcoolicos, meio aturdidos sentaram-se e esperaram a negociação. Prisco mandou Viriato chamar o medico e emquanto este chegava, para adiantar serviço, pediu os papeis dos escravos aos procuradores e examinava-os com muita attenção. O medico acudiu immediatamente ao chamado de seu rico cliente. Cada exame rendia-lhe cinco mil reis, e pelo que lhe dissera o corretor a leva não era pequena. O doutor era com effeito medico de carta, estava authorisado por uma das academias do imperio a exercer a arte de curar no Brazil, mas por isso não segue-se que elle soubesse medicina. Á entrada do gabinete foi recebido pelo commendador que, todo civilidade, tomou-lhe o chapéo e bengala, apertou-lhe depois a mão com effusão e fêl-o sentar em uma cadeira de descanço . - Que noticias trouxe o paquete, commendador? -Nada politicamente fallando. Commercialmente uma conta de venda que me desgostou. Na ultima partida, que embarquei, foi julgada uma peça inutilisada. -Como assim ? -De uma lesão cardiaca.
De que natureza? Uma insufficiencia mitral. Isto me surprehende ! Admittida a sinceridade do correspondente e a veracidade do diagnostico, só posso attribuir o desenvolvimento de tal molestia ao enjôo do mar. -Talvez, pois v. s.ª não se costuma enganar, e o negro de que se trata parecia vender saude. - Foi o enjôo, não ha duvida. - E o meu prejuizo ? Havemos de resarcil-o. É de justiça. Quando poderemos começar o exame ? Quando quizer. E Prisco fazendo a campainha electrica soar tres vezes, assim chamou o corretor. Viriato muito pratico n'aquelle serviço já esperava na calçada acompanhado dos escravos a ordem de entrar. As escravas elle tinha deixado na senzala ; seriam examinadas em ultimo logar. O corretor entrou no gabinete seguido de doze captivos. Todos mais ou menos abatidos e cançados da viagem tinham uma physionomia triste e desgostosa. O ar de submissão communicado ás feições pelo amortecimento do olhar, pelo esgotamento da energia, dava uma idéa perfeita do aviltamento d'elles. Entraram um após outro para o quarto das observações. O corretor ordenou-lhes que se pozessem em linha e se despissem. Obedeceram. Alguns automaticamente se punham nús, mas outros tiravam a
roupa com muita vergonha. O espectaculo era indigno da civilisação do seculo. Aquelles homens sadios e fortes se submettiam de corpo e alma á vontade de outros homens que se intitulavam senhores e a quem elles obedeciam com uma passividade de corpo inanimado, porque as leis garantiam a elles o direito de tal propriedade. O medico entrou no quarto acompanhado do traficante. Aquellas figuras, umas côr de bronze e outras negras, perfiladas em nudez obscena, davam ao recinto a hediondeza de uma ulcera cancerosa. O doutor começou o exame. Percutiu o largo thorax do primeiro escravo e depois o auscultou com o ouvido armado de estethoscopio, como se este instrumento substituisse com as qualidades acusticas a falta de conhecimentos medicos. A escuta trazia-lhe ao ouvido os murmurios respiratorios, os ruidos do coração, mas elle não podia avaliar pelo que ouvia do estado physiologico d'aquelles orgãos. Escutado o thorax pelos lados anterior e posterior, o doutor leva o examinando ao sofá, deita-o a fio comprido, lhe encolhe as pernas afim de se relaxarem os musculos da barriga e passa a examinar as visceras, mas com tal força que teria feito romper, se houvesse, algum aneurisma da aorta abdominal. O figado, o baço, os intestinos foram amassados em vez de apalpados, e como o escravo não gemesse accusando dôr alguma, tinha sãs aquellas entranhas. Os orgãos da reproducção foram bem vistoriados. As virilhas foram examinadas e o escravo, para ser julgado bom, obrigado a
soprar com toda a força uma garrafa vazia, afim de espirrar alguma hernia encoberta. Findo o exame medico, começou o do traficante. O organismo estava são, affirmava o doutor, mas Prisco queria saber a qualidade, a força da musculatura, para calcular o valor da peça. Apalpava os musculos do escravo, abria-lhe depois a boca, escancarando-a com as mãos, que applicava uma sobre a barba e a outra achatando o nariz, afim de vêr e avaliar o estado de todos os dentes. Examinada com o maximo escrupulo a peça, o commendador tomava-lhe o nome e punha em seguida o valor que dava a ella. O medico continuou o exame sempre do mesmo modo ; quando chegou ao penultimo escravo, depois de prolongar a escuta na região do coração, disse a Prisco : Uma lesão do orificio aortico ! ... Uma lesão ? !! Sim, e muito adiantada. Este escravo está perdido, pouco poderá viver. O pobre homem ouviu aterrado a sua sentença de morte. A emoção foi tamanha que quasi o derriba. O traficante, acreditando que o escravo podesse *ficar doente em consequencia da franqueza do medico, e vendo-o empallidecer, se aproximou d'elle para animal-o : - Que é isso, filho ? os medicos tambem se enganam, e voltando-se para Viriato, pediu um calice de vinho para o doente.
O escravo bebeu o vinho e se reanimou mais. Prisco aproveitou a occasião para examinal-o e calcular o valor que daria o fazendeiro paulista áquella peça ; depois tomou-lhe o nome, ao qual accrescentou a palavra inutilisado —. Findos os exames, Viriato acompanhou os escravos á senzala. Minutos depois voltava elle ao gabinete de Prisco com as escravas. Eram quatro e todas entraram chorando . Filippa trazia a filha Bernardina pela mão, e era acompanhada por duas raparigas novas, mulatas e irmās. Viriato levou-as ao quarto dos exames e olhando com desdem para as suas lagrimas disse-lhes : -Pannos abaixo para a vistoria. Nenhuma d'ellas moveu-se. Vestidas de saia e camisa, e com o tronco envolvido em um lençol grosso de algodão, ficaram dispostas a conservar occultas as fórmas ameaçadas de uma indecente exposição. O medico entrou com o traficante . As escravas choravam de pé, immoveis. -Porque tanto choram, demonios ? Deixam uma terra onde só comiam mucună, e ainda se lastimam ! Vamos, botem abaixo estes molambos. E o corretor aproximando-se da primeira, que era Filippa, arrancou-lhe brutalmente o lençol dos hombros. As duas raparigas, horrorisadas com aquella scena e temendo seremtambem victimas, ligaram-se em um apertado amplexo, collo a collo, regaço a regaço, e
: assim unidas julgaram-se salvas da vistoria. Desherdadas da fortuna tiveram a desgraça de nascer de um homem livre e de uma mulher escrava, e em um paiz onde o captiveiro é uma instituição e garantida pela lei ! Donzellas, ainda conservavam a pureza de costumes da vida campezina, o amor ao trabalho, o respeito ao dever, o culto á honestidade, incutidos no espirito pelos seus avós e senhores, pelos mesmos que á hora angustiada das provações da miseria, suffocando n'alma os sentimentos intimos, abafando no peito o grito da consciencia, mandaram-nas vender. Foram sacrificadas á hora do perigo como bastardas que eram para salvar os legitimos rebentos dos velhos troncos. Nada tinham a oppôr. Seu pae era livre, e casado que fosse com sua mãe, que era eserava, a lei não lhes garantia a liberdade. Desprotegidas e atiradas em um instante á mercê sómente do infortunio, na mais cruciante tribulação, abraçavam-se e n'um amplexo solemne, que só as dôres fundas são capazes de estreitar, maldiziam os seus progenitores. O medico, tendo concluido os exames de Filippa e de Bernardina, estacou em frente das raparigas, quasi commovido com o pranto d'ellas. Viriato maltratou-as com palavras e pretendia desligal-as a empuxões, quando Prisco ordenou-lhe que se contivesse. O traficante ia pôr em pratica o que usava em casos identicos : dominar a dôr com palavras consoladoras, fazer reviver a esperança n'aquelles corações
angustiados pelo desespero. Fallou-lhes fingindo tanta sinceridade e convicção, que as raparigas ouvindo-o sentiram que a dôr ia serenando. A situação d'ellas não era desesperadora, disse-lhes, as tomaria para creadas de sua mulher e depois que ellas lhe prestassem cinco annos de serviços as libertaria. A promessa do traficante foi por ellas percebida, como a luz de um pharol pela retina de um naufrago em noite escura e tormentosa. O abraço que as unia foi perdendo a estreiteza e ellas desejando conhecer o homem generoso que estendia-lhes a mão para salval-as no momento mais critico da vida, desabraçaram-se e com os olhos pisados, rasos de lagrimas, mas n'um olhar, cuja serenidade reflectia o reconhecimento d'alma, fitaram o traficante. Prisco nada viu d'aquella prova de gratidão. Pasmo pela belleza da mais nova das raparigas, sentiuse devorar de desejos sensuaes. As escravas tinham uma vinte e a outra dezeseis annos. A mais moça era bonita. A côr de jambo dava-lhe ás fórmas a suavidade das morbidezas feminis. Os olhos negros, velados por palpebras franjadas de longos cilios pretos, eram de uma mornidão enervante, e sempre em languido movimento, em requebros de volupia innata e inconsciente, volviam-se em uma indolencia toda sensual. Prisco sentia que se crispavam todos os nervos em um arripio concupiscente. O olhar da mestiça tinha scintillações, cujo esplendor deslumbrava o espirito do traficante. Compral-a-ia, e cevaria o genio
libidinoso até a saciedade n'aquella carnação sadia e lasciva como a de sua raça, e, depois de esgotados todos os prazeres da carne, vendel-a-ia para o sul como a mais infima das captivas. O medico fez um exame ligeiro e o traficante por sua vez contentou-se em apreciar a frescura da pelle das mulatas, em apertar-lhes as carnes dos braços para saber se eram duras, emquanto os olhos procuravam devassar-lhes o regaço e vêr os seios virgens. Inteirado do valor das peças e saboreando desde logo o deleite carnal que ellas lhe proporcionariam, fêl-as voltar á senzala. O medico nada mais tendo que fazer alli retirou-se . Prisco entrou com os matutos no ajuste do preço da mercadoria. A lei considerava o escravo uma propriedade, cuja transmissão deve ser feita por escriptura publica e sujeita a direitos e impostos pagos aos cofres do estado. O commendador, porém, como todos os traficantes, tinha derogado aquella disposição legal e lesava a fazenda. O escravo inutilisado pertencia a Ignacio da Paixão . Miguel das Andorinhas em poucas palavras liquidou o negocio, quanto ao preço ; depois Prisco o interrogou : nal?-Não tem alguma patente da Guarda Nacio- - Não, senhor.
