Leia agora
S. Bernardo

Universo da obra

S. Bernardo

Capítulo 31 · S. Bernardo

Capítulo XXXI

31 de 36 ≈ 14 min de leitura

Uma tarde subi à torre da igreja e fui ver Marciano procurar corujas. Algumas se haviam alojado no forro, e à noite era cada pio de rebentar os ouvidos da gente. Eu desejava assistir à extinção daquelas aves amaldiçoadas. Lá de cima escutava o barulho que Marciano, invisível, fazia. E, pelas quatro janelinhas abertas aos quatro cantos do céu, contemplava a paisagem. Por uma delas via embaixo um pedaço do escritório, uma banca e, sentada à banca, minha mulher escrevendo. Com um ligeiro desvio de olhos, afastava a cena familiar e corriqueira, divisava o oitão da casa, portas, janelas, a cama de d. Glória, um canto da sala de jantar. Levantava a cabeça — e o horizonte compunha-se de telhas, argamassa, lambrequins. Mais para cima, campos, serra, nuvens. O capim-gordura tinha virado grama, e os bois que pastavam nele eram como brinquedos de celuloide. O algodoal galgava colinas, descia, tornava a mostrar-se mais longe, desbotado. Numa clareira da mata escura, quase negra, desmaiavam na sombra figurinhas de lenhadores. Uma coruja gritava. E Marciano surgia de esconderijos cheios de treva, o pixaim branco de teias de aranha: — Mais uma. É um corujão da peste, seu Paulo. Eu fungava: — Em que estará pensando aquela burra? Escrevendo. Que estupidez! Rosa do Marciano atravessava o riacho. Erguia as saias até a cintura. Depois que passava o lugar mais fundo, ia baixando as saias. Alcançava a margem, ficava um instante de pernas abertas, escorrendo água, e saía torcendo-se, com um remeleixo de bunda que era mesmo uma tentação. A distância arredondava e o sol dourava cocurutos de montes. Pareciam extraordinárias cabeças de santos. — Se aquela mosca-morta prestasse e tivesse juízo, estaria aqui aproveitando esta catervagem de belezas. Ali pelos cafus desci as escadas, bastante satisfeito. Apesar de ser um indivíduo medianamente impressionável, convenci-me de que este mundo não é mau. Quinze metros acima do solo, experimentamos a vaga sensação de ter crescido quinze metros. E quando, assim

agigantados, vemos rebanhos numerosos a nossos pés, plantações estirando-se por terras largas, tudo nosso, e avistamos a fumaça que se eleva de casas nossas, onde vive gente que nos teme, respeita e talvez até nos ame, porque depende de nós, uma grande serenidade nos envolve. Sentimo-nos bons, sentimo-nos fortes. E se há ali perto inimigos morrendo, sejam embora inimigos de pouca monta que um moleque devasta a cacete, a convicção que temos da nossa fortaleza torna-se estável e aumenta. Diante disto, uma boneca traçando linhas invisíveis num papel apenas visível merece pequena consideração. Desci, pois, as escadas em paz com Deus e com os homens, e esperava que aqueles pios infames me deixassem enfim tranquilo. Matutando, penetrei no jardim e encaminhei-me ao pomar, fazendo tenção de ver se a poda estava em regra. Defronte do escritório descobri no chão uma folha de prosa, com certeza trazida pelo vento. Apanhei-a e corri a vista, sem interesse, pela bonita letra redonda de Madalena. Francamente, não entendi. Encontrei diversas palavras desconhecidas, outras conhecidas de vista, e a disposição delas, terrivelmente atrapalhada, muito me dificultava a compreensão. Talvez aquilo fosse bem feito, pois minha mulher sabia gramática por baixo da água e era fecunda em riscos e entrelinhas, mas estavam riscados períodos certos, e em vão tentei justificar as emendas. — Ocultar com artifícios o que deve ser evidente! Passeando entre as laranjeiras, esqueci a poda, reli o papel e agadanhei ideias indefinidas que se baralharam, mas que me trouxeram um arrepio. Diabo! Aquilo era trecho de carta, e de carta a homem. Não estava lá o nome do destinatário, faltava o princípio, mas era carta a homem, sem dúvida. Li a folha pela terceira vez, atordoado, detendo-me nas expressões claras e procurando adivinhar a significação dos termos obscuros. — Está aqui a prova, balbuciei assombrado. A quem serão dirigidas estas porcarias? As suspeitas voaram para cima de João Nogueira, do dr. Magalhães, de Azevedo Gondim, do Silveira da escola normal. Reli a carta um pelotão de vezes, e enquanto lia, praguejava como um condenado, e as fontes me latejavam. Afinal a noite caiu, não enxerguei mais as letras.

