Universo da obra
Universo da obra
MISERIAS I É Simeão de Arruda, commissario distribuidor de soccorros publicos, uma das personagens mais importantes d'esta historia. Tem trinta annos e estatura regular. O rosto é alvo e descarnado, os olhos azues e vivos, enfeitado por uma barba á ingleza, ruiva como a espessa cabelleira. É diligente, fallador, e tem em grande conta os serviços que prestou e vai prestando na sêcca. Deve o logar de commissario á politica. É partidario exaltado, bom cabo de eleições, reune capangas e não ha quem grite mais nos conflictos eleitoraes. A sua nomeação não foi muito facil. O logar era ambicionado como se fosse um rendoso emprego. As vagas eram preenchidas mais de accordo com os interesses da politica, do que com a conveniencia publica. O presidente da provincia ti- *
nha sempre uma lista de pretendentes a escolher. Falsos patriotas que, apparentando serviços á patria, só visavam o interesse pessoal. Entretanto, o patriotismo e a dedicação á causa publica não se tinham embotado completamente no espirito cearense. Havia ainda muito coração leal e dedicado á patria. A par d'essa degradação moral, no meio do enxame de zangões do erario, dedicados até o sacrificio, encontravam-se alguns cidadãos que, sem a menor retribuição, devotavam-se com toda a abnegação á causa da humanidade. O governo da provincia era cumplice nos estellionatos de alguns de seus agentes, cumplice porque aceitava e não retribuia os serviços de homens onerados de familia e completamente desherdados da fortuna. Simeão de Arruda era casado, tinha mulher e filhos, e a subsistencia da familia, difficil já em outros tempos, tornava-se agora impossivel. Os amigos politicos obtiveram sua nomeação para commissario de um dos abarracamentos de retirantes na capital, emprego este cuja remuneração constava apenas de sessenta mil reis mensaes para o aluguel de uma cavalgadura. Arruda aceitou o emprego disposto a fazer d'elle um meio de vida honesto como qualquer outro ; elle pensava como muita gente pensa, que furtar do governo não é furtar. Havia muita miseria na população adventicia da capital. As mesmas scenas da fome nos ermos cami
nhos do interior tinham logar nas ruas e praças da Fortaleza. Quasi cem mil infelizes e de todas as idades viviam miseravelmente nos abarracamentos do governo, nas praças publicas e nos passeios das casas ! O presidente da provincia havia concorrido propositalmente para essa agglomeração de famintos na capital. Homem de idade avançada, enfezado por padecimentos chronicos e portanto incapaz de aturados trabalhos de espirito, deixou-se levar por informações falsas e, sem medir as consequencias de seus actos em crise tão melindrosa, tomou as desastradas medidas de fechar os celleiros do governo aos famintos do interior e de suspender a construcção de abarracamentos na Fortaleza. Esses dois actos praticados na mesma data revelavam uma enfermidade moral do administrador, tal era o seu antagonismo. Manoel de Freitas chegava na peior quadra. No dia que succedeu ao seu alojamento, logo pela manhã sahiu a conhecer a capital da provincia. Tinha um desejo vehemente de vêl-a, de admiral-a ! A Fortaleza é uma cidade nova, reedificada sobre as ruinas de uma casaria de palhas e de taipas depois da sêcca de 1845 . Situada na costa, muito perto do mar, em um terreno plano, teria todas as vantagens das povoações maritimas se fosse servida por um bom porto. Entretanto, o seu commercio se alarga todos os annos e a área edificada augmenta sempre. Era a primeira vez que Freitas a via. Deixou os taboleiros da Jacarecanga, aquelle areial branco e
esteril, cuja mobilidade tanto difficulta a locomoção, coberto apenas em alguns pontos de uma vegetação rachitica, mas enfolhada, e entrou pela rua do Senador Pompeu, chamada outr'ora rua Amelia. O fazendeiro ficou admirado da regularidade da edificação. Duas filas de casas com a maioria das frentes pintadas de amarello, com saliente cornija branca, parapeito tambem emmoldurado de alvos relevos, e do qual sahiam cabeças de serpentes, de jacarés, de dragões, feitas de zinco e destinadas a esgotar os telhados durante as chuvas, perfilavam-se na extensão de quasi um kilometro guardando de uma para outra a distancia de vinte metros. As fachadas das casas todas obedeciam ao mesmo plano e á mesma symetria monotona. D'ellas se destacavam portas e janellas, aquellas tendo rotulas e estas vidraças na metade superior do vão e rotulas na metade inferior, mas todas pintadas de verde. De muitas portadas os postigos se abriam para fóra, embaraçando estupidamente o transito publico, ou sahindo de encontro inesperadamente á cara do transeunte, impellido pelo morador que abria de subito a portinhola da rotula. A rua calçada de seixos, com o dorso convexo, descia até ás coxias, onde formava uma depressão, subindo depois até encontrar o cordão da calçada. Os passeios das casas, todos da mesma largura, tinham os bordos externos orlados pelos combustores de gaz de illuminação, columnas de ferro pintadas de alcatrão, de vinte em vinte metros de distancia, termi
nadas por uma manga quasi oval, inteiriça, de bom vidro e coberta por um capacete de metal pintado de verde. Essas filas de postes pretos lembravam á noite o desfilar de um prestito funebre. As dez ruas todas do mesmo comprimento e largura, calçadas e cortadas em rectangulos formando quarteirões de cem metros quadrados, eram pelo plano de disposição convenientemente ventiladas e quanto possivel alumiadas pelo sol. Mais de dez praças, grandes, arborisadas de castanheiros e mungubeiras, embellezavam a cidade, concorrendo assim para a salubridade do clima, um dos melhores do imperio. Da linha superior da fachada das casas elevavamse alguns sobrados, quasi todos de um só andar e de recente edificação, pois os antigos proprietarios acreditavam que o terreno da Fortaleza, por sua natureza arenosa, não se prestava a este genero de construcção. Poucos templos e todos construidos ainda no estylo da antiga architectura portugueza, viam-se com seus pares de campanarios terminados em cataventos de ferro, mas immoveis em pleno espaço. Alguns edificios publicos isolados, como a assembléa provincial, o palacio do governo, o seminario episcopal, o thesouro provincial, a bibliotheca publica, a escóla normal, mas todos resentindo-se mais ou menos da falta de esthetica. Entre os edificios, é o da estação central da estrada de ferro de Baturité o que estava mais no caso de satisfazer a todas as exigencias dos preceitos
architectonicos, pois foi construido por profissionaes; este mesmo tem graves defeitos percebiveis logo á primeira vista. Manoel de Freitas percorria a cidade da Fortaleza com a alma vazia de esperanças ! Palpava a grande chaga aberta no coração d'aquelle povo com uma consternação que o desalentava.. Todos felizes em uma vida pacifica cuidavam em crear novos elementos de prosperidade, quando um grito de alarma - Sêcca- echoou das praias da Fortaleza ás covoadas do Araripe ! O periodo da felicidade havia-se esgotado, era chegada a época das angustias, das provações. Já bem alto no horisonte ia o sol, que devia torrar os campos, seccar as fontes, esterilisar a terra e trazer a miseria á tenda do homem. Era a sêcca que chegava. O flagello propagava-se a toda a provincia com a velocidade da luz. Freitas, apavorado com o cortejo da miseria que desfilava pelas ruas da Fortaleza, quasi esmoreceu. Uma multidão de creaturas de todas as idades, de todos os sexos, tropegas, escaveiradas, semi-núas, enchia a cidade a pedir esmolas. O fazendeiro, aterrado e desilludido, voltou ao rancho, e assim descrevia a sua mulher o estado da capital : --Venho horrorisado, Josepha. Vi tanta miseria, que me espantei. Imagina o que de horrivel vi, que pôde me eriçar os cabellos a mim, testemunha ocular das mais pungentes e medonhas scenas ! Cedo
desilludi-me. A Fortaleza, que acreditava um paraizo, onde suppuz o conforto das populações famintas, tem o lugubre aspecto das povoações do interior, regorgita de infelizes, que mendigam cambaleando de fome. Nos passeios das casas, nos adros das igrejas, nas praças publicas dormem ao relento e raro é o dia que d'estes dormitorios não conduzem, ao amanhecer, cadaveres para o cemiterio. Vi mortos no meio da rua um velho e uma mulher, expostos no calçamento como cães ou gatos, apodrecendo no monturo. Tive dó d'elles ! Como estavam magros ! Em suas physionomias, póde-se dizer, se percebiam ainda os fundos traços de uma prolongada angustia. A peste e a fome matam mais de quatrocentos por dia ! O que te affirmo é que durante o tempo em que estive parado em uma esquina, vi passar vinte cadaveres ; e como seguem para a valla ! Faz horror ! Os que têm rêde, vão n'ella, suja, rôta, como se acha ; os que não a tem, são amarrados de pés e mãos em um comprido pau e assim são levados para a sepultura. Os enterramentos desfilam pelas ruas mais publicas da cidade. E as creanças que morrem nos abarracamentos, como são conduzidas ! Pela manhã os encarregados de sepultal-as vão recolhendo-as em um grande sacco ; e ensaccados os cadaveres, é atado aquelle sudario de grossa estopa a um pau e conduzido para a sepultura ! Informei-me de tudo, e nada do que vi e ouvi alentou-me ! Disseram-me que a prostituição lavra desenfreada. São muitos os seductores. Até meninas de dez annos estão perdidas por
esta raça maldita de perversos ! O espirito se abate, agonisa mesmo perante um tão vivo quadro de miserias humanas, ao mesmo tempo o corpo definha mal alimentado á falta de ordem na distribuição dos viveres do governo. Os soccorros são mal distribuidos. Trocam a ração pelo trabalho, mas por um trabalho penoso, superior ás forças dos famintos. Um pobre homem cançado de uma longa viagem, enfraquecido de fome, póde caminhar todos os dias doze kilometros com uma pedra ás costas para receber uma ração de um litro de farinha e quinhentas grammas de carne do sul ?! Se é só, poderá escapar á morte, mas se tem, como na maioria d'elles, oito e mais pessoas de familia, qual o seu fim? a morte, Josepha, e a morte mais horrivel, a causada pela fome. Valha-nos Deus, Manoel, disse Josepha chorando desconsoladamente. -Só temo a peste, Josepha. A febre mata nos abarracamentos de um modo espantoso ! Se eu morrer, o que será de ti e de Carolina ? Aterra-te a minha franqueza ! Era necessario que não ignorasses a nossa situação para ficares tambem de guarda. Sinto-me disposto para a lucta e juro continuar a velar pela tua sorte e de nossos filhos. Por tua parte basta uma promessa, honrar com Carolina os nomes dos Freitas e dos Macieis, sejam quaes forem as condições em que nos atirar o destino. -Deus sobretudo, Manoel. Freitas ouviu a mulher e fitou-a. Ella tinha os
olhos rasos de lagrimas e appellando para a misericordia da Providencia olhava a filha, que, perto de si, cercada dos irmãos, entretinha-lhes a fome contandolhes historias . O fazendeiro ia continuar a conversação, quando notou que um cavalheiro se aproximava do rancho. Era Simeão de Arruda que vinha a galope no seu cavallo negro. Olhou de relance para os habitantes da palhoça, e, impressionado pela formosura de Carolina, parou o cavallo e dirigiu-se a Freitas : - Quando chegou, meu velho ? -Ha pouco tempo. ra? - Quantas pessoas tem de familia ? Mulher e cinco filhos. Seu nome ? Manoel de Freitas . De onde é natural ? Da cidade de .... Qual sua profissão ? - Criador. Não se empregava em outra coisa? Não, senhor. Nem ao menos era subdelegado em sua ter Sou coronel da guarda nacional e presidente da camara no municipio em que residia. -Bem, coronel, vejo que merece os soccorros do estado. Tomarei em toda a consideração a sua pobreza.
-Agradecido. Desejava saber com quem tenho a honra de fallar ? --Com Simeão de Arruda, commissario distribuidor de soccorros publicos. Muito estimei conhecel-o . Obrigado, voltarei ámanhã, adeus. O commissario, dando de redeas, continuou a excursão. Ia perdido pela belleza de Carolina . O nome de Freitas não lhe era estranho, lembrou-se finalmente da carta de Ignacio da Paixão, que elle havia aberto e lido. O coronel, a mulher e filhos teriam passado dias de completo jejum, se uma familia abastada, que residia na visinhança, não se condoesse das creanças e não lhes mandasse algum soccorro . Na manhã seguinte a primeira pessoa que viu Manoel de Freitas foi Simeão de Arruda. O commissario estava apaixonado pela moça, que seduziria, custasse o que custasse. Comtudo não achava muito facil a realisação de seus desejos- o seu primeiro passo seria no sentido de conquistar o coração de Carolina depois de grangear a sympathia e gratidão dos paes com repetidos favores. Assim procedendo pensava elle ser facto consummado a seducção da moça. Se esses meios falhassem lançaria mão de uma arma poderosa e terrivel a miseria. Havia rendel-os pelo ouro ou pela fome. Todos estes pensamentos occorreram-lhe durante a noite no leito, ao lado da esposa. Simeão chegando á palhoça comprimentou a todos
de um modo affavel e delicado. Se dirigindo a Freitas disse-lhe : Como lhe prometti, coronel, trato de prestarlhe os meus serviços. De hoje em diante receberá viveres para subsistir com sua familia, até que possa The obter um emprego digno de sua posição. - Eternamente obrigado, snr. commissario. Se fosse possivel trabalhar logo para ganhar o pão, serme-ia mais agradavel. -Veremos isso com mais demora. Em primeiro logar vou procurar abrigal-os melhor. Josepha ouvia cheia de contentamento as promessas de Simeão. Para ella não havia que aquelle homem era um enviado do céo, o anjo da guarda que vinha defendel-os de todos os perigos. Agradecida disse-lhe : -Permitta-me v. s.ª que em nome de meusfilhos eu agradeça os seus favores e attenções. O commissario, em comicapostura e revestindo-se de uma gravidade que não lhe era propria, respondeu: Grato ás expressões delicadas com que v. exc.a acaba de me honrar, é de minha obrigação dizer-lhe que nada tem a agradecer-me. Cumpro o meu dever prestando serviços á humanidade sem outra remuneração a não ser a consciencia de um acto bom. A mulher de Freitas estava admirada de tanta virtude. Cada vez mais se convencia de que o commissario era um enviado de Deus. Arruda não querendo prolongar mais aquella
scena, temendo comprometter-se, se retirou depois de apertar com effusão a mão de Freitas e dizer-lhe : -Permitta-me que me retire, coronel ; é preciso não perder tempo, a peste e a fome não tem coração e não se conta o numero de suas victimas. É preciso procurar os que soffrem e enxugar-lhes as lagrimas. Hoje mesmo lhe serão entregues viveres para oito dias. Pouco tempo depois da retirada do commissario chegava á palhoça um empregado de Arruda acompanhado de dois retirantes carregados de generos alimenticios. Traziam tudo que era necessario á vida. Josepha recebeu o presente e de joelhos bemdizia a mão protectora que Deus havia enviado para levantal-os . Freitas, disposto a dar segundo passeio á Fortaleza, disse a sua mulher : Vou á cidade fallar com o commendador para elle me obter um emprego. - E o conheces ? Pessoalmente, não. É chefe de minha politica, deve attender-me e conhecer-me. -Não é melhor esperar pelo emprego de nosso protector ? Gosto de andar a duas amarras . E sahiu.
II Manoel de Freitas bateu á porta de um dos bons predios da Fortaleza, a casa do commendador * * *. Appareceu-lhe um creado, que depois de olhal-o com indifferença, voltou-lhe as costas sem dar palavra. Freitas comprehendeu o silencio do servo ; não merecia ser annunciado. Sentia o terribilissimo jugo da dependencia, era humilhado pela primeira vez na vida. Quiz voltar e esconder-se em sua palhoça a tragar as amarguras do infortunio, mas isso era uma covardia, era entregar-se á indolencia, ao aviltamento da esmola. O coronel se annunciou outra vez, e apparecendolhe o mesmo creado disse-lhe com insolencia : Não me incommode com suas palmas. snr . commendador não falla a retirantes.
Freitas sentiu-se cada vez mais ferido em seu amor proprio. Ia retirar-se quando abriu-se a porta da escadaria e appareceu-lhe o commendador. -Tenho a honra de conhecer pessoalmente v. exc.ª, disse Freitas. O commendador deu-lhe friamente as pontas dos dedos e perguntou-lhe : O senhor quem é ? Manoel de Freitas, da cidade de .... -Sim, senhor, estimo conhecel-o e sinto não poder prestar-lhe attenção por causa de muitos afazeres que tenho hoje. E continuou a descer a escada. Obrigado. Não perdi de todo o meu tempo, fiquei-o conhecendo. O commendador parou immediatamente. As palavras do coronel o abalaram. Elle era atrevido, mas covarde ; tinha o defeito dos cães que ladram muito, mas só mordem a furto . -O coronel queira desculpar-me, só agora é que pude recordar-me de v. s.ª Talvez pretenda um emprego, não é assim ? Queria conhecel-o, estou satisfeito . -Não , senhor, é preciso v. s.ª não se zangar com os seus amigos. Estou afastado de palacio e da politica. Se fosse em outros tempos o coronel podia contar com um dos melhores empregos d'aqui, mas estamos debaixo, não se póde fazer nada. - Supponho que não pedi a v. exc.ª emprego e nem favor algum.
-Não ha duvida, mas se houver mudança de presidente, póde ser que tudo se arranje. Ninguem merece mais que v. s. O nosso partido muito lhe deve. Ninguem foi mais leal e obteve mais triumphos. Deixe estar que algum dia os seus serviços serão recompensados. - Quando dediquei-me á causa d'um partido não foi visando interesses e recompensas. Passe bem, snr. commendador. E Freitas desceu a escada. Chegando á rua voltou ao rancho. Simeão de Arruda vira o coronel entrar em casa do commendador e foi á palhoça para conversar mais á vontade. Venho saber, minha senhora, se meu creado entregou hontem os generos que prometti, perguntou o commissario a D. Josepha. -Entregou e estamos muito agradecidos á bondade de v. S.a -Onde está o coronel? -Foi á cidade. Parece-me que v. exc.ª tem a ventura de possuir um bom marido. Graças a Deus. Sua filha não tem gostado d'aqui ?... Está sempre triste... -É genio d'ella. Carolina nunca está alegre. -Talvez alguma saudade a faça scismar! Não é assim, D. Carolina ? -Póde ser.
Amoça antipathisou com o commissario desde a primeira vez que o viu, e agora sua conversação, toda futil, toda banal, concorreu para que aquelle sentimento mais se accentuasse. Arruda estava em uma situação difficil. Acontecia a elle o que se dá todos os dias nos grandes salões, ensossos dialogos de creaturas de sexos differentes e que se encontram pela primeira vez . - Saudades do logar em que nasceu e passou a infancia ? perguntou Simeão. -É bem provavel, respondeu Carolina. -Das amigas que deixou, snr. commissario, disse Josepha. Aqui muito breve terá outras. Ainda vou distribuir soccorros a mais de quinhentas familias. Ámanhã trarei um livro para distrahil-a, D. Carolina. - Queira não se incommodar. -Não me incommoda, dá-me prazer. E Arruda despedindo-se, sahiu para o abarracamento. Ia desapontado ; parecia-lhe haver estreado mal. As reservas de Carolina, suas palavras ditas em um tom todo especial e de quem está aborrecida, haviam-lhe incitado o despeito e agora mais do que nunca jurava de prostituil-a. Mal o commissario perdia de vista a palhoça, a ella chegava Freitas triste e desalentado. Voltára sem uma esperança ! Josepha contou-lhe a visita de Simeão e mais promessas. O coronel ouviu tudo de sobrolho carregado e disse :
-É generosidade de mais ! No tempo que eu era credulo, podia deixar de vêr, n'esses repetidos favores, a manha, a astucia, mas hoje, não. Quererás desconfiar da bondade do nosso protector, Manoel ?! -Não tenho ainda razões para isso. Estarei de guarda, sempre alerta, pois é enorme a raça de hypocritas. Galvanisa-se a physionomia com a mesma facilidade com que os ourives galvanisam os metaes. Não existe hoje amizade que mereça um sacrificio ! Fui pedir a protecção do commendador, o mesmo que hontem abria-me as portas de seu palacio e punha os seus serviços á minha disposição. -E como te recebeu elle? perguntou Josepha. Como se recebe um mendigo. Até os seus creados zombaram de mim ! ... -Devemos fugir dos maus e confiar nos bons, Manoel. muito . - E como distinguil-os? As apparencias illudem A virtude é conhecida. - Não julgues o bom por boт е пет о таи por mau; é esta uma das sentenças mais sabias que conheço. -É preciso mais calma, mais prudencia, Manoel. Cancei, Josepha. Não avalias o que tenho soffrido ! Não sabes mesmo as scenas horrorosas de que fui testemunha nos caminhos do sertão ! Tudo eu calava, concentrava tudo por amor de teu socego , do feliz exito de nossa peregrinação ! Chegamos com *
vida ao porto, não do destino, porque na lucta em que estamos envolvidos não ha previsão de sorte, mas ao centro das operações, onde o soldado ou segue para a valla ou deserta de mar fóra procurando melhor patria. -As tuas palavras me mortificam, Manoel ! -De hoje em diante te communicarei a nossa posição, nada quero que ignores. -Deus seja em nosso favor. Custa-me essa franqueza rude, mas ella é necessaria. Suppõe que eu falte ámanhã e te deixe ignorante do meio em que estás vivendo : com certeza serás uma victima, que fez o destino e a minha imbecilidade. Quero, se cahires no abysmo, tenhas consciencia d'elle e das consequencias da queda. -Deus sobretudo, Manoel.
III Era conservador o ministerio que dirigia os destinos do paiz e tinha como seu delegado no Ceará o conselheiro Aguiar. Quando se declarou a secca, administrava a provincia o desembargador Estellita, homem de inexcedivel bondade e dotado de um grande coração. Para gerir os negocios publicos em tempos normaes tinha elle as necessarias aptidões, e seu governo seria como o dos seus antecessores, se calamidade imprevista não viesse alterar profundamente a ordem publica. Viu-se cercado das maiores difficuldades, e fallecendo-lhe os meios de acção e a energia de um espirito forte e alevantado, deixou-se levar pelo coração e sómente cuidou de matar a fome dos desvalidos que inanidos cahiam aos milheiros na capital e nos ser-
tões da provincia. Observando a Constituição do Imperio abriu creditos sob a verba- Soccorros publicos -e, sem tempo para estudar um plano de distribuição de soccorro, mandou dar esmolas em viveres e em dinheiro. Esta medida, cujos inconvenientes a pratica mostrou depois, não foi combatida, a geração actual desconhecia o flagello e os meios de attenuarlhe os effeitos. O mal crescia de dia em dia, despovoavam-se os sertões, muito embora a emigração para a capital e povoações maritimas fosse de algum modo retardada pelos soccorros publicos enviados para todos os pontos do interior da provincia. O governo geral recebeu mal as providencias tomadas pelo seu delegado. Trabalhava o parlamento, e os representantes do Ceará, alguns se conservavam no silencio da espectativa, mas outros accusavam de precipitadas as medidas do desembargador Estellita, pois acreditavam que era cedo para temer-se uma sêcca e muito mais ainda para se morrer de fome ! Estas e outras asserções de alguns deputados cearenses preveniram o ministerio, que de algum modo negando apoio a seu delegado, levaram-no a dar a sua demissão . A população adventicia da Fortaleza era de quarenta e tres mil almas quando tomou conta da administração da provincia o conselheiro Aguiar. A idade avançada do novo presidente e seus padecimentos physicos traziam-lhe serios embaraços á gestão dos negocios publicos.
Não foram, entretanto, estes os mais serios tropeços a uma administração benefica. O conselheiro Aguiar vinha com o espirito muito prevenido contra os abusos que, diziam fóra da provincia, commettiamse na distribuição dos soccorros publicos. Em sua estreia falleceu-lhe o tino administrativo e não cuidou de palpar com suas proprias mãos a chaga aberta na grande população faminta, e cauterisal-a com resolução e energia. Isolou-se em seu palacio e assim pretendeu vêr pelos olhos de seus informantes, muitos d'elles apaixonados e embusteiros, a miseria que devastava infrene as populações emigradas dos sertões. O serviço da distribuição de soccorros era mal feito, a esmola dava-se em viveres e em dinheiro por meio de ordens assignadas pelo commissario. Era este o systema cartão e que tão grandes prejuizos deu ao estado e ao faminto. As ordens eram impressas em cartões da côr que mais agradava ao agente do governo e por elles assignadas. Alguns commissarios, entretanto, não se davam ao trabalho de escrever o seu nome n'aquelles documentos e timbravam-os a sinete. Os retirantes eram soccorridos a cartão e os que estavam nús foram vestidos pelo mesmo systema. As ordens, tanto de dinheiro, como de fazendas e roupa feita, eram pagas pelos thesoureiros pagadores, negociantes da capital, titulados e nomeados pelo presidente da provincia, aos quaes mandava este entregar semanalmente pela thesouraria de fazenda a quantia necessaria á distribuição. Os viveres entregavam-se em outra repartição ; o gover-
no tinha armazens a cargo de agentes dos soccorros publicos. O conselheiro Aguiar tinha muita coisa que corrigir, que alterar no plano traçado pelo desembargador Estellita. Adoptaria um novo systema de distribuição, fazendo os negocios publicos seguirem outro caminho . O soccorro em dinheiro seria condemnado, pois além do agio dos especuladores, que compravam ao retirante o saque com 50 % e mais de abatimento, abria ao commissario um vasto campo ao abuso. Era de esperar da administração uma reforma salutar, quando cinco dias depois de sua posse o presidente da provincia baixava uma portaria suspendendo a remessa de soccorros publicos para o interior e a construcção de abarracamentos na Fortaleza. Esta medida desesperada aterrou a população da capital ; estavam previstas as consequencias. Além d'estas providencias outras mais foram tomadas e todas com um unico fim : acabar com o soccorropara prevenir o furto. A esmola só era permittida em certos e determinados casos, e os retirantes, para terem direito á assistencia publica, deviam ir á pedreira do Mucuripe duas vezes por semana, recebendo de cada viagem quinhentas grammas de carne do sul e um litro de farinha, e entregando uma pedra para os calçamentos em construcção. Essas restricções de soccorros publicos serviram unicamente para deslocar a população ainda domiciliada no interior da provincia, chamal-a á Fortaleza e ser ahi dizimada desapiedadamente pela peste
e pela fome. O conselheiro Aguiar pretendeu acabar com os estellionatos restringindo os soccorros, mas só conseguiu chamar á capital uma população adventicia de mais de cem mil almas e augmentar consideravelmente o obituario. Os erros de seu antecessor não procurou corrigir e deixou continuasse a época dos cartões. Simeão de Arruda mandou imprimir as ordens que tinha de distribuir, em papel furta-côr e não se dava ao trabalho de assignal-as, timbrava com o seu sinete. Na manhã que succedeu ao dia da ultima visita á palhoça de Freitas, o commissario, montado em seu cavallo negro, seguiu em direcção ao rancho do coronel. Ia levar um romance a Carolina, e soccorros em dinheiro e fazendas a Freitas. A familia tinha-se levantado havia pouco tempo, e sentados e ainda somnolentos estavam em silencio. Arruda apeiou-se no terreiro da palhoça e entrou pedindo licença : -Bom dia, coronel, D. Josepha, D. Carolina. Todos se levantaram e saudaram com respeito o commissario. - - Como vai o coronel? perguntou Simeão. Assim, assim... Vim trazer-lhe dois cartões, um para receber fazendas para se vestir com a familia, e outro para tirar semanalmente tres mil reis. tas. É muita bondade, snr. Arruda, disse Frei-
- -Nada tem que agradecer-me, tudo deve ao seu merecimento e ao patriotismo do nosso governo. -E não é preciso trabalhar para ter direito aos soccorros publicos ? -É, porém o coronel não se ha de sujeitar á degradante condição de carregador de pedras. O unico interesse que temos n'estas commissões é proteger nossos amigos. a -Não desejo que v. s.ª por minha causa deixe de cumprir os seus deveres. Se o governo ordena que o retirante carregue pedras para ter direito á ração, eu irei á pedreira. A responsabilidade é minha, e d'isso não póde vir ao coronel mal algum. - Sou muito amigo da ordem e respeitador do principio de authoridade. mens . O coronel não conhece a capital e os seus ho Mais talvez do que v. s.ª suppõe. Vou ao abarracamento . O commissario despediu-se e caminhou até junto de seu cavallo, de onde voltou ao rancho : -Ia esquecendo o romance que prometti a D. Carolina. - Certamente traz a Mulher Forte para minha filha lêr, disse Freitas . O commissario perturbou-se um pouco e aproximando-se da moça disse entregando-lhe o livro : Ha de gostar d'esse romance, D. Carolina.
- Permitta que peça o favor de dal-o a meu pae ; nada leio sem que elle authorise. O commissario perturbou-se mais ainda com a recusa . Quasi automaticamente depositou o livro nas mãos de Freitas e sahiu com pressa. <<Ao portador dê-se : quarenta metros de chita, duas peças de madapolão, duas calças de brim, quatro camisas para homem e uma peça de cambraia », lia Freitas em um dos cartões furta-côr que recebera de Arruda. -Uma peça de cambraia !! Será possivel que o governo consinta em semelhante abuso ?! Esta ordem deve-se inutilisar, exclamou Freitas indignado. -Não, Manoel, recebe as outras fazendas e deixa a cambraia ; ou então pede ao snr. Arruda para reformar o cartão . Aceito teu parecer. Pedirei ao commissario para passar outro cartão, será uma advertencia.
i IV Simeão de Arruda pensava que o coronel ficaria muito satisfeito com a cambraia offerecida a Carolina. Elle contava triumphar, vencer todos os obstaculos que difficultassem a prostituição da filha de Freitas. Entretanto precisava de um auxiliar e lembrou-se de uma feiticeira sua conhecida. Era a Quiteria do Cabo, e chamavam-na assim por ter sido muitos annos vivandeira em companhia de um cabo do exercito. O povo a appellidava de feiticeira, porque ella se mettia a adivinha, a tirar feitiço, benzer erisipelas, curar osso rendido, coser carnes quebradas, sarar feridas de garganta, levantar espinhelas cahidas e outras bruxarias. Era grande sua clinica; os seus freguezes consideravam-na optima curandeira e temiam seus maleficios. Os visinhos respeitavam-na, temendo cahir em
seu desagrado. Em segredo diziam que Quiteria tinha pacto com o diabo, com quem conversava todos os annos na vespera de S. João em uma encruzilhada á hora da meia noite. A physionomia da feiticeira e seus habitos levavam a crêr que em sua vida havia mysterio. Vivia só. Dizia-se viuva e por isso trajava sempre um vestido preto. Era branca, rosto pallido e bastante sulcado pelas rugas da velhice, rugas mais fundas e em maior numero do que exigiam os seus cincoenta annos. Um nariz enorme e curvo como o bico das aves de rapina, levantava-se como uma parede em meio de dois olhos pequenos, vivos e verdes, com rarissimas pestanas, e arqueadas sobre elles grossas sobrancelhas grisalhas. A testa enorme e arrampada para a nuca fazia um contraste com o queixo ponteagudo, que a falta absoluta de dentes deixava unir os maxillares e beijava a ponta do nariz. As orelhas enormes parece que cresciam havia meio seculo ; eram tão finas, que quasi a luz as atravessava, e estavam presas ao rosto como as aldrabas a um bahú. Balançavam ao menor movimento do corpo e quasi tocavam as claviculas . Quiteria era assim physicamente e no moral um aleijão tambem. De uma avareza extrema, commetteria todos os crimes, assim lhe dessem dinheiro. Era devota e dizia-se temente a Deus. Ouvia missa diariamente, mas quando voltava da igreja escondia-se atraz da veneziana da rotula a observar o dia inteiro o que se passa-
va na visinhança. Confessava-se todas as semanas, jejuava nas quartas e sextas-feiras, e á noite não se deitava sem rezar um rosario de quinze mysterios. Cingia-lhe a cinta um grosso cordão de S. Francisco e pendiam-lhe do pescoço bentos, medalhas, terços, orações milagrosas e alguns patuás cosidos em panno preto. Temia o inferno e nunca chamou pelo diabo em presença de pessoa alguma. A sala de visita como a alcova eram decoradas com ratratos de santos e santas em caixilho de madeira envernizada. Simeão de Arruda lembrou-se de uma excellente auxiliar. Os serviços de Quiteria seriam pagos pela verba Soccorros publicos. Era necessario cuidar logo na construcção de uma casa para Freitas, e seria construida nas immediações da habitação da feiticeira. O commissario acreditava que o bom exito de sua empreza dependia de Carolina visinhar com Quiteria. Assim obteve um terreno perto da casa da feiticeira e deu começo á edificação. Todos os materiaes seriam das olarias do governo e de seus depositos ; os operarios seriam pagos com viveres do estado . Havia sido suspensa a construcção dos abarracamentos e Simeão levantava com soccorros publicos uma casa, que figuraria entre os seus immoveis. O serviço marchava accelerado, graças ao salario dobrado que os operarios recebiam. A feiticeira curiosa observava aquella construcção e estava vexada por saber alguma coisa a respeito . Pensou que seria algum abarracamento por ser o serviço feito pelos retirantes. Sob seu postigo parafu-
sava sobre a nova casa, quando viu que se aproximava o commissario. Simeão percebeu por detraz da veneziana os olhos verdes de Quiteria. Não perdeu occasião de entabolar o seu negocio, e dirigiu-se a ella : Muito boa tarde, minha senhora. Nosso Senhor lhe dê as mesmas, meu capitão ; v. s.ª por aqui?! -E de agora em diante terá de me vêr muitas vezes em sua rua. Estou construindo alli uma casinha para uma familia retirante. Pobre gente, está arranchada n'uma ruim palhoça. Crédo ! que vêm fazer esses cafútes no meio da gente limpa ? -Não, senhora, é uma familia importante que tem educação e foi rica. Logo vi, e se assim não fosse, que ficassem á sombra dos cajueiros. -Se a senhora visse o seu estado, faria o mesmo que estou fazendo. Desde já os recommendo á sua amizade e protecção. Quiteria comprehendeu o pensamento do commissario e tratou de exploral-o. -Quem sou eu, meu capitão, pobre velha que passa, sabe Deus como ! Antigamente ainda ganhava algum vintem com as minhas mezinhas, acabou-se isso com a miseria do povo. - E não recebe soccorro de alguma commissão ? Isso não chega para mim, velha e feia... - Estou surprehendido ! É uma injustiça, uma crueldade se deixar passar privações uma viuva ho-
va a50 nesta e que honrou sempre o nome de um soldado distincto do exercito brazileiro. Duas grossas lagrimas cahiram nas faces de Quiteria.-Diz a verdade. Só sabe de meu merecimento quem me conhece. -Descance, D. Quiteria, não se mortifique por isso, eu tomarei em toda a consideração as suas necessidades. Ámanhã lhe mandarei algum soccorro e continuarei a remir as suas precisões emquanto o governo distinguir-me com sua confiança. -É Deus, que ainda existem almas caridosas ! Hei de recommendal-o, meu capitão, em minhas orações. Todas as noites não o deixarei sem uma SalvèRainha a Santa Rita dos Impossiveis. -Rogue a Deus para pôr termo a esse horrivel flagello. É o favor maior que me poderá fazer. A tarefa está sendo superior ás minhas forças. Custa-me muito sacrificio a contemplação das scenas da miseria ! -Deus lhe dará forças, meu capitão. Ah! se meus rogos servissem ! ... Quem póde com a colera do céo quando quer castigar os nossos peccados ?! Frei Vidal dizia em suas santas missões que viria tempo que ninguem saberia o logar onde existiu a cidadedo Forte. Eu ouviisso de sua sacratissima boca. ---Amanhã lhe mandarei alguma coisa. Adeus. -Acompanhado seja dos anjos, meu capitão. O commissario sahiu satisfeito e Quiteria o acompanhava com um olhar de triumpho e um riso de ironia. Perspicaz, comprehendeu que Simeão precisa17
va de seu auxilio para algumas de suas conquistas amorosas. Ajudal-o-ia conforme o preço de seus serviços. •No dia seguinte o primeiro trabalho de Arruda foi mandar encher a despensa de Quiteria de generos alimenticios . A feiticeira recebeu contentissima o presente ; nunca viu tanta abundancia. Arruda não poupava esforços para a conclusão da obra. Sabia que Carolina só podia ser sua, visinhando com Quiteria. Elle promettia gratificações aos operarios, visitava a casa em construcção tres vezes diariamente, emfim dia e noite não pensava em outra coisa.
V Simeão de Arruda dirigiu-se á palhoça onde havia dois dias não apparecia, e lá encontrou Edmundo da Silveira, que, chegando do interior da provincia, visitava a familia Freitas. O commissario não gostou da visita. Edmundo tinha vinte e cinco annos, era intelligente e dotado de bom caracter. Não foram estes dotes que desagradaram a Arruda, mas a regularidade de suas feições. Seus olhos, barba e cabellos, de um negro côr de jucá, assentavam admiravelmente sobre seu rosto de um moreno de jambo. Sua fronte espaçosa e varonil limitava-se por uma cabeça achatada, perfeitamente cearense. Edmundo ficára orphão muito creança e muito pobre. Um seu tio padre encarregou-se de sua educação e mandou-o para o seminario da Fortaleza. *
Silveira aproveitou bem o tempo e a intelligencia. Em tres annos havia concluido os preparatorios exigidos para matricula nas faculdades do imperio. Estava preparado para entrar em qualquer curso superior. Queria ser bacharel em sciencias juridicas e sociaes ; padre nunca. Resolvido a cursar a faculdade de direito do Recife dirigiu-se ao tio communicando-lhe sua resolução e pedindo-lhe authorisação e meios para leval-a a effeito. O velho padre pensava de modo diverso, não admittia vocações. Para elle tanto fazia ser clerigo como soldado, alfaiate como medico, a questão capital era ganhar dinheiro. Procurava o caminho mais curto e a inclinação para elle era letra morta no curso da vida. Quando mandou o sobrinho para o seminario foi para fazel-o padre ; nada havia demais n'isso. Se odiasse o celibato, podia formar sua familia, como elle havia feito depois de vigario. A carta de Edmundo contrariou o tio, que respondeu-lhe reprovando formalmente sua resolução e declarando-lhe não concorreria com um real para estudos feitos fóra dos seminarios. Edmundo recebeu o desengano, voltou para o sertão e fez-se rabula. Vegetou no interior alguns annos até que a secca fel-o emigrar para a capital. Chegando á Fortaleza, casualmente se encontrou com Freitas e com elle foi a palhoça. Conversavam sobre o estado do sertão quando chegou o commissario, que comprimentou a todos com muita amabilidade e se dirigiu a Freitas.
- Os meus afazeres não me têm deixado apparecer. Augmentam todos os dias os meus trabalhos ! Conhecemos suas occupações, snr. Arruda. Este moço é certamente algum parente do coronel? - Não, senhor, é meu amigo e moravamos na mesma cidade. -E hoje estou aqui como retirante, disse Silveira. -Mas não carrega pedras?... Ainda não estou resolvido a isso. - Não tem emprego ainda ? -Nem promessas. É solteiro ? Até hoje. - Será mais facil qualquer arranjo. Simeão olhava para Edmundo com maus olhos : via n'elle um rival. O snr. Arruda póde ter a bondade de reformar o cartão que offereceu-me ? perguntou Freitas. -Algum erro, coronel ? - Um engano. E entregou o furta-côr ao commissario. -Não encontro engano algum ! É sobre a peça de cambraia minha duvida, snr. Arruda. -Oh ! coronel, o senhor é muito susceptivel ! quiz provar-lhes minha amizade offerecendo uma fazenda melhor a sua digna filha. Muito nos penhoram suas finezas, mas póde
vir d'isso alguma censura e não quero que v. s.* soffra por nós o menor dissabor. -Não, senhor. Tomo a responsabilidade de meus actos e não admitto que um thesoureiro pagador faça a menor objecção ao cumprimento de uma ordem minha. Tenho dado cambraia a centenas de emigrantes sem que fosse por isso censurado. Estou certo d'isso, mas ha de me fazer o favor de excluir a cambraia. Não consinto que minha filha, que já vestiu sêda, traje um vestido fino quando seu pae para comer recebe esmolas. O coronel quer, o que se ha de fazer ?... E o commissario tirando o lapis da carteira inutilisou a ordem da cambraia. Então tem gostado do livro, D. Carolina? perguntou Arruda. - Ainda não o li. A proposito do livro, snr. commissario, supponho que enganou-se, porque o romance que deixou é tão livre, que nem eu quiz lêl-o, disse Freitas. -Será possivel, coronel?! Dar-se-ia o caso de ter-me enganado ?! Eil-o, basta o titulo e o auctor, disse Freitas entregando o livro a Arruda. - Perdão, coronel, este livro nem me pertence . É de um amigo que, sem duvida, deixou-o sobre minha secretária. A encadernação do que pretendia trazer é semelhante, e d'ahi o engano. -Está desculpado.
-Agora me permitta que louve o seu modo de educar. E visivelmente perturbado, o commissario se despediu e sahiu da palhoça. Edmundo estava curioso por saber o titulo do livro e, logo que Arruda retirou-se, perguntou a Freitas : - Qual era o livro ? -Um romance da época. - Um realista por certo, uma photographia de costumes e actos reprovados. A historia de um homem vicioso ou de uma mulher depravada. Estudos physiologicos que devem ser lidos por espiritos cultos e amadurecidos. Esses commissarios são audazes ! ... -Não julgue assim, snr. Edmundo, póde ter-se dado engano, ponderou Josepha. -Quanto mais velha ficas, mais crédula, disse Freitas. Está ficando tarde e é preciso que tome a casa. Edmundo affectuosamente se despediu de seus conterraneos, acariciou os meninos e sahiu. Ia pensando em Carolina, a quem amava desde muito tempo. O seu amor, que não tinha sido até então comprehendido pela moça, era mal visto de Josepha, que o havia adivinhado. A pobreza de Silveira era o unico tropeço, o unico obstaculo áquella união. Agora a scena mudava-se. A secca com um tremendo golpe destruiu as fortunas e aniquilou os preconceitos, e, desapparecidas que foram as posições, se nivelaram todos.