- O official sou eu, capitão da quarta companhia de meu batalhão, disse Ignacio. Prisco aproximou-se de Viriato e lhe disse em voz baixa : Substabeleça a procuração a Taveira, Cunha & C.ª, do Rio de Janeiro. - Não será preciso o substabelecimento do primeiro ser feito pelo tabellião, visto como não tem elle poderes de passar procuração com o proprio punho ? perguntou o corretor. - Quaes poderes, dê-lhe a patente de capitão de um d'esses batalhões do interior e está tudo direito. O essencial é a procuração do dono dos escravos e o recibo do procurador. -E não será isso causa de duvidas futuras, peço licença a v. exc.ª para perguntar ? -Não. Assim nos isentamos de pagar o imposto de transmissão; não houve venda. Viriato concluiu o substabelecimento da procuração de Miguel das Andorinhas, a quem fez capitão da Guarda Nacional. Convidado pelo commendador a assignar o documento, Andorinhas declarou entre dentes que não usava de lêr e menos de escrever. Prisco não se embaraçou com isso e mandou que Viriato assignasse o substabelecimento como se elle fosse o proprio Miguel. Esses documentos iriam para a côrte e de lá para S. Paulo ou Minas Geraes, e quem descobriria a sua falsidade? O escravo doente estava embaraçando Ignacio da Paixão .
Prisco com voz clara e pausada fazia o historico da molestia, a descripção pathologica ; mas o matuto não comprehendia de maneira alguma o que queria dizer lesão do orificio aortico. Todas as considerações e explicações do traficante respondeu elle assim : - Será, senhor ; porém no meu sertão nunca ouvi dizer que houvesse tal enfermidade. Os cirurgiões de lá nunca disseram que morresse algum d'esse mal ! O commendador concluiu a negociação dizendo formalmente ao matuto que a peça doente só valia cem mil reis, quantia esta que arriscaria, pois estava convencido de que o escravo, depois de um tratamento longo e sério mal serviria para criar gallinhas. Ignacio da Paixão fechou o negocio, recebeu a importancia dos escravos, e procurou, acompanhado de seu creado, o hotel onde almoçára pela manhã.
III A senzala era um grande telheiro no quintal da casa de Prisco. Media vinte e cinco metros de comprimento sobre dez de largura : um vão só, sem compartimentos, sem ladrilho, e aberto dos lados ao sol e aos ventos. O tecto era sustentado por muitos es- - teios fincados no sólo, os quaes tambem serviam para armadores de rêdes. Escravos e escravas comiam e dormiam juntos. Nem um tabique separava os dormitorios. Viviam alli recolhidos tendo por menagem apenas o quintal da casa. Na consciencia de sua degradação moral, de seu aviltamento, com o caracter rebaixado na convivencia das cozinhas, o pudor embotado pelos castigos corporaes, entregavam-se aos gozos da materia,
aos prazeres da carne com uma animalidade de jumento. Filippa, a antiga escrava de Freitas, e as companheiras foram recebidas na senzala com especial contentamento. Eram mais tres mulheres para a crapula, para a estupida saturnal. Filippa, que era de uma honestidade admiravel, cuja vida de donzella, de casada e de viuva não tinha sido maculada sequer por um pensamento deshonesto, horrorisou-se com aquelle meio, com a convivencia que ia ter. Alguns ditos obscenos do rude vocabulario da canalha atirados pelos devassos da senzala ás raparigas recemchegadas deram-lhe uma idéa perfeita da immundicie moral que reinava alli. Não havia meio de separarem-se d'aquella onda pôdre, de sahirem d'aquella esterqueira. Procuraram, entretanto, se afastar d'ella, evitar, quanto possivel, o seu contacto ; tristes e envergonhadas foram-se esconder a um canto. O seu retrahimento desagradou os veteranos da senzala ; elles comprehenderam que ellas queriam evital-os e puniram o attentado de um modo cruel. Cercaram-nas e romperam em uma vaia estupida e indecente. Ditos e gestos obscenos, acenados com um desbriamento de prostituta devassa e bebeda, offendiam o pudor das castas filhas do sertão. Certos da immunidade patearam-nas até cançar. Ellas responderam os insultos com gemidos e lagrimas. Deixaram-nas quando no monturo não havia mais lixo a revolver. !
Filippa lembrou-se de ir com a filha e companheiras valer-se da mulher de Prisco e pedir-lhe agasalho longe d'aquelle fóco de depravação. Alimentava esta idéa quando alguem lhe informou que o commendador não admittia tal distincção. Resignaram-se a ficar alli. Logo que anoiteceu, agasalharam-se. Os habitantes da senzala, quando escureceu de todo, entregaram-se ao mais immoral deboche. Devorados da bestial sensualidade e n'uma gula insaciavel de deleites carnaes, obedeciam, como se brutos fossem, sómente ás imposições da carne. A noite ia em meio. No quintal deserto e escuro atravessava um homem envolvido em um comprido capote preto. Era Prisco que aquella hora, tão lascivo como os escravos que debochavam na senzala, ia a uma entrevista procurar os amores da mulata, que comprára havia poucas horas. Caminhou até o extremo do quintal, onde se occultou em uma estrebaria abandonada ; escondido ahi fez ouvir um longo e fino assobio. Era o signal. Algum tempo depois apresentou-se-lhe uma preta idosa a receber as suas ordens. Era a alcoviteira : fazia a cozinha da senzala de dia, e de noite levava-lhe amantes. Prisco ordenou-lhe de trazer á sua presença a mulata mais nova das duas que tinha comprado pela manhã. A escrava desappareceu nas sombras em rumo do telheiro. Chegando á senzala foi com facilidade ter á rêde da rapariga. Acordou-a e com astucia e manha deu-lhe o recado do senhor, accrescentando
por sua conta promessas de liberdade e futuro, sem dizer a preço de que. A rapariga ouviu-a e recusou-se a acompanhal-a. A preta tinha longa pratica d'aquelle serviço e não desacoroçoou com a recusa. Voltou ao assumpto, e com muita finura aconselhou-lhe a conveniencia de obedecer ás ordens de tão bom senhor, e com arte deu ás suas palavras uns tons muito longe de ameaça. A mulata foi pouco a pouco acreditando nas promessas da alcoviteira e acabou por acompanhal-a, por obedecel-a, como se estivesse sob a influencia d'uma força magnetica. Chegando á estrebaria a preta deixou a mulata só com Prisco . O traficante tomou-a pela mão ; estava fria e tremula. A escuridão não permittia lêr nos olhos os sentimentos d'alma. O commendador tinha a victima segura. Começou a seducção do espirito pela promessa da liberdade, a realisação do ideal querido, a unica e legitima aspiração da mulata. Emquanto a alma se embebecia contemplando o quadro esboçado pelo seductor, a carne se excitava ao contacto da carne de creatura de outro sexo. Prisco comprehendia que as resistencias cediam. Seu braço passou da mão ao pescoço da rapariga e os labios segredaram-lhe ao ouvido todas as promessas, todas as seducções imaginaveis, sem que ella procurasse evital-o. O espirito da moça cahia em languido deliquio e ella sentia o fluido nervoso em crispações electricas :
todas as vezes que as asperas barbas do seductor roçavam-lhe de leve as faces, que eram de uma macieza de arminho . O olfato tambem era uma fonte de excitação. A mulata tinha as extremidades geladas e as faces, ora lividas, ora incendiadas e rubras, tornavam manifesta a crise de que o cerebro era o centro. Os olhos, quasi sem luz, fechavam-se n'um requebro voluptuoso, n'um cerramento apathico de desmaio. Estava de todo rendida á vontade do seductor. Prisco abraçou-a ; uniram-se em um contacto mais intimo, e os seios d'ella, comprimidos pelo largo thorax do traficante, vibraram, como fios de aço, a ultima estrophe de sua virgindade agonisante. Prisco ouvia aquelles accordes sem alma e sem coração. Sentia que a emoção inanimava a mulher que tinha nos braços e nem um instante teve piedade d'ella ! Cevaria n'ella os desejos brutaes até a saciedade e a venderia depois para fóra da provincia e ainda com lucro, embora conscio de que a fizera procrear. A mulata sentia desfallecer ; mas antes de entregar-se completamente ao seductor quiz reagir, erguer-se ; mas embalde, a vontade a havia abandonado e fallecido todos os meios de acção. Algumas horas depois recolhia-se o traficante ao leito conjugal e a mulata voltava prostituida á senzala em companhia da alcoviteira.
IV D. Faustina levava a abelhudice a ponto de conversar com todos os escravos que o marido comprava, afim de saber da vida d'elles e da dos seus antigos senhores. Havia na senzala uma partida de dezeseis captivos, comprada ultimamente, e a mulher de Prisco teria assumpto para alguns dias. Logo na primeira manhã, Faustina se levantou um pouco antes das oito horas do dia e começou a tarefa. Filippa foi chamada para depôr em primeiro logar. A physionomia da preta tinha uma expressão serena de bondade e era illuminada por um olhar de uma suavidade angelica. Chegando á presença da nova senhora saudou-a pedindo-lhe a benção, com verdadeira humildade christă.