Sim senhor! Carta a homem! Estive um tempão caminhando debaixo das fruteiras. — Eu sou algum Marciano, bando de filhos das putas? E voltei furioso, decidido a acabar depressa com aquela infelicidade. Zumbiam-me os ouvidos, dançavam-me listras vermelhas diante dos olhos. Ia tão cego que bati com as ventas em Madalena, que saía da igreja. — Meia-volta, gritei segurando-lhe um braço. Temos negócio. — Ainda? perguntou Madalena. E deixou-se levar para a escuridão da sacristia. Acendi uma vela e, encostando-me à mesa carregada de santos, sobre o estrado onde padre Silvestre se paramenta em dias de missa: — Que estava fazendo aqui? Rezando? É capaz de dizer que estava rezando. — Ainda? repetiu Madalena. Esperei que ela me sacudisse desaforos, mas enganei-me: pôs-se a observar-me como se me quisesse comer com os olhos muito abertos. Ferviam dentro de mim violências desmedidas. As minhas mãos tremiam, agitavam-se em direção a Madalena. Apertei-as para conter os movimentos e, com os queixos contraídos: — A senhora escreveu uma carta. O vento frio da serra entrava pela janela, mordia-me as orelhas, e eu sentia calor. A porta gemia, de quando em quando dava no batente pancadas coléricas, depois continuava a gemer. Aquilo me irritava, mas não me veio a ideia de fechá-la. Madalena estava como se não ouvisse nada. E eu, dirigindo-me a ela e a uma litografia pendurada à parede: — Cuidam que isto vai ficar assim? O pequeno mais velho do Marciano entrou nas pontas dos pés. Sem me voltar para ele, bradei: — Vai-te embora. O menino aproximou-se da janela. — Vai-te embora, berrei de novo. Provavelmente o meu aspecto lhe causou estranheza. Balbuciou: — Fechar a igreja, seu Paulo. Percebi que os meus modos eram desarrazoados e respondi com simulada brandura:

— Perfeitamente. Volta mais tarde, ainda é cedo. Nove horas no relógio da sacristia. O nordeste começou a soprar, e a porta bateu com fúria. Mergulhei os dedos nos cabelos. — Que estás fazendo, peste? O cabrito fugiu. Nem sei quanto tempo estive ali, em pé. A minha raiva se transformava em angústia, a angústia se transformava em cansaço. — Para quem era a carta? E olhava alternadamente Madalena e os santos do oratório. Os santos não sabiam, Madalena não quis responder. O que me espantava era a tranquilidade que havia no rosto dela. Eu tinha chegado fervendo, projetando matá-la. Podia viver com a autora de semelhante maroteira? À medida, porém, que as horas se passavam, sentia-me cair num estado de perplexidade e covardia. As imagens de gesso não se importavam com a minha aflição. E Madalena tinha quase a impassibilidade delas. Por que estaria assim tão calma? Afirmei a mim mesmo que matá-la era ação justa. Para que deixar viva mulher tão cheia de culpa? Quando ela morresse, eu lhe perdoaria os defeitos. As minhas mãos contraíam-se, moviam-se para ela, mas agora as contrações eram fracas e espaçadas. — Fale, exclamei com voz mal segura. — Para quê? — Há uma carta. Eu preciso saber, compreende? Meti a mão no bolso e apresentei-lhe a folha, já amarrotada e suja. Madalena estendeu-a sobre a mesa, examinou-a, afastou-a para um lado. — Então? — Já li. A vela acabou-se. Acendi outra e fiquei com o fósforo entre os dedos até queimar-me. — Diga alguma coisa. Pareceu-me que havia ali um equívoco e que, se Madalena quisesse, tudo se esclareceria. O coração dava-me coices desesperados, desejei

doidamente convencer-me da inocência dela. — Para quê? murmurou Madalena. Há três anos vivemos uma vida horrível. Quando procuramos entender-nos, já temos a certeza de que acabamos brigando. — Mas a carta? Madalena apanhou o papel, dobrou-o e entregou-mo: — O resto está no escritório, na minha banca. Provavelmente esta folha voou para o jardim quando eu escrevi. — A quem? — Você verá. Está em cima da banca. Não é caso para barulho. Você verá. — Bem. Respirei. Que fadiga! — Você me perdoa os desgostos que lhe dei, Paulo? — Julgo que tive as minhas razões. — Não se trata disso. Perdoa? Rosnei um monossílabo. — O que estragou tudo foi esse ciúme, Paulo. Palavras de arrependimento vieram-me à boca. Engoli-as, forçado por um orgulho estúpido. Muitas vezes por falta de um grito se perde uma boiada. — Seja amigo de minha tia, Paulo. Quando desaparecer essa quizília, você reconhecerá que ela é boa pessoa. Eu era tão bruto com a pobre da velha! — Consequência desse mal-entendido. Ela também tem culpa. Um bocado ranzinza. — Seu Ribeiro é trabalhador e honesto, você não acha? — Acho. Antigamente deu cartas e jogou de mão. Hoje é refugo. Um sujeito decente, coitado. — E o Padilha... — Ah! não! Um enredeiro. Nem está direito você torcer por ele. Safadíssimo. — Paciência! O Marciano... Você é rigoroso com o Marciano, Paulo. — Ora essa! exclamei enfadado. Que rosário! — Não se zangue, disse Madalena sem erguer a voz.