: Carolina até o momento da visita de Edmundo não o tinha amado um instante. Vivia enamorada de seus folguedos de creança. Nada entendia dos olhares apaixonados de Silveira e não comprehendia suas palavras amorosas. As saudades do sertão, as contrariedades do infortunio fizeram-na acordar do somno de adolescente, para se impressionar com as realidades da vida . Edmundo encontrou-a saudosa ainda dos brincos infantis, deixando a imaginação entregar-se ao gozo das recordações do passado, mas pensando tambem no futuro, do qual nunca se havia lembrado. A visita de Silveira impressionou-a e, por um d'esses caprichos tão communs ao coração humano, antes de Edmundo retirar-se, Carolina já o amava ardentemente . Ella não sabia o que se passava em si. Acordára em um mundo novo, os sonhos eram differentes, seguia outra miragem. Era-lhe impossivel brincar como outr'ora . Depois que Edmundo sahiu, Carolina afastou-se dos paes para chorar á vontade. As lagrimas cahiam The nas faces e ella não sabia por que chorava ! O amor que nascia, recebia o baptismo do pranto. Silveira voltava á casa com a alma repleta de aspirações . As retinas haviam decomposto os raios dos olhares de Carolina, como o prisma o raio de luz solar, e encontrado a côr da esperança. Os espiritos se fallaram, embora os labios se conservassem mudos !
Emquanto Edmundo e Carolina idealisavam um mundo de gozos, uma vida de flores, um ninho feito de felicidades para n'elles desfructarem o amor, Simeão de Arruda, contrariado, ralado de ciumes, jurava vingar-se de Silveira. O seu exaggerado amor proprio não admittia que Carolina preferisse uma affeição que a levaria ao altar nupcial aos galanteios do seductor, a um amor reprovado, cujo fim seria o lupanar. O commissario, disfarçando todo o odio em uma protecção franca e leal a Silveira, armava-lhe uma grande cilada, premeditava uma tremenda vingança. Um emprego no armazem de viveres do governo a seu cargo offerecido a Edmundo seria o laço que o deveria prender e inutilisar por muito tempo. O logar de fiel de armazem era uma boa arrumação para quem estava desempregado. O commissario não tratou de consultar a Silveira e, antes de ouvil-o, dispensou o empregado que occupava aquelle logar. Era elle um homem probo e trabalhador. Implorou a Arruda, pediu que não tirasse o pão da familia, mas o commissario com a maior crueza deu-lhe as costas para não lhe ouvir as supplicas. Vago o logar, Simeão se dirigiu á palhoça, afim de communicar a Freitas a vaga que tinha havido. Edmundo estava na palhoça. Arruda, vendo-o gozar d'aquella intima convivencia, sentiu exasperar-selhe o ciume, mas pôde dominar-se. Comprimentou a todos com a costumada amabilidade.
-Muito estimo encontrar aqui o seu amigo, coronel. Acabo de descobrir um grande furto no armazem de viveres a meu cargo. As suspeitas recahiram no fiel, que abusava de minha confiança e demitti-o. Vago o logar, peço ao snr. Edmundo de aceital-o, e confio que não recusará meu offerecimento. Sinto muito rejeital-o. Não estou disposto a exercer empregos remunerados pela verba Soccorros publicos. Agradeço, entretanto, a attenção. - O senhor offende-me, disse o commissario. Absolutamente não. O senhor presta serviços sem remuneração, emquanto eu os prestaria por quatro ou cinco rações, rações que fariam falta aos famintos. Arruda. N'esse caso offereça-se gratuitamente, disse Sae mais caro ao estado . -Como assim? perguntou o commissario visivelmente perturbado ; a allusão o havia alcançado. Me pagando ás occultas e com generosidade. Como viver sem recursos e trabalhando sem vencimentos ?! O senhor naturalmente tem rendas que lhe garantam a subsistencia. É verdade. Quando fôr tempo, ninguem mais do que eu saberá ser patriota. Sua recusa me entristece, snr. Edmundo ; entretanto não preencherei o logar sem tornar a ouvil-o . -Supponho que será inutil insistir.
Arruda não contava com a recusa de Silveira. Tinha como certo o seu desastre. Sem plano formado e vendo desfeito o laço que tinha armado, se retirou da palhoça, ainda uma vez jurando castigar a audacia de Edmundo. Quando Josepha viu que o commissario ia longe, disse a Silveira : -Devia ter aceitado o offerecimento do nosso protector, snr. Edmundo. Não pensas assim, Manoel? Freitas, depois de um longo bocejo mais significativo do que um cento de palavras, respondeu : -Eu sei, Josepha?... A senhora não comprehende minha posição. O emprego póde ser bom, creio mesmo que será rendoso, mas não me ficava bem aceital-o. -E o senhor não está desempregado? Não é melhor trabalhar, ajudar o moço que quer protegel-o e se mostra tão seu amigo? A pessoa deve saber viver, não é assim que se passa n'este valle de lagrimas, disse Josepha. Freitas, temendo que a discussão se azedasse, pozlhe termo assim : -Então para o retirante só ha o recurso das pedras do Mucuripe ? E emquanto não entender o contrario a alta sabedoria do snr. Aguiar. - Supponho que muito breve estarei viajando n'aquellas brancas areias. -Crédo, Manoel, longe vá o teu agouro, disse Josepha.
-Porque ? suppões que estou contente com esta vida de vadio ? do?-Estarás tomando as lições do snr. Edmun- -Não, minha senhora, seu marido tem bastante senso para dirigir-se ; não precisa de mentor. Carolina córou. A conversação voltava ao antigo terreno. Freitas a desviou. Não acha o transporte de pedras uma medida improficua ? O maior dos absurdos. Justificam-no como um meio de livrar o povo da ociosidade. A medida é desastrada. Chega o retirante, é alistado, e no dia seguinte o commissario ordena-lhe que siga para a pedreira do Mucuripe, a duas leguas da Fortaleza, a carregar pedras para ter direito a uma ração. Inanido, cançado da viagem, ás vezes velho e doente, segue o infeliz. Alguns nem chegam com a carga que o governo lhes pôz ás costas ao porto do destino, cahem no caminho e morrem de fome, de fadiga ! Os que vencem a distancia, são mais desgraçados ainda, porque continuam a viver uma vida de miserias, de humilhações. Duas vezes por semana dão-lhes um litro de farinha e meio kilo de carne do sul, para se alimentarem com uma familia, termo médio, de seis pessoas ! Pobre gente ! exclamou Freitas. -E o governo, isolado em seu palacio, occulta-se de proposito para não vêr o desfilar do prestito da miseria pelas ruas da capital !
E as mulheres, disseram-me, vão tambem á pedreira? -Para nossa vergonha exigem-lhes o serviço. E que espectaculo contristador o cortejo de infelizes, semi-núas, carregadas de pedras pelas ruas da cidade ! Não tiveram pejo de affrontar o sexo fragil ! Esqueceram-se que por humanidade deviam respeitar aquellas desgraçadas, entre as quaes muitas ainda hontem gozavam dos mimos da fortuna no dôce conchego do lar. É uma crueldade ! E qual a utilidade d'essas pedras ? Esses braços enfraquecidos pela fome, porque se não os fortalecem e depois não os empregam n'um trabalho util e com um salario razoavel? O porto da Fortaleza, com o qual tem-se gasto tantos contos de reis só para pintal-o, porque não se faz ? -E que veio fazer a commissão de engenheiros ? Estudar a causa das sêccas e procurar evital-as. E sabe quanto vence cada um d'esses illustres scientificos ? Um conto de reis por mez ! Afilhados do ministro, validos dos medalhões do paiz. sorte? E não ha uma esperança de melhorarmos de Qual, coronel. O Brazil acostumou-se a imitar a Europa, isto é, na legislação. Quem lê nossas leis admira a liberdade do povo e sua prosperidade. Começamos pela grammatica e acabamos pelo abc. -Haja vista a reforma eleitoral. A mascarada do empenho de honra. Tudo
se refórma ! A politica tudo absorve ! Os nossos estadistas amam demais as reformas. Os legisladores dão ás leis a maleabilidade da cêra. São feitas para serem interpretadas a contento do governo. E se é em materia eleitoral, então é um verdadeiro escandalo. - Se cuidassem no que é de utilidade, havia tanto que fazer ! -A palestra hoje foi bastante longa ; são horas de tornar a casa. E Edmundo retirou-se.
VI Simeão de Arruda estava desapontado com a indifferença de Carolina, que cada dia mais se accentuava, e era devida ás visitas de Edmundo. Era necessario afastar Silveira da palhoça, o que faria embarcando-o á falsa fé no meio dos retirantes para o norte ou sul do imperio, e caso falhasse esse meio, mandando assassinal-o. A casa construida para Freitas estava acabada ; o commissario no dia em que foi recebel-a passou pela porta de Quiteria para avisal-a da proxima mudança da familia. A feiticeira fel-o entrar, queria receber algum dinheiro adiantado pelos serviços futuros. - Queira entrar, meu capitão, e sentar-se. O commissario obedeceu .
-Acho-a muito triste, está doente ? - Foram as almas dos enforcados que o botaram por aqui. Nunca pensei soffrer tanto ! Se não fosse o temor do inferno já teria desesperado. E Quiteria começou a chorar desesperadamente. --Diga-me o que lhe aconteceu? Em mim tem um amigo prompto a soccorrel-a. A feiticeira fingiu alentar-se e soluçando ainda, disse : - Só Deus podia enviar, como enviou, um espirito christão e bemfazejo para livrar-me de tão grande tribulação. ços. E Quiteria calou-se ; parecia suffocada pelos solu Não se amofine, minha senhora. Confie em mim, e se lhe posso valer diga-me a causa de seus pezares . A feiticeira descobriu o rosto e mais consolada fallou : -Fui insultada pelo dono d'este pobre rancho. Devo-lhe cincoenta mil reis de aluguer atrazados, mas a divida não authorisa o insulto. Ordenou-me que sahisse senão mandaria destelhar a casa ! Como sahirei d'aqui ? Para onde irei ? Ah ! homem sem coração ! Atirar uma pobre velha á rua ! - Como se chama esse tyranno ? -Não queira saber o nome d'esse homem mau, meu capitão. A religião manda perdoar as miserias do proximo e esquecel-as pelo amor de Deus. É caridade occultal-as .
- A senhora tem alma grande! Está a quantia de que necessita. E Simeão entregou á feiticeira uma nota do thesouro de cincoenta mil reis. Os olhos verdes de Quiteria brilhavam de contentamento. Ajoelhou-se, pôz as mãos e, fitando uma imagem de Christo, exclamou : -Meu Deus e Senhor, prostrada vossa indigna serva vos pede que aceiteis a esmola que me acaba de fazer este bom christão. A feiticeira iria longe com a sua supplica se Arruda não a interrompesse : -Basta, D. Quiteria, estou convencido de sua gratidão. Vou mandar construir uma casa para a senhora ; ninguem mais a incommodará. Com esta promessa a feiticeira, que já se havia calado e se posto de pé, quiz-se ajoelhar e fazer novas exclamações, mas o commissario a conteve, se despedindo d'ella e sahindo. A casa para o coronel estava prompta, era necessario mobilal-a. Para isso não foi preciso ao commissario mais do que timbrar algumas duzias de furta-cores e mandal-os ao thesoureiro. Estava ancioso por vêr a familia de Freitas junto a Quiteria. Simeão comprou em poucas horas os moveis, que arrumou elle mesmo na casa, e foi entregar a chave a Freitas . Chegou á palhoça contentissimo : -Dá-me as alviçaras, coronel ? -Porque ?
Se não dá, pedirei-as a D. Josepha. Já sei, está prompta a casa, disse a mulher de Freitas. Adivinhou, não imaginam o prazer que sinto ! Esta palhoça me contrariava. Seus favores serão recompensados de Deus, snr. commissario, disse Josepha. O snr. Edmundo ! disse Carolina olhando para o caminho . Estimo que me encontre aqui. Desejo saber se está resolvido a aceitar o meu offerecimento, disse Simeão . tas. Até hontem não estava resolvido, disse Frei Isso me contraría, porque estimo-o e desejava tel-o como auxiliar. -Talvez pense hoje de outro modo. Não ha motivo para rejeitar tão generosa offerta. Se Manoel o aconselhasse, estou certa que elle aceitaria o emprego. Costumo só dar conselhos quando m'os pedem. E demais Edmundo tem bastante discernimento para guiar-se. Qual, Manoel, amocidade tem loucuras e o teu amigo não cahiu do céo por descuido. -Para julgal-o te considero pouco habilitada. Edmundo entrou na palhoça. Simeão foi o primeiro a saudal-o. Fallavamos a seu respeito. Discutiamos as vantagens do emprego que lhe offereci. A nossa res
peitavel amiga D. Josepha é de opinião que deve aceitar o logar que puz á sua disposição. - Sinto dizer-lhe que estou no mesmo proposito. Simeão fez um gesto de desgosto. -Dá um parecer franco, Manoel. Dize-lhe que aceite o emprego, disse Josepha. Não admitto reflexões d'essa ordem ! Estás-te excedendo, Josepha ! ... -Desculpe, coronel ; a sua virtuosa esposa exprime-se assim pelo muito que quer ao nosso amigo Edmundo . -Agradeço o interesse que D. Josepha toma por mim, mas é ocioso instarem para que aceite tal emprego . Não fallemos mais n'isso. Hei de provar-lhe minha sympathia. Peço-lhe que frequente nossa casa, que honre-me com suas relações. Agradecido. Não serei indifferente ás finezas que me tem dispensado, disse Edmundo. O commissario se dirigiu a Freitas. -Permitta-me, coronel, offerecer a chave de sua nova habitação á sua digna filha. Freitas fez um gesto affirmativo, e Arruda, se aproximando de Carolina, entregou-lhe a chave. A moça córou até á raiz dos cabellos e disse-lhe : Obrigada. Edmundo empallideceu sem querer. -A mudança póde ser hoje mesmo. Á tarde mandarei os meus creados para mudal-o. - Não é preciso tomar mais esse incommodo. *
Não temos trastes. Quem conduziu até aqui estes despojos da miseria, os levará mais adiante. -É bom vir uma pessoa para guial-o. O senhor insta, aceitarei mais esse obsequio. Quando o verei agora, snr. Edmundo ? Está o meu cartão, n'elle encontrará a rua e o numero de meu gabinete. A casa é escolastica, por isso nada de ceremonia. Appareça, disse Arruda. -Obrigado, o irei visitar. O commissario sahiu depois de ter ouvido de Josepha mil agradecimentos. A pobre senhora não sabia como agradecer a Simeão o favor de abrigal-as ! O que pensa da generosidade do snr. Simeão ? perguntou Freitas a Edmundo. Eu sei, coronel... contam tanta coisa d'esses commissarios... -É um grande peccado pensar mal do proximo, ponderou Josepha. Os tolos são sempre credulos, disse Freitas. Mas não são maliciosos, disse Josepha. Não sei porque o snr. Arruda não me merece confiança, disse o coronel. -Hei de restabelecer a verdade. Procurarei o snr. Simeão e em breve direi o que elle é. Supponho que o snr. Edmundo encontrará um homem de bem e muito caridoso. -Muito estimarei se assim fôr, D. Josepha. O romance foi que me preveniu contra elle. Querem culpar o moço por um engano. -És muito ingenua, Josepha.
- Suspendamos todos os nossos juizos, vou conhecel-o para julgal-o. -Mas sem paixão, disse a mulher de Freitas. - Com toda a imparcialidade. Me comprometto, sob minha palavra de cavalheiro, avoltar aqui muito breve com minha opinião firmada sobre o caracter de Simeão de Arruda. E assim se terminou a discussão.
VII Os creados de Arruda se apresentaram na palhoça e acompanharam Freitas e a familia á nova casa. Todos estavam mais ou menos satisfeitos com a habitação, excepto o coronel que, de semblante fechado, não dava palavra. Carolina olhava com indifferença para tudo aquillo, mas Josepha não cessava de admirar os moveis, pobres, porém decentes, de louvar a generosidade do commissario e de rogar-lhe mil bens. Ella estava innocente em todo aquelle drama. Via em Simeão um homem cuja caridade não tinha limites. Faltava, entretanto, a ella uma das qualidades para bem se viver no mundo, a perspicacia. Confiava demais na probidade alheia; era de boa fé, como se diz vulgarmente.
: Freitas havia levado o seu tóro de madeira e collocado a um canto da sala. Seria sua cadeira emquanto fosse retirante. Depois que os creados de Arruda se retiraram, elle disse a sua mulher : -Está tudo muito bom, mas com franqueza digo-te, preferia o nosso rancho. É difficil viver tranquillo aqui. Estes moveis fazem-me lembrar a nossa casa e essa lembrança magoa-me o coração ! Ah! Josepha, se ha felicidade no mundo, ella consiste unicamente na paz do espirito. De que serve a riqueza com os seus gozos e delicias quando a alma é amargurada por um pezar? Quizera antes a nossa palhoça batida dos ventos. Qual será o preço d'essa protecção ? Pensamentos maus tem-me assaltado o espirito e me desalentado. -Não te comprehendo, Manoel. Aceitamos os favores de um homem, que espontaneamente se mostrou nosso amigo. É um agente do governo authorisado a soccorrer os desvalidos. Estamos n'esse caso, e seria orgulho nosso rejeitar a esmola, quando necessitamos d'ella. Até agora ainda não temos razão de desconfiar do homem que nos protege, pelo menos eu de nada sei ; comtudo se te contraría aceitar tal favor, voltemos a nosso rancho. Estou pelo que quizeres . - É tarde. Véla por tua filha e confiemos em Deus. Freitas passou mal a primeira noite na nova casa. Almejava o alvorecer do dia, a luz do sol para reanimal-o. A insomnia havia sido mortificante e lhe aba
tera ainda mais o espirito, já tão depauperado de conforto. Ao primeiro clarão do sol levantou-se e foi sentar-se em seu tóro de madeira á porta da entrada. A aragem fresca da manhã pouco a pouco calmáralhe o espirito, que a meditação havia excitado e enfraquecido. A feiticeira tambem passou mal a noite estudando a sua apresentação em casa do coronel. Levantouse cedo e não teve tempo de rezar senão um Padre Nosso. Quando abriu aporta já Freitas estava sentado á entrada da casa. Quiteria vendo-o riu-se, encolheu os hombros e disse entre dentes : -É um figurão ! parece-me um frade. Que barbas do Senhor S. Pedro, comparando mal! Vamos vêr quem sae mais. Estavam hontem com tanta ceremonia e hoje já tão cedo sahem da tóca. elle. Carolina levantou-se após seu pae e veio ter com A feiticeira, admirada da belleza da moça, resmungou : -Tem bom gosto o commissario ! a menina é bonita como uma rosa ! que lindos cabellos louros que tem ! parece ser tão novinha ! que olhar amoroso ! é perfeita como uma imagem ! Cantarolou o verso de um bemdito e continuou: -Por menos de um conto de reis não ajudarei o snr. Simeão, e se não m'o dér eu acho quem
queira... o mundo está cheio de gente de bom gosto e de dinheiro. São horas de apresentar-me. Quiteria entrou para a alcova, tirou da mala de pregaria um vestido de alpaca preta já esverdeado, ainda do luto do seu defunto cabo, vestiu-o, deitou-o veterano lençol de cabeça deixando apenas os olhos e o nariz de fóra, enrolou um grande rosario de côco na mão direita, fechou a porta e sahiu para a casa. de Freitas. Chegando á porta do coronel pediu-lhe licença e entrou. -Seja louvado Nosso Senhor Jesus Christo, meu bom senhor e senhora, disse Quiteria se inclinando quasi até o chão . -Bom dia, minha senhora, queira sentar-se, disse Freitas offerecendo-lhe uma cadeira. -Venho cumprir o meu dever de visinha. Não se admirem de minha visita não se ter demorado. Costumo visitar todas as pessoas que vêm morar perto de mim e offerecer-lhes meus serviços. Sympathisei muito com os visinhos e apressei-me em vir pôr á sua disposição os poucos prestimos de uma pobre velha . Agradeço muito sua attenção e aproveito a occasião de offerecer-lhe os meus serviços. Josepha, que já estava de pé, veio á sala. Bom dia, disse entrando a mulher do coronel. -Nosso Senhor lhe dê as mesmas, minha dona, disse a feiticeira inclinando-se e estendendo a mão que segurava o rosario. -Já sei que é nossa visinha, disse Josepha.
Visinha e creada, accrescentou a feiticeira com a maior humildade . -Veio offerecer-nos os seus serviços e amizade, disse Freitas. Muito estimo e agradeço-lhe, disse a mulher do coronel. -Já cumpri meu dever, hão de permittir que me retire ; ainda vou ouvir a santa missa, essa devoção de todos os dias. Alli é o meu pobre rancho, estarei sempre ás suas ordens. Quiteria, depois de ter indicado com o dedo sua casa, curvou-se respeitosamente diante de todos que estavam na sala e sahiu para a igreja. Edmundo havia muitos dias que não apparecia em casa do coronel. Continuava suas indagações sobre o commissario, só queria encontrar-se com Josepha depois de firmada sua opinião sobre Arruda. Já sabia que o commissario era casado, tinha filhos, era crapuloso e se embriagava de vez em quando. Quiz conhecel-o de perto e procurou-o no seu gabinete. Simeão recebeu-o com um apertado abraço : -Seja bem vindo o mais novo, porém o mais sympathico dos meus amigos. Sempre a penhorar-me com suas finezas. Diga-me que milagre foi esse ? Estava perdendo a esperança de vêl-o n'esta pobre casa. E Arruda fez Edmundo sentar-se a seu lado. -Pretendi sempre visital-o e já não o havia feito com preguiça .
Tem visto o nosso coronel ? A ultima vez que o vi foi n'aquella tarde. Tambem não tenho apparecido por lá depois d'aquelle dia. Vivo sempre occupado e atropellado com esse maldito serviço de soccorros. O tempo não chega para os meus negocios particulares. Tenho pedido por vezes exoneração de tão pesado cargo e o governo por fórma alguma me tem querido dispensar. Ainda hontem disse mui positivamente ao presidente da provincia que, se elle de todo não quizesse exonerar-me, eu dava parte de doente. Batem á porta. Simeão faz ponto em seu discurso, e vê que mão descarnada e tremula procura abrir o postigo da rotula ; enfurecido grita : Retire-se, retirante dos diabos ! não fallo hoje com essa canalha, corja de ladrões, mentirosos, capazes de tudo quanto ha de ruim. Um gemido foi a resposta que teve o insulto de Arruda : a mão retirou-se e o infeliz seguiu. -Desculpe, meu amigo, essa gente só se tratando assim ; abusam de minha paciencia e forçam-me a tratal-os mal. Agora vamos tomar um pouco de licor. E deitou chartreuse em dois calices, que bebeu com Edmundo. -Bom licor ! disse Silveira depois de esvaziar o calice, que collocou sobre amesa. É obra de frade. Tem bom gosto ! - Que tal o meu gabinete, Edmundo ?
-Está bem decorado. -Nada como a vida escolastica ! Viva o celibato! havemos de saudal-o, não com chartreuse, mas com curação. Agradeço, sou fraco. - Qual, licor não embriaga, alegra o espirito e faz do fraco forte . E encheu dois calices, que beberam. Hurrah pelo celibato. -E sempre teve essas idéas? perguntou Edmundo. -Para fallar-te a verdade, não. Já pensei uma vez em casar-me, o que dou graças a Deus não ter levado a effeito. Não és da minha opinião ? Não . Eu não me lembrava que és noivo... Está brincando. Não, e até me offereço para testemunha do casamento. Aceitas ? mados . Se casar algum dia. Eu te considero já na lista dos papeis quei Engana-se. -Veremos. A tua amavel presença deu-me grande contentamento ! Hoje o dia será nosso, havemos de passeiar por essa cidade toda. -E não vai ao abarracamento ? - Qual ! os retirantes que se arranjem como poderem. Já te disse que o dia é nosso. Rejeitas meu convite ?
Aceito... -Já embarcaste ? Não . Nem foste a bordo ? Nunca. Hei de te mostrar hoje, meu matuto, o que é uma casa sobre o mar. E tem que fazer a bordo? -Alguma coisa. Embarcaram hoje quatrocentos retirantes do meu abarracamento.
Pobre gente ! ... O que sae não nos faz falta. Agora não fará, estou certo, porém quando voltarem os tempos regulares, onde ir buscar braços para a lavoura ? - Não fallemos em coisas tristes ; vamos ao embarque, que a hora se aproxima. E Simeão, depois de fechada a porta do seu gabinete, sahiu com Edmundo para o porto.
VIII Chegou a hora da separação. Quatrocentos retirantes de todas as idades marchavam em prestito para o porto da cidade. Era triste aquella procissão como o desfilar de um enterro. Todos magros, macilentos e esfarrapados, davam ao cortejo a côr sombria da tristeza. Forçados a abandonar a terra natal, caminhavam desalentados. Pela cadencia do passo lento e grave podia-se avaliar do desgosto que lhes ia n'alma ! Seguiam em silencio, e muitos tinham os olhos pisados de chorar ! Chegaram ao porto do embarque. Quatro grandes lanchas, proximas da praia pela vasante da maré, se balançavam nas ondas da arrebentação, esticando as correntes das amarras, que mordiam as
areias do porto. Eram os bateis que deviam transportar a bordo do vapor Pernambuco os infelizes condemnados a abandonar a patria. O navio ancorado perto da costa movia-se, preso á amarra de prôa, de bombordo a estibordo. O prestito parou ao lado do velho trapiche. Os encarregados do embarque dos emigrantes, n'um açodamento cruel, faziam transportar para bordo das lanchas os retirantes. O serviço era feito de um modo deshumano e afflictivo ! Não havia um caes, uma ponte para atracar as embarcações. Uma duzia de homens fortes e musculosos, nús, tendo apenas uma tanga, trabalhadores da capatasia do porto, faziam o embarque dos emigrantes a tostão por cabeça com a mesma humanidade com que costumavam carregar os fardos de algodão, os saccos de assucar. Não havia alli respeito á velhice, decoro á honestidade e protecção á infancia ! Queriam ganhar depressa o seu tostão, e a moça, o velho, o menino conduziam do mesmo modo aos hombros, e chegando a bordo da lancha atiravam-nos sem piedade como se fossem corpos inanimados ! As creanças gritavam assombradas quando se viam carregadas de mar a dentro e muitos dos carregadores faziam-nas calar a empuxões ! Além do modo barbaro de embarcal-os, por cumulo de perversidade, a zombaria dos trabalhadores, a galhofa que faziam dos seios das mulheres expostos pela nudez á sua brutal irrisão e que a fome havia reduzido a esguias pelangas !
Em completa ossidia olhavam pezarosos para a alvura diamantina das praias de sua terra e muitos d'elles choravam . A bordo das lanchas era horrivel a confusão. Os lancheiros, com uma crueza de brutos, acavallavam os emigrantes como se fossem fardos de mercadorias ! Os raios adustos do sol tostavam-lhes a pelle, e cada vez mais afogadiça tornavam a atmosphera das embarcações. Era quasi meio dia e os emigrantes estavam em perfeito jejum. Arruda havia chegado á praia com Edmundo e assistiam áquellas scenas de cannibalismo. De bordo de uma das lanchas, logo que o commissario se apresentou na praia, os retirantes praguejaram : -O castigo de Deus te persiga, miseravel ! És a causa de nossa desgraça ! Maldição sobre ti, seductor das filhas alheias ! A cadeia seja teu fim, ladrão do dinheiro do nosso rei ! Arruda ouviu as pragas e deixou com o coтраnheiro aquelle sitio. O paquete largaria dentro de duas horas, e o commissario, temendo vêr frustrado o seu plano, fretou umajangada. Abordo d'ella com Edmundo, mandou que o mestre se fizesse de vela para o Pernambuco. Apesar da baixa-mar as ondas se encapellavam levantadas pelo vento que soprava rijo. Passaram a primeira onda, chegaram á segunda e grita o mestre :
Calça a bolina ! Uma vaga se ergueu, acachoou-se na prôa da embarcação e um lençol d'agua levou tudo que encontrou . Estamos safos, patrão, disse o mestre. -Felizmente, porém molhados como pintos, disse Arruda . A jangada corria sobre as ondas com velocidade superior á de um vapor. A vela latina atufava-se com o vento e a embarcação estendia sobre a superficie verde do mar uma esteira branca de espumas. O mestre manobrava com arte e o batel passava a todo panno entre os innumeros navios ancorados no porto sem receio de um abalroamento. Aproavam para o Pernambuco. Em poucos minutos fizeram a viagem e tinham á frente o bôjo negro do navio, que sahia do mar como um comprido recife. -Cuidado, Pedro, temos o vapor pela prôa e perto ! Aguenta a jangada... Tira a bolina... Férra a vela ! ... grita o mestre no leme governando. Atracada a embarcação á escada de ré, subiram os passageiros. Simeão de Arruda da amurada do navio dirigiuse ao mestre : -A jangada fica por minha conta. Sciente, patrão, sua bolsa é minha guia. -Agora vamos ver o que é um vapor, coisa admiravel para quem o vê pela primeira vez, não é assim, Edmundo ?
- Um dos bons productos do engenho humano, respondeu Silveira olhando attentamente para os mastros e para tudo que o cercava. Estás admirado ? É verdade ; mas sinto a cabeça tontear, não sei se será effeito do licor ou algum começo de enjoo. -Isso passa. Aproxima-se uma lancha de retirantes que vai atracar na prôa, vamos assistir mais perto á baldeação. - Não posso seguir, as pernas pesam-me como se fossem de chumbo. -Apoia-te no meu braço e vamos. E Arruda, dando o braço a Silveira, o conduziu por bombordo até perto do mastro grande onde ficaram. A lancha tinha atracado; trazia mais de cem retirantes maltrapilhos e molhados. Muitos, atacados de enjôo, vinham deitados e expostos á soalheira ; outros choravam debruçados na borda da lancha com o olhar fito em terra. As creanças, entorpecidas de fome e afogueadas de calor, deixavam pender as frontes sobre os regaços ossiculados das mães, que nada podiam fazer por ellas senão procurar dar-lhes a sombra esguia de seus corpos ! A briza do mar soprava e quente como se viesse de atravessar um campo incendiado. O espaço era azul e nem uma nuvem assomava no horisonte annunciando que o tempo iria se aborrascar ! Abriu-se o portaló de prôa para dar entrada ás
victimas da sêcca. Os passageiros do navio debruçados nas amuradas assistiam á baldeação d'aquelles esqueletos animados. Os empregados de bordo recebiam-nos brutalmente. Não encontravam alli piedade ás suas dôres . A lancha ia largar, quando o immediato do navio se dirigiu ao patrão : ra? Ainda temos muito d'este genero em ter Tres lanchadas . -Com mil diabos ! Temos agora a peste a bordo ! Diga lá que mandem a mercadoria mais bem acondicionada, que esta chegou muito avariada, e, se continuar a vir assim, ficará durante a derrota toda no mar cevando as tainhas. Puxem pelos remos que largamos cedo. E o immediato virando as costas á lancha disse aos retirantes : -D'este mastro de prôa para a ré nem um passo ! Arrumem-se ahi como poderem ; se ficarem como sardinha em tigela e se fôr quente o sol queixem-se da sorte ; se á noite chover e fizer frio queixem-se de Deus, que não deu inverno á sua terra. Muito poucos dos emigrantes com semelhante tratamento resistiriam á viagem. Das creanças não escaparia uma só ! Era a emigração a ultima desgraça reservada ao cearense ; e a emigração forçada, porque elles não queriam sahir e o governo da provincia a isso os obrigava diminuindo todos os dias os soccorros. Seis
vezes por mez tocavam os paquetes do norte e sul na Fortaleza e todos elles levavam emigrantes ! O plano do commissario parecia caminhar a bom exito. Edmundo sentia se aggravarem os seus incommodos. Simeão não perdia o mais leve signal pathognomonico da molestia que atacava o companheiro. Era grande a sua intima satisfação. Aproximava-se ahora da sahida do paquete, e era necessario que Edmundo cahisse de todo. Arruda levou-o á camara do navio quasi arrastado. Sentou-o em um banco e observava com o maior sangue frio os effeitos do enjôo, que augmentava á custa do calor que alli fazia e do cheiro especial de taes logares. Silveira enfraquecia a olhos vistos. O olhar havia-se amortecido de todo e de palpebras cerradas esperava a morte como termo á agonia que o prostrava. Suas feições descompostas, quasi cadavericas, tinham uma côr livida ; uma manifesta cyanose azulava-as, devida ao trabalho circulatorio, que era imperfeito. Aquelle organismo forte e vigoroso cahia n'uma profunda atonia. Elle achou-se pela primeira vez na vida em um meio onde o equilibrio dos corpos era instavel, sujeito a movimentos alternos de ascensão e descida, e d'ahi as perturbações nas funcções organicas. Avida animaltambem soffria. A circulação do cerebro não era regular ; a sua perturbação causava desor-
dem que se observava nas visceras, cujos nervos estão em communicação mais directa com o encephalo. Edmundo acreditava que ia morrer, taes eram os soffrimentos. De todos os póros do corpo exsudava um suor gelado que esfriava-lhe a pelle ; as extremidades estavam algidas ; a respiração era curta ; o pulso pequeno e fraco, e de quando em vez vinha uma vertigem, como um aviso de que a onda sanguinea que subia, era insufficiente para alimentar a circulação do cerebro. O estomago, que até então não tinha sido influenciado pelo encephalo, veio augmentar os padecimentos causados por aquelle estado morbido. Edmundo sentiu uma afflicção horrivel ; pareceulhe a agonia da morte e estirou-se no banco a fio comprido para melhor morrer. O mundo a andar-lhe á roda, o coração a bater um rythmo, a preguiça pulmonar, tudo isso era menos, era supportavel, á vista da angustia que sentia no estomago, angustia que se manifestava, não por vomitos, mas por um estado nauseoso, afflictivo e desalentador. Edmundo havia cahido de todo ; estava completamente á mercê do commissario . Arruda olhava para a sua victima sem a menor piedade, e ficaria contemplando o fructo de sua obra se a sineta de bordo não avisasse os visitantes que o paquete ia levantar ferro. Simeão em um instante poz-se no portaló de ré e fez signal ao jangadeiro para atracar.
A jangada atracou, recebeu-o e aproou para terra. Duas lanchas carregadasde retirantes bordejavam perto do vapor esperando ordens de bordo. Os quatrocentos emigrantes, que tinham vindo de terra para o Pernambuco, foram recebidos a bordo do navio ; porém o immediato não tendo accommodações para mais de duzentos, pôl-os em fórma, sem attender a que alli iam familias e que seus membros deviam ficar reunidos, e começou a contagem do começo da columna. Chegando a duzentos fez voltar o excesso para as lanchas, que ficariam bordejando até segunda ordem. Os retirantes obedeceram e aguardavam o momento de voltar ao vapor, quando o navio suspende a ancora e aprôa para o sul. A confusão foi horrivel. Um só grito de desespero, um echo longo de um só pranto partiu das lanchas e da prôa do Pernambuco. Áquella angustiosa scena assistia com uma impassibilidade de bruto o commandante do vapor, fumando cachimbo no convés do navio. O immediato não menos crú, de pé, junto ao homem do leme, parecia nada ouvir dos fundos suspiros que a dôr a mais intensa arrancava da alma d'aquelles desgraçados ! Quanto mais se afastava o navio, mais augmentava o alarido . Meu pae que vai ! minha mãe qui ficou ! meu filho ! meu marido ! meu irmão !
Quasi todos exclamavam, quasi todos lastimavam uma affeição que ficava, um amor que seguia. Arruda foi testemunha de toda a scena, mas não se commoveu. Chegando em terra procurou sua casa ; estava livre de Edmundo, e tinha portanto augmentado as probabilidades de seduzir Carolina.
IX Manoel de Freitas ia vivendo com a familia, graças ao soccorro que lhe dava semanalmente o commissario Simeão de Arruda. Quiteria do Cabo frequentava a casa do coronel e conseguiu que Josepha e Carolina fossem tres vezes rezar com ella o terço das almas, sua predilecta devoção. A mulher de Freitas e a filha sympathisavam com a feiticeira : uma creatura tão religiosa e que cumpria com tanta constancia os preceitos da religião ; que era piedosa, e fazia toda a sorte de mortificações pelo amor de Deus, não podia, pensavam ellas, deixar de ser crédora de todo o respeito e de se impôr á amizade dos que tinham a felicidade de conhecel-a. Carolina vivia triste. Edmundo promettera voltar
e nunca mais apparecera ! Dois mezes se haviam passado e nem uma nova sua. Freitas e Josepha se interrogavam sobre a ausencia do moço e não podiam descobrir a causa. Pediram noticias d'elle ao commissario, e Arruda respondeu-lhes que nunca mais o tinha visto . Simeão sentia prazer com o viver aborrecido de Carolina. O ar melancolico da moça, a languidez do olhar sempre fito em uma imagem ideal estacionada na mente, cada vez mais incitava os desejos sensuaes do commissario . As faces de Carolina, rosadas como as boninas do campo, iam pouco a pouco desmaiando, tornando-se côr de bogary. Arruda comprehendia a causa d'aquelle abatimento, que francamente se percebia pela pallidez do rosto. Aquelle desalento d'alma offendia-lhe o amor proprio, mas havia rendel-a pelo ouro ou pela fome. Acreditava que a honra não podia morar com a miseria na mesma tenda. Elles resistiriam aos primeiros dias de fome, depois vencidos entregariam a filha á sua libidinagem. Á saudade, entretanto, ia murchando a rosa, que definhava todos os dias ; as contrariedades do amor lançavam-na em uma adynamia profunda. O estado de Carolina o inquietava, porque as feições começavam a se alterar e a formosura já não era a mesma. Era necessario apressar a execução do plano e só Quiteria do Cabo podia fazer isso amigavelmente .
Arruda foi ter com a feiticeira. Ella voltava da missa ás oito horas da manhã, quando encontrou-se com o commissario défronte da casa. As saudações foram as do costume, amaveis e delicadas. -Sempre na sublime pratica da religião, D. Quiteria ; a senhora é muito rica de fé ! -Sou uma grande peccadora, meu capitão ! Sabe o que me traz á sua honrada casa ? Saberei quando v. s.ª m'o disser. - Pedir-lhe um favor que é da religião . Estou resolvido a casar-me, não só para cumprir os sacramentos da igreja, como tambem para formar uma familia, unico amparo que temos na velhice. -Pensa muito bem ; se eu tivesse-me casado moça, teria tido filhos e não me veria hoje só e á mercê de todos os caprichos da sorte. E duas lagrimas rolaram pelas faces macilentas de Quiteria. -Já fiz minha escolha. Supponho que será approvada de Deus e do mundo, pois a moça é virtuosa epobre. Quanta generosidade ! Procurar uma noiva entre a pobreza hoje só faz quem já é do céo ! -Aproxima-se, porém, o tempo de realisar o саsamento, e ainda não consultei a vontade de minha escolhida. Por varias vezes tenho tentado declararlhe os meus sentimentos, mas medroso recúo, sen-
tindo aquella timidez do amor puro, dos sentimentos sublimes do coração . Quanto pudor ! Que exemplos edificantes de honestidade ! -A protecção que tenho dispensado á familia em que pretendo entrar, ha concorrido muito para meu silencio. Pobre e completamente desprotegida, encontrei-a n'uma palhoça e abriguei-a. Entretive depois relações com ella e conheci que prestava serviços a uma familia de sentimentos nobres, outr'ora rica e que fôra atirada pelos caprichos da sorte ás garras da miseria. Cada vez me convenço mais de suas virtudes. O casamento é da religião e houve homens que foram santos sómente por terem concorrido para a realisação d'esse sacramento. Diga-me em que posso servil-o ? Quasi depende de seu auxilio a minha felicidade. Sabe a minha escolhida é a sua visinha. -Feliz Carolina ! E nem podia deixar de ser abençoada do céo ! Com que fervor rezavas aqui á noite o terço das santas almas ! Que linda noiva que serás ! Como brilharão teus cabellos doirados sob o branco véo de linho ! Como estou satisfeita ! Que casamento feliz ! Duas almas virtuosas unidas pela igreja! - Suas palavras me confundem, D. Quiteria. Vamos agora a saber o modo de effectuar essa união, que a senhora agoura tão bem. O governo continúa a internar os retirantes, muito embora as esperanças
C do inverno estejam desvanecidas. Não sei se essa familia pretende retirar-se. Queria antes de tudo ouvir a opinião de D. Carolina. Podia pedil-a logo, mas desejo primeiramente consultal-a. V. s.ª é muito sensato. -Cumpre-me pedir-lhe sua authorisação. Porém, onde? em sua casa? é impossivel ; vejo-a sempre de relance, não póde ser. Se ella frequentasse a sociedade, seria facilimo; os bailes são optimos logares para as declarações, os intervallos das contradanças bons auxiliares, as walsas verdadeiros excitantes do amor que desponta. Peço-lhe de aconselhar-me, supponha que ouviu um filho e que tem de ensinar-lhe o caminho que deve seguir. Quero franqueza. Se fôr preciso dinheiro gastar-se-ha ouro como se fosse areia. As ultimas palavras de Simeão produziram grande effeito no animo de Quiteria. Ella volveu rapidamente os olhos verdes, abriu-os o mais que pôde, como para ver o thesouro que promettiam confiar á sua discrição e em que saciaria a cubiça. Fingiu depois que meditava, que reunia idéas dispersas. Quem a visse não duvidaria de que iria manifestar os sentimentos d'alma, que ouvia a voz da consciencia, para poder dar opinião franca e sincera sobre o que acabava de ser consultada. Seu olhar vivo e investigador tornou-se amortecido e terno ; parecia estacionada diante de um quadro que a commovia. A feiticeira lia no coração do commissario como n'um livro aberto . Devassava-lhe os mais occultos pensamentos. A
sua resposta abriria o campo ás negociações. O preço estaria na razão directa das difficuldades apresentadas á execução do plano. lhe : Quiteria olhou com ternura para Arruda e falloua - Pede-me v. s.ª um conselho, quer ouvir-me ; fallar-lhe-hei como se tivesse a felicidade de ser sua mãe ; depois como uma creatura a quem os longos annos de experiencia custaram muitas lagrimas : o casamento é um passo arriscado, a ponto de S. Paulo dizer que será melhor não casar, mas a igreja o quer, devemos obedecer-lhe. Arruda deu um fundo suspiro ouvindo a opinião do santo, o que não passou desapercebido á feiticeira. -Porém esse modo de pensar de S. Paulo não nos deve contrariar ; não segue-se que devamos condemnar o casamento. Santo Agostinho apresenta em seus sermões o solteirão como a serpente que, na solidão do covil, machína a perdição dos que d'ella se aproximam. E eu, cuja unica felicidade n'esta vida foi devida aos annos em que desfructei as delicias do matrimonio, considero o setimo sacramento da igreja como a unica ventura n'este mundo cheio de trabalho. É v. s.ª um homem virtuoso, e a escolhida de seu coração uma moça educada na santa religião de Christo. Que motivos terá ella para recusar a mão de tão distincto cavalheiro? É verdade que o amor tem caprichos e eu que o diga. Acho prudente consultal-a. -Aonde e de que modo?