Faustina olhou-a e continuou, sentada no divan, a escolher rendas, que uma escrava ajoelhada ao pé de si mostrava-lhe dentro de uma grande cesta. Filippa já estava cançada de estar de pé, quando a senhora se lembrou d'ella e começou a interrogal-a. Havia uma hora que durava o interrogatorio, quando foi interrompido pelos gritos de Jacob. Senhosinho passeiava no quintal quando encontrou Bernardina, a pequena filha de Filippa, brincando com uma concha. O menino cubiçou o brinquedo da escravinha e lh'o pediu : Dá-me esta concha, diabo. Ella recusou. Jacob ameaçou-a de esmurral-a e, como ella tivesse resistido, deu-lhe uma bofetada, depois segurou-a pelos cabellos e atirou-lhe com a cabeça de encontro ao muro. A escravinha, exasperada de dôr, e para livrar-se do aggressor, mordeu-o na mão. O menino soltou-a immediatamente e correu gritando a queixar-se a sua mãe : -Mamãe ! mamãe ! o diabo da negrinha nova mordeu-me ! Eu não lhe fiz nada ! Olhe o sangue ! Faustina olhou mui tranquillamente para a pequena ferida do filho e disse para a senzala : Elias ! traze o chicote e a negrinha que se comprou hontem. Filippa ouviu sobresaltada aquella ordem. Voltou-se para o lado da senzala, e na mais angustiosa espectativa estava, quando viu subir a escada da va-
randa o escravo trazendo Bernardina arrastada e um grande chicote. A figura do negro tinha um que de sinistra. A musculatura athletica, a feia catadura illuminada por um olhar feroz irradiado de uns olhos pequenos e injectados, como de cão hydrophobo, aterraram a escrava e levaram-na a cahir supplicante nos pés de Faustina : -Pelas chagas de Christo, minha senhora, perdoe minha filha que é tambem uma creança. A mulher de Prisco, sem attender á supplica de Filippa, disse a Elias com todo sangue frio : Castiga. O chicote movido por aquelle braço de ferro bateu sobre o corpo da escravinha. Filippa occultou o rosto entre as mãos, e sentindo que o coração estalava de dôr chorava sem consolo. Faustina, indifferente á scena que se passava perto de si, continuava a escolher rendas e bordados. Jacob acompanhava de uma gargalhada gostosa os gritos de dôr que o chicote arrancava á escravinha. O castigo durava havia cinco minutos. A pelle das costas da creança havia sido rasgada em alguns pontos pelo açoite ou contundida em negras ecchymoses. No chão excrementos liquidos e solidos, productos do medo e dôr, tornavam ainda mais repugnante aquella scena. A surra continuava quando soou a campainha
electrica da sala de jantar ; era Prisco que entrava no gabinete. O escravo parou o chicote immediatamente. Todos para a senzala, disse Faustina. A escrava que segurava a cesta de rendas, levantou-se e foi limpar o assoalho emporcalhado em uma grande extensão.
V Filippa em oito dias de senzala, com o espirito attribulado, o coração desalentado, sem o conforto de uma esperança, tinha envelhecido mais do que nos quarenta annos de captiveiro no sertão. O castigo da filha havia sido para ella de uma agonia cruciante. Foi-lhe um dia fatal. Á tarde, quando o espirito conservava ainda vivas as impressões das scenas da manhã, é chamada com a filha á presença de Faustina. Custou-lhe um sacrificio enorme obedecer. A mulher do commendador precisava de alguns metros de renda, que lhe faltavam para concluir o enfeite de um vestido. A renda era sertaneja, e por isso a filha de Filippa foi escolhida para executal-a. A escrava apresentou-se a Faustina trazendo Bernardina pela mão. Em seu rosto não havia um traço,
uma linha que não denotasse o desgosto, o pezar que ia-lhe pela alma. Perfilada, muda, com os olhos cravados no chão, evitando a physionomia da senhora como um objecto asqueroso, esperava que Faustina lhe dissesse o que queria de si. A mulher de Prisco sem dar apreço ás manifestações de seu odio e muito menos ás de seu pezar, indagou das prendas de Bernardina. Filippa respondeu-lhe enfadada affirmando que a filha mal trocava bilros. Faustina não esteve por isso e entregou-lhe uma almofada com os pertences e a linha necessaria á renda que Bernardina deveria fazer no praso de oito dias, praso improrogavel, e sujeita á pena de uma surra no caso de falta. Filippa indignada, revoltada mesmo com o procedimento da senhora, recebeu a almofada e voltou á senzala . A tarefa era grande e custosa. Impossivel era á escravinha executal-a. Uma rendeira perita, trabalhando noite e dia, talvez não a concluisse. Filippa olhou para a almofada como para uma nova desgraça. N'aquella mesma tarde deu começo á renda. Trabalhava com afinco, empregava no serviço até as horas do somno e os minutos das refeições, e ainda assim os dias se passavam e não traziam-lhe sequer uma esperança de termo á tarefa. Faltavam dois dias para se acabar o praso e só havia menos de metade da renda. Filippa não dormia e quasi não se alimentava. As mãos tremulas e des
carnadas retardavam a marcha do serviço ; o trocamento dos bilros, além de moroso, era imperfeito. O tremor dos dedos embaraçava o adiantamento do trabalho ; com muita difficuldade ella conseguia introduzir o alfinete no estreito orificio do papelão e assim prender a laçada. O praso era de oito dias, e oito dias durou a sua angustia. Chegou o dia fatal. Filippa sentia um desalento percebivel em todas as linhas do rosto. Sentada a um canto da senzala, com os olhos fitos na almofada em uma immobilidade de estatua, via o dia crescer e com elle a aproximação de um transe mortal. Bernardina brincava na feliz inconsciencia de sua idade. Faustina já se tinha lembrado da renda, e, como o marido estivesse em casa, esperava que elle sahisse afim de chamar a escravinha a contas. Prisco não queria absolutamente que a mulher castigasse as peças que tinha para negocio. Que ella infligisse os maiores castigos aos escravos empregados no serviço domestico pouco ou nada lhe importava. O commendador á tarde sahiu á rua, e Faustina aproveitando-lhe a ausencia mandou vir Bernardina á sala de jantar, onde ella em uma cadeira preguiçosa lia os jornaes de modas. Filippa ouviu a ordem, e decidida a soffrer tudo pela filha, levou a almofada e foi só á presença da senhora.
O definhamento da escrava, o olhar desvairado nada influiram no animo de Faustina. Filippa contou-lhe a triste historia de seus soffrimentos, as torturas de seu espirito em oito dias de uma agonia só e mortificante ; mas nada commoveu a senhora. Quando a escrava suppunha ter justificado a falta da filha, Faustina disse-lhe com uma frieza sem nome : -Mas a tarefa está no meio... Filippa que até então chorava e supplicava, n'um impeto de indignação, fitou a senhora com um olhar feroz e disse-lhe : -Castigue, senhora, mas castigue a mim... Faustina olhou a escrava com desdem e mandou dizer a Elias na senzala que trouxesse Bernardina e o chicote. Filippa ouviu a ordem sem proferir palavra e esperou . Minutos depois ouviu-se um berreiro infernal na senzala : era Bernardina, que, arrastada pelo negro, vinha á presença de Faustina. Elias entrou na sala de jantar com a escravinha, que passando ao lado da mãe com ella se agarrou, e com toda a força que tinha. O negro puxava a creança para desligal-a da escrava, mas ella tão segura estava que só se desligaria quando se lhe desarticulassem os membros. Filippa, n'um impeto de cólera, dá uma forte bofetada no negro . Faustina mordida pelo desrespeito a sua pessoa diz :
Castiga todas duas. O chicote movido pelo braço impiedoso e selvagem do negro batia n'aquelles dois corpos intimamente ligados no mais sagrado abraço. reiro. Bernardina atordoava a casa n'um horrivel ber Filippa soffria immovel, como se estivesse petrificada. O latego cortava-lhe a pelle, retalhava-lhe a carne, mas não se ouvia ella soltar um gemido, sequer um ai ! Vinte vezes talvez não tivesse o chicote lhe contundido as costas quando Filippa cae redondamente no chão, como uma massa inerte, e segundos depois solta um grito agudo e desconcertado, semelhante a um gemido fundo, a um estertor longo determinado pelo espasmo dos musculos da larynge. Bernardina continúa agarrada ao corpo immovel de sua mãe. Elias, surprehendido com o acontecimento, recúa um passo e espera com o chicote erguido orientar-se. - É manha, disse Faustina mui tranquillamente. É um ataque, disse o negro convencido. - Continúa, Elias. O negro ia descarregar o chicote quando notou que o rosto da escrava tornava-se cada vez mais fulo, cada vez se accentuava mais a côr de figado assado. Baixou o braço e repetiu para a senhora : É um ataque. Faustina desviou os olhos do figurino que exa- *
minava, e muito tranquillamente fitou o rosto de Filippa. A epilepsia acabava de invadir aquelle organismo de um modo subito e terrivel. A lividez do semblante, a immobilidade e rigidez do corpo estendido a fio comprido em um espasmo tonico do systema muscular, davam certeza da abolição de todas as faculdades ; nem vontade, nem sensibilidade, a menor noção do mundo exterior ficou-lhe : apenas vivia o systema nervoso, mas uma vida toda automatica. A respiração tambem está suspensa, e de sua suspensão resulta a estase venosa, que vem colorir de violeta a pallidez fula do rosto . Pouco mais de um minuto fazia que Filippa tinha cahido e ficado immovel, quando os grupos de musculos das faces são agitados em convulsões clonicas. As contracções musculares e o seu relaxamento dão á physionomia da epileptica uma expressão hedionda, que se transforma ás vezes em um gesto de ironia. Os traços do rosto assim modificados por aquella dança de movimentos desconcertados fazem um contraste perfeito com o resto do corpo na immobilidade de cadaver. As convulsões que se limitavam aos musculos do rosto invadem pouco a pouco a musculatura do tronco e membros. Parece ter-se operado uma resurreição. Faustina tinha visto os primeiros tremores convulsivos e desviado o olhar, que fitou no jornal de modas .
O accesso, que seguia a marcha normal, havia attingido á phase aterradora. As feições de Filippa, de uma serenidade angelica, estavam completamente decompostas. Tinha a fronte coberta de rugas e os supercilios unidos formavam uma só linha, que se arqueava sobre os olhos sem luz e de grandes pupillas, e cujas palpebras abertas os deixavam vêr n'uma agitação constante dentro das orbitas. As faces distendidas em todos os sentidos contrahiam-se em horrida careta. Das commissuras dos labios, que em precipite agitação pareciam segredar, cahiam flocos de sanguinolenta espuma. A saliva affluia á bôca pelo movimento dos queixos em automatica mastigação misturada ao sangue, que vertiam os bordos da lingua retalhados pelos dentes, e sahindo descia ao longo do pescoço colorindo de vermelho as veias, que a turgidez tornava mais salientes. A cabeça obedecia aos musculos cervicaes e movia-se em repetidas venias, ou gesticulava negando ou affirmando, emquanto o tronco em bruscos movimentos levantava-se e cahia batendo no assoalho em monotono compasso. Os membros thoracicos estendidos ao longo do corpo em uma rigidez tetanica, contrahiam os musculos flexores dos dedos obrigando os pollegares a se fecharem sobre as palmas das mãos e os outros dedos a se dobrarem sobre elles. Tesos os braços eram agitados por tremores mais ou menos intensos. Os membros abdominaes, obedecendo ás imposições do mesmo centro, arremedavam os thoracicos, tinham convulsões e fechavam os dedos dos pés.