— O que eu queria... Sentei-me num banco. O que eu queria era que ela me livrasse daquelas dúvidas. — Que é que você queria? perguntou Madalena sentando-se também. — Sei lá! E encolhi-me, as mãos pesadas sobre os joelhos. Madalena, com ar meio sério, meio de brincadeira: — Se eu morrer de repente... — Que história é essa, mulher? Lembrança fora de propósito. — Por que não? Quem sabe qual há de ser o meu fim? Se eu morrer de repente... — Acabe com isso, criatura. Para que falar nessas coisas? — Ofereça os meus vestidos à família de mestre Caetano e à Rosa. Distribua os livros com seu Ribeiro, o Padilha e o Gondim. Levantei-me, impaciente: — Que conversa sem jeito! E agarrei-me a um assunto agradável para afugentar aquelas ideias tristes: — Estou com vontade de viajar. Sentei-me novamente, animei-me, acendi um cigarro: — Depois da safra. Deixo seu Ribeiro tomando conta da fazenda. Vamos à Bahia. Ou ao Rio. O Rio é melhor. Passamos uns meses descansando, você cura a macacoa do estômago, engorda e se distrai. É bom a gente arejar. A vida inteira neste buraco, trabalhando como negro! E damos um salto a São Paulo. Valeu? Madalena, olhando a luz, que tremia, agitando sombras nas paredes, saiu-se com esta: — Hoje pela manhã já havia na mata alguns paus-d’arco com flores. Contei uns quatro. Daqui a uma semana estão lindos. É pena que as flores caiam tão depressa. — Efetivamente, resmunguei procurando relacionar o Rio e São Paulo com os paus-d’arco. E que me diz da viagem? Madalena tinha os olhos presos na vela: — Sim, estive rezando. Rezando, propriamente, não, que rezar não sei. Falta de tempo.

Meu Deus! como andava aquela cabeça! Era a resposta à minha primeira pergunta. — Escrevia tanto que os dedos adormeciam. Letras miudinhas, para economizar papel. Nas vésperas dos exames dormia duas, três horas por noite. Não tinha proteção, compreende? Além de tudo a nossa casa na Levada era úmida e fria. No inverno levava os livros para a cozinha. Podia visitar igrejas? Estudar sempre, sempre, com medo das reprovações... Estava perturbada, via-se perfeitamente que estava perturbada. Largou outras incoerências: — As casas dos moradores, lá embaixo, também são úmidas e frias. É uma tristeza. Estive rezando por eles. Por vocês todos. Rezando... Estive falando só. O relógio da sacristia tocou meia-noite. — Meu Deus! Já tão tarde! Aqui, tagarelando... Levantou-se e pôs-me a mão no ombro: — Adeus, Paulo. Vou descansar. Voltou-se da porta: — Esqueça as raivas, Paulo. Por que não acompanhei a pobrezinha? Nem sei. Porque guardava um resto de dignidade besta. Porque ela não me convidou. Porque me invadiu uma grande preguiça. Fiquei remoendo as palavras desconexas e os modos esquisitos de Madalena. Depois pensei na carta que ela havia deixado no escritório, incompleta. Para quem seria? Lá vinha novamente o ciúme. Aquilo ainda causaria infelicidades sem remédio. Pouco a pouco me fui amadornando, até cair num sono embrulhado e penoso. Creio que sonhei com rios cheios e atoleiros. Quando dei acordo de mim, a vela estava apagada e o luar, que eu não tinha visto nascer, entrava pela janela. A porta continuava a ranger, o nordeste atirava para dentro da sacristia folhas secas, que farfalhavam no chão de ladrilhos brancos e pretos. O relógio tinha parado, mas julgo que dormi horas. Galos cantaram, a lua deitou-se, o vento se cansou de gritar à toa e a luz da madrugada veio brincar com as imagens do oratório.