-Tudo é facil quando temos perseverança ajudada das orações, dos pedidos aos santos da côrte do céo. Não me offereço para consultar a vontade da moça, porque entendo que essa consulta deve ser feita por v. s.ª - Acho muito acertado o seu parecer. Comprometto-me a proporcionar-lhe occasião de entender-se com ella aqui mesmo n'este humilde rancho. -Quando ? -Vou fazer uma trezena ao Senhor Padre Santo Antonio, e concluida que seja, será no dia que quizer. -Muito bem, parece que tudo se combina para felicitar-me. Quando começa a devoção? -Hoje mesmo, mas é preciso velas de cêra branca. Não seja esta a duvida; aqui estão cincoenta mil reis para as despezas. -Agradeço-lhe pelo Senhor Padre Santo Antonio. Farei hoje mesmo o sonho de Santa Helena, pelo qual pretendo vêr o futuro de tão virtuoso par. Já sei que verei campos verdes, aguas correntes, aves cantando. -Feliz coincidencia ! Finda-se a trezena no dia de meu anniversario natalicio. Bom agouro ! Reunirei á noite alguns amigos e será aqui se m'o permittir. guas. A casa é de v. s.ª, temo sómente as más lin-
-Não haverá festa, apenas trarei minha familia, irmãs e tia, alguns amigos para, reunidos, passarmos parte da noite. -Eu não farei parte da reunião. Estarei recolhida a meu quarto rezando como costumo. Posso ficar certo como na ultima noite da trezena conversarei aqui com D. Carolina ? Creia em minha boa vontade. Ainda uma vez agradecido. Arruda retirou-se convencido do triumpho: Carolina seria sua amante . Emquanto o commissario e a feiticeira urdiam aquella trama, Freitas, cada dia mais desalentado, pensava no futuro. As primeiras chuvas do falso inverno de 1878, o fuzilar dos relampagos e os estampidos dos trovões em 5 de janeiro trouxeram-lhe vivas recordações do sertão. Elle vivia como a planta exotica nos primeiros tempos da acclimação. A energia vivificada pelo amor á familia e de sobejo provada nos transes dolorosos da mais penosa peregrinação ia-se-lhe amortecendo aos poucos. O meditar de todos os dias, de todos os instantes, o cansaço da velhice, as tribulações da alma e tudo sem uma esperança, diminuiam os meios de acção do seu espirito forte . Freitas já não olhava sereno para o perigo, não havia aquella firmeza de outr'ora nas linhas do rosto quando a dôr despedaçava-lhe o coração. A calma das feições, embora tivesse a alma ferida pelos aguilhões do pezar, havia desapparecido !
A lagrima, como legitima expansão do sentimento, cahia-lhe das faces por qualquer contrariedade . Nunca o-tinham visto chorar e agora o fazia diariamente. Via-se pobre e humilhado. Ás vezes olhava para a estrada que o tinha conduzido áquelle porto e que fôra testemunha de seu heroismo, e sentia-se fraco para regressar. Perdera a coragem, a força, talvez para sempre. Teve um dia uma esperança; um raio bemfazejo dardejou-lhe n'alma ao mesmo tempo que salvava a artilheria do espaço e a chuva regava a terra. Chegou a reanimar-se, a ter um momento de energia e ergueu-se disposto a enfrentar os perigos com a coragem de outr'ora. Luctaria se a esperança não o abandonasse. Desilludido, sem nada que o acalorasse, cahiu de novo em profunda adynamia. Custou-lhe muito assistir á queda de mais uma esperança, e, abandonado sómente ao recurso aviltante da esmola, sentiu-se degradado para sempre. O inverno tinha apenas sido uma illusão, um sonho que a mente do infeliz povo acalentára alguns dias. Os mais crédulos, animados com a idéa de uma boa colheita, com um esforço heroico e supremo, semearam a terra. Mal a germinação se completou, ainda bem os cotyledones do embryão não se desuniram para deixar sahir a hasticula, foram crestados pelo sol! Tudo não passou de uma illusão, mas de uma illusão que custou muitos sacrificios e muitas lagrimas. A familia cearense debandava-se de novo. Os que
tinham ficado no torrão natal esperando a aurora de uma nova época, abandonavam amedrontados a casa da infancia e fugiam para a capital ! O anno de 1878 seria calamitoso. A continuação do flagello, contra a previsão de todos que ignoravam a periodicidade das sêccas, teria consequencias ainda mais desastradas, se não cahisse a situação conservadora e não fossem chamados os liberaes ao poder. O novo governo encontrou a provincia nas mais desoladoras circumstancias. Na Fortaleza mais de cento e quarenta mil almas de população adventicia abarracadas em roda da cidade e, por cumulo de incuria do conselheiro Aguiar, nos edificios publicos e casas particulares do centro da capital. Toda a provincia em deploravel estado de abatimento pela certeza da continuação do flagello, sem viveres e sem recursos, e a luctar com a peste que se havia desenvolvido das praias ao sertão, se aniquilaria, se o governo que subia, com o mais acrisolado patriotismo, não procurasse por todos os meios attenuar os effeitos do mal que a causticava.
X Afeiticeira, fiel á promessa que fizera ao commissario, foi no dia em que acabava a trezena a casa de Freitas. -Acabo hoje uma devoção que fiz ao Senhor Padre Santo Antonio, para que tão bom e milagroso santo interceda por nós a N. S. Jesus Christo. Foi uma trezena. Desejava que no ultimo dia de oração se reunissem os fieis da visinhança, afim de juntarem suas supplicas em favor do infeliz povo torturado pela sêcca. Á vista d'isso, venho pedir á minha respeitavel amiga o favor de ir assistir com sua familia a essa piedosa pratica da religião. Josepha ouviu com attenção as palavras de Quiteria e respondeu-lhe : - Talvez não me seja possivel ajudal-a em seus *
piedosos exercicios. Acho-me doente e por esse motivo impossibilitada de sahir de casa. Certa de que attenderá as razões que apresento, aproveito a оссаsião para agradecer-lhe a attenção. Crendo piamente nos sentimentos religiosos de minha boa amiga, não posso deixar de acreditar em suas palavras ; o seu respeitavel rosto me affirma que soffre. Quando chegamos a meia idade tudo nos persegue. Quando somos moços a saude é inalteravel. Veja D. Carolina, forte e robusta, sympathica e formosa como uma rosa Amelia ! Qual, D. Quiteria, ella não é mais aquella menina viva quando moravamos no sertão. Se minha amiga não podér ir, consinta que a sua bella filha vá á trezena perfumar com sua innocencia, com suas virtudes as nossas preces. Eu virei buscal-a . Póde ser, entretanto, que eu melhore e possa ir tambem . -Deus o permitta. Vá, minha filha, pedir aos céos para darem fim a este flagello da sêcca e rogar pela saude de sua santa mãe, disse a feiticeira acariciando Carolina . Se eu não fôr, ella irá, D. Quiteria. Eu as espero. Até á noite, disse a feiticeira se despedindo. Quiteria encontrou-se com Simeão á porta de sua casa e entraram . Sei que volta da missa, onde por certo não se esqueceu de mim ; tive sem duvida um Padre-Nosso ?
-Um terço como sempre e de quebra uma corôa a S. Rita dos Impossiveis, afim de auxilial-o hoje na grande batalha de seu coração. lia? -Então é hoje ? - Sem duvida, acabo a trezena como prometti. E o convite ? Está feito. Será possivel ? É certo. Então vem D. Carolina com toda a fami Ella e talvez D. Josepha. Melhor... Quanta confiança depositam na senhora os seus visinhos ! Parece-me um sonho ! É a posse da felicidade. Como me sinto feliz ! A senhora assistirá ao meu casamento . - Como é um sacramento, irei, mas como a menor de suas creadas. Não, como uma das testemunhas. - Quem sou eu ! A que horas finda a trezena ? Ás oito horas da noite. Estarei aqui com minha familia. Não repare encontrar a sala aberta e eu no meu quarto. As minhas obrigações para com as santas almas me prohibem de assistir qualquer reunião por mais intima que seja. ---Então faça-me um favor: depois da devoção deixe sahirem todos os devotos. Se D. Carolina vier
só, fique com ella na sala até que eu chegue para consultal-a . -E se vier com a mãe ? N'esse caso a senhora levará D. Josepha para um quarto, afim de lhe confiar um segredo qualquer e deixará a moça só na sala. Devo encontral-a sósinha para pedir sua opinião sobre o casamento. de-a. Será como diz . Mandarei mais tarde deixar uma cesta ; guar A casa é de v. s.a Aqui tem esta quantia para dar de esmolas hoje em minha intenção. E Simeão entregou vinte mil reis á feiticeira. - Quanta generosidade ! Agradeço-lhe em nome dos pobres tão grande esmola; irei pessoalmente distribuir com os necessitados. Simeão retirou-se contentissimo . Quiteria, emquanto pôde ser ouvida do commissario, rogou-lhe mil bens, depois abriu a velha mala de pregaria, guardou o dinheiro dizendo : -Pobre sou eu que não tenho papae governo, nem sou commissario. Fica ahi para os tempos magros, meu dinheiro. Como está generoso dando logo vinte mil reis para esmolas aos pobres ! Ora as devotas devem pedir por elle, mas para Deus o castigar das diabruras que tem feito e não para lhe dar o céo. Não é mais do que passar a vida a seduzir as filhas alheias e depois da morte um cantinho no reino da gloria ! Vá-se apromptando, meu commissario, para se
divertir em uma caldeira de chumbo derretido na casa de Satanaz . Arruda ancioso esperava a noite. Havia convidado alguns de seus companheiros de libertinagem para uma orgia na casa de Quiteria. Ao pagode não deviam faltar mulheres e alcool. Uma grande cesta com diversos vinhos, dôces e charutos mandou elle para a casa da feiticeira. Na incerteza de ficar de posse de Carolina n'aquelle dia, mandou vir á sua presença dois de seus afamados chefes de turmas e ordenou-lhes de levar, ás nove horas da noite, a casa de Quiteria do Cabo cinco mulheres das mais novas e mais formosas do abarracamento. Dadas essas ordens, mandou aquelles empregados que fizessem vir a seu gabinete o companheiro João Azougue. Era elle um retirante que se havia celebrisado pela força, agilidade, perversidade e coragem. A sós com elle disse-lhe Arruda : -Nunca precisei tanto de seus serviços. Estou mettido em uma empreza arriscada e será hoje o dia do triumpho, senão o da derrota. O patrão dirá o que é preciso fazer para se ganhar. Se forem precisos cem mortos, a ponta de minha faca ainda não se quebrou, e das ultimas que fiz, a folha ainda conserva manchas de sangue. Arruda empallideceu e disse : -Nadade mortes. Sabes da casa da feiticeira Quiteria do Cabo ?
Não é uma casa perto da que o patrão fez ha pouco tempo? Exactamente. Em frente a ella ha um cajueiro. Ás oito horas da noite tu deves estar escondido á sombra da arvore, mas de um ponto onde tenhas debaixo de vista a sala da feiticeira. Me verás entrar lá, sentar-me e conversar com uma moça loura e bonita. Não deves perder um só de meus movimentos. Quando eu montar uma perna sobre a outra é a occasião, é o signal. Tu partirás como uma flecha, entrarás de sala dentro, tomarás a moça nos braços e dispararás n'uma carreira vertiginosa para o Retiro. Eu te seguirei a cavallo. -E se ella gritar? -Mostra-lhe tua faca, ameaça-a, mas nem de leve a toques. E se não se calar? Que importa isso ? Tens que caminhar apenas um quarto de legua até á casa do Retiro por uma vereda deserta, ninguem te alcançará. Atua carreira é veloz como a do veado. As ordens são estas, d'ellas não te afastes uma linha . -Serão cumpridas, patrão.
XI Ás oito horas da noite estava Simeão de Arruda em casa de Quiteriado Cabo. A sala estava deserta e illuminada por duas velas de carnahuba. Mobilavam-na algumas cadeiras de pau, sem encosto, uma mesa, e quatro quadros de madeira com retratos de santos ornavam as paredes. O commissario entrou e sentou-se. Reinava alli completo silencio. Nãopareciamorar alguem n'aquella casa ! Passava-se o tempo e não se realisava o que a feiticeira havia garantido. João Azougue, como a féra, escondido á sombra do cajueiro, aguardava o momento de se lançar sobre a victima. Nove horas marcou o relogio e Carolina não appa-
recia! Arruda estava a estourar de colera. Quiteria o havia illudido. Elle pensava em se vingar d'ella, quando chegaram á porta Xenophonte e mais alguns companheiros de pagode. Entraram e foi immediatamente aberta a cesta de bebidas . Xenophonte foi o primeiro a examinar as provisões ; depois, olhou para os quadros que pendiam da parede, e ia fazer o elogio de alguns dos canonisados, quando Simeão segredou-lhe ao ouvido algumas palavras . Um dos quadros representava S. Pedro abrindo as portas do céo ; foi o que Xenophonte viu primeiro e Arruda não teve tempo de impedir que o seu conviva dissesse : -Aqui está o carcereiro-mór do céo ! ... Quiteria provavelmente ouviu o que disseram do santo, porque sahiu lá de dentro o som de algumas palavras . Carolina não apparecia. O commissario estava exasperado com o logro, pensava que a feiticeira o illudira. Quiteria do Cabo, pelo contrario, havia empregado todos os esforços para que Josepha consentisse em ir a filha á trezena. Á hora marcada apresentou-se para acompanhar a moça. A promessa de Josepha fôra feita sem ouvir a opinião do marido e d'ahi resultou á feiticeira o desgosto de voltar só. Carolina recusou com obstinação acompanhar a Quiteria ; parecia adivinhar. Á hora em que deveria ser roubada e prostituida, ella entoava a oração da !
noite, humildemente prostrada diante d'uma imagem da Virgem, que lhe havia dado o padrinho vigario no dia da primeira communhão. zella. Carolina recolhia-se immaculada ao leito de don O commissario estava desapontado. O seu primeiro pensamento, quando se convenceu do logro da feiticeira, foi entrar no quarto de Quiteria e quebrar-lhe a pancadas todos os ossos, e depois penetrar á força em casa de Freitas, tirar-lhe a filha e conduzil-a aonde os seus gritos, os seus prantos não podessem ser ouvidos. Faria isso se aquella familia ainda dormisse no descampado. O arrombamento d'uma casa, entretanto, não era coisa tão facil, e exasperado exclamou : -Armei-os contra mim ! Se ainda estivessem na palhoça, eu satisfaria os meus desejos embora para isso fosse preciso a faca e a perversidade de João Azougue. Seus companheiros ouviram-no, mas não comprehenderam-no. João Azougue foi retirado da sentinella e veio para a sala de Quiteria. Arruda estava desesperado, só havia um recurso para esquecer a contrariedade : era o alcool. Algumas garrafas de champagne foram abertas e o commissario foi o primeiro a encher o estomago do delicioso liquido. Todos beberam. Pouco tempo gastou o alcool para entrar na circulação, chegar ao cerebro e congestional-o.
Estavam pouco mais ou menos dominados pelo alcoolismo no periodo de excitação nervosa, quando entraram os chefes de turma acompanhando cinco mulheres. Xenophonte foi o primeiro a saudal-as de copo em punho : A vós, mimosas flores do sertão ! O mundo é o amor e o alcool ! Bebamos, companheiros, em regosijo do comparecimento de tão formosas creaturas . O vinho passou das garrafas ás taças e d'estas ao estomago. Beberam homens e mulheres, excepto uma moça que se escondia atraz das companheiras. Ella era muito nova, parecia ter quatorze annos, morena e de olhos negros. Tinha a physionomia triste e as palpebras roseas de chorar. Xenophonte notou que ella não tomava parte no brinde, aproximou-se d'ella e entregou-lhe uma taça cheia de vinho. Ella recusou. Um dos chefes de turma, Roque da Piedade, segredou-lhe ao ouvido uma ameaça e a infeliz tremula de susto recebeu o copo. Xenophonte pediu attenção e fallou : - Que vem fazer o pranto n'esta festa? Para que a tristeza vem escurecer com suas côres o quadro de nossas alegrias ? N'esta idade, mulher, quando se abre á tua frente um mundo de illusões e de esperanças, quando as horas dôces do amor se aproximam, para que consentes a lagrima do pezar queimar-te a face ?! Não chores, bebe e goza. Afasta de tua imaginação a idéa triste que te persegue. Entre
ga-te ao vinho e ao amor. Eu brindo as sensações que te esperam. Up ! up ! up ! Os copos esvaziaram-se. Victorina, assim se chamava a mulher que chorava, não quiz beber. Roque impoz-lhe com um gesto, e o vinho foi ingerido entre soluços e lagrimas. Arruda indagou quem era Victorina e porque chorava. Disseram-lhe os empregados que aquella moça tinha perdido os paes havia quatro dias, que ainda era virgem, que não tinha parentes na Fortaleza, e como tinha ficado só no mundo, devia pertencer ao mundo e por isso haviam-na trazido para o commissario servir-se d'ella. Simeão ouviu as informações sem commover-se. Não bebeu mais, era preciso conservar a inteireza physica. Não seria Carolina a victima, seria Victorina. Um dos amigos de Arruda, conhecido pelo pseudonymo de D. Ribas, um dos mais libertinos e viciados, tendo ouvido a historia da orphã, levantou-se cambaleando e pediu a palavra : -Eu brindo a orpha de quatro dias, a filha do povo. Compete-nos a gloria de fazel-a feliz. As sensações que gozamos no lupanar são as mesmas que sentimos no leito conjugal. O matrimonio e o adulterio produzem os mesmos gozos. Aquelle foi auctorisado por um homem vestido de sotaina, este sanccionado pelo amor de duas creaturas que se queriam unir. Companheiros, sau-
demos com enthusiasmo a joven sertaneja. Viva ! viva ! viva ! Victorina ouviu o som d'aquellas palavras, já meio embriagada. Ajudaram-na a levantar e fizeramna beber mais. Estava quasi ébria, não tinha consciencia de seus actos. As outras mulheres, veteranasna embriaguez, ainda não se tinham rendido completamente ao effeito do alcool. Tinham as faces incendiadas, os olhos injectados, sentiam os moveis andar á roda e algumas cambaleavam . Xenophonte estava completamente bebado, fallava com difficuldade e não obstante pediu a palavra : -Meus senhores, minhas senhoras. Inspirado nas palavras de meu amigo D. Ribas, vou desenvolver a these que elle apresentou. O que ha n'este mundo que não seja materia organica e inorganica ? Quem poderá affirmar que existe alma e que seja immortal ? Deixemos essa crença para os imbecis, deixemol-a como arma dos padres, d'esses hypocritas de batina, deixemol-a para as beatas, as feiticeiras no uso de suas bruxarias. Quiteria soltou um gemido longo, bufou do fundo do quarto. Xenophonte continuou : Eu sou materialista. Deus para mim é uma palavra sem sentido. Desde a monera até o elephante, desde o protococus até o sycomoro, desde o atomo até á rocha, só se precisou do tempo, luz, agua e calor !
Xenophonte não podia ligar mais as idéas, vencido pelo alcoolismo, cahiu sobre a cadeira e ficou a resmungar baixinho palavras sem sentido. Quiteria rezava no seu quarto o Crédo, medrosa de um desacato physico á sua individualidade. As velas que estavam accesas, as unicas que haviam, bruxuleavam quasi a se extinguir. Aquella intermittencia de luz, a alternativa de claridade e escuridão, dava ao quadro da orgia uns tons sombrios e phantasticos. Escurecia; as figuras dos pagodistas confundiam-se na pretidão da noite, até que uma nova scintillação brilhava como um clarão baço e duvidoso, e por um instante permittia a visão da bacchanal. Via-se então a crapula em toda a nudeza. As prostitutas espojavam-se no chão, tomando posturas indecentes, provocando os amantes com os estimulos animaes e sem o correctivo do pudor. Simeão de Arruda, menos alcoolisado que os companheiros, abraçava-se com Victorina que, completamente ébria, n'um automatismo absoluto, cedia a todos os seus caprichos. As luzes se apagaram. Nem mais uma scintillação permittiu vêr a onda de bebados a se revolverem sem consciencia de sua degradação. Apenas ouve-se o tinir de copos que se quebram, o cahir de cadeiras que se viram, as gargalhadas das devassas e os gemidos da innocente ! Fervia a bacchanal ! um som abafado como de um aulido ouvia-se de vez em quando alternado com
um estertor, mas um estertor de gozo sensual e não da ultima agonia. A noite se passou toda assim. A embriaguez dissipou-se pela manhã com o abaixamento da temperatura . Os pagodistas levantaram-se ; tinham no semblante estampada a estupidez do vicio. Os chapéos estavam amarrotados, as gravatas tinham sahido dos dominios do collarinho e laçavam o pescoço nú. Concertaram as roupas e depois esfregaram com força os rostos, afim de activar a circulação da pelle e desapparecerem as manchas da sensualidade. Medrosos da luz, foram sahindo um a um, olhando para todos os lados e prestando attenção a tudo que se movia ! As mulheres sahiram tambem por sua vez. A crapula havia deixado n'ellas signaes mais fundos do que nos homens. Algumas tinham os olhos completamente injectados e a pelle das faces coberta de ligeiras ecchymoses vermelhas. Victorina sahiu incorporada á turma das provectas no vicio. Ainda inconsciente de sua perdição e meia aturdida pelo alcoolismo, seguia para o abarracamento. Tinha os labios e faces pisadas e sem aquella frescura e morbidez de sua idade e sexo. Uma noite de crapula absorveu os perfumes e aniquilou os encantos que quatorze primaveras haviam creado n'aquella plantinha infeliz.
XII Quiteria do Cabo, quando teve certeza de que ninguem mais se achava na sala, levantou-se. Que noite passou ella ! Havia de algum modo prevenido que os visinhos presenciassem a orgia do commissario. Muitos dias antes espalhou a noticia do apparecimento de um phantasma na noite em que findasse a trezena : era uma alma penada que sahiria em penitencia pelas ruas logo que dessem nove horas, e prevenia aos devotos para que se conservassem recolhidos ás suas casas. A feiticeira rezou o Crédo e o acto de contricção, e armada de vassoura se dirigiu para a sala de entrada. Ia tremula, suppondo encontrar o demonio escondido em algum canto. Entrou pé ante pé observando tudo. Parou no centro do aposento e resfole21
gou aquella atmosphera saturada de vapores de aldehyde e de albumina animal. A feiticeira sentiu a pituitaria impressionar-se com aquelles cheiros, e chegadas que foram ao cerebro aquellas impressões, seu olhar se amorteceu n'um requebro voluptuoso. A sensualidade adormecida pelos annos de continencia despertou ; aquelle cheiro era o mesmo que sentia, nas noites de crapula, junto do amante embriagado e libidinoso . Quiteria ficaria horas inteiras no gozo d'aquella recordação carnal se a necessidade extrema de pôr os moveis da sala em ordem não a arrancasse d'aquelle torpor. Era grande a desordem da mobilia ; não havia uma cadeira de pé, uma garrafa que não tivesse rolado, um copo inteiro. No ladrilho algumas manchas de sangue e de vinho . A feiticeira começava a arrumação quando chega-lhe á porta D. Josepha acompanhada da filha. Quiteria perturbou-se, mas em tempo pôde dominar-se. A mulher de Freitas vinha desculpar-se de sua falta. A feiticeira, depois de chorar e de se maldizer muito, contou o que se tinha passado em sua casa depois da oração. Para inspirar mais confiança a Josepha levou-a para o quarto e em segredo disse que alguns libertinos e vadios tinham-lhe invadido a casa, que ella quiz resistir, mas foi repellida com insultos e pancadas, sendo obrigada, para escapar á morte e
* á sanha dos perversos, a abandonar a sala é se fechar no quarto. Josepha acreditou piamente nas palavras de Quiteria e consolou-a. Carolina, emquanto a mãe conversava com a feiticeira, sentada na sala com os olhos fitos no chão, pensava em Edmundo. A abstracção tinha intervallos. Em um d'esses instantes, mais em contacto com o que a cercava, viu que muito perto de si estava uma carteira no meio de alguns papeis. Olhou-os com attenção e viu que eram cartas, e que entre outros nomes havia o de seu pae. Levantou-se, apanhou os papeis e tirou d'elles duas cartas subscriptas ao coronel Manoel de Freitas. Ao lado dos papeis havia um maço de notas do thesouro. Carolina estremeceu vendo o dinheiro, não o tocou e voltou a sentar-se. A moça recolheu as cartas ao bolso do vestido, e anciosa esperava que a mãe acabasse a conferencia. Josepha não se demorou muito a voltar á sala acompanhada de Quiteria, de quem com a filha se despediu depois de ter ouvido mil agradecimentos. Afeiticeira, logo que se viusó, continuou a arrumação da sala, mas de porta fechada. Estava tudo em ordem e ella concluia a varredella quando parou de repente a vassoura, recuou como se tivesse visto uma cascavel a seus pés. Os olhos verdes moveram-se rapidos nas orbitas, mordeu os beiços, aproximou-se depois do objecto que a fizera recuar e apanhou-o do chão . Era a carteira do commissario Simeão de Arruda. Quiteria examinou os papeis, reparou as notas do
thesouro, contou-as, dobrou-as, reuniu os documentos que estavam espalhados no ladrilho e recolheu tudo á carteira. O dinheiro exacerbava-lhe a cubiça e a impaciencia de occultal-o. A cada momento ouvia bater á porta e entrar o dono reclamando-o. Era preciso uma resolução e foi a astucia quem a ditou. Abriu a mala e n'ella recolheu mais aquella quantia pertencente aos soccorros publicos. Inquietavam-na agora os dizeres dos papeis. O que diriam elles ! Se soubesse lêr ! Olhou-os muitas vezes ainda antes de guardal-os e tratou da concepção de um plano, cujo fim seria disfarçar o furto. A carteira era a mesma do commissario, conheceu ella. Elle viria reclamal-a e talvez não se demorasse. Era preciso uma resolução prompta e Quiteria voltou á sala, dispoz os moveis como havia encontrado, espalhou o cisco, virou garrafas, emfim ninguem notaria differença no scenario. Feito isto, se recolheu ao quarto, depois de ter aberto a porta da entrada da casa. Preparou-se para a comedia amarrando um grande lenço encarnado na cabeça e deitou-se na rêde. Arruda não pôde almoçar, embora tivesse tomado para diminuir a inappetencia do alcoolismo uma boa dóse de pyretic saline. Levaria o resto do dia n'essa apathia dos sentidos se, por um acaso, não désse pela falta da carteira. O commissario ficou attonito com a certeza do prejuizo. Não pensou mais senão em rehavel-a ; sem duvida acreditou achal-a na sala de Quiteria, e para lá se dirigiu.
Chegou á porta da feiticeira e espreitou. Quiteria, o havendo presentido, começou a soltar gemidos doridos e compassados. Arruda pôz-se de pé no batente da porta e examinava com olhar investigador a pequena sala. Tudo estava como havia deixado, parecendo-lhe não ter entrado alli ninguem. Ia voltar quando lembrou-se de que uma entrevista com a feiticeira podia oriental-o. Bateu palmas e teve em resposta um gemido magoado. Esperou alguns minutos e tornou a annunciar-se ; d'esta vez ouviu Quiteria dizer muito a custo : .. -Se... é... christão... filho... de... Deus. entre... me... valha... É Simeão de Arruda. Ai... ai... que... dôr... morro... sem... confissão... soccorro... O commissario não se fez esperar e entrou para o quarto de Quiteria. Ella representava com admiravel habilidade o seu papel. Quem a visse toda envolvida em um lençol, com o rosto extremamente pallido, profundamente sulcado, os olhos cerrados, as feições n'uma decomposição assustadora, as mãos aveladas e frias, cruzadas sobre o peito, acreditaria que ella estava moribunda. Simeão contemplou-a por alguns minutos e plenamente convencido de seus atrozes soffrimentos perguntou : -Está enferma, D. Quiteria? -Ás... portas... da... morte... -
Quer um medico ? Um... padre... É preciso ter quem cuide da senhora. Sósinha n'esta casa não vai bem. Quer que chame os seus visinhos ? Não... vêm... ai... ai... ai... ai... Ainda ninguem veio hoje aqui ? D. Josepha... e... a... filha. Não quer medico ? .. Ámanhã... se... fôr... viva... quero... ir... para... o hospital . Então até ámanhã. Jesus... ai... ai... ai... eu... morro... ai... Arruda sahiu crente que Quiteria estava ás portas da morte e que a carteira fôra apanhada pela mulher ou pela filha de Freitas. A feiticeira continuou a gemer por espaço de uma hora. Logo que teve certeza de que Simeão ia longe, calou-se e foi tratar da vida. Fechou a porta da rua e tratou de quebrar o jejum, o seu maior auxiliar na farça que representára, fazendo-a empallidecer mais e esfriando-lhe as extremidades.
XIII Na pequena sala do coronel, reunidos Freitas , a mulher e a filha liam as cartas que Carolina achou em casa de Quiteria. Concluida a leitura daprimeira, que era de Ignacio da Paixão, passaram á segunda. Manoelde Freitas lia em voz alta : <<Meu respeitavel amigo.-Minha carta vai surprehendel-o, não só por ser escripta do Recife, como tambem pelos motivos de minha viagem. Fui victima de uma traição. Em minha ultima visita a sua casa, prometti aproximar-me de Simeão de Arruda para conhecel-o e depois julgal-o, e esse contacto mais intimo foi-me fatal. O laço que armou foi tão bem urdido que n'elle cahiria o mais astuto. Convidou-me paraum passeio a bordo, levou-me ao navio, e quan-
do o enjôo me prostrou de todo, elle voltou para terra e deixou-me entre os infelizes que expatriavam ! Como dóe deixar forçadamente o torrão natal ! Adormecer contemplando o azulino céo da patria e despertar rodeado de irmãos desgraçados sem nada mais que a prôa immunda de um navio, sem outra esperança a não ser um pedaço de pão esmolado na terra alheia, sem outra aspiração mais que um desejo vehemente de vingança ! Simeão de Arruda desterrou-me á falsa-fé, porque não cogitou da intensidade de meu odio e da grandeza de minha vingança. Como é sombrio um deposito de retirantes ! Como desalenta vêr uma familia enorme a chorar noite e dia sem esperança de um conforto ! A ilha do Pina foi o logar escolhido para o nosso supplicio. Além de todas as dôres do corpo e d'alma, por cumulo de crueldade fecham-nos as cisternas ; até agua nos dão de ração, por esmola ! Peço-lhe de apresentar á familia os meus protestos de amizade. Quando eu fôr livre, o meu primeiro passo será em rumo de minha terra, a minha primeira idéa a vingança, o castigo de meu algoz . Adeus . Seu amigo verdadeiro, Edmundo da Silveira » . Freitas findou a leitura da carta indignado e commovido. Josepha meditava e Carolina, a quem aquelle desastre mais feria, chorava em silencio. Nenhum commentava o facto. O coronel acreditava um aviso da Providencia. Urgia uma medida que afastasse o commissario de sua casa. Cada vez sentia-se mais acabrunhado. A carta do amigo veio-lhe
atribular mais o espirito já tão abatido pelas rudes contrariedades. Cumpria-lhe rejeitar a protecção do commissario, evitar o seu contacto. Que motivos porém apresentaria para assim proceder, quando Arruda nunca havia-lhe faltado com o respeito, pelo contrario era todo attenções ? Josepha, depois de ter reflectido sobre o acontecimento e ouvido a opinião do marido, opinião muito desfavoravel ao caracter de Simeão, tornou-se afflicta e preoccupada. Não podia saber qual o interesse de Arruda desterrando Edmundo. Parecia-lhe tudo aquillo mais obra do acaso do que uma cilada. Freitas tinha juizo formado sobre o commissario. Por mais que a mulher mostrasse-lhe a possibilidade de ter sido a viagem de Edmundo toda casual, não se convencia. Carolina se conservava silenciosa em todas as discussões . Simeão de Arruda cogitava os meios a empregar, afim de obter sua carteira, que acreditava estar em poder de Manoel de Freitas. Ainda uma vez lembrouse da feiticeira para auxilial-o, porém a orgia a teria prevenido contra elle, e mesmo talvez Quiteria tivesse morrido da enfermidade que atacou-a no dia seguinte ao pagode em sua casa. Era preciso, entretanto, explorar o terreno. Uma visita a Freitas e alguns minutos com a feiticeira muito podiam oriental-o. O commissario, depois de estudar o modo de se apresentar ao coronel e a Quiteria, foi ter com elles. Freitas continuava triste e abatido. Não havia re-
medio para aquella atonia d'alma! Josepha conseguira, depois de judiciosas considerações, que guardasse silencio, ao menos por algum tempo, sobre as cartas encontradas por sua filha em casa de Quiteria. A feiticeira, restabelecida de seus incommodos phantasticos, gozava melhor que nunca uma saude tão robusta como aos vinte annos. O dinheiro de Simeão pôl-a mais esbelta, e mais rija a espinha, para supportar o peso de meio seculo. Todas as noites, depois do terço do costume, abria a mala e tirava a carteira do commissario, os cartões, os papeis e o dinheiro. Olhava para tudo, dava suspiros fundos e recolhia tudo ao escondrijo, dizendo : Não saber lêr ! Não ter aprendido a contar dinheiro grande ! ... Arruda encontrou Freitas sósinho sentado no tóro de madeira na sala de visita. Como tem passado, meu caro coronel ? A illustre familia como vai de saude ? -Arrastando o peso da velhice e sem nenhuma esperança de melhorar de sorte. Acha-se doente ? Está abatido. A vida da cidade com o ar insalubre tem decerto concorrido para alterar-lhe a saude . Os meus soffrimentos são moraes. Ao descrente tudo aborrece, tudo amargura e a morte, como termo aos padecimentos da vida, deve ser a unica e mais legitima aspiração. -Alguma contrariedade o afflige, estou certo, Josepha, que do interior da casa ouvia as pala-
vras do marido, appareceu na sala afim de desviar a conversação . -Bom dia, snr. Arruda, como v. s.ª tem passado ? Atarefado de serviço como sempre, minha senhora. Como passam os pequenos, D. Carolina ? -Vamos todos vivendo, graças á bondade e protecção de v. s. , melhor que nossos patricios. -O nosso coronel é que está hoje de mau humor! -Não é fóra de razão sua tristeza, não vê como o inverno illudiu, como a secca continúa ? Manoel esperava retirar-se por todo este mez. Contava que dia do Senhor S. José cahissem chuvas copiosas, mas n'esse dia o sol foi tão abrazador como grande depois o seu desanimo ! -Não deve desesperar, coronel; quem teve tanta coragem, tanta energia nos momentos mais criticos da vida, é de suppôr que não se abata já no fim da peleja. -Hontem eu tinha illesa minha independencia, não tinha comido o pão da esmola ! Conservava minha soberania e acreditava nunca perdel-a. Os favores, as protecções humilharam-me, não porque revoltassem o meu amor proprio, mas porque elles eram inspirados por sentimentos iniquos e reprovados. E sabe o senhor como degrada a esmola quando quem a distribue procura matar a fome e a honra... - Oh ! Manoel, como estás inconveniente ! Como
é que esqueces a civilidade ! Queira desculpar meu marido, snr. Arruda, são caprichos da velhice. Não se incommode, minha senhora. Comprehendo bem a posição do coronel e sei que os soffrimentos de todos os dias cançam o espirito. -Exactamente, snr. Arruda. Estou certa que sua bondade desculpará estes momentos de tedio de Manoel. Por quem é, não falle mais n'isso, D. Josepha. Sabe dizer quem mora alli ? E Simeão indicou a casa da feiticeira. -Uma pobre velha que vive de servir a Deus, chamada Quiteria, respondeu Josepha. A minha pergunta não é ociosa. Voltava do abarracamento uma noite d'essas e quando passava pela porta d'aquella casa ouvi na sala um barulho infernal ; aproximei-me e vi que alguns rapazes embriagados tinham invadido a casa da pobre velha, e insultavam-na. Apeei-me e obriguei-os a retiraremse. Estavam, como disse, bebados e foi-me preciso luctar com elles. Na lucta que foi um pouco séria, cahiu, sem que presentisse, a minha carteira que continha, além de papeis de importancia, mais de um conto de reis em cedulas grandes. Annunciei pelos jornaes e até hoje não me foram restituil-a. fez. Custou a v. s.ª um prejuizo a caridade que Certamente . Recommendo ao coronel e a D. Josepha, se porventura tiverem d'ella noticia, o favor de me avisarem. O dinheiro sei que não me resti-
tuirão, mas os papeis se me entregarem, darei cem mil reis de gratificação. Sim... disse friamente Manoel de Freitas. Ficará a meu cuidado, snr. commissario. - Queiram-me dar suas ordens, disse Arruda se despedindo. Simeão estava quasi convencido de que Freitas tinha em seu poder o dinheiro e os papeis. Sua colera era devida, sem duvida, á leitura da carta de Edmundo. Não podia admittir que o coronel alardeasse tanta independencia, tanta inteireza de caracter, sem ter na mala o seu dinheiro. Era preciso ser ouvida Quiteria, e para lá elle se dirigiu. A feiticeira tinha visto Simeão e escondida na rotula o esperava. Arruda entrou amavel como nunca. Ha de ter-me censurado pela ausencia que fiz de sua honrada casa, D. Quiteria? - Qual, meu capitão, nós os pobres somos pouco exigentes ; não temos direito de reclamar as visitas dos ricos. -Deixei de apparecer por motivos muito justos, a morte de um de meus melhores amigos. - Coitado ! passou v. s.ª por esse golpe ! A vida não é mais do que uma comedia. Quem viu Xenophonte cheio de vida, esperanças e illusões, e em poucas horas trocar um mundo de aspirações pelo estreito espaço de uma sepultura, descrê de todas as vaidades mundanas.
- Deus o tenha na gloria ; hoje á noite rezarei um terço por sua alma. Ore por sua alma de anjo . Deve estar no céo . Assim o creio . Console-se, meu capitão, esse é o caminho de todos nós . Custa-me tanto sua separação ! -Essas lembranças o magoam ; mudemos de conversa . Achou sua carteira ? - Qual ! já perdi a esperança. E quem disse-lhe que eu a havia perdido ? - D. Josepha. Eu tenho esperança de alcançal-a. Descobriu alguma coisa? Talvez... Diga-me o que sabe. -Tenha paciencia. Já sei que pegou o ladrão. Vi-o... Como? Sabe que lhe devo o meu coração. Desde o dia em que soube do seu prejuizo amarrei os meus santos e atropello as almas dos enforcados. Hontem fiz o responso do Senhor Padre Santo Antonio e vi. O que ? A carinha da ladrona. Como? Dentro da tigela d'agua. -E vê-se ?! E se conhece ?!
- Tão bem como o estou vendo. Ainda vi mais : pedi ao santo que queria vêr a carteira e o logar onde ella estava e vi. -Conte-me o resto. - A carteira está trancada em uma mala aqui na visinhança. amores . teira. E quem a achou ? A santinha loura por quem v. s.ª morre de -Forte desgraça ! -Por caridade não envergonhe a pobre familia. E o meu dinheiro ? Confia em mim? Muito. - Prometto-lhe que muito breve terá sua car- -Promette ? - Juro . Então ficamos justos. E n'um aperto de mão o commissario e a feiticeira sellaram o seu accordo.