A livida turgidez da face cada vez mais se accentuava mantida pelo tetanismo dos musculos do thorax. A ultima phase do accesso se annunciava pela respiração, que pouco a pouco se restabelecia. As primeiras porções de ar penetram na trachea e conseguem chegar ao pulmão, mas fazem ouvir atravessando a arvore bronchica um ruido estridente, um estertor de moribundo. Relaxava-se mais e mais a musculatura do peito tanto quanto era preciso á di- - latação do thorax. O pulmão enche-se de ar e a onda sanguinea, que estava em estase, caminha a seu destino, e, assim restabelecidas a circulação e respiração, foi desapparecendo a cyanose do rosto e a pelle readquirindo o colorido normal. Uma onda de suor extravasando-se dos póros banhou o corpo todo, ao mesmo tempo que a bexiga em um instante de incontinencia deixou vazar toda a urina que continha. A ultima- phase do accesso ia terminar. As convulsões clonicas vão diminuindo de intensidade, e dos violentos espasmos restam ligeiros tremores. As funcções respiratoria e circulatoria se exercem no rythmo normal, mas ouve-se ainda um gargarejo, um estertor de coma profunda. Restabelecida a ordem na vida organica, a escrava ainda se conserva algum tempo sem ter noções do mundo exterior. Um collapso geral, entretanto, annuncia que a sensibilidade e a consciencia vão voltar. As palpebras cerraram-se e ella parecia adormecida. Alguns minutos esteve n'esse marasmo, n'esse somno morbido. Voltando a si abriu os olhos, levantou-se e como se acordasse de :
um pesadelo, olhou para tudo que a cercava, e ficou de pé em um estado de completa apathia. Faustina vendo-a assim, e temendo que o marido surprehendesse aquella scena, ordenou a Elias que levasse a epileptica e a filha para a senzala. O negro tomou Filippa pela mão, e ella seguida de Bernardina o acompanhou com uma passividade de automato. O escravo levou-a até á rêde e deitou-a. Filippa sentia uma fadiga penivel e uma dôr de cabeça que lhe estalava os miolos. Uma vez deitada adormeceu. Aquelle somno profundo e fóra de tempo não era physiologico, era um phenomeno morbido. Dormiu até pouco depois de meia noite. Acordou mais restaurada, boa da cephalalgia e com a intelligencia em estado de perfeita lucidez. O que se passou comsigo até o momento de se desenvolver n'ella a nevrose, veio ter á imaginação. Ella ainda quiz acreditar um sonho tudo aquillo, mas em breve se convenceu da tremenda verdade, palpou as ecchymoses que o chicote lhe havia produzido no corpo, e n'um desespero que tocava ao delirio, á allucinação, teve a idéa de matar-se. Esse pensamento mau encheu-lhe totalmente o cerebro ; não era mais um desejo, era uma aspiração e que minutos depois tornava-se para o seu espirito a maior e a mais urgente necessidade. Resolvida a acabar a vida, levantou-se e tirando uma das cordas da rêde amarrou no beiral da casa e fez o laço que devia estrangulal-a. Preparado
tudo para o crime, lembrou-se da filha e foi dizerlhe o ultimo adeus . A creança dormia profundamente. Filippa ajoelhou-se junto á rêde da menina e fitando-a fallou em voz baixa, como para justificar o seu procedimento : -Trabalhei toda a minha mocidade para os meus antigos senhores, fui amiga sincera e dedicada de minha senhora, amamentei todos os seus filhos, poupando-lhe assim trabalhos e desgostos ; e que tive eu em paga de tudo isso? A ingratidão como recompensa. Ella dizia muitas vezes que amava-me, mas se assim era, o seu amor deixou-se dominar pelo interesse . Ensinou-me o caminho do bem dando-me bons livros para lêr e edificar-me nos exemplos da virtude ; e de que me serviu tudo isso? Sei hoje para avaliar melhor a perversidade d'ella e me fazer mais desgraçada. Quantas vezes ella me prometteu a liberdade ! quantas vezes mostrou-me a importancia do premio que ia dar-me em recompensa de meus serviços, tudo para eu conhecer depois quão pesados são os ferros do captiveiro ! Ella que foi minha companheira de infancia, que recebeu de mim as provas mais reaes de dedicação, vendeu-me como se eu fosse simplesmente uma besta de carga ! O que poderei esperar d'essa nova senhora, a quem nunca prestei o menor serviço ? Devo morrer, devo acabar de uma vez com este martyrio lento. Ella ensinou-me a crêr na religião do Christo, e esta religião condemna a quem se mata. Ella enganou-me, porque me prometi :
teu libertar ; a religião manda amar o proximo e ella vendeu-me ; é portanto falsa a doutrina que ella me ensinou. Pedi que me vendessem só, que ficassem comtigo, minha filha, e os ingratos foram surdos aos meus rogos. Nada os commoveu ! Não tive direito á menor recompensa e me fizeram seguir para o açougue. Filha de minha alma, vou deixar-te ; de que te poderei servir no mundo ? Morrendo poupar-te-hei a afflicção de vêr o chicote rasgar-me as carnes ! Ai ! custa-me tanto deixar-te . E Filippa, inclinando-se sobre a filha para beijal-a, sentiu o contacto do crucifixo, que lhe pendia do pescoço. Estremeceu. Uma centelha de fé escapou do gelo do scepticismo e ficára-lhe n'alma. Na tribulação havia esquecido tudo, as horas asceticas de outr'ora, e quasi a crença na outra vida. O contacto do crucifixo de ouro, a frialdade do metal transindo-lhe as carnes, transportaram o seu espirito em um instante para o passado. Aquella cruz era uma lembrança de Josepha, um mimo que esta lhe havia feito no dia do baptisamento de Carolina. Filippa tirou a imagem do pescoço e sem a costumada reverencia fitou-a e continuou a despedida : ---Disseram-me que rogasse a Deus em minhas tribulações ; vou tentar esse recurso ; talvez seja tambem falso como as promessas de minha senhora. Tentarei a oração, quero saber se existe alguem que escute os rogos do escravo, algum sobrenatural, mas justo, omnipotente e misericordioso. Rezarei, implorarei, e se da oração, da supplica, não vier conforto,
esperança, resignação, não voltarei, minha filha, pois estou convencida que minha vida será para ti uma tortura. Filippa deita o crucifixo ao pescoço, beija a filha muitas vezes, e quando se ergue, sente que um frio, como uma aragem de gelo, transe-lhe as carnes dos pés á cabeça ; era uma oura epileptica, que precedia a um segundo accesso e ainda mais intenso.
VI Ignacio da Paixão, logo que concluiu a venda dos escravos, foi para o hotel em que tinha almoçado com Viriato, jantou e tomou um quarto. O corretor dera-lhe as melhores informações do hoteleiro. Á custa do matuto tinha ganho n'aquelle dia duas commissões e ainda esperava uma terceira. Certo de que Ignacio pernoitaria no hotel, foi tratar de ganhar a ultima gorgeta. Seguiu pela rua de .... e entrou em uma casa de modesta apparencia. Bateu e veio recebel-o um homem de meia idade, que, depois de apertar amigavelmente a mão do corretor, disse-lhe : vêl-o! Ha muito tempo que não me dá o prazer de -Sabe que os meus afazeres não me permit-
tem visitar os amigos senão quando ha algum negocio a tratar. ultima . Então ! temos novidade ? -Uma mina ! melhor e menos difficil do que a -Está certo ? Perfeitamente . Examinei o terreno, e havendo tactica o pato cahirá no laço. - Talvez não seja tão facil como suppõe ! Facilimo ! O marreco além de gostar, como me disse, do divertimento, atira com polvora alheia e tem mais outra coisa: toma bem o seu codorio ; havendo por lá alguma cerveja preparada elle cahirá como um cassaco . - Onde está elle ? No hotelde .... Vem só ? Graças a Deus. Quanto poderá lascar ? O seu nome ? Ficando depennado, quatro contos. Baptisou-se por Ignacio da Paixão. - Encontral-o-ei á noite? -É provavel, supponho que elle não terá que fazer na rua. Creio tel-o satisfeito : agora o promettido. Viriato despediu-se recebendo dez mil reis de gorgeta . No salão dos bilhares do hotel, Ignacio da Paixão, sentado á noite ao lado de uma mesa de marmore, aperuava uma partida e em que tres amado
res disputavam a victoria em uma negra, e tão entretido estava que não viu os olhares curiosos que demoravam sobre elle dois homens decentemente vestidos e que acabavam de entrar no salão. Um d'elles era um commissario do governo encarregado de distribuir soccorros publicos, um typo commum, mas figura obrigada em tempo de miseria. O outro era um jogador de profissão, aquelle que, havia pouco tempo, tinha recebido em sua casa o corretor e pago a noticia. Era elle um homemzinho feio, rachitico, nariz vermelho como um pimentão, olhos doentes encaixilhados em oculos escuros dé quatro vidros. Fallava com difficuldade e gaguejando, mas jogava admiravelmente o trombone. O commissario pediu duas chicaras de café e sentou-se perto do matuto. O jogador já tinha contado ao companheiro a noticia que recebera de Viriato. Era necessario saber quem era o Ignacio da Paixão . Pelo trajo e a attenção ao bilhar, era possivel que fosse aquelle o individuo que procuravam. O commissario levantou-se e dirigiu a palavra ao matuto. É v. s.ª o capitão Feitosa ? Não senhor, sou o capitão Ignacio da Paixão. Desculpe o incommodo, disse o commissario sentando-se em seu logar. dor. - É o sujeito, disse em voz baixa para o joga Então podemos dar o recado.