Ergui-me, o espinhaço doído da posição incômoda. Estirei os braços. Moído, como se tivesse levado uma surra. Saí, dirigi-me ao curral, bebi um copo de leite. Conversei um instante com Marciano sobre as corujas. Em seguida fui passear no pátio, esperando que o dia clareasse de todo. Realmente a mata, enfeitada de paus-d’arco, estava uma beleza. Três anos de casado. Fazia exatamente um ano que tinha começado o diabo do ciúme. A serraria apitou; as suíças de seu Ribeiro surgiram a uma janela; Maria das Dores abriu as portas; Casimiro Lopes apareceu com uma braçada de hortaliças. Desci ao açude. Derreado, as cadeiras doendo. Que noite! Despi-me entre as bananeiras, meti-me na água, mergulhei e nadei. Quando cheguei a casa, o sol já estava alto. O espinhaço ainda me doía. Que noite! Subindo os degraus da calçada, ouvi gritos horríveis lá dentro. — Que diabo de chamego é este? Entrei apressado, atravessei o corredor do lado direito e no meu quarto dei com algumas pessoas soltando exclamações. Arredei-as e estaquei: Madalena estava estirada na cama, branca, de olhos vidrados, espuma nos cantos da boca. Aproximei-me, tomei-lhe as mãos, duras e frias, toquei-lhe o coração, parado. Parado. No soalho havia manchas de líquido e cacos de vidro. D. Glória, caída no tapete, soluçava, estrebuchando. A ama, com a criança nos braços, choramigava. Maria das Dores gemia. Comecei a friccionar as mãos de Madalena, tentando reanimá-la. E balbuciava: — A Deus nada é impossível. Era uma frase ouvida no campo, dias antes, e que me voltava, oferecendo-me esperança absurda. Pus um espelho diante da boca de Madalena, levantei-lhe as pálpebras. E repetia maquinalmente: — A Deus nada é impossível. — Que desastre, senhor Paulo Honório, que irreparável desastre! murmurou seu Ribeiro perto de mim.

E Padilha, encolhido por detrás dele: — Num momento como este a minha obrigação era vir. — Agradecido, muito agradecido. E encaminhei-me ao escritório, levado pelo hábito, murmurando sempre: — A Deus nada é impossível. Sobre a banca de Madalena estava o envelope de que ela me havia falado. Abri-o. Era uma carta extensa em que se despedia de mim. Li-a, saltando pedaços e naturalmente compreendendo pela metade, porque topava a cada passo aqueles palavrões que a minha ignorância evita. Faltava uma página: exatamente a que eu trazia na carteira, entre faturas de cimento e orações contra maleitas que a Rosa anos atrás me havia oferecido.

S. Bernardo

Sinopse

Leia gratuitamente S. Bernardo, de Graciliano Ramos, romance fundamental do modernismo brasileiro em domínio público. Edição digital preparada a partir da transcrição pública do Wikisource/Galeria e cotejada com os fac-símiles BBM/USP de 1934 e 1947, organizada em 36 capítulos para leitura online, busca, redes sociais e pesquisa por IA.

S. Bernardo

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

S. Bernardo

Trilha sonora oficial

Uma seleção criada para acompanhar a atmosfera, os personagens e os caminhos desta obra.

Abrir no Spotify
Ir para o carrinho
Mercado de S. Bernardo

Leve um fragmento deste universo

Escolha a arte, confira a disponibilidade e adicione o produto ao carrinho sem sair da experiência.

Nenhum livro físico está disponível neste universo.
Relíquias da Obra

Adquira Relíquias da Obra e deixe sua marca registrada, criando valor ao item!

Aguardando Aprovação do Autor
Aguardando grupo autoral S. Bernardo Escolha uma Relíquia e envie uma proposta de aquisição, mesmo antes da ativação.
100Relíquias
0Titulares
0 Passagens
Central de RelíquiasDescubra coleções de outros universos e obras.
ver todas
Capítulo 31 carregado no app · 1 livro conectado 1/1
Abrir leitor completo

Capítulos disponíveis para continuar a leitura.

Capítulos de S. Bernardo

Todos os capítulos 36 disponíveis

Donos de Relíquias

0 titulares

Nenhuma Relíquia desta obra foi adquirida ainda. Seja o primeiro a eternizar seu nome no acervo oficial!

Conhecer as 100 Relíquias

Resenhas do livro

0 publicadas

Ainda não há resenhas para esta obra. A primeira leitura comentada pode começar aqui.

Entrar para resenhar

Posses do livro

0 Leitores com posse
0 Unidades registradas

Nenhuma posse foi registrada publicamente para esta edição.

Adicionais do Universo

Visual ClássicoAbra a leitura editorial, no estilo de uma página de livro
ler
Visual AuroraApresentação imersiva do universo da obra
abrir