XIV Victorina chegou ao abarracamento ainda meia aturdida pelo alcoolismo. O espirito foi pouco a pouco se desanuviando e n'uma penosa intellecção ficaria, se os acontecimentos da ultima noite, como sombras erradias e dispersas, não se agrupassem na imaginação, dando corpo a um phantasma hediondo. Eram aterradoras aquellas reminiscencias ! A orpha viu-se na sala da feiticeira cercada de meretrizes e libertinos. Parecia estar vendo o olhar insolito de Roque, ameaçador e terrivel ! Ainda soavam-lhe aos ouvidos as palavras dos pagodistas, os insultos dirigidos á sua innocencia, á sua virgindade. Ella cavava o passado e cada minuto que desapparecia servia de tumulo a uma esperança, era o berço de um desgosto ! Pensava, entretanto, que ainda cingia-lhe a fronte a coroa
de virgem. O espirito conservava as reminiscencias até o momento em que obrigaram-na a beber o segundo copo de vinho ; d'ahi em diante completamente ébria, em perfeita coma alcoolica, não teve mais consciencia de si ! Victorina sentia-se mal do corpo e da alma. Os musculos em flaccido quebrantamento relaxavam-se como se precisassem descançar de uma viagem longa e trabalhosa. Além do espreguiçamento enfadoso em que o corpo se estirava, vinha-lhe de quando em vez uma impressão dolorosa, uma dôr physica, mas que ruborisava-lhe as faces. A essa sensação succedia um pensamento, uma idéa aterradora que Victorina procurava afastar de si, e temia-a como um augurio de horrivel desgraça. O medo, o terror mesmo que ao espirito infundia aquella idéa, não podia ser por ella aniquilado, uma vez que existia a causa geradora dos padecimentos physicos : uma lesão traumatica. Emquanto a ferida não cicatrizasse, aquelles maus pensamentos não deixariam de quando em vez de fazer que o pudor lhe purpuriasse as faces. O sol já estava muito perto do occaso e Victorina, triste e desalentada até áquella hora, não pensou senão na orgia e em se libertar da autocracia de Simeão de Arruda. Roque da Piedade havia cortido a bebedeira, e roído de remorsos veio ter com a orphã : Boa tarde, Victorina. A moça estremeceu, occultou o rosto e começou a chorar. As lagrimas da orpha, muda resposta á
saudação do chefe de turma, commoveram-no. Humilhado pela generosidade de Victorina que se lamentava, mas não o maldizia, aproximou-se d'ella para consolal-a : Que tem, minha filha ? As palavras de Roque, ouviu-as a orpha com desespero e indignação. Considerou-as um escarneo á sua dôr, um alarde de prepotencia, e com um gesto de nobre altivez descobriu o rosto, mordeu como cobra os labios e deixou de chorar. Havia chegado a reacção ; outro sentimento a dominava agora. -Porque chorava, Victorina? Minha mãe ! ... A orpha sem prestar attenção a Roque, invocava a memoria de sua mãe, implorava-lhe um auxilio n'aquelle transe. -Console-se, minha filha, ella está no céo. - O senhor atreve-se a consolar-me ! pronuncía sem remorsos o nome de minha mãe ! Arrastou-me para uma festa de mulheres perdidas, sem lembrarse que sou tão innocente como a mais innocente de suas filhas ! -Duvido. - O senhor atreve-se a negar que quatro dias depois da morte de minha mãe obrigou-me a acompanhal-o a um pagode, ameaçando-me com a cadeia se resistisse ?! Roque havia-se irritado com a altivez com que a orpha lhe fallava, e insultou-a : - Convidei-a, porque vossê devia ser do mundo. *
sas... Miseravel ! duvída de minha honra ?! Console-se, menina, não apure muito as coi Meu Deus ! será possivel?! E duvída ainda ?! -O senhor é um infame ! me insulta, me calumnía ! Lembre-se de que tem filhas, que póde morrer amanhã e ellas ficarem á mercê dos Roques da Piedade e dos Simeões de Arruda. -A menina está-se esquentando muito ! Tenho um segredo a confiar-lhe, quer ouvir-me ? vil-o. Desejava mais nunca vêl-o, quanto mais ou- -Sabe que posso atiral-a á rua, deixal-a morrer de fome ? Se continúa a responder-me assim, lhe mostrarei para quanto presto. -- O senhor é tão perverso, quanto covarde ! Perdi minha mãe, posso morrer tambem. Antes que me enxote, eu sahirei, mas ninguem me levará mais a pagodes de prostitutas . O que pensa a menina que é ? O que são suas filhas . -Ellas nunca dormiram com libertinos. O commissario Simeão de Arruda nunca passou a noite com nenhuma. Victorina levantou-se como impellida por uma força sobrenatural e pôz-se á frente de Roque em posição ameaçadora : Mentes perverso ! e se suppões que temo morrer de fome no meio da rua, que a ração que
recebo me escravisa, a ponto de deixar de repellir offensas á minha honra, te illudes muito ! Se duvidas, repete a calumnia, que te mostrarei se saberei ou não punil-a ! Já não duvido que tenhas vendido ao commissario a honra de tuas filhas . Victorina disse essas palavras com vehemencia e com os punhos cerrados a pouca distancia das barbas de Roque. Foi o ultimo esforço de sua energia, o derradeiro lampejo da luz que bruxuleia e apaga-se.-Se me insulta, sua deshonra será publica. A orphã não podia mais luctar ; estava esmagada ao peso de um desgosto enorme. Deshonrada ! meu Deus ! E Victorina sentiu-se desalentar de todo. O chefe de turma aproveitou o estado apathico da orphã, aquelles momentos de perfeita demencia, em que a tribulação torna o espirito incapaz de qualquer concepção e contou-lhe como ella havia sido prostituida em casa da feiticeira por Simeão de Arruda. Victorina chorava desesperadamente emquanto Roque, com uma crueza que revoltava, assistia ao agonisar da ultima esperança d'aquelle coração ainda tão novo. No livro intimo de sua existencia só encontrava conforto nas recordações do passado, mas o passado cujas flores perfumavam os dias de sua innocencia infantil. O presente era aterrador como uma sepultura aberta, e marcava com um traço negro a primeira pagina de sua desgraça. O futuro era o futuro, mixto de duvidas e mysterios.
Tudo era triste para Victorina. Tinha a escolher ou a miseria ou o lupanar. Era preciso, entretanto, que ella sahisse do abarracamento, evitasse a presença do chefe de turma e do commissario. Ella deixou de chorar e disposta a affrontar o infortunio, abafando a dôr que a torturava, sahiu do abarracamento. Victorina seguiu sem destino pelas ruas da cidade. Passou por centenas de portas e não teve coragem de pedir uma esmola. Tinha fome, a inappetencia do alcoolismo havia desapparecido e a dôr moral serenado. Anoiteceu, e desalentada, fatigada, onde pernoitaria? As casas se fecharam todas, tudo se recolheu para dormir e ella ficou só na rua entregue ás lembranças de sua desgraça. O que fazer? para onde ir? foram os seus pensamentos, quando se viu sósinha em face da triste perspectiva da cidade adormecida, com as casas brancas e perfiladas n'um mutismo que fazia-lhe arripiar todos os póros da pelle. Seguiu e quasi assombrada com a solidão que se povoava de imaginarios duendes, ia gritar por soccorro quando viu que estava proxima de uma igreja, e que no adro havia gente. Encaminhou-se para lá, subiu os degraus do patamar e achou-se em frente da matriz da Fortaleza. Muitos companheiros, dos centos que mendigam pelas portas o pão e que não têm tecto, faziam d'alli o dormitorio. A luz irradiada dos combustores da rua deixava vêr a onda de esfomeados e maltrapilhos sobre o ladrilho do adro. Victorina incorporou-se a ella, estirou-se no chão e adormeceu. Em sua idade o somno não foge dos pezares
e nem dos rumores. Dormiu profundamente até seis horas da manhã. Ergueu-se pouco depois do sol. A roupa estava molhada do sereno da noite, que evaporando-se mais esfriava-lhe a pelle transida da frialdade da lage. Duas creanças e um velho tinham amanhecido mortos; os cadaveres ficaram no adro e os retirantes continuaram o caminho. Victorina foi tambem errar pela cidade; sentia fome, mas não tinha animo de pedir esmolas ! A necessidade de alimentar-se augmentava, ao passo que avergonha de pedir diminuia. Era meio dia e Victorina desesperada de fome entrou na primeira porta que encontrou aberta e pediu uma esmola. Appareceu-lhe uma mulher e despachou-a : -Tão moça, minha vadia! vá trabalhar. A orpha, chorando de vergonha, respondeu : - Quero trabalhar, minha senhora, dê-me serviço, e basta dar-me em pagamento um canto para dormir e um pouco de comida. -Todas dizem assim, mas depois que se acham fartas e enroupadas fogem levando comsigo o que podem furtar. A orpha seguiu chorando. A fome roía-lhe destomago, e ella sem esperança de soccorro pedia nas casas por que passava, não uma esmola, mas um logar de creada. Ninguem a quiz e poucos não zombaram da sua pretensão. O sol já pendia muito para o poente quando chegou ella casualmente á portaria do collegio de N. S. da Conceição. A porteira distribuia com os famintos os restos da mesa.
Era um espectaculo que contristava ; a turma de infelizes, de rostos escaveirados, macilentos, olhar amortecido e sem luz, como cães esfaimados dos monturos, a comer com avidez famelica até a ultima migalha que a porteira lançava na fralda da rôta camisa ou na ponta do immundo lençol ! Essa onda de esqueletos animados, composta de individuos de todas as idades e sexos, dava a côr mais sombria ao lutuoso quadro da miseria. Derramavam-se por toda a cidade e acocorados nos calçamentos das ruas catavam as migalhas que cahiam das saccas de viveres que eram conduzidas aos celleiros. E quando um punhado maior de legumes perdia-se no chão, elles se lançavam sobre as sementes com uma gula de porco, disputando o maior numero de grãos. N'essa lucta acotovelavam-se, esmurravam-se com a crueldade do faminto que peleja por um pedaço de pão ! Ás vezes acontecia afundar algumas das aduélas dos barris de mel, que do porto eram levados ao commercio, e o liquido vasando cahia e se misturava com o lixo das ruas; os famintos agrupavam-se e lambiam as pedras molhadas de mel até deixarem-nas completamente limpas ! Victorina olhou aterrada para os companheiros que comiam á porta do collegio. Ella estava ainda nutrida e forte. Tinha fome e pejo ao mesmo tempo de fazer parte d'aquella turma de esfomeados ; mas a fome, que tudo subjuga e avassalla, obrigou-a a incorporar-se ao cortejo da miseria. Envergonhada, aproximou-se da portaria. A religiosa deitou-lhe algu
mas migalhas no vestido. A orpha comeu com avidez e a porteira deu-lhe outra ração mais abundante. Victorina ajoelhou-se e agradeceu o beneficio. Aquella prova de gratidão raramente dada pelos retirantes que mendigavam, penhorou e surprehendeu a religiosa, e mais ainda quando a orphã ao retirar-se tomoulhe a mão e beijou. A porteira olhou commovida para Victorina e disse-lhe : Volte todos os dias, minha filha. A orpha sahiu sem destino. A sua vida era de vagabunda. Comia na portaria do collegio e dormia no adro da igreja. Algumas semanas viveu assim, até que um dia a religiosa, conhecendo a infeliz historia da orpha, interessou-se por ella e empregou-a como creada em casa de uma familia de sua amizade.
XV A distribuição de soccorros publicos em dinheiro e por meio de cartões o presidente liberal prohibiu-a logo que assumiu a administração da provincia. Manoel de Freitas vivia agora á custa dos viveres que semanalmente recebia de Simeão de Arruda. O commissario entendia que estava tardando muito a realisação de seu plano. Quando faziajustiça ao caracter de Freitasjulgando-o incapaz de umfurto, acreditava possivel a seducção de Carolina rendendo-a pela miseria. Ás vezes pensavaque estavam armados com o dinheiro e que não poderia realisar o seu intento. Era necessario pôl-os á prova e deixou de mandar-lhes rações. Chegou o sabbado do recebimento de viveres e em casa do coronelnão appareceu a esmola do governo. O
fogão da cozinha passou apagado ! Os meninos choravam com fome e Josepha, desalentada, levava em silencio aquelle transe á custa da indiscrição do marido. Carolina, sem articular uma queixa, pensava no noivo . Freitas concentrava em si todas aquellas agonias da familia, soffria por todos, porém mudo e taciturno. Não se havia rendido completamente á discrição da miseria. Meditava. Passaram-se dois dias de jejum e nem uma esperança de conforto ! O terceiro dia de fome veio encontrar o coronel de pé e disposto a luctar pela vida, e pela conservação da familia. Só havia um caminho a seguir para ganhar honradamente o pão, era o da pedreira. Freitas não reflectiu mais e seguiu para o Mucuripe. Tinha caminhado doze kilometros e no estado de abatimento em que se achava, era um sacrificio enorme, um acto de subido heroismo. Chegando á costa incorporou-se ao bando de retirantes que seguia para a pedreira . As praias adamantinas da Fortaleza eriçadas de dunas e cobertas em parte de uma vegetação enfezada de salsa e gramma, tinham uma perspectiva de deserto, que se casava bem com as figuras esqualidas das victimas da fome ! A solidão da beira-mar e as ondulações sonoras das vagas a se espreguiçarem na praia em plena baixa-mar, augmentavam as tristezas d'esses logares . Freitas chegou á pedreira e voltou trazendo uma pedra ao hombro. O calor do sol em duas leguas de
caminho, depois de um jejum de dois dias, inundava-lhe a fronte de um suor frio que se extravasava dos póros em abundantes gottas e banhava a pelle, da qual a fome mais accentuava a cyanose... Alquebrado pelos soffrimentos do corpo e d'alma, o velho coronel conduzia o fardo ás costas para ter direito a uma ração dos celleiros do governo. Era enorme o prestito da miseria. Seguia para a pagadoria quando alguns retirantes que iam na vanguarda pararam ao lado do trapiche. Os chefes de turma adiantaram-se para fazel-os seguir e fizeram alto tambem. Em poucos minutos a procissão estacou toda em derredor de uma leva de escravos que ia embarcar para o sul, e assistia a um espectaculo triste e commovedor. A partida de captivos pertencia ao commendador Prisco da Trindade. Todos uniformisados de panno azul com uma tristeza que doía vêr, obedeciam com um automatismo de charrúa ás ordens do corretor, que em crescente azafama os reunia em lotes de vinte, lotação de cadajangada. Algumas embarcações já tinham-se feito á véla levando a maior parte do magote ; ficava umajangada que, de panno ainda ferrado, recebia o resto dos escravos. Fazia parte do ultimo lote a filha de Filippa. A escravinha assistia áquelle espectaculo na feliz inconsciencia de sua idade. Ao lado da mãe continuaria contemplando o mar n'uma surpreza toda infantil se lhe fosse dado ser livre. Chegou o momento da separação. Filippa viu se aproximar o jangadeiro que devia arrancar-lhe dos braços o penhor
T querido do seu coração, levar para sempre a derradeira affeição da alma ! Em um instante ella mediu a enormidade do transe que devia fulminal-a. O marinheiro chegou-se a ella para conduzir a escravinha. A liberta abraça-se com a filha e beija-a muitas vezes chorando. O jangadeiro estacou dando tempo áquella dôr serenar. Viriato menos compassivo ordena : -Leve este diabinho que a maré já enche . O marinheiro arranca á força Bernardina dos braços de Filippa e leva-a para a jangada. A liberta acompanha a filha, que diz-lhe em prantos : -Mamãe, não me deixe levar ! não vou sem vossê. Estas palavras da creança, sua ultima supplica, Filippa ouviu quasi allucinada de dôr. Posta a bordo a ultima peça, a jangada abriu a véla e serena deslizou sobre as ondas. A liberta como louca ia atirar-se ao mar, seguir o batel que levava a vida de sua vida, quando alguem a prende pelo braço e diz: -Desgraçada Filippa, tem resignação ! A liberta pára, volta-se e reconhece seu antigo senhor. Um grito nervoso atravessa-lhe os labios e a epilepsia ainda uma vez fal-a cahir e estorcer-se em horridas convulsões. Freitas conseguiu, ajudado dos companheiros, tirar a liberta do alcance das ondas e ficaria velando a seu lado, se as turmas de retirantes não seguissem, e se um dos chefes de turma vendo-o ficar, não lhe dissesse :
-Fica, meu velho ? Perderá a ração e os filhos têm que jejuar mais um dia ! O coronel seguiu contrariado, porque ainda uma vez a fatalidade obrigava-o a ser ingrato para com Filippa. Freitas havia-se incorporado, sem saber, ás turmas de retirantes do abarracamento de Simeão de Arruda. Chegados que foram á pagadoria, depois de alojada a carga na estrada de Mecejana, fez-se a chamada e cada um recebeu quinhentas grammas de carne do sul. O commissario assistia á distribuição. Todos foram pagos, excepto o coronel, cujo nome não estava incluido na lista dos carregadores de pedras e não fôra chamado. Ia fechar-se a pagadoria, e Freitas, vendo que perdia o trabalho, aproximou-se do pagador e reclamou o seu direito. Arruda estava no armazem de viveres e viu a reclamação do coronel. A figura respeitavel do velho, seu ar sombrio e grave, pela primeira vez impressionavam o commissario, que, envergonhado de suas suspeitas, evitou a presença de Freitas, sentindo-se humilhado diante de si mesmo . Os empregados do armazem, acreditando mais nas necessidades do coronel do que na legitimidade dos seus direitos, deram-lhe uma ração. Freitas voltou a casa. Arruda pôde dominar o sentimento bom que o fizera pequenino diante do coronel, e quasi despeitado
comsigo mesmo por ter-se deixado humilhar, vultou á concepção de seu antigo plano. Pensava agora em raptar Carolina á força armada, uma vez que Freitas, luctador invencivel, não se entregava á discrição da fome.
XVI As victimas da secca soffriam atrozmente, quando uma nova época de dôr veio abrir mais uma pagina no livro negro de seus infortunios. A população adventicia da Fortaleza se elevava a cento e quarenta mil almas ! Muito criticas eram as circumstancias de toda a provincia, quando uma calamidade de outra especie veio augmentar com um enorme cortejo de padecimentos sua lastimosa situação. A variola acampou-se traiçoeiramente em derredor da cidade da Fortaleza e esperou o momento opportuno de dar o assalto . As condições da população proporcionaram ao mal os meios seguros de um ataque subito e terrivel. A elevação da temperatura a 33° centigrados, a falta de vaccina, o nenhum asseio nas habitações, a agglo23
meração de emigrantes nos abarracamentos abriram mais o campo ao inimigo. E que repugnancia tinham elles á vaccina ! .... Entre milhares alguns entregavam os braços ao medico para serem preservados do mal ; mas quasi todos fugiam espavoridos dizendo a uma VOZ: -Deus nos livre de metter a peste no corpo ! O inimigo estava acampado, esperando o instante de dar combate. Foi em dias de agosto, d'esse mez fatal para os supersticiosos, que se ouviu o primeiro grito de alarma. A variola viera do sul pela estrada que liga o Aracaty á Fortaleza. Deu-se o ataque. Cahiram feridos ao primeiro encontro ás dezenas, depois ás centenas, depois aos milhares ; emfim, onde estava um organismo não preservado pela vaccina, chegava a peste e com ella a dôr, o desespero e a morte. Os habitantes da capital estavam sitiados completamente pela epidemia. Os abarracamentos dos retirantes circulavam a cidade, e onde existia um emigrante, podia-se affirmar, estava um varioloso. O governo construiu lazaretos provisorios, contratou medicos, nomeou commissões de prompto soccorro aos pesteados, mas tudo isto apenas attenuava um pouco os soffrimentos da população indigente. Procurar debellar o mal, pôr o inimigo em debandada seria o mesmo que tentar suffocar um incendio em um campo sêcco e batido de fortes ventos ! Alguns dias depois da invasão da epidemia, cada alojamento de retirantes era um lazareto de variolo
sos ! As enfermarias regorgitavam de doentes ! tudo era insufficiente para abrigar os pesteados. Muitos enfermos tinham por tecto a sombra das arvores desfolhadas e ahi mesmo aos raios do sol, ao relento da noite, deitados no chão, morriam á mingua de soccorro e isolados, porque os parentes, os companheiros, temendo o contagio, fugiam espavoridos deixando-os abandonados ! Pensavam assim evitar a peste e levavam o microbio inoculado no organismo ! O terror era geral! Por toda a parte via-se o pranto e a desolação ! Raro era o dia em que os urubús não denunciavam uma carniça humana, um corpo que apodrecia nos arrabaldes da cidade ! O centro da capital fôra respeitado pelo flagello, devido isso ás melhores condições hygienicas da população e á vaccina. Este estado, entretanto, não durou muito. O cêrco foi-se apertando dia a dia, e pouco tempo depois a peste entrava na Fortaleza e de um modo assombroso. Os cadaveres dos bexigosos eram conduzidos para o cemiterio amortalhados com os trapos que vestiam. Alguns tinham como esquife a rêde rôta e immunda, outros maisdesgraçados, nem esta possuindo, iam amarrados de pés e mãos em um longo pau para a valla e conduzidos por dois retirantes, aos quaes o governo pagava quinhentos reis por cadaver. E a este espectaculo, tão repugnante quanto desolador, assistiu por muitos dias a população das ruas mais publicas da capital, até que o governo mandou *
que os cadaveres fossem conduzidos ao cemiterio pela beira-mar . A atmosphera da cidade cada vez mais se infeccionava, pois, pedaços de carne pôdre e pús, não encontrando logar onde ficassem depositados, cahiam dos cadaveres nos passeios das casas e calçamento das ruas . A peste invadiu tudo, desde a palhoça do retirante até o palacio do presidente da provincia. Por toda a parte ouviam-se os gemidos dos moribundos, os gritos dos loucos no delirio-da febre eruptiva ! Era excessivo o panico e geral a consternação. As ruas da cidade eram desertas, apenas durante o dia transeuntes a conduzir remedios e dietas ! ... Ao anoitecer fechavam-se as portas e accendiam-se pequenas fogueiras de alcatrão nas ruas e praças, o que dava á cidade um aspecto triste e lutuoso ! As vallas do cemiterio recebiam mil corpos por dia e a peste a recrudescer ! ... Os cadaveres ficavam ás vezes insepultos por mais de vinte e quatro horas, por não haver coveiros em numero sufficiente para o serviço dos enterramentos ! Os medicos não poupavam esforços, mas o que podiam fazer dez facultativos entregues de um hospital de oitenta mil enfermos ?! Todo o trabalho e abnegação era deficiente em face da enormidade do mal! Os cordões sanitarios não se fizeram, pois o inimigo atacou de um modo terrivel e violento ! A variola se incubou de uma só vez em todos os organismos
não preservados pela vaccina. Era a legião dos infusorios em numero de muitos milhares de bilhões que se havia rebellado e, disseminada na atmosphera, levava a morte á tenda do homem. Eram os infinitamente pequenos, que se levantavam das trevas onde jaziam desapercebidos pela pequenez e atacavam os organismos superiores e os destruiam ! O contagio era inevitavel ! O individuo não vaccinado escondia-se no logar mais recondito de sua habitação e lá mesmo o ar levava-lhe a peste, o microbio se inoculava ! Freitas com sua familia não estava immune da peste. Desde que Arruda perdeu a carteira, que a vida para elles tornou-se mais difficil. Estavam reduzidos á pequena ração que o coronel recebia quando ia á pedreira. A variola em sua onda devastadora os envolveria tambem. Além das contrariedades e da penuria que os affligia, veio Filippa tortural-os com seus desvarios. Tornára-se louça do accesso de epilepsia no dia que embarcou a filha. Levaram-na ao palacete do commendador e elle mandou pôl-a na rua. A liberta teria morrido de fome, se Freitas não a levasse para casa. A chegada de Filippa em casa do coronel foi um dia de augustias para a familia. Josepha e Carolina foram-lhe ao encontro, abraçaram-na chorando, e ella immovel, inconsciente, olhava á tôa para aquelles semblantes anuviados de tristeza e pena; não entendia as perguntas que lhe eram feitas, respondia com palavras sem sentido : -Bernardina ! ... o chicote ! ... minha filha ! ... As creanças rodearam-na e disseram-lhe :
-Mãe Filippa ! mãe Filippa, vossê chegou ? A louca ouvia-lhes a voz, mas não comprehendia as palavras . Freitas contemplava com grande magoa aquelle triste espectaculo. Josepha sentia profundamente a desgraça de Filippa. Ella era uma victima de sua fraqueza, de sua ingratidão. As cicatrizes deixadas nas costas pelo chicote, o nome da filha pronunciado quasi sempre, torturavam a mulher do coronel, que roída de remorsos procurava suavisar, tanto quanto permittiam os seus recursos, os padecimentos da louca. Filippa recebia hoje do mesmo modo o beijo e a bofetada. A variola continuava a grassar com intensidade por toda parte. Arruda, que tinha assentado atacar a casa de Freitas a deshoras e raptar-lhe a filha, adiou o plano em consequencia da peste. Temendo o contagio, vivia recolhido em casa, bebendo cognac. Os bebados por indole aproveitaram-se da bexiga para se vaccinarem, como diziam elles, com alcool. Arruda era do numero d'estes, bebia como um cassaco. A variola bateu á porta de Freitas... Em um mesmo dia foram atacados todos da peste, excepto Carolina, que tinha sido vaccinada pelo vigario de sua freguezia. As dôres da terrivel enfermidade e a fome reduziriam em breve aquella familia ao estado mais lastimoso. No mesmo aposento paes e filhos ardem na febre eruptiva, e n'um quarto visinho a elles a louca, a des
graçada Filippa, tambem pesteada, atordôa a casa toda com gritos nos desvarios da razão enferma. Carolina sente-se fraca em face de tamanho transe. Sobra-lhe amor, dedicação, porém faltam-lhe conhecimentos e recursos para conjurar a crise, que ameaça esmagar os penhores mais caros de sua alma. Tem que servir de enfermeira a sete variolosos, que reclamam um soccorro prompto, e não ha em casa remedio, não tem com que fazer um caldo. Na seccura da febre que os queima, pedem agua e nem uma gotta ha para lhes matar a sêde ! Carolina impressiona-se com os soffrimentos dos seus e sem esperanças de lenitivo ás dôres que os affligem, recorre á protecção da Virgem prostrando-se diante de um pequeno registro e supplicando : Virgem Santissima, protectora dos desgraçados, conforto dos afflictos, vinde em meu auxilio e ajudaime a triumphar do abatimento de que está possuido o meu espirito ! Eu, indigna filha vossa, me lanço com grande confiança a vossos pés, para vos pedir misericordia para minha familia, que, atacada da peste, morre á mingua de pão e de remedios. Tende piedade de nós, oh piedosissima Virgem Maria, pelas dôres de vosso amado Filho soccorrei-nos ! Carolina fez a oração com toda a confiança, e crente de que suas palavras chegaram ao céo, tomou um pote e foi procurar a fonte. Caminhava sem destino e medrosa de tudo, quando encontrou um menino que vinha d'aguada :
- Ensina-me a fonte ? É muito perto, disse a creança indicando-lhe uma vereda, que a moça tomou. Antes de chegar á aguada encontrou-se com um homem de côr parda. Era elle um dos cabelleireiros da cidade, e vivia de comprar os cabellos dos retirantes para revendel-os. O mulatò fitou Carolina e ficou perdido por suas tranças louras que desciam até á curva da perna. Aguçada a cubiça pelas lindas madeixas, dirigiu-se á moça : Quer vender os cabellos, sinhásinha ? Carolina estremeceu e estacou. O quadro desolador da familia toda atacada de peste e sem recursos collocou-se-lhe diante dos olhos. Ao principio o espirito revoltou-se com a idéa de tão torpe negociação, com a perda de um dos mais bellos ornatos com que a natureza a havia mimoseado, mas depois, ouvindo só o coração e tendo consciencia de que era aquelle o unico recurso de que dispunha para soccorrer honradamente os seus, respondeu com voz firme : Vendo! ... -Devemos fazer o preço antes de cortal-os. Carolina não se conteve e desatou a chorar. No espirito do cabelleireiro nada influiam aquellas lagrimas . Acostumado a visitar os abarracamentos diariamente e a tosquiar, como dizia, os retirantes por qualquer meia pataca, não hesitou em continuar a negociação. -Vejamos, quanto quer?
deu: Carolina pôde dominar-se, e resignada respon- - Dê o que quizer. -Sou pouco generoso; depois de tosquiada não comece com lamurias e choradeiras. Carolina sentiu-se humilhada e muito offendida em seu amor proprio. N'um impeto de colera e indignação quiz dar as costas ao mulato, mas os soffrimentos da familia desarmaram-na; assimdesappareceria o unico meio de um soccorro aos enfermos que morriam de fome. - Córte os cabellos, senhor, e já disse, dê por elles o que quizer. E com um gesto tão nobre quanto altivo entregou a cabeça ao cabelleireiro, que, com mão firme e a golpes de tesoura, cortou as louras tranças. Carolina immovel como uma cataleptica abysmava-sen'uma saudade infinda de suas tranças. Olhou-as, acompanhou-as com um olhar angustiado, até que ellas desappareceram de todo no bolso do mulato. E quando se convenceu de que não as veria mais nunca, sentiu um pezar, que não fulminou-a, porque fortaleceu-a a consciencia de um acto nobre, de uma manifestação heroica do amor filial. -Agora devo pagar-lhe. E o cabelleireiro contou com todo vagar trezentos e vinte reis em cobre, e entregou á moça. Custava a Carolina um sacrificio enorme a posse d'aquellas moedas de cobre ! Resignada a soffrer tudo pela felicidade da familia, foi caminho da fonte. Era
لا F necessario agua para os doentes ; as dietas ella já tinha com que compral-as. A vereda morreu na barreira de uma profunda excavação. Era ahi a cacimba. Carolina aproximouse do buraco e viu que n'uma profundidade de mais de quinze metros havia uma pequena poça d'agua. A profundeza da excavação crispou-lhe os nervos em medroso arripio. Chegou á rampa que conduzia á aguada e teve medo de descer. Aquelle abysmo tão fundo a horrorisava. Parecia-lhe que as barreiras se uniriam, se fechariam logo que ella descesse. Indecisa implorava coragem á Virgem, porém do céo não descia nada que a amparasse. Não apparecia um companheiro, ninguem vinha tomar agua. O tempo corria e os doentes em casa estariam a estalar de sêde ! Era preciso descer á fonte, e Carolina fazendo um esforço supremo desceu a rampa. No fundo da excavação estava a fonte, pequena poça d'agua, que os terrenos argillosos alimentavam gotta a gotta comuma usura de judeu . Carolina viu-se quasi assombrada dentro d'aquelle abysmo. As barreiras perfiladas em circulo parecia a ella que se inclinavam aos poucos diminuindo a cada instante o circulo azul que apparecia do espaço. A moça desviou a vista do precipicio, creado por sua imaginação excitada, e tratou de encher o vaso e fugir, em tempo, de não ser victima do desabamento das barreiras. Ia subir a rampa quando viu que descia a aguada um negro de feia catadura. Carolina quasi se assombrou quando se viu só com o retirante,
que, de uma magreza extrema e de olhar de louco, parecia no delirio famelico. Chegando perto da moça, o infeliz, depois de ter saciado a sêde, olha para Carolina, a quem impedia de passar collocando-se no caminho, ajoelha-se e pede uma esmola. A moça entrega-lhe a quantia por quanto vendera os cabellos e sobe apressada a ladeira.
XVII Carolina voltou a casa. Por um excesso de dedicação conseguiu agua para matar a sêde dos doentes ; mas onde encontrar dietas e remedios ? A febre eruptiva seguia sua marcha regular. Os meninos desacordados nada pediam, apenas no delirio da molestia fallavam ou gritavam. Filippa era o enfermo que mais cuidados dava. Carolina já tinha ido á rua buscal-a mais de tres vezes, pois ella no delirio da febre havia sahido porta a fóra quasi núa. Era-lhe impossivel ser enfermeira de sete variolosos e temendo que o estado dos doentes mais se aggravasse, decidiu-se a pedir soccorro á primeira pessoa que passasse, e foi para a porta da rua. O primeiro viandante que se aproximou
foi um padre ; vinha a cavallo e Carolina dirigiu-lhe a palavra : - Snr. padre, pelo amor de Deus ouça-me. O padre apeou-se. -Ás suas ordens, minha filha. -Foi a Virgem Santissima que guiou v. rev.ma até aqui ; rogo-lhe que entre e veja com os seus proprios olhos a nossa desgraça. E Carolina, seguida do padre Clemente, foi ter com os doentes . cerdote. - A paz seja comvosco, meus filhos, disse o sa Snr. padre, sois o enviado de Deus para nos abrir as portas da eternidade, disse Freitas sentando- se na rêde. filho. A Providencia póde-lhe restituir a saude, meu Tudo póde ser. Quero que ouça-me de confissão, disse o coronel. O sacerdote aproximou-se de Freitas e confessou-o . Carolina consolava sua mãe. Filippa gritava de vez em quando, levantava-se e queria sahir para a rua. A febre trazia a louca n'um constante desassocego. Ás vezes quebrava o silencio com um grito agudo e desconcertado, que fazia estremecer as creanças. Josepha pedia-lhe que se calasse e Freitas meneava a cabeça sem proferir palavras. Era penosa a situação da familia. A liberta au-
gmentava-lhe as tribulações, lembrando inconsciente, a ingratidão de que fôra victima : -Me venderam ! ... me enganaram ! ... a liberdade ! ... a liberdade que ella me prometteu ! ... Bernardina onde está ! ... na jangada ! ... presa ! ... vendida ! ... Bernardina ! ... aqui ! ... corre, te esconde! ... olha o homem ! ... E Filippa procurava esconder a filha sob a roupa. O padre, depois de confessar Freitas e Josepha, pediu ao coronel que fosse com a familia para o lazareto. Mostrou-lhe a impossibilidade de serem medicados alli, onde muito difficil teria medico, enfermeiros, remedios e dietas. Freitas hesitou, mas Clemente, promettendo leval-o ao hospital, obteve seu consentimento. -Seja feita a vossa vontade, snr. padre. Um unico pedido tenho a fazer-lhe em nome de Deus ; é tomar minha filha sob sua guarda e protecção. Eis. de agora em diante vosso pae, minha filha, disse dirigindo-se a Carolina e chorando amargamente. Clemente chorava tambem. -Não, papá, não o abandonarei, o seguirei, supponho que ninguem impedirá que lhe sirva de enfermeira. Quero estar a seu lado, velar junto de seu leito. E Carolina abraçou-se com o pae. -Irás tambem, minha filha, não haveria ninguem tão cruel que te prohibisse de prestar os teus serviços a teus paes no momento em que mais precisam d'elles. Irás, sim, irás. Σ
A promessa do sacerdote, a certeza de que não se separariam, fortaleceu-os . Clemente retirou-se promettendo voltar dentro de uma hora, afim de fazer transportar os variolosos para o lazareto. Accommodados os doentes pelo padre em quatro padiolas, Carolina fechou a casa e com Clemente acompanhou os enfermos ao lazareto da Lagoa Funda, a tres kilometros a oeste da Fortaleza . Chegados que foram, o padre indagou do administrador se haveria accommodações para sete variolosos. -Talvez não . As enfermarias estão repletas. Comtudo v. rev.ma não desanime, a morte abrirá em breve logar a seus protegidos. E os mesmos leitos ?! O que ha de se fazer, snr. padre ? Se queimarmos os leitos servidos, não teremos onde accommodar os enfermos . Deus queira se compadecer de nós. Só elle mesmo nos poderá valer. -Desejava fallar com as irmãs de caridade. Estão nas enfermarias. V. rev.ma póde entrar. Supponho que não precisará de guia ? - Não ; conheço bem estes lugubres aposentos. disse o padre entrando. E a passo lento e grave atravessava aquelles tristes logares, e habitação da dôr. Affrontava com coragem e abnegação um espectaculo que repugnava-lhe a quasi todos os sentidos, aquelle mar de pús onde
boiavam enfermos, moribundos e mortos. Elle resfolegavacom uma resignação evangelica aquella atmosphera a tresandar a ulcera, a carne pôdre, sem procurar diminuir as funcções da pituitaria. Se o olfato se impressionava desagradavelmente com o fedor da enfermaria, o ouvido por sua vez se molestava com os sons agudos e confusos que lhes abalavam o tympano. Os gemidos surdos dos moribundos e os gritos desconcertados dos variolosos que deliravam, formavam um concerto que commovia e aterrava. As enfermarias regorgitavam de doentes ! Elles eram em numero superior a oitocentos ! O soffrimento alli tinha todas as phases. Havia de tudo, e de tudo que hade mais horrivel ! Corpos cuja pelle a inchação havia estirado a ponto de fender-se em todos os sentidos e assim em carne viva, sem mais o involucro protector, sentia o desgraçado a aspereza da lona da cama penetrar nos tecidos nús, como um ferro encandecente e produzindo as dôres de uma horrivel queimadura! Outros não menos infelizes, no ultimo periodo da molestia, completamente desvairados, sem consciencia da podridão dos tecidos, erguiam-se dos leitos, e allucinados de dôr, gritavam emquanto a carne putrefacta, despregando-se dos ossos, cahia no chão do lazareto ! Alguns, com a razão completamente perdida, rasgavam com as unhas as pustulas, arrancavamlhes a crosta e mesmo coberta de pús e sangue comiam-nas com avidez, tão profundas eram as desordens de sua mentalidade.
Clemente percorria a passos lentos as enfermarias. Elle palpava a enormidade d'aquella chaga physica e moral com a grandeza de sua alma de santo ! Tudo fugira d'aquelles logares ! As illusões do mundo haviam desapparecido e n'aquelle recinto pavoroso, onde bem poucos têm esperança, pensava elle, gemeriam sós e esquecidos, se a caridade não os procurasse e lhes dissesse : Estamos comvosco na hora do perigo; sois nossos filhos, porque sois desvalidos. O padre tinha diante de si o horroroso e o sublime ! O seu espirito, ao mesmo tempo que se abatia contemplando as contingencias da vida com o cortejo de dôres e miserias, se elevava ao incomprehensivel. O sublime era a caridade. O bispo da diocese, enfermo e velho, sentado á beira do leito do enfermo que apodrecia em vida, exhortava-o á paciencia e consolava-o com uma fé edificante. E na physionomia do principe da igreja nem um gesto de contrariedade, nem um traço de repugnancia ao pús fetido, que muita vez salpicava-lhe o rosto e as vestes sagradas ! ... E em derredor dos leitos dos variolosos, ainda por cumulo de obrigação e heroismo, viam-se algumas irmãs de caridade. Clemente fitou-as com respeito e admiração. Eram os lyrios da castidade com o mais santo heroismo, lavando com o carinho de mãe as chagas do desvalido que apodrecia em vida ! O padre ainda uma vez curvou-se em espirito com a maior reverencia diante
d'aquellas santas mulheres, que, sem outra recompensa a não ser a emanada da fé nas promessas do filho de Deus, faziam da humanidade sua familia. Durante uma hora tinham vagado vinte leitos, e o administrador de bom grado recolheu á enfermaria os protegidos do padre Clemente. *
XVIII Quiteria do Cabo não escapou á peste. Dois dias depois da sahida da familia de Freitas para o lazareto, cahiu ella doente de variola, recolheu-se ao quarto só e enferma. A febre queimava-lhe o corpo como se a este cobrisse um caustico de louco, o delirio desvairava-lhe a razão, a seccura crestava-lhe os labios, e n'uma lucta sem tregoas com a molestia o organismo cada vez mais se enfraquecia, mais vulneravel mostrava-se ao inimigo. Isoladaem um quarto, gemia a feiticeira sem os recursos da medicina, os cuidados da familia. No primeiro periodo da doença não teve consciencia do perigo. Voltou-lhe depois a razão, e então Quiteria estremeceu de assombro ; estava mais para a morte do que para a vida. Quiz
levantar-se, pedir soccorro aos visinhos, mas embalde ; os musculos entorpecidos não tinham forças para a locomoção ; quiz assim mesmo erguer-se e cahiu no mesmo logar ! Não podendo caminhar, tentou gritar, mas debalde foi o esforço : a garganta estava crivada de pustulas e mal deixou passar um som rouco e abafado, que perdeu-se, que extinguiu-se immediatamente depois de ter-lhe sahido dos labios. A idéa da morte precedida de um martyrio lento e terrivel, estacionava na imaginação, e mais ainda a aterrava a lembrança de morrer sósinha. A sêde fazia-lhe estalar a mucosa da lingua, e ella não tinha a quem pedir uma gotta d'agua. Tinha necessidade de alimento e o fogão estava apagado ! A molestia seguia sua marcha terrivel. A inchação havia tornado disforme o corpo da enferma. A pelle se estiraçava com o augmento de volume dos tecidos, e cada vez mais adelgaçada, apresentava em diversos pontos manchas de côr purpurea desde o tamanho de um grão de milho até o de um ovo de pomba. Os exanthemas, comquanto de pouco valor no prognostico das molèstias, annunciavam em Quiteria a accentuação de um terrivel estado morbido. Não era para prognosticar uma fórma benigna de febre exanthematica que o rash purpurique apparecia tingindo de purpura a epiderme da enferma. Elle era o signal precursor e pathognomonico da variola hemorrhagica da inoculação e desenvolvimento do microbio da bexiga negra n'aquelle organismo que inevitavelmente
seria destruido pela legião dos infinitamente pequenos. Quiteria sentia um desassocego afflictivo ! Τοdas as mucosas se congestionavam. Uma sêde horrivel retalhava-lhe a lingua e a pelle da boca. O- sangue começava a se extravasar das mucosas mais congestas. As dos olhos foram as primeiras que verteram sangue ! A feiticeira fitava, nas ancias da sêde, um vaso d'agua que havia perto do leito. E como eram expressivas aquellas lagrimas de sangue a cahirem sobre as faces sulcadas pela angustia e lividas por cruciantes dôres ! ... Se havia uma harmonia perfeita entre a lagrima e a expressão do rosto , um contraste não menos perfeito fazia a côr verde do iris esbatida pelo rubro do liquido extravasado das conjuntivas. A agua, a poucos passos de distancia, ainda lhe exasperava mais a sêde ! Vêr o liquido que lhe mitigaria a seccura dos labios e não poder tocal-o! ... Quiteria impressiona-se com o seu estado. A hemorrhagia ocular aterra-a. As lagrimas de sangue cahem mais abundantes sobre os lençoes do leito, e vendo-as tingir o algodão dos vestidos, acredita na gravidade da situação, e um resto de vida que a animava ainda, lucta com amolestia. Era avida a enfrentar a morte. A vontade reage e do ultimo lampejo da energia, que se aniquila, gera-se um esforço supremo e um pequeno triumpho segue-se a elle. Quiteria acredita conjurar a crise, vencer todas as difficuldades e levanta-se para luctar. Tremenda illusão !
os musculos na atonia da doença não obedecem á vontade e Quiteria ergue-se, porém cae ! tenta levantar-se de novo e torna a cahir ! Ainda assim não se desillude, é preciso chegar ao vaso d'agua e de rastos caminha para elle como uma cobra. A frialdade do ladrinho impressiona-lhe desagradavelmente a pelle a escaldar de febre. Sem embargo, n'um constante arripio de frio, ella vai-se arrastando vagarosamente até chegar ao pote d'agua. As mãos tocaram o vaso e viu-se-lhe na physionomia brilhar o contentamento d'alma. Fraca illusão que durou tão pouco ! Quiteria levou com avidez o vaso d'agua aos labios e pensou esgotal-o de um trago. Encheu a boca quanto pôde e julgou poder com aquelle enorme gole refrescar as entranhas, quentes como se recebessem o calor de uma grande forja. Novo martyrio ! A garganta meio fechada pela inflammação das mucosas quasi não permittia a deglutição até mesmo de liquidos ! Quiteria quer engulir toda a agua que tem na bôca e não póde. O liquido, não achando passagem franca ao esophago, escapa-se pelo nariz, quasi suffocando-a. Quiz matar a sêde n'um segundo e agora vê-se obrigada a engulir a agua gotta a gotta e isto mesmo soffrendo dôres terriveis ! Acreditou saciar-se e foi completo o engano, mallograda a tentativa. A sêde continuava e a garganta parecia de ferro em braza. A agua tocando n'ella parecia espherolidisar-se como n'uma superficie metallica incandescente. Quiteria vê a morte á cabeceira, mas não acredi
ta que possa morrer. O seu estado aggrava-se mais e mais, apparecem hemorrhagias nazal e uterina, as ecchymoses perdem a côr de purpura e vão pouco a pouco cingindo-se de uma aureola negra. Ainda assim tem esperança de escapar e vai de rastos até á mala, onde está guardado o dinheiro, e a custo abre a caixa e tira a carteira de Simeão de Arruda. A physionomia transtorna-se, os pequenos olhos verdes illuminam-se e as notas do thesouro fazem-na exclamar ardendo em cubiça: Tanto dinheiro ! ... A feiticeira esquecida da situação ter-se-hia deixado ficar contemplando o thesouro se a molestia não viesse despertal-a de um modo terrivel. Manifestou-se uma hemorrhagia pulmonar; cahiram-lhe no regaço golfadas de sangue. Quiteria amedrontrou-se, eainda cravando os olhos na carteira do commissario, antes de fechal-a na mala, disse : -Tanto dinheiro ! ... As hemorrhagias recrudesciam, parecia que todas as mucosas vertiam sangue. A feiticeira sentia-se enfraquecer e começava a temer a morte. Não tinha mais forças para luctar ; era-lhe impossivel qualquer reacção ; comtudo o espirito se conservava lucido, as meninges não tinham soffrido desordem alguma. Os orgãos da circulação e respiração gravemente compromettidos, a cyanose e os phenomenos de asphyxia, cada vez mais se accentuando, amedrontaram tanto Quiteria, que ella se decidiu a fazer um ultimo
esforço já entre a vida e a morte. Era possivel pedir soccorro, e, encontrando-o, escapar da peste. Acreditando n'isso, embalada por tão dôce esperança, procura a porta de entrada da casa e vai de rastos como um reptil, após si deixando uma fita de sangue que escapava das mucosas das visceras abdominaes. O caminho era curto, menos de dez metros talvez, e Quiteria gastou mais de um hora para vencel-o ! Chegou finalmente á porta e acreditou-se salva pelo desejo ardente que tinha de viver. Era preciso pôr-se de pé para chegar á fechadura da porta. Quiz levantar-se, mas lhe foi isso impossivel ! Dez vezes procurou com os maiores esforços que é possivel imaginar, pôr a mão na chave da porta, alcançal-a, e tudo embalde! Sem esperança de abrir a fechadura, deitou-se no chão para mandar por baixo da porta suas vozes, seus gritos de soccorro aos visinhos, e gritou e gritou muito, mas a sua voz não chegava aos labios, morria na garganta. Deitada no ladrilho, via já com muita pouca luz nos olhos a rua e os transeuntes. Fazia um esforço immenso para tirar um som das cordas vocaes, mas embalde : ellas continuavam emuma perfeita aphonia, o silencio não se quebrava ! N'esta ultima lucta perdeu o resto de forças que a animava, e entrou na agonia, mas n'uma agonia terrivel, cruciante. Quasi asphyxiada, com os olhos fóra das orbitas e a nadar em sangue, a boca escancarada procurando engulir ar como se o espaço estivesse vazio e os pulmões d'ella não tivessem cheias de sangue as vesiculas, estaria muito tempo
moribunda, se uma onda de sangue subindo ao cerebro não se derramasse das meninges, fulminando-a com a rapidez do raio. Uma hora depois o cadaver tinha uma hediondez que aterrava, e entrava em franca e apressada decomposição.