.... n.º 50 a -Sabes que volto hoje á rua de vêr se a fortuna me protege como a noite passada. Ignacio fitava com interesse o commissario e o companheiro, e era todo ouvidos para o dialogo que começava. - O jogo prolongou-se até duas horas da madrugada e o banqueiro sahiu com um prejuizo de dez contos de reis. Estava então caipora ! -É o que lhe parece. O sujeito só sendo doudo ; quer teimar com a sorte. Dizem que é um grande ricaço do sul e que joga para se distrahir. Diabo leve tal gosto . Seja como fôr, vou aproveital-o emquanto se demora por aqui. Elle segue n'estes quatro dias para o norte ; é preciso que os pobres, como nós, fiquem com alguma parte do thesouro provavelmente roubado. Á vista de suas informações irei tambem hoje á rua de .... n.º 50 a vêr se ganho com que passar um anno . -Não se arrependerá. E vamos-nos aproximando, que o divertimento começa ás dez horas em ponto. E o commissario sahiu com o jogador sem olharem para o matuto. Ignacio da Paixão ouviu com grande interesse a conversação. O jogo era a sua paixão desde menino. Jogava no sertão o trinta e um de bôca, e tinha-se em conta de felizardo. A occasião era opportuna e
pensou que não estaria longe o momento de ser rico. Elle deveria regressar para o interior no dia seguinte com viveres para seu parente. Dominava-o o desejo de ir á casa do jogo e tentar a sorte. Sua consciencia repellia esta idéa ; arriscar o dinheiro alheio, fossem quaes fossem as probabilidades de lucro, não era honesto. O matuto cedeu aos caprichos da paixão e levando todo o dinheiro de Freitas foi jogar. Com difficuldade encontrou a rua e a casa indicadas. Parou á porta, que estava aberta, e olhou para o interior. Apenas viu um corredor estreito illuminado por um candieiro de kerosene. Escutou algum tempo e ouviu que fallavam lá por dentro. Teve receios de entrar; examinou algumas vezes o numero da casa, era o mesmo que ouvira no hotel. Depois de mais alguns segundos de indecisão, decidiu-se e entrou. Vencido o corredor chegou á sala de jogo, que sufficientemente illuminada por quatro lampadas a petroleo, de luz dupla, mobilada com grande numero de cadeiras americanas, estava já áquella hora repleta de jogadores. O matuto saudou os circumstantes com uma boa noite, dita por entre dentes e em tom de desapontamento. No meio da sala estava uma mesa de tamanho regular coberta com um panno verde escuro, de lã, e no qual via-se traçado a giz um quadrado e dividido ainda por um traço no centro. Sobre a mesa estava o simples instrumento chamado trombone : é elle apenas um tubo curto, de pouco diametro, e adapta-
do por suas extremidades a bocas semelhantes á do trombone. Na parte média do tubo cruzam-se dois fios de linho bem tesos atravessando o espaço formado pelo canudo. Depois que Ignacio entrou, fechou-se a porta da rua ; não se esperava mais ninguem. O jogo reunia alli uma admiravel variedade de typos. Quasi todas as classes da sociedade estavam representadas, sendo a dos commissarios da secca a que mais se distinguia pelo numero. O banqueiro do trombone chamava-se Carrilho da Paz e conversava com o commissario que o acompanhou ao hotel, sobre a necessidade de ser n'aquella noite feita a banca por seu ajudante, afim de Ignacio nada desconfiar. Ficou assentado isso. O ajudante era ainda moço, porém tão viciado estava como o velho mais peralta. Tendo recebido as ordens do patrão sentou-se ao lado da mesa e abriu a caixa das fixas, que separou conforme os valores ; depois, tirou de uma caixinha de pau tres grandes dados, que atirou sobre a mesa. Quando os dados cahiam sobre o panno muitos dos jogadores se aproximavam e tomaram assento ; era o primeiro signal. Outros ficaram de pé a aperuar. Houve alguns ditos sobre os dados. vez . - Ha muito que não appareciam ! - Tenho minhas queixas de vossês ! Honre-me com sua protecção, como da ultima O banqueiro dirigiu-se aos parceiros ; o silencio foi geral, todos queriam escutal-o. - Meus senhores, vamos começar o divertimento ;
abanca é de cinco contos de reis ; a gata é a sorte do banqueiro, é ella tres quadras ; dando, levarei metade do que houver na mesa. E tomando o trombone pela garganta virou-lhe uma das bôcas para osjogadores, afim de verem que os fios estavam perfeitos. Ignacio da Paixão nada entendia d'aquelle jogo. O commissario comprehendeu sua ignorancia e se aproximou d'elle. Para inspirar-lhe confiança tirou da carteira algumas notas de duzentos mil reis e ao mesmo tempo perguntou-lhe em voz baixa : - Não joga? Tenho vontade, mas é a primeira vez que vejo estejogo. -Não é preciso saber, elle não depende do calculo e sim da fortuna. Vê aquella divisão feita por um risco branco no panno ? -Sim, senhor. ---Pois bem, deve fazer a sua parada dentro de um dos dois quadros conforme sua vontade ou palpite. Se os dados derem um dos numeros do lado em que parou, ganhará; ao contrario, perderá. Ignacio ficou satisfeito com as explicações e foi sentar-se junto á mesa com o commissario, que lhe ficou á esquerda. O banqueiro agitou os dados dentro do copo de sola e despejou-os na boca escancarada do trombone. Já as paradas estavam feitas. O silencio era completo, as respirações estavam suspensas e os olhos se fitavam todos no trombone. Os dados atravessaram a
garganta do instrumento e cahiram vagarosa e silenciosamente sobre o panno. O banqueiro suspendeu o trombone ; os olhos dos jogadores parecia quererem sahir das orbitas, nem um movimento de palpebras ! Fez-se a luz, foi recolhido o lucro e pago o prejuizo. Quantos gestos differentes ! A physionomia dos favorecidos da fortuna enfeitavam os sorrisos, as expressões do contentamento ; quanta alegria nos olhares ! O contrario de tudo isso nos engeitados da sorte. Sobrolhos carregados, rostos rugados de raiva, decompostos pelo desapontamento ! Quanto despeito nas feições ! Quatro vezes os dados tinham cahido sobre o panno, quando Ignacio se resolveu a fazer uma parada. Quiz deixal-a no grande, depois no pequeno, dez vezes esteve indeciso, até que deixou-a ficar no grande com a do commissario. A entrada de Ignacio e a sua indecisão chamavam a attenção dos parceiros. Alguns mais supersticiosos retiraram as paradas, outros murmuraram entre dentes palavras que não se ouviram. O banqueiro ia levantar o trombone, o interesse de vêr o numero, que marcavam os dados, era d'esta vez maior. O instrumento foi suspenso e nada haviam dito os dados, mais outra vez e ainda nada ! Os palpites appareceram e as superstições tambem. Retiraram-se paradas, augmentaram-se outras, muitas se fizeram de novo e o banqueiro em nove vezes consecutivas não conseguiu uma sorte ! Houve uma pausa, o banqueiro tomou respiração inteira e
! agitou fortemente os dados, e fel-os engulir rapidamente pelo trombone. Este incidente fez apparecer novos palpites e alguns duplicaram as paradas. Os jogadores, mudos, immoveis, abriam apenas mais as palpebras, como se assim augmentasse-lhes a visão. Os dados foram descobertos. Um ruido surdo, como um gemido abafado se ouviu, as physionomias se carregaram de colera, alguns concentraram a furia nos olhares, e assim feriam Ignacio a quem maldiziam em voz baixa : -Maus raios te partam, caipora do inferno. Entre aquelles semblantes feios de colera via-se o rosto alegre do banqueiro, que solicito dividia ao meio as paradas, graças a uma gata que os dados tinham formado. Recolhido o lucro á gaveta, o jogo continuou. Os dados cahiam sobre o panno e os mais queimados com a gata triplicaram as paradas. O trombone levantou-se e maior foi o descontentamento. Cabellos foram arrancados, ouviu-se o ranger de dentes, fizeram-se mil gestos de desesperação e o banqueiro mais alegre ainda recolhia á gaveta metade das paradas, o lucro da regata. Alguns dos parceiros se levantaram despeitados e foram para a fileira dos perús ; outros, que estavam medrosos, tiveram palpites e entraram no jogo. Ia, pensavam estes, virar a sorte. Ignacio da Paixão era um dos enfermos d'aquella molestia contagiosa. Com os nervos excitados por todas aquellas emoções, não se lembrava que estava *
arriscando á sorte o dinheiro alheio. Um copo de cerveja préviamente misturado com cognac o excitaram mais, e então elle, com uma coragem de allucinado, atirou-se ao jogo como um desesperado. As primeiras paradas ganhou o lucro já subia a mais de um conto de reis, mas elle na ambição de todas as notas do banqueiro continuou até de madrugada, quando se acabou o jogo, retirando-se para o hotel com um desfalque no dinheiro de Freitas de mais de dois contos de reis. Chegando ao hotel foi para o quarto e ahi ainda meio aturdido contou as sedulas, que tinha no bolso, e certo do seu crime deitou-se e adormeceu. Dormiu e dormiu até cinco horas da tarde, quando despertou. Os acontecimentos da ultima noite se lhe pintaram na imaginação. Contou outra vez o dinheiro na esperança de que a mente o estivesse illudindo e se convenceu de que era real o desfalque. Era possivel resarcir o prejuizo e o avezado jogador pediu jantar, e depois de satisfeitas as necessidades do estomago foi para o salão do bilhar a esperar a hora do jogo. Sentado a um canto, ouvindo o tic-tac do relogio, o matuto fazia os mais altos castellos . Ganhava n'aquella noite uma dezena de contos e acabava por ser banqueiro em logar do supposto ricaço. Levou assim até nove horas da noite, quando seguiu para a casa de jogo. Já lá o esperavam. Carrilho da Paz estava com o ouvido alerta, es
perando ouvir os passos do matuto. A cerveja estava preparada. Ignacio entrou, deu boa noite e sentou-se isolado. O sujeito vem zangado, disse o commissario ao ouvido de Carrilho. - Tanto melhor, quanto mais queimado mais perderá. Precedido das mesmas ceremonias da ultima noite começou o jogo. Ignacio atirou-se ao primeiro rolar dos dados. Audaz, temerario se mostrava porque estava convencido de que ia recuperar o perdido, ia ganhar muito dinheiro. Os dados pareciam obedecel-o. A sorte procurava-o onde quer que estivesse a sua parada. Em pouco tempo tinha resarcido o prejuizo e ganho alguns centos de mil reis. Não pensou em se retirar, e certo de que a fortuna continuaria aprotegel-o, fez uma grande parada. A sorte virou e o azar que tanto o havia atormentado na vespera, voltou a perseguil-o. A parada desapparece e depois d'esta mais outra e mais outra. Ignacio em crescente excitação deixou-se dominar por aquella indomita paixão e perdeu até o ultimo vintem. Recolhida a derradeira sedula á gaveta do banqueiro, o matuto levantou-se e lançou um olhar feroz e desvairado para todos que o cercavam e sahiu para o hotel.