XIX O anno de 1878 desappareceu no occaso ; findou-se entre os gemidos dos afflictos e as maldições de uma geração inteira ! Em sua passagem elle devastou tudo : searas, rebanhos e homens ! A fome e a peste encheram os cemiterios ! A familia cearense passou n'esse periodo coberta de pesado luto, as lagrimas correram em todos os rostos, os lamentos ouviram-se em todas as habitações, a tristeza morou em todos os logares e a morte passou em toda a parte ! Em meio de tanto desalento dardejavam-lhes n'alma os raios de uma esperança, como um feixe de luz que penetrasse n'uma camara escura. Era o novo sol que dourava o oriente, era uma nova época que começava e traria a redempção aos torturados pelas leis irrevogaveis da natureza.
Bemvindo seja o novo anno ! era a saudação que se ouvia por toda a parte. O inverno, o bemfazejo inverno, regando a terra a fecundará, os campos fertilisados produzirão espigas e a familia reunida no lar de novo viverá em paz, liberta do humilhante jugo das dependencias. Tudo levava a crêr na mudança da estação. Os relampagos clareavam a abobada celeste, os trovões rebombavam no espaço, a chuva regava a terra, era emfim a festival imponente dos elementos que fazia côro com as saudações do povo á nova éra que surgia. Tudo se preparava para os labores da vida. Os poucos braços que escaparam á grande hecatombe, não estavam cruzados, não ; manejavam a enxada semeando os campos. Os retirantes abarracados na Fortaleza, anciosos esperavam o momento de regressar ao torrão natal. O inverno os convidava a entrar em suas antigas occupações . Era tempo de voltar aos logares queridos da infancia. Todos se julgavam salvos, quando a estação, que começára com probabilidade de ser regular, transtornou-se. As chuvas escassearam de todo ! O dia 19 de março, o dia fatal trouxe-lhes o desengano cruel. A limpidez do espaço não a toldou mais nenhuma nuvem de chuva ! Quanta esperança mallograda ! quanta desillusão ! Mais um anno de provações e dôres nas choupanas do governo a comer o pão da esmola que degrada e avilta ! E os infelizes do alto sertão,
que sustentaram com todo o denodo uma lucta tremenda de dois annos, que será d'elles?! Quanto não lhes custará vêr reduzido a nada o derradeiro esforço de sua energia ! No campo preparado á custa dos mais penosos sacrificios as sementes começaram a germinar, elles contemplavam esperançosos o desenvolvimento da planta, que lhes deveria matar a fome durante o anno inteiro, olhavam repassados de amor para ella, o fructo de muitos dias de trabalho, o resultado do poder da vontade ! Todas as illusões fugiram e ficou a realidade, mas a realidade que aterra, que esmaga ! O sol matou a planta mal se completou agerminação da semente ; desfez em horas o trabalho de tantos dias ! E agora o que resta ao lavrador? o abandono e a desesperação. Com tamanha decepção elle não se abate, quer reagir contra o elemento que destruiu a lavoura, tenta reparar o prejuizo e procura novas sementes para semear a terra, mas tudo em vão ! A sementeira havia-se acabado ! O que fazer para escapar, para manter a vida? Aos habitantes. do interior da provincia restava o recurso selvagem e unico das venenosas plantas silvestres ou a humilhante ração á porta dos celleiros do governo, depois de todos os soffrimentos de uma viagem longa e penosa.
XX O cadaver de Quiteria do Cabo apodrecia dentro de casa. Os visinhos notavam com surpreza que a porta da feiticeira, havia dias, estava fechada, e indagavam uns dos outros a causa d'isso, quando uma manhã viram com pasmo muitos urubús pousando sobre o telhado ; julgavam um signal de mau agouro ou então o demonio disfarçado que vinha reclamar o sangue da feiticeira, desde muito tempo empenhado a elle em troca do poder de fazer maleficios. Os urubús voaram do telhado e pousaram no batente da porta de entrada; isto despertou a curiosidade dos menos supersticiosos, e foram verificar o que por lá havia. Não foi preciso mais do que se aproximarem da casa. Um cheiro de carniça empestava a rua toda. Em pouco tempo se espalhou que a feiticeira tinha
morrido e apodrecia dentro de casa. A noticia circulou com rapidez. Na visinhança não havia quem se atrevesse a bater á porta de Quiteria e chamal-a pelo nome, quanto mais forçar a entrada. Temiam ser recebidos pelo demonio que estava de posse do cadaver. O facto chegou ao conhecimento da policia. Al-- guns soldados e o delegado vieram tomar conhecimento do occorrido, como de um acontecimento muito commum. Raro era o dia em que os urubús não denunciavam nos arrabaldes e mesmo dentro da cidade cadaveres humanos que apodreciam insepultos. A porta da feiticeira cedeu aos impulsos de alguns braços e o cadaver de Quiteria, já em adiantado estado de putrefacção, foi sacudido no meio da sala. A feiticeira estava medonha. Aputrefacção havia triplicado o volume do corpo, que, deitado a fio comprido sobre um lençol de brancos vermes, era devorado por esta legião de sêres infimos, que gulosos fervilhavam n'aquelle repasto de podridão. Os olhos quasi fóra das orbitas, o nariz separado dos ossos pelo apodrecimento dos tecidos esparrinhava-se sobre os labios que, tambem sem fórma, eram apenas uma papa de bichos e pús ! Eram de tal ordem as exhalações da materia putrefacta, que os soldados não se atreveram a transpôr o limiar da porta. O enterramento devia ser feito immediatamente. Não havia quem se animasse a lançar a mão sobre o cadaver. Queimal-o seria o meio melhor, mais se-
guro e breve, mas corria risco a casa, que embora de pouco valor, era de telhas. Se fosse de palhas teriam largado fogo, seria desinfectada pelo incendio, como se fazia diariamente, em casas identicas, nos arrabaldes da cidade. O tempo se passava e urgia uma providencia qualquer. Do abarracamento mais proximo foram chamados quatro homens da turma dos carregadores de defuntos com paus e cordas. Apresentaram-se ao delegado, o qual ordenou-lhes que conduzissem o corpo de Quiteria ao cemiterio. Os retirantes entraram na sala e sahiram immediatamente embebedados do fedor. A policia intimou-os a entrar e elles resistiram dizendo ser impossivel pôr as mãos em um corpo que tanto fedia. A ração dobrada que recebiam por cadaver que levavam ao cemiterio, não pagava-lhes o sacrificio. Só a miseria podia pôr-lhes ás costas uma carga de pús, e fazer com que caminhassem ao peso d'ella tres kilometros e ás vezes mais ! Os carregadores recusavam-se com obstinação a transportar os restos de Quiteria. A policia ameaçou-os e elles resistiram. O delegado, comprehendendo a necessidade de tirar d'alli aquelle fóco de infecção, mandou vir aguardente, que distribuiu á vontade com os carregadores, promettendo-lhes pelo enterramento d'aquelle corpo quatro rações em vez de duas. Os retirantes, bastante excitados pelo alcool, entraram na sala e foram tratar de amarrar o cadaveremum pau, para melhor *
poderem carregar. Depois d'esse trabalho, que tanto tinha de insano quanto de repugnante, e ao qual só se sujeitavam porque estavam quasi embriagados, foram pôr o pau ás costas para seguir com a defunta, quando esta desfez-se em muitos pedaços ; os tecidos, não tendo resistencia para sustentar o proprio peso, despegaram-se dos ossos, as visceras cahiramno chão ; emfim o corpo de Quiteria desmanchou-se em podridão e fedor. A atmosphera da sala ainda mais tresandou a carniça, quando os gazes, comprimidos no abdomen e thorax da defunta, ficaram livres. O alcool havia embotado a sensibilidade dos carregadores que, como verdadeiros corvos, estavam ás voltas com o cadaver sem constrangimento algum. Não podendo o corpo ser conduzido atado ao pau, resolveram ensaccal-o e pozeram os restos de Quiteria em um sacco de grossa estopa. Todos os pedacinhos de carne, o menor ossinho, e até os cabelludos tapurús foram apanhados pelos carregadores e postos no sacco . Fechada a bôca do sudario com uma corda de embiratanha, foi elle amarrado a um comprido pau e os carregadores conduziram-no ao cemiterio da Lagoa Funda. A humildade da habitação, a posição da proprietaria, a pobreza da mobilia, fizeram que a policia não tomasse mais providencia alguma e deixasse a casa aberta e abandonada. O povo agglomerado na rua fazia seus commentarios, quando foi surprehendido por um padre. Saudaram com todo respeito o sacerdote.
mente. - Quem morreu aqui? perguntou o padre Cle- : Uma mulher chamada Quiteria do Cabo, a feiticeira, responderam a uma voz. O sacerdote reflectiu alguns segundos e se dirigiu á porta de Quiteria. Os retirantes comprehenderam a resolução que o padre tomára de entrar na casa e ponderaram-lhe que não fizesse isso, que era uma grande temeridade entrar n'aquella podridão. Clemente não deu ouvidos aos conselhos, e transpondo o limiar da porta, disse : -Deus seja commigo. E entrou com passo firme e resoluto.
XXI A sêcca continuava. Nem mais uma esperança de inverno ! A epidemia da variola havia-se extinguido ; fecharam-se quasi todos os lazaretos, ficando apenas abertos dois, onde continuaram em tratamento algumas centenas de doentes de ulceras atonicas. Manoel de Freitas, Josepha e Filippa conseguiram triumphar da molestia, mas depois de soffrimentos crueis. Os meninos morreram todos ! Carolina occultou dos paes quanto pôde a morte dos irmãos. -Faça-se a vontade de Deus, Elle m'os deu, Elle m'os tirou, foram as palavras de Freitas quando procurou pelos filhos e lhe disseram que haviam morrido.
Josepha ficou inconsolavel. Não tinha forças para resistir á saudade dos filhos, essa separação cruel e eterna. O tempo que tudo gasta, que tudo acaba, foi pouco a pouco amortecendo aquella saudade funda, aquella magoa pungente que a desalentava, que a fazia tão infeliz . Freitas teve alta do lazareto com a familia. A morte havia reduzido o numero dos filhos, mas ainda eram muitas as pessoas que tinha de alimentar, enfermo e sem recursos. Disposto a não voltar para a casa que lhe emprestára Arruda, abrigou-se á sombra do primeiro cajueiro que encontrou, e disse a Josepha : -Libertou-me o acaso de um jugo bastante pesado . A misericordia de Deus livrou-nos de ser a nossa honra ultrajada, Josepha, fez-nos conhecer o perigo a que estavamos expostos sob a protecção de um homem sem consciencia. Somos hoje mais felizes, porque a arvore que nos abriga não exigirá em paga da sombra o menor sacrificio. Somos pobres, estamos no numero dos desvalidos que precisam de pão, tecto e vestuario, mas em tudo seja feita a vontade de Deus. Irei á pedreira, continuarei a receber a minguada ração até que se restabeleça a paz em nossa terra. Seja esta sombra de hoje em diante a nossa casa, viveremos n'ella mais contentes e mais seguros . Sinto -me forte, Josepha, parece que volta a energia perdida ou agrilhoada pela humilhação. Sou livre ! A minha liberdade não está empenhada, com ella voltou minha soberania. Que nos importa ter o
chão por leito e por alimento uma ração, mas ganha com o trabalho ? Josepha, eis a nossa casa, ajuda-me a bater o infortunio e iremos adiante . Fica com tua filha e Filippa, que eu vou á pedreira. E Freitas seguiu para a cidade. O coronel talvez ainda não tivesse chegado ao Mucuripe, quando o padre Clemente, voltando do lazareto, encontrou a familia de Freitas á sombra do cajueiro. O sacerdote aproximou-se, e Josepha e Carolina, gratas aos beneficios do padre, beijaram-lhe a mão com respeito e reconhecimento. -Muito me alegro, minhas filhas, de vêl-as fóra do perigo. Tive a felicidade de conduzil-as ao hospital, terei o prazer de leval-as a sua casa. Deus não quiz que voltassem todos ; comtudo rendamos graças a Elle, pois peor poderia ter sido. O coronel onde está? perguntou Clemente. Foi á pedreira, respondeu Josepha. -E quando volta para a sua habitação ? A nossa casa é hoje esta. Esta arvore ? Sim, snr. padre, estamos mais felizes aqui. É impossivel ! não consinto que fiquem tão mal abrigados. Carolina não está bem n'este descampado, sua saude póde alterar-se e eu desejo que ella viva, ella que é o mais bello exemplo que conheço de amor filial. O padre se affeiçoára sinceramente a Carolina. O acto de sublime abnegação vendendo os cabellos para
salvar a familia, havia despertado em Clemente uma perfeita adoração pela moça. Convencido de que Freitas ficaria com a familia á sombra da arvore, e de posse dos segredos de Simeão de Arruda e de Quiteria do Cabo, o padre disse a Josepha que voltaria na tarde d'aquelle dia, afim de conferenciar com Freitas sobre a necessidade de procurarem um abrigo melhor. O coronel chegou á cidade quasi cançado. Como ir á pedreira ? Viu-se nas ruas cercado de mendigos, que imploravam a caridade publica, mas elle não sabia pedir ; a idéa da esmola não podia ser aceita por seu caracter. O unico recurso compativel com sua dignidade, o unico que considerava legitimo, era o do trabalho, mas a pedreira era tão longe e seus membros pela primeira vez moviam-se depois de uma quietação de um mez no leito da doença. A familia tinha fome e cumpria-lhe luctar pela conservação d'ella. Seguiu para a pedreira. O trajecto foi penoso. No caminho algumas vezes um supremo esforço da vontade suppriu o vigor dos membros enfraquecidos. A lucta foi enorme. A pedra foi posta no logar indicado pelos agentes do governo : estava ganha a ração. Fez-se a chamada, todos foram pagos excepto o coronel, cujo nome não estava alistado. A pagadoria ia fechar-se quando Freitas apresentou-se reclamando seu direito : negaram-o e zombaram d'elle. O coronel não se perturbou, contou em poucas palavras sua historia e os encarregados do armazem tiveram piedade d'elle e pagaram-lhe o trabalho.
Freitas chegando ao rancho, encontrou-se com o padre Clemente, a quem agradeceu os grandes serviços que lhe havia prestado. O sacerdote, depois de ouvil-o, disse-lhe : Estava á sua espera, meu bom velho. Soube com surpreza que não voltaria mais para sua casa e que ficaria á sombra d'esta arvore. Não sei das razões que o levaram a proceder assim, mas a decencia manda que procure abrigar-se melhor. - A casa que deixamos não é nossa, snr. padre, foi um emprestimo que nos fizeram, mas que resolvi não continuar a aceital-o. -Não quero entrar na intimidade de sua vida. Venho cumprir o meu dever offerecendo-lhe os meus serviços. Não tenho direito de recusar os seus offerecimentos, snr. padre Clemente. Estou sem tecto e sem pão ! Se em minhas palavras encontrou v. rev.ma resaibos de desconfiança, é porque muito me custaram os favores recebidos ao chegar a esta terra. Aceitando os meus serviços, não me terá empenhado a sua independencia nem sacrificado a sua liberdade. Assim o creio. Os homens não são iguaes, é verdade, mas quem poderá distinguir os virtuosos dos hypocritas ? Amo a liberdade, me apraz a solidão, porque sinto que me vivifica as forças. Este logar me serviria perfeitamente bem, se eu fosse só ; mas tenho que guardar minha mulher, minha filha e uma infeliz louca. A Providencia talvez se compadecesse
de minha situação e ainda uma vez foi v. rev.ma escolhido para nos salvar. Não tenho direito de recusar a verdadeira caridade. Em nome de Deus v. rev.ma nos procurou para nos proteger, e em nome de Deus eu me entrego com minha familia á sua protecção. - Suas palavras, bom velho, são ditadas pela experiencia, mas por uma experiencia amargurada de dissabores. Quero tiral-o d'aqui porque em nossa terra actualmente o vicio contamina tudo ! Os maus penetram no recinto das habitações honestas ; quanto mais no descampado, onde nem ao menos humildes palhas constituem a propriedade, o asylo inviolavel de familia. Quero poupar-lhe o desgosto de um desacato á sua honra. Obtive uma casinha na estrada empedrada de Arronches, uma das quatorze construidas por um commerciante d'esta praça, e offerecidas ao governo para recolher os retirantes. Supponho que lá estarão mais seguros, mais resguardados da onda de viciosos que tudo devasta ! Terão por visinhos companheiros de infortunio, mas dos que ainda não se deixaram corromper. São familias que ainda conservam a pureza de costumes da vida campezina. Estou certo que lá viverão mais tranquillos e será maior a paz de espirito. -Como é differente a verdade da mentira ! Ouvi, snr. padre Clemente, as suas sabias palavras e cada uma d'ellas me penetrou n'alma imprimindo n'ella a resignação e o reconhecimento. Foram talvez ellas as unicas expressões verdadeiras que ouvi em toda
a minha vida de infortunio. Seguil-o-hemos como servos . -Sigamos, é tempo de descançar os membros fatigados e o espirito tantas vezes atribulado pela contrariedade, pelo desgosto. E Clemente acompanhado de Freitas e da familia encaminharam-se para a nova casa.
XXII Simeão de Arruda ignorava a morte de Quiteria. Desde que a variola se manifestou com intensidade fazendo mil victimas por dia, o commissario deixou de ir ao abarracamento, de passear pelos arrabaldes temendo o contagio. O serviço de soccorros publicos a seu cargo era feito pelos chefes de turma. O padre Clemente aboletou a familia de Freitas e recebeu do coronel a chave da propriedade de Arruda para pessoalmente entregal-a. O padre procurou a casa de Simeão, que o recebeu amavelmente. -Venho trazer a chave de uma propriedade de v. s.ª, occupada outr'ora por uma familia de emigrantes, disse o sacerdote. O commissario perturbou-se e perguntou : -E onde pára hoje essa sucia de ladrões, reverendissimo ?
- Ignoro o seu destino . Então ignora ?... Supponho que sim. -Acha-se disposto sem duvida a pagar os alugueis atrazados, não, reverendissimo ? rio. -Vim aqui sómente entregar-lhe a chave ; eil-a. E o padre estendeu a mão para o commissa- -Não é como pensa, reverendo ; conte o dinheiro dos atrazados, do contrario entregue a chave a quem lh'a deu. Clemente ficou perplexo diante do cynismo de Simeão . - Então rejeita a chave, snr. Arruda ? Pois não, meu padre, supponho que ninguem, nem lei humana e nem divina me obrigará a trabalhar para vadios. A quadrilha que morou na casa de que falla, além do mais, furtou-me uma carteira com uma boa quantia. Está certo d'isso ? -Perfeitamente. Deixei-me levar pelas lamurias do velho astucioso e cahi na ratoeira. Não se encante com os olhos azues da mocinha, reverendissimo, olhe o precipicio ! ... O senhor é audaz ! ... E o padre levantou-se para sahir. Alto lá, reverendissimo, fique sabendo que de hoje em diante ficará obrigado pelos alugueis passados e futuros ; a minha custa o reverendissimo não faz favor á moça bonita .
Clemente, por mais calma que procurou ter, por mais humilde que procurasse ser, não pôde-se dominar ferido pelos insultos de Arruda, e atirou-lhe a chave sobre a secretária ameaçando-o : - Não vingo-me de sua audacia porque não quero ; existem em meu poder as provas de seus crimes. E o padre sahiu bruscamente. Os documentos perdidos com a carteira collocaram-se immediatamente na imaginação de Arruda e humilharam-no. Freitas com a familia passava regularmente. Filippa depois da variola não teve mais accessos furiosos, passava os dias em completo silencio. Só abria os labios para na inconsciencia da loucura fallar na filha : Bernardina... a jangada... A idéa do embarque da escravinha não a deixava . Freitas continuava a carregar pedras do Mucuripe. Custava-lhe muito fazer todos os dias aquelle caminho. A minguada ração ajudada de quando em vez com algumas esmolas de Clemente, os ia abrigando da miseria. Viviam mais contentes e relacionados com os visinhos, que eram quasi todos conterraneos seus. Simeão de Arruda ignorava o domicilio de Freitas. Impressionado com as palavras do padre, e acreditando muito critica a sua situação, sahiu para se orientar e foi ter a casade Quiteria. Estava abandonada. Indagou pela feiticeira e disseram-lhe que
havia morrido de bexiga. Os documentos que perdeu, pensou, estavam na mão do padre. Havia necessidade de rehavel-os, fossem quaes fossem os meios. Como Clemente se teria apossado d'elles é que o commissario não podia saber ; Carolina ou Quiteria tinha dado ao sacerdote tão poderosa arma contra elle. Simeão pensava que o sacerdote, apaixonando-se pela moça, a seduzira no confessionario, e inteirado do seu amor exigira d'ella os documentos e procurava perdel-o. Se não foi Carolina que entregou os papeis, foi Quiteria ; era beata, e quando tinha qualquer dôr de cabeça, pedia logo um padre para se confessar. Deu sem duvida o dinheiro que estava na carteira a Clemente, para lhe rezar missas por alma. Arruda, completamente desorientado, voltou a casa. Uma idéa estava sempre fixa na imaginação : a perseguição que o padre lhe faria armado dos documentos do thesoureiro. Havia necessidade urgente de rehaver os papeis, e o commissario com muita astucia e manha dirigiu-se a casa do padre Clemente. Venho pedir a v. rev.ma uma desculpa. Fui por demais injusto, violento e brutal para com v. rev.ma quando me procurou a ultima vez em nossa casa. Em um momento de tedio, em um instante de mau humor esqueci-me de que tratava com um sacerdote virtuoso e digno, por seus dotes moraes, de todo respeito e veneração. Reconhecendo minha falta, peço-lhe perdão. -Seja bem vindo, snr. Arruda. Esqueçamos os momentos de colera e os seus desvarios. Temos
necessidade de perdoar as faltas de nossos semelhantes, para que Deus nos perdõe as nossas. O senhor vem pedir desculpa da offensa que me fez, ella foi esquecida no mesmo momento que a recebi. Eu mais o offendi desde que ousei ameaçal-o, e eu que devia ser humilde, que não devia levantar a voz para mostrar o argueiro no olho alheio ! Denunciei os seus erros, perdõe-me, snr. Arruda, essa falta. -Denunciou-me á policia, snr. padre ? Perdeume, como me fez desgraçado ! -Denunciei-o, não aos tribunaes publicos, mas ao tribunal da sua consciencia. Em liberdade tambem se expia o crime : para o remorso morder não é preciso carcere. Não quero magoal-o, não me compete a mim censurar seus erros, me recolherei ao silencio. -Continue, snr. padre, seja o meu castigo a historia de meus crimes. Restabeleça-se o reino da verdade. Estão aqui o padre que tudo póde perdoar, e o peccador que tudo espera da misericordia de Deus. Então permitte que o aconselhe ? - Serei attento ás vossas sabias palavras, snr. padre. - Passava uma manhã por um dos arrabaldes da capital quando fui chamado por uma moça que se mostrava afflictissima. Pediu-me que entrasse em sua casa para ver a miseria dos seus. Entrei e tive de vêr um quadro triste. Estava toda a familia atacada de bexiga. Levei-os ao lazareto onde se curaram, excepto as creanças que morreram todas. Deixaram a enfermaria, e foram-se recolher á sombra *
de uma arvore, onde os encontrei. Affeiçoado a elles por suas virtudes, agasalhei-os melhor. O chefe da familia entregou-me a chave de uma casa que v. s.ª lhe havia emprestado. Elle desejava vir trazer-lh'a e agradecer-lhe, mas eu reprovei sua resolução, para v. s.ª ignorar o destino da familia, arrefecer assim a paixão que nutria por Carolina. É tempo ainda de se emendar, snr. Arruda. Suas faltas foram graves, mas póde ainda o senhor reconciliar-se com Deus, e rehabilitar-se perante a sociedade dos bons, dos virtuosos. Quando a paixão do vicio quizer arrastal-o, olhe para a esposa, medite na sorte de suas filhas e depois lembre-se de que não devemos fazer aos outros aquillo que não queremos que se nos faça. Mil vezes obrigado, snr. padre Clemente, voltarei ainda algumas vezes para ouvir os seus sabios conselhos. Simeão havia-se galvanisado bem e, uma vez longe de Clemente, dizia comsigo : Prégaste tua moral no deserto, meu padreco, queres-me afastar de Carolina para conseguires melhor os teus desejos. Não deixarei de seguir-te e veremos quem triumpha. O commissario não tinha illesas as qualidades psychicas. O abuso do alcool dando em resultado pequenas mas repetidas congestões para o cerebro, havia produzido desordens no systema nervoso, desordens que se manifestavam por accessos mais ou menos intensos de delirium tremens. Arruda, desde o dia que soube que os documen
tos estavam em poder do padre, bebia desesperadamente. Uma garrafa de cognac mal chegava para um dia. A embriaguez fazia esquecer sua posição e o perigo que corria sua liberdade. No dia da conferencia com Clemente, chegando em casa, bebeu muito e á tarde já governando mal os membros, que começavam a tremer, sahiu a visitar a casa que emprestára a Freitas. Esperava encontral-a vazia, mas illudiu-se. As cadeiras empoeiradas ; todos os moveis emfim estavam alli para attestar a probidade de Freitas. Arruda sentiu-se humilhado ; pela primeira vez conheceu que elle era menor do que o retirante de quem duvidava. A mudez d'aquelle recinto foi-lhe excitando mais os nervos. Annunciava-se um accesso de delirium tremens. As allucinações começaram, e começaram pelo ouvido. Uma gargalhada zombeteira, estridente, soou nos tympanos de Arruda e elle, olhando para todos os lados, achou-se só entre paredes mudas e perfiladas. Sentiu que as idéas confundiam-se e aquella solidão se povoava de sombras, que se moviam lentamente : eram as allucinações da visão que principiavam. As retinas, que não impressionava imagem alguma que aterrasse, não impediam o cerebro de vêr horriveis phantasmas, ligeiros duendes a fazer evoluções por toda a sala. As allucinações do ouvido e da visão cada vez mais se accentuavam. Novos personagens chegavam e fallavam. Simeão ouvia vinte vezes por segundo a voz rouquenha da feiticeira promettendo-lhe a honra
de Carolina, alternar com os gemidos de Victorina na orgia ; via a figura implacavel de Edmundo de punhal em punho e prestes a feril-o. Cercado de todas essas sombras que o apavoravam fugindo d'ellas, pedindo protecção á parede, á qual cosia-se, ficava immovel como um cataleptico. O suor brotava-lhe dos póros ; o olhar fito, sem luz e morto, dava-lhe á physionomia uma expressão morbida. Clemente voltava dos abarracamentos quasi ás seis horas da tarde, e passando em frente á casa em que morou Freitas, parou movido de curiosidade pela postura em que estava o commissario. Reconhecendo Arruda, entrou e comprimentou-o. Simeão não viu o padre. - Que estranha immobilidade ! ... Estará petrificado ?... disse Clemente comsigo. O padre com grande curiosidade poz-se na frente de Arruda e examinou-o com um olhar minucioso. A quietação do enfermo continuou. O sacerdote chamou-o pelo nome em voz alta e o som de seu grito perdeu-se nos vazios aposentos. O commissario continuava no somno dos sentidos. Clemente encosta-se a elle e batendo-lhe com força ao hombro, exclamou :-Acorde, snr. Arruda. Simeão estremeceu como se todos os musculos e nervos tivessem recebido uma descarga electrica. Moveu-se com agilidade da onça e collou-se á parede interna da sala . Clemente não comprehendia aquelle mysterio. O
commissario estava possesso, não havia duvida ; era conveniente exorcismal-o e talvez fosse preciso para enxotar o demonio muita reza e agua benta. O que soffre, snr. Arruda? gritou-lhe ao ouvido o padre, como se fallasse a um surdo. A feiticeira ! ... de batina ! ... crédo ! não lhe dei tanto dinheiro... E Simeão collou-se mais á parede, procurando occultar o rosto entre as mãos. -É o padre Clemente com quem esteve hoje, desperte ! Arruda descobriu o rosto, arregalou quanto pôde os olhos, para conhecer o seu interlocutor. -Já é outro, mudou-se, é peor, é Xenophonte, ai ! solte-me ! gritou o commissario a tremer, e procurando livrar-se das mãos que suppunha agarral-o. O padre começava a inquietar-se com o estado de Arruda ; lamentava não ter agua benta alli e o seu cordão de S. Franscisco, que acreditava mais efficaz do que uma injecção hypodermica de morphina ou uma dóse de chloral. Louco ou possesso, não devia abandonal-o. O padre continuou a fallarlhe. e elle a responder ás suas palavras contando as scenas da orgia e o desfloramento de Victorina. A crise nervosa não devia durar sempre, o accesso foi diminuindo, e antes de anoitecer de todo Arruda, quasi restabelecido, era acompanhado a sua casa pelo padre Clemente.
XXIII A pedreirado Mucuripe continuava a matar a fome a milhares de retirantes, onda de maltrapilhos, afeiados pela variola e vomitada pelos lazaretos. Manoelde Freitas, com o rosto semelhante a um ralo de cobre velho, fazia parte das turmas de carregadores de pedras. Os famintos levantavam-se ao primeiro clarão do dia e moviam-se vagarosos em direcção ao Mucuripe, como uma enorme serpente de escamas negras. Aquella pobre gente convalescia ao sol, fortalecia os membros enfraquecidos pela doença, morosos pela quietação n'uma viagem de doze kilometros todos os dias. Quasi todos tinham uma physionomia triste e doentia ! Entre elles, no entanto, havia espiritos zombeteiros, que, a luctar embora com as mais rudes
contrariedades, tinham nos labios um riso de mofa para tudo ridicularisar. Emquanto o espirito forte recolhia-se e meditava, e depois com um olhar investigador media a profundeza do abysmo, que cada vez mais fundo se fazia, o leviano alegre caminhava a rir de tudo. Zombavam da propria magoa. Morreu gente como formiga e não fez falta ! Parece que estão sahindo do cemiterio ! Olhem aquella velha, o diabo das bexigas comeram-lhe o nariz que quasi não ficou com que tomar folego. Crédo ! -Peor é aquelle curiboca que vem alli; as papocas pregaram-lhe as orelhas e o fizeram тоисо. -Gentes, não riam assim dos castigos de Deus. O mal quando vem é para todos. Olhem o velho Damião lá da Telha ; escapou, porém tão fuchicada tem a cara, como um sacco mal arremendado. Pena fazem os céguinhos, orphãos de pae e mãe ! Sahiram dos lazaretos para o meio da rua a pedir esmolas. E cantando ! Vi hontem mais de cincoenta, era um fieirão bonito e uma gralhada dos infernos. -Diabos os levem com o seu barulho. <<Eu peço por caridade Pelos mysterios da cruz, Meus irmãos dêem uma esmola Pelo sangue de Jesus ».
-É assim que elles pedem, gritou uma retirante depois de ter cantado a quadra. phina. Arremeda agora como elles agradecem, Jose- -< Deus lhe pague a sua esmola Deus lhe dê muita alegria No reino do céo se veja Com toda sua famia » . -Bonito, Josephina ! és um quem-quem para arremedar ! A cantarola d'elles vai-se acabar ; o presidente vai fazer uma colonia para prendel-os. - Só elles, não : tambem as duzias de vadios que andam soltos na rua a fazer diabruras. gentes ! sas! Não ignorem as baldas dos filhos alheios, -E a companhia da russéga ? De que, tio Bernardo ?! - A russéga, meninos. - Ora tibis, as gentes da cidade sabem de coi- -E vossês sabem de um caso succedido hontem na feira ? Conte lá. -Foram presos mais de vinte e cinco. - - E como ? -Fecharam os portões da ribeira e ficaram como preás em fojo. -Então o facão comeu côro de gente ?! Como sem duvida.
Crédo, que malvadeza ! - Eo Manoel Beicinho apanhou como cavallo acuado. -O filho do subdelegado de Milagres ? Ora se... Está em que deu os mal ensinos do rapaz. Acostumou-se a furtar pombos, e como o pae era authoridade e lhe passava a mão pela cabeça, entendeu que aqui seria o mesmo. -E o que furtaram elles ? -Ora, entraram n'uma casa de gente rica e levaram até as panellas ! - Será verdade, tio Bernardo ? Como sem duvida. O delegado achou o couto e foi um Deus nos acuda. mer. E elle que não é molle. - Só aquelle bigode ruivo faz a gente tre E o que acharam ? Tinha de tudo ; estavam todas as gallinhas da cidade lá guardadas . -E de quem era a casa? Isso é que não sei bem; ouvi dizer por bôcas pequenas que era de um sujeito até de paletot! Então era o chefe ? Coisas do mundo. Abafaram o negocio, porém metteram os ratos pequenos no chilindró. E porque chamam russéga, tio Bernardo ? Lá isso não sei.
-Sei eu, gritou um rapaz que ficára atraz accendendo um cigarro . Diga lá, Felismino. - É por mode o vidrinho de cacos de garrafa que elles levam escondido para furar as saccas de generos e os bolsos dos homens limpos. quiz. Estás a basofar, pedaço de vadio ! -Eu fui convidado para entrar no pagode e não -Então és do bando ? -Duvido ! ... O Beicinho me convidou, mas eu que não tenho meu couro para bainha de facão, puzme fóra. -Fizeste bem, filho de sacristão . -A russéga, tio Bernardo, é aquelle vidro que a meninada da cidade amarra nos rabos dos papagaios de papel para cortar a linha dos outros, não é, meu tio ? Eu sei lá d'essas inventivas ! Então viva eu, que já aprendi as sahidas das gentes d'aqui. Marchava assim a turma da miseria, quando foi surprehendida pela voz de um retirante : Lá vem a cavallaria ! ... - Santo Deus ! temos tribusana, gritaram todos a uma v OZ. A falta de disciplina na companhia de cavallaria, organisada ás pressas para policiar a capital, as atrocidades que os soldados commettiam todos os dias espancando a torto e a direito, e assassinando mesmo,
e sem a menor punição, aterrava os retirantes. A noticia da aproximação dos soldados impressionou vivamente os carregadores de pedras. A soldadesca desenfreada esporeava os cavallos, que corriam a galope. Via-se já muito perto o luzir das espadas. Pouco tempo gastariam elles para alcançar os retirantes. Entre estes infelizes era completo o silencio. As respirações estavam quasi suspensas! Tinham corrido para evitar o encontro, mas embalde ; os cavallos voavam, seriam alcançados antes da pedreira. Pararam, agruparam-se intimamente ; dir-se-hia ligados por um estreito amplexo fraternal. Formou-se um quadrado de miseros despojos da peste e fome, que longe de resistir a um ataque, cahiria vencido ao primeiro choque. A soldadesca se aproximava mais e mais. A vozeria dos soldados voava levada pela briza do mar. As palavras insultuosas já se ouviam perfeitamente. As mulheres tremiam de medo com o olhar supplice para o céo. Os homens envergonhados de sua fraqueza, cravavam o olhar na chão ! Os soldados chegaram em frente ao grupo. Os cavallos, instigados pelas picantes esporas, partiram mordendo os freios, sobre a columna inerme. As patas dos animaes pisavam os infelizes, que a prancha do soldado embrutecido lançava por terra ! Na areia rolavam estorcendo-se de dôr, homens e mulheres, cuja epiderme ainda coberta de cicatrizes havia sido rasgada pela espada brutal !
Debandou-se em um instante o grupo. Como um bando de aves fugitivas, erravam á tôa pela costa núa do oceano. Os soldados continuavam a perseguil-os quando o commandante os chamou a postos : -Basta por hoje de ensino, não faltará occasião de surrar esta canalha. A soldadesca açulada pela certeza da impunidade dos crimes, na mais infernal algazarra, na mais estupida zombaria, corria a galope em direcção ao Мисиripe, emquanto mais de cem infelizes gemiam deitados na areia da praia. Doía vêr as contusões feitas pelas patas dos cavallos ! A epiderme ainda nova e cobrindo uma chaga mal cicatrizada, rasgou-se e o sangue ainda depauperado cahia das lividas feridas. Fugiram os mais fortes e os fracos ficaram á mercê da crueldade dos algozes. Quadro pungente offereciam esses infelizes a gemer, emquanto concertavam os miseraveis trapos ensanguentados que lhes cobriam a nudez. A dôr das espaldeiradas é nenhuma á vista do soffrimento moral que os acabrunha, da certeza de que n'aquelle dia o jejum da familia será absoluto ! Manoel de Freitas foi tambem uma das victimas. Assim mesmo manietado pela inanição, ergueuse, e antes que o ferro do soldado bruto o ferisse, elle estalou uma bofetada na face do primeiro que se lhe aproximou. Se tivesse uma arma teria aberto caminho, mas inerme, teve de resignar-se á sorte dos
companheiros, cahir tambem derribado por uma espaldeirada que lhe vibrou no dorso um vigoroso malfazejo. Dispersou-se a turma inteira. No logar do conflicto apenas como testemunha d'aquella scena de cannibalismo, ficaram trapos e manchas de sangue ! Freitas voltou a casa. A familia esperava-o com a impaciencia de quem tem fome. Na cozinha fervia uma panella d'agua em que devia ser escaldada a carne do sul . Filippa, acocorada junto ao fogo, cravava o olhar demente nos tições roídos pela labareda. Josepha e Carolina receberam o coronel á porta da entrada. Elle vinha pallido como uma figura de cêra. A agitação do espirito mostrava-se no rosto em profundos sulcos que lhe alteravam as feições. Que tens, Manoel, que voltas tão contrariado ? - Se tivesse morrido hontem teria sido feliz, porque morria sem ter sido desfeiteado. Papá... meu Deus? ensanguentado ! E Carolina olhava com toda piedade as costas do velho . Sim, minha filha, teu pae foi tambem uma das victimas da sanha da soldadesca desbriada de nossa terra ! Meu Deus ! Manoel, feriram-te ? deram mesmo em cima das marcas das bexigas ; malvados ! disse Josepha examinando as costas do marido. Dá licença ? fallou á porta o padre Clemente . -Ah ! snr. padre, sempre nos acode em nossas
afflicções; seja bemvindo, disse Carolina indo recebel-o e fazendo-o entrar. O que ha, minha filha ? -Papá que voltou da pedreira todo ferido ! - Coronel, D. Josepha, bom dia. - Bom dia, snr. padre Clemente, disse Freitas. Oh! snr. padre, que malvadeza fizeram com o meu marido, quasi o matam ! - Como, minha filha ?! Veja que enorme panno de espada ! - Que crueldade ! ... como e porque foi isso, coronel? lho. -Nada mais que procurar viver de meu traba- -Não houve causa a tamanha perversidade ? -Nenhuma ! Seguia com meus companheiros para a pedreira, quando fomos surprehendidos pela cavallaria que nos espaldeirou ! Oh! senhor, isso é incrivel ! Mas infelizmente é verdade. - Que malvados, snr. padre, papá não offende a ninguem. - Sim, minha filha, os perversos atacam indistinctamente, disse Clemente. sepha. -Este ferimento será perigoso? perguntou Jo Não, basta applicar sobre elle pannos de vinagre com agua fria, disse o padre. -Não ha vinagre, nem com que compral-o, ponderou Carolina.
Não se mortifiquem por isso, minhas filhas ; me sobraram hoje alguns tostões que lhes offereço de muito boa vontade, disse Clemente entregando a Josepha algumas moedas de nickel. -Agradecido . -A jangada ! ... Bernardina ! ... vendida ! ... corre ! ... o mar ! gritou do corredor Filippa, a quem o som estranho d'aquellas vozes fôra acordar da demencia e chamar á sala para, pelo prisma do idiotismo, vêr aquella scena.. O padre despediu-se deixando á familia o necessario para passarem o dia.
XXIV Manoel de Freitas passou o dia triste e desalentado. A scena do espaldeiramento elle a via a todos os instantes sem poder vingar-se ! As palavras consoladoras de Clemente, os desvelos da esposa e da filha não dissipavam a caliginosa noite em que pairava o seu espirito. A idéa de vingança rompia frenetica da multidão de pensamentos que a imaginação creava, como o primeiro raio de luz nas trevas de uma noite de tormenta. Freitas acreditava que lhe haviam ultrajado a honra, e o unico recurso legitimo de que dispunha, era lavar com sangue a nodoa da affronta. O sol levantou-se do leito de purpura e inundou de luz o azulino espaço. O céo, como um plano de *
saphira, mirava-se vaidoso de sua belleza, no vasto espelho do mar. Freitas saudou de pé o novo dia. Tinha os olhos cingidos de lividas olheiras e o rosto ainda humido do suor da insomnia. Passou a noite inteira a olhar a luz da vela, que esbatia as sombras dos objectos do aposento com movimentos phantasticos. Era dia e não havia pão em casa. A pequena esmola do padre mal chegou para uma minguada refeição. O coronel lia um papel verde : era um cartão do Gabinete Cearense de Leitura, á vista do qual lhe seria entregue por ordem da Commissão Domiciliaria a quantia de doze mil reis. Havia mais de quatro mezes que Clemente o tinha dado a Freitas, mas o coronel ainda não tinhase utilisado d'elle . -É uma boa esmola, mas eu jurei, por minha honra, só recebel-a quando estivesse esgotado o ultimo recurso, disse Freitas guardando a guia. Josepha e Carolina vieram ter com elle. -Vaes aceitar a mensalidade do padre Clemente, Manoel ? -Não, estava lendo o cartão e quando suppunha encontrar o meu nome achei um numero ! Achome forte, irei á pedreira. -Santo Deus, Manoel ! Queres-te expôr á ira dos malvados ?! O cartão do Gabinete só me servirá quando eu não dispozer mais de recurso algum.
-Papá, não faça isso, não vá á pedreira ; olhe que o podem encontrar ! - Queres que fique aqui acovardado e vendo-te com fome ? - Não me queixarei. E Filippa poderá tambem jejuar ? Ella não diz o que sente, nada pede, não tem vontade. Por isso mesmo, minha filha, é que devemos cuidar d'ella. Não ha remedio senão ir ; se temes alguma coisa, vai rezar por mim. E Manoel de Freitas sahiu para a pedreira, Em vez de seguir pela beira da praia, caminhava sobre as dunas da costa. O caminho por ahi era mais longo e penoso, porém era mais seguro, estava livre dos malfeitores. A praia estava deserta e soturna ; apenas se ouvia o canto monotono das vagas, que em saudosa toada espreguiçavam-se na costa em plena baixamar. Além, a ponta do Mucuripe, como uma espada de gêlo, entrava de mar dentro. Freitas tinha a pedreira debaixo de vista e admirava-se de vêl-a deserta ! Algumas manchas de sangue espalhadas á tôa pela praia o surprehendiam ! A pedreira já a poucos metros de distancia surgia das ondas como o dorso de um enorme jacaré. Nem um retirante ! apenas dois jangadeiros conversavam sentados nos tauassús das jangadas. Freitas deixava o espirito vagar pelo magestoso panorama que se desenrolava á sua frente. O olhar
n'uma estagnação melancolica e a alma toda absorta n'uma meditação infinda ficariam, se o dialogo dos pescadores não o chamasse á realidade da vida. Freitas ouviu-os com attenção. Malvados ! acabaram com a raça dos Cabugis. Pobre gente, que vivia na paz de Deus trabalhando para ganhar o sustento. E os soldados vieram sós ? - Qual, o negocio foi de combinação. Ante-hontem veio a patrulha patrulhar não sei o que ; tomaram cachaça e depois se haviam de ir cortil-a, começaram a provocar. -Não atalhando o que vossê vai dizendo, foi canna, mesmo porque antes do disturbio eu vi na venda do Chico Piaba elles estarem tomando. -É como sem duvida que a rusga começou, porque um d'elles faltou com o respeito á mulher do Pedro Cabugi. Ella sahia da novena e o cabra atravessou-se adiante e desauthorisou-a. O cabôcolo, que não é molle, mandou-lhe o pau ; então trovejou cacete, tiniu facão e fechou-se o samba. E foi tribusana feia ; eu vinha no morro alto e já ouvia a trovoada. Apanharam que amolleceram. Os seis camaradas correram logo ; mas os dois que ficaram por mais homens, sahiram amassados como genipapos, e tão molles, que foram em rêdes para o hospital. --Cabras de fama ! Nas primeiras pelouradas os soldados ainda quizeram inchar na coronha, mas depois amonhecaram.
-E hontem como foi o samba ? Conte-me que eu estava no mar. - Uma malvadeza de mil diabos. O commandante do batalhão, que é uma féra, dizem por bôcas pequenas, ficou injuriado com a sóva que os soldados levaram, e então escolheu no meio dos famanazes da guerra do Paraguay vinte curibocas do olho vermelho e mandou-se vingar. - Crédo ! que entranhas de pintada ! -Vieram os diabos, e logo em caminho tiraram o couro dos retirantes que vinham buscar pedras, e sem que nem p'ra que. O official, que os commandava, e que era tão bom como elles, ficou no Meirelles tomando um trago na casa da Rosa Fateira, e os bichos ganharam a praia. Com mil diabos ! e não houve quem désse um aviso ? O inspector do quarteirão, aquelle filho de cascavel, era quem podia avisar, mas estava mancommunado com a patrulha. - Que me diz ! O Estevão, que vivia de cama e mesa com os Cabugis, fez isso ? -É como sem duvida. Poz-se á frente da patrulha e foi quem ensinou a casa d'elles. Os soldados entraram, arrastaram os pobres e os picaram a facão na beira da praia. -Que onças ! maus raios te partam, jararacas de vereda. -E o velho Cabugi ! fez cortar coração. Sahiu da casinha, ajoelhou-se com a imagem do Senhor
Christo na mão e pediu que não matassem seusfilhos . Ahi mesmo os malvados o atravessaram com as espadas. Ah ! diabos ! a ponta de minha faca se fez para um caso d'esses. E vossês o que fizeram ? -Nada, homem, era a authoridade. E o Pedro Cabugi, aquelle pescador de fama, cabra do mar, com a mulher com a barriga á bôca para ter seu bom successo d'ella. Mataram tambem ? -Vinha encalhando a jangada do patrão e ainda não tinha ferrado bem a vela, o inspector apontou para elle e os soldados avançaram, e em menos de um minuto elle deu alma a Deus, varado pelas espadas. A mulher sahiu gritando como douda e elles por muito favor não a mataram, deram-lhe apenas dez espaldeiradas para ensino. Que malvados ! -Um d'elles ainda ameaçou-a de rasgar-lhe a barriga e tirar o cabugisinho. Freitas, depois de ouvir a historia da carnagem no Mucuripe, voltou a casa.
XXV Manoel de Freitas vinha para casa triste e desalentado, pensando no jejum da familia; não sabia como honradamente ganhar n'aquelle dia o pão. Pedir esmolas pelas portas, isso o horrorisava ! Voltava elle sentindo esse desconforto, que tanto abate o espirito na vida de infortunios, quando a alma sem aspirações e o coração sem esperanças amoldam-se ás condições do meio, e deixam-se ficar em completa acidia. Caminhava o velho pensando n'um meio de trocar o trabalho pelo pão e não encontrava. Havia sómente o recurso da esmola, a do cartão verde do Gabinete de Leitura. As necessidades talvez o obrigassem a aceital-a. Seguia a passos largos, quando movido de curiosidade parou em frente ao palacio da
presidencia. A praça estava coalhada de povo ! Mais de mil mulheres retirantes acotovelavam-se debaixo das varandas do palacio do governo e gritando : - Queremos o nosso commissario, não queremos outro ; se for demittido, ha barulho ; fecha-se o tempo ! ... Era uma verdadeira conspiração do sexo fragil causada pela noticia da demissão do commissario do abarracamento de * * *. Este agente tinha exposto á venda no mercado publico generos do governo, e que foram apprehendidos pela policia, e d'ahi o boato de demissão. As retirantes instigadas por elle e temendo o successor, que dizia elle ser um homem de entranhas de féra e de proposito escolhido para maltratal-as, levantaram-se e responderam a uma VOZ : -Viva o nosso santo commissario ! não sahirá ! vamos ao palacio ! E sahiram fazendo uma assoada infernal. O presidente havia effectivamente dispensado os serviços do commissario, unica pena ao estellionato que tinha commettido ; mas vendo o ajuntamento, cedeu á imposição das retirantes reconsiderando o acto, o que elle proprio communicou-lhes da janella de seu palacio. As mulheres ouviram-no e voltaram ao abarracamento commentando o facto em vozes altas e mais ou menos assim : -Viva o nosso commissario ! o governo teve medo da tribusana ! se não cede, havia rolo !!
! Mais ebaixo : remos temfragil sario pos VUL boaem ard ! Freitas, sciente da causa do ajuntamento, continuou seu caminho. Chegou a casa e o mesmo silencio, a mesma apathia. Nem Filippa denunciava pela palavra os desvarios de sua razão ! O coronel tirou da maca o cartão do Gabinete, releu-o dez vezes e guardou-o no bolso da calça. Ia utilisar-se d'elle. Josepha animava-o a receber a mensalidade. Carolina fiel á sua promessa, se conservava em silencio ; a fome a torturava. Branca como uma estatua de cêra, sentava-se confronte a Filippa, que fitava-lhe um olhar demente. Freitas sahiu para o Gabinete de Leitura. Depois de atravessar algumas ruas, de andar mais de um kilometro, chegou em frente ao edificio publico, onde por favor do governo funccionava a sociedade particular Gabinete Cearense de Leitura. Não foi preciso que lhe dissessem que alli se distribuiam os dinheiros do Estado. A agglomeração dos retirantes sentados ao sol nos passeios das casas e calçamento das ruas revelava a negligencia com que era feita alli a distribuição dos soccorros publicos. O zelo, a dedicação, a probidade era n'essas commissões uma utopia! A igualdade fugira envergonhada d'aquella atmosphera fratricida ! Voltava a época dos cartões, não com o arrojo com que fôra iniciada, mas em escala sufficiente a produzir grandes damnos. Manoel de Freitas era portador de um cartão, que arbitrava uma mensalidade de doze mil reis ao numero 1:612. Aproximou-se de seus companheiros
e indagou o que seria preciso fazer para ser despachado . -Ha tres dias que aqui quaramos e nada ! entre lá que talvez seja mais feliz, disseram-lhe. Freitas dirigiu-se ao portão com difficuldade ; todos queriam entrar ao mesmo tempo, acotovelavamse, esmurravam-se, queixavam-se da falta de attenção dos empregados do Gabinete. Uma grade de ferro separava os thesoureiros pagadores, dos indigentes, e quatro soldados de terçado em punho garantiam a ordem. Algumas mulheres bem trajadas desfructavam a commodidade de boas cadeiras na área ajardinada. A physionomia respeitavel de Freitas fechada pela fome não lhe deu o direito de preferencia. Já ia perdendo a esperança de chegar a sua vez, quando foi chamado o seu numero. A grade foi aberta e o coronel introduzido no salão. dores. Sua guia ? o recibo ? perguntou um dos paga- -Aqui está o cartão, o recibo não passei por não ter dinheiro para comprar papel. E o que fez dos doze mil reis do mez passado, que não deixou um vintem ? lidade. É a primeira vez que venho receber a mensa E o mez passado quem recebeu ? Ninguem. -E n'esse tempo quem estava de posse d'esta guia ?
Eu. Ha quatro mezes que a possuo. Sem receber?! está mentindo, velho ! ... -O coronel Freitas nunca mentiu. Mente, sim, disse o director do Gabinete depois de ter aberto a pagina onde estava escripturada a guia n.º 1:612. Os senhores podem negar o pagamento do cartão, mas não me podem insultar. -Mentiste, velho, está lançado no livro o pagamento feito a Rosa Maria da Conceição, portadora da guia n.º 1:612, da quantia de doze mil reis e cujo recibo foi a rogo d'ella assignado por um dos empregados d'esta casa. E atreve-se a negar que mandou a mulher ou a filha receber a mensalidade ? - Então existem cartões falsos. Quem deu-lhe esta guia? Não dê confiança a este canalha, rasgue a guia, pois quem não precisou d'ella quatro mezes, póde muito bem dispensal-a o resto da vida, disse o director com estupida arrogancia. -Podem inutilisal-a, mas com isso não escondem o dolo, os estellionatos que se praticam aqui, disse Freitas. Soldados, lancem na rua este miseravel. -Podem até me mandar assassinar, mas não podem duvidar de minha innocencia. -Fóra, velho, nem mais um pio, disse-lhe um soldado, pondo-lhe a mão no hombro. -Não me toque, guarde distancia; um soldado é um inferior.
Conduzam para fóra este insolente, disse o director carregando os sobrolhos grisalhos e dando ao rosto aparvalhado uma ferocidade de besta, mas de besta mofina . Sahirei, mas juro denunciar o que vai aqui por dentro. Bandidos que saqueiam o Estado a titulo de leaes servidores da patria ! deia. -Soldados, conduzam este miseravel para a ca Não me toquem, repito, não posso ser conduzido por inferiores ; sou coronel da guarda nacional. Conduzam, que a farda que elle veste é de - mendigo . Os soldados aproximaram-se com os refles em punho . Freitas, exasperado de indignação, quiz resistir, mas pôde em tempo dominar a colera, obedeceu e seguiu escoltado para a cadeia. O povo, que estava agglomerado á porta do edificio e que em parte havia presenciado as scenas que se tinham passado, longe de apupar o coronel, recebeu-o com saudações : - Viva o coronel ! viva o velho honrado ! morra a muamba ! fóra os muambeiros ! As manifestações da populaça chegaram aos ouvidos do director, que, offendido em seu orgulho e prosapia, e não podendo mandar prender a todos que preguejavam, suspendeu o pagamento por quatro dias, afim de castigal-os de sua audacia. Elles commentavam o facto que dera logar á prisão de Freitas :
Ora não haverá justiça n'esta terra ! O pobre vem receber sua mensalidade, não recebe e além d'isso ainda vai preso ! - A muamba não se acaba mais ! ... E como ha de acabar, se ella é filha da sêcca ?! E corre mais que o vapor ! -Já anda do Crato a dentro ! E só sendo assim, poderão elles dar cem mil reis por mez a gente rica de meia nos pés! - Crédo ! malvados ! tiram dos pobres e dão a quem não precisa ! Elles hão de augmentar, permitta Deus, como correia no fogo . - coroatá. - E rasgaram a guia do velho? Qual ! ficou inteira e tão verde como folha de Servirá para pagar amas de leite para os filhos dos compadres. -Estas gentes sabem de coisas ! ... -E a filha da Rosa Preá não recebe aqui dez mil reis para dar de mamar á filha de um homem de relogio ?! -Isso é inventiva, não façam juizos temerarios. Inventiva o que ! e a graça é que ella tem cadeira e é despachada logo. Manoel de Freitas seguia escoltado pela rua da Palma ; tinha os olhos baixos e o semblante carregado de indignação. Os soldados com os terçados nús o acompanhavam silenciosos, os transeuntes olhavamno com indifferença e a canalha nunca respeitou tan-
to um preso. Ao passar em frente do passeio publico, enfrentando com a rampa que vem da praia para a cidade, encontraram-se com dois passageiros vindos no paquete do sul, fundeado havia poucas horas. Um dos passageiros, depois de ter encarado o coronel, se dirigiu a elle : Coronel Freitas ? Edmundo ! Meu amigo dr. Gervasio, coronel ! meu amigo coronel Freitas, disse Edmundo . Gervasio, Comprimentaram-se e Edmundo perguntou aos soldados : Á ordem de quem vai preso o coronel ? Saberá v. s.ª que á ordem do director do Gabinete Cearense de Leitura. - Levam o mandado da authoridade ? Não senhor. A prisão é illegal. Iremos em primeiro logar á presença do chefe de policia. Os soldados levaram o preso acompanhado de Silveira . Mais tarde te procurarei no hotel, Gervasio, disse Edmundo. Estimo que te saias bem. -Ás tuas ordens. Adeus.
XXVI O padre Clemente voltava uma noite dos abarracamentos de retirantes, onde ia todos os dias prestar aos infelizes os soccorros de seu ministerio. Tonificava-lhe a atonia da velhice prematura a paz da consciencia, que nos arroubos ardentes da fé confortava-o com a esperança de uma futura recompensa aos sacrificios d'agora. Esperava-o como sempre a solidão da cella, que, pobre como a habitação dos verdadeiros apostolos do Christo, tinha as commodidades de um horto, e tão confortavel era como o lar de qualquer indigente. Dava-lhe claridade a pouca luz irradiada de um combustor da rua fronteiro á janella . Era aquella pobreza a synthese da virtude . Clemente era infatigavel apostolo da religião do crucificado. O cançaço a extenuar-lhe os membros, a
fadiga das longas horas a missionar os retirantes, as victimas da sêcca, não lhe alteravam a placidez da physionomia. Voltava sempre calmo e satisfeito, como se tivesse provido a todas as necessidades da vida. Era já noite quando se recolheu a casa e apenas o estomago havia recebido uma unica e pequena refeição ! A cella offerecia a solidão de todos os dias e a imagem do crucificado em seu mutismo parecia reiterar a Clemente a promessa sagrada aos que, como elle, vêem na humanidade a sua familia. O padre entrou e ajoelhou-se em frente do crucificado com tanta reverencia, como se estivesse na presença do proprio Deus, e orou. Era a humildade e a fé na mais perfeita união aos pés da Divindade, era a crença descortinando o infinito, rasgando o véo que esconde o desconhecido, e vendo com os olhos da fé o Creador, a quem eleva sublime preito. O som d'aquelle hymno entoado por aquella alma de anjo, devia echoar nos páramos celestes. Clemente levantou-se commovido, com o olhar angustiado de Christo e procurou o leito ; n'este momento entrou no quarto um homem velho, e perguntou-lhe com respeito : Posso trazer o jantar ? E temos alguma coisa, meu bom Constantino? Sobrou com que fazer um prato. Aceito a sua boa vontade. O creado sahiu e voltou pouco tempo depois trazendo uma pequena refeição. A pobreza do jantar não !
* F E tes, as Hez da come vida penas a re sed era menor que a do leito, o qual constava de algumas taboas de pinho cobertas com um lençol de algodão ! Clemente serviu-se de metade da refeição, deixando a Constantino tambem com que matar a fome. O creado retirou-se e o padre deu volta á chave da porta que communicava o aposento com o interior da casa. Ficando incommunicavel, tirou da gaveta d'uma mesa uma carteira e sentou-se na cama . Tinha nas mãos o necessario para tirar-lhe o somno toda aquella noite. Era uma questão grave a decidir e cuja decisão seria do mundo ignorada, mas por isso mesmo deveria ser muito justa. A carteira era a de Simeão de Arruda, perdida na noite da orgia. O padre, depois de examinar todos os papeis, entregou-se a profundas meditações. Arruda era um grande criminoso e como tal merecia ser levado aos tribunaes, entregue á justiça. As cartas do thesoureiro provavam as delapidações que elle havia feito dos dinheiros do Estado, a sua publicação entretanto importava a violação do sigillo da confissão. Clemente ficou de posse de todos aquelles segredos no confessionario. Elle tirára da mala de Quiteria do Cabo a carteira com os documentos e dinheiro, e era necessario dar um destino áquella quantia que não era sua. Restituil-a a Simeão, nunca ; entregal-a ao governo, seria preciso dizer a verdade sobre a procedencia, e
isso se tornaria um crime ainda maior -o abuso do confessionario. Doal-a ás victimas da secca tambem não ; não lhe ficava bem doar o que não lhe pertencia. Clemente pensava em tudo isso quando lhe bateram á porta. Está em casa o snr. padre ? -Sim, senhor. E recolhendo a carteira á gaveta dirigiu-se para a porta. Alguma confissão, meu filho ? perguntou sem dar volta á chave. É Simeão de Arruda que deseja aconselhar-se com v. rev.ma Clemente presentiu uma cilada e respondeu : -Se é em artigo de morte estou prompto, ao contrario me queira desculpar ; cheguei do abarracamento ha pouco tempo e estou bastante fatigado. Póde abrir, snr. padre, é dever do sacerdote dar conselhos a qualquer hora do dia ou da noite. Se não está em perigo de vida, volte ámanhã ao romper do dia, que me encontrará prompto a ouvil-o. Voltarei. O padre voltou ao leito. Arruda afastou-se da porta e se incorporou a tres individuos que o tinham acompanhado e guardavam distancia. Seguiram rua fóra conversando : sario. O diabo do padre é sabido, disse o commis- -E v. s.ª paciente de mais.
Juso do ote te ambem pertenpara sem -Com as suas posses eu não aguentava que elle me estivesse atubibando. Nós estavamos promptos ao primeiro signal. Entravamos de casa dentro e levavamos tudo. O que não se pôde fazer hoje, se faz ámanhã, disse Arruda. -E elle nem desconfiava de v. s.... Podia desconfiar. - Qual, snr. commissario, v. s.ª entrava e quando estivessem entretidos conversando, nós rebentavamos de casa dentro. - O padre tinha medo, e v. s.ª fingia-se desesperado com a falta de respeito, e se botava para nós e luctava. -E até para o negocio ficar mais confeitado nos mettia o pau á vontade. Um de nós se atracava com v. s.ª, emquanto os outros carregavam o bahú, a cama, amesa do padre. -Era bem feito, mas o diabo cochichou com elle, disse Arruda. Ámanhã nós voltamos e não precisamos mais de v. s.ª Sabemos da casa e havemos de vir chamal-o para uma confissão. a casa. E quando elle abrir a porta, nós limpamos-lhe Sim, mas no dia que eu marcar, disse o commissario. - Será. -Mas não offendam o padre.
- V. S.a - Crédo ! por dinheiro nenhum. Se fazemos isso, é para salvar a honra de E será motivo de excommunhão ? - Qual, só ficariam excommungados se dessem no padre. E o commissario, separando-se dos companheiros, seguiu para casa. Clemente não pensou na visita de Simeão e muito menos na cilada, de que escapára. Era preciso decidir a questão do dinheiro. Meditou e meditou muito, e depois proferiu a sentença : - Seja o dinheiro distribuido com os famintos, reparta-se elle igualmente com os necessitados ; a obra da caridade será completa e o sigillo da confissão não será violado .
XXVII Aos primeiros clarões do dia o padre Clemente levantava-se do leito, sempre disposto a continuar a ardua tarefa de seu ministerio. Simeão de Arruda o encontrou de sahida para os abarracamentos . -Bom dia, rev.mo padre. -Bom dia, snr. Arruda. Esta noite vim interrompel-o em suas orações ; estava com o espirito enfermo e desejava o conforto de suas palavras. Senti não poder prestar-lhe attenção ; acabava de chegar dos abarracamentos e precisava de repouso. -E verdade, snr. padre, que está em seu poder uma carteira com dinheiro e documentos que me pertencem ? -Sim, snr. Arruda.
- - E não pretende restituir-m'a? Não, senhor . E acha justo e regular este seu procedimento? Perfeitamente . E porque ? -Porque o dinheiro não lhe pertence. - -E que destino pretende dar ao meu dinheiro ? Distribuil-o com os famintos ; restituil-o ás victimas da sêcca, seus legitimos donos. -E em que v. rev.ma firma-se para negar-me a posse d'essa quantia ? -Permitta-me tambem que o interrogue. Com que direito chama seu o dinheiro do Estado ? Com que direito reclama a posse de uma propriedade, que com sua propria assignatura affirma não lhe pertencer ? Quer que continue ? O dinheiro que estava na carteira decerto não me pertence ; estava de posse d'elle sómente o tempo necessario para distribuil-o com os retirantes. Não está isso escripto nas cartas do thesoureiro. corda? E como v. rev.ma obteve esses papeis ? E como perdeu-os ? em que logar, não se re Na rua. N'uma orgia. - Um crime enorme commette v. rev.ma violando o sigillo da confissão ! tou-me. Não, eu repito uma historia que o senhor con
-Permitta dizer-lhe que mente ! -Já que muito ingrata tem a memoria, permitta que me justifique lembrando-lhe um facto muito recente. Recorda-se da tarde em que encontrei-o n'uma casa abandonada ? Quem, horrorisado de si proprio, tremulo, hirto, proferia o nome de Victorina ? Quem fugia diante do punhal de Edmundo ? Quem implorava a protecção da feiticeira, offerecendo-lhe rios de dinheiro pela honra de Carolina ? Basta, snr. padre, distribua o dinheiro com os famintos, mas me entregue os documentos. Ainda é cedo ; ficam em meu poder até que o senhor se corrija. - padre. Em nome de Deus dê-me os papeis, snr. -Não ; de posse d'elles, eu tenho um freio a seus desvarios. Não receie que sirvam de arma á vingança, que venham a cahir em poder de outro. No dia em que boas razões me convencerem de sua regeneração, lh'os restituirei. Então não me envergonhará? Não. Arruda retirou-se completamente desorientado. Clemente tirou da carteira do commissario o dinheiro, que importava n'um conto e duzentos mil reis. Dava para soccorrer a dez familias com a mensalidade de dez mil reis e por espaço de um anno. O padre, acostumado a visitar diariamente os domicilios dos necessitados e conhecedor de suas privações, levaria perfeitamente bem a esmola aos que
mais precisassem d'ella. Tirou da carteira a quantia para dez mensalidades e foi cumprir fielmente a sentença que proferira na solidão da cella. Clemente deixára Freitas doente e apenas alguns tostões lhe dera, para com a familia se alimentar. Seria o coronel um dos primeiros soccorridos. A porta da entrada estava cerrada; o padre fezse annunciar com algumas palmas, que Carolina ouvindo veio recebel-o . A moça estava livida como uma figura de marfim . Parecia que a fome havia tragado com avidez famelica todos os globulos vermelhos do sangue arterial. A tristeza lhe amortecia o olhar e n'aquella dôce languidez da vida que desfallece á mingua de seiva, de forças, estendeu a mão tremula ao sacerdote. Aquelle desalento havia feito-lhe realçar mais a belleza ! Clemente fitou-a e sentiu deleital-o a morbideza d'aquella carnação feminina em contacto com a sua mão. Fitou-a mais e, sem que elle o quizesse, os traços correctos d'aquelle formoso rosto de mulher passaram das retinas ao coração. Haviam impressionado a alma do homem sem attender o voto do padre ! Clemente sentiu que o olhar desalentadode Carolina n'um languido esmorecimento dos sentidos havia-lhe feito mal . Fechou os olhos para não vêl-a, mas embalde ; a imagem sem que elle o presentisse, ou quizesse, dos olhos passára á alma ! Clemente era forte e virtuoso. Percebeu a tenta-
ção e pôde em tempo dominar-se, matar aquelle desejo da carne, e fiel ao seu voto, suffocar os sentimentos que podiam fazel-o perjuro. Era preciso entretanto evitar a estrella que lhe dardejava n'alma raios tão fortes e deslumbrantes. Continuar a fital-a era expôr-se a cahir ; a tentação cresceria á custa dos escrupulos da consciencia, que facilmente se submetteria a todos os caprichos da carne. O padre, conhecedor do espirito humano, temia mais a sua fraqueza do que confiava em sua virtude. Era preciso fugir, procurar no trabalho, na mortificação apagar os ultimos traços da imagem que lhe haviam ficado dentro d'alma. Sahir precipitadamente sem deixar a esmola, acovardar-se, submetter-se á vontade da besta que pretendia dominar o homem e subjugal-o, era umjugo tremendo e ao qual o caracter de Clemente não se sujeitaria sem resistir muito. Chame sua mãe, minha filha, disse o padre. O sacerdote por um supremo esforço havia triumphado dos botes que á sua virtude atirava sua animalidade. Era agora sómente o apostolo de Christo, o apostolo sublime da caridade que procurava o desvalido para soccorrel-o e não para ultrajal-o, para profanar-lhe a innocencia a preço de beneficio. Carolina entrou e o padre já não pensava em sua belleza, mas na fome que roía-lhe as entranhas ! Clemente tirou do bolso dez mil reis e esperou Josepha para lhe dar a mensalidade. Freitas entrou n'essa occasião com Edmundo. O coronel apresentou ao padre o seu amigo.
Josepha e Carolina vieram á sala suppondo acharse ahi sómente o sacerdote. Agradavel surpreza ! Edmundo se aproximou d'ellas e saudou-as com bondade e respeito. Carolina experimentou uma sensação que se confundia n'um mixto de alegria e surpreza, e viu-se rodeada de todas as suas virentes esperanças. Freitas e Josepha liam em silencio o que estavase passando no coração da filha. Edmundo se inebriava no gozo ineffavel de seus pensamentos, nos desejos de noivo. Acariciava as imagens louras que se succediam de instante a instante na mente incendida pelas chammas do primeiro amor. Entre os sonhos côr de rosa, de quando em vez um pesadelo ; o odio e a vingança ao commissario, estes sentimentos lhe assaltavam o espirito, e no meio das illusões que o deleitavam, pareciam abysmos profundos e terrorosos alumiados pelo sol, que de quando em vez scintillava e uma nuvem lhe escondia o disco luminoso . Clemente guardava com toda piedade nos sacrarios da alma as impressões de todas aquellas scenas . Passára a tempestade. Foi um momento de allucinação na vida do padre, um instante de amor, de adoração na vida do homem. Foi ao Gabinete, coronel ? Sim, snr. padre, e muito mal succedido. Os dias para mim parece que estão sendo aziagos. - Então não recebeu a mensalidade ?
achar Oreza ! com coneroага eus as
Ho コ -Negaram o pagamento, e como reclamei-o, fui preso.-Prenderam-no ?! -E se não fosse o snr. Edmundo, teria ido á cadeia e lá ficado até quando quizessem os meus senhores. Nunca vi tão grande arbitrariedade, disse Edmundo. - Então não chegou a ser recolhido? perguntou o padre. O chefe de policia teve o bom senso de pôl-o em liberdade, não é duro de cabeça como a cavalgadura que dirige o Gabinete, disse Edmundo. -Os commissarios têm abusado muito, disse Clemente. -E eu que o diga. Estive expatriado mais de um anno, graças á infamia e perversidade de um d'estes agentes do governo, mas jurei nas agonias de meu tormento, na solidão de meu desterro, vingar-me e vingar-me de um modo terrivel. O perdão é nobre e a vingança é vil, snr. Edmundo. A religião manda perdoar as faltas de nossos semelhantes, para que Deus nos perdõe as nossas, ponderou Clemente. -A justiça pune o criminoso do mesmo modo que a religião condemna o culpado a penas eternas . Nada de odios e de paixões quando tivermos de julgar os outros, disse o sacerdote. - - Minha sentença não é obra do momento, não ; a consciencia ditou-a e eu meditei longos mezes, e
cada dia que passava eu a conhecia mais justa. Não é uma vingança ; é uma punição. - Tenho de ir aos abarracamentos e não dispondo de mais tempo agora, peço-lhe, snr. Edmundo, o favor de suspender o golpe sobre quem quer que deseje ferir até que conferencie commigo, o que poderá ser quando quizer em nossa casa á rua de .... n.° .... das cinco ás oito da manhã e das seis ás nove da noite. -Ámanhã o procurarei. Clemente sahiu para os abarracamentos deixando na despedida entre as mãos de Josepha a esmola. O modo de dal-a não passou desapercebido a Edmundo, que, depois que o sacerdote retirou-se, disse a Freitas : -Deixa o obolo da caridade como manda Christo. Não pertence á raça terrivel dos impostores que fazem alarde do beneficio ; não é dos que mettem a mão no bolso para tirar a esmola ao mesmo tempo que põem a trombeta na boca para denuncial-a. Achamo-nos com elle a hora angustiada das provações mais crueis ! Encontrou-nos enfermos e abandonados, e nos recolheu ao hospital ; achou-nos ao tempo e nos abrigou, disse o coronel. Verdadeiro apostolo do crucificado ! -É o nosso bemfeitor e amigo, disse Josepha. Carolina precisava estar só ; as impressões abalaram-lhe muito os nervos, e sentindo necessidade de chorar se recolheu ao quarto. Edmundo seguiu-a com a vista, e cada vez mais
a. Não ispon unda r que prode ..... is as apaixonado por ella, sem dominar-se se dirigiu a Freitas : -Meu amigo, ha muitos annos que meu coração vive do amor que tem a sua filha ; a sorte fez que nos encontrassemos n'um terreno menos accidentado, e o destino nos aproximou. Se meu caracter e conducta não lhe merecem censura, eu peço a mão de D. Carolina. A moça havia chorado, mas de olhos enxutos já voltava á sala ignorando o que se estava passando. Ousei, D. Carolina, sem consultar a sua opinião, pedil-a em casamento. O coração não se domina quando sentimentos ardentes vibram as suas mais intimas fibras. Abro em suas mãos a primeira pagina do livro de minha vida, abençôe a minha aspiração de tantos annos e eu serei feliz. Carolina ouviu as palavras de Edmundo com os olhos fitos no chão. Irradiaram-se-lhe n'alma os clarões de uma nova aurora. O silencio foi a resposta á supplica de Silveira, mas não um silencio dos que nada dizem, não ; a palavra foi substituida pela expressão de um olhar, que, retemperado no estreito espaço de um quadro no ladrilho, ergueu-se altivo e nobre e fitou-se em Edmundo, que comprehendeu n'aquelle casto mutismo o amor que illuminava a alma da virgem. Freitas assistia commovido áquella scena. Devia sanccionar as aspirações do amigo, os desejos da filha, e fallou : -Sejam abençoadas as vossas affeições, meus
filhos. Deus queira cobrir de felicidades a vossa união, amparar os vossos passos no tortuoso e difficil caminho da vida . A voz do coronel, grave como a consciencia, calou-se e tudo voltou ao silencio. O futuro, mixto de duvidas e incertezas, estreitava no circulo da imaginação os pensamentos de todos que alli estavam. Todos queriam devassar o que só é permittido ao tempo, excepto Filippa que, roída de fome e sem ser presentida, viera collocar-se á porta do corredor e exprimia por palavras a esmo a necessidade que tinha de comer : Foi no mar ! ... Bernardina ! ... O homem ! ... a Jangada ! ... foge ! ... As palavras da louca arrancaram o grupo aquella profunda meditação. Fitaram-na e Edmundo perguntou : -Filippa, a sua escrava, coronel ? -Hoje louca e liberta ! Edmundo tudo comprehendeu, e sem proferir mais palavra, se despediu e seguiu para o hotel.
XXVIII Edmundo seguia pensativo. As emoções por que passára, actuavam-lhe ainda no espirito, encarcerando em apertado circulo a imaginação exaltada. Chegára á patria e não tivera tempo de saudar o céo do torrão natal! A situação em que encontrou Freitas, absorveu o tempo destinado á contemplação de sua terra, depois de um desterro de quasi dois annos ! O caracter de Edmundo se retemperou mais no cadinho das provações. Desembarcado do vapor Pernambuco na inhospita ilha do Pina, no Recife, achouse entregue á miseria e sómente á miseria, rodeado de mais de quatrocentos companheiros de infortunio, maltrapilhos e famintos ! Emquanto nas aguas do
Ceará lançavam-se todos os dias os generos que apodreciam nos celleiros do governo, os retirantes eram forçados a sahir da provincia. A ilha do Pina, destinada para alojamento d'esses malaventurados, era muda testemunha de scenas pungentes. Não era o calor do sol durante o dia, a humidade ao relento da noite, a ração insufficiente e atirada de má vontade, as cisternas trancadas aos que tinham sêde, os soffrimentos, as privações, não; por cumulo de crueldade eram o escarneo, o motejo a amargurarlhes a existencia já tão depauperada de conforto, de paz, de felicidade ! Edmundo achou-se envolvido n'essa onda de infelizes e sujeito tambem aos mais atrozes soffrimentos. Quatro dias depois de sua chegada ao deposito, appareceu alli um senhorde engenho da Escada, homem de meia idade, de maneiras bruscas, que vinha observar os retirantes, afim de escolher alguns para empregar na lavoura. Mal avisado andou o agricultor ; encontrou-se com esqueletos animados, achou-se frente a frente com a miseria, que, como uma panthera, cravava as garras no coração d'aquella pobre gente. O senhor de engenho ia retirar-se quando viu Edmundo. A presença agradavel do moço despertoulhe a attenção e não demorou-se em convidal-o para seu empregado. Qualquer proposta lhe seria vantajosa. Edmundo acompanhou o agricultor ao engenho e entregou-se aos seus serviços com a dedicação, a solicitude do escravisado que trabalha pela liberdade. Longo foi o tempo
que ap es eram amide atirali camn! gunk de in Time all 武 desti do degredo. E que somma de sacrificios não lhe custou ! além das horas amargas de saudades da patria, o testemunho de scenas repugnantes de escravidão ! O tronco, a gargalheira, o carro, a fornalha, supplicios infligidos pelos desalmados que chamavam sua propriedade a outro homem, traziam-no em um estado afflictivo ! A nostalgia minava-lhe a alma, todos os gozos valiam menos do que a idéa de voltar ao torrão natal. Em troca de tantos sacrificios pôde alcançar o preço do resgate. A obra estava completa. Silveira apresentou-se ao senhor de engenho e disse-lhe que deixava a casa, para regressar ao Ceará. O agricultor fez-lhe propostas vantajosas, para que elle continuasse, mas Edmundo tudo recusou e partiu para o Recife. Chegando áquella capital tomou passagem para a Fortaleza. O dia da sahida do paquete foi para Silveira de completa alegria ! Os primeiros passos da escada do navio foram como os do naufrago, que, depois de luctar muitas horas com as ondas, pisa terra firme ! A felicidade tem caprichos como a desgraça, Edmundo chegava á idade de ouro. A bordo estava preparada para elle uma agradavel surpreza : um collega de collegio era tambem passageiro do vapor que elle ia tomar. Encontraram-se na camara, conheceram-se e um apertado abraço e estas palavras : Edmundo ! -Gervasio ! Havia dez annos que não se viam. Os seus pen- *
samentos voltaram-se immediatamente para o passado e as recordações dos dias de collegio os absorvia. As sabbatinas, os sabbados que precediam os domingos de sahida, o dia de ferias, os artigos do periodico, as pilherias do gaiato da classe, emfim tudo recordaram em um instante. Elles não cessavam de se olhar, achavam as physionomias pouco differentes, apenas a barba e o corpo mais desenvolvido. Edmundo contou a Gervasio sua historia e recebeu d'elle a promessa de empregal-o bem, logo que chegassem. Edmundo chegou ao hotel onde Gervasio o esperava com uma boa noticia. Tinha obtido o emprego. Ao dr. Gervasio, despachado juiz de direito para uma das primeiras comarcas da provincia e amigo da situação, era impossivel que o presidente faltasse, não satisfazendo um pedido, embora nas repartições não houvesse mais uma vaga. A portaria estava assignada e Edmundo da Silveira feito empregado publico e com bons vencimentos . Agradeço-te do coração a collocação que acabas de obter para mim, mas talvez não me venha a servir. - Como assim ? Tenho que saldar uma divida dehonra e sahirei da lucta para a cadeia ou para o cemiterio. Estás louco ? Ainda mais que louco, desesperado ! ... Não te comprehendo. Contei-te minha historia. Jurei castigar o per-
ra opas absora osdomit perial ado re am de ferentes . ere goque ש da se verso, que me atraiçoou, matando-o logo que desembarcasse aqui. - -E Carolina ? -Hoje minha noiva, pois pedi-a. - Tua noiva ? ! ... Fizemos, ha pouco, os nossos esponsaes. Ficará viuva antes do casamento, não ? -Ah ! Gervasio, o destino continúa a perseguirme. Já não tenho mais forças para luctar ! O amor e o dever batem-se em duello de morte e do qual não sei o termo ! ... -Despreza o covarde que te offendeu, esquece a villeza de teu inimigo pequenino e terás-te elevado. -Nunca; prefiro a morte. O meu desejo de vingança é hoje uma necessidade, uma allucinação do espirito. -E Carolina, Edmundo ? - Sim, ella, a quem ha pouco prometti um futuro, morrerá de dôr ! - Se quizeres. Por seu amor, por sua paz, por sua felicidade, esquece a offensa ; ao contrario serás um tresloucado. Fazer esponsaes quando se tem em vista commetter um crime, só se explica por um desarranjo mental ! -Não posso perdoar. Serás um assassino. -Um assassino, não ! -Um assassino, sim. A sociedade te apontará como o homem que matou sem ser em defeza propria; te condemnará, porque não tens direito de
tirar a vida de outrem ; te accusará como o assassino que dois annos premeditou o crime ! -A sociedade puniu o crime de meu algoz ? ouviu os meus gemidos no degredo ? escutou o pranto que derramei longe da patria? Não, ella nada ouviu de meus lamentos, agora seja tambem cega, que vou punir um criminoso. -Querias que ajustiça entrasse no conhecimento de uma offensa toda particular? -E para que ? Para escarnecerem de mim? Não ; ha offensas que não se levam ao publico antes de se terem lavado em sangue. -Medita bem esta noite e amanhã me dirás se persistes em ser um assassino. Boa noite, Edmundo. Boa noite, Gervasio.