VII Eram nove horas da noite. Prisco da Trindade e sua mulher deixavam o palacete e iam a carro a um baile dado a uma entidade politica da terra. O commendador ao lado de Faustina em uma postura toda estudada, com o tronco em uma rigorosa vertical, deixava bem á vista a venera, com que o governo o havia distinguido por serviços á humanidade, dizia o decreto. Faustina, não menos futil, ia cheia de si porque trajava um vestido de sêda gris perle, com um panier da ultima moda, e adornada com brilhantes no valor de alguns contos de reis. Chegaram á casa do baile e foram recebidos no tope da escadaria pela commissão receptora com toda a distincção de que era crédora a sua fortuna. As lu-
zes a se reflectirem nos crystaes, que ornavam os salões, tinham um effeito deslumbrante. As salas estavam repletas de convivas. Os trajes luxuosos e as mesas lautas e opiparas faziam um contraste profundo e terrivel com a miseria de milhares de famintos, que, maltrapilhos e a morrer de fome, desabrigados a poucos passos de distancia nas ruas e praças publicas, eram victimas da mais atroz das calamidades. Não era um escarneo á miseria, mas uma indifferença revoltante ! O baile corria animado. O botequim sempre repleto de visitas e o champagne e a cerveja a espumar nas taças. Tudo alli era de uma puerilidade comica. Tudo frivolo desde o dialogo banal dos pares dançantes até ás partidas de voltarete jogadas em uma sala por alguns velhos viciosos. As conversações eram uma photographia viva do meio e das personagens. Criticas grosseiras dos convivas ás toilettes, indagações sobre o cambio do dia, apreciações sobre o preço dos generos do paiz, sobre os depositos de farinha e carne do sul, considerações sobre a alta dos escravos, opiniões sobre soccorros publicos, e compra de viveres na capital, emfim uma palestra indigesta sobre a politica da provincia e que absorvia grande numero de individuos formando grupos aos vãos das portas. Prisco não escapou ao contagio da tagarellice. O seu grupo era o da elite da terra, e nem por isso deixava de ser o mesmo o assumpto da palestra. A eleição para deputados á assembléa geral estava proxima e marcado o dia e hora, muito embora dois ter
ços do eleitorado da provincia estivessem deslocados, tivessem emigrado e carregassem pedras da pedreira do Mucuripe. O commendador pertencia á politica da situação e por sua fortuna tinha voto na escolha dos candidatos á deputação. Um dos deputados em perspectiva cercava Prisco de todas as attenções. O aspirante insinuava-se no animo do commendador e pelo ponto mais vulneravel. Sabia elle que o negreiro sonhava noite e dia com uma honraria, o titulo de barão, e que uma promessa feita a elle com firmeza particularmente, serviria de muito á sua candidatura. O agiota politico tocou no ponto e o commendador tornou-se todo attenção. Contou-lhe que já no fim da sessão soube pelo ministerio do imperio de um desejo seu muito justo e contava, pelo modo com que se exprimia o alto funccionario, ser negocio decidido ; mas, como até áquella data não tivesse sido concedida a graça, elle se compromettia desde já, caso continuasse a merecer a confiança de seus correligionarios, voltando á camara, ser o seu primeiro serviço apresentar o nome do commendador á munificencia do governo imperial. Prisco acreditou-se barão e n'um contentamento infantil prometteu todo o auxilio á candidatura do correligionario e ainda mais algum dinheiro, caso no circulo houvesse alguns eleitores a comprar. Os protestos de gratidão do commendador e as explicações do candidato iriam muito longe se não avisassem que estava servido o chá.
Sentaram-se á mesa e foi servido um optimo chá de garfo, um jantar opiparo. A mesa estava esplendida ; algumas especies de gallinaceos e ruminantes ornavam-na como primores da arte culinaria. De espaço a espaço viam-se estendidas na alva toalha listas em caracteres gothicos e na lingua de Hugo, innovação devida a João das Regras, um typo que se dizia mestre de ceremonias e muito entendido em etiqueta. Um jantar que não tinha uma lista em francez, começando no alto por letras gordas-Menu du dîner- dizia o Regras, não é de gente educada. Á vista d'isso foi elle convidado para dirigir o serviço da mesa. Pedanteou tudo. Não houve gallinha, nem pato, nem perú que não fosse chrismado. Dos convivas uma trigesima parte mal traduzia o francez, e no entanto o Regras annunciava assim : dindon á commendador Prisco, poule á Semião de Arruda, mouton a Henophonte da Silveira, etc., etc. O champagne espumava nas taças desafiando o appetite, que era invejavel. Satisfeitas as necessidades do estomago e em muitos os caprichos da gula, começaram os brindes. Reinou uma epidemia de discursos bajulatorios. Em primeiro logar foi saudado o typo a quem era offerecido o baile. Era elle um individuo muito commum; entretanto, emprestaram-lhe todas as virtudes civicas e christãs . O commendador Prisco foi brindado em segundo logar ; elle era a primeira figura metallica da festa, representava algumas dezenas de apolices da divida
publica. Deram-lhe talento, illustração, virtude, emfim thurificaram-no com todo o incensoda bajulação. O conviva que fazia o elogio biographico do commendador, esgotando o vocabulario bajulatorio, passou a saudar D. Faustina, a quem emprestou todas as virtudes de um coração de anjo. Um grupo de creanças, que tinha acompanhado os paes ao baile, depois de um assalto á mesa dos dôces fazia uma bulha infernal na saleta da orchestra. Apoderou-se dos instrumentos de musica e n'um concerto de notas desafinadas atordoava tudo. Ás tres horas da madrugada fez-se o brinde de honra a S. M. o Imperador, e depois de se dançar mais uma contradança, dissolveu-se a reunião. Prisco e Faustina chegaram ao palacete ás quatro horas da manhã. Tudo era silencio alli. Na senzala dormiam extenuados os escravos, mas extenuados no deboche. Só Filippa velava ; só ella em amargurada vigilia vira anoitecer e veria amanhecer ! Tinha a alma enferma. A nevrose havia-lhe produzido no cerebro grandes desordens. Os centros nervosos mais ou menos affectados determinavam uma verdadeira monomania religiosa. Quando tornou a si do segundo accesso, afastou aterrada da mente a idéa do suicidio e cahiu no mais rigoroso ascetismo. Havia dito no auge da dôr : haverá um Deus dos escravos ?... Existirá alguem sobrenatural, forte e poderoso, mas tambem justo e que ouça os rogos d'esses infelizes? Os brancos têm o seu Deus, que
dizem ser de misericordia, deve ser differente do nosso, se é que existe, porque elles são felizes e nós somos desgraçados. Filippa procurava esquecer aquellas palavras como uma horrida blasphemia. Ascetica, parecia ouvir-lhe segredarem ao ouvido : - Bemaventurados os que soffrem com paciencia, porque d'elles será o reino do céo. A oura epileptica acreditou um aviso do céo. Pensava na outra vida como se a estivesse vendo, tocando-a. Daria tudo para a salvação de sua alma, soffreria os maiores martyrios com a esperança dos gozos ineffaveis da bemaventurança. Rezava noite e dia, e com tanta reverencia prostrada diante do seu crucifixo, como se estivesse perante o proprio Deus. De mãos postas, palpebras cerradas e de joelhos, ficava horas inteiras em extasis, em muda contemplação das maravilhas que via em espirito na côrte celeste. Desejava a morte, não para descançar dos trabalhos da vida, mas para gozar as delicias eternas, para unir-se com seu pae celestial. Em suas orações pedia a Deus a morte da filha, que acreditava um anjo e que iria cantar-gloria-junto ao throno do Omnipotente. Assim era a vida de Filippa depois que foi atacada de epilepsia. Prisco ainda teve tempo de ir á senzala antes de amanhecer o dia. Esteve na estrebaria com a mulata e voltou depois ao leito da esposa. Dormiram até oito horas da manhã, mas um somno agitado por sonhos maus.
Faustina foi a primeira que acordou, e, despertando Prisco, disse-lhe : - Que noite horrivel passei! que pesadelos medonhos tive ! ... - Então estavamos apostados. O champagne e o perú fizeram-me sonhar asneiras de fazer rir. Então tiveste pesadelos ? Quatro pelo menos. -Conta-me algum. Vá o mais engraçado e o que mais amedrontou-me. Sonhava que fazia uma viagem pelo interior da provincia quando fui atacado pelos Calangros, preso e depois vendido como escravo para o Rio de Janeiro. Era então eu bem preto e muito moço. Chegando ao mercado fui vendido a um fazendeiro de S. Paulo, com quem tive de seguir acompanhado de outros companheiros, e, coisa singular, eram elles os mesmos de minha ultima remessa. A fazenda era importante e tinha mais de seiscentos captivos. Um dia depois de minha chegada fui mandado para o serviço ; o sol queimava-me a pelle, a enxada me feria as mãos e o feitor vigiava-me de chicote em punho. Parei de cançado, offegante era a minha respiração e o feitor advertiu-me com uma duzia de chicotadas de que o escravo não tinha o direito de descançar um instante no serviço do senhor. Acordei aterrado, sentia retalhada a carne das costas pelo açoite ! Que coincidencia ! Escravos tambem me atormentaram em sonhos. A escrava Filippa amarroume e afiava um punhal para matar-me. Eu gritava
pedindo soccorro e a meus gritos acudiam escravos bem pretos, desconhecidos, de alvissimos dentes, que vendo-me soffrer riam, gargalhavam e diziam em altas vozes : quem com ferro fere com ferro será ferido. Depois cahiam de chofre no chão, soltavam um grito agudo, desconcertado, e se estorciam em horridas convulsões. Gelada de medo acordei, e felizmente já era dia claro. matar? E sériamente tiveste medo ? E horrivel ! Quando embarcas os escravos ? Estarás persuadida de que a escrava te quer - Não , porém ... Muitos ainda vão ser vaccinados e entre elles a escravinha filha d'ella. E não podes vendel-a aqui mesmo ? Devéras ! ainda estás com medo ? Se receias alguma coisa, hoje mesmo mando botar a escrava no tronco. - E as palavras : quem com ferro fere... ? E feriste alguem ? Não, mas... Breve te verás livre da negra. Faustina retirou-se para a sala de jantar um pouco impressionada com o sonho, e isso contra o seu temperamento.