O o assasi 1 alguz?- a o prawi nadaomi za, queva nhecimetr de min lico antes dirás XXIX Simeão de Arruda estava enfermo. Os membros inferiores pesavam-lhe como chumbo, uma inappetencia invencivel obrigava-o a rejeitar toda sorte de alimentação, emquanto o estomago parecia digerir uma montanha de ferro. Depois da ultima visita ao padre Clemente, os soffrimentos augmentaram. A molestia havia collado diante dos olhos do commissario um quadro sombrio, tinha-lhe encarcerado o espirito no escuro circulo da tristeza. Tentava fugir dos phantasmas que o perseguiam, mas elles eram o producto de um estado morbido, que cada vez mais se accentuava. A voz de Victorina chorando a deshonra, o desespero de Edmundo cobrindo-o de maldições no de-
posito de retirantes da ilha do Pina, soavam-lhe a todos os instantes nos ouvidos. O conforto suave da familia, o recurso da sciencia não lhe minoravam o tormento . As funcções do cerebro a doença havia mais ou menos pervertido. Os erros do commissario, como sombras pavorosas, passavam incessantemente pela imaginação, e a consciencia implacavel atirava o remorso, esfaimado abutre, para lhe dilacerar o coração. Arruda não encontrava nas paginas do livro intimo de sua vida registrado um acto bom! Tudo o accusava, tudo se erguia para esmagal-o ! Queriaum conforto, um lenitivo, e a propria consciencia apontava-lhe as faltas ! Na agonia de seu abandono moral, nada o confortava! Uma noite, depois de ter-se debatido nas angustias da insomnia, Arruda chorou ! A idéa de uma reconciliação, não com a sociedade, por quanto talvez não fosse mais possivel, mas com Deus, assaltou-lhe o espirito, como o unico recurso legitimo que lhe restava. Precisava de um medianeiro entre si e a Divindade, de quem o ajudasse a vencer os obstaculos que The vedavam o caminho. Quem o auxiliaria, pensava elle, quando de repente uma imagem desenhou-se-lhe na imaginação : era a figura respeitavel do padre Clemente. Arruda cobriu o rosto com as mãos e chorou. Pela manhã levantou-se a custo e procurou a casa do sacerdote. Caminhava com difficuldade, os passos eram vagarosos e uma dyspnéa afflictiva opprimia-lhe
am-lhe suave da oravamo mais ou 0, como tepela aore
vro in Tudo o iaun onta mora ede por eus mo o peito. Só um esforço supremo fazia com que vencesse a distancia que o separava da casa de Clemente. Depois de penosos sacrificios, chegou ao almejado porto. A porta do padre já estava aberta e elle preparado para continuar a ardua tarefa. Simeão a custo conseguiu transpôr o limiar da porta e cahiu extenuado em uma cadeira. O padre lançou-lhe um olhar commovido e se aproximou d'elle. - O que tem, snr. Arruda? O commissario estava quasi desfallecido. Banhava-lhe o rosto o suor gelado da vertigem. A dyspnéa augmentava alimentada pela cinta beriberica, que, como um espartilho de ferro, constringia-lhe o thorax! Os pulmões pouco se dilatavam, embora a bôca aberta procurasse enchel-os de ar ! O beriberi havia dias traiçoeiramente destruia aquelle organismo, e agora com marcha accelerada completava a obra. Triumphava a legião dos infinitamente pequenos ! Arruda quasi não podia mais fallar. Com grande esforço disse ao padre : -Estou... ás... por... tas... da... mor... te... me... per.... doe... te... nha... pena... de... mim... Clemente, penalisado, ajoelhou-se ao lado do enfermo. Era um desgraçado que se estorcia nas agonias da doença e pedia protecção. Prestou-lhe os min-
guados recursos de sua pobreza e os soccorros espirituaes . A molestia progredia de um modo incrivel; o enfermo já não podia estar recostado á cadeira. Com os olhos a saltar das orbitas, quasi asphyxiado, n'uma anciedade mortal, o commissario sentia que lhe esmagavam o coração entre dois cylindros de ferro. O padre conheceu que Arruda estava ás portas da morte. Não havia duvida ; elle era um moribundo e a familia ignorava o seu estado . Clemente, desejando que a mulher e filhos do enfermo lhe assistissem aos ultimos momentos de vida, deixou o creado velando á cabeceira do commissario e sahiu apressado. Edmundo da Silveira levou a noite toda a pensar. Pela manhã tinha os olhos pisados pela insomnia e o coração mortificado pelo desespero. As palavras de Gervasio nada lhe influiram no animo. Fiel á promessa, antes de castigar Simeão de Arruda, foi á casa do padre Clemente conferenciar com elle. Parou á porta do sacerdote e viu estendida na calçada uma retirante. A immobilidade do corpo, algumas manchas de sangue proximas a ella, chamaram sua attenção . Silveira aproximou-se mais ; a infeliz tinha o rosto coberto com a ponta do rôto e immundo lençol. Descobriu-o e quasi viu sómente uma caveira ! Que faz aqui, mulher ? A desgraçada respondeu a custo, mostrando uma creança recemnascida.
ال sespiri el; o en Com os n'uma Thees rro. portas ibunda doen evida, ssaril ensil mia e as de pre -Baptise, para não morrer pagão. Aquella infeliz acabava de ser mãe na rua, exposta como uma cadella sem dono. Edmundo a tomou nos braços e entrou na casa do padre. -Dá licença, snr. padre Clemente ? Constantino ficou surprehendido com a visita, emquanto Arruda, reconhecendo Silveira, pôz as mãos em attitude de supplica, antes que o ferisse o raio de sua colera. Edmundo agasalhou a retirante e o filho na cama do padre, e, quando voltou-se para interrogar o creado, reconheceu o commissario : -Miseravel ! Eis-nos emfim face a face ! ... E marchava para Simeão. - O que é isso, senhor?! Pretenderá porventura espancar um moribundo ?! Se não respeita o enfermo, ao menos guarde o decoro devido á habitação de um justo, disse Constantino se collocando em frente de Edmundo. - Ia privar-me de um gozo infinito acabando com a corrente de crimes que te foi a vida. Ignorava que estavas moribundo, miseravel ! Apraz-me vêrte agonisar ! De cada um dos teus estertores eu terei um contentamento, pois é infindo o odio que te voto. E tens as mãos supplices ! ... A quem pedes compaixão ?! A mim?! Responde tu mesmo, infame, se eu posso commover-me com tuas desgraças ! Pergunta ao teu coração se elle se enterneceu quando á falsa fé me desterraste ! Riste de minha desventura,
é justo que eu escarneça ás gargalhadas de teu martyrio ! Morres, Simeão de Arruda, quando eu queria que vivesses para gozar das delicias de cravar-te o punhal no coração. Meu Deus !! ... interrompeu a retirante sentando-se na cama. Edmundo correu ao lado d'ella. Simeão de Arruda ! ... O commissario ! ... 0 auctor de minha desgraça! ... O pae d'este infeliz ! exclamava Victorina quasi fóra de si. - Ouviste, miseravel ! A tua victima te amaldiçôa! Deus a enviou até aqui, permittiu que teu filho nascesse no meio da rua, bem perto do logar onde agonisava o monstro que o procreou, commettendo, quem sabe quantos crimes, disse Edmundo. -Toma teu filho, perverso ! Abusaste da força, obrigando-me por intermedio de teus assalariados a ir a uma festa de mulheres perdidas quatro dias depois da morte de minha mãe ! Me embriagaste entre ameaças, e depois... ai! ... depois abusaste covardemente de minha inconsciencia e eis o fructo de tua perversidade ! Victorina, por um esforço supremo, levantou-se da cama, se aproxima de Simeão e lança-lhe o filho nos braços ; depois cahiu exhausta de forças e succumbiu instantaneamente, victima de uma hemorrhagia violenta. Edmundo commoveu-se com aquella scena. A retirante, como uma figura de cera, jazia no chão dentro de um lago de sangue.
adas de ten ando enque de cravar retiranteor ssario... teamali eten ogar mettend. - riados1 diasde rand etau Constantino chorava commovido e aterrado. O commissario debatia-se nas agonias da morte. Os membros se relaxavam, os olhos já sem luz se volviam para o céo e os gemidos abafados dos ultimos instantes sahiram dos labios. Constantino, vendo que Simeão se aproximava do termo da viagem, tirou da banca a imagem do crucificado, accendeu uma vela do santo Sepulchro e se aproximou do moribundo. Edmundo lavou o recemnascido nas aguas do baptismo, assistiu-lhe o ultimo suspiro e já cadaver deitou-o no regaço de sua mãe. O commissario agonisava, tendo a imagem de Christo sobre o peito e uma vela accesa na mão . -Eis a imagem do crucificado ! Aperta-a com força ao coração : reconcilia-te com Deus, arrepende-te de teus erros que estás á beira da sepultura. Eu te perdôo, porque não levo o meu odio ao tumulo ; não porque sejas digno de minha compaixão, disse Edmundo afastando-se do commissario. Constantino, fiel continuador dos costumes de seus ante-passados, ajoelhou-se junto ao moribundo para ajudal-o a bem morrer. Estupida e barbara ceremonia que tantos seculos de civilisação ainda não poderam acabar até nas classes mais cultas da sociedade! A agonia se prolongava. O creado de Clemente, apertando a vela accesa namão do morto, gritava-lhe ao ouvido em voz cavernosa e sombria : -Lembre-se do nome de Jesus, irmão ! Lembre4
se do nome de Jesus, irmão ! Lembre-se do nome de Jesus, irmão ! Jesus seja comtigo! Jesus seja comtigo ! Jesus seja comtigo! Jesus, misericordia! Jesus, misericordia ! Jesus, misericordia ! Irmão, chegou atua hora ! Irmão, chegou a tua hora ! Irmão, chegou a tua hora ! Jesus seja a tua guia ! Jesus seja a tua guia ! Jesus seja a tua guia ! Jesus ! Jesus ! Jesus ! Constantino calou-se, apagou a vela; Arruda tinha morrido. A imagem foi retirada e collocada sobre a banca. Edmundo estava impressionadissimo. A vo Z de Constantino, ajudando o commissario a bem morrer, o tinha aterrado. Era cruel, era estupida e barbara a ceremonia. Quando ella começou, Arruda agonisava, mas a consciencia ainda não se havia embotado de todo. Ouvia e sentia. Não ajudaram-no a bem morrer, mataram-no mais depressa. A esperança de vivernão se havia acabado, e no entanto Constantino diz-lhe com uma crueldade de fanatico que elle vai morrer, estupidamente mostrava-lhe os apparatos funebres da ultima hora e por cumulo de fanatismo, põe-lhe na mão uma vela accesa, e com agudas exclamações fere-lhe os tympanos, ajudando-o a dizer o ultimo adeus ao mundo, a separar-se das affeições que ficavam, mas de um modo barbaro e cruel. Porque aterrar o agonisante com os apparatos funebres da morte?! A cella do padre havia-se transformado em pouco tempo em um necroterio. O silencio era sepulchral. Edmundo estava de pé, de braços cruzados, e Constantino, ajoelhado entre os mortos, rezava em voz baixa.
P -se do m sussejao icordia! Je è, chegamos chegoua a a tua esus! ; Arrudal locadasi simo. A bemmi agunisai butali riverni res Thes maj 로 O padre Clemente entrou acompanhado da familia de Arruda. A viuva viu o cadaver e cahiu sobre elle suffocada em pranto. Os filhos cercaram-no chorando as lagrimas da orphandade. O padre, ajoelhado a pouca distancia do grupo, orava com fervor, entoava preces pela alma do morto e pedia a Deus o conforto, a resignação para a desolada familia. Edmundo rendera-se completamente ás emoções. Prostrado, commovido, implorava a paz da eternidade para os mortos e lenitivo ás dôres cruciantes d'aquelles que se deixavam abysmar em tamanha desventura. Clemente, depois de orar, foi surprehendido pela presença de mais dois cadaveres. Edmundo e Constantino contaram-lhe o que se havia passado. O padre abriu a fonte consoladora da religião de Christo, levou ao coração dos afflictos em palavras piedosas e edificantes o balsamo suave da resignação. A viuva e os orphãos ouviram-no attentamente. As phrases ungidas de ternura e consolação d'aquelle coração virtuoso e justo, lhes penetraram n'alma, e todos juntos na mais fraternal união prostraram-se diante do crucificado e oraram fervorosamente. Clemente conservava a energia de seu espirito forte e depois da oração consolou ainda os tristes, e procurou enterrar os mortos.
O cadaver de Simeão de Arruda foi conduzido para a casa da familia acompanhado d'ella e do padre Clemente. Edmundo e Constantino ficaram guardando os corpos de Victorina e do filho até á tarde, quando se fizeram os enterramentos .
a foi conde ellaedopuc guardand. de, quan XXX Odr. Gervasio foi pela manhã procurar Edmundo e já não o encontrou. O dia cresceu, declinou e nada de voltar o amigo ao hotel. Havia justas razões para o doutor se inquietar, pois elle já havia dado um passeio pela cidade, afim de ouvir alguma coisa que o orientasse, e nada ! ... Resolveu-se a ir ao palacio da presidencia; lá poderia saber se o conflicto se teria dado . A secretaria do governo, ás cinco horas da tarde, ainda funccionava. Sem se fazer annunciar, o dr. Gervasio entrou para o gabinete do presidente. O secretario, official de gabinete e o administrador da provincia sentados ao lado de uma banca sobre a qual estava um grande maço de officios fe30
chados e abertos, liam algumas d'essas peças, emquanto a pouca distancia sentados em um sophá e cadeiras de descanço conversavam e fumavam alguns amigos da situação. O doutor comprimentou o presidente e os circumstantes e foi-se incorporar ao grupo, que palestrava. O crescido numero de visitantes indicavagran- | de novidade. A hora estava adiantada, era tempo de cada um se retirar para satisfazer as necessidades do estomago, e, em vez de diminuir, o numero das visitas augmentava sempre. Havia individuos que se mostravam enfastiados de esperar, creaturas pacientes que desde uma hora da tarde iam-se deixando ficar, na esperança de os deixarem a sós com o presidente. Mas qual ! Todos tinham isso em vista e ninguem se retirava. O presidente, acabrunhado de trabalho, importunado com a presença d'aquelles ociosos, deixava-se na mesma posição em uma postura toda estudada, com os olhos pregados no papel, que fingia lêr, mas pela expressão abstracta da physionomia podia-se affirmar que sua imaginação errava muito longe d'aquelle sitio. O secretario pedia attenção sobre algum periodo dos officios que lia ; elle lançava um olhar demente sobre o papel, deixava depois coar-se através do bigode negro uma lenta baforada de fu maça do charuto e ainda em completa abstracção, n'uma postura toda comica meneiava a cabeça mostrando-se entendido. A tarde adiantava-se bastante.
aspeças, um siydi fumarami te e os i , quepales dicavagra de cada doestu visitas semon ientes o feat. reside nguen impor Stol Já entre os visitantes reinava absoluta falta de assumpto. Depois de uma palestra indigesta, arida, insupportavel, o silencio da espectativa ! O cabo de ordens entrou com uma carta para o presidente. N'ella se fitaram olhares curiosos. Se fosse possivel devassar-lhe o segredo ! Lida a carta, disse o administrador para o secretario : -Morreu o commissario Simeão de Arruda. Gervasio perturbou-se vivamente e perguntou : De que ? - -Não dizem, respondeu o presidente com amabilidade. O cabo de ordens voltou um instante depois com mais quatro cartas. A vaga do commissario dava assumpto a toda aquella correspondencia. Os amigos da situação e que ahi se achavam todos, sabiam da morte de Arruda e vinham apresentar á clemencia do administrador os nomes de alguns protegidos. E com que titulos os recommendavam para um logar não remunerado ! Além das virtudes civicas, dos predicados de honrado, activo, intelligente, mais ainda o de liberal ! As cartas recebidas pelo presidente eram de recommendação e a todos sobresaltavam. Era comica e ridicula a teimosia do grupo de politicos. A impaciencia e anciedade manifestavam-se bem na falta de quietação dos corpos a se mover procurando posição commoda e sem a encontrar. Seis *
horas sentados em attitude respeitosa, era já um supplicio, mas elles se sujeitavam de boa vontade. O administrador, depois que leu a ultima carta, disse ao secretario : -Está acephalo o abarracamento de .... , é preciso nomear um commissario . Havia necessidade urgente de ser provido o logar que acabava de vagar, mas o presidente deleitava o seu orgulho vendo subordinados á sua vontade todos aquelles typos. Cevava o amor proprio á custa da subserviencia d'aquelles cortezãos. A pertinacia dos pretendentes ao logar de commissario iria longe ; não enfraqueceria com a noite inteira. O jantar presidencial estava servido. O creado veio ao gabinete e communicou isso ao amo em voz bastante clara. Ainda assim a assembléa não se dissolveu ! Olharam uns para os outros e foram-se deixando ficar. O presidente levantou-se e os convidou á mesa. Deixaram as cadeiras e, em vez de procurarem a rua, se espalharam pelos corredores e jardim, nos logares por onde devia passar o administrador. Um dos chefes politicos seguiu conversando com o presidente. Deram alguns passos e ficaram de pé conversando, n'uma palestra importuna, difficil de termo ! Era a nomeação do commissario para um martyr da situação. Havia um quarto de hora que durava o pedido, quando o administrador, homem de grande talento e conhecedor das fraquezas do espiri-
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rajáun ontade ultimacarta vidoold deleitart ntale á costu rde to humano, fez uma meia promessa, despediu-se e continuou o caminho. Não dera dez passos quando outro typo sahiu-lhe ao encontro. Foi longa a palestra. Lembraram-se serviços ao partido, necessidades politicas a satisfazer, compromissos antigos, e finalmente o dever de amparar o correligionario que estava a morrer de fome com a familia. O presidente viu-se abarbado com o importuno, e, para se vêr livre d'elle, disse-lhe que tomaria na devida consideração o pedido. Mais adiante aguardava a passagem do governo um outro amigo. Não havia remedio senão parar e ouviu a mesma historia. Esta foi mais longe, durou talvez meia hora. O presidente seguiu suppondo que ninguem lhe estorvaria mais o caminho, mas enganou-se. Seis typos como sentinellas perdidas esperavam sob as arcadas da extensa galeria a passagem do administrador. De estação em estação, parando em todos os passos, como em penitente via-sacra, seguiu o presidente, até que, morto de fadiga, chegou muito depois de oito horas da noite, á sala de jantar. A todos tinha ouvido e promettido attender. Faltava-lhe sommar o valor politico e official dos protectores, e o que attingisse a maior algarismo, seria o preferido. Gervasio, que nada pretendia além da noticia do amigo, logo que o administrador entrou, voltou para o hotel. Edmundo já o esperava.
Absorto ainda na contemplação das scenas do dia, se deixára ficar no quarto, sentado em uma cadeira, com a fronte sobre a mão . Gervasio foi encontral-o assim . Edmundo, morreu o commissario Simeão de Arruda ? -- Ouvi-lhe o ultimo suspiro . Como ? mataste-o ? falla ! dize ! Não, Gervasio, não . Eu te desconheço ! estás triste, pensativo, pallido ! Estás doente ? -Não, Gervasio : depois da successão de scenas tristes, o espirito adoece. E preciso o repouso, o somno. Sinto-me cançado. Minha fadiga é toda moral. -Queres que te deixe só ? -Não, vou contar-te o que se passou. E Edmundo relatou os acontecimentos que tiveram logar em casa do padre Clemente.
sativo, ple de so SO,OS la man scenasdoda uma cadein Simeão XXXI uefire Continuava a secca. Mais alguns millimetros d'agua durante a ultima estação invernosa alentaram a esperança de salvação nos habitantes da provincia, que no mais completo desconforto arcavam contra o flagello . Os victimados pela calamidade applaudiram as primeiras espigas de milho e vagens de feijão vingadas nas serras á custa de chuvas finas e parciaes. Recordavam-lhe do tempo da abastança; aquelles cereaes e legumes como que preludiavam uma época de paz, de abundancia. Ainda assim a duvida os perseguia e queriam emigrar, queriam sahir, para o espirito convalescer das dôres com que o infortunio desapiedadamente os ferira !
Ignacio da Paixão ouvira contar sempre historias fabulosas, verdadeiras maravilhas dos seringaes do Amazonas. A arvore da borracha, diziam-lhe, é a arvore do dinheiro, cada gotta de leite que vertem os vasos se transforma em ouro ! Com o fim unico de accumular riquezas tomou passagem na barca Laura, que seguia em lastro para o Pará. Os jornaes da Fortaleza, dias depois da sahida do navio, noticiaram que elle havia naufragado, morrendo passageiros e tripulação. A ser exacta a noticia, Ignacio era morto. Deu-se o sinistro, mas elle escapou com muitos passageiros, e logo que chegou a Belem, foi engajado pelo proprietario d'um seringal do rio Purús. Lá o esperava o trabalho e a doença. O organismo estranhou o clima quente e humido, e o estomago recusou a alimentação do pirarucú e tartaruga. O costume, que tudo dobra, em pouco tempo amoldou Ignacio áquelles habitos. Mas ás intemperies, ao veneno palustre emanado dos vegetaes que apodreciam ao sol á margem dos rios e nos alagados, se habituaria tambem? Não ; a febre o derribou, e só depois de uma lucta terrivel de mais de trinta dias, pôde da molestia Ignacio triumphar. Veio a convalescença, as forças voltaram e com ellas a saude. Dois mezes de soffrimentos foram o tributo de acclimação n'aquelle clima insalubre. O patrão, no dia que elle deu-se por prompto e continuou a trabalhar, disse-lhe que não perdesse tempo, pois estava grande o seu debito. Ignacio contrariou-se muito. As despezas com dietas e reme-
コ semprehistori. s seringue am-lhe, ér que vertem fim unióné barca Lok dasahitil ado, mare rto. Ders assageia pelopr sperani
imenta metal 49Sol ngel dios eram excessivas, e sobre ellas o premio de dez por cento ao mez ! Ignacio da Paixão ficou moralmente enfermo ; o seu captiveiro seria de muitos annos ! Passada a má impressão, pensou seriamente na vida e se decidiu a vencer tudo pelo trabalho. Redobrou de esforços e internou-se nos seringaes em uma lida afanosa, a luctar pela liberdade. Era uma vida de selvagem ! Passava os dias dentro dos alagados, ás vezes com agua até á cinta, mal alimentado e ainda por cumulo de soffrimento exposto ás picadas dos carapanãs piuns e de outras pragas, que vivem n'aquellas regiões. Assim viveu dois mezes, findos os quaes se apresentou ao patrão e pediu a conta do que devia. Surpreza horrivel ! Apenas a borracha que tirára e entregára, dera para o pagamento da alimentação e juros do dinheiro. A borracha descera de quatro mil reis para mil e poucos reis o kilo, e os prejuizos do patrão pagal-os-hiam os engajados. Ignacio cahiu em um estado de desanimo penosissimo : a divida antiga ficára de pé ! Nunca mais se libertaria ! tentou fugir, mas a fuga só se podia effectuar em canôas. Foi ter á margem do rio, e á primeira montaria que appareceu, fez signal que aproasse. Aproou e minutos depois elle estava á falla com o mestre : Póde levar-me como passageiro ? Conforme. Traz o passe do patrão ? -Não tenho amo. Ando a passeio. Leve-me. Não caio eu n'essa ; assim me têm dito muitos
que são captivos, porque devem os cabellos da cabeça. E o mestre manobrou a montaria, se afastando da margem do rio. Ignacio perdeu a esperança de fugir. Ninguem o levaria. Entre os proprietarios de seringaes, authoridades, mestres de embarcações havia um contrato de lucros reciprocos, afim de vedarem inteiramente o transporte dos engajados quando não conduzissem o passe. Essa infracção das leis garante aos proprietarios dos seringaes o meio seguro de fazerem grandes fortunas á custa do trabalho do engajado, sempre cearense, que, uma vez lá, é difficil e muito difficil se libertar . Ignacio da Paixão continuou a trabalhar, mas sem esperança. A alimentação, o vestuario, o fumo, a aguardente eram fornecidas pelo patrão e por preços exorbitantes ! Agora lhe custaria mais soffrer as pragas, o frio, a fome. Elle expiava de um modo cruel a sua falta. E que nuvens escuras sombreavam-lhe o futuro ! Procurava as inhospitas regiões do Amazonas para ganhar com que saldar a divida de honra. E agora fechavam-se-lhe os horisontes ! Nem a divida seria paga, e mais nunca os beijos da esposa, o carinho dos filhos, a patria, a liberdade ! Ignacio é um infeliz que é perseguido por pesadelos terriveis ! Ás vezes chora como uma creança, outras occasiões ha que tem para tudo e para todos um riso alvar, um d'esses risos que o homem sómente aprende na adversidade, quando as injustiças de
s cabellos da ria, se afa gir. Ningun ingaes, adi jaumonts inteirams Toconduise e aospay azerem ajado, sa alhar, u io, ota porpre odode -ps
seus semelhantes e o infortunio têm-lhe morto a ultima esperança. A paixão pelo jogo acompanhou-o ao degredo. Foi ella o algoz, o genio mau que precipitou-o no abysmo, e no entanto é agora o seu melhor amigo, o suave conforto nas tribulações. Quando joga esquece tudo. Uma noite jogavam os engajados o trinta e um de bôca. Ignacio aperuava. Alguns tostões, unico fructo das pequenas economias, pesavam-lhe menos n'algibeira que o desejo de atiral-as á sorte na mesa do jogo. Foi uma tentação irresistivel ! A ultima vez que jogára a dinheiro foi no trombone. Não se conteve, não se dominou. Sentou-se e parou. Ganhou e continuou a ganhar. Em pouco tempo passaram a seu poder as economias dos companheiros : importavam em nove mil reis . Na manhã do dia seguinte appareceram os negociantes ambulantes que em canôas levavam mercadorias a vender. Entre elles havia um que vendia bilhetes de loteria. Ignacio examinava os generos, quando viu os bilhetes. Ficou fascinado; comprando algum, era uma esperança que nascia, uma esperança que valia tudo nos dias de desgostos e tribulações. Empregou todo o dinheiro em bilhetes. Ummez depois voltavam os mercadores e traziam a lista da loteria. Ignacio examinou a lista com impaciencia, e qual não foi o seu espanto quando viu que um dos nu-
meros que possuia estava premiado com dez contos de reis ! Dez contos de reis !! exclamou elle chorando. O pranto de Ignacio tinha a nobreza do sentimento a saudar a liberdade que resuscita ! Ser livre, saldar a divida de honra, voltar á patria, abraçar a esposa, beijar os filhos, foram os seus primeiros pensamentos, as imagens que lhe deleitavam o espirito. Ignacio apressou-se em descontar com o cambista o premio e recebeu nove contos de reis. Depois dirigiu-se a casa do patrão. Pagou-lhe o que devia, recebeu o passe e partiu para Belem, onde se demorou sómente o tempo necessario a esperar a passagem do paquete. A bordo do Bahia embarcou para o Ceará, como passageiro de prôa. Um dia, depois da estada no navio, viu que alguns dos companheirosjogavam. Ignacio entristeceu-se vivamente. Tinha descoberto um abysmo a seus pés. Afastava-se quanto possivel do jogo, e sentia que o arrastavam. Acovardado, tremulo, pallido, se dirigiu ao commandante do vapor, e pediu-lhe que guardasse o dinheiro que conduzia. O commandante se recusou tratando-o com acrimonia. Ignacio ouviu-o com humildade, e com o coração nas mãos supplicou : Senhor, por piedade guarde este dinheiro ! É elle o futuro de meus filhos, o salvador de minha honra. Volto dos seringaes do Amazonas onde soffri por espaço de dois longos annos. Este dinheiro em
com dezcomm elle churn ita! Serlion ia, abrazi imeirosple O camlas ra Bei ario 1 meu poder o perderei antes de chegar ao Ceará ! Jogam a bordo, e o vicio do jogo é uma tentação que me domina, a que não posso resistir. Senhor, guarde o pão de meus filhos. Tal foi a franqueza de Ignacio, que o commandante recebeu o dinheiro. Salvo de perigo, elle voltou tranquillo á prôa do navio, mas gastava as noites e os dias em aperuar o jogo . Quatro dias durou a viagem de Belem á Fortaleza. O Bahia fundeou ás duas horas da tarde, e momentos depois Ignacio da Paixão pisava as alvas areias de sua terra.
XXXII Ignacio da Paixão chegára, havia quatro dias, e ainda não lhe tinha sido possivel saber noticias da familia. Embalde percorreu a cidade e os arrabaldes e sempre infructiferas eram as pesquizas ! Visitava quasi todos os abarracamentos e nada de novo ! Não descançava, caminhava sempre como o Ashaverus da lenda e o mesmo silencio, o mesmo desconforto a minar-lhe a alma ! Á noite procurava o leito e o somno fugia. Se dormia alguns instantes, os mais horriveis pesadelos o atormentavam. Erguia-se com o sol e errava de palhoça em palhoça, a tudo consultando, ouvindo a todos e murmurando a cada instante : Onde elles estarão ?
Ninguem lhe respondia ! ... A noite chegava e com ella o desengano ! Mais um dia perdido, mais uma esperança morta. Ignacio não pensava senão em descobrir os filhos. Faltava-lhe ir á pedreira; talvez a mulher se confundisse na onda maltrapilha dos carregadores de pedras. Era esta a ultima esperança. Assim animado, foi ao trapiche e, encostado a uma das columnas, esperou que os retirantes voltassem do Mucuripe. Ignacio olhava pensativo para a vastidão do mar. O murmurio das vagas, os assobios monotonos do vento coando-se nas fendas do assoalho lhe augmentavam as saudades dos filhos. Aquella alma de pae se recolhia, e sem alento meditava. As turmas de retirantes já se avistavam ao longo da praia. Ignacio tinha-as visto e esperava-as com impaciencia . O cortejo se aproximava cada vez mais. Já se divulgavam os rostos bronzeados dos indigentes, já se distinguiam bem os trapos que thes cobriam a nudez, ouvia-se distinctamente o som da vozeria dos levianos a zombar de tudo. Os retirantes começaram a passar pelo trapiche e Ignacio não perdia uma só das physionomias. O semblante de um velho, que seguia a passo lento, de longe o tinha impressionado. Olhava-o com attenção e quando o indigente hombreou-se com elle, exclamou : Valentim! ... -Ignacio ! ...
lena Ji ngano! Mi orta. brirosfilis rseconiu sdepelins ado, fi as, espera ãodom otonos eaugner ade
O velho largou a pedra e um estreito abraço aproximou os corações dos dois amigos, havia muito tempo separados. -Minha mulher, meus filhos, Valentim ? ! ... Retiraram-se para aqui tambem, e nunca mais os vi ! ... -E o primo Manoel de Freitas ?! Vem ahi . Ignacio reanimou-se; era uma esperança que procurava alentar. Eu sigo, Ignacio, minha turmajá vai longe, eu caminho muito devagar ; adeus. -Adeus, Valentim. Ignacio afastou-se um pouco do logar em que estava, e ancioso aguardava a passagem de Manoel de Freitas. O seu desejo foi em breve satisfeito. Appareceu a figura respeitavel do ancião, grave e severa como sempre. Trazia uma grande pedra ao hombro, passo firme, porém pausado, e olhos fitos no chão. Ignacio não pôde-se dominar e chorou. Quiz ir ao encontro do primo e não teve forças! As recordações do passado lhe chumbavam os pés no sólo. Amesquinhado perante a idéa de seu crime, envergonhado diante da propria consciencia, que lhe mostrava os andrajos de Freitas e a penuria a que estava reduzido, se deixou ficar sem coragem de se enfrentar com o coronel, que passou a pouca distancia, mas sem vêl-o. Ignacio seguiu-o commovido. Os retirantes, depois de deixarem aspedras na es31
trada de Mecejana, voltaram á pagadoria a receber as rações. Distribuidos os generos, os retirantes se dispersaram . O coronel seguiu para casa e Ignacio o acompanhou guardando distancia. Josepha esperava o marido á porta da rua. Freitas entrou e o primo ficou de pé, a alguns passos, sem coragem de se aproximar. Estava indeciso. Em si luctavam a vergonha do seu erro e o desejo ardente de noticias da familia. Ignacio não pôde mais resistir, chegou á porta e se annunciou com algumas palmas. Freitas sahiu a recebel-o. Ignacio ! ... Primo Manoel ! ... disse commovido Ignacio abraçando o parente. falta! Estou surprehendido, tinha-te por morto ! ... Antes de tudo, por quem és, perdoa a minha E quiz se prostrar aos pés do coronel. Freitas não consentiu que se ajoelhasse e disse: -Perdoei-te desde o dia em que chegou a men conhecimento a tua fraqueza. A tua falta arrastou-me ao estado que vês e comtudo eu não te amaldiçoei. Perdoei-te, Ignacio, se bem que me doesse mais tua ingratidão, o abuso de confiança, do que a penuria a que me reduziu a tua falta. Não pretendia dizer- te uma palavra sobre o passado, mas o coração estalava de sentimento, a amizade de tantos annos
iaareceber tes se dige cioo ac darua. pé, aalgu Starainde Troeode gouápl eitassu do Igual mortal
exigia uma reparação, a confiança sem limites de parente e de amigo clamavam contra meu silencio ! Perdoei, como já disse, tua falta ; corra-se agora um véo sobre o passado e o presente. Os soffrimentos do degredo serviram-te de lição, e de agora em diante pede a Deus que te ajude a não te afastares mais nunca do caminho da honra e do dever. Ignacio chorava de vergonha ! Obrigado, mil vezes obrigado, Manoel. A grandeza de tua alma, a generosidade de teu coração fizeram-me conhecer a minha pequenez e que me envergonhasse d'ella. A enormidade de minha falta é tal, diz-me a consciencia, que só merecia a tua maldição ! E quando esperava que me ferisse um raio de tua colera, que tu me fizesses sahir de tua casa como um bandido, me abres as tuas portas e complacente procuras suavisar as minhas dôres perdoando o grande crime que commetti contra ti e ainda mais contra tua esposa, contra teus filhos ! Mil vezes obrigado, Manoel ! -Esqueçamos o passado, Ignacio. Minha mulher, meus filhos, onde estão ? Emigraram antes demim. Deixei-os partir, porque, como elles, eu era tambem desvalido. Retel-os era sacrifical-os, e por isso consenti que procurassem a salvação. Depois que cheguei aqui nunca mais os vi. -Meu Deus ! quanto terão soffrido elles ! Eu previa tudo isso ! Como sou desgraçado ! ... Que angustia sinto quando ouço dentro de mim a voz da consciencia bradar: foste o algoz de teus filhos, ho- *
mem vicioso ; cortaste a arvore, á sombra da qual elles se abrigariam ; fizeste mendiga a mão que deveria soccorrel-os ! Dize, Manoel, se não é o desespero tudo quanto me resta ! Coragem, Ignacio, ainda os poderás encontrar. Talvez resistissem á calamidade e vivam por ahi esquecidos em algum recanto dos abarracamentos. Procura-os com esperança, com calma, e talvez não continuem infructiferas tuas pesquizas. Josepha e Carolina, que do interior da casa tinham conhecido a voz de Ignacio, appareceram na sala . Primo Ignacio ! ... Dirigiram-se a elle e o abraçaram. Ignacio chorava, como tambem as primas. Freitas ouvia-os commovido. Manoel, as chagas do coração talvez não se curem mais nunca ; porém, um dos pesos que dia e noite esmaga-me a consciencia, quiz a sorte que eu em parte podesse alliviar. Posso saldar a divida de honra que contrahi quando me fiz mau. Tenho que te pagar religiosamente a quantia de que me apossei sem o teu consentimento. E tirando do bolso um maço de notas do thesouro, papel e lapis, continuou : Quero prestar-te minhas contas, dar-te sciencia da venda de teus escravos . O coronel suspirou ; a posse d'aquelle dinheiro, embora nos dias escuros da indigencia, o contrariava ; era o producto de infelizes creaturas, que
sombra daju a mãoque dans o é o devege erás enconce irampcă arracame etalver ior da arecerim. neda i foram tão suas amigas, e muitas das quaes vira nascer. lhe : Ignacio entregou a Freitas papel, lapis, e disse- -Faze a conta, Manoel. O coronel recebeu o papel com a mão tremula e disse : - Podiamos dispensar essas formalidades. Ellas se tornam indispensaveis, por quanto não sei ao certo em quanto sommam as parcellas. Freitas resignou-se a passar por mais uma scena, que devéras o contrariava. -Posso começar? perguntou Ignacio. beça. O coronel moveu affirmativamente com a ca Simeão, vendido por um conto de reis. -Pobre Simeão ! ... Ai, quantas vezes carregaste em teus hombros o meu Joãosinho ! interrompeu Josepha soluçando. Freitas escreveu tremulo a primeira parcella no alto do papel. Ignacio continuou : Anacleto, novecentos mil reis. -Infeliz Cleto, mamãe ! Se me fosse possivel pagar-lhe com a liberdade aquella divida de gratidão ! Elle salvou-me a vida arriscando a sua, disse Carolina chorando. - Sebastião, julgado pelo medico doente do coração, vendido por cem mil reis. -Desgraçado ! além de enfermo, vendido, e
! ! quem sabe a que senhor ! Tão humilde que era ! tão manso, que nas minhas horas de mau humor não tinha uma palavra aspera para sua senhora ! Tinha um coração nobre, era tão amigo de seus senhores ! ... E o pranto interrompeu Josepha. Freitas chorava tambem . -Filippa vendida por seiscentos mil reis. Josepha e Carolina não poderam resistir mais áquella scena e se retiraram para a pequena alcova, onde choravam sem consolo. Ignacio continuou : -Bernardina, a ultima da partida, vendida por oitocentos mil reis . -Bernardina ! ... a jangada ! ... foge ! ... vendida ! ... o mar ! ... exclamou Filippa, que tinha vindo sem ser vista unir-se ao portal mais proximo de Ignacio da Paixão. Depois soltou uma gargalhada desconcertada, aguda, estridente, que pareceu abalar até os alicerces da habitação. A louca arregalava os olhos querendo reconhecer Ignacio. Seus esforços eram baldados, porque a razão estrebuxava enferma e as idéas erravam á toa no estreito espaço do cerebro doente. Freitas , triste e commovido, assistia áquellas scenas. A ultima nota do grito da louca ainda echoava como uma maldição em sua alma angustiada. Ignacio fallou : -Emquanto somma ? Freitas entregou-lhe o papel.
ra! tão or não a! Tisenhomais Icora apor endi indo de ada -Tres contos e quinhentos mil reis, não incluindo os juros. Dize a taxa para fazer o calculo, disse Ignacio depois de ter sommado as parcellas. - -Não me pagarás um real pelo empate da quantia que me queres restituir. Ignacio entregou o dinheiro ao coronel, que o recebeu com mão tremula. Depois pediu a Freitas que fosse depositario de outra quantia, e entregou ao primo um maço de notas do thesouro. - Onde estás, Ignacio ? Tomei um quarto em uma hospedaria. -Esta casa está á tua disposição. ---- Aceito, Manoel, porém não te inquietes se eu não voltar antes da noite ; vou errar por ahi procurando o que talvez já não existe. E Ignacio, apertando com reconhecimento a mão do primo, sahiu afim de continuar a tarefa. Onde estarão, em que pedaço da terra se esconderão aquelles innocentes ?... pensava elle caminhando sem destino. Andou o resto do dia, revolveu quatro abarracamentos, indagou de todos e sempre o mesmo silencio, sempre a barreira escura do mysterio a separal-o dos filhos! Ignacio da Paixão voltava pela rua da Palma, já ao pôr do sol, e tão triste que fazia dó vêl-o. Gelava-lhe o coração, e o desconforto e a atonia do desalento coava-se-lhe até o fundo d'alma. Uma menina cega cantava á porta de uma casa a copla seguinte :
<<A ceguinha que aqui vêdes Tinha olhos, via a luz ; E agora, irmãos, pede esmolas Pelo sangue de Jesus». Ignacio ouviu o verso e parou. As notas d'aquella supplica lhe atravessaram o coração, e, commovido com a doçura da voz, se aproximou da céguinha. Que contraste ! A voz harmoniosa sahia de uma creatura horrivelmente deformada pela variola ; feia como um sapo e repugnante pelas ulceras que cobriam-lhe os membros inferiores. Ignacio olhou-a com interesse . A céguinha acabou de receber a esmola e agradeceu : <Bemdito seja quem ouve Da pobre cega o pedir Jesus o queira amparar Quando estiver p'ra cahir ». Ignacio cada vez mais se impressionava com a voz da céguinha. Lembrou-se da filha mais velha ; facilmente a reconheceria ; porém, assim completamente desfigurada, com a mascara bronzeada da variola, era impossivel. Não se conteve e aproximou-se mais da cega. Aqui está uma esmola que tambem lhe dou. A céguinha não recebeu a moeda e surprehendida levou as mãos aos ouvidos protegendo-os contra a corrente de ar e procurando recolher todas as modulações d'aquella voz que parecia conhecer; depois perguntou :
as d'aque commod umace feia brian - Quem falla? - Ignacio da Paixão . Papá !! papá !! Minha filha !! E o mais apertado abraço aproximou aquelles corações que pulsavam do mais santo e sublime dos sentimentos. Passados os primeiros accessos d'aquella violenta emoção, Ignacio perguntou á filha : - Tua mãe, Maria, teus irmãos ? Morreram todos de bexigas no lazareto. E tu onde ficaste, minha filha ? - Na rua, sósinha e cega. Sahi do hospital, onde ceguei das bexigas, andei de porta em portapedindo esmolas e á noite dormia no adro da matriz. Assim vivia quando esta mulher que me guia, levou-me para a casa d'ella. Ignacio commovido com a historia da filha, voltouse para a retirante : Agradeço-lhe os favores que fez a minha filha, esta infeliz. -Não, papá, agora que já não estou só no mundo, conto-lhe como esta mulher me maltratava. Obrigava-me a andar, desde que amanhecia até ao anoitecer, cantando a pedir esmolas, e quando cançava e pedia descanço, ella me açoitava. Veja estas feridas, doiam-me tanto ! Quando caminho muito, botam tanto sangue, que chegam a me molhar os pés ! E nem um dia ella me deixava ficar em casa para descançar ! Recebia todo o dinhei-
ro que me davam de esmolas e quasi não me dava de comer ! Ignacio voltou-se encolerisado para a perversa que tanto maltratava-lhe a filha, mas achou-se só, a retirante havia desapparecido. Quiz seguil-a, mas a filha conteve-o : -Papá, não me deixe só, deixe ir aquellamalvada. - Então ella te castigava, Maria ? Todos os dias ! Miseravel ! não se contentava de subsistir á custa da creança e ainda mais surral-a sem motivo ! E os olhos de Ignacio faiscaram de colera. -Irás viver de agora em diante junto de teu pae; elle viverá sómente para ti, minha filha. -Sim, papá, vossê não me deixará mais nunca, não é assim ? Não, Maria, não te deixarei. E Ignacio da Paixão tomando a filha pela mão, dirigiu-se para a casa de Manoel de Freitas. Durante o trajecto não trocaram mais uma palavra. A menina porém ouvia de quando em vez um soluço, que se estrangulava na garganta do pae.
quela B nãomedri perversa masatith istiri. atine XXXIII Edmundo da Silveira partiu com o dr. Gervasio para o interior da provincia. As despedidas á noiva fel-as na vespera da viagem. Carolina ficou triste e chorosa. Os dois amigos seguiram para a villa de Canindé onde se deviam separar, indo Gervasio para a comarca e Edmundo á cidade natal tirar as certidões para o casamento, e receber alguns bens, herança do seu tio padre. Na manhã do quarto dia de viagem entraram na villa. Algumas ruas de casas de taipa e tijolo, mal alinhadas faziam um perfeito contraste com um bonito templo edificado em uma pequena elevação do sólo. A leste da igreja deprimia-se o terreno formando quasi uma espiral, marginada por grandes barrei-
ras entre as quaes na estação invernosa serpeava o rio, mas agora o leito de areia estava completamente sêcco e exposto ao sol. A igreja, cuja celebridade vem de longa data, é uma das mais ricas da provincia. S. Francisco das Chagas é o orago. Recebe annualmente visitas de milhares de romeiros, que de todos os pontos do Ceará, e até das provincias limitrophes, vão levar-lhe suas offerendas, tal é a fama de que goza o santo. O povo acredita piamente na influencia do bemaventurado junto á divindade. Raro é o dia em que á igreja não chega um crente para se prostrar diante da imagem de S. Francisco das Chagas e entregar ao seu procurador dinheiro, cêra branca, azeite dôce, etc. Além do pagamento da promessa, muitas vezes o sacrificio de dezenas de leguas a pé e descalços ! ... Fanaticos, acreditam comprar a misericordia de Deus como se compram as vaidades da terra ! E além de tudo, como testemunha do milagre, como attestado da graça a provocar a admiração das gerações futuras, deixando o favor, que receberam do santo, em toscas esculpturas de madeira. E que verdadeiros milagres cobertos da poeira do tempo na sacristia da igreja ! Factos tão estupendos como a resurreição de Lazaro ! Gervasio conversava com Edmundo atravessando as ruas ; admiravam o templo em relação á pobreza da edificação particular. Iam pedir hospedagem, quando foram surprehendidos por um rumor longinquo e !
tas de Do mpletame ngadala Recebe ros, qu incias alé iamentu. dade rente eiseni ein que vinha do sul da villa. A bulha se aproximava. Já se percebia o som de muitas vozes. Os viajantes pararam, e voltados para o sul ficaram attentos. Não esperaram muito. Um sequito immenso appareceu ao longe. A vozeria era infernal. Os sons das palavras fundiam-se n'um só ruido que, confuso e surdo, perdia-se no espaço em pausadas ondulações. A população da villa, avistando o sequito, se recolheu. Gervasio e Edmundo ficaram sós na rua, em frente do grupo, que marchava para elles. O que será aquillo perguntava um ao outro quando se abriu uma porta com que enfrentavam ; appareceu um homem e disse-lhes fechando-se logo depois : tam. Fujam! os Calangros ! -Calangros, Edmundo ? Sim, salteadores que atacam, roubam e ma Então fujamos. Não ha mais tempo, elles nos têm á vista. Morra o malvado ! morra o Punaré ! Estes gritos haviam-se destacado da vozeria e chegaram aos viajantes, que immoveis e firmes esperavam a aggressão com a mão no cabo dos revolwers. O sequito tinha chegado ao centro da villa e parado á porta de uma casa das melhores da rua. --- Não são salteadores, Gervasio. Vê que estão de pé e armados de cacetes. Os calangros andam montados e debaixo do cangaço. Vamos até lá ?
-Vamos. E partiram a galope para o logar do ajuntamento. Um grupo de mais de cem homens, descalços, vestidos de camisa e ceroula, com cacetes, cercavam um individuo de côr preta. - Saia a authoridade ! saia a authoridade ! gritavam á porta, que se conservava fechada. Os viajantes apearam-se e romperam o ajuntamento até o centro. Estava alli a causa da reunião. Um homem bastante alto, musculoso, côr preta, de feia catadura, olhar feroz, tendo os braços amarrados, vinha preso á presença da policia. Perto d'elle oesqueleto de uma creança dentro de um cesto. Gervasio dirigiu-se ao individuo que segurava as cordas do preso : - Que fez este homem ? Este malvado, senhor, esta féra matou um menino e comeu-o ! ... - Será possivel ? Estão n'aquelle cesto os ossos ; foi pegado como a onça na carniça ! O preso olhou o informante com a ferocidade do tigre e rosnou como um cão de fila. Essa manifestação de odio não passou desapercebida. Bota agua nas cordas, João, para a onça rosnar mais. Um rapazito se aproximou do preso o molhou as cordas que lhe apertavam os braços. O preto olhou-o
gar di gita ens, deve etes, cen horidade": da ada Samics d'elle! sto egura com uma ferocidade inaudita! Depois rangeu com tanta força os dentes, que se partiram alguns, cahindo-lhe das gengivas sobre o peito gottas de sangue ! Gervasio compadeceu-se do anthropophago e fallou : -Porque o torturam fazendo apertar mais as cordas ? - a É pouco, senhor ! Diz assim v. s.ª porque não viu a mãe do menino correndo douda pelo matto quando reconheceu a cabeça do filho, do unico filho que tinha ! ... As cordas haviam apertado tanto os braços do preso que quasi tocaram o humero ! Os ante-braços e mãos estavam disformes pela inchação ! A indignação era geral, todos gritavam : Morra o Punaré ! morra o malvado ! Gervasio, temendo que em uma d'aquellas exasperações mais se exaltassem os animos e punissem o crime commettendo outro crime, aproximou-se da porta da authoridade policial, bateu e disse : justiça. O povo traz um criminoso para entregar á Minutos depois o delegado de policia receioso abria a porta e conferenciava com Gervasio. Preenchidas as formalidades da lei, o preso foi introduzido na sala das audiencias e deu-se começo ao inquerito. Mandaram-no sentar, recusou-se ; perguntaram-lhe o nome, não respondeu. De testa coberta de grossas rugas, olhos injectados e fitos na parede, parecia nada vêr e nada ouvir. O povo exasperava-se com o atrevimento do criminoso, com a falta
de respeito á justiça. A indignação crescia e talvez chegasse ao desespero, á allucinação, se Gervasio não procurasse demover o criminoso do proposito em que estava de não prestar homenagem á lei. Era tarefa difficilima domar aquella fera. O povo tral-o á presença da justiça como um criminoso e no entanto o senhor póde sér um innocente. Accusam-no e é preciso que se defenda. A lei pune o culpado como protege o innocente. Nós devemos respeito a ella. O senhor está na casa da justiça, deve obedecer-lhe ; não lhe negamos o direito de defeza e para lhe mostrar que aqui a pessoa do accusado é inviolavel, que não póde haver punição sem crime provado e sem a condemnação da justiça, eu The restituo a liberdade . E Gervasio cortou as cordas, que amarravam o preso . O povo exasperou-se e vociferou : -Fóra o protector da fera! o amigo do malvado ! morra o Punaré ! Gervasio havia assumido grande responsabilidade, o povo o ameaçava, mas elle com grande presença de espirito lhe fallou : -Nada mais tendes com o preso, uma vez que elle está em poder da justiça. E voltando-se para o delegado, disse : Cumpra a lei, o preso responderá o que lhe fôr perguntado . Punaré fitava agora Gervasio surprehendido de tanta generosidade. Segundos antes, como a féra en-
cresciaene se Gervasit ropositoema lei. Era tiçaom sérunin defenda. I te. Nis asadaj soa raivecida e presa na jaula, estava disposto a ser morto pelo povo, e não dizer palavra sobre o crime. A coragem de Gervasio lhe restituindo os meios de acção, quando todos o torturavam, despertou em seu espirito enfermo o sentimento de gratidão pelo doutor. O povo investia para a sala das audiencias, e o delegado, ainda aturdido com a idéa dos Calangros, deixava de conter a onda que já invadia todo o recinto. Gervasio comprehendeu a posição falsa da authoridade, e a bem da justiça decidiu-se a invadir as attribuições do delegado. -Em nome da lei, como authoridade que sou por S. M. o Imperador, a quem Deus guarde, mando a todos que se retirem da sala das audiencias menos o preso e as testemunhas, sob pena de ser levado o procedimento dos que resistirem, á presença do Imperio, do nosso real senhor. A sala esvasiou-se, mal Gervasio concluiu a allocução. Os que não tinham ouvido as palavras do doutor gritavam na rua : -Fóra o homem da cidade! fóra o amigo do Punaré ! Mal chegou lá por fóra a noticia de que Gervasio fallava como authoridade fez-se silencio, apenas diziam em voz baixa uns para os outros : rio ! ... O homem é da lei! traz ordens do Impe Gervasio teria sido victima da furia popular se
por aquelle meio não contivesse a turba de ignorantes. Começou o inquerito ; o doutor sentado ao lado do delegado, interrogou o preso : - Qual o seu nome ? Joaquim Manoel, conhecido por Punaré. De onde é natural ? Da freguezia de Quixeramobim. Onde reside ou mora ? Na Baixa da Areia. Ha quanto tempo alli reside? Ha muitos annos . Qual sua profissão ou modo de viver ? Vivo de caçar. Aonde estava no tempo que se diz ter praticado o crime ? Punaré carregou os sobrolhos, lançou um olhar feroz para Gervasio e não respondeu. Responda ! ordenou o doutor. Não sei. Tragam os ossos que foram encontrados. Uma das testemunhas conduziu o esqueleto da creança, que foi collocado sobre a mesa. Punaré fitou os olhos no chão. De quem são estes ossos? perguntou o doutor. Responda. Punaré recusou-se. Gervasio mandou tres vezes que respondesse, e, não sendo obedecido, levantou-se levando a caveira, que collocou a poucoscentimetros da barba do preso. Punaré desviou o rosto, e com a agilidade da onça deu um salto para a esquerda.
. rladeiguna sentadow viver? Gervasio voltou a seu logar. Mal se tinha sentado notou que o povo abria caminho a uma mulher, dizendo : -A mãe do menino !! Entrou na sala das audiencias uma mulher alta, morena, olhar desvairado, semblante taciturno, esfarrapada e caminhando a passo lento. Olharam todos para ella menos o preso. Era a infeliz mãe da victima. Gervasio perguntou-lhe o que queria; mas ella não respondeu. Olhou a todos e se dirigiu para Punaré. O negro perturbou-se, alteraram-se-lhe mais os traços da physionomia, a côr preta tornou-se fulva. A mulher chegou o rosto bemjunto da barba do preso e depois de tel-o olhado alguns segundos, soltou uma gargalhada aguda, que retumbou em toda a sala, afastou-se depois para um canto e sentou-se no chão . Punaré, com aphysionomia visivelmente transtornada, tremia de assombro. Gervasio aproveitou o incidente e continuou o interrogatorio : -Aonde estava no tempo em que se diz ter commettido o crime ? -Em S. Seraphim. -Conhece as testemunhas que vão depôr? Desde quando? -Conheço a todas e de pouco tempo. - Como se deu o facto de que é accusado ? -Eu fui a casa de Maria Ligeira em dias do *
mez passado e ella me pediu para levar á caça em minha companhia o filho José, o qual sahiu commigo para o rio Curú ; voltando, cheguei a S. Seraphim, onde resolvi logo matar o menino, o que realmente fiz no dia seguinte á tarde, descarregando-lhe uma cacetada na cabeça. Depois de bem morto concertei e pellei no fogo o corpo, depois asseio-o todo por não ter sal e comi-o com mel de abelhas por espaço de tres dias . E o logar de S. Seraphim tem caça emel, e fica distante de casas ? -Tem caça, mel, e fica a uma e meia legua d'uma fazenda onde ha muita criação de ovelhas. Porque não lançou mão de outros meios para - evitar o crime ? - Vi-me vexado da fome que não permittia outros meios. -Porque motivo, tendo saciado a fome, continuou a comer carne humana por espaço de tres dias? Não sei. Em que estado se achava a creança quando a Estava farta por ter trazido de casa alguma matou ? comida . Ninguem. Para onde foi, depois que matou o menino ? Para a casa de minha mãe, na Baixa da Areia. Alguma pessoa mais foi cumplice no crime? E não tem remorsos deum tãogrande crime?
alevará calsahino quer Teganlle çaemel emeis -Não. A risada d'aquella mulher, sim, me doeu mais do que todas as dôres de minha vida. Terminado o interrogatorio Gervasio conduziu o réo á cadeia publica. O dia estava bastante alto quando o doutor concluiu a tarefa. Hospedou-se com Edmundo em casa do juiz de direito até á manhã seguinte, quando seguiriam, elle para a comarca e seu amigo para a cidade de ** *. Pela madrugada Gervasio despediu-se de Silveira e cada qual tomou seu caminho. Edmundo, apenas caminhou uma legua, sentiu-se doente. Uma cephalalgia intensa obrigou-o a apear. A marcha do cavallo, embora moderada, o incommodava muito ! Tinha febre e uma repugnancia invencivel ao vento. Sentia calefrios quando o alcançava uma corrente de ar mais forte. Os membros inferiores doiam-lhe como se elle tivesse feito uma marcha forçada e de leguas ! Experimentava na columna vertebral uma sensação de cançaço afflictiva. Estava a uma legua da villa e não sentia-se com forças de voltar. Recostado ao tronco de uma arvore á margem da estrada, esperava algum viandante que o soccorresse. O dia crescia e ninguem passava no caminho. Edmundo se inquietava com o seu estado. Resolveu voltar á villa, e, se aproximando do cavallo, tentou montar, mas embalde ! O menor esforço exacerbavalhe a cephalalgia, a ponto de parecer que estalavalhe o cerebro. Desalentado, voltou ao mesmo logar e
á mesma posição. Minutos depois estava completamente adormecido aos raios ardentes do sol. Assim passou á beira do caminho o resto do dia e a noite inteira. Pela manhã alguns retirantes passaram por elle, chamaram-no e como não despertasse seguiram, e disseram na villa que na margem da estrada estava um homem morto ou muito doente. Pelos signaes desconfiaram ser o companheiro do dr. Gervasio . O delegado de policia dirigiu-se ao logar, e Edmundo foi transportado para a casa dojuiz de direito. Estava gravemente doente, pouco fallava, parecia indifferente a tudo. A doença prolongou-se, a febre sempre intensa, e apenas para debellal-a o recurso unico das dóses homœopathicas applicadas pelo vigario da freguezia, bom padre, mas pessimo medico. A natureza e só a natureza a luctar com amolestia ! Nem um medicamento a auxilial-a ! Os desarranjos gastricos se accentuavam mais, e uma diarrhea rebelde acompanhada de dores vivas e gargarejo na fossa illiaca direita atormentavam o enfermo. No tronco algumas manchas ovaes côr de rosa, mas que desappareciam quando eram comprimidas. As mucosas nasaes, em uma epistaxis constante, pouco repouso permittiam ao doente. Na manhã do vigesimo primeiro dia de doença Edmundo tinha o ventre tympanico, a lingua completamente secca e os labios fuliginosos. As feições
ntens ara omge o sol. resto dri ampur segninin strada85 o dr be ar, ell deli profundamente alteradas e de uma côr livida indicavam perigo imminente. A bronchite, o delirio, o soluço, a parotibe eram o cortejo terrivel da febre typhoide adynamica, que seguia a marcha fatal. Era a crise vinte e um dias ! O vigario não abandonava o doente. Lia noite e dia um medico homœopatha, e procurava dar as dóses por elleindicadas, emborasemdiagnostico. O doente tinha febre ; elle ignorava que febre é effeito e não causa, e dava aconito, alternando com outros medicamentos. Para elle toda a febre curavase com aconito e bryonia. Edmundo estava mais para a morte do que para a vida. Ás duas horas da tarde começou a se manifestar a carphologia. O doente não parava com as mãos um segundo. Ora parecia apanhar moscas, outras vezes desfiar um novello de linha. Algumas horas levou n'esse constante desassocego e a delirarsempre ! Ás oito horas da noite uma convulsão distendeu-lhe todos os musculos, contrahiu-os depois dando ao corpo a fórma de um arco, que tivesse as extremidades sobre um plano . Julgaram a convulsão da morte, e o vigario com todos os apparatos funebres chegou-se ao enfermo para ajudal-o a bem morrer. O ataque durou vinte minutos, findos os quaes voltou o corpo do doente á posição natural ; cessou o delirio e o crocidismo ; elle abriu os olhos, pediu agua, que bebeu com avidez e adormeceu profundamente. Entrava o enfermo em convalescença ; a crise passára, sómente a natureza batera a molestia.
XXXIV Em casa de Manoelde Freitas conversava o coronel com o padre Clemente. -Pretendo mudar-me d'esta casa, snr. padre. Porque ? algum desgosto com os visinhos?! -Não, senhor. Recebi uma quantia que me deviam e desde que posso alugar uma casa, não devo continuar a utilisar-me d'esta, quando muitas familias vivem por ahi desabrigadas. É louvavel o seu procedimento, coronel. -De hoje a quatro dias irei-lhe entregar a chave e desde já beijo-lhe as mãos pelos grandes favores que nos ha feito. - Sempre á sua disposição. Communico-lhe que Carolina foi pedida a casamento pelo snr. Edmundo da Silveira, hoje empre-
gado na secretaria do governo. As nupcias celebrarse-hão em março proximo, e desejava que fossem celebradas por v. rev.ma -Desejava ter recursos para offerecer a Carolina o enxoval do casamento ; em falta reservo para mim a honra de casal-a . -Obrigado, snr. padre Clemente . As certidões estão promptas ? Edmundo foi ao sertão e as trará. Ao sertão ? Sim. Deus seja com elle. O padre despediu-se do coronel e foi para os abarracamentos. Nem um dia faltava áquella tarefa diaria, ardua, porém voluntaria. Ignacio da Paixão veio com a filha morar em casa de Freitas . Josepha recebeu Maria como se fosse sua filha. Ácreança não faltavam cuidados e desvelos, mas tudo isso apenas lhe minorava os soffrimentos. As ulceras atonicas, e algumas de grandes dimensões, provavam o estado de discrasia profunda em que se achava o sangue. Os labios lividos, as faces de uma côr terrea, indicavam a pobreza de globulos vermelhos na seiva d'aquelle organismo, que definhava ámingua de elementos vitaes . Ignacio da Paixão receiava perder a filha ; chamou um medico, que prescreveu-lhe uma medicação tonica e reconstituinte, a par de uma alimentação apropriada a levantar as forças da doente. Entretanto aquel-
celebrare fossem Carolina ara mim abar diaria re filha tado er هلا
le estado continuava, a atonia progredia e a enferma definhava cada vez mais ! O estomago e intestinos n'uma fadiga morbida rejeitavam os alimentos mais digestiveis, sem que os succos gastricos os atacassem. As ulceras, longe de cicatrizarem, se abriam mais, eram de um livido azulado, e em vez de pús, segregavam uma serosidade viscosa, uma especie de salmoura fetida. Maria estava profundamente anemica. Mesmo em repouso a sua vida era afflictiva. Cançava na posição mais commoda, na mais completa quietação. O sangue havia perdido a densidade e d'ahi os desarranjos penosos no apparelho da circulação. A dyspnéa a affligia. A hematose era incompleta e a vida por isso mesmo era um fardo e pesado. O tedio, o desgosto de tudo faziam a pequena enferma pedir o termo da vida, que começava. Uma manhã Maria disse ao pae que queria morrer. Ignacio consolou-a promettendolhe a saude. A enferma caminhavapara a morte, que se annunciava pelo resfriamento dos membros inferiores. O pae, desalentado, não deixou mais o leito da filha. Á tarde Maria pediu que lhe dessem agua. Deram-lh'a, mas ella não pôde mais beber. Beijou as mãos do pae e morreu. Ignacio da Paixão chorava sem consolo á beira do leito da filha, como á borda de um tumulo em que se houvessem sumido todas as suas esperanças ! Freitas, Josepha, Carolina, a pouca distancia, choravam tambem.
Chegava a hora das saudades, o pôr do sol. As dôres de Ignacio augmentaram as tristezas da Ave Maria, e elle soluçava cada vez mais. Era o remorso que ficava depois do desapparecimento da ultima affeição da terra. Era a angustia que esmagava-lhe o coração n'uma tribulação infrene ! Á noite, depois de accesas as velas mortuarias, Ignacio pediu aos parentes que fossem descançar, que elle guardaria o corpo da filha. Sentado ao lado do cadaver, com o olhar fito nas velas, que ardiam, o infeliz pae cavava o passado, cada vez mais horrorisado de si. Já se tinham passado mais de dois terços da noite, nem um pensamento tivera que não fosse mau, nem uma idéa lhe surgira que não fosse um desalento ! Era preciso um castigo á sua falta- o abandono da familia. Pensava nos erros do passado quando Filippa entrou na camara funebre com passo firme e pausado. Collocou-se em frente de Ignacio tendo de permeio a morta. Levou de pé, immovel, mais de duas horas, depois olhou para Ignacio e perguntou : - Quem é ? - Maria, minha filha. Morta a sua, e a minha vendida ! ... Ajangada ! ... o mar ! ... foge ! ... Filippa havia tido um momento lucido, um raio de luz da razão scintillou por um instante na escuridão pavorosa da enfermidade mental. E depois tudo voltou á irracionalidade, ficou de novo a besta e nada mais.
pôrdosử. stezas da Era orema to da esmagni Smarto ndescue Tharfau ampas ensan he song ma lingan meil As palavras de Filippa abriram na mente de Ignacio um caminho a seguir. Queria um castigo a seu crime e seria elle o resgate de Bernardina, que The custaria, além do dinheiro, os sacrificios de uma viagem longa e talvez penosa. Ao alvorecer do dia Filippa estava ainda de pé e no mesmo logar, e Ignacio cada vez mais triste e acabrunhado. Freitas veio ter com o primo e disse-lhe que ia procurar o padre Clemente para fazer o enterro, e sahiu . O coronel encontrou o sacerdote já de pé e disposto a continuar a tarefa sublime de seu ministerio. Estava pallido e tremulo. O jejum do dia anterior havia sido quasi absoluto ! Apenas tomára a hostia e o vinho do sacrificio ! Não recebera a esportula da missa. Freitas estava admirado da pobreza do padre. Era a primeira vez que ia a casa de Clemente. Communicou-lhe a morte de Maria e pediu-lhe que se encarregasse do enterro. O padre prometteu procural-o logo que voltasse da igreja. O coronel voltou a casa. Ignacio continuava inconsolavel. Clemente, fiel á sua promessa, tratou do enterramento de Maria, e com Ignacio e Freitas acompanhou o cadaver ao cemiterio de S. João Baptista. Ás dez horas damanhã estava tudo consummado. Ignacio quiz remunerar os serviços do padre, mas este recusou a esportula.
Clemente seguiu para o abarracamento ; o coronel e Ignacio voltaram a casa. Ignacio isolou-se triste no seu quarto. Cavava o passado, e agora mais que nunca a consciencia clamava contra seus erros. Tudo o accusava e por cumulo de angustia apparecia mais uma victima, era Manoel da Paciencia. Até então não se tinha lembrado d'elle ; a esposa, os filhos o absorvia todo ! Ignacio estava desalentado. Como reparar o mal causado ao leal servo, caso fosse elle escravo no sul ? Era jánoite e aquelle desgraçado não repousára um segundo ! De angustia em angustia via o tempo passar e vagarosamente, contando os minutos por milhares de idéas tristes e desoladoras . O padre avaliou bem os soffrimentos de Ignacio pelos traços que haviam ficado em sua physionomia. Com o fim de consolal-o procurou-o. Freitas acompanhou-o ao quarto do primo : O snr. padre Clemente vem visital-o, Ignacio, disse o coronel retirando-se. Seja bem vindo, snr. padre, disse Ignacio offerecendo uma cadeira ao sacerdote. Vim procural-o, meu filho, porque comprehendi a enormidade de seu pezar. Nas grandes dôres nós precisamos de conforto, de ter quem nos ajude a triumphar das tribulações do espirito. São os amigos os preferidos n'essas occasiões. Não tenho a felicidade de occupar agora esse logar, mas como indigno apostolo da religião de Christo eu vim procu-
mento; ad to. Carm таериге victima do! Igu rajin ral-o, ao menos para ser seu companheiro nas primeiras horas atribuladas de sua dôr. -Ah ! snr. padre Clemente ! eu não merecia a Deus tão grande favor ! A sua misericordia é infinita e se assim não fosse não enviaria Elle um justo á tenda de um grande culpado ! Ha mais de dois annos que perdi a paz ! Durante esse tempo nem um momento de socego, nem um instante de felicidade ! Eu fui, bem sei, o causador de todos os meus males. O vicio levou-me ao crime, e uma vez perdido descri de tudo . Entretanto na minha adversidade eu alimentava uma esperança, um sentimento bom, voltar á patria e viver para a esposa, para os filhos, que eu havia como um tyranno abandonado ás garras da miseria. Ignacio interrompeu a narração, cobriu o rosto com as mãos e chorou alguns minutos ; depois continuou : A sorte favoreceu-me e voltei á provincia. Errei de palhoça em palhoça, de abarracamento em abarracamento procurando a familia, e sempre o desengano ! Um dia voltava de meu caminhar á tôa quando encontrei a creança a quem v. rev.ma deu sepultura. Era a minha filha mais velha, que cega mendigava pelas ruas. Perguntei-lhe pela mãe, pelos irmãos, tinham morrido das bexigas nos lazaretos do governo ! Acolhi-a, acariciei-a, como o unico laço que me prendia ao mundo, e a esperança que desejava vivesse para minorar os meus pezares, em poucos dias finou-se, e me deixou com-
pletamente orphão de affeições n'este valle de lagrimas . Ella foi viver a vida eterna dos bemaventurados. Deus quiz que passasse por mais essa provação, deve-se submetter aos seus altos juizos. O tempo tudo gasta, snr. padre, matará as saudades dos filhos, virá a resignação ; mas o remorso, que me dilacera a alma, como extinguil-o, como dominal-o ? Uma das minhas victimas talvez a esta hora nas senzalas do paulista me amaldiçõe. Era livre, era meu servo fiel e eu á falsa fé o vendi como meu escravo ! Os damnos que causei a esse honrado velho Freitas, que reduzi á penuria, abusando covardemente de sua confiança, poderei reparal-os algum dia ? Ainda a noite passada quando guardava o corpo de minha filha, a louca Filippa aproximou-se de mim e perguntou-me de quem era o cadaver ; respondilhe e então disse-me : « Sua filha morta e a minha vendida ! » As palavras da infeliz mãe feriram-me o coração como um punhal. Diga-me, snr. padre Clemente, se eu poderei ter mais paz n'este mundo? -Não se considere perdido, meu filho ; Deus perdõa sempre que nos arrependemos. E fôra incompativel com sua misericordia negar perdão ao arrependido. O homem é susceptivel de regeneração, e se assim não fosse, muito pequeno seria o numero dos virtuosos . Todos nós cahimos e ainda cahem mais os que se julgam perfeitos. Póde-se rehabilitar perante Deus e a sociedade dos bons. Nunca se julgue forte,
AT considere-se sempre fraco, evite quanto possivel as occasiões, temendo a sua fraqueza, e se não quizer cahir, nunca ponha em prova a sua virtude. Peça a Deus perdão das faltas que commetteu contra sua esposa e filhos; procure restituir a liberdade a seu servo, a quem pedirá a absolvição do crime que commetteu contra a liberdade d'elle. Não se envergonhe de se prostrar aos pés do seu creado uma vez que o tenha offendido . -Ah! snr. padre, quão suave é o conselho de um justo ! Ha pouco tempo só havia para mim o desespero com seu innumero cortejo de allucinações ! As suas sabias palavras abriram á minha fronte um mundo novo, um mundo onde ha probabilidade de encontrar uma esperança que me alimente a vida. Cumprirei religiosamente o que me acaba de aconselhar. Partirei no primeiro paquete para o sul, e tenho fé que Deus me ajudará a saldar todas as minhas dividas. Ignacio levantou-se e commovido beijou a mão do padre. - Adeus, meu filho, Deus o acompanhe.
EPILOGO I Começava o anno de 1880 e com elle nascia uma esperança, que o povo cearense, acossado pela sécca, procurava alentar. O governo continuava a soccorrer os famintos, mais pela magnanimidade do imperador do que em observancia á lei constitucional do imperio. O espirito publico se impressionava com a continuação da calamidade e nas altas regiões officiaes a desconfiança era tal, e a falta de patriotismo dos representantes da provincia, tão grande, que um ministro da corôa, por abuso de mando, chegou a suspender por decreto os soccorros publicos ! É que á côrte só chegavam noticias de furtos mesquinhos de alguns commissarios delapidadores e ficavam no esquecimento os serviços de outros, que, *
sem remuneração alguma, sacrificavam saude e fortuna, e eram, por cumulo de injustiça, nivelados com os maus cearenses, que defraudavam o estado. Os sacrificios do governo eram grandes, é verdade ; quarenta mil contos se tinham gasto em alimentar os famintos, mas a fome no Ceará era uma realidade medonha e não uma farça, como levianamente no parlamento affirmavam alguns senadores ! E que bofetadas infamantes na face de um povo que havia ficado indigente, não pela indolencia, pela ociosidade, pelo vicio, mas na lucta com um flagello contra o qual se nullificavam a energia humana, os meios mais fortes de acção ! Quarenta mil contos já se haviam gasto e a sêcca ainda continuava ! O administrador da provincia, delegado de um governo que já de muito má vontade atirava a esmola ao faminto, elle que havia mais de dois annos, palpava dia e noite as grandes feridas abertas no peito dos heroes de 24 DE MAIO, temendo a suspensão dos soccorros publicos, cujo resultado seria o aniquilamento de toda a população indigente, ou aguerra civil, tendo como causa a lucta pela vida, ordenou a internação dos retirantes. Fazel-os voltar quando não havia um signal de inverno, era temeridade inaudita ! Só por um presentimento, pois o calculo, a sciencia, o estudo eram nullos quanto á previsão de mudança da estação, se podia explicar a medida desesperada do governo !
of aramsandei justija, nik frandaran randesére astoenla ieraun 10levian senales unperi Os retirantes alegres se preparavam para voltar aos lares queridos da infancia. A floresta tocada de morte, os rios sem uma gotta d'agua, e entretanto elles acreditavam estar muito proxima a aurora da salvação. Não se illudiram ! O dia 14 de março veio realisar os seus presentimentos. Logo ao amanhecer o trovão ribombou no espaço e chuva copiosa lavou a terra ! Os alisios emmudeceram e o norte franco impellia as nuvens para o sul. Seria uma illusão, que se transformaria em breve n'uma realidade crudelissima, ou a paz que se annunciava ás victimas do flagello, trazendo o bemfazejo inverno, o fertilisador dos campos ! Nos abarracamentos, que alegria nos famintos ! Humilhados pela ração, insultados por alguns grandes do paiz, olham fortalecidos e esperançosos para anova época que surge, e longe de ficar, como tinham agoirado alguns senadores levianos em pleno parlamento, feitos cães de monturo, comendo migalhas de carne sécca pôdre e farinha derrancada, partem felizes, porque os espera a independencia do trabalho.
O contentamento havia chegado tambem á tenda de Freitas. O coronel ouvia contente salvar o festival dos elementos, a artilheria do espaço. Queria tambem voltar, mas Edmundo não chegava ! Nem uma noticia sua em mais de dois mezes!
Carolina definhava todos os dias. A idéa de uma desgraça não a deixava. Tinham-se mudado da casa offerecida pelo padre Clemente e moravam á rua Formosa. Freitas sentiu-se forte. A atonia da dependencia havia desapparecido. Olhava para os dias idos, como o convalescente para o tempo em que gemeu no leito da doença. Voltou-lhe a energia de outr'ora. O inverno continuava copioso das praias ao sertão. Freitas embevecido passava contemplando horas inteiras as saudosas tristezas do espaço coberto de nuvens pardacentes, os cumulos acastellados no horisonte, como fortalezas de gesso . O dia fatal tinha chegado ; era o dia 19 de março ! Para mais fortalecer a crença dos retirantes, foi de completo inverno. A chuva foi uma só de manhã á noite ; as nuvens carregadas de electricidade chocaram-se no espaço por sobre toda a provincia ! Era uma tortura para Freitas continuar na Fortaleza. Todos os dias via passar os companheiros para o sertão e elle a ficar ! Uma manhã sahiu a passeio e ouviu lêr nos jornaes do dia as noticias chegadas do interior. Eram por demais lisongeiras ; os campos verdes, os rios cheios, as lagoas e açudes a vasar e em breve a abastança por toda a parte. Não se conteve mais, voltou a casa e communicou a Josepha o seu plano de viagem que se effectuaria no dia se guinte. Sua mulher fez-lhe vêr a necessidade de esperarem a volta de Edmundo, mas isso não o demo-
éa de elopak pendants St veu de seu proposito. Seguiriam pela estradade ferro de Baturité até Canôa, estação terminal e inaugurada, havia seis dias. Ao amanhecer, quando Freitas e a familia sahiam para tomar o trem, encontraram Edmundo, que chegára havia poucas horas. Estava forte e robusto. Carolina não pôde occultar o contentamento que The causou tão agradavel surpreza. Adiaram a viagem. Edmundo contou o perigo em que estivera e a resolução de voltar de Canindé, temendo o regresso de Freitas. O dia 30 de março foi marcado para a realisação do casamento, e o coronel com o noivo procuraram a casa do padre Clemente. brar. O sacerdote estava na igreja; tinha ido cele Constantino os recebeu com respeito . Freitas não cessava de admirar a pobreza da habitação do padre. Entre os objectos que estavam na sala, não havia um que não fosse pauperrimo ! Acostumado a frequentar os vigarios do sertão, amadores dos gozos da vida, o coronel não comprehendia como Clemente se sujeitava voluntariamente a viver assim . Não sabia da vida do padre ; conheceu-o nas horas mais angustiosas da vida e d'elle só tinha ouvido até então conselhos e consolação. Era a segunda vez que visitava o sacerdote e agora mais detidamente observava tudo que o cercava.
Freitas não pôde dominar a sua curiosidade e interrogou Constantino, que discretamente guardava distancia : Perdûe a indiscrição, meu velho. É por economia que o padre Clemente goza tão pouco dos bens da vida ? Elle nada possue, senhor. Herdou fortuna e nunca teve mais que os gozos d'esta pobreza. Repartiu com os necessitados o que tinha; elles foram os legitimos herdeiros dos bens que lhe deixaram seus paes. Sempre viveu como vive das esportulas dos fieis e d'estas mesmas, senhor, quantos dias mal chegam para comermos uma vez ! ... Porque ellas são distribuidas tambem com os desralidos . O padre entrou e Constantino_calou-se. Freitas e Edmundo estavam surprehendidos de tanta virtude. Foram ao encontro de Clemente, e o coronel, por uma d'essas emoções que não se podem dominar, tomou a mão do padre e beijou-a com toda a veneração . - Bom dia, coronel ! ... Snr. Edmundo ! E abraçou o noivo. Mais um favor, snr. padre : quero realisar o casamento de Carolina no dia 30 e venho pedir-lhe o seu valioso auxilio . Os meus fracos serviços estão á sua disposição, coronel. Adoeci em caminho e não pude continuar a viagem e d'ahi a falta das certidões de idade.
: apita inha: e das A camara ecclesiastica aceita justificações, disse Clemente. Vamos dal-as então, e a v. rev.ma communicaremos o resultado, disse Freitas. Ámanhã os acompanharei á secretaria do bispado. Freitas e Edmundo agradecidos se despediram de Clemente e sahiram. }
II Era o dia das nupcias. Ás 7 horas da manhã a fortaleza de Nossa Senhora da Assumpção annunciava com um tiro de peça a chegada do paquete do sul, e uma hora depois os passageiros desembarcavam em jangadas que, com as velas latinas enfunadas, corriam ligeiras com todos os ventos. Entre os passageiros vinha Ignacio da Paixão acompanhado de uma rapariga de côr preta. Era Bernardina, a filha de Filippa. Chegando a terra, Ignacio dirigiu-se a casa de Clemente. O padre, havia pouco tempo, voltára da igreja. -Snr. Ignacio ! -Snr. padre Clemente ! E abraçaram-se.
As minhas dividas estão quasi todas pagas. Me foi difficil seguir os conselhos de v. rev.ma, mas observei-os tanto quanto humanamente era possivel. Consistia a primeira difficuldade em saber quem na corte era o correspondente do commendador Prisco da Trindade. Era preciso ir ter com elle, mas como, se eu havia commettido em sua casaum grande crime? Para a realisação de meu plano era imprescindivel conferenciar com elle. Resolvi arriscar a minhaliberdade, disfarcei-me quanto pude e apresentei-me em seu palacete. Achei o commendador mais velho, mais rico e mais infeliz. Carregava uma cruz pesadissima, sua mulher estava histerica. Mudei de nome e pedi que me désse um saque de duzentos mil reis para a corte. Dei o dinheiro e recebi uma letra contra Taveira, Cunha & C.ª Prisco não me conheceu. Me seria facil descobrir os escravos. Embarquei para a corte dizendo a Manoel de Freitas que ia viajar, ia procurar a convalescença do espirito. Chegando á praça do Rio de Janeiro, fui ter com os traficantes, e, antes de receber o saque, indaguei do paradeiro de Bernardina; consultaram o registro e me disseram ser ella escrava emuma fazendade Campinas. Por Manoel da Paciencia não foi preciso perguntar, me contaram elles o logro que havia soffrido o commendador. Alentei-me mais. Pedi-lhes que me informassem sobre o escravo Sebastião; eu queria saber se deveria indemnisar Prisco ou Freitas. Examinados os livros Sebastião estava tambem em S. Paulo e fôra vendido por um conto e oitocentos mil reis. A molestia havia sido
Pris todaspag pretexto para depreciar a mercadoria. Parti para Campinas e fui ter á fazenda onde Bernardina era escrava. Ah ! snr. padre, apertou-se-me o coração diante do quadro que vi ! Era horrivel e repugnante ! Aperversidade humana ahi fazia ostentação. Escravos e escravas sómente de tanga no trabalho, vigiados por uma fera domesticada chamada-feitor que, por qualquer segundo de repouso, dava-lhes barbaras vergastadas, lembrando-lhes assim que elles não tinham o direito de cançar ! E os desgraçados nem uma palavra, nem uma queixa, temendo a gargalheira, o tronco, o carro ! Pedi uma conferencia ao fazendeiro e fui levado á sua presença. Recebeu-me como se elle fosse de melhor barro ou de especie superior. Moço formado, porém tôlo e presumido, uma d'essas creaturas filhas de paes ricos e vaidosos, de ingenuos que acreditam que um pergaminho na familia augmentava-lhe o merito e o respeito. Era doutor e por isso os nescios dos parentes e visinhos acatavam sua opinião como infallivel. A falta de intelligencia augmentava-lhe a presumpção. Não me mandou sentar. Disse-lhe a que ia, e entramos em negociação. Attendeu-me melhor depois que viu que, além de um conto e quinhentos mil reis que dei-lhe pela carta de liberdade de Bernardina, me ficavam ainda algumas notas do thesouro ; fez-me sentar, mostrou-me os dentes e offereceu-me hospedagem. Recusei o agasalho em seu palacete luxuoso ; aquella opulencia representava annos de fadiga, de dôres de milhares de desherdados da fortuna. Voltei com a liberta á côrte F
e d'ahi á Fortaleza. Eis, snr. padre Clemente, o que se passou depois que deixei de vêl-o. Fizeste o teu dever, meu filho. -Vou a casa de Freitas. - Hoje casa-se Edmundo com Carolina. A que horas, snr. padre? Ás cinco da tarde na igreja do Rosario. Então permitti que fique em vossa casa até aquella hora. Quero-lhes fazer a surpreza depois do casamento. A casa é sua, meu filho. Esteja á vontade, eu vou aos abarracamentos. E Clemente sahiu. Era o dia de nupcias. Em casa de Freitas os preparativos do casamento absorviam todos. Carolina sentia em si um mixto de prazer e tristeza; entregava-se a mil pensamentos. Filippa, taciturna, passavapor todos sem vel-os, ouvia-os e não os entendia. Áhora marcada, Edmundo, acompanhadodas testemunhas, se dirigiu a casa de Freitas. Esperava-o já a noiva sentada ao lado dos paes na sala de visita. Carolina estava formosa. Trajava um vestido de cambraia branca, fina, transparente, simples, mas bem acabado. Emmoldurava-lhe o rosto oval o véo de linho e cingia-lhe a fronte a grinalda de flores de laranjeira porsobre o sombreado do véo nos cabellos louros.
di re Clement Tho. Carolina do Rosari FUSS prezad aávan Edmundo apertou a mão da noiva; e o prestito se dirigiu para a igreja. O padre Clemente minutos depois dava a benção nupcial aos noivos e os acompanhava á casa de Freitas. Ignacio da Paixão assistiu sem ser visto ao casamento. Logo que suppoz os noivos em casa, se dirigiu com Bernardina á residencia do coronel. A pequena sala, aberta e illuminada, estava em festa. Os noivos estavam sentados no sofá, tendo o padre Clemente á direita e as testemunhas á esquerda. Ignacio entrou com Bernardina e se dirigiu aos noivos. A liberta beijou a mão de Carolina, que a abraçou, e choraram juntas. Freitas e Josepha saudaram Ignacio e indagaram como elle fizera aquella resurreição. - Libertei-a, e venho restituil-a á mãe. Filippa estava sentada no pequeno corredor. Ignacio foi ter com ella e trouxe-a á sala. Era geral o silencio. Todos fitavam a louca e esperavam. Ignacio deixou-a de pé, no centro da sala e disse a Bernardina : do. Tua mãe ! ... A rapariga correu para ella e abraçou-a choran Filippa olhou-a e disse :
Omar ! ... ajangada ! ... foge! ... o homem ! ... -Que ! minha mãe, não me conhece ? Bernardina, sua filha. Filippa segurou no rosto da filha como examinando-lhe as feições, murmurou ainda palavras imperceptiveis, e depois, abraçando-a com consciencia, exclamou : Minha filha ! ... Ah ! Deus misericordioso e justo ! ... E um abraço longo, estreito, aproximou aquelles corações que a injustiça dos homens havia separado e torturado tanto ! Todos estavam commovidos. Filippa, ainda aturdida pela emoção, olha tudo que a cerca e reconhece os antigos senhores. A commoção foi violenta e a nevrose atirou-a ao chão, forte como nunca. Instantes depois a vida cedia o seu logar á morte, e Filippa succumbia victima de uma hemorrhagia cerebral . O padre Clemente mal teve tempo de dar-lhe a absolvição, tão violento foi o ataque. O quadro que se apresentavacom todos os esplendores das alegrias e das esperanças, cobriu-sedeluto! Foi elle a cópia viva das felicidades da terra:-risos e lagrimas. Aquella tela, havia pouco tempo, era a encarnação do prazer, a mocidade em frente de ummundo de gozos. Agora um cadaver e as tristezasda morte. A noite de nupcias passaram os noivos, testemu-
TENCIOTEA miseniorkes nhas, convidados e o padre Clemente guardando o corpo da morta. Pela manhã se fez o enterro á custa do coronel, e no dia seguinte no trem de seis horas da manhã tomavam passagem para Canoa, Manoel de Freitas, Ignacio da Paixão, Josepha e Bernardina. Deixavam a Fortaleza, ouvindo como despedida do padre Clemente, que os acompanhou á estação, as seguintes palavras : Em homenagem a Deus, aos favores d'Elle recebidos, meus filhos, quando chegardes á vossa terra, se tiverdes inimigos, perdoai-lhes, aos fracos, protegei, e Deus será comvosco. Adeus. Ca FIM
Leia gratuitamente A Fome, de Rodolfo Teófilo, romance naturalista brasileiro em domínio público sobre a seca de 1877 no Ceará. Esta edição digital do Literunico foi preparada a partir da digitalização do Google Books/Princeton University da edição de 1890, organizada nos três blocos originais em HTML, com leitura online, capa nova no padrão Literunico, busca, redes sociais e pesquisa por IA.
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