VIII Ignacio da Paixão chegou ao hotelsemumvintem. Era immensa a vergonha que o esperava. Como salvar-se das tribulações? Pensou em matar-se, esteve ainda com a faca fóra da bainha, não teve coragem de pôr a idéa em pratica. Deitou-se e adormeceu quasi de manhã. Dormiu bem. Quando acordou, estava mais acostumado com o crime. Os acontecimentos da ultima noite vieram-se postar á sua frente, mas elle repelliu-os. Uma idéa o absorvia todo. A paixão pelo jogo era n'elle uma molestia congenita. Não parecia o mesmo homem. A expressão de funda tristeza, que ennoitava-lhe o semblante, havia desapparecido. Apenas uns tons de preoccupação percebiam-se em traços rasos no rosto. Meditava. Esteve algum tempo com o olhar fito no chão, depois ergueu-
se do leito, vestiu-se e sahiu para o quintal do hotel, como para pôr em pratica uma idéa amadurecida. Foi ter com o famulo, que o havia acompanhado á Fortaleza. É elle um homem bom e chama-se Manoel da Paciencia. Tem estatura regular, côr parda, organisação forte e sadia, e menos de trinta annos de idade. É só no mundo e nunca pensou em casar-se. Não conheceu os paes e julga não ter parentes no mundo. O dia de hoje é-lhe indifferente como o de ámanhã. Nunca tivera a mais humilde aspiração em toda a vida e n'isso consiste toda a sua felicidade. Sempre alegre, sempre satisfeito, pouco lhe importa a pequenez do pão e a pobreza do vestuario. Havia muitos annos que era famulo de Ignacio da Paixão, o qual dava-lhe alimentação e roupa, e recebia d'elle o serviço d'um bom escravo. Paciencia teria sido um grande philosopho se fosse outra a sua educação moral. Affeiçoárase a Ignacio e lhe era tão fiel como o mais fiel dos cães . O matuto procurou o famulo e disse-lhe : -Então, Manoel, a secca continúa e tem de acabar tudo isso ? Senhor, sim . Estou vendo que lá em cima acaba-se tudo de fome. Meu amo é quem sabe. Dize a tua opinião. É a de vossemecê . Não achas que devemos nos mudar d'esta ter ra?
Vossemecê é que manda. Estou com vontade de embarcar para um logar onde ha fartura ; não achas bom? - Meu amo indo... E queres ir commigo ? Senhor, sim. Temos de passar boa vida; depois de arrumados lá, voltaremos para levar tua ama. -Está bom assim. -Pois bem, eu hoje vou deixar-te em casa de um amigo meu, o senhor de Filippa e dos outros. Ficarás lá até o dia de embarcarmos. É preciso lá agradares os brancos. A gente da cidade é arisca. Senhor, sim. -Logo que chegares ha de vir um doutor te revistar, porque o velho dono da casa é muito birrento e poderá pensar que estás doente de algum mal ruim, e elle tem muita escravatura. E ficas triste indo ficar lá até o dia do embarque? pto. - - Senhor, não ; meu amo querendo estou prom Então vaes satisfeito ? Senhor, sim. -Pois bem, arruma a tua maca, que virei te chamar quando fôr tempo. Senhor, sim. Ignacio da Paixão voltou ao quarto completamente satisfeito. A mais um crime ia arrastal-o o jogo. Ia vender o seu leal servo para ter mais alguns mil reis para jogar. Sem reflectir na enormidade do attentado
contra a liberdade de Paciencia, dirigiu-se acompanhado do famulo a casa de Prisco. O commendador estava no gabinete . Ignacio da Paixão entrou só. Então ainda por aqui, perguntou o traficante dando ao matuto as pontas dos dedos. Sim, senhor. Não tive tempo de me arrumar e nem achei freteiros para o sertão. Trago um escravo para vender a v. s. É um negro bonito e bom. Só o vendo porque as circumstancias o exigem. É meu fiel desde rapaz. Achei uma partida de farinha em conta e não ha geito senão leval-a para me arremediar. - E onde está a peça ? Ahi na porta. E os papeis ? Ah, senhor, eu quando sahi de minha terra não pensava em vender o meu negro e deixei a matricula. cravo . Já vê que é difficil fazer a transacção. Mas v. s.ª podia dar um geito a isso . Não sei como. Afinal mande entrar o es Antes de tudo quero pedir a v. s.ª um grande favor. O negro é, como disse, o meu fiel, tenho-lhe muita amizade e não queria que soubesse que o tinha vendido . Trouxe-o para aqui dizendo que elle vinha ficar em casa de v. s.ª emquanto eu fazia uma viagem aqui perto. Eu o farei entrar e voltarei mais tarde . }
Póde ir descançado, eu saberei illudil-o. Ignacio da Paixão sahiu e mandou Paciencia entrar para o gabinete de Prisco. O commendador ficou perdido pela peça. A musculatura de acrobata e os dentes perfeitos e sem faltar um só desafiaram a cubiça do negreiro. baixa. Se fosse bem preto ! dizia Prisco em voz Paciencia foi examinado pelo traficante. Com algum constrangimento teve de botar as calças abaixo e sujeitar-se a uma completa vistoria ; o amo havia recommendado e não se oppoz. Prisco, contando com lucro certo, decidiu-se comprar o Paciencia embora faltasse a matricula, falta esta que sanaria com um documento falso. Prescindiu do exame medico ; a saude do matuto era manifesta. O commendador, depois de ter tomado o nome do supposto escravo, fel-o seguir para a senzala acompanhado de um creado. Emquanto esperava a volta de Ignacio, Prisco examinava as matriculas dos escravos que foram de Freitas, e procurava arranjar uma matricula para Manoel da Paciencia. Fez um documento que illudiria á primeira vista, e assignado pelo collector das rendas geraes do municipio onde residia Ignacio da Paixão . Muito depois de meio dia voltou Ignacio; vinha sobresaltado . *
Prisco percebeu a commoção e tomou-a por um sentimento bom. Era preciso fechar o negocio antes de algum arrependimento. vel. O seu negro é sadio, mas falta o indispensa- -Ah, senhor, eu assigno a escriptura e lhe prometto mandar a matricula dentro de um mez. Não duvido, mas demora o embarque. - - Eu darei um abatimento pelo empate. E quanto quer pelo escravo ? Um conto de reis. É muito caro ! A mercadoria está depreciada no sul e tenho aqui um grande deposito. - E quanto v. s.ª dá? Para lhe fallar com franqueza eu preferia não comprar o escravo. Será como v. s.ª quizer. Para servil-o darei seiscentos mil reis e o senhor assignará um documento se responsabilisando pela matricula, a qual me entregará no prazo de trinta dias. a É muito pouco dinheiro ! Lembre-se v. s." que este é o ultimo bem que me resta, é o pão que tenho para a familia n'este tempo de calami- 'dade . O meu offerecimento não priva o capitão de procurar melhor negocio ; o escravo está ahi, querendo póde leval-o a outro comprador. -Já está aqui, não quero retiral-o. Póde v. s.a apromptar os papeis para eu assignar.
Prisco preparou todos os documentos, que Ignacio assignou com mão firme. O commendador contou seiscentos mil reis, que o matuto recebeu, guardou sem escrupulo e com respeitosa venia se despediu de Prisco.
IX Ignacio da Paixão passou o resto da tarde ancioso que chegasse a noite para ir jogar. Nem se lembrava do crime contra a liberdade de Paciencia ! Á noite foi elle quem primeiro se sentou em frente do trombone. O jogo começou e Ignacio atirou-se ao primeiro correr dos dados audaz como um desesperado. A sorte, entretanto, sem olhos que lhe vissem a catadura, pregava-lhe grandes logros. Parecia divertir-se á sua custa. Ignacio parava no pequeno vinha o grande, mudava para este vinha áquelle, e assim, n'uma constante embaçadella, antes de meia noite tinha perdido os seiscentos mil reis que recebera do commendador. Com uma grandeza de animo que surprehendia, pe-
diu ao commissario, seu mais proximo parceiro, um emprestimo de vinte mil reis. O agente do governo serviu-o immediatamente. Ignacio recebeu o dinheiro e parou todo de uma vez. Immovel com os olhos cravados na nota do thesouro, com a respiração quasi suspensa, parecia subordinar a sorte á sua vontade. O olhar terrivel sempre fito no dinheiro que havia parado, collava as sedulas ao panno. Correu o jogo e dez vezes ganhou Ignacio deixando as paradas a dobrar sempre ! Na undecima vez, antes do banqueiro levantar o trombone, Ignacio teve um palpite e retirou todo o dinheiro. Havia adivinhado, descobertos os dados viu-se um numero pequeno e o matuto jogava no grande. Livre do azar, mesmo assim Ignacio não pôde deixar de sentir um calefrio. Era grande o lucro ; deduzida a quantia de Freitas ficavam-lhe alguns contos de reis, uma fortuna sob todos os pontos de vista. Dez vezes quiz levantar-se e sentava-se. Quiz-se retirar e não pôde. Não queria jogar e parava. N'essa allucinação horrivel, completamente dominado pela paixão do jogo, deixou-se arrastar, até que, como servo obediente d'aquelle tyranno, entregou-se a elle com uma passividade de machina. A sorte virou, os dados divertiam-se com o matuto, e tão manifesta era a teimosia da fortuna que os parceiros haviam-na comprehendido e augmentavam os lucros jogando sempre contra Ignacio. Em pouco tempo o matuto viu desapparecer o que havia ganho ; restava-lhe o di
nheiro de Freitas. Fez um esforço para sahir do jogo, mas não teve animo de levantar-se. Abandonar todas as probabilidades de fazer fortuna, deixar a banca com tanto dinheiro, que com certeza mais tarde seria seu arriscando alguns mil reis, não era para aquelle espirito dominado por uma paixão, e uma paixão como o jogo. Arriscou dez mil reis e perdeu-os ; foi salval-os e perdeu mais ! Exasperado com os caprichos da sorte se atirou ao jogo, e antes de uma hora, de decepção em decepção, perdia o ultimo real ! Não parecia muito contrariado ; aperuou a banca até o fim, e foi o ultimo a se retirar. A sua tranquillidade de espirito não durou muito tempo. Elle ainda não tinha pensado na situação em que se achava, nos crimes que havia commettido. Chegando ao hotel se recolheu ao quarto. Pensou no que havia feito e sentiu-se humilhado perante si mesmo. Nem uma esperança de conforto, só o remorso a tortural-o, e a tortural-o noite e dia. A veneranda figura de Freitas e a humilde pessoa de Paciencia, cada qual mais nobre e mais infeliz, estacionariam sempre diante de seus olhos como uma maldição á sua loucura. Ignacio chorou como uma creança. Pensou em sua desgraça e só encontrou dois caminhos a seguir : a emigração ou o suicidio. Matar-se era impossivel n'aquella occasião, tinha as faculdades perfeitas e estas repelliam tal idéa. Convinha-lhe a emigração, embora deixasse o torrão natal, a esposa, os filhos. O espirito ao mesmo tempo que se abatia com uma separação forçada, se alentava com a esperança
de um futuro risonho ; um mundo novo que se abria e onde talvez existisse a felicidade. Decidido a emigrar escreveu a Manoel de Freitas : <<Meu bom amigo.- O vicio me fez desgraçado. Abusei covardemente de vossa confiança arriscando e perdendo no jogo o resto de vossa fortuna. A minha desgraça é enorme. Se tivesse direito de pedir-vos alguma coisa, em nome de Deus vos rogava, vos implorava caridade para minha mulher e filhos, que ficam desamparados e á mercê da fome, da miseria. Emigro para o Amazonas, de onde só voltarei quando podér saldar as minhas dividas.-Seu parente e amigo grato, Ignacio da Paixão ». Fechada a carta o matuto guardou-a no bolso do paletot. Quiz descançar, dormir mesmo, mas qual ! as palpebras tesas, como n'um espasmo, deixavam vêr os olhos sêccos, n'um olhar amortecido e desalentado. Pensava na viagem quando se lhe pinta na imaginação a figura de Paciencia. Ignacio sentiu despedaçar-se-lhe o coração. O que faria para salvar aquelle innocente e bom homem ? N'uma prostração, n'um abatimento doloroso, o matuto cada vez cahia mais, quando se lembrou que muito provavel era que fosse descoberto o seu crime, e então em vez de ter por menagem as florestas virgens do Amazonas teria a cadeia da Fortaleza. Reanimou-se e tratou de procurar um meio de denunciar a traição de que fôra victima seu famulo, mas isso sem comprometter-se. Lembrou-se do jornal do seu partido, do qual era assignante e sabia a ty
pographia. Havia publicadoha muito tempo um annuncio de escravo fugido e com bons resultados. Aceita a idéa, pôl-a em pratica : <<Um amigo da liberdade previne a policia que em casa do commendador Prisco da Trindade existe um homem livre reduzido á escravidão. Chama-se elle Manoel da Paciencia, e foi vendido por um matuto». Ignacio da Paixão fechou o aviso e sobrescriptou ao redactor do referido jornal. Era preciso agora sahir do hotel ás escondidas e com a maca. Sahiu sem ser visto, e, ao dobrar a primeira esquina, encontrouse com o commissario, seu parceiro dejogo, que descia para o porto acompanhando mais de quatrocentos retirantes, que iam embarcar para o Pará em uma barca velha e arruinada, que sahia em lastro para aquelle porto. Vão embarcar? perguntou o matuto ao commissario. -Para o Pará. - Dá-me uma passagem? Com muito gosto. Até já, vou preparar-me e o procuro na praia com pouco mais . E sahiu para a typographia com precipitação. -Não demore muito, gritou o commissario para o matuto . -Depressa me avio. Ignacio deixou na typographia o aviso para ser entregue ao redactor e seguiu para o porto.
O commissario fazia transportar os retirantes para bordo da barca Laura. O transporte era mal feito e vexatorio . A emigração não era voluntaria, mas forçada pelo governo, que trancava os celleiros aos famintos e abria os portos da provincia. lhe: O matuto aproximando-se do commissario disse- - Já que me fez o favor de dar passagem, por bondade encarregue-se de fazer esta carta chegar ao seu destino. E entregou uma carta dirigida a Manoel de Freitas. Pois não, disse o commissario guardando a carta. sorte. Obrigado, tem um creado onde me levar a - Seja feliz . Ignacio da Paixão, embarcando na jangada que transportava os retirantes, olhou com saudades para as brancas praias de sua terra, para o puro azul do firmamento .
X No palacetede Prisco todos passavam regularmente. Havia na senzala mais alguns escravos comprados por preços inferiores aos do mercado do sul. Filippa, completamente ascetica, vivia rezando pelos cantos e cada vez definhava mais. No dia em que o medico vaccinava os seus companheiros de captiveiro, ella, que tambem se achava presente, teve um accesso forte de epilepsia. Era o quarto ataque que tinha depois da invasão do mal. O doutor reconheceu a nevrose e considerou a doente perdida. Prisco tendo conhecimento do facto interrogou a escrava ácerca da molestia, e soube a data e causa do desenvolvimento. O commendador inteirado de
tudo nada disse. Os sonhos de Faustina confirmavam a historia de Filippa. Alguns dias depois da vaccinação dos escravos tinha logar na casa negreira uma festa de familia : os annos de Sinhosinho. O commendador tinha a mania de vêr o seu nome em letra redonda e coberto de elogios. A occasião era opportuna, podia figurar entre os benemeritos libertadores, entre os que libertam escravos, mas escravos validos e sem onus algum, sem gastar vintem. Filippa estava perdida e por isso a libertaria. A mãe liberta, podia vender e embarcar a filha, que era menor de dez annos. O dia escolhido foi o anniversario natalicio de Jacob. Haveria um banquete commemorativo d'aquella data, o qual se terminaria pela liberdade de Filippa. Assim foi ; quando o jantar, á sobremesa, depois de centenas de brindes onde apregoaram-se honras, talento, illustrações, virtudes, etc. etc., e o champagne saboroso e traiçoeiro ia do estomago ao cerebro, levantou-se o commendador e em phrase estropeada declarou livre sem onus algum a sua escrava Filippa. A carta foi entregue á liberta por Jacob ao som de muitas palmas . Depois da explosão de contentamento houve o silencio successor dos grandes acontecimentos. Assim seria tornar o acto mais grandioso.
Os redactores de todos os jornaes da capital achavam-se presentes ; tinham sido convidados de proposito e aproveitavam o silencio para tomar notas. Um dos convivas levantou-se, pediu attenção e, em uma postura toda estudada, fez um discurso em que historiava a vida do commendador, o nascimento de Jacob e a liberdadede Filippa. Fallou e fallou mais de meia hora. Um outro convidado, ainda não satisfeito com a exhibição do companheiro, occupou-se largamente com as virtudes de D. Faustina, e não foi menos prodigo em elogios e bernardices. Ojantar terminou muito depois de oito horas da noite, retirando-se os convivas muito gratos á gentileza de Prisco e de Faustina. O dia seguinte era domingo, e o commendador madrugou ancioso para lêr nos jornaes a noticia de sua festa. Chegaram os periodicos e era esta a local pouco mais ou menos : <<Acção meritoria.-Hontem teve logar no palacete do nosso distincto e respeitavel amigo, o exc.mo snr. commendador Prisco da Trindade, um lauto banquete, ao qual assistiu a elite de nossa sociedade, onde tambem nos achamos, graças á gentileza d'aquelle cavalheiro. O festim foi em homenagem ao natalicio de seu digno e innocente filhinho Jacob. S. exc. com a bondade de coração que o caracterisa e a generosidade que o distingue, para mais solemnisar aquella data, concedeu, animado pelos mais a
puros e elevados sentimentos de humanidade, fosse livre sem onus algum sua escrava Filippa. Este acto é tanto mais para louvar, quanto a liberta tem apeņas dezoito annos de idade ! Com o maior prazer registramos esta obra de benemerencia do nosso illustre amigo ». Prisco leu dez vezes cada periodico. Como lhe era agradavel vêr o nome precedido de uma excellencia ! Passou o dia contentissimo. Á tarde no jantar disse á mulher que Filippa estava liberta e que a despedisse. Faustina logo no outro dia pela manhã mandou vir á sua presença a antiga escrava de Freitas, e disse-lhe : vida . Está fôrra, minha negra, cuide em procurar a A liberta ouviu surprehendida as palavras da mulher de Prisco : não suppoz que a enxotassem tão cedo ! N'aquella casa havia um élo forte que a prendia; era a filha. Obrigada a separar-se de Bernardina e tão cedo ! A idéa d'aquella separação forçada e a certeza de ser preciso mendigar para viver, aterrou-a. Filippa fita Faustina e ia supplicar-lhe quando cae redondamente no chão . Jacob, que perto de sua mãe prestava attenção á liberta, assusta-se, e medroso senta-se no collo de Faustina . A epileptica depois do baque solta um grito medonho e que assombra a creança. Faustina procura acalentar o filho, animal-o, mas
Jacob cada vez mais apavorado com o ataque da liberta, que em convulsões horriveis rolava por toda a sala, empallidece e desmaia. A mulherde Prisco pede soccorro, acodem todos, vem o medico e declara que a creança havia soffrido um ataque incompleto de epilepsia; herdára do trisavó a nevrose, que não tinha-se desenvolvido nas outras gerações que o precederam. Filippa recolheu-se á senzala depois do accesso, onde ficou esquecida dos senhores, que viviam entregues á idéa de procurar restabelecer a saude dofilho. Faustina vivia triste, parecia que lhe repetiam ao ouvido aquellas palavras fataes : rido.- Quem com ferro fere com ferro será fe Manoel da Paciencia foi interrogado por Faustina dias antes do anniversario de Jacob, e tratando-a de ama disse ser livre. Surprehendida com tal declaração communicou-a ao marido. O aviso de Ignacio da Paixão não tinha sido publicado, mas corria na cidade. Só a policia o ignorava. O redactor do jornal a quem elle fôra dirigido, no dia do banquete do commendador, chamou Prisco á parte e mostrou-lhe o autographo. O traficante empallideceu e prometteu que chamaria a policia para tirar isso a limpo . Logo no dia seguinte foi Paciencia interrogado e recolhido á cadeia. Dez vezes fizeram-lhe auto de
perguntas e foram sempre as mesmas as suas respostas. O delegado de policia, certo de que nada colheria que provasse a cumplicidade de Paciencia, mandou espaldeiral-o, mas Manoel, embora barbaramente castigado, disse sempre que estava innocente. Abriram-lhe as portas do carcere, e sem procurar mais pelo amo voltou ao sertão.
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